30/06/2009 - 11:08h ”Minha Casa” aquece vendas de segmento popular

“Falávamos em um ano de crescimento zero e agora já temos previsão de crescer 30% a 40%” diz o presidente da PDG Realty, Zeca Grabowsky

Ações de empresas do setor imobiliário e de construção civil já subiram 86%

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Marianna Aragão – O Estado SP

As empresas que atuam no segmento econômico já sentem os efeitos do programa Minha Casa, Minha Vida. “Falávamos em um ano de crescimento zero e agora já temos previsão de crescer 30% a 40%”, diz o presidente da PDG Realty, Zeca Grabowsky. Segundo ele, os efeitos do pacote foram imediatos, uma vez que a empresa já atendia o segmento popular, com a Goldfarb.

A Rossi Residencial também está revendo suas expectativas. “As vendas têm se recuperado mês a mês e pretendemos retomar o caminho dos lançamentos”, afirma o diretor comercial, Leonardo Diniz.

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Setor imobiliário ensaia recuperação

Após um processo de fusões, reestruturação de dívidas e pacotes de estímulo, ações do setor já subiram 86%

Mariana Barbosa – O Estado SP

Depois de puxar a desvalorização na Bovespa no final do ano passado, as empresas do setor imobiliário e de construção civil ensaiam uma recuperação. O Imob, índice que reúne as empresas mais representativas do setor na Bovespa, acumula alta de 86,5% desde o início do ano, contra 38,85% do Ibovespa. O Imob fechou ontem em 572,5 pontos, ainda distante do pico de 996,9 pontos atingido em maio do ano passado, mas deixando para trás o fundo do poço, de 213 pontos, registrado em 21 de novembro do ano passado.

“As más notícias cessaram, mas a dúvida é saber quando virão as boas notícias”, afirma o analistas da Fator Corretora, Eduardo Silveira. Para os analistas, nem mesmo o programa do governo, Minha Casa Minha Vida, que promete uma injeção de R$ 34 bilhões no setor, fará com que as empresas exibam balanços espetaculares este ano. “Não vai ter volume de vendas suficiente para sustentar as megaempresas que as construtoras se transformaram depois das aberturas de capital”, avalia João Rocha Lima Junior, professor do Núcleo de Real Estate da Escola Politécnica da USP.

Uma das estrelas da onda de abertura de capital, o setor levantou algo como R$ 20 bilhões apenas com as ofertas iniciais de ações (IPO). Para Lima Junior, as empresas foram precificadas por um padrão de eficiência muito difícil de alcançar. “Aquela eficiência prometida lá atrás nos prospectos dos IPOs admitia uma relação entre o valor do terreno, o custo das obras e o preço de venda que não vai acontecer”, diz Lima Junior. “Essa precificação do passado virou pó. Ela envolvia uma fantasia de crescimento perene a taxas espetaculares que não aconteceu.”

Para os analistas, porém, a fase mais aguda da crise foi superada com a onda de fusões e aquisições desde o final do ano passado, com operações como a compra da Tenda pela Gafisa e as aquisição da Klabin Segall e da Abyara pela Veremont Participações, em sociedade com a Agra. Com o caixa apertado para as obras e a queda na demanda, as empresas também diminuíram lançamentos e resolveram trabalhar a venda de estoques existentes. “A maior parte dos problemas financeiros foi resolvida”, avalia Silveira. “Agora, as empresa terão de entregar resultados.”

Na avaliação dos analistas, as ações das empresas do setor imobiliário estão hoje em trajetória de alta por duas grandes razões: a queda da taxa de juros e o programa Minha Casa Minha Vida. “Os juros estão caindo e a perspectiva macroeconômica é boa”, afirma Silveira, da Fator.

O pacote habitacional do governo federal, lançado no final de março, deu uma injeção de ânimo para o setor. Mas o mercado está bastante seletivo. Levantamento feito pela Economática mostra que foram as empresas com maior foco no segmento de baixa renda que tiveram maior valorização. Desde o início do ano, as ações da PDG, controladora da Goldfarb, subiram 95%. As da MRV Engenharia, 181%, e as da Tenda, 200%.

Tida como uma das estrelas do momento, a MRV conseguiu captar R$ 722 milhões na Bolsa na semana passada. A Gafisa também pretendia captar outros R$ 700 milhões, mas resolveu adiar a oferta para “quando as condições de mercado estiverem adequadas”. “A Gafisa está com necessidade de caixa no curto prazo, mas o mercado está pedindo um desconto, pois ela é vista como muito dependente do segmento de média e alta renda”, diz Cristiano Hess, analista da Brascan Corretora.

Para tentar aproveitar a demanda pela baixa renda, as empresas estão adequando seus portfólios. “Empresas que sempre tiveram o foco na alta renda, como Cyrela e Gafisa, estão fazendo esforços maiores para a baixa renda”, afirma Hees.

A Cyrela, por exemplo, resolveu dar mais autonomia à subsidiária Living, voltada para empreendimentos mais populares. A Rossi, que começou mais popular e depois se voltou para as rendas média e alta, lançou a marca Ideal, que deve representar até 70% de seus lançamentos este ano. A Gafisa, que adquiriu a Tenda, indicou que a empresa deve responder por mais de 50% das vendas consolidadas do grupo.

22/06/2009 - 14:09h Ambiente macro favorece construção

De Olho na Bolsa

Daniele Camba – VALOR

Processo consistente de queda da taxa de juros, pacote de medidas do governo de estímulo ao setor e déficit habitacional historicamente alto. Esse tripé forma o cenário ideal para o crescimento das construtoras no país e, consequentemente, para suas ações. Depois de sofrerem muito em 2008 com a crise internacional, esses papéis neste ano registram valorizações relevantes, em parte refletindo o terreno fértil para o setor. No ano até sexta-feira, o Índice Imobiliário (Imob), formado pelas ações de maior liquidez das construtoras, acumula alta de 80,07%, mais do que o dobro da valorização de 36,81% do Índice Bovespa no mesmo período.

Alguns papéis registram altas de mais de 100% neste ano. As ações ordinárias (ON, com direito a voto) da Tenda, por exemplo, já subiram 221,55%, as ON da MRV se valorizaram 169,71% e as ON da Helbor, 117,95% . Apesar desse desempenho, a expectativa é que os papéis ainda tenham potencial para novos movimentos de alta. “As ações ainda precisam subir para compensar toda a queda do ano passado; além disso se espera que as construtoras entreguem resultados crescentes neste e nos próximos anos”, diz o sócio da Polo Capital Marcos Duarte.

Os papéis de construtoras tiveram quedas significativas no ano passado. As ON da Tenda caíram 88,68%, as da MRV se desvalorizaram 74,18% e as da Helbor, 75,80%. As ofertas iniciais (IPOs, em inglês) das construtoras ocorreram nos últimos anos, quando o mercado ainda estava no auge, e a grande maioria a preços altos. Os investidores estrangeiros foram os grandes compradores dos papéis. No entanto, com a crise, eles se desfizeram em massa desses ativos, embolsaram os ganhos e voltaram para os seus países.

Neste momento em que a crise parece dar uma trégua, mais uma vez são os investidores internacionais que apostam as fichas no cenário promissor das construtoras. “São eles principalmente que estão comprando as ações, enquanto o brasileiro olhou muito, agiu pouco e agora chupa o dedo vendo o quanto elas já subiram”, diz Duarte. Ele, no entanto, pegou carona com os estrangeiros e colocou nos fundos da Polo ações de dez construtoras que caíram muito e apresentam boas perspectivas. “Comprando um leque de papéis, eu acabo diluindo o risco de possíveis perdas”, diz o gestor. Os fundos da Polo têm hoje entre 4% e 15% do capital social dessas companhias.

Na opinião de Duarte, um dos temores do investidor local é que os ativos, como terrenos e prédios, estejam lançados por valores inflados dentro dos balanços das companhias. No entanto, nos últimos meses, várias construtoras venderam bens pelo valor patrimonial ou acima, o que comprova que os preços nas demonstrações financeiras não eram irreais, explica Duarte.

Juros na veia

Motivos não faltam para imaginar que as construtoras terão anos de crescimento pela frente, mas um dos mais importantes, sem dúvida, é o recente processo de queda da taxa de juros. Uma boa parte da venda de imóveis depende dos financiamentos imobiliários de longo prazo, que são altamente impactados pela baixa da Selic. “Um financiamento de 10 anos, com Taxa Referencial (TR) mais 8% ao ano é algo que nunca tinha se visto e hoje já existe”, lembra o gestor da Polo. O financiamento imobiliário no Brasil ainda é incipiente. Aqui as hipotecas representam cerca de 3% do Produto Interno Bruto (PIB), enquanto nos EUA são 70%, afirma Duarte. Os reflexos positivos do pacote de medidas do governo de estímulo ao setor também já podem ser sentidos, com um aumento de demanda por imóveis, o que deve provocar a continuidade de crescimento da receita das companhias. “As vendas atuais só irão se refletir integralmente nos balanços das construtoras daqui dois ou três anos, quando os imóveis forem entregues; os bons resultados que as companhias apresentam agora ainda são das vendas feitas anos atrás”, diz Duarte.

Daniele Camba é repórter de Investimentos

E-mail: daniele.camba@valor.com.br

22/06/2009 - 13:14h Imóveis: Companhias de pequeno e médio portes crescem com demanda do pacote do governo

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Programa habitacional popular tira construtoras do anonimato

Daniela D’Ambrosio, de São Paulo – VALOR

Elas estão longe dos holofotes. Menos conhecidas e sem ações em bolsa, empresas como Cury, Direcional, Mudar e Patrimônio não estão na mira dos analistas e investidores, mas sentem a engrenagem girar na mesma proporção e velocidade que as companhias abertas beneficiadas pelo programa habitacional do governo. Com mais ou menos tempo de estrada, essas empresas já atuavam na baixa renda – segmento que ganhou todas as atenções do setor – e aproveitam a demanda praticamente garantida para ganhar mercado e aumentar a receita.

Assim como as grandes, precisaram sentar e refazer as contas. O cenário preto-e-branco do início do ano ganhou colorido diferente, desafiador até. A Direcional Engenharia, de Minas Gerais, lançou R$ 710 milhões no ano passado e começou o ano planejando ficar no mesmo patamar ou até menos. Já reviu a meta para R$ 1 bilhão. “O plano pode ser revisto para cima de novo de acordo com a demanda”, diz Ricardo Ribeiro, membro da segunda geração da família que fundou a empresa há 28 anos.

A Patrimônio, empresa de São Paulo, criada há 14 anos, entrou em 2008 prevendo uma redução de um terço dos lançamentos – que em 2008 somou R$ 650 milhões. Voltou aos R$ 650 milhões e para 2010, quando imagina que terá mais projetos nesse programa, já fala na ambiciosa cifra de R$ 1 bilhão em lançamentos.

A mais antiga delas, a Cury, também paulista, com 47 anos, muda de dimensão. A empresa, que lançou 4 mil unidades em 2008, já tem 17 mil unidades em processo de aprovação. Fábio Cury aproveita a experiência herdada do pai, já falecido, em programas como a antiga Cohab, e os recentes CDHU e plano PAR (Plano de Arrendamento Residencial) da Caixa para sair na frente. A empresa já assinou carta de intenções com a prefeitura de Guarulhos e com a CEF para o lançamento de 12 mil unidades.

A caçula desse grupo, a carioca Mudar, ganhou fama depois de investir mais de R$ 6 milhões em merchandising no programa do Gugu, no SBT. O empresário Augusto Martinez virou celebridade entre garçons, frentistas e atendentes, e aproveita que a marca ficou conhecida nas classes C e D para vender seus imóveis. Pretende lançar 4 mil unidades este ano, 60% acima do ano passado.

Como as grandes, também encontram desafios – o maior deles é capital para financiar o crescimento. “O entrave era e continua sendo capital de giro”, afirma Martinez, da Mudar, o mais cético em relação ao pacote. “Para crescer, é preciso de dinheiro e esse gargalo continua porque o financiamento é escasso”. O subsídio do programa Minha Casa, Minha Vida vai para o comprador do imóvel e não para a construtora. A linha de crédito de R$ 3 bilhões para capital de giro criada no final do ano passado foi modificada por conta da pressão das construtoras, mas o dinheiro ainda não começou a ser liberado.

A burocracia da Caixa também é apontada como um entrave, problema já sinalizado entre as empresas com ação em bolsa, sobretudo após uma greve. “Embora haja disposição, a Caixa já tinha gargalos e a grande dúvida é como o plano será operacionalizado”, diz Jorge Yamaniski Filho, dono da Patrimônio. “A análise dos projetos tem sido demorada”.

A concorrência com as grandes é acirrada. Mesmo quem só fazia lançamentos eventuais nessa área agora se debruça em projetos populares e já muda completamente a estratégia, como a Rossi Residencial. Mais ágeis e com menos despesas administrativas, essas empresas parecem não se não se intimidar. “Conhecemos os donos de terrenos em regiões periféricas, o que faz toda a diferença nesse momento”, diz Cury.

Embora tenham porte médio e pequeno, conseguiram fechar parcerias importantes nos últimos anos. A Cyrela fez uma joint venture e comprou 50% da Cury em julho de 2007. O fundo de private equity Tarpon é dono de 25% da Direcional desde março de 2008.

O crescimento nas vendas deve ter impacto no aumento da estrutura e nos empregos dessas companhias. A Direcional, que não terceiriza a construção e emprega os funcionários das obras, deve sair de 3 mil empregados para até 5 mil no fim do ano. “A engenharia, que é o mais importante devido à redução de custos e novas tecnologias, vai dobrar de tamanho”, diz Cury, que hoje emprega 40 engenheiros.

Ao contrário das maiores, essas construtoras estão mais ativas na faixa de até três salários mínimos, que representa 60% do pacote ou R$ 20 bilhões e onde o subsídio para o comprador é praticamente integral. A Cury irá lançar 8 mil unidades. A Direcional já tem um projeto aprovado no Rio e outros dois – em Belo Horizonte e Brasília – em análise. A Patrimônio terá quatro projetos, dois já aprovados.

04/05/2009 - 10:01h Pacote habitacional redireciona planos das construtoras

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Daniela D’Ambrósio, de São Paulo – VALOR

O setor de construção começou 2009 com o pé no freio. Cautela e conservadorismo eram as palavras de ordem entre as empresas, depois de um segundo semestre repleto de reveses. A partir do final de março, porém, o segmento sofreu uma reviravolta. Antes uma promessa, o anúncio do pacote habitacional do governo – que prevê R$ 34 bilhões em recursos para a construção de um milhão de casas – mudou o cenário, principalmente para as companhias que atuam na baixa renda.

Depois de um ano com queda nos lançamentos, aumento relevante das dívidas e dos estoques (produtos em lançamento, obras e prontos), o programa abriu novas oportunidades. Não se fala em outra coisa. As empresas que já atuam nesse mercado, como MRV, Goldfarb, Rodobens e Tenda estão correndo contra o relógio para sair na frente dos concorrentes e atender à demanda reprimida – que nos primeiros dias após a oficialização do programa chegou a surpreender até as mais companhias mais preparadas. “O mercado mudou completamente, agora temos um bom problema para administrar”, afirma Leonardo Correa, diretor de relações com investidores da MRV. A empresa mineira especializada na baixa renda tinha uma média de 28 mil acessos ao site por dia no ano passado e, depois do pacote, passou para 65 mil.

As empresas estão direcionando seus lançamentos para empreendimentos mais baratos, que possam aproveitar melhor a demanda. Nas regiões metropolitanas de São Paulo, Rio de Janeiro e Distrito Federal o imóvel financiado poderá ter o valor máximo de R$ 130 mil. Para municípios com mais de 500 mil habitantes e demais capitais, o valor cai a R$ 100 mil e, nas demais regiões, R$ 80 mil. De acordo com as empresas, a procura está concentrada nas regiões de trabalhadores com renda entre três e cinco salários mínimos, onde os subsídios do governo podem chegar a R$ 20 mil. Por conta disso, já readaptam seus produtos. “Estamos baixando nosso tíquete médio de R$ 110 mil para entre R$ 65 mil e R$ 70 mil”, afirma Zeca Grabowsky, presidente da PDG. A revisão dos custos de construção e do ciclo construtivo é outra realidade nas companhias. “Estamos estudando reduzir o ciclo para até seis meses”, afirma Caros Trostli, presidente da Tenda.

Mesmo quem não tem tradição no segmento está reorganizando seus negócios para aproveitar os novos compradores. “Não dá para perder esse bonde”, afirma Luis Largman, diretor da Cyrela. A empresa é dona da marca Living, destinada ao segmento popular. Segundo Largman, o selo Living deve construir 20 mil unidades este ano, praticamente o dobro de 2008, quando foram produzidas 10,7 mil unidades. “Estamos em análise, mas o segmento econômico poderá representar até 50% do nosso portfólio”, diz o diretor da Cyrela, empresa que atua nas classes média alta e alta.

A Rossi Residencial, que já teve um perfil mais popular no passado ao criar o Plano 100, e reformulou sua atuação na última década, mira novamente as classes mais baixas. Em 2007, a empresa lançou 13% no segmento econômico, em 2008 subiu para 29% e, em 2009, vai ficar em, no mínimo, 50%. “Os prefeitos de cidades onde temos projetos, como Campinas, por exemplo, estão nos procurando para doar terrenos”, afirma Cássio Audi, diretor de relações com investidores da Rossi.

Outra medida também deve beneficiar o setor de forma indireta, mas ampla. O teto dos imóveis financiados pelo FGTS saiu de R$ 350 mil para R$ 500 mil, e o valor máximo dos financiamentos imobiliários que podem ser feitos dentro das regras do Sistema Financeiro da Habitação (SFH), com recursos da poupança, passou de R$ 245 mil para R$ 450 mil. A medida terá impacto positivo para a construção como um todo, inclusive empresas que atuam para as classes média e média alta.

O setor de materiais de construção também está animado com o pacote e com a redução do IPI para várias categorias de produtos. Em março, a Abramat (Associação Brasileira da Indústria de Materiais de Construção) registrou um crescimento de 16,9% nas vendas de materiais de construção na comparação com fevereiro. A entidade mantém a previsão de crescimento de 5% para o setor neste ano.

04/05/2009 - 09:36h Esforço anticíclico do governo já soma R$ 280 bi

Conjuntura: Total inclui liberação de compulsórios, linhas de crédito, pacote habitacional e desonerações tributárias

Roosewelt Pinheiro/ABr

Presidente Lula, no lançamento do programa habitacional Minha Casa Minha Vida, em março: pressa para recuperar o ritmo da expansão econômica

Mônica Izaguirre, de Brasília – VALOR

É principalmente com estímulos ao crédito que o governo Lula vem reagindo à crise que se alastrou pelo mundo a partir de meados de setembro de 2009 para evitar uma desaceleração maior da economia brasileira. Se forem somadas as cifras anunciadas desde estão, as medidas mais diretamente voltadas a manter ou elevar a oferta de empréstimos e financiamentos bancários às pessoas e, sobretudo, às empresas já envolvem mais de R$ 280 bilhões, segundo levantamento feito pelo Valor. Esse montante inclui a liberação de depósitos compulsórios, o orçamento reforçado do BNDES este ano, as desonerações tributárias, o pacote habitacional, e várias linhas de crédito liberadas pelos bancos oficiais, entre outras.

O impacto dessas medidas no volume ofertado ao mercado financeiro é incerto. Nem todo esse dinheiro vai virar crédito e o uso efetivo desses recursos e das medidas depende de diversas variáveis, não é simples, tanto que nem o governo calculou seu alcance. Ainda assim, a soma e a quantidade de medidas adotadas indicam a magnitude do esforço de um governo que trabalha focado em como recuperar o ritmo da expansão econômica, inclusive por razões políticas. Há pressa não só porque a situação e os agentes econômicos exigem, mas também porque o presidente Lula cobra isso com veemência de sua equipe. Ele sabe que terá menos chance de fazer seu sucessor nas eleições presidenciais de outubro de 2010, se, até lá, não houver alguma recuperação da velocidade de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB). Apesar do último trimestre, que já foi afetado pela crise, em 2008, o PIB aumentou 5,1%.

O governo brasileiro também vem reagindo ao terremoto sofrido pela economia global com desonerações tributárias. Nessa área, contudo, o espaço de atuação é menor pela combinação entre a rigidez do orçamento fiscal e da seguridade (mais de 85% das despesas primárias são obrigatórias e não podem ser cortadas) e pela frustração que a desaceleração na atividade econômica provocou nas expectativas iniciais de arrecadação para 2009. A redução do crescimento afetou o faturamento das empresas e, assim, a base de tributação. Somando o impacto ocorrido ainda em 2008 com o que se espera para 2009, as medidas de alívio tributário anunciadas desde setembro já implicam renúncia de R$ 13,4 bilhões, parte delas de caráter temporário. As medidas de maior impacto, entretanto, continuarão a surtir efeito também nos anos seguintes, caso das ações previstas na Medida Provisória 451, baixada em 15 de dezembro (ver quadro abaixo).

O governo decidiu fazer novas desonerações por avaliar que as políticas anteriores adotadas com este objetivo foram importantes para a aceleração vista até 2008 na expansão da economia. Esse já era o viés da política tributária antes da crise e foi mantido pelo governo, apesar da redução do espaço fiscal para programas desse tipo. As medidas que foram decididas e/ou implementadas entre o início de 2007 e setembro de 2008, por exemplo, representaram renúncia de R$ 20 bilhões por ano, sem contar o fim, a contragosto do governo, da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF).

Para poder combinar novas decisões nessa linha sem abrir mão de seus planos de investimento, o governo também respondeu à crise afrouxando sua política fiscal. Só em 2009, a redução da meta do superávit primário do setor público permitirá que União, Estados e municípios gastem e/ou abram mão de arrecadar perto de R$ 40,2 bilhões além do que poderiam na hipótese de manutenção da meta anterior. A meta consolidada para este ano caiu de 3,8% para 2,5% do PIB. Parte dessa redução permanecerá, pois refere-se à retirada do grupo Petrobras das estatísticas de necessidades de financiamento do setor público e, portanto, do esforço de geração de superávit primário da União.

A empresa e suas subsidiárias foram liberadas da obrigação de gerar superávit de 0,5% do PIB em 2009 e anos seguintes, para poder investir mais, o que lhes permitirá destinar a seus projetos de investimento, de 2009 a 2012, quantia adicional estimada em R$ 71,3 bilhões. Por ocasião do segundo aniversário do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), em fevereiro deste ano, o governo já havia informado que o grupo aumentou o valor de seus planos de investimento em R$ 110,6 bilhões para o período. O afrouxamento da meta vem para ajudar a viabilizar tal elevação.

O valor do PAC como um todo, onde se inserem parte dos projetos da Petrobras, também foi elevado, em R$ 142,2 bilhões, nesse caso até 2010, em princípio o último ano para contratação e início das respectivas obras. Embora o incremento refira-se em boa medida a projetos que já estavam na pauta do governo fora do PAC, o anúncio da ampliação do programa também foi tratado pelas autoridades como resposta à crise. Ainda que tenha sido objeto de decisão anterior, o fato é que o aumento do PAC tende a contribuir para manter a economia em crescimento, pois, com o selo do programa, mesmo antigos, os projetos nele incluídos ganham tratamento prioritário e podem sair mais rapidamente do papel.

A manutenção do fluxo de investimentos – públicos e privados dentro ou fora do PAC – é um dos principais motivos pelos quais o governo vem atuando forte no esforço para manter e, se possível, elevar a oferta de crédito. O governo avaliou que, com a reação defensiva dos bancos privados à crise de internacional de liquidez (inicialmente, eles reduziram e fecharam linhas), era necessário mobilizar os bancos públicos para suprir a demanda das empresas, com fontes antigas ou novas de recursos. Foi esse o principal pressuposto da decisão de autorizar o Tesouro Nacional a emitir títulos públicos para aportar até R$ 100 bilhões ao BNDES, embora o banco já conte com outras fontes expressivas e certas de recursos – a principal é a arrecadação federal com a contribuição das empresas ao programa PIS/Pasep (que sustenta também o seguro desemprego), da qual 40% vão obrigatoriamente para linhas de crédito da instituição.

Esses R$ 100 bilhões são prioritariamente para financiar investimentos. Mas como não há proibição, o banco também poderá usá-los, se precisar, para linhas de capital de giro, inclusive aquelas que foram criadas ou incrementas no esforço de combate à crise.

Essa é uma das variáveis que impossibilitam saber antecipadamente se a soma do valor envolvido na lista de medidas anunciadas nesse área se converterá integralmente ou não em crédito, já que elas podem ter efeito sobreposto. O efeito líquido também será inferior aos R$ 280 bilhões, na hipótese de os outros bancos públicos usarem recursos de liberação de compulsórios ou de aumento de direcionamento de depósitos à vista e de poupança rural para as linhas especiais criadas ou ampliadas por decisão do governo como parte do mesmo esforço.

A talvez impossível mensuração exata do impacto específico e líquido das medidas governamentais, no entanto, não é necessária para saber que elas estão surtindo efeito, apesar de persistência de alguns problemas localizados (os empresários da construção pesada ainda reclamam da escassez de financiamento). Pelo menos é isso que se percebe ao olhar os números das operações de crédito do sistema financeiro, cujo volume continuou a crescer como proporção do PIB no Brasil mesmo depois do estouro da crise global. Segundo o Banco Central, o estoque dessas operações fechou março de 2009 em 42,5% do PIB. No fim de agosto de 2008, equivalia a 37,6% do produto. A expansão do crédito já vinha ocorrendo. O governo já via e continua vendo a oferta de crédito para investimentos, capital de giro e consumo como fator importante de sustentação de crescimento da atividade econômica.

Outra frente na qual o governo vem concentrando suas respostas à crise é da do fluxo cambial e oferta de crédito em moeda estrangeira. O Banco Central não hesitou em dar uma guinada rápida na política cambial e retomar, ainda em setembro, os leilões de venda de dólar ao mercado na tentativa de evitar maiores ou persistentes flutuações da taxa de câmbio. Também reviu o uso de instrumentos de derivativos cambiais, voltando a oferecer operações de swap com caráter de proteção contra altas da moeda estrangeira. Tampouco houve hesitação em usar as reservas cambiais para oferecer crédito em moeda estrangeira.