31/03/2008 - 13:54h Ainda sobre os panelaços na Argentina

Oleo do Diabo
cacerolazo.jpg

Vamos esclarecer algumas coisas. O problema não está em pessoas da classe média argentina saírem às ruas batendo panela, embora eu ache isso um tanto ridículo. Os próprios blogueiros de buenos aires estão refletindo sobre os panelaços dos anos 90, que derrubaram ministros das fazenda. Adiantou alguma coisa? Na verdade, não. Derrubaram ministros, inclusive alguns bons ministros, que pegaram o abacaxi incomensurável cultivado pelo governo Menen, o otário que mais levou à sério as reformas neoliberais sugeridas pelos americanos. Aliás, por falar em americanos, nada como um dia após o outro. A cobra está sendo intoxicada pelo próprio veneno. Enquanto o mundo inteiro cresce, só os EUA têm crise, devido à estupidez neoliberal. O neoliberalismo é uma ofensa ao liberalismo. Não tem nada de liberal no neoliberalismo. Até mesmo a teoria do Estado mínimo é uma balela. O neoliberalismo tenta se vender como verdadeiro capitalismo quando não passa de uma tática semi-mafiosa na qual grupos financeiros ligados ao poder ganham milhões às custas de transferir par si a renda de milhões de trabalhadores e empresários.

Voltando à Argentina, o problema não está na panela. Está em quem bota fogo na panela. Em Buenos Aires, há manifestações quase diárias sobre tudo e todos. A maioria são sérias, com faixas explicativas, demandas específicas. Naturalmente, a maioria são de sem-terras pedindo terras, desempregados pedindo empregos, e assim vai. A diferença deste novo panelaço é justamente… a falta de demandas. As pessoas simplesmente saem batendo panelas pelas ruas, à noite, depois de ouvir pelo rádio e pela televisão que outras pessoas estariam indo às ruas “espontaneamente”. O conceito de “espontâneo”, naturalmente, possui um sentido muito especial. Esqueçamos o fato de ser falso, já que manifestações convocadas por locutores de rádio e televisão a cada 10 minutos não podem ser, tecnicamente, classificadas de espontâneas. Esqueçamos isso. O que os blogueiros argentinos, além da falsidade do caso, notaram é que, para a mídia argentina, a espontaneidade diferenciaria o panelaço das passeadas “organizadas” por sindicatos, movimentos sociais, associações e qualquer tipo de organização civil. São espontâneas. Tão espontâneas que as pessoas nem sabem o que estão fazendo lá. A causa da revolta, teoricamente, seria o discurso de Cristina atacando a greve dos agricultores. Bem, não quero entrar no mérito da política agrícola do governo argentino. Certamente, há quem defenda e quem ataque, com argumentos válidos para todos os lados. O caso, como sempre, virou guerrinha ideológica. Muitos lembraram, inclusive a Cristina, que estes agricultores que estão despejando leite na estrada e deixando estragar milhares de quilos de carne, sob o olhar complacente da mídia e dos ricos argentinos, foram os mesmos que defenderam e sustentaram a ditadura militar.

Os blogueiros portenhos estranharam outras coisas. A mídia repete que são pessoas comuns saindo às ruas, novamente distinguindo-os dos “animais” de sindicatos, movimentos sociais e associações. O que eles não notaram, mas eu notei, é a repetição da ladainha na mídia brasileira.

Já disse: em Buenos Aires, que tem características não reunidas em nenhuma cidade brasileira, que é ser capital política, administrativa, financeira, cultural e sindical do país, há manifestações, e grandes, quase todos os dias. Mas a mídia brasileira só quer saber do panelaço dos riquinhos.

27/03/2008 - 05:20h Cristina não cede apesar de protestos nas cidades

Argentinos voltaram às ruas ontem em Buenos Aires batendo panelas contra o governo, em apoio à mobilização dos produtores rurais do país

Janes Rocha – VALOR

O governo argentino não recuou nem um milímetro de seu confronto com os produtores rurais em greve, mesmo depois da inesperada adesão urbana ao movimento do campo. Os produtores estão em mobilização há 15 dias, fechando a passagem de estradas em 29 localidades de sete províncias. Eles exigem que o governo volte atrás na decisão de elevar de 35% para 44,1% o percentual retido sobre as exportações de soja, anunciado dia 11. Os produtores alegam que a retenção vai causar prejuízo a quem planta e exporta soja.

A paralisação está agravando a falta de alimentos como carne e verduras no comércio varejista da capital Buenos Aires e de outros centros urbanos. Juan Carlos Vasco Martínez, presidente de uma entidade de supermercadistas, a ASU, disse ao jornal “Clarín” que “existem sérias dificuldades” no abastecimento de alguns produtos, que a carne praticamente acabou e que temia a falta de leite em breve.

O ministro da Economia, Martín Lousteau, disse ontem em entrevista a uma rádio que “não há absolutamente nenhum elemento” que aponte a necessidade revisar o sistema de retenções sobre as exportações de grãos, anunciado por ele no dia 11, e que detonou a maior paralisação do campo argentino em 30 anos. Já o ministro da Justiça, Aníbal Fernández, garantiu que se as estradas não forem liberadas, as forças de segurança vão atuar e efetuar prisões dos responsáveis. Mas até o fechamento desta edição a polícia não havia atuado contra os ruralistas em protesto.

Na noite de terça, os argentinos voltaram às ruas batendo panelas (o “panelazo”), como fizeram na crise de 2002, só que desta vez em apoio aos ruralistas. Foi logo depois que a presidente Cristina Fernández de Kirchner fez um duro discurso, transmitido ao vivo por rádio e TV, respondendo aos ruralistas. Ela disse que estavam fazendo o “piquete da abundância”, já que é o setor que mais ganhou dinheiro nos últimos cinco anos, e que não iria se submeter a nenhuma extorsão. As palavras de Cristina foram criticadas por toda oposição pela falta de disposição em abrir o diálogo.

O movimento urbano de apoio aos ruralistas não se resumiu à capital Buenos Aires (onde Cristina perdeu as eleições em 2007) mas se espalhou pelas capitais das províncias de Santa Fé, Córdoba, Tucumán e Salta. A administradora Diana Perez, que junto com os filhos batia panelas na Praça de Mayo, repetiu o discurso dos produtores quando questionada pela reportagem do Valor porquê estava ali: “O governo aumentou as retenções e o campo está perdendo rentabilidade. Nós vivemos do campo, temos que apoiá-lo”.

Para o taxista Alberto Blanco, que batia duas tampas de panela em meio à multidão em frente à Casa Rosada, o discurso da presidente Cristina foi “arrogante”. Ele disse que as pessoas estavam preocupadas com a falta de alimentos, a inflação e a perda de poder de compra dos salários.

Uma artista plástica, que pediu para não ser identificada, disse que o discurso da presidente foi a “gota d´água” para os argentinos que “estão cansados da arrogância, a falta de diálogo e as mentiras” do casal Kirchner, referindo-se ao índice de inflação que há um ano se acusa o governo de haver manipulado.