10/10/2009 - 10:42h Desigualdade cai, mas continua alta

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Foto Tuca Vieira – Paraisópolis – cidade de São Paulo

O Estado SP

Em 2008, grupos dos mais ricos ganhavam 18 vezes a renda dos pobres, ante 20,2 em 2006

Em três anos, de 2006 a 2008, diminuiu muito rapidamente a distância entre os dois extremos de rendimentos da sociedade brasileira, o que reduziu a desigualdade social no País, apontou o estudo do IBGE. A melhoria na renda contrasta com dados referentes a bens e serviços: apenas 61% dos domicílios brasileiros tinham simultaneamente, em 2008, água encanada, coleta de esgoto, de lixo e iluminação elétrica.

Em 2006, a razão entre a renda familiar per capita dos 20% mais ricos e dos 20% mais pobres era 20,2, ou seja, o grupo mais rico ganhava 20,2 vezes a renda do mais pobre. No ano seguinte, essa relação caiu a 18,7, e em 2008, foi a 18. O nível ainda é alto – em países desenvolvidos, fica em torno de 4 a 6 -, mas já mostra redução na desigualdade entre os brasileiros, segundo Ana Lucia Saboia, coordenadora-geral do estudo.

O IBGE também apurou que caiu a proporção de pessoas com rendimento familiar per capita abaixo de 60% do mediano. Como foi estimado em R$ 415, os 60% eram R$ 249 em 2008 – essa medida serve para mensurar a pobreza dos grupos sociais. Em 2006, 37,3% ganhavam menos que essa fronteira; em 2007, 36,1%; em 2008, 33,8%. Também caiu o diferencial entre o rendimento familiar mensal per capita das famílias dos 10% mais ricos em relação aos 40% mais pobres. Em 2001, era 22,1 e em 2008, 16,8. Os números foram comemorados pelo diretor do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas, Marcelo Néri. Ele lembrou que a queda começou em 2001 e se acentuou a partir de 2004, porque se associou ao crescimento econômico. “Não era mais como em 2001, quando o bolo caiu e a parte dos pobres caiu menos.”

Os problemas de distribuição de renda, porém, continuam. Enquanto o rendimento familiar médio ficou em R$ 720, metade das famílias vivia com menos de R$ 415 – salário mínimo vigente em setembro de 2008.

SERVIÇOS

Apesar de 40% das residências brasileiras não terem ao menos um serviço público essencial (água encanada, coleta de esgoto, de lixo e iluminação elétrica), o dado representa um avanço em relação a 1998. Naquele ano, o porcentual de unidades com os quatro benefícios ao mesmo tempo era de 56,8%, ante 43,2% desprovidos de pelo menos um deles. A região com maior acesso era o Sudeste (82,6% dos lares) e a com menor era o Norte (14,9%).

31/05/2009 - 12:40h Serraluf na segurança: a receita que dá voto em São Paulo

Pouco importa se os latrocino estão em alta ou se cada dois dias um condomínio é assaltado na cidade.

O que conta é mais o que faz de conta. No caso fazer de conta que o governo estadual aplica a mão de ferro contra a bandidagem.

Pensando bem, é até necessário que o clima de insegurança e de violência persista e se espalhe, pois permite que o faz de conta tenha maior impacto eleitoral (depois é só manipular B.O. e alinhavar estadísticas para mostrar eficiência).

Pouco importa se os pobres são aterrorizados, pelo faz de conta da segurança, é o que parece pensar uma parte da classe média abastada da cidade.

Pouco importa lei, justiça, direitos para fazer prevalecer… o faz de conta.

Assim age o PSDB em matéria de segurança. Como trogloditas a serviço de sua própria propaganda.

A mão de ferro contra a criminalidade é necessária sim.

A repressão e a luta ao crime organizado deve ser prioridade, sim.

Aterrorizar a população indefesa para fazer de conta que o governo estadual age contra a delinquência é o recurso patético dos incompetentes. LF

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Aterrorizar a esquerda (Paraisópolis) para vender o faz de conta a direita (Morumbi).

82 dias de medo em Paraisópolis

Moradores denunciam violência da PM l Barracos foram invadidos sem mandados judiciais l Trabalhadores, crianças e idosos relatam sessões de tortura l Comando da PM nega abusos e agressões na favela

Bruno Paes Manso – O Estado SP

Os números oficiais da Operação Saturação da Polícia Militar em Paraisópolis, na zona sul de São Paulo, são chocantes. De acordo com a Prefeitura, moram 60 mil pessoas no bairro. Durante pouco menos de três meses de operação, entre 4 de fevereiro e 26 de abril, 400 policiais em 100 viaturas e um helicóptero, com 20 cavalos e 4 cachorros, aplicaram 51.994 revistas a moradores do bairro.

A operação teve início depois dos tumultos provocados por algumas dezenas de moradores, em 2 de fevereiro, que deixaram três PMs baleados. Entre os agitadores havia integrantes do tráfico de drogas local. Como resposta, nos dias que se seguiram ao quebra-quebra, parte da tropa deixou rastros de abusos e violência. “Durante a ocupação, tentativas de desestabilização das forças de segurança foram levadas a efeito por parte de pessoas que se sentiam incomodadas com a presença da polícia”, defende o capitão Emerson Massera, da Seção de Comunicação Social da PM. Segundo ele, não há provas de abusos e agressões.

Na semana passada, o Estado esteve em Paraisópolis. Ouviu dezenas de histórias chocantes, em diferentes pontos do bairro. Testemunhos semelhantes já foram ouvidos por entidades como Associação dos Juízes pela Democracia, Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo e Associação Paulista dos Defensores Públicos.

De acordo com a polícia, no balanço da operação constaram 93 flagrantes, captura de 61 procurados, 31 armas e 9,9 kg de cocaína apreendidos. Mas o saldo final vai além: sobrou raiva, humilhação, revolta, indignação que ninguém ainda é capaz de dizer o que isso de fato pode significar para a cidade. Seguem os testemunhos de moradores colhidos pelo Estado:

EM DEFESA DOS FILHOS

Auxiliar administrativa em uma empresa de telefonia, Gisele Cristina dos Santos, de 28 anos, teve o barraco invadido seis vezes pela polícia. Em nenhuma delas havia autorização judicial. Na primeira, um domingo de manhã, ela, marido e seis filhos, crianças de 1 a 12 anos, estavam em casa. O marido esticava um novo varal e chamou a atenção dos policiais por causa de uma tatuagem. Perguntaram se ele tinha “passagem”. Ele informou que estava sob condicional, mas não devia na Justiça. Os policiais chutaram o portão e invadiram o quintal perguntando por drogas. Em seguida, entraram na casa e rasgaram o sofá. O pai apanhou na frente dos filhos. Em outras duas vezes, policiais entraram quando só havia crianças em casa. Falaram para a mais velha que o pai havia pedido a eles que buscassem o revólver. “Onde está a arma?”, perguntavam os policiais. “Meu pai não rouba”, a criança respondeu. A casa também foi invadida quando não havia ninguém. Dois baldes de água com latas de leite que ela recebeu do programa da Prefeitura, misturadas com detergente e pó de café, foram espalhados pelo chão e paredes. Gisele teve seu MP5 furtado. Depois das seguidas sessões de abuso, ela fundou o movimento “Paraisópolis Exige Respeito!”, com um blog na internet. Perguntada se o nome dela podia aparecer no jornal, Gisele foi categórica: “Coloque em negrito, com letras maiúsculas.”

CHAMADA ORAL DA BÍBLIA

Nos cálculos da aposentada Maria Alves da Rocha, de 59 anos, policiais invadiram a casa onde ela mora com a neta de 17 anos e dois filhos por cerca de 15 vezes. Nunca apresentaram mandado. Na primeira invasão, eles entraram com um pontapé na porta. Os vizinhos avisaram ao filho, que é pedreiro e trabalhava na vizinhança, que chegou em instantes e sugeriu para a mãe que deixasse a polícia trabalhar. “Quem não deve não teme”, disse. A polícia depois não se cansou de voltar. Bagunçavam o guarda-roupa, xingavam e humilhavam os que estavam em casa. Dona Maria contou aos policiais que era evangélica. Um deles solicitou uma Bíblia para perguntar o que estava escrito em dado versículo do Evangelho de João. “Sou analfabeta, mas entendo a palavra dos pastores e consegui responder”, diz Maria. O pé de capim-santo que ela cultivava no quintal para fazer chá foi arrancado pelos policiais, para checarem se não era droga.

É PROIBIDO CHORAR

Quando viu o movimento de policiais na viela em que mora, Antonio, de 13 anos, entrou em casa correndo. Os policiais o seguiram. Na porta do barraco, um anúncio escrito a giz pela mãe oferece: “Fais chapinha.” Dentro de casa, Antonio teve a arma apontada para cabeça. “Por que estava correndo? Onde é a boca?”, perguntava um deles, enquanto o estapeava. Outro policial revistava a casa. Antônio, que aparenta 10 anos, estava sozinho com o irmão, de 9. Os dois choravam muito. “Cala a boca vacilão. Vamos levar você para um quartinho escuro na Febem”, ameaçava o policial. Com os braços cruzados, esfregando os ombros, Antonio explica que ficou ainda mais assustado porque há alguns anos teve um tio assassinado por policiais. Os vizinhos, do lado de fora, viam tudo sem poder intervir porque temiam apanhar.

ESPINGARDA DE BRINQUEDO

Agnaldo Jesus Viana teve o sobrado em que mora, em cima do bar de sua propriedade, invadido quatro vezes. Os policiais cismaram com o jogo eletrônico que ficava na frente do estabelecimento e tinha uma espingarda a laser como acessório. Perguntaram para ele onde estavam as armas e quem fazia o tráfico na favela. Ele respondeu que “não mexia com isso”. A arma do videogame foi quebrada pelos policiais. A mulher de Agnaldo, nervosa, para tentar intimidar, disse que as câmeras que ficam dentro do bar estavam gravando os abusos. Eles obrigaram o casal a retirar o material do vídeo e entregar a eles. As visitas se repetiram. Agnaldo conta que a câmera digital e o notebook do vizinho foram roubados.

QUEM APANHA É A MÃE

Solange conta que estava bêbada no dia em que apanhou da polícia. Foi reprimida depois de chegar chorando e pedindo para não baterem no filho, que estava sendo revistado. Eles se irritaram com a cena e pediram a ela que os levasse em casa para ver se não havia drogas. O filho foi junto, sob tapas e socos. Na confusão, ela acabou levando uma cabeçada do filho agredido pelos policiais. Ficou com o olho roxo. “Hoje eu só sinto ódio”, diz o filho de Solange.

COMPENSADO DE MADEIRA

O ajudante geral Luiz Claudio Carlos, de 23 anos, estava na viela perto de casa sem documentos quando foi abordado por três policiais. Sem poder provar quem era, foi esculachado. Os policiais pegaram um compensado de madeira, jogaram em cima dele e começaram a pular em cima. Perguntavam sobre drogas e davam tapas no seu rosto. A alguns metros de distância, um menino jogava bolinhas de gude. Uma delas desceu em direção ao local onde ocorria a sessão de tortura. O policial perguntou o que menino queria e começou a estapeá-lo. O garoto apanhou sem dizer nada. Quando foi liberado, disse ao policial: “Muito obrigado.” O soldado ficou irritado e voltou a agredir o menino.

RODÍZIO PARA BATER

Sílvio de Moraes Pereira, de 21 anos, quer ser tatuador. Tem piercings, sobrancelhas cortadas e tatuagens. Fez estágio na Galeria do Rock. Andava pela viela às 8 horas da manhã quando foi abordado e obrigado a tirar a roupa e ficar de cueca. Sentou em cima da mão e o acusaram de trabalhar no tráfico. Ele negou a ligação. Os seis homens perguntaram se ele teria coragem de levá-los à sua casa. Pereira topou. Jogaram o jovem em cima da cama e ele apanhou em rodízio: um dava socos na cara, outros nos rins e todos chutaram ao mesmo tempo com coturnos de bico de ferro, quando ele caiu no chão. Com medo de novas represálias, acabou se mudando.

CABEÇA DE MENINO

José Maria Lacerda, de 54 anos, coordenador da União de Defesa dos Moradores, revoltou-se com a prisão de William, que é deficiente mental. “Tem corpo de homem, mas cabeça de menino”, explica . Em um sábado de março, policiais viram a porta da casa do jovem aberta e a invadiram, enquanto William dormia. Ele apanhou, tomou um soco na boca e foi levado como traficante e até hoje se encontra preso no CDP de Osasco. Lacerda decidiu brigar em defesa do rapaz, que trabalhava como ajudante de carretos. Pediu ao amigo e advogado Gilberto Tejo Figueiredo, que atua na associação em processos imobiliários de usucapião, para defender William. “As testemunhas sempre são apenas os policiais que efetuam a prisão. Nunca levam os moradores que presenciaram a cena. É uma covardia”, diz Figueiredo. Mineiro, há tempos na luta por moradias, Lacerda é daqueles que preferem evitar conversas sobre crime, como se não fosse assunto de pessoa correta. Mas observa que os moradores de Paraisópolis estão sendo estigmatizados e ganharam na cidade a pecha de ladrões. “Para conseguir emprego precisamos evitar dizer o nome do bairro em que moramos”, diz.

OUTROS OLHOS PARA O MUNDO

Extrovertida, vaidosa, unhas pintadas de vermelho, a cabeleireira Aurenice Soares dos Santos sempre gostou de policiais. Na última eleição, fez campanha para Gilberto Kassab. “O Kassab é um homem lindo!”, diz. Passou a enxergar o mundo com outros olhos em uma manhã de março. Na viela onde mora, quatro casas foram invadidas. O marido estava no andar de cima do sobrado, com a máquina de lavar ligada. Um grupo de 11 policiais chegou ordenando que ela abrisse a casa. Nervosa, disse que não conseguia encontrar a chave. Os policiais quebraram a janelinha da porta, colocaram a cabeça para dentro e tentaram forçar a entrada. Aurenice aguardou calada. Os policiais desistiram quando parte do grupo começou a entrar na casa de baixo. No vizinho, a polícia abriu a janela com um soco, assustando as duas irmãs de 16 e 17 anos que estavam de pijama e acordaram com o barulho. Ela ouviu o choro do outro irmão, de 3 anos, com deficiência nas pernas. Viu o filho da vizinha ser humilhado e obrigado a se sentar em cima de uma poça d?água. Enquanto a operação durou, Aurenice evitou sair de casa. Permanece em depressão e toma diazepam, clonazepan, Tofranil e Diurex.

IZAQUE CIRIACO MARTINS

Izaque Ciriaco Martins, de 26 anos, trabalha como copeiro em uma churrascaria do Morumbi e chega todo dia em casa após a 1 hora da manhã. Cansou de ser revistado nas operações da polícia. Foram pelo menos cinco vezes em que era tratado como bandido por viver em Paraisópolis. Em certas madrugadas, teve de dar longas caminhadas a pé para chegar em casa porque o caminho mais curto estava bloqueado pela polícia.

A POSIÇÃO DA POLÍCIA

O capitão Emerson Massera, da Seção de Comunicação Social da PM diz: “A presença de criminosos na comunidade exigiu uma pronta ação, que culminou na estratégia de ocupação, objetivando criar um clima de segurança às pessoas de bem. E foi o que efetivamente ocorreu! Duas denúncias chegaram a ser feitas formalmente.” E completa: “Restou provado que não houve abuso ou agressão.”

15/02/2009 - 12:13h Os problemas da Folha

 

CARLOS EDUARDO LINS DA SILVA
ombudsman@uol.com.br

A Folha e os problemas de São Paulo


O jornal deixa muito a desejar em relação ao que se espera do maior diário paulista na cobertura de temas como exame de professores e merenda

A CIDADE e o Estado de São Paulo, onde este jornal tem a maioria absoluta de seus assinantes e leitores, começam 2009 com problemas sérios.
A maneira com que a Folha os vem tratando deixa muito a desejar em relação ao que se pode esperar do maior diário paulista.
Um deles é o exame a que foram submetidos professores temporários da rede estadual de ensino público, no qual número expressivo tirou nota zero e metade não chegou a cinco.
Como na greve da categoria em 2008, o jornal trata do caso superficialmente. Reproduz declarações das autoridades e, em contraponto, ouve mecanicamente o sindicato dos trabalhadores.
O “outro lado” não é o sindicato, mas os professores, cujas histórias não chegam ao público. O jornal não vai fundo nem nas causas de haver tantos professores provisórios no sistema nem nas razões por que muitos se deram mal na prova.
As condições em que o teste foi concebido, formulado e aplicado (há indícios de que estiveram longe do ideal) não foram detalhadas.
O noticiário e opiniões do jornal acabaram passando a ideia de que a “culpa” do mau desempenho é apenas dos professores, mostrados como em geral despreparados. É claro que a explicação é muito mais complexa.
Outra situação é a da merenda escolar no município de São Paulo. Embora em 2007 a Folha tenha levantado o tema que agora está sendo retomado pelo Ministério Público, seu acompanhamento neste ano tem sido pouco arrojado.
O jornal precisa ser mais ativo. Em vez de quase se limitar ao pingue-pongue entre prefeitura e seus acusadores deve tomar a iniciativa de, por exemplo, verificar autonomamente a qualidade da merenda, pesquisar se pais, professores e alunos estão satisfeitos com ela em comparação com a que tinham antes.
O tema merece mais espaço, destaque e investimento do que tem recebido. Houve dia em que o noticiário sobre ele teve o mesmo tamanho de uma foto que mostrava as calças de um calouro estragadas em trote universitário.
Os paulistas, principalmente os paulistanos, estão sofrendo bastante com enchentes. Mas o jornal tem cuidado delas de forma acanhada. Relata os alagamentos que ocorrem, publica fotos de carros boiando nas ruas, conta os quilômetros de congestionamento. É muito pouco
No dia 10, por exemplo, reportagem registrou que a prefeitura “espera o pior fevereiro desde 2004″ e fará novo estudo de riscos só depois do período de chuvas.
A placidez com que acata tal declaração só se compara com a aceitação passiva do argumento de que a prefeitura tapa os buracos “sempre que é informada”. Ambas são constrangedoras.
Nada de jornalismo preventivo. Nada de acompanhamento sistemático das providências que as autoridades dizem tomar.
Finalmente, a erupção de violência na favela de Paraisópolis, cujo acompanhamento anódino por este jornal já comentei, não o motiva a se aprofundar no exame desta e de outras comunidades em que a expressão “barril de pólvora” se aplica bem, apesar do lugar-comum. Até acontecer a próxima explosão.


Carlos Eduardo Lins da Silva é o ombudsman da Folha desde 24 de abril de 2008. O ombudsman tem mandato de um ano, renovável por mais dois. Não pode ser demitido durante o exercício da função e tem estabilidade por seis meses após deixá-la. Suas atribuições são criticar o jornal sob a perspectiva dos leitores, recebendo e verificando suas reclamações, e comentar, aos domingos, o noticiário dos meios de comunicação.

14/02/2009 - 11:02h Elementar, meu querido…

Artigo da coluna Estilo, de Carta Capital
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13/02/2009 - 15:24h As novas classes médias

Bilhões de burgueses

A nova “Economist” traz encartado um especial sobre “As novas classes médias nos mercados emergentes”, título geral dos mais de dez textos, com pesquisa especial Pew, um perfil de consumo, a aposta de que elas vão reagir à crise etc.

A longa introdução de John Parker traz a foto e descreve a cena de uma multidão diante da loja das Casas Bahias na favela de Paraisópolis, em São Paulo. “Esta é a nova classe média dos emergentes indo às compras.” O texto saúda num dos enunciados, à maneira de Lula, que “pela primeira vez na história mais de metade do mundo é classe média, graças ao crescimento nos emergentes”.

No editorial “Mais dois bilhões de burgueses”, em que cita Karl Marx, a “Economist” avalia que “a ascensão da nova classe média mudou o mundo”, mas: “E se eles mergulharem de volta na pobreza?”. Alerta para o efeito de um “crash” sobre “o progresso feito recentemente em direção à democracia e à estabilidade política”. Texto de Nélson de Sá, coluna Toda Mídia – Folha SP.

 

 

The new middle classes in emerging markets

Burgeoning bourgeoisie

Feb 12th 2009
From The Economist print edition

For the first time in history more than half the world is middle-class—thanks to rapid growth in emerging countries. John Parker (interviewed here) reports

foto Financial Times

THE crowd surges back and forth, hands above heads, mobile-phone cameras snapping one of Brazil’s best-known samba bands. It could be almost anywhere in Latin America’s largest city on a Saturday night. But this is Paraisopolis, one of São Paulo’s notorious crime-infested favelas (slums). Casas Bahia, the country’s largest retailer, is celebrating the opening there of its first ever store in a favela (pictured above). It is selling television sets and refrigerators in a place that, at first glance, has no running water or electricity.

Among the shacks, though, rise three-storey brick structures with satellite dishes on their tin roofs. In the new shop, Brazilians without bank accounts—plumbers, salesmen, maids—flock to buy on instalment credit. In a country with no credit histories, the system is cumbersome: the staff interview customers about their qualifications and get them to sign stacks of promissory notes, like post-dated cheques, before allowing them to take their purchases home. But it works, more or less. According to Maria, a cleaner, “Everything I have comes from Casas Bahia. Things are very expensive but the means of payment are better for people like us, without any money.” This is the emerging markets’ new middle class out shopping.

Eduardo Giannetti da Fonseca, one of Brazil’s most distinguished economists, describes members of the middle class as “people who are not resigned to a life of poverty, who are prepared to make sacrifices to create a better life for themselves but who have not started with life’s material problems solved because they have material assets to make their lives easy.” That covers a broad range of ambitions, as two other examples will show.

Back in 1992 Lu Jian was a dissatisfied mid-level bureaucrat at China’s department of transport and communications who became surplus to requirements. Taking advantage of government measures that encouraged such officials to go into business, he went off for a stint at China’s first commodity-futures trading company. Soon afterwards he found himself designing the country’s first ski resort, near the northern city of Harbin. Now, as chairman of the Nanshan Ski Village, in the desert hills near Beijing, he presides over the capital’s main winter-sports recreation ground.

This season 3m Chinese will take up a sport that was unavailable in the country only 15 years ago. China has around 300 ski runs, including some in the subtropical south where skiing is done indoors. Even in freezing Nanshan, snow is manufactured from wells deep underground. “When the Chinese first got rich,” says Mr Lu, “they wanted to go to Thailand and South Korea. Now they want to go skiing.” Every weekend the resort is packed with IT executives, bankers and media glitterati. This is the emerging markets’ new middle class at play.

In December 2008, a week after the terrorist attacks in Mumbai, thousands of young, English-speaking professionals gathered in Mumbai, New Delhi, Bangalore and Hyderabad. They were demanding a new security law and a ban on criminals holding parliamentary seats, as well as urging people to vote. India’s professional classes have long been considered indifferent to politics and less inclined to vote than the poor. Yet suddenly social-networking sites were full of memorials to the victims and proposals for further action: vote, don’t vote, withhold taxes, join a new party. “Those laid-back, lethargic, indolent middle classes—they’ve been galvanised,” says a former advertising executive.” This is the emerging markets’ middle class engaged in politics.

So much to do

“We expect a lot from the middle classes,” say Abhijit Banerjee and Esther Duflo, of the Poverty Action Laboratory at the Massachusetts Institute of Technology. Following the historical examples of Britain and America, they are expected to be the dominant force in establishing or consolidating democracy. As a group, they are meant to be the backbone of the market economy. And now the world looks to them to save it from depression. With the global economy facing the biggest slump since the 1930s, the World Bank says that “a new engine of private demand growth will be needed, and we see a likely candidate in the still largely untapped consumption potential of the rapidly expanding middle classes in the large emerging-market countries.”

This special report will assess these expectations. It will argue that many of them are broadly justified; that there is indeed something special about the contribution the middle classes make to economic development that goes beyond providing a market for Western consumer goods. The middle classes can, and sometimes do, play an important role in creating and sustaining democracy, though on their own they are not sufficient to create it, nor do they make it inevitable. On balance, the report is optimistic about the prospects of countries where the middle classes are growing. But they are not a homogeneous group, so their impact varies. A middle class that has grown largely to tend to the state will behave differently from one that is based on the private sector.

The one-third rule

But who, as a patrician British prime minister, Harold Macmillan, once loftily asked, are these middle classes? Their members are neither rich nor poor but somewhere in-between. In countries long divided between lord and peasant, that has large consequences. “Middle-class” describes an income category but also a set of attitudes. In the words of Shashi Tharoor, an Indian commentator, it is a category “more sociological than logical”.

An essential characteristic is the possession of a reasonable amount of discretionary income. Middle-class people do not live from hand to mouth, job to job, season to season, as the poor do. Diana Farrell, who is now a member of America’s National Economic Council but until recently worked for McKinsey, a consultancy that has spent a lot of time studying the middle classes, reckons they begin at roughly the point where people have a third of their income left for discretionary spending after providing for basic food and shelter. This allows them not just to buy things like fridges or cars but to improve their health care or plan for their children’s education.

Usually, an income of that size requires regular, formal employment, with a salary and some benefits, that is, a steady job—another key middle-class characteristic. The income needed to have a third of it left over after meeting basic needs also varies from place to place. In China, for example, $3,000 a year may be enough in Chongqing or Chengdu, big cities in the west, but not in Beijing or Shanghai. So defining the middle class in absolute terms is hard (see article).

In practice, emerging markets may be said to have two middle classes. One consists of those who are middle class by any standard—ie, with an income between the average Brazilian and Italian. This group has the makings of a global class whose members have as much in common with each other as with the poor in their own countries. It is growing fast, but still makes up only a tenth of the developing world. You could call it the global middle class.

The other, more numerous, group consists of those who are middle-class by the standards of the developing world but not the rich one. Some time in the past year or two, for the first time in history, they became a majority of the developing world’s population: their share of the total rose from one-third in 1990 to 49% in 2005. Call it the developing middle class.

Using a somewhat different definition—those earning $10-100 a day, including in rich countries—an Indian economist, Surjit Bhalla, also found that the middle class’s share of the whole world’s population rose from one-third to over half (57%) between 1990 and 2006. He argues that this is the third middle-class surge since 1800. The first occurred in the 19th century with the creation of the first mass middle class in western Europe (see chart 1). The second, mainly in Western countries, occurred during the baby boom (1950-1980). The current, third one is happening almost entirely in emerging countries. According to Mr Bhalla’s calculations, the number of middle-class people in Asia has overtaken the number in the West for the first time since 1700 (see chart 2).

 In many emerging markets the middle class does not grow incrementally, in line with, say, economic growth. It surges. Chart 3 below shows why. The vertical line represents an income of $10 a day, which is where Mr Bhalla considers the middle class to start. In 1980 there was hardly anyone beyond that line. The lop-sided bell shape represents the distribution of income in a country (in this case, China) with a tail of poor people on the left, a longer tail of rich ones on the right and a bulge of people on average incomes in the middle.

As the economy grows, the bell moves to the right and as it meets the threshold, a great whoosh of people cross into the middle class. In reality, growth may be even faster because the shape of the bell has been changing. According to new research by Martin Ravallion, the director of the World Bank’s development research group, income distribution in developing countries started to shift between 1990 and 2005. The bulge in the middle of the range got bigger, making the bell taller, so the middle class is growing even faster.

 At a certain stage it starts to boom. That stage was reached in China some time between 1990 and 2005, during which period the middle-class share of the population soared from 15% to 62%. It is just being reached in India now. In 2005, says the reputable National Council for Applied Economic Research, the middle-class share of the population was only about 5%. By 2015, it forecasts, it will have risen to 20%; by 2025, to over 40%.

Sweet spot

Homi Kharas, of the Brookings Institution, a think-tank in Washington, DC, argues that the point at which the poor start entering the middle class in their millions is the “sweet spot of growth”. It is the moment when poor countries can get the maximum benefit from their cheap labour through international trade, before they price themselves out of world markets for cheap goods or are able to compete with rich countries in making high-value ones. It is also almost always a period of fast urbanisation, when formerly underemployed farmers abandon what Marx called “the idiocy of rural life” for the cities to work in manufacturing, boosting their productivity many times over. Eventually this results in a lessening of income inequalities because the new middle class sits somewhere between the rich elite and the rural poor.

The surge across the poverty line is a period of accelerating growth both for the new middle class and for the country it inhabits. That should continue for a couple of decades. By most estimates, the global middle class will more than double in number between now and 2030. This will have profound social consequences, as happened in previous middle-class surges.

Close to the creation of the world’s first mass middle class in early 19th-century England, Thomas Malthus (the political economist who scared the world with his forecasts of overpopulation and food shortages) wrote that “it is probable that extreme poverty or too great riches may be alike unfavourable [to furthering the progress of mankind]. The middle regions of society seem to be best suited to intellectual improvement.”

Marx, who admired Malthus, was equally astonished by the emergence of the middle class. As he wrote in the “Communist Manifesto”:

Historically it has played a most revolutionary part. The bourgeoisie, wherever it has got the upper hand, has put an end to all feudal, patriarchal, idyllic relations…It has accomplished wonders far surpassing Egyptian pyramids, Roman aqueducts and Gothic cathedrals…The bourgeoisie has through its exploitation of the world market given a cosmopolitan character to production and consumption in every country…All old-established national industries have been destroyed or are daily being destroyed. They are dislodged by new industries, whose introduction becomes a life-and-death question for all civilised nations…In place of the old wants, satisfied by the production of the country, we find new wants, requiring for their satisfaction the products of distant lands and climes…National one-sidedness and narrow-mindedness become more and more impossible, and from the numerous national and local literatures there arises a world literature. The bourgeoisie, by the rapid improvement of all instruments of production, by the immensely facilitated means of communication, draws all, even the most barbarian, nations into civilisation.

13/02/2009 - 13:18h O paraíso dos sem-crise

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Maria Cristina Fernandes – VALOR

No dia em que foi aberta, em novembro do ano passado, a loja das Casas Bahia na favela de Paraisópolis vendeu mais do que qualquer outra unidade em São Paulo. Desde sua inauguração, que atraiu cobertura do ‘Financial Times’, seu volume de vendas mantém-se superior ao de muitas das lojas que o grupo mantém em shoppings, o que animou a direção a abrir unidades semelhantes nas maiores favelas de São Paulo e do Rio – Heliópolis e Rocinha.

Em 2007, 250 famílias da comunidade recebiam refeições gratuitas na associação de moradores. O número foi se reduzindo e agora está em 110 famílias atendidas.

O presidente da associação, Gilson Rodrigues, militante de 24 anos do movimento de alfabetização de adultos, atribui ao perfil do emprego dos moradores da região – empregadas domésticas, babás, faxineiras, motoristas, porteiros, seguranças e jardineiros – absorvidos pelo vizinho Morumbi, a impermeabilidade à retração econômica.

A brecha para a crise seria a queda no emprego na única indústria que atrai mão de obra na região, a da construção civil. Mas é também a retração no setor que tem freado um de seus mais latentes focos de tensão, a avidez da indústria imobiliária sobre uma comunidade em que 90% das edificações estão em terrenos irregulares.

A proximidade de um dos bairros mais ricos de São Paulo faz de Paraisópolis uma favela atípica numa cidade em que a pobreza está radicalmente periferizada. É da relação com os vizinhos, entre os quais alguns dos melhores hospitais e escolas privadas da cidade, que vem uma longa tradição em parceiras com organizações não-governamentais que amplia a precária rede de serviços de saúde e educação ofertados aos moradores da favela.

Estão separados de seus empregadores por poucos quarteirões, ou apenas por um muro, como mostra a premiada foto de Tuca Vieira, do prédio com uma piscina por andar que desce, em cascata, até o limite do casario empilhado de tijolos sem reboco.

Ao contrário de outros favelados, que distam de três a quatro horas de transporte público de seus locais de trabalho, os de Paraisópolis se deslocam a pé. São os únicos pedestres na silenciosa paisagem de ruas arborizadas, sinuosas e cheias de cancelas.

Esse pacto de convivência esteve ameaçado dez dias atrás quando um grupo de jovens desceu os 187 degraus que separam a favela da avenida que corta o Morumbi. O motim foi resumido por uma dona de casa de 42 anos, que passava pelo local em seu Siena prata, aos repórteres Vitor Brandalise, Bruno Tavares e Bruno Paes Manso, de “O Estado de S.Paulo”: “Me senti no meio do inferno. Eram garotos de 10 a 15 anos com pedras nas mãos, pedindo celular, a bolsa. Quebraram tudo. Perguntaram se eu estava bem, mas disseram: ‘Precisávamos fazer isso porque mataram um dos nossos”.

O inquérito sobre o motim ainda não foi concluído, mas as apurações apontam para a deterioração nas relações entre a polícia local e os moradores que serviu de combustível para os chefes do tráfico local, supostamente ligados ao PCC.

As estatísticas policiais corroboram a hipótese de disputa pelo comando do tráfico. Pelos números oficiais, a região tem indicadores de segurança melhores do que a maioria das favelas da cidade. O que tem crescido acima da média paulistana são as ocorrências ligadas ao tráfico de drogas que ali abastece grande parte da zona sul paulistana.

A associação dos moradores avalia que atuação de mais de 50 organizações governamentais atenda à metade da demanda local. Avalia-se que, apesar das quatro escolas municipais e quatro estaduais da região, haja 5 mil crianças e 1 mil jovens desmatriculados, além de 15 mil analfabetos.

O ensino médio abriga apenas 20% da população elegível. Apenas 0,5% dos jovens entre 18 e 24 anos estão no ensino superior. Quinze anos atrás, quando o Prouni era uma miragem, esse índice chegou a ser duas vezes maior.

A favela abriga o PAC Paraisópolis, que reune investimentos federal, estadual e municipal em habitação. A menos de um quilômetro da favela está o Palácio dos Bandeirantes, onde ontem foi anunciada a antecipação de investimentos do governo paulista em reação à crise.

A economia de Paraisópolis bombava quando a cacicada local mandou seus meninos arregaçarem nas ruas do Morumbi, moradia de grande parte dos mais atingidos pelas perdas financeiras da crise.

Como buchas de canhão do tráfico, acabaram espicaçando um bem-sucedido modelo de parcerias público-privadas que dá sinais de ter chegado ao seu limite. Não são capazes de redimir a ausência do Estado na assistência a uma legião de excluídos espremidos entre as bolsas de estudo disputadas a tapa em colégios de elite e o crediário em 48 prestações.

O motim mostra os riscos trazidos pela crise. Que entre o Morumbi e Paraisópolis se erga mais uma cancela. Entre os que clamam por mais Estado para redimir suas perdas e aqueles que, sem nunca terem tido acesso às suas benesses, fiquem cada vez mais longe delas.

Maria Cristina Fernandes é editora de Política. Escreve às sextas-feiras

E-mail mcristina.fernandes@valor.com.br