Hoje Estadão e Folha parecem mancomunados, um complementando o outro. A Folha mostra o descaso de Kassab com o transporte público, com aumento do número de passageiros e a diminuição do número de ônibus; enquanto o Estadão retrata as consequências para o trânsito do mesmo abandono e ausência de iniciativa do prefeito. É bom lembrar que nenhum corredor novo viu a luz após 5 anos de administração demo-tucana da capital e que o trânsito é um pesadelo diário e sem horário na cidade. Ambos fenômenos têm como causa principal a falta de investimento no transporte público, tanto da prefeitura de Kassab como dos sucessivos governos estaduais do PSDB com o metrô.
Como os eleitores manifestam ainda uma certa simpatia pelas “gestões” demo-tucanas em São Paulo -é o que dizem as pesquisas- cabe a eles engolir seco. Foi enganado e não sabia? Sorria, meu bem, sorria…LF
São Paulo perde ônibus e ganha passageiros
Com 207 veículos a menos, frota de transporte público transportou 220 mil pessoas a mais neste ano; prefeito prometeu manter tarifa a R$ 2,30
Se por um lado há mais produtividade -o que agrada a viações e perueiros-, de outro passageiros sofrem com a superlotação e a demora
ALENCAR IZIDORO – Folha SP
DA REPORTAGEM LOCAL
A frota do transporte público da capital paulista perdeu 207 ônibus e ganhou mais de 220 mil passageiros neste ano em que a gestão Gilberto Kassab (DEM) promete manter a passagem congelada em R$ 2,30.
O cenário, de um lado, significa um aumento de produtividade (ganha-se mais com mais usuários; gasta-se menos com menos veículos), comemorado por viações e perueiros para compensar a promessa do prefeito de não reajustar a tarifa.
De outro, indica a piora do conforto para os usuários, aumento da superlotação e da demora para os coletivos passarem nos pontos, segundo avaliam especialistas e operadores.
A diminuição de 1,4% (na média entre janeiro e maio), numa frota de 15 mil veículos aptos para uso, e a elevação de 2,9% no número de passageiros ocorrem em meio à insatisfação dos paulistanos com a qualidade dos serviços.
Em 2008, a taxa de aprovação dos ônibus foi de 40%, a mais baixa da década, conforme pesquisa da ANTP (associação de transportes públicos).
O aumento do número de usuários -apesar da má qualidade do transporte paulistano e da crise econômica- tem sido incentivado principalmente pelo congelamento da tarifa.
Enquanto o bilhete do metrô e dos trens tem reajuste anual (custa R$ 2,55 hoje), a dos ônibus se mantém em R$ 2,30 desde novembro de 2006.
Além disso, Kassab concedeu incentivos, como a ampliação do tempo de uso do bilhete único de duas para três horas, às vésperas das últimas eleições.
Já a redução da frota disponível para rodar na capital paulista está ligada a motivos como a aposentadoria de alguns ônibus velhos sem a completa reposição por outros novos.
“Ainda que não houvesse redução de frota, um aumento de passageiros nas condições atuais significa, no mínimo, uma queda sensível do padrão de conforto”, afirma Jaime Waisman, professor da USP.
“Não é por falta de aviso. Toda hora a gente senta para discutir com a prefeitura e fala descaradamente: “Vocês dão benefício ao passageiro sem pensar na frota, está tudo superlotado, os veículos não aguentam tanta gente’”, diz Levi Araújo, técnico das cooperativas de perueiros.
A categoria reivindica a permissão para usar veículos com maior capacidade -mas há resistência de empresários de ônibus, que temem perder parte da fatia do mercado.
Lotação
O fenômeno de aumento do número de passageiros e de redução da frota foi concentrado principalmente nas lotações -operadas por perueiros que trabalham com ônibus pequenos (micro-ônibus, miniônibus e convencionais).
A redução no número de lotações acontece porque os perueiros rodam mais na periferia, principal alvo de benefícios como a ampliação do bilhete único de duas para três horas.
De um ano para cá, a frota dos perueiros diminuiu 2,1% -enquanto suas catracas receberam 7,3% mais usuários.
Com isso, uma lotação já tem transportado, em média, por mês, mais do que um ônibus -diferentemente do que ocorria antes e apesar de a maioria ter metade do espaço de um ônibus padrão para passageiros em pé e sentados.
Em abril, por exemplo, havia 16.141 usuários para cada veículo de perueiro -0,6% mais do que a média para cada veículo de empresas de ônibus.
Na rua, 3 VUCs para cada caminhão
N.º de utilitários avança 11%, ante 2% dos caminhões; setor de carga quer manter circulação de veículos menores
Eduardo Reina, Naiana Oscar e Renato Machado – O Estado SP
A restrição de caminhões teve impacto direto no aumento da frota de utilitários da capital. Entre maio de 2008 e maio deste ano, o número de veículos de carga de menor porte cresceu quase cinco vezes mais que o de caminhões. A frota de utilitários da capital passou de 561,9 mil para 624,4 mil, uma alta de 11% (no Estado, a alta foi de 9%). Enquanto o número de caminhões nas ruas subiu 2,99% (no Estado, foram 4,9%), chegando a 166,6 mil veículos no mês passado.Esse fenômeno é apontado pelo Sindicato das Empresas de Transporte de Carga de São Paulo como o “furo” da medida municipal. O setor defende que, ao restringir os caminhões, a Prefeitura aumentou a quantidade de veículos a ocupar espaço nas ruas e, assim, contribuiu com os congestionamentos. “A Secretaria de Transportes está obtendo justamente o efeito contrário”, afirmou o presidente da entidade, Francisco Pelucio. O setor reivindica que a Prefeitura libere a circulação irrestrita dos Veículos Urbanos de Carga (VUCs), caminhões com capacidade de 4 toneladas. Hoje, eles precisam respeitar um rodízio de dias pares e ímpares. A partir de novembro, devem ser totalmente proibidos das 5 às 21 horas. “Sem eles, vai ficar inviável manter o abastecimento no centro expandido.”MERCADORIAS DEVOLVIDAS
Para se adaptar às medidas, a distribuidora de bebidas Ambev passou a fazer entregas no centro com 51 VUCs e 76 vans. Com dois centros de distribuição, um no Jaguaré e outro na Mooca, a empresa abastece 8,2 mil postos de venda dentro da Zona Máxima de Restrição de Circulação (ZMRC). Nos primeiros meses de restrição, a Ambev registrou um índice de devolução de mercadoria no período noturno de 17%, por conta da falta de estrutura nos postos de venda. A média nacional é de 1%. Atualmente, com as adaptações, a empresa chegou a um índice de devolução de 5% na capital.
Se os VUCs forem proibidos durante todo o dia, o serviço da Ambev terá de ser realizado por 260 vans, aumentando em 65% a emissão de gases poluentes pela frota da empresa – e em 105% a contribuição para os congestionamentos.
Velocidade média dos carros em SP, no pico da manhã, cai 16,6% em 1 ano
Um ano após restrição a caminhões, paulistano ainda chega a trafegar em velocidade inferior a de uma carroça
Eduardo Reina, Naiana Oscar e Renato Machado – O Estado SP
Apesar de uma série de medidas e obras para ampliar a fluidez na capital paulista – incluindo a restrição aos caminhões, que completa amanhã um ano -, os motoristas perdem cada vez mais tempo no trânsito em São Paulo. As medidas para impedir a circulação de caminhões no centro expandido reduziram os índices de congestionamento, mas não foram suficientes para aumentar a velocidade desenvolvida pelos veículos nas ruas da capital.
Dados obtidos pelo Estado mostram que, entre maio do ano passado (um mês antes do início da medida) e maio deste ano, a velocidade média nos horários de pico apresentou queda. Pela manhã, esse índice passou de 30 km/h para 25 km/h (-16,6%). E no horário de pico da tarde, de 17 km/h para 15 km/h (-11,7%). Uma carroça puxada por dois cavalos consegue um desempenho de 28 km/h. Isso sem contar que, no dia 10 de junho, véspera de um feriado prolongado, a capital registrou o maior congestionamento da história, com 293 km de extensão. Os dados de “Resumo Mensal” da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) abrangem os índices até o mês passado.
No rush da tarde, com a velocidade média registrada atualmente, um carro leva quase cinco vezes mais tempo para percorrer os 24,5 km da Marginal do Tietê do que se estivesse desenvolvendo a velocidade limite permitida na pista expressa. Com o desempenho atual, esse percurso leva 1h30, quando poderia ser completado em 20 minutos, caso o trânsito estivesse fluindo normalmente no limite de 90km/h.
A diminuição da velocidade média já havia sido registrada no ano passado, mesmo com a série de medidas adotadas no segundo semestre para dar mais fluidez ao trânsito – a Prefeitura também extinguiu vagas de estacionamento em pelo menos cinco bairros para criar mais faixas de rolagem. No pico da tarde, a velocidade média foi de 18 km/h, ante 22 km/h de 2007, queda de 18,1%. O fenômeno foi inverso no pico da tarde, quando houve uma alta de 14,8% – passou de 27 para 31km/h.
As médias dos maiores congestionamentos registrados no pico da manhã e da tarde, nos cinco primeiros meses de 2009, são de 87 e 121 quilômetros, respectivamente. Em 2008, esses índices eram de 91 e 129 quilômetros de extensão. Por enquanto, uma redução de 4,3% no congestionamento da manhã e de 12,9% na lentidão da tarde.
Quando as regras de circulação de caminhões foram anunciadas no ano passado, a Prefeitura estimou uma redução de 17% nos índices de congestionamento na capital. O decreto municipal proíbe que caminhões grandes circulem por uma área de 100 km² dentro do centro expandido das 5h às 21h. Já os caminhões menores, chamados Veículos Urbanos de Carga (VUCs), têm de respeitar um rodízio de placas pares e ímpares das 10h às 16h. Isso até novembro, quando a secretaria deve estender aos VUCs as mesmas restrições dos caminhões.
O cálculo das médias de lentidão e de velocidade é feito de formas distintas pelos técnicos da CET. No primeiro caso, a medição toma por base o congestionamento máximo de cada dia registrado no horário de pico. E a velocidade é medida de acordo com o tempo de percurso de veículos de passeio escolhidos aleatoriamente na hora do rush. São coletadas cinco amostras, sempre no sentido de maior fluxo.
PREFEITURA
No início do mês, a Prefeitura começou a veicular propaganda anunciando queda nos registros de congestionamento com a restrição de caminhões (mais informações na página C3). Mas procurada para falar sobre a velocidade média, a CET não retornou os contatos.