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Pânico atinge países emergentes, como a Argentina: para Krugman, será preciso realizar uma recapitalização maior e mais ampla dos bancos e afirmar com mais firmeza o controle do governo, algo que estará mais próximo da plena estatização temporária de uma parcela significativa do sistema financeiro
José Roberto Campos, de São Paulo – VALOR
Os poderosos bancos americanos foram dizimados pela farra com os empréstimos “subprime” e o mundo agora caminha rumo à recessão. Como foi possível que créditos irresponsáveis concedidos na periferia do sistema imobiliário americano – clientes que não obteriam crédito em situações normais – se tornassem tão destrutivos a ponto de ameaçarem a economia global? Já vimos isso antes, lembra o economista Paul Krugman, Nobel de 2008, em seu novo livro “A Crise de 2008 e a Economia da Depressão” (Editora Campus/Elsevier). Houve circunstâncias parecidas e alguns dos mesmos atores na crise mexicana de 1995, no vendaval que se abateu sobre Coréia do Sul, Malásia, Tailândia e Indonésia em 1997, na crise russa de 2008, nos fins traumáticos dos sistemas cambiais de Brasil e Argentina e no pânico com a quebra do fundo de hedge americano LTCM, em 1998.
Heterodoxo e pragmático, Krugman reescreveu partes de seu livro de 1999, em que aborda essas crises, e atualizou-o até o mergulho na insolvência dos grandes bancos americanos. Ao longo do tempo, há uma continuidade em todos os desastres econômicos recentes, e alguns padrões de comportamento repetidos em países muitos distintos entre si. “Parcela considerável do aumento da globalização financeira decorre de investimentos de instituições financeiras altamente alavancadas, que faziam vários tipos de apostas transfronteiriças arriscadas”, escreve Krugman. “Quando as coisas davam errado nos Estados Unidos, esses investimentos transfronteiriços atuavam como ‘mecanismos de transmissão’, pelo qual uma crise que eclodiu no mercado habitacional dos Estados Unidos desencadeou sucessivas outras no exterior.”
Um número grande de instituições financeiras, como bancos de investimentos e fundos de hedge, não era regulado por ninguém e reuniu tamanho poder e apetite por risco que se tornou um fator global de desestabilização das economias. Depois que elas semearam o pânico em países emergentes, implodiram junto com apostas excessivas na bolha de imóveis. É ilustrativa a descrição do poder de fogo atual dessas instituições traçado por Timothy Gethner, ex-presidente do Federal Reserve de Nova York e indicado para secretário do Tesouro do presidente Barack Obama, citado por Krugman. No início de 2007, conta, havia US$ 2,2 trilhões em coisas exóticas como “asset-backed commercial papers conduits”, “structured investment vehicles”, “auction-rate preferred securities”, “tender options bonds” e “variable rate demand notes”. Os ativos dos fundos de hedge eram de US$ 1,8 trilhão e os dos cinco maiores bancos de investimento, US$ 4 trilhões. Já os cinco maiores bancos comerciais detinham US$ 6 trilhões.
“A crise, em boa parte, não envolveu problemas com instituições desregulamentadas, que assumiram novos riscos. Ao contrário, girou em torno de riscos assumidos por instituições que, para começar, nunca foram regulamentadas.” Elas tinham tanto cacife financeiro quanto os bancões comerciais sob a vigilância do Federal Reserve, e uma ousadia que chegava quase que fatalmente à imprudência.
A história da atual recessão começa então com o estouro da bolha habitacional, que, para Krugman, deverá destruir US$ 8 trilhões em riquezas – US$ 7 trilhões de perdas para os donos dos imóveis e US$ 1 trilhão para os investidores. Esse trilhão de dólares é o rabo que acabou balançando o cachorro. Espalhados em títulos tóxicos pelo resto do mundo, forçaram uma espiral de vendas para cobrir posições e prejuízos que derrubou os preços de praticamente todos os ativos, em todos os mercados, em todo o mundo – e, casualmente, quebraram até a Islândia.
Uma retrospectiva das crises anteriores e das idéias na moda mostram como isso se tornou possível. A crença nos poderes mágicos do mercado levou os economistas a quase decretar o fim dos ciclos econômicos. O presidente do Fed, o todo-poderoso Alan Greenspan, que reinou de 1987 a 2006, e que “conseguira substituir a bolha de ações pela bolha habitacional”, disse em 2004 que o sistema bancário estava mais “resiliente”, uma afirmação só menos temerária que a do secretário do Tesouro de George Bush, Henry Paulson, que afirmou a mesma coisa em 2007, quando os bancos estavam caindo no abismo.
A mesma crença impulsionou a desregulamentação, que escancarou os mercados a investidores audazes e aventureiros, especialmente aos fundos de hedge, que, como qualifica bem Krugman, não buscam hedge e sim seu oposto, “extrair o máximo das flutuações de mercado”. O irmão gêmeo da desregulamentação foi o “risco moral”, a percepção, que se tornou verdadeira, de que qualquer estripulia financeira que desse errado seria consertada com dinheiro público, desde que fosse suficientemente grande para isso.
O crescente poder de fogo de instituições financeiras alavancadas patrocinou o “pânico auto-realizável”, que vitimou, por exemplo, os países asiáticos em 1997. Essas economias eram vulneráveis, diz Krugman, mas “não em razão do capitalismo de compadres, nem de políticas públicas que, sem dúvida, eram consideradas inadequadas”. Essa fragilidade aumentou com a abertura de seus mercados financeiros, pelo fato de, “na verdade, se tornarem melhores economias de mercado, não piores”, avalia.
Krugman considera que os US$ 700 bilhões do programa de alívio de ativos problemáticos são pouco para levantar os bancos, que poderão não estar dispostos a emprestar o dinheiro que recebem como ajuda. A recapitalização deverá ser maior e mais ampla, com maior controle do governo, “algo mais próximo da plena estatização temporária de parcela significativa do sistema financeiro”.
Ele acha que os gastos públicos são a melhor forma de estímulo econômico, superior às isenções fiscais. As vantagens: o dinheiro é realmente gasto, e não poupado, e, depois, com obras públicas “algo de valor seria construído”. A receita de um pragmático como ele é fazer tudo o que for preciso para reverter a crise, sem amarras ideológicas. Depois de afastado o perigo, deve-se consertar a bagunça. Sua posição sobre a reforma do sistema financeiro é igualmente simples. “Qualquer coisa que necessite de socorro durante a crise financeira, por desempenhar papel essencial no sistema financeiro, deve ser submetida à regulamentação, quando a crise tiver sido superada, para que não envolva riscos excessivos”, explica.
Conceitualmente, a economia da depressão parece um termo amplo demais, que abarca fenômenos distintos. Krugman a define a partir de falhas no lado da demanda da economia como “fator limitativo inequívoco à prosperidade econômica em boa parte do mundo”. Mas, pelo menos em alguns aspectos essenciais, as crises descritas surgiram durante um dos períodos de maior prosperidade da economia mundial, quando a demanda brotava em todos os lados, regada a crédito farto. A história de Tailândia, Malásia, Indonésia e Coréia é a de países bem-sucedidos, pelo menos pelo padrão das taxas de crescimento econômico.
Krugman chega a oscilar em seu diagnóstico, em geral muito preciso. A vulnerabilidade das economias da Ásia, do México e Brasil ao “pânico auto-realizável” torna-se quase inexplicável. Em um momento, acumular dívidas em moeda estrangeira é um dos principais suspeitos da catástrofe. Em outros, como no caso da Ásia, a repentina, e quase imotivada, é perda de confiança nos mercados que dá o sinal para o colapso. E chega a ser obscura a ligação entre a crise argentina e mexicana e a hecatombe atual dos bancos internacionais. “Sinto-me tentado a afirmar que essa crise não se assemelha a nada que tenhamos visto antes”, confessa. “Porém, eu seria mais exato se afirmasse que ela se parece com qualquer outra que já presenciamos em diferentes épocas, só que agora é como se todas estivessem acontecendo de uma vez, ao mesmo tempo.” A primeira hipótese, também bastante sugestiva, bem que poderia resultar em um outro ótimo livro de Paul Krugman.
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Celso Ming, O Estado SP
celso.ming@grupoestado.com.br
Vai-se espalhando a percepção de que os bancos e outras instituições que também são chamadas de quase-bancos, estão soltas demais. Assim como deitaram e rolaram nas operações que precipitaram a crise, continuam deitando e rolando com os recursos que vêm recebendo dos bancos centrais e dos Tesouros nacionais.
Domingo, em entrevista à rede ABC News, o presidente eleito dos Estados Unidos, Barack Obama, declarou que está desapontado com a qualidade de gerenciamento dos primeiros US$ 350 bilhões de recursos do Programa de Alívio de Ativos Problemáticos (Tarp, na sigla em inglês). Este é o plano de US$ 700 bilhões do secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Henry Paulson, para salvar os bancos. Obama pediu prestação de contas sobre o uso dos recursos.
E ontem, na sede do Banco de Compensações Internacionais (BIS), na Basileia, dirigentes dos bancos centrais nacionais da região do euro criticaram a supervisão bancária do bloco. O problema é tanto de flacidez na fiscalização como de falta de transparência.
Enfim, a questão central é de regulação precária, de fiscalização omissa e de supervisão falha. É um tema que tem sido genericamente tratado como “inexistência de regulação” ou como “terra sem lei”.
Antes, é preciso delimitar os campos. Uma coisa é falta de regulação e outra, bem diferente, falta de supervisão. Não dá para negar que muita coisa está sob a lei da selva. Os bancos de investimento não são considerados bancos e, no entanto, operam no crédito. O Morgan e o Lehman mostraram que essas instituições vinham excessivamente alavancadas. Seus ativos chegavam a 30 ou 40 vezes seu patrimônio líquido (o máximo tolerado pelos Acordos de Basileia é 10 vezes). Não tinham condições de cobrir os rombos se os tomadores de crédito não honrassem seus compromissos, como ocorreu.
E, no entanto, há uma quantidade enorme de subsetores que direta ou indiretamente operam no crédito e, no entanto, não estão regulados: sociedades de crédito imobiliário, fundos de hedge, seguradoras de crédito, agências de avaliação de risco e empresas que trocam grandes volumes de títulos de dívida (commercial papers). Estão também de fora os mercados de derivativos e os paraísos fiscais, que o primeiro-ministro da Inglaterra, Gordon Brown, quer controlados.
A encrenca é mais profunda. Os mercados estão muito globalizados, funcionam à velocidade da luz, 24 horas por dia e, no entanto, as instituições que os deveriam controlar, além de serem excessivamente pulverizadas (há dezenas de organismos de supervisão nos Estados Unidos, por exemplo), têm alcance apenas local. Quem, afinal, deverá fiscalizar um fundo de hedge ou uma seguradora de crédito que opera em 20 mercados diferentes?
Problema igualmente intrincado é o de que nem mesmo a supervisão regular está sendo feita. O Federal Reserve (banco central dos Estados Unidos) deixou que os bancos americanos fizessem o que fizeram. A Securities and Exchange Commission (SEC) não conseguiu enxergar a lambança que o estelionatário Bernard Madoff armou sob suas pernas. As agências de classificação de risco distribuíram fartamente certificados AAA para títulos que, na verdade, não passavam de fumaça.
Confira
Dureza – Desta vez, o presidente Lula deixou de lado o diagnóstico da “marolinha” e não escondeu que a situação do emprego nos primeiros três meses do ano “é preocupante”.
Mas não dá para saber qual será a força do desemprego no Brasil e até que ponto o consumo interno está rateando.
Ele vem aí – O centro da crise ainda são os Estados Unidos e é de lá que vem a incerteza. Mas muito dessa incerteza pode ser dissipada em prazo relativamente curto se o novo presidente Barack Obama conseguir inspirar confiança. Por isso, seus primeiros cem dias de governo serão decisivos.
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Alberto Tamer* – O Estado SP
Há sinais de esperança e reina um clima de alívio no mercado internacional nestes primeiros dias do ano. Obama confirmou na terça-feira o seu plano ousado de investimentos de até US$ 800 bilhões. Destes, US$ 300 bilhões só em redução e devolução de impostos. Começa executá-lo assim que assumir e tiver a aprovação do Congresso. Não é mais hora de debater, falar ou discutir, mas de agir com extrema urgência. O mundo ouviu, espera ansioso e vê sua esperança ganhar corpo de realidade.
SEM ACADEMICISMO
Os pronunciamentos de Obama nesta semana mostram que sua equipe e ele rejeitaram definitivamente a proposta de usar a política monetária, juros e injeção de liquidez, para combater a recessão. Paul Krugman, em mais um artigo excelente publicado ontem no Estado, mostra que essa política fracassou (Ver aqui Combatendo a depressão). O Tesouro está inundando o mercado com dólares, o Fed baixou o juro real a zero, os bancos e as instituições financeiras foram abastecidas com vários trilhões de dólares, mas nada disso adiantou até agora. A recessão apenas se aprofunda e ameaça transformar-se em depressão.
Hoje, Paulson e Bernanke reconhecem que erraram ao se concentrar apenas no socorro ao sistema financeiro. O fato é que os números econômicos recentes são assustadores, não apenas nos Estados Unidos, mas em todo o mundo, afirma Krugman. Os bancos não estão emprestando, as empresas e os consumidores não estão gastando. “Não vamos medir palavras: isso se parece muito com o início da 2ª Grande Depressão.” E Krugman é o Prêmio Nobel de Economia deste ano.
É preciso voltar a Keynes. Para ele, a política monetária é ineficaz na depressão. Só a política fiscal – gastos deficitários do governo em grande escala -, pode combater o desemprego em massa, lembra Krugman.
OBAMA ACERTOU
E é exatamente isso o que Obama está fazendo. Na terça-feira, ele admitiu que os Estados Unidos poderão ter déficit orçamentário de US$ 1 trilhão não só em 2009. Não será nada trágico. Eles recebem investimentos externos anuais de US$ 2 trilhões e todos, no mercado americano e no exterior, continuam comprando os velhos títulos do Tesouro e os que estão sendo emitidos também.
A saída é reanimar a economia mundial com gastos públicos maciços. Estados Unidos e China já anunciam planos trilionários em obras e geração de empregos.O medo agora não é mais de inflação, mas de deflação. Se os preços continuarem a cair, a inflação chegará a zero e ninguém mais vai comprar esperando que baixem ainda mais. Aí estaríamos diante de um quadro de deflação e recessão. O pior dos mundos, que deve ser evitado, mesmo com os déficits dos governos.
DESEMPREGO ASSUSTA
Obama enfrenta a oposição do Partido Republicano. Isso é gravíssimo, pode retardar o início do programa de mais um mês com aumento do desemprego, que já está em 6,7% e ameaça passar de 10%. Dados preliminares estimam que só em dezembro foram demitidas 693 mil pessoas. Somados aos mais de 500 mil de novembro, só em dois meses há mais de 1,2 milhão de desempregados. Demissão em massa é o caminho certo para a recessão e a depressão. Espera-se que o Congresso seja mais responsável diante desses e de outros indicadores negativos que vão surgir.
CONFIA EM OBAMA,MAS…
Nestes primeiro dias do ano, ficou evidente que o mundo confia em Obama mas não no Congresso. Tudo depende de Obama e Obama depende do Congresso americano. Pode ser exagero, mas se a recuperação nos Estados Unidos for retardada por alguns meses pela politicalha dos republicanos conservadores e atrasados,o mundo vai pagar um preço muito caro que hoje eles poderiam evitar.
Esse é o grande temor que Krugman expressa em seu artigo. E deveria ser o temor de todos nós.
*Email – at@attglobal.net
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Antônio Delfim Netto: economista; para Delfim, a crise está fora da economia: ‘Seria uma crise de expectativa, de crença, de confiança’
Roberval Angelo Schincariol e Roger Marzochi, AGÊNCIA ESTADO
Para o economista Antônio Delfim Netto, o que fará a diferença na economia do tão temido ano de 2009 é a sensibilidade do brasileiro. E, para ele, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva é a encarnação do otimismo. “Lula é o maior economista do Brasil”, diz Delfim, na seguinte entrevista, concedida no dia 10 de dezembro, em seu escritório, em São Paulo.
Qual a avaliação que o sr. faz sobre os impactos da crise financeira no Brasil em 2009?
Você está em um ambiente complicado e é claro que o Brasil vai pagar o preço de fazer parte do mundo, como tem os benefícios. O Brasil usou a expansão que houve no mundo. E eu estou convencido de que essa crise é, simplesmente, a própria crise de 2001 consertada pelos economistas. Teve a crise em 2001, que foi a crise do pontocom, que explodiu, e apareceu aquela patifaria da Enron. E como é que os economistas resolveram essa crise? Fornecendo liquidez e permitindo que toda a imaginação do sistema financeiro se exercitasse plenamente, com a ideia de que o sistema tinha em si uma moralidade ínsita. Portanto, ninguém precisa se preocupar porque é tudo gente correta, que não vai fazer nada de patifaria…
O sr. avalia que hoje, então, houve o estouro da bolha da moralidade?
Não, a moralidade já explodiu na Enron. E o que o governo foi fazendo? O Fed e o Tesouro americano passando a grosa, permitindo que você fizesse um curto-circuito aqui, outro lá. Quando o (Henry) Paulson (secretário do Tesouro) tomou posse, em 2006, ele declarou: “Eu vim para acabar com o resto de regulação que está perturbando o crescimento.” Em 2006! A crise já estava explodindo! Então, você está diante de um fato: os economistas são capazes de produzir uma crise, mas não podem resolvê-la. A crise está fora da economia.
Seria uma crise de expectativa?
Seria uma crise de expectativa, de crença, de confiança. Qual é a origem da sociedade? Está no velho Platão, antes do Aristóteles. Para a coisa funcionar, tem de ter possibilidade de trocar o meu trabalho com outro. E tem de ter uma moeda. Nós estávamos produzindo milho. Eu vivia pobre, você também. Mas eu produzia o meu, você produzia o teu. Mas chegamos a um acordo. Eu vou produzir o milho e você vai fazer um buraco aí até conseguir água, depois a gente irriga o milho, vai dobrar a produção e vamos viver melhor. Esse é o progresso. Está no Adam Smith. Divisão do trabalho. Isso exige que eu confie que, enquanto eu estiver produzindo o milho, você esteja fazendo o buraco. Então, a confiança precede a sociedade. Ela é o cimento, o fator catalítico que faz funcionar a sociedade.
Na atual crise, o BC agiu no tempo certo?
A ação do BC foi no tempo próprio, com alguns pecadilhos. Em lugar nenhum do mundo o BC diz: “Eu vou dar dinheiro para banco grande comprar banco pequeno.” Muito menos vou dar dinheiro para banco público, porque aqui você tem dois problemas graves: a higidez de um banco não depende nem da sua propriedade nem do seu tamanho. O banco público não é muito mais seguro que nenhum banco privado. Mas por uma simples razão: porque banco, por definição, é quebrável.
Quando o sr. diz que o BC não deveria ter dito que o dinheiro era para comprar bancos pequenos, deveria ter dado o dinheiro sem dizer…
Não, deveria ter feito as coisas já de uma vez! Não deveria usar a técnica do conta-gotas. Quando se faz um sistema no qual eu compro a carteira do outro, estou levantando dúvidas sobre essa carteira. É como ter um dinossauro Rex de boca aberta e tem uma galinha que eu estou espantando para a boca do dinossauro.
Mas o sr. não avalia que a crise financeira será tão forte no Brasil como está sendo para o resto do mundo?
A crise americana vem vindo desde o começo de 2007. No Brasil, não. É uma crise datada. Vinha se desarrumando e, quando o Paulson faz a barbeiragem no Lehman, desaba tudo. Ou seja, ele matou o fator catalítico, que era a confiança. E no Brasil ocorreu uma função descontínua. É uma crise de confiança que atingiu os bancos lá fora.
Mas houve uma queda na concessão de crédito no Brasil.
Você imagina uma coisa. Chega um grande banqueiro brasileiro no Waldorf-Astoria e encontra com o homem do Citi, na sua importância, para dizer: “Eu ainda não cortei o crédito lá.” O homem do Citi diz: “Esse sujeito não faz parte do nosso clube.” Agora, nenhum deles fez patifaria aqui, nem sei se por virtude. É que aqui tinha formas de ter retorno muito mais seguro e mais alto que com a patifaria.
Com juros?
Então, nós já tínhamos a mais alta taxa e fizemos o maior aumento do mundo. Quando o mundo inteiro reduziu, nós continuamos insistindo na mesma política. Isso tudo, que era um defeito enorme, agora as pessoas dizem que foi uma clarividência. É como aquele francês, para quem ofereceram a Brigitte Bardot. Só que hoje ela está com 80 anos!
Se o senhor fosse o presidente do BC, qual seria a taxa ideal de juros?
O Brasil não tem nenhuma razão para ter a maior taxa de juro do mundo. A taxa de equilíbrio é 3%, 3,5%, como é no mundo todo. Com inflação de 5%, poderíamos rodar com 8% nominal. Mas tudo isso é absolutamente irrelevante porque o BC nem tem mecanismo para fazer esse negócio. Então, vamos pensar onde paramos. Paramos por uma questão psicológica. O Lula é o único economista que presta no Brasil porque é o único que está falando a verdade. A intuição dele mostra o seguinte: nós estamos interrompendo o circuito econômico porque, se você não comprar o carro, porque tem medo de ficar desempregado, é certo que você vai ficar desempregado, porque a Volkswagen não faz o carro por medo que não vai ter demanda. E o banqueiro, no final, que pensa que está salvo, ele também vai morrer junto com o sistema.
É como o sr. já comentou que, ao pregar a morte do crédito, os banqueiros acabam se “suicidando”?
Eles se suicidam porque não têm outro remédio. Porque nenhum banco é seguro! E aqui é que vem a segunda crítica à política do BC. Quando ele diz que está dando dinheiro para o Banco do Brasil, para a Caixa Econômica pra fazer isso ou aquilo, está dizendo o quê? Esses bancos são mais seguros. Isso tudo é um equívoco monumental.
Como o sr. mede a expectativa hoje?
O Lula, com todas as críticas… As pessoas ficam furiosas com o Lula. Porque há, na verdade, um preconceito enorme. A vantagem do Lula é não ter um curso superior.
É uma vantagem?
Sim, não é um prejuízo. Senão ele estava igualzinho aos de curso superior aí dizendo “tá tudo perdido!”, “estamos perdidos!”, ” ’sifu’ para todos nós!”. Então, o que acontece? É uma atitude ingênua, mas que corresponde a uma realidade. O fator principal é restabelecer aquilo que é o cimento da sociedade, que é a confiança.
E quanto disso pode se refletir no crescimento do Brasil?
Qualquer número é um chute. A minha convicção é a seguinte: quando o Brasil cresce? Cresce quando cresce mais que o mundo.
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Jon Hilsenrath, The Wall Street Journal
Autoridades monetárias ao redor do mundo lançaram ontem um saraivada de esforços para estimular a devastada economia global, que até agora tem desafiado todas a tentativas de contenção dos danos.
Os bancos centrais da Noruega, República Tcheca, Hong Kong, Arábia Saudita, Kuait e Omã cortaram a taxa de juros, um dia depois que o Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos, cortou as taxas de juros mais baixas e prometeu mais crédito não convencional para enfrentar o aprofundamento do declínio da economia americana.
Cortes adicionais da taxas de juros são cada vez mais prováveis de acontecer nas próximas semanas no Japão, Reino Unido e países da região do euro.
As decisões sobre a taxa de juros se somam ao estímulo fiscal de aproximadamente US$ 1 trilhão que está sendo articulado ao redor do globo para 2009.
Enquanto aumentam os esforços de socorro financeiro, os economistas tentam explicar por que nada tem funcionado até agora.
Economistas do J.P. Morgan estimam que a economia mundial vai encolher a uma taxa anualizada de 3,7% neste trimestre e outros 2,3% no primeiro trimestre de 2009, provavelmente o pior período de seis meses da economia mundial desde a Segunda Guerra.
Uma variedade de respostas à situação econômica atual está emergindo. Embora o Fed tenha cortado os juros agressivamente por mais de um ano, muitos outros países só adotaram estímulos poucas semanas atrás. Vai levar tempo para que esses esforços criem raízes. No entanto, políticas desastradas e meias-medidas, em alguns casos, só pioraram a situação. E a força da crise de crédito está se provando muito maior do que se imaginava.
Enquanto os EUA estão à frente de muitos outros países nos esforços para estimular o crescimento, muitos economistas dizem que os bancos americanos ainda não têm capital suficiente para amortecer as perdas, o que os faz relutar em emprestar.
Entre agosto de 2007, quando a crise de crédito começou, e setembro de 2008 o Fed reduziu a taxa de juros de 5,25% para 2%. Fora dos EUA, no entanto, as taxas de juros aumentaram no mesmo período, de acordo com o J.P. Morgan.
Isso mudou drasticamente em outubro. As taxas de juros fora dos EUA foram cortadas em 1,3 ponto percentual desde então. O J.P. Morgan também prevê que o estímulo fiscal de corte de juros e gastos públicos deve chegar a 1,5% do PIB mundial em 2009, ou cerca de US$ 1 trilhão, apesar de ter sido praticamente inexistente fora dos EUA em 2008.
“Na verdade, até outubro não havia nenhum estímulo vindo de fora dos EUA”, diz Bruce Kasman, um economista do J.P. Morgan.
O Banco Central Europeu ainda tem espaço para reduzir a taxa oficial de juros dos atuais 2,5% diante do esfriamento aguçado da inflação, disse ontem Axel Weber, membro do conselho de governadores da instituição.
Ao mesmo tempo, a ata da reunião do Comitê de Política Monetária do Banco da Inglaterra no começo deste mês sugeriu que o banco central do Reino Unido tende a fazer mais cortes nos juros. A ata mostrou que as autoridades do banco enxergaram uma “probabilidade significativa” de a inflação ficar abaixo da meta de 2% e discutiram cortes agressivos nos juros. A lentidão da tomada de decisão é apenas parte do problema.
Os economistas também estão criticando cada vez mais as escolhas das autoridades monetárias nos últimos meses.
“Praticamente todas as iniciativas tomadas até agora para dar suporte à funcionalidade do mercado financeiro têm sido parciais, em vez de abrangentes”, disse ontem o diretor-gerente adjunto do Fundo Monetário Internacional, John Lipsky.
Na raiz do declínio, disse ele, está um poderoso processo conhecido com desalavancagem, no qual as empresas e as famílias reduzem sua dependência do crédito. Mesmo que centenas de bilhões de dólares dos cofres públicos já tenham sido gastos em todo o mundo para proteger os bancos de perdas e créditos de risco, Lipsky disse que as autoridades ao redor do mundo ainda não fizeram o suficiente para recapitalizar os bancos e eliminar os créditos podres do sistema financeiro.
“A desalavancagem do mercado financeiro ainda está em curso, sustentando nossa expectativa de uma desaceleração substancial e sustentada no crescimento do crédito até o próximo ano”, disse Lipsky.
Simon Johnson, que já foi economista-chefe do FMI, estima que as instituições financeiras de todo o mundo vão precisar dar baixa contábil de aproximadamente US$ 1,5 trilhão de dívidas de alto risco atreladas às hipotecas dos EUA, dívida de empresas e de pessoas físicas, mas não passaram nem por dois terços do processo. Elas também ainda não levantaram capital suficiente para amortecer as próprias perdas, disse ele.
John Taylor, economista da Universidade Stanford e ex-funcionário do Tesouro do governo George W. Bush, argumenta num documento publicado recentemente que autoridades dos EUA deram um tiro no pé em setembro ao semear confusão a respeito do uso que fariam dos recursos públicos de ajuda aos bancos.
O texto dele mostra que uma medida fundamental da aversão ao risco no sistema bancário – a taxa de juros Libor, ou taxa do interbancário de Londres – disparou no dia em que o presidente do Fed, Ben Bernanke, e o secretário do Tesouro, Henry Paulson, procuravam explicar o plano de resgate. A incerteza a respeito do plano dos EUA, em outras palavras, puxou para cima o custo dos empréstimos.
Isso pode ter sido ainda mais perturbador para o mercado do que a quebra do Lehman Brothers, uma semana antes, disse Taylor. “As medidas do governos e intervenções feitas prolongaram e agravaram a crise financeira”, escreveu ele.
Apesar dos erros, começam a surgir sinais de que as medidas do governo estão tendo um impacto maior. Nos EUA, a taxa de juros das hipotecas caiu ontem, logo depois do corte de juros adotado pelo Fed no dia anterior.
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Alberto Tamer * – O Estado SP
Juro praticamente zero nos Estados Unidos. O Federal Reserve (Fed, obanco central americano) está nu, segurando tangas esfarrapadas que não encobrem nada.Acabou a munição monetária para animar a economia entorpecida.
Ao contrário do nosso Banco Central, que tem muita bala, mas ainda hesita em se despir, só lhe resta agora criar e inundar o mercado com uma enxurrada de dólares e garantir dívidas de retorno duvidoso. Corre o risco de afogar-se lá na frente, quando a economia retomar o rumo e a inflação voltar. Mas esse é um problema que vai surgir no futuro. Não incomoda nem um pouco agora. Primeiro, é preciso não se afogar no mar turbulento.Depois, navegar.
DÓLARES E DÓLARES TAMBÉM
E é isso o que o Federal Reserve já vem fazendo: mais de US$ 1 trilhão, desde setembro. E sabe que terá de dobrar. É o gesto heróico do dinheiro fácil para situações dramáticas. O último tiro que, mesmo assim, corre o risco de errar, pois o alvo está nublado.
Vai inflacionar? Por enquanto, não. Agora, é evitar a depressão. A inflaçao está recuando, menos 1,7% agora, com a desacelaração da demanda e a queda das commodities agrícolas e o petróleo.Grandes lojas de departamentos tradicionais estão oferecendo 50% de desconto para compras acima de US$ 250. Ou seja, a metade do preço e nem assim as vendas reagiram na véspera das festas de fim de ano.
O consumidor está cauteloso, teme perder o emprego ou ver reduzido o seu salário. O que ele ganha com a queda dos preços não afasta a insegurança no trabalho. Afinal, milhares já estão sendo despedidos e tentando encontrar um novo emprego.
Pela primeira vez que se tem memória, o índice de poupança dos americanos, que era zero, está registrando alguns pontos acima de traço.
O JOGO DO ESPERA
Está todo mundo esperando Barack Obama – o presidente eleito dos Estados Unidos -, que espera Henry Paulson – o secretário americano do Tesouro-, que espera Obama… que sonha em tirar férias nas praias do Havaí.
O resultado é soma zero. E ninguém faz nada. Todo mundo espera o dia 20 de janeiro, tão próximo, mas ainda tão distante. E, enquanto isso, a economia americana afunda à espera de um Obama, aflito e desencantado com o fim do governo de George W. Bush.
O Congresso tem um novo pacote pronto de US$ 600 bilhões, mas Bush nem quer falar dele.Também deve estar sonhando com as maravilhosas praias havaianas.
BRASIL ATÉ ESNOBA
Aqui, mesmo num cenário mais ameno, o governo já está adotando as medidas que os Estados Unidos e a Europa adiam, mesmo estando em recessão.
O governo já aprovou medidas que reduzem os impostos dos bens de consumo, dos bens duráveis e não-duráveis, injetam vultosas quantias de recursos nos bancos para levá-los a financiar as empresas e a emprestar mais. Além disso, o BNDES, o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal entraram ativamente no mercado, municiados por recursos do Estado. Uma boa parte das exportações estão sendo financiadas pelas instituições do governo.
Nós nos antecipamos a eles, prevendo o que já está vindo.
Por que essa diferença de reação? Primeiro, deve-se à agilidade do BC de prever e preparar-se para absorver os efeitos da falta de crédito externo. Henrique Meirelles e seus técnicos mostraram grande competência e maturidade. Segundo, foi mais fácil para o BC e o governo brasileiro reagirem porque não tínhamos os terríveis desafios dos bancos europeus e americanos. Direta (EUA) e indiretamente (Europa), eles sofreram os efeitos da imprudência e ganância, do subprime imobiliário. Aqui, se houver, quando muito, pode ser subprime no financiamento de carros e motos. Não há como comparar.
Outro fator positivo, já conhecido do leitor desta coluna, crescíamos ainda, com os demais emergentes, enquanto eles afundavam. Demoraram para agir por incompetência (zona do euro) ou imprudência das autoridades monetárias. Isso foi agravado pelo vendaval destruidor da desvalorização dos ativos imobiliários, que ainda persiste.
MAS CUIDADO
A nossa situação mais favorável tem bases frágeis, um mercado interno suscetível e forte retração, principalmente, em caso de desemprego. Eles têm vários pilares de sustentação, nós apenas um. Eles têm economias maduras de US$ 28 trilhões somados, 50% do PIB, e um mercado interno e externo bem formado. Nós, com US$ 1,3 trilhão, representamos apenas 2,3%. Mais ainda, daquele valor, mais de 60% são representados pelo mercado interno. Dependemos pouco do comércio exterior.
No entanto, o que é às vezes apontado com uma vantagem, menos dependência externa, torna-se uma desvantagem considerado o relativamente baixo poder aquisitivo dos brasileiros e a fragilidade de um mercado interno ainda incipiente. Ele está sendo sustentado mais pelo crédito do que pela renda.
Essa é a nossa fragilidade em relação aos outros.
Os Estados Unidos podem renascer com um empurrão fiscal porque partem de uma base sólida. Nós vamos precisar muito mais empurrões, de um governo que tem recursos limitados.
Estamos até bem em relação a eles, mas não tanto em relação a nós mesmos e aos nossos desafios.
*E- mail: at@attglobal.net
Tags: Bancos, BNDES, Brasil, Bush, commodities, consumo, crédito, depressão, desemprego, dinheiro, emergentes, EUA, Euro, Europa, exportações, FED, inflação, Juros, Meirelles, Mercados, Obama, Paulson, PIB, poupança, recessão, Renda, salários, subprime
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Jon Hilsenrath e Deborah Solomon, The Wall Street Journal – VALOR
O governo dos Estados Unidos se comprometeu a injetar mais US$ 800 bilhões nos conturbados mercados de crédito, sendo que desta vez a maior parte do dinheiro virá diretamente do banco central, o Federal Reserve, que assim passa a ser um agente financeiro em quase todos os cantos da vida americana.
Nos próximos meses, o Fed vai comprar até US$ 600 bilhões em dívida emitida ou garantida por empresas de crédito imobiliário com fortes laços com o governo: Fannie Mae, Freddie Mac, Ginnie Mae e Federal Home Loan. As autoridades esperam que isso derrube os juros das hipotecas e ajude o setor imobiliário. Além disso, o Fed, com apoio do Tesouro, que é o Ministério da Fazenda nos EUA, vai oferecer até US$ 200 bilhões em financiamento para investidores para que possam comprar títulos de dívida atados a créditos estudantis, automobilísticos e de cartões e a empréstimos para pequenas empresas.
Essas ações também representam novos passos dados pelo governo de George W. Bush para resolver a crise financeira no fim de seu mandato, e chegam poucos dias depois de o secretário do Tesouro, Henry Paulson, ter sugerido que poderia adiar o comprometimento de mais verbas oriundas do programa de US$ 700 bilhões para alívio de ativos problemáticos, o Tarp, aprovado pelo Congresso em outubro. Os mercados pioraram nos últimos dias, em parte devido a incertezas quanto aos planos do governo.
Paulson disse que as medidas visavam a aumentar a disponibilidade de financiamento para o consumo e aquisição de casa própria. “Nada é mais importante para sair desta correção do mercado imobiliário do que a disponibilidade de financiamento hipotecário acessível”, disse ele. Paulson acrescentou que o mercado para papéis lastreados por dívida de consumidores “paralisou” no mês passado, tornando quase impossível para milhões de americanos encontrar juros palatáveis para financiar desde computadores até cursos universitários.
Esses mercados pioraram bastante nas últimas semanas. No fim da semana passada, por exemplo, a dívida emitida pela Fannie Mae tinha juros 1,8 ponto porcentual acima dos de títulos do Tesouro de igual prazo. Essa diferença era de apenas 0,7 ponto porcentual em setembro, logo depois de o governo ter assumido controle da gigante hipotecária e sua co-irmã, a Freddie Mac.
Conforme aumentava o custo para a Fannie e a Freddie se financiarem, os juros de hipotecas também subiam. Investidores festejaram o novo plano, e as taxas de crédito imobiliário caíram cerca de meio ponto porcentual ontem, após as notícias, algo que pode ajudar quem quer refinanciar sua casa ou comprar uma.
“Isso vai liberar consumo que de outra forma não ocorreria”, disse Susan Wachter, professora de mercado imobiliário da faculdade de administração Wharton, da Universidade da Pensilvânia. “Vai aumentar diretamente a demanda por casas e ajudar com o problema da queda constante dos preços de imóveis.”
O custo de crédito imobiliário tem subido nos EUA em parte porque investidores de outros países, especialmente bancos centrais, recuaram recentemente devido, em parte, a temores quanto ao mercado americano de casas e à ambigüidade do governo. A Fannie e a Freddie também tiveram limitada sua capacidade de comprar títulos lastreados por hipotecas.
Nos últimos meses, o Fed já disponibilizou suas linhas de crédito para corretoras e empresas não-financeiras. E até anunciou planos de começar a comprar alguns dos complexos títulos de dívida que estão no centro da crise financeira – instrumentos conhecidos como obrigações de dívida garantida (CDO, na sigla em inglês) – através de seu resgate da gigante seguradora American Internacional Group Inc.
Conforme o Fed expandia sua atividade de financiamento, seu balanço inflou de US$ 900 bilhões em agosto para mais de US$ 2 trilhões. Com os novos programas, deve ficar ainda maior. O Fed, ao contrário do Tesouro, não precisa tomar emprestado para financiar seus programas de resgate. Um banco central pode na prática criar dinheiro novo injetando recursos – também conhecidos como reservas – no sistema bancário, algo que o Fed está fazendo agora.
É algo parecido com o que o Japão fez nos anos 90 e também nesta década, quando o Banco do Japão injetou dinheiro nos bancos do país num processo conhecido como “afrouxamento monetário quantitativo”. O Fed está levando esse processo um passo à frente. Ele não está apenas injetando dinheiro, mas também decidindo para onde esse dinheiro deve ir por meio de seus próprios programas de financiamento.
“O Fed está indo mercado a mercado, dizendo: ‘Onde o crédito está entupido?’ e tentando lidar com isso de maneira direta”, disse Laurence Meyer, ex-diretor do Fed e hoje vice-presidente da consultoria econômica Macroeconomic Advisers.
Essa abordagem traz vários riscos. Os mercados podem se tornar dependentes do financiamento do Fed, o que pode retardar uma recuperação. Diretores do Fed estão preocupados com a maneira como poderiam sair dessas linhas de crédito, mas acham que isso é um problema que terão de enfrentar só depois que a crise passar, algo que ainda vêem como um futuro distante.
No âmago, a abordagem do Fed – somada ao volumoso estímulo fiscal planejado pelo futuro governo de Barack Obama – também é inflacionária. Mas dados os problemas em formação na economia americana no momento, como alta do desemprego e queda do consumo, as autoridades do Fed não vêem na inflação um risco iminente.
Há outros riscos – especialmente o de nada dar certo e mais dinheiro se tornar necessário. Além do mais, o Fed poderia ter perdas em todos os empréstimos que conceder, especialmente com a economia tão frágil. O banco central está tomando precauções. Por exemplo, o Tesouro aceitou assumir os primeiros US$ 20 bilhões em perdas da nova linha de crédito de US$ 200 bilhões para financiamento de carros, crédito imobiliário e outros empréstimos para consumo.
Pela estrutura dessa linha de crédito, o banco central vai emprestar dinheiro a investidores – por meio de bancos conhecidos como “dealers” – e os investidores, por sua vez, podem usar o dinheiro para comprar títulos de dívida de alto nível atrelados a crédito ao consumidor. Se a inadimplência de consumidores subir bastante e esses títulos ficarem em atraso, a conta vai cair no colo do Fed e do Tesouro.
O programa de crédito imobiliário é mais direto. A partir da próxima semana, o Fed vai começar a comprar US$ 100 bilhões em dívida emitida pela Fannie Mae, Freddie Mac e outras empresas patrocinadas pelo governo. Ele também planeja comprar US$ 500 bilhões em dívida lastreada por hipotecas que essas firmas avalizam.
O Fed espera aumentar a cotação da dívida com suas compras, o que reduziria o rendimento dela e, teoricamente, os juros de hipotecas.
Com o novo plano, o Tesouro na prática comprometeu US$ 330 bilhões dos US$ 700 bilhões do programa de resgate. Ele precisa de autorização do Congresso para ir além de US$ 350 bilhões.
(Colaboraram Serena Ng e James R. Hagerty)
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Jon Hilsenrath, The Wall Street Journal – VALOR
O Federal Reserve, o banco central americano, está num ponto de inflexão.
A economia americana se deteriora e o Fed já empurrou quase tudo o que dava sua principal alavanca: os juros de curto prazo. Sua meta para os fundos federais, a taxa de empréstimos interbancários de curtíssimo prazo, caiu de 5,25% ao ano pouco mais de um ano atrás para 1%. Ultimamente, a taxa real dos fundos federais fica com freqüência abaixo dessa meta. Mas a economia americana precisa de mais ajuda.
Por isso, diretores do Fed devem dar seu aval ao plano de estímulo fiscal que os assessores do presidente eleito Barack Obama estão elaborando. O próprio Fed não esgotou ainda sua munição. Diretores do banco central estão avaliando opções como novas linhas de crédito, mais cortes de juro e compras de dívida de longo prazo, como títulos do Tesouro ou das hipotecárias Fannie Mae e Freddie Mac para estimular os mercados e a economia.
Economistas há muito debatem como um banco central deve administrar uma economia em deterioração quando os juros de curto prazo já estão baixos. O Japão se debateu com o problema no começo desta década. Um dos principais autores sobre o sujeito é o presidente do Fed, Ben Bernanke. Ele descreveu estratégias em palestras e estudos em 2002 e 2004, quando o Fed estava considerando a possibilidade de um problema desses. “As conclusões daquela época ainda se aplicam hoje”, diz Brian Sack, da Macroeconomic Advisers LLC, um ex-economista do Fed que dividiu a autoria de um estudo sobre o tema com Bernanke.
Eis as medidas que os diretores do Fed podem avaliar em sua reunião de dois dias em dezembro:
Agir rápido: Alguns economistas argumentam que, com os juros já muito baixos, o Fed deveria conservar sua munição e evitar novos cortes a não ser que absolutamente necessário. Em comentários no Instituto Cato, na semana passada, o vice-presidente do Fed, Donald Kohn, sugeriu o oposto. Se os EUA parecem estar entrando num ambiente parecido com o do Japão, de baixas taxas de juros, crescimento estagnado e queda dos preços ao consumidor, a melhor estratégia é agir rápido para evitá-lo, disse Kohn. “Se virmos essa possibilidade, devemos ser muito agressivos com nossa política monetária, o mais agressivos que podemos.”
Kohn disse acreditar que as chances de uma deflação como a japonesa ainda são pequenas nos EUA. Mas o maior risco de que isso aconteça sugere que o Fed pode rapidamente baixar a taxa dos fundos federais para zero. A Macroeconomic Advisers prevê um corte de meio ponto porcentual em dezembro e outro em janeiro, o que levaria a taxa a zero pouco depois que Obama tomar posse.
Novas linhas: Embora haja limites para até onde os juros de curto prazo podem baixar, o Fed mostrou recentemente que há poucas restrições a quanto seu próprio balanço patrimonial pode crescer. Desde o fim de agosto, o valor dos ativos do Fed cresceu de pouco menos de US$ 900 bilhões para mais de US$ 2 trilhões.
O Fed essencialmente criou dinheiro e o usou para financiar uma série de novas linhas de crédito, entre os quais um programa para comprar “commercial papers” do setor privado, outro para empréstimos de emergência para a seguradora American International Group Inc. e outro que injeta dólares em instituições financeiras fora dos EUA por meio de outros bancos centrais.
Essa atividade é às vezes chamada de afrouxamento monetário quantitativo. Em vez de se concentrar no custo do dinheiro no sistema financeiro – que é a taxa de juro -, as autoridades se focam na quantidade de dinheiro no sistema. Hoje, o Fed e o Departamento do Tesouro estão avaliando um programa no qual juntariam empréstimos do Fed com recursos do programa de socorro de US$ 700 bilhões do Tesouro para adquirir títulos de instituições financeiras em dificuldades, uma idéia apoiada pelo secretário do Tesouro, Henry Paulson.
Mexer no longo prazo: Além de estabelecer uma meta para a já baixa taxa de juro de curto prazo, o Fed poderia tentar baixar os juros de longo prazo, o que poderia derrubar os custos de vários tipos de financiamento, das hipotecas de 30 anos a empréstimos para a compra de carros e debêntures de empresas. “São as taxas de prazos mais longos que importam para a atividade econômica”, diz Vincent Reinhart, outro ex-diretor do Fed que trabalhou com Bernanke no tema.
O Fed pode conseguir isso com a compra de dívida de longo prazo, inclusive obrigações do Tesouro ou papéis emitidos pela Fannie Mae e pela Freddie Mac. Essas compras poderiam fazer a cotação dos títulos subir, reduzindo assim seus rendimentos.
Comunicar: O Fed poderia procurar influenciar as taxas de longo prazo ao se comprometer a manter os juros de curto prazo baixos por um período longo. Isso poderia forçar os investidores a esperar taxas mais baixas para os papéis de prazo mais longo também. O Fed tomou essa medida em 2003, quando se comprometeu a manter baixas as taxas dos fundos federais por “um período considerável”.
Foi uma medida polêmica – que possivelmente teve um papel na criação do período de especulação hipotecária que se seguiu. Com a economia tão fraca agora, contudo, o Fed pode precisar usar de novo a medida. Uma maneira de evitar uma repetição do último episódio seria impor condições a esse comprometimento, como uma promessa mais explícita de voltar a elevar as taxas assim que os mercados se estabilizarem.
Em tempos normais, quaisquer dessas medidas poderiam ser altamente inflacionárias, e assim virar um tiro pela culatra. Mas estes não são tempos normais.
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Paul Krugman * – New York Times – O Estado SP
Todos estão falando sobre um novo New Deal, por motivos óbvios. Em 2008, assim como em 1932, uma longa era de predomínio político republicano foi encerrada diante de uma crise econômica e financeira que, aos olhos dos eleitores, ao mesmo tempo desacreditava a ideologia de livre mercado do Partido Republicano e solapava suas alegações de competência. E para aqueles que se situam no lado progressista do espectro político a época atual é de esperança.
Há, no entanto, um outro paralelo entre 2008 e 1932, uma semelhança muito mais perturbadora – o surgimento de um vácuo de poder no ápice da crise. O interregno de 1932-1933 – o longo período entre a eleição e a transição do poder de fato – foi desastroso para a economia americana, ao menos em parte porque a administração que saía não tinha credibilidade, a administração que chegava não tinha autoridade e o abismo ideológico entre ambas era profundo demais para permitir que fossem adotadas medidas coordenadas. E o mesmo está acontecendo agora.
É verdade que o interregno será mais curto desta vez: Franklin Delano Roosevelt só assumiu a presidência em março; Barack Obama vai para a Casa Branca no dia 20 de janeiro. Mas hoje em dia as crises evoluem mais rápido.
Quanta coisa pode dar errado nos dois meses até que Obama preste seu juramento e assuma o cargo? A resposta, infelizmente, é: muita coisa.
Pense no quanto o cenário econômico piorou desde a falência do Lehman Brothers, que aconteceu há apenas dois meses. E o ritmo da deterioração parece estar se acelerando.
Obviamente, estamos metidos na pior crise do mercado de ações desde a Grande Depressão: o índice S&P 500 caiu agora para menos de 50% do seu valor máximo. Outros indicadores são ainda mais perturbadores: o desemprego parece estar aumentando, a produção manufatureira está em queda, a taxa de juros sobre os títulos privados – a qual reflete o temor de inadimplência dos investidores – está aumentando muito, o que quase certamente levará a uma redução considerável nos gastos empresariais. As perspectivas econômicas são hoje muito mais sombrias do que eram há apenas uma ou duas semanas atrás.
Ainda assim, as medidas econômicas, em vez de responder à ameaça, parecem ter saído de férias. Em especial, o pânico dá sinais de ter retornado aos mercados de crédito, mas não parece haver um novo plano de resgate no horizonte. Ao contrário, o secretário do Tesouro, Henry Paulson, anunciou que nem sequer voltará ao Congresso para buscar a outra metade dos US$ 700 bilhões já aprovados para a realização de resgates financeiros. E o socorro financeiro para a combalida indústria automobilística está sendo atrasado por um impasse político.
O quanto deveríamos nos preocupar com aquilo que parecem ser dois meses de medidas econômicas à deriva? No mínimo, os próximos dois meses vão infligir graves sofrimentos sobre centenas de milhares de americanos, os quais perderão seus empregos, seus lares, ou ambos.
O mais preocupante, no entanto, é a possibilidade de que parte do estrago feito agora seja irreversível. Estou preocupado, em especial, com as duas letras D: Deflação e Detroit.
Quanto à deflação: a “década perdida” japonesa durante os anos 90 ensinou aos economistas que é muito difícil fazer a economia avançar quando as expectativas de inflação se tornam baixas demais (não importa se as pessoas literalmente acreditam que os preços vão cair ou não). No momento observamos uma clara pressão deflacionária sobre a economia americana, e cada mês que se passa sem sinais de recuperação aumenta as chances de nos vermos encalhados durante anos numa armadilha ao estilo japonês.
Quanto a Detroit: Há agora o risco real de que, na ausência de uma rápida ajuda federal, as “Três Grandes” montadoras e as suas redes de fornecedores sejam forçadas à liquidação – ou seja, obrigadas a fechar, demitir todos os seus funcionários e vender seus bens. E, se isto acontecer, será muito difícil trazê-las de volta.
Quem sabe deixar que as empresas montadoras pereçam seja a decisão certa, mesmo que um colapso da indústria automobilística seja um fortíssimo golpe contra uma economia já cambaleante. Mas trata-se de uma decisão que deveria ser tomada com cuidado, com ampla consideração quanto aos seus custos e benefícios – e não uma decisão tomada automaticamente por causa de um impasse político entre democratas – que querem que Paulson use parte daqueles US$ 700 bilhões – e a administração no período do pato manco – que tenta em vez disso obrigar o Congresso a desviar os fundos a partir de um programa de eficiência energética.
Será que as medidas econômicas estão completamente paralisadas de agora até 20 de janeiro? Não, não completamente. Algumas medidas úteis estão sendo tomadas. As agências de empréstimo Fannie Mae e Freddie Mac, por exemplo, adotaram a feliz decisão de paralisar temporariamente as execuções hipotecárias, enquanto o Congresso aprovou uma extensão muito necessária aos benefícios do seguro-desemprego agora que a Casa Branca abandonou a oposição à mesma.
Mas não há nada acontecendo no front das medidas econômicas que seja remotamente proporcional à escala da crise econômica. E é assustador pensar no quanto mais pode dar errado até que Obama assuma a presidência.
* Paul Krugman é articulista
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CELSO MING – O Estado SP
A discussão da hora é se o governo deve ou não adotar políticas anticíclicas.
Trata-se de decisões de política econômica contra a paradeira da economia. A idéia é: se tudo vai bem, é melhor aplicar políticas de austeridade para equilibrar as finanças públicas. Se vai mal, é preciso gastar mais para ajudar na recuperação do sistema produtivo.
O Fundo Monetário Internacional, que sempre se bateu pelo rigor fiscal, agora recomenda o aumento das despesas públicas para ajudar a enfrentar a recessão que vem vindo braba.
Aqui essas políticas são mais conhecidas como sacos de maldades ou de bondades. O que se pede agora é que o governo despeje o conteúdo de sacos de bondades. Essas coisas estão chegando mais com propósitos eleitorais do que técnicos. O horizonte das manobras são as eleições presidenciais de 2010. E o quadro de fundo é o de que o presidente Lula não tem candidato vendável ao eleitor enquanto a oposição tem pelo menos dois nomes.
Isso posto, o governo Lula mandou que a Caixa Econômica Federal despejasse R$ 3 bilhões para reforçar o capital de giro das imobiliárias e que o Banco do Brasil (BB) enfiasse outros R$ 4 bilhões no crédito para compra de veículos.
Mas tanto o governador de São Paulo, José Serra, como o de Minas, Aécio Neves, ambos do PSDB, estão empenhados em mostrar serviço em escala nacional. As bondades de Serra prevêem R$ 4 bilhões da Nossa Caixa para financiar veículos.
E aí vai um lance especial de esperteza de Serra, que faz cumprimentos com chapéu alheio. Se o dinheiro é da Nossa Caixa, que será repassada ao BB, fica óbvio que os financiamentos acabarão sendo ativos do BB, com prazo de vencimento superior a dois anos.
O pacote de Aécio é mais modesto, de R$ 470 milhões, a serem distribuídos pelo Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais para ajudar o setor produtivo a enfrentar a crise.
Boa pergunta consiste em saber se a paradeira das vendas da indústria automobilística é devida à falta de financiamento ou a certo esgotamento do mercado. Há boas razões para acreditar que é falta de mercado.
Em 2007, as vendas de automóveis cresceram 28% e, neste ano até outubro, 23%, avanços tão fantásticos como insustentáveis. Na maior parte desse período, os financiamentos foram feitos por mais de 36 meses. No início do ano, chegaram a ultrapassar 90 meses, o que levou o ministro Mantega a anunciar a intenção de intervir para reduzir os prazos. Isso significa que uma larga fatia do mercado parece atendida. O consumidor ainda está pagando seu carro e não pretende voltar tão cedo à concessionária.
Além disso, o estancamento do crédito ocorrido há cerca de um mês não se deveu a problemas nos bancos, como aconteceu no exterior. Apareceu com o estouro das operações com derivativos de câmbio, que lançaram dúvidas sobre a capacidade de pagamento de muitas empresas. Como o problema já está equacionado, o fluxo do crédito começa a ser restabelecido.
Dentro de algumas semanas saberemos até que ponto mais crédito à compra de veículos será suficiente para a retomada da produção. E, se for para combater a recessão que vem vindo aí, convém perguntar se o segmento a ser atendido prioritariamente é o de veículos.
Confira
Erro de foco – Vai ser difícil para o secretário do Tesouro americano, Henry Paulson, livrar-se da pecha de incompetente.
Há menos de um mês, praticamente chantageou o Congresso para que aprovasse o pacote de US$ 750 bilhões, mas ontem reconheceu que o pacote não está funcionando. Ele quer agora mudar o foco e passar a financiar o consumo.
O problema é que as demandas estão aumentando: é o resgate das hipotecas, o socorro à indústria de veículos, a capitalização dos bancos, a recessão fazendo estrago… E o governo Bush com sua credibilidade quase zero.
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Antonio Delfim Netto – VALOR
Estamos todos cansados de falar da crise financeira que agora aterrissa na economia real. Dos que a produziram, de como sairemos dela e como vamos enfrentar a próxima… É inegável que a Inglaterra (depois das trapalhadas nos EUA feitas pelo acadêmico Bernanke e o prático Paulson) deu o caminho para o início da solução: mostrou que não se tratava de um simples problema de liquidez, mas de uma desarticulação entre o patrimônio das instituições financeiras e os riscos que tomaram, alavancando-o com operações exóticas que não registravam em seus balanços como passivos contingentes.
Todos sabemos que, quebrada a confiança no setor financeiro, o colapso do setor real é apenas uma questão de tempo. Não adiantam argumentos ideológicos ou o recurso a duvidosas teorias científicas: quanto mais demorar a intervenção do Estado na forma de fornecimento de capital temporário (para deixar aberta a porta de saída) e do suprimento de liquidez, tanto maior e mais duradoura será a crise financeira e a redução da produção física, com o aumento do desemprego correspondente.
Um fato evidente e reconhecido é que o sistema financeiro nacional ficou fora desse processo. Ele é hígido e pouco alavancado, mas nem por isso foi poupado do pânico da morte súbita da confiança, que é o fator catalítico sem o qual o sistema econômico não funciona. É claro que não podemos substituir a queda de renda do setor exportador, derivada de uma eventual redução da demanda física de nossos produtos, ou evitar a quase certa redução dos seus preços em dólares. Parte do efeito-preço, entretanto, será compensada internamente por uma saudável desvalorização do real (que ajudará também a exportação industrial) cuja “supervalorização” foi produto de uma política monetária oportunística e míope.
Com as disponibilidades que dispomos (as reservas e o swap do Fed), se tivermos imaginação e agilidade poderemos usar nosso sistema bancário para restabelecer boa parte do financiamento externo que desapareceu. Por outro lado, é evidente que o financiamento interno que era feito por nosso sistema bancário, com base no funding com recursos externos, poderá, em boa parte, ser também substituído pela liquidez interna sem pressões maiores sobre os preços e não menores sobre o nível de atividade.
Até aqui o governo tem respondido com agilidade à crise, mas, infelizmente, não tem encontrado apoio adequado na pesada máquina burocrática que o país carrega. Sua ação tem sido tímida no conforto que só ele pode dar ao sistema financeiro e à economia real para que não reduzam, por simples precaução (elegantemente importada!), suas atividades. Não adianta enganar-se: o crédito das instituições financeiras estatais e privadas não está fluindo como poderia e deveria e o crédito ao setor agrícola para o custeio (que é datado!) deixa muito a desejar. A compra de insumos (fertilizantes, por exemplo) está paralisada nas mãos dos pequenos importadores (os grandes não estão fazendo a sua parte), porque os agricultores não têm crédito para comprá-los. Com alguma determinação, esses seriam problemas facilmente solúveis, mas não adianta resolvê-los em janeiro, às vésperas da colheita da safra 2008/09.
O mesmo acontece com a falta de conforto negado às “pequenas” (mas absolutamente hígidas!) instituições financeiras, que são, a um só tempo, fator de concorrência num sistema onde ganhos de dimensão estão produzindo enorme concentração, e prestadoras de serviços preferenciais para os pequenos e médios industriais e comerciantes. Todos sabemos que a higidez e a solvabilidade de um banco não têm relação com o seu tamanho. Dependem da confiança que nele depositam os que compram os seus papéis. Tanto os “grandes” como os “pequenos” são, por definição, extremamente vulneráveis às crises de confiança como a que estamos vivendo. A prova disso foi o que aconteceu com notáveis bancos americanos, europeus e japoneses, que há pouco tempo eram considerados “grandes demais para quebrar”.
É absolutamente claro que os mecanismos criados pelo governo e a ação tímida e torturada da autoridade monetária em dar pleno suporte a todo o sistema – com intervenção na capitalização transitória e no fornecimento de liquidez – têm sido insuficientes para restabelecer o fluxo financeiro das “pequenas” (mas absolutamente hígidas) instituições financeiras. O processo ou é inaceitável por elas, porque mortal (quem pode ir ao “redesconto” sem parecer uma casa de tolerância?) ou cruel demais (quem pode entregar-se sem morrer à discrição dos “grandes”, sejam eles públicos ou privados?). Afinal, quem ainda não sabe que a liquidez dos grandes “empoça” à espera das grandes oportunidades de lucro fácil. Eles são “predadores”, na direção dos quais a autoridade monetária insiste em espantar a “presa”…
Vamos ousar. O crescimento de 2009 não está escrito nas estrelas, nem está na história de 2008. No caso brasileiro, temos condições um pouco melhores do que a maioria dos países emergentes: temos energia interna para sustentar um nível certamente menor, mas não catastrófico, da atividade econômica sem sacrificar o “espírito de desenvolvimento” que ressuscitamos apenas em 2006. O que será 2009? Não, necessariamente, o que os analistas prevêem. Ele será o que formos capazes de fazer dele com nossa inteligência e ousadia. E isso exige uma ação decidida e mais ágil do Estado para: 1) dar “conforto” ao setor privado financeiro e real para tomar os seus riscos; e 2) não reduzir os investimentos do PAC, ainda que isso custe um corte duro nas despesas de custeio, obviamente excluídas as políticas sociais.
Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento. Escreve às terças-feiras
E-mail contatodelfimnetto@terra.com.br
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Paul Krugman * – O Estado SP

Dados econômicos raramente inspiram pensamentos poéticos. Mas, enquanto eu contemplava os números mais recentes, me passavam pela cabeça os versos de William Butler Yeats: Girando e girando num redemoinho cada vez maior/O falcão não consegue ouvir o falcoeiro/As coisas desmoronam; o centro não consegue se manter.
O redemoinho cada vez maior, neste caso, é o ciclo vicioso (lá se vai a poesia) que faz com que a crise financeira fuja cada vez mais do controle. O desafortunado falcoeiro seria, creio, Henry Paulson, o secretário do Tesouro. E o redemoinho continua a crescer de maneira inédita e assustadora. Mesmo enquanto Paulson e seus colegas de outros países corriam para socorrer bancos, novos desastres se acumulavam em outras frentes, alguns mais ou menos esperados.
Os economistas se perguntavam havia algum tempo por que os fundos de hedge não estavam sofrendo tanto em meio ao massacre financeiro. Eles não precisam mais especular a esse respeito: os investidores estão retirando o dinheiro desses fundos, obrigando seus administradores a correr para obter dinheiro com a venda relâmpago de ações e outros ativos.
Mas a notícia realmente chocante é a forma com que a crise está contaminando os mercados emergentes, países como Rússia, Coréia do Sul e Brasil. Eles estavam no centro da última crise financeira mundial, no fim da década de 90 (que pareceu grande coisa na época, mas não passou de um contratempo, se comparada ao que estamos enfrentando hoje).
Esses países responderam a essa experiência construindo um enorme cofre de guerra, cheio de dólares e euros, que deveriam protegê-los no caso de alguma emergência. E, não faz muito tempo, todos falavam no “descolamento”, a suposta habilidade de manter seu crescimento mesmo com os Estados Unidos em recessão. “O descolamento não é um mito”, garantiu a Economist, em março. “De fato, isso pode vir a salvar a economia mundial.”
Mas isso já faz tempo. Agora, os mercados emergentes estão em grandes apuros. De fato, diz Stephen Jen, chefe de economia monetária do Morgan Stanley, a “aterrissagem forçada” dos mercados emergentes pode se tornar o “segundo epicentro” da crise mundial. (Os mercados financeiros dos EUA foram o primeiro)
O que aconteceu? Nos anos 1990, os governos dos países emergentes estavam vulneráveis porque tinham adquirido o hábito de tomar empréstimos no exterior; quando o fluxo de dólares foi interrompido, eles foram levados ao limiar da falência. Desde então, adotaram a precaução de tomar emprestado principalmente nos mercados domésticos, enquanto acumulavam consideráveis reservas de dólares.
Mas toda a a precaução foi posta a perder por causa do descaso do setor privado diante do risco. Na Rússia, por exemplo, os bancos e as corporações correram para conseguir empréstimos no exterior porque os juros sobre o dólar eram menores que os juros sobre o rublo. Assim, enquanto o governo russo reunia impressionantes reservas, as corporações e os bancos russos acumulavam dívidas igualmente impressionantes. Agora, as linhas de crédito foram cortadas e eles se encontram em terríveis dificuldades.
Não é necessário dizer que os problemas atuais do sistema bancário, somados aos novos problemas nos fundos de hedge e nos mercados emergentes, formam um ciclo que se retroalimenta. Enquanto isso, os elaboradores de medidas americanos ainda estão desperdiçando as oportunidades de fazer o que é necessário.
Recebemos uma boa notícia quando Paulson finalmente concordou em depositar capital nos bancos, em troca de ações. Mas, na semana passada, Joe Nocera, do The Times, apontou uma fraqueza fundamental no plano: a ausência de garantias contra a possibilidade de os bancos simplesmente se sentarem no dinheiro. “Ao contrário do governo britânico, que está exigindo o cumprimento de requerimentos de empréstimo em troca de injeções de capital, nosso governo parece ter medo de fazer algo além de protestar.” E não resta muita dúvida, os bancos aparentemente estão açambarcando o dinheiro.
*Paul Krugman escreve para o ‘The New York Times’
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Lord John Maynard Keynes
Elio Gaspari – O Globo
Terminou nas últimas semanas o predomínio intelectual de uma corrente do pensamento econômico que governou o mundo por cerca de 30 anos.
Pode-se dizer que ela cabe no rótulo de “liberal”, sem que se saiba o que isso quer dizer. Simplificando, ela encarnou a crença de que as forças internas do mercado são o elemento mais eficaz para conduzir os destinos das economias nacionais. Com o leme das nações entregue à “mão invisível”, os males seriam corrigidos e a prosperidade, assegurada. Lorota.
O naufrágio ocorreu de forma humilhante, no governo de um presidente republicano nos Estados Unidos. George Bush tem na secretaria do Tesouro um fino espécime da banca, o ex-presidente da Goldman Sachs Henry Paulson. Para salvar a economia mundial dos delírios do mercado, até agora foram necessários uns três trilhões de dólares coletados nas Bolsas das Viúvas.
Trinta anos de hegemonia produziram arrogância e até maus modos.
No Brasil, “desenvolvimento” tornou-se uma palavra maldita e “desenvolvimentista”, uma modalidade de insulto.
Além das leviandades do governo Collor, da privataria tucana e do colapso cambial de 1999, a onipotência chegou à soberba. Dois diretores do Banco Central (Afonso Beviláqua e Rodrigo da Rocha Azevedo) não se dignaram a colocar suas biografias no portal da instituição pública em que trabalhavam. Conduta semelhante, só nos BCs da Coréia do Norte, Lesotho e Armênia.
Noutro exemplo do cotidiano, em 2003 a editora brasileira do economista Joseph Stieglitz, prêmio Nobel de 2001, teve dificuldade para formar uma mesa de jantar em sua homenagem com 12 convidados de renome.
Stieglitz era um crítico daquilo que o professor Delfim Netto chamava de “pensamento único” no debate econômico brasileiro. (Das cabeças coroadas, só Gustavo Franco aceitou o convite.) Em 2000, um concurso do Banco Central valorizava candidatos com formação semelhante à da ekipekonômica tucana.
Viajando-se no tempo e no mundo, percebe-se que a cada 30 anos uma escola de pensamento prevalece e massacra a outra. Na segunda metade do século passado a agenda passou às mãos dos chamados keynesianos.
Eram economistas que acompanhavam as idéias do inglês John Maynard Keynes, formulador da conveniência da intervenção do governo na economia. Do outro lado do debate estavam professores como o austríaco Friedrich Hayek e o americano Milton Friedman. Hayek sustentava que o planejamento econômico e a ação dos governos eram o “Caminho da Servidão”, título de sua obra-prima, publicada em 1944. Comeu o pão que Asmodeu amassou. Em 1950, o departamento de economia da Universidade de Chicago negou-lhe uma posição de professor.
Morava num bairro operário de Salzburgo numa casa comprada com o dinheiro da venda de sua biblioteca.
Hayek ganhou o prêmio Nobel em 1974.
Dois anos depois foi a vez de Friedman.
Passados 30 anos de predomínio, os keynesianos saíram de cena. A vitória dos conservadores de Margaret Thatcher na Inglaterra, em 1979, e de Ronald Reagan nos Estados Unidos, um ano depois, significou um renascimento das idéias de Hayek e Friedman. Em 1980, o professor Robert Lucas (Nobel de 95) dizia que já não existiam mais bons economistas com menos de 40 anos identificados com o keynesianismo. O neologismo virou palavrão. John Kenneth Galbraith, uma de suas maiores estrelas, tornou-se saco de pancadas para os polemistas conservadores.
Seu último livro chamou-se “A economia das fraudes inocentes” e foi um ataque às extravagâncias do papelório.
Numa trapaça da história, foi um governo conservador, educado nas liberdades de Hayek e Friedman, quem conduziu a economia americana à bancarrota.
Primeiro liberando as práticas da banca em nome da santidade do mercado. Depois, recorreu à mais elementar das construções keynesianas para evitar o desastre e foi buscar na Bolsa da Viúva o remédio para a intoxicação.
Hayek e Friedman dificilmente defenderiam as políticas de seus seguidores. Quem botou fogo no mundo não foram eles, mas a mediocridade prepotente, colocada a serviço de um dinheirinho fácil.
Leia a integra da coluna de Elio Gaspari, nos jornais O Globo e Folha SP
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Harold Meyerson* – O Globo
Em 1949, escritores famosos escreveram ensaios explicando por que não eram mais comunistas, reunidos no volume “O Deus que fracassou”.
Hoje, intelectuais conservadores talvez considerem escrever sobre os fracassos de sua amada divindade: o capitalismo sem regulação.
A queda do sistema financeiro tem sido tão rápida e ampla que não houve tempo para considerar suas implicações para a teoria econômica que reinou nos últimos 30 anos. No que exatamente economistas conservadores acreditam, agora que seu deus está morto? Não nos surpreende ver um desorientado John McCain. O que ele deve fazer? Admitir que a crença de Ronald Reagan e Margaret Thatcher no capitalismo sem regulação, no qual todo candidato republicano apoiava até o último inverno, desmoronou? Na verdade, a crença da auto-suficiência do mercado também teve apoio de importantes democratas. Nos anos 90, o republicano Alan Greenspan e o democrata Robert Rubin agiram para que o mercado de derivativos seguisse sem regulação, apesar de Warren Buffett e George Soros terem alertado para o risco.
Se o colapso dos mercados deixou o conservadorismo em farrapos, deu aos liberais a tarefa de construir uma economia mais sustentável. Foram os liberais do Congresso que insistiram que o governo deveria ter poder para adquirir participações em bancos.
Agora, liberais devem ficar atentos ao tipo de nacionalização financeira que estão prestes a adotar. Henry Paulson (secretário do Tesouro dos EUA) quer injetar recursos públicos em bancos, mas continuar confiando nosso sistema aos banqueiros que nos colocaram nessa situação.
Esses bancos não deveriam incluir membros do governo em seus conselhos de administração para evitar as mesmas besteiras? A atual crise de ideologia não está confinada à doutrina do laissez faire. A crença no equilíbrio do orçamento se tornou sem sentido com a economia se encaminhando para uma recessão. Com bancos parando de emprestar, empresas demitindo funcionários, governos locais e estaduais suspendendo serviços, proprietários de imóveis com dívidas recordes e consumidores reduzindo compras, um maciço estímulo federal é o que separa a nação de uma calamidade econômica.
McCain e Obama discordam no que se refere ao papel do governo no estímulo à economia.
Tendo passado a vida defendendo políticas que levaram ao “derretimento”, McCain agora defende políticas que transformarão recessão em depressão. Ele pode ter suas crenças, mas a nação não pode rezar no altar desses deuses que fracassaram.
*HAROLD MEYERSON é colunista do “Washington Post”
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Paul Krugman – O Globo
Terá Gordon Brown, o premier britânico, salvo o sistema financeiro mundial? Tudo bem, a pergunta é prematura — ainda não sabemos a forma exata do pacote de resgate financeiro na Europa ou até mesmo nos EUA e se vai funcionar de fato. O que sabemos, no entanto, é que Brown e Alistair Darling, o chanceler de Exchequer (o equivalente ao nosso secretário do Tesouro), definiram o caráter do esforço global de resgate, com outras nações ricas correndo atrás deles.
Isso é uma virada inesperada.
Afinal, o governo britânico é um sócio júnior no que se refere a assuntos de economia mundial. É verdade que Londres é um dos grandes centros financeiros do mundo, mas a economia britânica é bem menor que a americana, e o Banco da Inglaterra não tem nem de perto a influência tanto do Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA) quanto do Banco Central Europeu.
Assim, ninguém esperava ver a Grã-Bretanha desempenhando o papel de líder.
Mas, o governo britânico tem demonstrado disposição para pensar claramente, e agir com rapidez. E essa combinação de clareza e decisão não foi ainda vista em nenhum outro governo ocidental, muito menos os EUA.
Qual é a natureza da crise? Os detalhes podem ser confusamente complexos, mas o básico é bastante simples. A explosão da bolha imobiliária levou quem comprou ativos baseados no pagamento de hipotecas a grandes perdas; essas perdas deixaram muitas instituições financeiras com muitas dívidas e pouco capital para prover o crédito de que a economia necessita; as instituições financeiras afetadas tentaram honrar seus débitos e elevar seus capitais vendendo ativos, mas isso fez com que os preços dos ativos caíssem drasticamente, reduzindo ainda mais seus capitais.
O que pode ser feito para conter a crise? Ajudar os mutuários, embora desejável, não pode evitar grandes perdas sobre maus empréstimos e, de qualquer maneira, vai demorar muito para fazer efeito em meio ao pânico atual. A coisa natural a fazer, portanto — e foi a solução adotada em crises anteriores — é lidar com o problema do capital financeiro inadequado, com os governos provendo as instituições financeiras com mais capital em troca de participação.
Essa espécie de meia estatização temporária, que tem sido chamada de “injeção de ações”, é a solução da crise, segundo muitos economistas — e fontes disseram ao “NYT” que é essa também a solução preferida por Ben Bernanke, o presidente do Fed.
Mas, quando Henry Paulson, o secretário do Tesouro dos EUA, anunciou o pacote de US$ 700 bilhões para salvar o sistema financeiro, ele rejeitou esse caminho óbvio. Em vez disso, sugeriu que o governo comprasse papéis podres das hipotecas, baseado na teoria de que… bem nunca ficou claro qual é a sua teoria.
Enquanto isso, o governo britânico foi direto ao coração do problema — e se mobilizou para enfrentá-lo com presteza. Na quarta-feira, assessores de Brown anunciaram um pacote de injeção de dinheiro nos bancos britânicos, garantia para as dívidas dos bancos para estimular a volta dos empréstimos interbancários, um passo crucial do mecanismo financeiro.
Numa reunião de cúpula no domingo, as principais economias da Europa continental se declararam prontas a seguir a liderança da Grã-Bretanha, injetando centenas de bilhões de dólares nos bancos e garantindo suas dívidas. E, quem diria, Paulson — depois de perder várias semanas preciosas — também mudou de curso, e agora pretende comprar participações nos bancos em vez de papéis podres (embora ele ainda pareça estar se movendo com uma dolorosa lentidão).
Como disse, ainda não sabemos se essas iniciativas funcionarão. Mas, finalmente, há uma política movida pela visão clara do que precisa ser feito. O que levanta a seguinte questão: por que essa visão clara teve que vir de Londres em vez de Washington? É difícil evitar a sensação de que a resposta inicial de Paulson foi distorcida por ideologia. Lembre-se, ele trabalha para um governo cuja filosofia de governo pode ser resumida a “privado é bom, público é ruim”, o que deve ter tornado difícil de enfrentar a necessidade de participação acionária do governo no setor financeiro.
Também imagino o quanto o esvaziamento do governo sob a gestão Bush não terá contribuído para a hesitação de Paulson. Em todas as áreas do Executivo, profissionais de renome foram empurrados para fora; pode ser que não tenha sobrado ninguém no Tesouro com estatura e experiência para dizer a Paulson que ele não estava fazendo sentido.
Sorte da economia mundial, porém, que Gordon Brown e seus assessores estejam fazendo sentido. E eles podem até ter nos mostrado o caminho para sair dessa crise.
PAUL KRUGMAN é colunista do “New York Times” e prêmio Nobel de Economia de 2008
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ENTREVISTA Joseph Stiglitz
A crise é cada vez mais emaranhada, mas ficaram pelo caminho do investidor comum dúvidas básicas sobre o que, afinal, está acontecendo. Semana passada, O GLOBO pediu que um ganhador do Prêmio Nobel de Economia, Joseph Stiglitz — agraciado em 2001 —, respondesse a algumas dessas questões. No sábado, antes de o fim de semana fervilhar de novidades, Stiglitz enviou, por e-mail, suas idéias sobre crédito, juros e eleições.
Maria Fernanda Delmas – O GLOBO
Esta é uma crise de curto, médio ou longo prazo? Já há recessão?
JOSEPH STIGLITZ: Os EUA não estão tecnicamente em recessão.
Mas isso é menos importante que o fato de que a economia vai operar bem abaixo de seu potencial, e o desemprego vai crescer. A economia americana está se encaminhando para uma grande desaceleração, Quando a economia americana entra em declínio, você ouve especialistas discutindo se ele será em V (curta e acentuada) ou em U (mais longa, porém mais branda).
Os EUA podem estar entrando em um declínio melhor descrito como em L: está num ponto muito baixo e deve permanecer lá por algum tempo.
Houve sinais de que a crise vinha. Por exemplo: com os juros a 1% nos EUA, após a recessão de 2001, a população financiou a compra de imóveis, e, quando o Fed (o banco central americano) começou a elevar as taxas, veio a crise de não pagamento das hipotecas subprime (de risco maior). Também se gastou na guerra do Iraque. Ninguém viu isso?
STIGLITZ: Uma das razões da crise é que o Fed inundou a economia com liquidez e deixou a regulação frouxa. Parte pela ideologia de que regulação era ruim, mas parte porque a economia estava fraca. E uma das razões para a economia fraca era o preço do petróleo subindo. Antes de entrarmos em guerra com o Iraque, em 2003, o barril custava US$ 23.
Os mercados futuros anteciparam o aumento na demanda, mas pensaram que haveria um aumento no fornecimento. A guerra mudou a equação. Isso é importante porque os americanos estavam gastando centenas de bilhões de dólares para comprar petróleo. Normalmente, isso teria tido um efeito muito negativo em nossa economia. Mas o Fed construiu uma bolha imobiliária para substituir a bolha de tecnologia que construíra nos anos 90. A bolha imobiliária tornou mais fácil as pessoas tirarem dinheiro de suas hipotecas e de seus imóveis; em um ano, as retiradas com a diferença entre o valor do imóvel e o da hipoteca (graças à valorização do preço da casa) passaram de US$ 900 bilhões. Assim, tivemos uma explosão de consumo tão forte que, mesmo gastando tanto dinheiro fora do país, pudemos manter a economia crescendo.
Era muita miopia. Estava claro que estávamos vivendo com recursos que não eram nossos e fora do tempo regulamentar.
Outra razão é que não tínhamos um cumprimento efetivo das políticas antitruste. Acabamos com instituições que eram grandes demais para quebrar, e há um perigo real de elas tomarem risco excessivo, porque sabem que podem lucrar quando as coisas vão bem, mas, quando as perdas aparecem, também sabem que vamos socorrê-las. Como resolvemos esse problema com três bancos — JPMorgan Chase, Bank of America e Citigroup — detendo 30% dos depósitos dos americanos, estamos exacerbando o potencial de futuros problemas.
O pacote de US$ 700 bilhões será suficiente? O governo está socorrendo bancos em vez de ajudar contribuintes? E o pacote britânico?
STIGLITZ: O plano britânico é muito melhor que o americano.
Nos EUA, o que é preciso é uma injeção de capital nos bancos, com uma participação acionária concedida ao governo (o governo americano deve anunciar hoje, efetivamente, a compra de fatias de bancos). O plano de Paulson (Henry Paulson, secretário do Tesouro dos EUA) é um socorro não transparente a Wall Street, em que tiramos deles os ativos ruins e os deixamos com os bons. É uma decepção, mas não uma surpresa, que o governo tenha apresentado um projeto de lei, mais uma vez, baseado em uma política econômica de inflar o ganho dos ricos, com a crença de que, jogando bastante dinheiro em Wall Street, este chegará à Main Street (a economia real), beneficiando trabalhadores e mutuários. É como um paciente que recebe uma transfusão de sangue maciça enquanto há hemorragia interna.
Não resolve a fonte básica da hemorragia, que é a execução de hipotecas. Tomara que depois das eleições possamos reparar os erros. Os mercados responderam com a mesma falta de entusiasmo que eu senti.
A ação coordenada dos bancos centrais ao cortar juros foi uma decisão certa? Pode causar uma nova bolha?
STIGLITZ: Agora, não resolverá muito de fato, mas também não causará muitos danos.
Para a maioria das pessoas, não importa se pode tomar empréstimos a 4% ou 3%.
O crédito está secando nos EUA, na Europa, no Brasil…Onde está esse dinheiro?
STIGLITZ: Essencialmente, com tantas dívidas ruins e tanta incerteza sobre sua magnitude, há uma crise de crédito.
Os bancos nem sabem a extensão de seus próprios problemas.
Então, como podem ter muita confiança em emprestar para os outros? Não é apenas um problema de falta de liquidez. É mais profundo que isso — balanços foram duramente afetados, e terão de ser consertados. Não importa que plano coloquemos em marcha, haverá uma contração de crédito.
Há alguma racionalidade nas bolsas ou é só especulação? Na hora em que a Câmara americana aprovou o socorro, por exemplo, o índice Dow Jones, que estava subindo, começou a despencar.
STIGLITZ: O real problema com a lei (de socorro), mesmo tendo passado pelo Senado e pela Câmara, é que não tenta resolver os verdadeiros problemas que afligem nossa economia.
Paulson vendeu o problema como uma restauração da confiança. A questão não é apenas uma crise de confiança em nosso sistema bancário (e em nossa liderança econômica).
Há uma razão para as pessoas terem perdido a confiança.
A economia estava se enfraquecendo. Os bancos fizeram muitos empréstimos ruins. Para muitos, enquanto o governo (Bush) falava sobre seu programa para restabelecer a confiança, tratava-se na verdade de um truque com a confiança na economia americana — um presente para Wall Street às custas dos contribuintes comuns. No fim das contas, o truque não funcionou — um dia depois do anúncio (do plano), as bolsas de todo o mundo tiveram o pior pregão de sua história, com os papéis dos bancos tendo as maiores perdas. Paulson e sua equipe trabalharam duramente para conquistar a falta de confiança, à medida que pulavam de uma estratégia para outra. Apesar de o Congresso ter melhorado muito o pacote, também não conseguiu fazer o que era preciso, e quando isso se tornou visível, a confiança ficou ainda mais corroída. Se US$ 700 bilhões não bastaram, o que funcionaria?
A queda recente dos mercados pode ser, de alguma forma, efeito das eleições presidenciais americanas?
STIGLITZ: Enquanto pode não ser um efeito direto das eleições, terá um grande efeito em quem as pessoas votarão, à medida que muitas das razões para a crise surgiram durante o governo Bush. É difícil acreditar que os americanos vão reconduzir à Casa Branca o partido do presidente.
“Estávamos vivendo com recursos que não eram nossos e fora do tempo regulamentar Joseph Stiglitz, ganhador do Prêmio Nobel de Economia
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Segundo academia, escolha se deve aos trabalhos do americano sobre comércio internacional e geografia econômica
Fernando Dantas – O Estado de São Paulo
O Sveriges Riskbank, o banco central da Suécia, anunciou ontem que o economista americano Paul Krugman ganhou o prêmio Nobel de Economia de 2008, por suas contribuições em teoria do comércio internacional e geografia econômica. Professor da Universidade Princeton, ele embolsará sozinho o prêmio equivalente a US$ 1,4 milhão.
Não foram, porém, os seus achados teóricos que fizeram de Krugman um dos raros ganhadores do Nobel de Economia que já eram celebridades antes de receber a mais alta das condecorações acadêmicas. Na verdade, foi como colunista do The New York Times (em cujo site também mantém um blog de grande popularidade) e como autor de livros de economia para o público não-especializado que ele se tornou mundialmente conhecido como um dos mais ferinos e brilhantes críticos do governo Bush e dos economistas conservadores que dominaram a política econômica nas últimas décadas.
Krugman, 55 anos, faz parte do grupo relativamente pequeno de analistas que não se deixou levar pela euforia com o boom econômico dos últimos anos, e apontou insistentemente para os sérios desequilíbrios globais que desembocaram na atual turbulência global. Recentemente, foi um dos mais duros críticos do secretário do Tesouro americano, Henry “Hank” Paulson, e de seu pacote de saneamento bancário por meio da aquisição de “ativos tóxicos” (ver reportagem abaixo).
Dono de um texto de fazer inveja aos melhores jornalistas, com uma impressionante capacidade de explicar questões econômicas complexas para o grande público, e provido de um senso de ironia refinadíssimo, Krugman já rivalizava, antes mesmo de receber a premiação de ontem, com o outro grande crítico dos excessos do liberalismo, o também laureado pelo Nobel Joseph Stiglitz.
NOVA TEORIA DE COMÉRCIO
O Nobel de Krugman deve-se aos seus trabalhos sobre a “nova teoria de comércio” e “a nova geografia econômica”. Independentemente de orientação ideológica, os economistas são unânimes em afirmar o merecimento do seu Nobel pelas contribuições acadêmicas produzidas naquelas áreas. “Há um grande consenso na profissão de que Paul Krugman deveria ganhar o prêmio Nobel pelo seu trabalho prévio em comércio internacional”, diz Kenneth Rogoff, da Universidade de Colúmbia, ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI).
Krugman conseguiu explicar por que existe um comércio internacional tão intenso entre países muito parecidos em dotações de recursos, como as nações ricas em geral. Na visão clássica de comércio internacional, de David Ricardo, conhecida como “teoria das vantagens comparativas”, o comércio entre o mundo desenvolvido e o subdesenvolvido é bem explicado. Como esses países são diferentemente dotados de recursos, com abundância de capital nos ricos e abundância de matérias-primas e mão-de-obra barata nos pobres, o comércio internacional deixa todos em melhor situação, ao fazer com que cada um produza aquilo que tem condições de fazer melhor: matérias-primas e produtos de baixo valor agregado, nos países subdesenvolvidos, e produtos mais sofisticados nos desenvolvidos. Isso não explica, porém, por que os países ricos têm entre si um comércio tão volumoso – na realidade, ainda representa a maior parte do comércio internacional
O achado de Krugman foi o de mostrar que uma combinação entre desejo de variedade, por parte dos consumidores, e economias de escala, por parte dos produtores, combinam-se para tornar viável o comércio entre nações desenvolvidas.
Assim, diversos países ricos são sede de empresas de automóveis de luxo, que só se tornam viáveis economicamente se comercializados globalmente. Ao mesmo tempo, preferências variadas entre os consumidores fazem com que os Mercedes alemães, Toyotas japoneses ou Volvos suecos sejam comercializados simultaneamente em vários países.
Maria Cristina Terra, professora da Universidade de Sergy-Pontoise, em Paris, e da Escola de Pós-Graduação em Economia da Fundação Getúlio Vargas no Rio, observa que a visão clássica de comércio internacional descarta, na grande maioria dos casos, todo tipo de política comercial e política industrial.
Com Krugman, foi possível mostrar que há situações em que barreiras comerciais ou subsídios à exportação produzem reais benefícios ao país que usa esses instrumentos.
O economista Luiz Gonzaga Belluzzo nota que Krugman combateu na década de 90 o uso da sua teoria como base para críticas à liberação comercial e à globalização, mas recentemente ele voltou atrás, ao afirmar que os trabalhadores dos Estados Unidos podem ser prejudicados pela ascensão da China.
FRASES
“O Brasil está até agora se beneficiando das dificuldades internacionais. É um exportador de commodities e não é grande importador de petróleo. Se fizéssemos uma lista dos países que se beneficiam dessa situação, ela incluiria Arábia Saudita, Rússia e Brasil”
“Há uma frase antiga: o trabalho de um banqueiro central é fugir da festa com a poncheira quando a festa está no auge. Greenspan ia de pessoa em pessoa dizendo ‘aqui está seu ponche’”
“Um banqueiro de 1930 teria reconhecido a crise. Estamos repetindo 1930, mas, desta vez, o Fed está ajudando os bancos”
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Investidor diz que mercado não pode corrigir a si mesmo e que agora o poder econômico está pendendo para a Ásia
Nathan Gardels – O Estado de São Paulo
O investidor e filantropo George Soros conversou com o editor da Global Viewpoint sobre a crise financeira internacional. A seguir, os principais trechos da entrevista.
Falemos sobre a natureza da crise.
Graças às baixas taxas de juros, à liquidez global e à desregulamentação, vivemos durante 25 anos numa bolha de expansão do crédito que aumentava a si mesma, o que levou à “exuberância irracional” nos mercados financeiros. Agora vemos uma quebra dos mercados de ações e de crédito que alimenta a si mesma – “desespero irracional” – sem encontrar justificativa nas leis fundamentais da economia real.
Como este padrão reflete seu novo paradigma para a compreensão das finanças?
A chave para a compreensão da crise é perceber que ela foi gerada dentro do próprio sistema financeiro. Não é o resultado de algum tipo de choque exógeno que tirou as coisas do seu equilíbrio, conforme sugeriria o paradigma mais difundido, que supõe a existência da capacidade do mercado de se autocorrigir. A realidade é que os mercados financeiros desestabilizam a si mesmos; ocasionalmente eles tendem ao desequilíbrio, e não ao equilíbrio. O paradigma que proponho difere da sabedoria convencional. Em primeiro lugar, os mercados financeiros não refletem as verdadeiras leis fundamentais da economia. As expectativas dos corretores e dos investidores estão sempre distorcendo essas leis. Em segundo lugar, essas distorções no mercado podem afetar as leis fundamentais – como vemos tanto nas bolhas quanto nas quebras. A euforia pode elevar os preços das moradias e das empresas ponto.com; o pânico é capaz de derrubar bancos sólidos. Essa conexão de mão-dupla – você afeta aquilo que você reflete – é o que eu chamo de “reflexividade”.
Qual deveria ser o “circuit-breaker” capaz de subverter as distorções que inevitavelmente desestabilizam os mercados?
Se as bolhas são endêmicas ao sistema, os reguladores têm de intervir para impedir que se tornem grandes demais. Os governos precisam reconhecer o fato de que os mercados não são capazes de corrigir a si mesmos. Não basta recolher os pedaços depois da crise.
O sr. acha que a presença de um ciclo de notícias econômicas de 24 horas amplifica e exagera as distorções nos mercados financeiros?
Sem dúvida isso acelera o processo. Ao mesmo tempo, eu não atribuiria a isso uma importância excessiva. No final do século 19, não havia transmissão de notícias durante 24 horas, mas ainda assim formava-se o mesmo tipo de bolha. Durante o século 19, quando a regulação era insuficiente, as crises aconteciam sucessivamente. Cada crise provocava alguma reforma. Foi assim que se desenvolveu a instituição do banco central.
Como é possível que todo o esforço do governo americano – incluindo o pacote de resgate de US$ 700 bilhões e a baixa taxa de juros – não tenha sido capaz de impedir a crise?
As autoridades americanas compraram uma ideologia de fundamentalismo de mercado. Elas pensaram que afinal os mercados iriam corrigir a si mesmos. O secretário do tesouro, Henry Paulson, representou a epítome deste raciocínio. Ele pensou que, seis meses depois da crise do Bear Sterns, o mercado teria se ajustado e, “Bem, se o Lehman Brothers quebrar, o sistema será capaz de suportar as conseqüências”. Ao invés disso, tudo começou a desabar. Por não compreender a natureza do problema não viram necessidade de intervenção por parte do governo. Eles não prepararam um plano B. Conforme o choque da falência do Lehman começou a se fazer sentir, Paulson foi obrigado a mudar de idéia e socorrer a AIG. No dia seguinte viu-se uma corrida aos mercados monetários e de papel de curto prazo, e então deu meia-volta novamente e disse que precisávamos de um pacote de resgate de 700 bilhões. Mas ele queria botar o dinheiro no lugar errado – tirando das mãos dos bancos os valores mobiliários tóxicos. Finalmente voltaram ao rumo certo – com o governo comprando participação nos bancos – porque percebem que o sistema financeiro está à beira do colapso.
Quais são os elementos-chave para a solução da crise?
Há cinco elementos principais. (1) Em primeiro lugar, o governo precisa recapitalizar o sistema bancário através da compra de participação nos bancos. (2) Os empréstimos interbancários precisam ser reiniciados com garantias. Esse processo está em andamento. (3) Precisamos reformar o sistema hipotecário dos EUA, minimizando as execuções e renegociando empréstimos para que as hipotecas não tenham valor superior ao das casas. (4) A Europa precisa consertar uma fraqueza do euro com a criação de uma rede de segurança para seus bancos. Eles resolveram este problema no seu encontro em Paris. (5) O FMI precisa lidar com a vulnerabilidade dos países da periferia do sistema financeiro global através do oferecimento de uma rede de segurança. Esse processo também está encaminhado. Essas medidas darão início à recuperação. Se as implementarmos com eficácia, teremos suportado o pior da crise financeira. Mas temo que sejam inevitáveis as conseqüências sobre a economia real.Consertar o sistema financeiro não impedirá uma grave recessão mundial.
Quando tudo terminar, teremos uma paisagem financeira muito diferente?
A influência dos EUA vai minguar. Já entrou em declínio. Durante os últimos 25 anos, estivemos sustentando um contínuo déficit em conta corrente. Os chineses e os países produtores de petróleo mantiveram lucros. Consumimos mais que produzimos. Enquanto aumentávamos as dívidas, eles obtiveram riqueza com suas poupanças. Cada vez mais, os chineses serão os donos do mundo, pois estarão convertendo suas reservas de dólares e seus títulos do governo americano em ativos e bens reais.
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Editorial jornal Le Monde
Aux heures noires de la Grande Crise à New York, raconte le célèbre économiste John Kenneth Galbraith dans son livre sur le krach de 1929, les hôteliers demandaient aux clients réservant une chambre si c’était pour dormir ou pour sauter. Dans la tourmente de cet automne, ce ne sont plus des individus qui sautent, mais des banques entières, des établissements de crédit naguère follement prospères au point de léviter dans des bulles d’or redevenues citrouilles au minuit sombre des marchés mondiaux.
Le site du Guardian pointait vendredi que l’immeuble de Time Square, au coeur de Manhattan, affichant sur son fronton le montant de la dette publique américaine, n’a plus assez de place pour loger la quantité astronomique de milliards de dollars, précisément 10 299 050 383, une énormité due notamment au financement du plan Paulson et à la mise sous perfusion des agences Freddie Mac et Fannie Mae. Il a même fallu éliminer le symbole “$”, qui occupait la dernière case de l’affichage, pour que le passant puisse boire ce chiffre jusqu’à la lie… C’est à se demander si aucun banquier a seulement pris une fois la peine de lever les yeux pour regarder en face la “National Debt Clock”, trop occupé sans doute par le mirage du crédit facile et du risque prétendument éliminé par la titrisation des créances pourries.
Un poison à retardement courait dans les veines de la finance. Les secours étatiques sont restés impuissants à administrer le bon sérum. Comble de la maladie du capitalisme, les injections massives d’argent ne soulagent pas la douleur des banques ni ne ravivent les marchés.
Cette purge est avant tout la sanction du réel qui cogne à la porte sans ménagement. Il faut dire qu’il avait déjà prévenu. En août 2007, avec le véritable déclenchement de la crise des subprimes. Mais, à l’époque, la plupart des financiers éludaient le danger, ignorant la complexité perverse des outils circulant sur les marchés au point de s’affranchir des contraintes de prudence. Le réel avait encore frappé début 2008 avec la flambée des prix alimentaires et les tensions sur les énergies fossiles. Rien vu, rien dit, rien appris.
Devant pareil désastre, on ne peut que s’inquiéter des transgressions de nos sociétés que dévore le virtuel. N’existent pas, sauf dans les jeux vidéo, les guerres aux soldats qui ressuscitent. N’existent pas, sauf chez les apprentis sorciers, les femmes qui enfantent en plusieurs exemplaires à l’approche de la soixantaine. On peut aimer l’interrogation de Valéry : “Que serions-nous sans le secours des choses qui n’existent pas ?”, et crier gare devant un monde qui se construit sur des mirages. Des banques d’affaires qui prêtent plus de quarante fois leurs fonds propres, cela n’existe pas. Des ménages accédant sans effort financier à la propriété, cela n’existe pas davantage. La crise qui éclate le prouve : à posséder si peu de lest, bien des banques ont sacrifié la réalité à l’imaginaire, quitte à dérégler le thermomètre pour l’empêcher d’indiquer la fièvre. Inconscience, ivresse, cupidité, fuite en avant, l’affaire est entendue.
Et maintenant ? Comme dans les puits de pétrole en flammes que seule une énorme charge de dynamite parvient à éteindre par l’effet de souffle, seule une action concertée équivalente à l’attaque réussira. Qui peut la mener ? Pas les Etats-Unis uniquement, disqualifiés par l’échec d’un modèle libéral à l’anglo-saxonne. Après avoir longtemps cru à l’autorégulation des marchés, ils viennent de les anéantir par les pratiques intégristes de l’ère Bush.
La remise en cause de l’hyperpuissance américaine ne signifie pas le renforcement d’une Europe aux égoïsmes tenaces, comme l’illustre le refus allemand d’un plan commun. Pour autant, le capitalisme d’Etat façon russe ou chinoise ne saurait devenir le modèle à suivre, tant il se paie d’autoritarisme et d’inégalités aussi criantes qu’en Occident. La question reste entière : qui va poser la règle ? Qui la fera respecter ? Qui va nous ancrer au réel ? La sécurité financière doit devenir un droit mondial, garanti par des instances mondiales. Pour préserver la paix. Et une prospérité partagée, conciliable avec les ressources d’un monde fini.
Eric Fottorino
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Paul Krugman* – O Estado de São Paulo
No mês passado, quando o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos deixou que o banco de investimento Lehman Brothers quebrasse, escrevi que Henry Paulson, o secretário do Tesouro, estava jogando roleta-russa. Havia de fato uma bala naquela câmara: a quebra do Lehman fez com que a crise financeira mundial, que já era grave, ficasse muito, mas muito pior.
As conseqüências da queda do Lehman ficaram evidentes em poucos dias, no entanto os estrategistas econômicos desperdiçaram em grande parte as últimas quatro semanas. Agora, chegou o momento da verdade. Eles precisam fazer alguma coisa logo – na realidade, precisam anunciar um plano de ajuda coordenado neste fim de semana – ou a economia mundial mergulhará na crise mais grave desde a Grande Depressão.
Vejamos qual é a nossa situação agora. A atual crise começou com o estouro da bolha imobiliária, que levou a uma ampla inadimplência das hipotecas, provocando imensos prejuízos em muitas instituições financeiras. A esse choque inicial se somaram efeitos secundários, enquanto a falta de capital obrigava os bancos a recuar, provocando declínio maior dos preços dos ativos e, em decorrência, mais prejuízos, e assim por diante – um círculo vicioso de “desalavancagem”.
A perda generalizada da confiança nos bancos, até mesmo por parte de outros bancos, reforçou o círculo vicioso. A espiral descendente acelerou-se depois da quebra do Lehman. Os mercados financeiros, já conturbados, fecharam efetivamente – dizem, atualmente, que as únicas coisas que todos querem comprar neste momento são letras do Tesouro e água engarrafada.
As duas grandes potências monetárias mundiais – Estados Unidos, de um lado, e as 15 nações do euro, do outro – responderam a essa espiral descendente de maneira lamentavelmente inadequada.
A Europa, não tendo um governo único comum, tem sido literalmente incapaz de uma ação conjunta; cada país elabora a sua própria política, com pouca coordenação, por isso, as propostas de uma resposta unificada não foram a parte nenhuma.
Os Estados Unidos deveriam estar em uma posição muito mais forte. E, quando Paulson anunciou o plano de uma ampla operação de resgate, houve uma onda temporária de otimismo. Entretanto, logo ficou evidente que o plano sofria de uma falta fatal de clareza intelectual. Paulson propôs comprar “ativos podres” de bancos no valor de US$ 700 bilhões – títulos garantidos por hipotecas podres – , mas nunca conseguiu explicar de que modo essa operação poderia solucionar a crise.
O que ele deveria ter proposto, concordam muitos economistas, era uma injeção direta de capital nas instituições financeiras: o governo americano forneceria a essas empresas o capital de que necessitavam para fazer seus negócios – detendo, desse modo, a espiral descendente – em troca de uma participação.
Quando o Congresso modificou o plano de Paulson, introduziu dispositivos que tornavam possível, mas não obrigatória, essa injeção de capital. E, até três dias atrás, ele se opunha resolutamente a fazer a coisa certa.
Mas, na quarta-feira, o governo britânico, mostrando o tipo de pensamento claro que tem sido extremamente escasso deste lado do Atlântico, anunciou um plano pelo qual cedia aos bancos 50 bilhões de libras esterlinas (cerca de US$ 85 bilhões) em capital novo – o equivalente, proporcionalmente, ao tamanho da economia, a um programa americano de US$ 500 bilhões – com amplas garantias para transações financeiras entre bancos. Agora, as autoridades do Tesouro americano dizem que planejam algo semelhante, usando a autoridade que não quiseram, mas o Congresso lhes conferiu de qualquer maneira.
A questão agora é: serão essas medidas insuficientes e demasiado tardias? Não acredito, mas será muito alarmante se este fim de semana acabar sem que haja um anúncio crível de um novo plano de ajuda financeira, envolvendo não apenas os Estados Unidos, mas também todos os principais países.
Por que precisamos da cooperação internacional? Porque temos um sistema financeiro globalizado, em que a crise que começou com uma bolha nos condomínios da Flórida e nas “McMansões” da Califórnia, causou uma catástrofe monetária na Islândia. Estamos todos no mesmo barco e precisamos de uma solução conjunta.
Por que neste fim de semana? Porque em Washington ocorrem duas grandes reuniões: uma reunião das principais autoridades financeiras das nações mais avançadas (ontem) e a reunião anual do Fundo Monetário Internacional/Banco Mundial, hoje e amanhã. Se essas reuniões se encerrarem sem pelo menos um acordo de princípio a respeito de um plano de ajuda global – se todos forem para casa sem nada de concreto, a não ser vagas afirmações de que pretendem controlar a situação – terá se perdido uma ocasião de ouro e a espiral descendente poderá piorar.
O que é preciso fazer? Os Estados Unidos e a Europa deveriam se limitar a dizer: sim, primeiro-ministro. O plano britânico não é perfeito, mas os economistas concordam amplamente que é o melhor esboço disponível de uma iniciativa de ajuda mais ampla. O momento de agir é agora. Podemos achar que as coisas não podem piorar, mas podem, se nada for feito nos próximos dias.
*Paul Krugman escreve para o ‘The New York Times’
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Strauss-Kahn defende cooperação e coordenação mundial contra a crise
Rolf Kuntz, O ESTADO SP – WASHINGTON
O mundo está à beira de uma recessão e não há solução nacional para uma crise como esta, disse ontem o diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Dominique Strauss-Kahn. “Cooperação e coordenação nas ações são o preço do êxito”, acrescentou.
A ação mais urgente, segundo ele, é restabelecer a confiança nos mercados financeiros e a medida mais importante para isso deve ser a recapitalização dos bancos. “Não sairemos desta situação sem recapitalizar suficientemente as instituições financeiras”, insistiu. (Ler abaixo artigo especial de Strauss-Khan.)
A cooperação, disse o diretor-gerente do FMI, tem de ir muito além do entendimento entre os membros do Grupo dos Sete (G-7), formado pelas maiores potências capitalistas (Estados Unidos, Japão, Alemanha, Reino Unido, França, Itália e Canadá). É preciso, segundo ele, incluir no grupo mais quatro, cinco importantes atores da economia mundial. Mesmo assim, as soluções terão de valer para todos os países, “pois agora a crise envolve todo o mundo”.
A ampliação do G-7 (G-8, quando a Rússia participa) é uma reivindicação do Brasil e de outros grandes países emergentes, mas o Strauss-Kahn não entrou nesses detalhes.
Ministros de Finanças e presidentes de bancos centrais das sete principais potências devem reunir-se hoje no Departamento do Tesouro americano. Essa reunião ocorre tradicionalmente como evento paralelo às assembléias do FMI. Os comunicados desses encontros são, em geral, previsíveis, mas, desta vez, o assunto é a maior crise desde os anos 30.
Já houve nesta semana uma grande ação coordenada, na quarta-feira, quando bancos centrais das economias mais desenvolvidas cortaram 0,5 ponto porcentual dos juros básicos. A iniciativa, embora considerada positiva, foi insuficiente para mudar o humor nos mercados. As bolsas continuaram a fechar em queda nos últimos dois dias. Ontem, o Índice Dow Jones da Bolsa de Nova York despencou 7,3%, levando o Ibovespa novamente para baixo.
A discussão no G-7 deverá envolver propostas de ações mais ambiciosas, como os amplos programas de auxílio a instituições financeiras já aprovados nos Estados Unidos e no Reino Unido. O diretor-gerente do FMI, normalmente convidado para esses encontros do G-7, deverá insistir nas idéias de recapitalização, recolhimento de ativos podres (já autorizado pelo Congresso americano) e garantias para os depositantes.
Haverá pressão, provavelmente, sobre a maioria dos membros da União Européia e sobre o Japão. Dentre os europeus, só o governo do Reino Unido tem acompanhado mais ou menos de perto a ação mais ampla desenvolvida pelas autoridades americanas.
Ontem, Strauss-Kahn cobrou cooperação principalmente dos governos da Europa, insistindo num ponto já tocado por outros dirigentes do FMI. Mas ele demonstra ambicionar um papel mais amplo para o FMI. Esta crise, insistiu, não será resolvida só com os instrumentos monetários e fiscais. Os governos terão de usar também instrumentos financeiros. O Fundo, segundo ele, é a única instituição internacional capaz de trabalhar com os vínculos entre os setores financeiro e real.
No sábado, o espetáculo será mais amplo, com a reunião extraordinária, marcada para as 18 horas, do Grupo dos 20 (G-20), formado por grandes economias desenvolvidas e emergentes. A convocação do encontro foi sugerida pelo secretário do Tesouro americano, Henry Paulson, ao ministro da Fazenda, Guido Mantega, presidente do grupo neste ano.
Além dos membros do G-7, o G-20 inclui Brasil, África do Sul, Arábia Saudita, Argentina, Austrália, China, Índia, Indonésia, México, Rússia, Coréia do Sul e Turquia. A União Européia também é representada como bloco.
Os ministros do Brasil e de outros emergentes poderão reclamar da crise causada pelas instituições financeiras do mundo rico e cobrar ações corretivas, mas a turbulência internacional afeta seus países de forma diferenciada. Apresentam graus diferentes de vulnerabilidade nas contas externas e diferentes níveis de inflação e de solidez nas contas públicas.
Para o Brasil, comentou Strauss-Kahn, a crise terá como principal conseqüência a redução do crescimento, de 5,2% em 2008 para 3,5% em 2009, segundo a estimativa contida no Panorama Econômico Mundial divulgado no dia anterior.
Nenhum país está imune à crise, repetiu o diretor-gerente do FMI, “mas o Brasil tem fundamentos fortes, a política econômica foi administrada corretamente nos últimos anos, um monte de reservas foi acumulado e a economia do País está em boa forma”.
Bem mais complicada que a dos emergentes é a situação dos países pobres, em geral importadores de alimentos e, em muitos casos, também de petróleo. É a “outra crise”, segundo a expressão de Strauss-Kahn.
O presidente do Banco Mundial, Robert Zoellick, tratou principalmente da situação desses países, na entrevista concedida também ontem na sede do FMI. Em julho, numa reunião do G-8, lembrou Zoellick, ele mencionou o duplo impacto sofrido pelos países em desenvolvimento – a alta de preços do petróleo e da comida.
“Agora, o golpe é triplo – comida, combustível e finanças – ameaçam não só derrubar as pessoas pobres, mas mantê-las no chão”, disse Zoellick. Aos países mais pobres e sujeitos a dificuldades maiores, o Fundo já oferece ajuda financeira e assistência técnica, por meio de um programa especial, lembrou Strauss-Kahn, e continuará a oferecer enquanto se prolongarem os efeitos da crise.
Esses países foram atingidos principalmente pelo aumento dos preços de produtos básicos e sua situação ainda é grave, mesmo com o recuo das cotações dos produtos agrícolas e do petróleo. E os pobres, lembrou Strauss-Khan, são os primeiros a ser afetados pela inflação.
Tags: alimentos, Bolsas, Crescimento, crise, crise USA, Europa, finanças, FMI, inflação, Juros, Mercados, Paulson, petróleo, recessão, Reservas, Strauss-Kahn, Tesouro, USA, Zoellick
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FOLHA SP – ENTREVISTA NOURIEL ROUBINI
Economista que previu crise diz que sistema financeiro precisa mudar para evitar “derretimento total”
SÉRGIO DÁVILA
DE WASHINGTON
Na segunda-feira, Nouriel Roubini escreveu que o governo norte-americano deveria organizar um corte coordenado de juros nas principais economias mundiais e o Federal Reserve, o banco central do país, tinha de fazer empréstimos de curto prazo diretamente para as empresas. Na terça e na quarta, as duas medidas foram anunciadas. Você sabe que a crise é realmente grave quando um economista conhecido pelo apelido de “Sr. Apocalipse” começa a ser ouvido pela Casa Branca.
Profissional do meio que mais acertos fez em relação à crise atual, Roubini falou à Folha por telefone na tarde de anteontem. Sotaque de mafioso de filme B de Hollywood -filho de judeus iranianos, nasceu na Turquia, morou na Itália e vive em Nova York-, disse que toureava 300 pedidos de entrevista que chegaram apenas naquele dia. Ele acha que o mundo corre o risco de uma depressão, e o Brasil, de crescer menos de 3% (leia texto nesta página). Leia trechos da entrevista.
FOLHA – Depois de os 12 passos que o sr. previu em fevereiro para a crise atual se cumprirem, o que podemos esperar para o 13º?
NOURIEL ROUBINI – Bem, há duas opções. Ou promovemos uma mudança radical no sistema financeiro para evitar o derretimento completo, que é a coisa certa a fazer, ou esse sistema sofrerá colapso nos Estados Unidos, na Europa e em outros países. E poderemos ter uma depressão global.
FOLHA – O sr. vê contágio no setor corporativo?
ROUBINI – Já começa a acontecer aqui nos EUA. Em geral, com algumas exceções, as companhias americanas não estavam tão expostas ao papéis tóxicos hipotecários. Ainda assim, nas últimas semanas, diminuiu drasticamente o acesso a crédito das empresas aqui no país, mesmo companhias avaliadas pelas agências de risco como AAA.
Com o mercado de papéis comerciais [letras de câmbio não-garantidas] praticamente interrompido e os empréstimos bancários caríssimos, não há dinheiro para que elas cumpram as obrigações do dia-a-dia. Se nem essas estão tendo acesso, imagine as que têm avaliação pior. Se isso se agravar no setor corporativo, todo o sistema pára, começaremos a ver quebras de empresas incapazes de honrar seus compromissos de curto prazo. Na minha opinião, já estamos no ponto de crise grave também aqui.
FOLHA – Isso leva à minha próxima pergunta. O sr. escreveu na última segunda um artigo em que pedia um corte coordenado de juros nas principais economias mundiais e que o Federal Reserve emprestasse diretamente para as empresas. Nos dias seguintes, as duas medidas foram anunciadas. Coincidência, é claro, mas o sr. acha que alguém no governo finalmente começou a ler suas colunas?
ROUBINI – Eu sei que eles ouvem de fato, porque muitos deles me ligam e dizem isso. As decisões foram corretas e vão na direção certa, mas não são suficientes, muito mais tem de ser feito. Se você ler o meu artigo, eu pedia duas outras ações, que o Fed garanta que vai prover liquidez no caso de uma corrida generalizada aos bancos e que aumente sua ação para prover liquidez de curto prazo a atores não-bancários que emprestam a corporações. A primeira eu não sei quando vai acontecer, a segunda já estamos vendo aos poucos.
Outro aspecto que eu não escrevi mas que acho necessário é um programa de expansão fiscal do governo nos moldes dos da Grande Depressão, porque a demanda privada e o consumo estão sofrendo colapso, então serão necessários gastos governamentais em infra-estrutura nos níveis municipal, estadual e federal. Precisamos revisar o Plano Paulson também para que aja efetivamente nos setores imobiliário e no sistema bancário. Resumindo, ainda falta fazer muito.
FOLHA – O sr. pinta um quadro excessivamente grave. A situação é tão ruim assim?
ROUBINI – Sim, na última semana ou dez dias, o sistema financeiro inteiro parou de funcionar, não há mais empréstimos interbancários, não há mais transmissão de liquidez entre os bancos e do sistema bancário para o sistema financeiro paralelo, que está em extinção, e começa a chegar ao setor corporativo. As Bolsas se enfraquecem a cada dia, o mercado seca e os gastos começam a diminuir. Estamos a um passo do derretimento total.
FOLHA – O sr. mencionou a possibilidade de depressão global. Quão perto estaria?
ROUBINI – Já estamos em recessão nos Estados Unidos, na Europa, no Reino Unido, no Canadá, na Austrália, na Nova Zelândia, no Japão. Ou seja, cerca de 50% das economias globais já estão em recessão. Depois que essa se estabelecer, começaremos a ver desaceleração maciça de crescimento nas economias emergentes. O que quer dizer isso? Que teremos algum crescimento nos mercados emergentes, entre 2% e 3%, o que será uma aterrissagem dura para esses países, que necessitam de muito mais do que isso. Essa diminuição contribuirá para a queda do crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) global, que pode ficar negativo.
FOLHA – E quanto durará?
ROUBINI – Se fizermos tudo certo, o que não está garantido, deve durar entre 12 e 24 meses. Há também o risco de os EUA entrarem numa estagnação como a que atingiu o Japão.
FOLHA – E quem é o culpado , em sua opinião?
ROUBINI – São muitos e diferentes fatores. É uma tempestade perfeita composta de dinheiro fácil, crédito fácil, baixas taxas de juros, instituições financeiras se expondo a risco excessivo, instrumentos financeiros novos e modernos, mas também exóticos e sem liquidez, cumplicidade das agências classificadora de riscos, falta de regulação e supervisão adequada por parte dos governos. Não há um só culpado, mas vários: agentes financeiros, reguladores, governantes, bancos centrais…
FOLHA – O sr. foi um dos primeiros a preverem essa crise, já em 2006. Foi chamado de catastrófico, apocalíptico e alarmista então. O sr. se sente vingado, de alguma maneira?
ROUBINI – Vingado não é a palavra, pela quantidade de desastres que essa crise trouxe, mas eu estava seguro de que minhas análises eram plausíveis e que meus dados eram corretos, que eu tive a honestidade intelectual de manter meus pontos de vista porque sabia que estava certo. E, infelizmente, eu estava certo.
FOLHA – Por que o sr. foi quase uma exceção?
ROUBINI – Os que fazem a política econômica tinham receio de dizer que temiam pelo futuro da economia, muitos analistas econômicos fazem previsões que procuram agradar a seus clientes, havia ainda um clima de euforia, muita gente dizendo que era um novo mundo, que seria diferente dessa vez. Muita gente dizendo que não se tratava de uma bolha imobiliária, mas de uma série de pequenos avanços…
FOLHA – O que o sr. não previu? O que o surpreendeu?
ROUBINI – A velocidade com que os 12 passos que eu previ aconteceram. Na minha análise, o que aconteceu desde a quebra do Lehman Brothers levaria talvez dois anos.
FOLHA – O sr. trabalha numa nova série de passos?
ROUBINI – Não, em vez de ficar prevendo desgraças novas, estou me dedicando a sugerir soluções para a catástrofe.
FOLHA – O Plano Paulson vai funcionar?
ROUBINI – Não, falta muita coisa. Recapitalizar o sistema bancário, lidar diretamente com os mutuários inadimplentes, fazer uma triagem entre os bancos que merecem ser salvos e os que devem quebrar, muito mais tem de ser feito para que o plano funcione, e eu não vejo isso acontecendo.
FOLHA – O secretário do Tesouro, Henry Paulson, e o presidente do Fed, Ben Bernanke, parecem estar sempre um passo atrás dos acontecimentos.
ROUBINI – Sim, atrás da curva, e isso prejudica até as ações positivas que eles tomam. Muitas vezes os mercados têm reagido mal a boas iniciativas, porque chegam tarde.
FOLHA – O próximo presidente vai encarar o pior da crise. Qual a diferença fundamental entre a política econômica do democrata Barack Obama e a do republicano John McCain?
ROUBINI - A principal diferença é que Obama, a quem apóio, tomará ações mais decisivas para lidar com a crise, não deixará o mercado cuidar de si mesmo. Precisaremos de uma intervenção mais formal, e isso estava faltando na última gestão e continuará faltando na de McCain. Essa será a principal diferença entre os dois.
FOLHA – O sr. se incomoda de ter sido apelidado “Sr. Apocalipse”?
ROUBINI – Não ligo. Não é que eu seja uma pessoa permanentemente pessimista em relação ao mercado, eu serei o primeiro a gritar “a crise acabou!” quando ela acabar e me tornarei um otimista. Creio, na verdade, que ainda há muitas oportunidades na economia global para que mercados emergentes cresçam num ritmo sustentável, mesmo agora. Não é uma questão de otimismo versus pessimismo. É que os eventos das últimas semanas surpreenderam até mesmo o meu pessimismo.
FOLHA – Quando o sr. se sentirá otimista?
ROUBINI – Quando eu sentir que chegamos ao fundo do poço, o que não aconteceu. Eu vejo uma luz no fim do túnel, mas é uma locomotiva vindo em nossa direção…
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Gilles Lapouge* – O Estado de São Paulo
A crise financeira mudou de natureza. Oito dias atrás apenas, era uma crise polida, respeitosa. Devastava os Estados Unidos, mas não entrava na Europa. Por duas razões: primeiro porque Wall Street é um ninho de loucos, irresponsáveis e egoístas. Depois, os bancos europeus são maravilhas, verdadeiras relojoarias suíças, sólidos, eternos. Esses tempos misericordiosos acabaram. A crise, insensível a discursos e fronteiras, se infiltrou na Europa. Bancos começaram a cair.
Os governos ficaram surpresos. Taparam os buracos, mas isso não bastou. Vários bancos grandes cambaleiam. Aí a Europa despertou. Sua sorte é que o presidente em exercício da União Européia (UE) é o presidente francês Nicolas Sarkozy, famoso por seu “olho de águia”. E, de fato, anteontem Sarkozy se pôs em campanha, com grande estardalhaço, dizendo que o capitalismo precisava ser “reinventado”. Convocou para sábado, em Paris, seus parceiros europeus do G-8 (Alemanha, Inglaterra e Itália), além da Comissão de Bruxelas e do Banco Central Europeu (BCE).
Infelizmente, em vez de felicitarem Sarkozy, os outros europeus acharam que ele estava fazendo demais. ” Mais um show de Sarkozy! As palavras não servem de nada. Precisamos de atos”, resmungaram. Sarkozy, muito espantado, quis mostrar que a reunião de sábado não seria um simples show. Ele havia costurado um plano arrasador contra a crise. De noite, um despacho da agência Reuters revelava o plano: criação de um “fundo federal” de 300 bilhões para ajudar os bancos enfermos.
Esse despacho saiu às 18h 27. Sete minutos depois, o ministro alemão das Finanças, Peer Steinbrück, dava sua breve resposta: “Não!” E o plano francês entrava pelo ralo.
A França, apoiada pela Bélgica, a Holanda e o BCE, queria que a crise fosse tratada com um “fundo europeu centralizado”. Esse sistema desagrada os alemães, favoráveis à “desconcentração dos poderes” na Europa. A Alemanha sempre foi contrária ao conceito francês de “governo econômico europeu”, e mais contrária ainda a um “orçamento europeu”.
Essas rixas entre os Estados europeus são muito graves, não só no âmbito financeiro como no político. É a construção européia, e, principalmente, sua mais bela conquista, a moeda comum que estão em risco. Há dez anos, quando o euro foi lançado, algumas vozes importantes disseram que ele estava condenado ao fracasso.
Por quê? Porque a carroça da moeda única tinha sido colocada à frente dos bois das instituições comuns. No entanto, o euro foi um sucesso. Ele rivalizava com o dólar e era gerido brilhantemente pelo BCE. Mas, no primeiro solavanco sério, a Europa se atrapalha. Agora que os bancos europeus se aproximam do abismo, a França e a Alemanha se desentendem e bloqueiam qualquer solução à altura do perigo.
Alguns dias atrás, os europeus zombavam dos americanos, incapazes de adotar o Plano Paulson. Hoje, a situação se inverte. O Plano Paulson está em marcha e a impotência, a cizânia, cruzaram o Atlântico.
A disputa entre Paris e Berlim é inquietante. A explosão da UE em vários clãs antagônicos é simbólica de suas fraquezas. Para além do salvamento dos bancos, é a própria construção européia que está à prova.
*Gilles Lapouge é correspondente em Paris
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GEORGE SOROS ESPECIAL PARA O “FINANCIAL TIMES” – FOLHA SP
A LEGISLAÇÃO de emergência em estudo pelo Congresso dos EUA foi mal calculada ou, para ser mais preciso, não foi calculada. E quando o Congresso tentou aperfeiçoar o que o Tesouro havia solicitado originalmente, emergiu um plano combinado que consiste do Programa de Alívio a Ativos Problemáticos (Tarp, na sigla em inglês) que o Tesouro solicitou e de um programa bastante diferente de infusão de capital sob o qual o governo investiria em e estabilizaria bancos enfraquecidos, e sairia lucrando quando a economia vier a melhorar. A abordagem de infusão de capital custará menos aos contribuintes nos anos futuros e poderá até dar lucro a eles.
Duas semanas atrás, o Tesouro não tinha um plano preparado -é por isso que teve de solicitar total liberdade quanto ao desembolso dos recursos.
Mas a idéia geral era a de propiciar alívio ao sistema bancário ao assumir os títulos tóxicos dos bancos e estacioná-los em um fundo controlado pelo governo, de modo a que não fossem despejados no mercado a preços cada vez menores.
Com o valor de seus investimentos estabilizado, os bancos poderiam, então, levantar capital acionário.
A idéia estava repleta de dificuldades. Os títulos tóxicos não são homogêneos, e, em qualquer processo de leilão, os vendedores certamente transferirão ao governo os piores deles.
Além disso, o esquema trata só de metade do problema subjacente à indisponibilidade de crédito. Pouco faz para permitir que os proprietários de casas cumpram suas obrigações hipotecárias e pouco faz para resolver o problema da execução de hipotecas. Com os preços das casas ainda em queda, caso o governo estabeleça preços elevados aos títulos lastreados por hipotecas, os contribuintes poderiam sair perdendo; mas, se o governo não pagar mais do que os papéis valem, o sistema bancário não teria sua situação muito aliviada e não conseguiria atrair capital privado.
Um esquema que beneficie o mundo financeiro tão pesadamente, em detrimento da economia mais ampla, seria inaceitável politicamente. Os democratas, que detêm a maioria no Legislativo, alteraram os termos, de modo a punir as instituições financeiras que se beneficiem do plano. Os republicanos decidiram que não poderiam ficar para trás e impuseram o requisito de que os títulos oferecidos em leilão deveriam ser cobertos por seguros cujos prêmios seriam pagos pela empresa oferecedora. O pacote de resgate, em sua forma atual, constitui um amálgama de múltiplas abordagens. E existe risco real de que o programa de aquisição de ativos não venha a ser empregado plenamente devido às condições onerosas que foram impostas.
Mesmo assim, um pacote de resgate era desesperadamente necessário e, a despeito de suas deficiências, poderia alterar o curso dos acontecimentos. Ainda em 22 de setembro, o secretário do Tesouro, Henry Paulson, expressava a esperança de evitar o uso de dinheiro dos contribuintes; por isso permitiu a quebra do Lehman Brothers. O Tarp estabelece o princípio de que fundos públicos são necessários e, se o programa atual não funcionar, outros programas serão instituídos.
Já que o Tarp foi mal calculado, seria previsível que causasse resposta negativa da parte dos credores dos EUA. Eles o veriam como tentativa de liquidar a dívida por inflação. O dólar deve sofrer pressão renovada, e o governo terá de pagar mais para colocar seus títulos de dívida, especialmente os de longo prazo. Essas conseqüências adversas poderiam ser mitigadas por um uso mais efetivo do dinheiro dos contribuintes.
Em lugar de apenas adquirir ativos problemáticos, o grosso do dinheiro deveria ser usado para recapitalizar o sistema bancário. Fundos injetados em nível de capital têm mais efeito do que fundos usados para equilibrar balanços por um fator mínimo de 12 -o que equivaleria, em termos práticos, a fornecer ao governo US$ 8,4 trilhões para reativar o fluxo de crédito. Na verdade, o efeito seria ainda maior porque a injeção de fundos do governo também atrairia capital privado. O resultado seria maior recuperação econômica e chance de lucro aos contribuintes.
Eis como o sistema poderia funcionar. O secretário do Tesouro dependeria de auditores bancários em lugar de delegar a implementação do Tarp às empresas de Wall Street. Os auditores bancários estabeleceriam as necessidades de capital acionário adicional para cada banco, a fim de que atingissem capitalização adequada nos termos das atuais normas de capitalização. Caso os administradores dos bancos não sejam capazes de levantar o dinheiro requerido junto ao setor privado, poderiam recorrer ao Tarp.
O Tarp investiria em ações preferenciais com prioridade de remuneração. As ações preferenciais ofereceriam juros baixos (digamos, 5%), para que os bancos mantivessem o interesse em continuar emprestando. Os acionistas anteriores, no entanto, pagariam um preço pesado, porque suas posições seriam diluídas pelas novas ações preferenciais prioritárias. Mas eles teriam o direito de subscrever novas ações emitidas nos termos do Tarp. Esses direitos seriam negociáveis, e o secretário do Tesouro seria instruído a estabelecer termos de modo a que os direitos possam ter valor positivo.
Investidores privados como eu provavelmente correriam para aproveitar a oportunidade. Os bancos recapitalizados teriam autorização para elevar seu endividamento e por isso retomariam os empréstimos.
Limites ao endividamento bancário seriam impostos posteriormente, depois que a economia se tiver recuperado. Caso o dinheiro fosse usado dessa maneira, a recapitalização do sistema bancário poderia ser conduzida com menos de US$ 500 bilhões em verbas públicas.
Uma legislação de emergência revisada também deveria oferecer mais ajuda aos proprietários de casas. O projeto requereria que o Tesouro desse financiamento barato a títulos hipotecários cujos termos tenham sido renegociados, com base no custo de captação do Tesouro. As companhias de serviços hipotecários poderiam ser proibidas de cobrar honorários pela execução de hipotecas, mas seria de esperar que os detentores de títulos oferecessem incentivos à renegociação, como a Freddie Mac e a Fannie Mae já vêm fazendo.
Os bancos considerados insolventes não seriam elegíveis para recapitalização. A FDIC (agência federal que oferece seguro aos depósitos bancários) tomaria o controle dessas empresas e seria recapitalizada com US$ 200 bilhões, como medida de emergência, e removeria o limite de US$ 100 mil aos depósitos que garante. Essa revisão na lei seria mais equânime, teria mais chance de sucesso e custaria menos aos acionistas no longo prazo.
GEORGE SOROS é presidente do conselho da Soros Fund Management
Tradução de PAULO MIGLIACCI
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Paul Krugman* – O Estado de São Paulo
São três horas da madrugada, no começo de 2009, e toca o telefone na Casa Branca. Vários dos maiores fundos hedge (de risco) estão prestes a falir, diz a voz do outro lado da linha, e é provável que haja caos quando o mercado abrir.
Em quem você confiaria para atender a este chamado? Não estou sendo melodramático. O plano de resgate lançado no domingo é muito melhor do que a primeira proposta do secretário do Tesouro, Henry Paulson – melhor o bastante para merecer a aprovação. Mas não é o que poderíamos chamar de bom plano, e não vai pôr fim à crise. Tudo indica que o próximo presidente terá de lidar com algumas grandes emergências financeiras.
Então, o que sabemos sobre o preparo dos dois homens que acabarão atendendo a este telefonema? Bem, Barack Obama parece bem informado e sensato em relação aos problemas econômicos e financeiros. John McCain, por outro lado, me assusta.
Sobre Obama: é uma pena que ele não tenha demonstrado mais liderança no debate a respeito do pacote de resgate, optando ao invés disso por deixar o assunto nas mãos dos democratas no Congresso. Mas tanto Obama quanto os democratas estão cercados por assessores conhecedores da sua área, entre eles os experientes administradores de crises Paul Volcker e Robert Rubin.
Então temos o assustador McCain – mais assustador agora do que há algumas semanas. Já sabemos há bastante tempo que McCain não sabe muito de economia. Isto não importaria muito se ele tivesse bom gosto na hora de escolher seus assessores – coisa que ele não tem.
Lembre-se, o seu principal mentor na área da economia é Phil Gramm, um dos maiores inimigos da regulamentação, que tomou cuidados especiais nos seus dias de senador para impedir a supervisão dos derivativos financeiros – justamente os instrumentos levaram os mercados de crédito à beira do colapso. Gramm não teve mais função na campanha de McCain desde que declarou que os EUA são “uma nação de chorões”, mas ainda é cotado para o cargo de secretário do Tesouro.
E no ano passado, quando a campanha de McCain anunciou que o candidato havia reunido “uma impressionante equipe de economistas e professores para aconselhá-lo em relação à política econômica, quem era citado com destaque? Kevin Hassett, co-autor do livro Dow 36.000. Não é necessário dizer mais nada.
Agora, em boa medida a péssima qualidade dos assessores de McCain reflete o esfarrapado estado intelectual do seu partido. Será que já houve uma proposta econômica mais patética do que a sugestão feita pelos republicanos no Congresso, pedindo que tentemos resolver a crise financeira eliminando os impostos sobre ganhos de capitais? Instituições financeiras em apuros, por definição, não dispõem de ganhos de capitais para serem taxados. Mas até o presidente Bush tem procurado, no crepúsculo do seu mandato, o conselho de pessoas relativamente sensatas: não sou fã de Paulson, mas ele representa um enorme progresso em relação ao seu predecessor. A esta altura, temos a suspeita de que uma eventual presidência de McCain nos faria sentir saudades da competência da era Bush.
A verdadeira revelação nas últimas semanas, no entanto, foi o quanto a opinião de McCain sobre a economia é errática. A qualquer momento, ele parece ter opiniões muito fortes – mas poucos dias depois, ele parte numa direção completamente diferente.
Assim, no dia 15 de setembro ele declarou que “os fundamentos da nossa economia são sólidos”. Isto foi no dia seguinte à falência do Lehman, enquanto a crise financeira entrava num estágio novo e ainda mais perigoso.
Mas três dias mais tarde ele declarou que os mercados financeiros da América se tornaram um “cassino”, e disse que demitiria o chefe da Comissão de Valores Mobiliários – coisa que, aliás, não faz parte das atribuições do presidente.
E então ele encontrou um novo grupo de vilões – Fannie Mae e Freddie Mac, os credores patrocinados pelo governo. (Apesar de alguns verdadeiros escândalos dentro de Fannie e Freddie, eles desempenharam um papel pequeno na instalação da crise: a maioria dos empréstimos realmente podres veio de credores particulares.) E ele acusou moralmente outros políticos, incluindo Obama, de estarem sob a influência financeira de Fannie e Freddie; mas no final era uma empresa de propriedade do seu próprio chefe de campanha que recebia dinheiro do Freddie até o mês passado.
Então Paulson lançou seu plano, e McCain entrou com veemência no debate. Mas ele admitiu, vários dias depois, que não havia de fato lido o documento, o qual não consistia em mais de três páginas.
Ok, acho que você captou a imagem que quero transmitir.
Parece que a economia moderna é um lugar perigoso – e não é o tipo de perigo que você pode enfrentar falando duro e denunciando os malfeitores. Será que McCain dispõe da capacidade de julgamento e do temperamento necessários para lidar com esta parte do emprego que ele busca?
*Paul Krugman é colunista do ‘New York Times’
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