06/01/2010 - 17:05h Callas, a mulher, a soprano e o mito

Cantora volta em disco, livro e será vivida no cinema por Penélope Cruz

João Luiz Sampaio – O Estado SP

Um jornalista escreveu o livro; um produtor já prometeu o filme; e a gravadora lançou o disco. O mito Maria Callas segue bem cotado no mercado da ópera – quando o assunto é resgatar a lendária soprano do século 20, que viveu nos palcos as grandes mulheres da ópera e, na vida real, sofreu com romances e histórias dignas de um libreto, parece não haver limites.

O livro chama-se Orgulhosa Demais, Frágil Demais (Record, 304 págs., R$ 39), e é uma biografia romanceada da soprano americana de ascendência grega. Seu autor, o jornalista milanês Alfonso Signorini, pesquisou as cartas escritas por Callas ao longo da carreira para recriar sua vida, da infância atribulada ao fim melancólico, passando pelo casamento desfeito, as paixões célebres e, claro, a carreira de sucesso.

O filme, cujo roteiro será baseado no romance, ainda não tem data para estrear – mas, no fim do ano, o produtor Guido de Angelis anunciou a atriz Penélope Cruz como intérprete, nas telas, do papel da diva. Já o álbum duplo da EMI Classics, Callas & Friends, a mostra em gravações ao lado de grandes parceiros, como os tenores Alfredo Kraus, Giuseppe Di Stefano, Nicolai Gedda, o barítono Tito Gobbi e a meio-soprano Fiorenza Cossotto.

Dizer que nenhuma outra soprano gravou – e vendeu – tanto quanto Maria Callas nem começa a explicar o tamanho da importância que ela adquiriu para o público da ópera. Em vida, cantou nos principais teatros do mundo, era disputada por maestros, diretores; recuperou óperas como Medeia e Norma, então fora do repertório, e reinventou Traviata, Butterfly, Tosca, Aida, enfim, toda a lista das grandes personagens femininas da música lírica; longe do palco, foi garota propaganda de grifes, frequentou o jet set internacional, encantou o cineasta Luchino Visconti, filmou com Pasolini – e viveu o escândalo do caso amoroso com o milionário grego Aristóteles Onassis.

Não demorou muito, após sua morte, em setembro de 1977, para que o mito começasse a ser construído. Seus biógrafos se apressaram em estabelecer paralelos entre vida e obra. De que outra maneira, afinal, seria possível explicar a intensidade que ela exibia no palco? A infância difícil, o início da carreira em cabarés do porto de Atenas, a traição de Onassis, que a trocou por Jacqueline Kennedy… Sua trajetória era digna das heroínas trágicas da ópera. Callas não interpretou a cortesã Violeta, em La Traviata – ela foi Violeta; foi abandonada, como Butterfly; foi vítima da paixão, como Tosca.

Em Orgulhosa Demais, Frágil Demais, Signorini renova a aposta nessa simbiose entre vida e obra. O livro, que se lê como um roteiro de cinema, tem como base a correspondência de Callas, em muitos momentos reproduzida literalmente, o que garante certa fidelidade histórica. Mas, no geral, a narrativa de Signorini é um amontoado de clichês. “Estava sentada num maravilhoso gramado verde e fofo. Sentia dentro de si o calor do sol. O céu estava cor de anil, com algumas nuvens brancas, que brincavam com o vento”; “Maria havia decidido recuperá-lo. Sempre que ele chamava, não conseguia rejeitá-lo. Ela gostava de ser seu porto seguro. O seu Aristo, no fundo, tinha um coração de velho marinheiro: aventuroso como Ulisses, desbravava terras estrangeiras, mas, no coração, sabia que a casa era uma só. E a casa dele era Maria”; “Maria vencera: pelo menos na morte, estaria para sempre junto ao seu homem.” Se a correspondência de Callas ensina alguma coisa é que não havia nada de óbvio em seu temperamento. Contraditória e imprevisível, olhava o mundo com uma mistura de ingenuidade e arrogância. É uma grande personagem, não há dúvida, mas quando é convertida em heroína de ficção perde um pouco de sua humanidade.

É por isso que, muitas vezes, o melhor a se fazer é simplesmente ouvi-la cantar. O álbum duplo dedicado a seus duetos é primoroso. Não há nada de novo – as gravações de Callas já foram lançadas e relançadas à exaustão. Mas as opções, aqui, recaem sobre discos menos conhecidos. O registro emocionante do dueto de Madame Butterfly, por exemplo, é o realizado com o tenor Nicolai Gedda; a Tosca é a gravada com Carlo Bergonzi; na Traviata, contracena com Alfredo Kraus; no Trovatore, com Giuseppe Di Stefano; em La Gioconda, com Fiorenza Cossotto. É Callas no seu melhor, ao lado de boa parcela do que havia de mais interessante no canto lírico dos anos 50 e 60. A voz não é particularmente bonita, mas a riqueza de coloridos e sensações que transmite não tem concorrência até os dias de hoje. Se o mito Callas persiste, não custa de vez em quando a gente lembrar que Maria Callas, a mulher e artista, é muito mais humana. E interessante.

Trecho

Maria e Aristóteles começaram a falar da própria vida, com simplicidade. Ele, de quando, para conseguir algum dinheiro, trabalhava como copeiro numa aldeiazinha da Tessália. Ela, de quando escavava a terra com suas mãos de adolescente para procurar algum tubérculo selvagem, no tempo da guerra. “Como Scarlett O’Hara na cena famosa de …E o Vento Levou”, ria Maria. Ao lado de Aristóteles, as horas passaram rápidas naquela noite. O que a fascinava naquele homem era a energia, a vontade de viver. Uma estranha força animal que ele emanava e transmitia aos outros.
- E a senhora vai cantar aqui em Veneza? – perguntou Onassis à queima-roupa.
- Oh, não. Cantarei em 7 de dezembro em Milão.
- Certo. Dessas canções eu não entendo nada. Quando vocês cantam, não se entende as palavras – riu Aristóteles.

Ouça o dueto de Madame Butterfly – Nicolai Gedda e Maria Callas

04/12/2009 - 16:47h Almodóvar radicaliza no jogo de aparências

Em Abraços Partidos, ele diz que filmou a ilusão para entender o real

Luiz Carlos Merten – O Estado SP

Nos últimos anos, Pedro Almodóvar tem levado ao Festival de Cannes grandes filmes – Tudo Sobre Minha Mãe, Volver, Abraços Partidos. Ele chega sempre como favorito, alguns júris lhe outorgam bons prêmios de consolação – direção, roteiro, interpretação. Este ano, com Abraços Partidos, que estreia hoje no Brasil, não houve nenhuma consolação para Pedro – o júri presidido por Isabelle Huppert o ignorou, por completo. Ele intuía que isso poderia ocorrer, na entrevista concedida a um pequeno grupo de jornalistas, numa tarde particularmente atribulada de maio, na Croisette. Almodóvar estava mesmo cansado da condição de favorito.


Trailer de Abraços Partidos

Você é o primeiro a afirmar que seus filmes têm gêneses curiosas. Como foi a de Abraços Partidos?

Mais curiosa que de hábito. Faz um tempo que visitei a ilha de Lanzarote e tirei algumas fotos daquela praia, que é tão bela. Lembrava-me da praia deserta, pois era fora de estação, mas ao revelar as fotos, como o protagonista de Blow Up – Depois Daquele Beijo (de Antonioni), fiz uma descoberta. Havia um casal abraçado. Como não os havia percebido? Ocorreu que há dois anos fiquei doente e tive de passar um período na obscuridade. Comecei a pensar nessa história sobre um diretor cego, em consequência de um acidente, e incorporei a imagem do casal na praia, que tanto permanecia comigo.

Seus filmes tratam de duplos e misturam gêneros. Você concorda que este parece um melodrama à Douglas Sirk impregnado de cinema noir?

O duplo realmente me atrai como representação da realidade, até porque um personagem é um personagem, sobre o qual cada um de nós projeta suas ansiedades e referências. Eu penso uma coisa, você pode projetar outra. O filme tem a cena em que o maquiador diz a Penélope (Cruz) que se parece com Audrey Hepburn, mas ela também usa uma peruca loira, que pode se assemelhar a Marilyn Monroe. O melodrama e o humor sempre me acompanham. Fazem parte da minha cultura, do meu imaginário. E existem elementos noir, bem fortes até, mas hesito em proclamá-los porque isso pode alimentar expectativas. Vão dizer que eu revoluciono o noir, e talvez não seja bem o caso.

O protagonista do filme é um cineasta que perde a mulher e a visão – e vira escritor, trocando de nome. A estrela era uma garota de programa por quem um milionário se apaixona. E existe o diretor que retoma um velho projeto que a morte da estrela deixou interrompido… Ou seja, desta vez você radicalizou, não?

Tenho um amigo que se diverte muito analisando meus roteiros. Diz que são tão complicados que só eu conseguiria realizá-los. Não creio que isso seja totalmente verdade, mas estou certo de que eles dependem de um tom, que só eu posso imprimir. Cada projeto meu consome, em média, dois anos. É muito tempo para conviver com personagens e situações. Eles vão virando fantasmas que passam a me assombrar. Adoro escrever roteiros, filmar. Faço isso com liberdade e descontração. O lançamento, em contrapartida, é sempre tenso. E tenho de ficar dando entrevistas. Muita gente se surpreende quando digo, mas fazer filmes é negócio difícil. A pressão é brutal. Nos festivais, sinto-me como fera enjaulada. Gosto ainda menos de participar de júris. A única competição que me mobiliza é a das salas, quando o público se manifesta.

Seus filmes fazem sucesso em todo o mundo. Isso é liberador?

E m termos. Libera e me permite fazer os filmes que quero sem muitos contratempos, mas, ao mesmo tempo, há uma cobrança cada vez maior por resultado.

Abraços Partidos é, entre outras coisas, sobre o cinema?

Acho que é. Sobre olhar e ser olhado, sobre a intimidade devassada por câmeras.

No filme dentro do filme, ao descobrir que Penélope está tendo um caso com seu diretor, o milionário com quem ela vive contrata uma equipe para segui-la e filmá-la, em busca de evidências. E ele contrata uma leitora de lábios para saber o que Penélope diz ao amante. Na grande cena, ela própria faz a leitura – a dublagem é uma evocação de Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos?

Sim, claro, mas também é, principalmente, um filme sobre linguagem. Falo no sentido específico da palavra. Em meus filmes, sobretudo nos primeiros, a paixão era vivida como puro instinto. Tudo o que eu queria era transgredir. Com a idade, fui ficando mais reflexivo. Fale com Ela não tem aquele título por acaso. O falar hoje em dia é muito importante para mim. Falar, refletir. Nenhum outro filme meu tem tantas revelações quanto as do desfecho de Abraços Partidos. Mas, por favor, não tirem o prazer do público. Não revelem nada.

Por que você cita o clássico de Rossellini, Viagem na Itália?

Não é segredo que sou cinéfilo. Tenho citado filmes de Buñuel, Michael Curtiz. Às vezes, a referência é sutil, feita para mim mesmo, e as pessoas nem percebem. Aqui, Penélope (Cruz) e Lluis (Homar) assistem na TV a uma cena de Viaggio in Italia, aquela em que George Sanders e Ingrid Bergman assistem à exumação do casal que morreu abraçado, devorado pela lava do Vesúvio. Luis acredita, no filme, que estava abraçado com Penélope quando houve o acidente de carro. Sua memória é falsa, mas muita coisa em Abraços não é aquilo que parece ser. Escolhi Rossellini para falar sobre sentimentos, sobre o falso na realidade e o verdadeiro no cinema.

Você oferece outro grande papel a Penélope Cruz. Ela declarou que o entendimento entre vocês é total. O que me diz dessa sintonia profissional entre vocês?

Conheço Penélope desde que ela tinha 17 anos. Vi-a crescer, como mulher e atriz. Penélope é iluminada. O que eu fiz, para servir à personagem, foi colocar um pouco de sombra nessa luz toda. Acho que isso pode servir de metáfora para o próprio filme. Mas a verdade é que Penélope ainda me surpreende. Ela está sempre pronta a atuar em todos os registros, a se testar, a ir aos limites. Meu cinema deve muito aos atores. Não apenas Penélope. Blanca (Portillo), Carmen (Machi), Lluis (Homar). Se alcancei alguma coisa em Abraços Partidos, foi por causa deles.

Serviço
Abraços Partidos (Los Abrazos Rotos, Espanha/ 2009, 129 min.) – Drama. Dir. Pedro Almodóvar. 14 anos. Cotação: Ótimo

***

Sua obra nos faz acreditar nas mais loucas fantasias

Diretor mostra, de novo, que tem um toque de mestre – e sem medo do risco

Crítica de Luiz Zanin Oricchio – O Estado SP

Almodóvar tem o talento de transformar o improvável em possível, e até mesmo em necessário. Isso quer dizer que, sob outro diretor, algumas situações que inventa soariam inverossímeis. Com ele no comando, a mais descabelada das histórias parece não apenas fazer sentido, mas encaixar-se com clareza lógica e, mais importante, tocar-nos no fundo da alma. É o que acontece em seus melhores filmes e este novo, Abraços Partidos, está entre eles.

Abraços Partidos começa com dois olhares – um que vê e outro que não vê. O do cineasta cego interpretado por Lluis Homar e o da moça que o acompanha. Cineasta cego? Sim, e, de certa forma, a história será construída em torno dessa dialética entre o ver e o não ver. Em narrativa off, o homem lembra que, durante a sua carreira, adotou o pseudônimo de Harry Caine para assinar seus escritos, roteiros e outras peças literárias. O nome real, Mateo Blanco, ele usa quando dirige seus filmes. Depois de um grave acidente, do qual ele sobrevive, mas com perdas graves, ele entende que Mateo Blanco morreu.

No presente, portanto, ele será apenas Harry Caine, um nome um tanto estranho para um espanhol, inspirado, é claro, em sua cinefilia e, talvez, em homenagem ao ator Michael Caine. Caine foi ator de Hitchcock e, é bom acrescentar, Almodóvar dá um toque hitchcokiano a esse seu novo filme. Será apenas uma entre outras referências cinematográficas. Se dialoga com o suspense de um mestre como Hitchcock, também o faz com o gênero noir e o melodrama – este uma das suas matrizes básicas. Abraços Partidos tira seu encanto – ou parte dele – dessa sábia mistura de gêneros. E por que ela funciona com Almodóvar e não com outros cineastas? Pelo mesmo motivo que certas mesclas de alimentos resultam numa comida divina pelas mãos de certos cozinheiros e gororobas nas de outros. Tudo se resume ao “toque”. E o de Almodóvar é de mestre.

Mas mestre que se dispõe ao risco. Quem assiste a Abraços Partidos, sente que várias vezes ele flerta com o abismo. O que talvez só aumente o seu encanto. Tudo é perigoso. Desde a parábola do cineasta que não vê até o “filme dentro do filme” que ele roda e é destruído pela montagem. Outra referência ao cinema e à dependência dos produtores e donos de estúdio. Como haverá a referência/reverência a Viagem à Itália, de Rossellini, na cena em Pompeia do casal abraçado, surpreendido pela erupção do Vesúvio. Essa imagem comovente é a chave do filme – se ele precisar de uma.

O perigo continua com Lena (Penélope Cruz, magnífica), moça pobre, depois casada com um velho garanhão cheio da grana e, ao mesmo tempo, amante do cineasta que promete fazê-la uma grande estrela. Continua com a secretária e agente do diretor cego, Judit (Blanca Portillo) e seu filho Diego (Tamar Novas), uma espécie de família informal, que terá surpresas a oferecer ao espectador.

Mas serão mesmo surpresas? Sim e não. Porque de Almodóvar – e do seu universo sexualmente libertário – se espera tudo. Por isso, ao final, podemos nos sentir tão incrédulos quanto encantados com essa história que nos fala diretamente, embora vacile quando submetida ao teste de realidade. É que a vida, em si, muitas vezes não passa pelo mesmo teste. O real parece demasiado caótico e folhetinesco para ser de fato verossímil. Por isso, talvez, as mais loucas fantasias de Almodóvar nos pareçam tão críveis.

20/05/2009 - 20:39h Mais do fotógrafo Michel Comte

Penélope Cruz

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05/04/2009 - 16:23h O garoto enxaqueca

+Cultura

PEDRO ALMODÓVAR EXPLICA COMO UMA DOR DE CABEÇA INSISTENTE INSPIROU SEU NOVO FILME, “OS ABRAÇOS PARTIDOS”,

RECLAMA DO PESO DA FAMA E FALA DO FUTURO DO CINEMA E DAS NOVAS TECNOLOGIAS 

http://img410.imageshack.us/img410/5944/almodovar583jf3.jpg

ÁNGEL S. HARGUINDEY – ELSA FERNÁNDEZ-SANTOS – El País – Folha SP

Um cineasta paralisado por uma cegueira acidental, uma mulher perseguida pela fatalidade, o amor louco, a morte e o cinema, essa paixão misteriosa, capaz de redimir quase tudo.
Com “Los Abrazos Rotos” [Os Abraços Partidos], Pedro Almodóvar [1951] volta ao cinema noir, o gênero no qual, segundo ele, cabem o suspense, o drama e o humor.
“Os Abraços Partidos” é seu 17º longa-metragem e um dos mais complexos de toda sua obra. “Um drama seco”, diz o diretor. “Aqui os personagens já choraram o que tinham que chorar, mas foi antes de o filme começar.” Amor louco em três ou quatro faixas.
http://s1.e-monsite.com/2009/03/13/06/93496768penelope-cruz-3129-12-preview-jpg.jpgE, no eixo de tudo, Penélope Cruz em sua primeira estreia desde que conquistou o Oscar de melhor atriz coadjuvante, em 22 de fevereiro [por "Vicky Cristina Barcelona"].
Ela é Lena, pela qual estão loucamente apaixonados seu marido, o magnata Ernesto Martel (José Luis Gómez), e o cineasta Mateo Blanco (Lluís Homar), também conhecido como Harry Cane.
Entre eles, um passado reduzido a um quebra-cabeça de pedaços partidos escondido em uma gaveta que apenas Judith (Blanca Portillo) conhece.
Na entrevista abaixo, fala de suas enxaquecas (uma dor obscura da qual nasceu este novo filme), do futuro do cinema, da Espanha das maracutaias e da paralisia da fama: “Soa estranho, mas hoje não posso mais ficar parado na rua”.

PERGUNTA – “Os Abraços Partidos” nasceu de dores de cabeça terríveis, algo de que o sr. não gosta muito de falar.
PEDRO ALMODÓVAR -
O que não gosto é de me queixar. Minhas dores de cabeça vêm de longe, mas a coisa piorou durante as viagens que fizemos para divulgar “Volver”, em 2006.
Eu tinha essas dores quase todos os dias e as combatia com um coquetel de analgésicos chamado Migral, que me traziam da Argentina. Fiquei sabendo depois que, se você abusa do coquetel -e eu abusava-, ele tem o efeito contrário: o problema se torna crônico.

PERGUNTA – Como essas dores se manifestam?
ALMODÓVAR -
Não tem nada a ver com uma cefaleia comum; é como comparar uma anchova com um tubarão. Quando está muito intensa, ou mesmo quando é de intensidade média, você não suporta a luz.
Assim, torna-se impossível assistir à televisão, usar o computador ou até mesmo ler. E, claro, escrever. Ela tampouco lhe permite falar. Sua sensibilidade fica totalmente dominada pela dor. Não existe mais nada.

PERGUNTA – O personagem do cineasta cego, interpretado por Lluís Homar, nasce dessa dor…
ALMODÓVAR -
A enxaqueca é uma doença misteriosa. São tantas as causas que a provocam, e dependem de tantas circunstâncias, que acertar é pouco menos que casual.
Pouco a pouco fui me acostumando à ideia de que meus problemas não teriam uma solução imediata. No silêncio e na escuridão, sem me dar conta, comecei a imaginar situações e personagens.
Assim surgiu Mateo Blanco, nesse momento claramente meu alter ego -um diretor de cinema que vive na escuridão. Cego. Comecei a fazer anotações a lápis no apartamento. É interessante descobrir que a dor não anula a imaginação.
No final de 2007, senti uma ligeira melhora e, sem me dar conta, havia terminado o roteiro de “Os Abraços Partidos”.

PERGUNTA – A fotofobia decorrente das enxaquecas não foi um problema na hora de filmar?
ALMODÓVAR -
Suportei a fotofobia diante dos mil quilowatts com que o diretor de fotografia, Rodrigo Prieto, decidiu nos incendiar. Eu me protegia com chapéu e óculos escuros, fazendo todo o possível para que a luz não me atingisse.
Minha vida sempre foi cheia de paradoxos, desde a mais tenra infância. Não me parecia estranho sofrer de fotofobia e trabalhar com a luz. Porque o cinema é luz.
Já o dizia Joseph von Sternberg a Marlene Dietrich, antes de ela entregar-se a uma dieta devastadora para oferecer o rosto mais anguloso possível a seu criador.
Sternberg a convenceu de que não precisava se sacrificar -que os ângulos que a tornariam imortal, ele os criaria com a luz. E conseguiu!

PERGUNTA – Um dos personagens principais é um milionário, um magnata que vira produtor de cinema para realizar o capricho de sua mulher de ser atriz. É um protótipo da “cultura da maracutaia”.
ALMODÓVAR -
Há tantos magnatas que já pagaram filmes para suas queridas! Minha experiência com homens poderosos, esses ricos que se metem a fazer cinema, tem sido nefasta.
Não deixa de me parecer comovente que, de “Cidadão Kane” até hoje, continuem a existir esses homens, diletantes, amantes da arte, mas basicamente toscos, capazes de financiar o capricho de uma mulher de ser atriz, se com isso conseguem conservá-la a seu lado.
São homens que se condenam a um duplo fracasso: primeiro, porque a pessoa que amam não tem talento; segundo, porque essa pessoa vai deixá-los da mesma maneira.
Em “Abraços Partidos”, a personagem de Penélope não se sente realizada vivendo num palácio, amarrada por correntes de ouro.
Nesse caso, além de ser atriz, é boa e tem escrúpulos.
De qualquer modo, embora os personagens possam ser inspirados em pessoas que já conheci, não se trata de cinema terapêutico nem de revanche ou ajuste de contas com ninguém. Nem sequer é um filme tão anticlerical quanto “Má Educação” foi antirreligioso.

A tecnologia está deseducando o gosto dos jovens e degradando o produto cinematográfico, do mesmo modo que os iPods degradaram a música

PERGUNTA – Essa Espanha das maracutaias, na qual transcorre parte da trama do filme, parece que virou atual outra vez.
ALMODÓVAR -
Ela nunca deixou de existir. É incrível como se repetem esses tipos, e o que mais me surpreende é que não tenham sido feitos mais filmes sobre eles. Em outros países, como a Itália, já haveria vários.
Ainda que o que me interessa seja a magnitude dos sentimentos desse homens.

http://www.pastemagazine.com/articles/2008/04/17/almodovar_and_penelope_cruz_team_up_for_broken_emb_458x300.jpg

PERGUNTA – Sentimentos esses que giram em torno da personagem de Penélope Cruz, num papel que provavelmente é o mais maduro de sua carreira.
ALMODÓVAR -
É um papel que teoricamente não combina com ela e que, por isso, lhe custou muito fazer.
Mas ao mesmo tempo é uma oportunidade para mostrar mais versatilidade, e eu não poderia ter ficado mais contente. Eu queria, de algum modo, forçá-la a trabalhar num registro novo, nesse de heroína de filme noir, que tanto me agrada.
Penélope é jovem para entender plenamente esse tipo de mulher -uma mulher de 38 anos muito experiente, que já viu de tudo na vida e que, por sua beleza, já caiu em muitas armadilhas. Uma mulher que sempre quis ser atriz, mas que não teve sorte.
Ela trabalha como secretária e, de vez em quando, como prostituta, mas não quer subir na vida, não é uma arrivista. É um anjo caído, uma mulher endurecida pela vida.
Penélope já sofreu, é claro, mas nunca teve contato com algo tão difícil quanto a personagem. Mas eu estava certo de que ela poderia fazer o papel, e ela confia plenamente em mim.
Neste momento, depois de mostrar a ótima comediante que pode ser no filme de Woody Allen ["Vicky Cristina Barcelona"], essa personagem lhe caiu muito bem.

PERGUNTA – É uma personagem muito triste.
ALMODÓVAR -
Sim, eu sentia muita pena dela, porque não podia fazer nada para salvá-la.

PERGUNTA – O ano de 2008 foi muito ruim para o cinema espanhol. Em 2009 estão previstas cifras melhores, graças à estreia de seu filme e os de Alejandro Amenábar, Isabel Coixet, Fernando Trueba etc.
ALMODÓVAR -
A crise está afetando o cinema positivamente. As pessoas deixam de ir jantar fora, mas querem continuar saindo às ruas, e o cinema é um entretenimento acessível, bom para estes tempos.
Sobre a redução no número de espectadores, acho que a pirataria tem muito a ver com isso. Vivemos uma fase de mudanças muito grandes em tudo o que diz respeito ao consumo de imagens, e só existe uma saída: estruturar esse consumo.
Não acredito que o cinema visto nas salas de cinema esteja morto, assim como não acredito que os jornais estejam mortos. Não vou a um café para ler o jornal no meu computador, e, como eu, há muitas pessoas.
Existem muitas coisas paradoxais, como o fato de que vejo os filmes muito melhor em meu televisor de plasma do que numa sala de cinema.
Isso me dá calafrios, porque aquilo de que gosto é justamente ir ao cinema, me sentar com pessoas que não conheço.
As novas tecnologias proporcionam uma qualidade extrema para assistir a filmes em casa, mas, ao mesmo tempo, essas mesmas tecnologias e a quantidade de janelas possíveis estão deseducando o gosto dos jovens e degradaram o produto cinematográfico, do mesmo modo que os iPods degradaram a música.

PERGUNTA – Este filme é uma história de amor louco, mas o sr. inclui uma sequência de “Viagem à Itália”, de Rossellini, em que Ingrid Bergman não poderia estar mais longe desse tipo de amor -uma mulher que, ao contemplar um casal que morreu carbonizado e abraçado, pensa na decadência e na mesquinhez de seu próprio casamento.
ALMODÓVAR -
Há duas emoções nessa cena que me interessam. Uma delas é a de Ingrid Bergman, ao ver que seu casamento não se parece em nada com esse casal carbonizado pela lava de um vulcão; essa emoção coincide com a de Magdalena/ Penélope, ao ver um casal a quem a morte surpreendeu dormindo juntos e abraçados.
E há também a de Lluís Homar, que quer congelar numa foto esse abraço seu com Penélope e cuja voz também nos recorda seu desejo não realizado de morrer abraçado com ela.
Diante de tudo isso, o que fica subjacente nesse filme é o azar, uma má sorte que contagia todos os personagens, embora recaia especialmente sobre ela.
Apesar de tudo, acho que é um dos filmes que fiz com final mais feliz.

PERGUNTA – E aí entra o cinema, com sua capacidade redentora. O cinema ordena tudo e também cura todo. Talvez o grande amor retratado neste filme seja o cinema.
ALMODÓVAR -
O cinema é uma paixão irracional; todos os meus filmes são impregnados de cinema e, para mim, o cinema é a realidade. O filme todo é um canto de amor a essa profissão, que é mais que um trabalho: é uma forma de vida.
Mas isso não estava presente quando escrevi o roteiro -foi surgindo pouco a pouco. As intenções nem sempre estão presentes desde o início -elas vão saindo…
E sim, sinto que é a primeira vez em que faço uma declaração tão expressa de amor pelo cinema -não com uma sequência em concreto, mas com um filme inteiro.
John Huston filmou “Os Vivos e os Mortos” numa cadeira de rodas, ligado a um cateter. Essa não é uma imagem patética, mas harmônica, de grande beleza. Eu me vejo exatamente assim na idade dele.

PERGUNTA – “Os Abraços Partidos” é um drama com toque de filme noir. É um gênero que o sr. já abordou em “Carne Trêmula” e depois em “Má Educação”. Por que o fascínio por esse gênero?
ALMODÓVAR -
Na minha maturidade, venho me interessando pelos gêneros, e um tem me levado a outro.
Por exemplo, nunca assisti a um faroeste quando era criança, mas mesmo assim fui me interessando mais e mais por eles, até que o western se converteu em meu gênero favorito. Não faço um porque a ideia não me vem à cabeça.

PERGUNTA – O sr. teve uma ideia -sobre dois caubóis homossexuais-, mas foi atropelado.
ALMODÓVAR –
(ri) Bem, bem, isso já é outra história. O fato é que sempre gostei de drama e de melodrama, desde muito jovem. E cheguei ao cinema noir exatamente daí. O cinema noir é drama com um pouco mais de obscuridade, com alguma arma e algum morto.
Quando o drama e o noir se esbarram, convivem perfeitamente, e o drama se converte em algo muito duro. O gênero noir se permite ter sentimentos. Sempre cito “Amar Foi Minha Ruína”, de John M. Stahl, como a união perfeita de melodrama e thriller, e a convivência desses dois gêneros é tremendamente atraente, como diretor e como espectador.

PERGUNTA – Mas seria preciso acrescentar um terceiro gênero: a comédia.
ALMODÓVAR -
É que o thriller admite muita ironia; o que ele não admite tanto é a carga sentimental. Mas “Laura” [de Otto Preminger] é uma grande história de amor, como também o é “Fuga do Passado” [de Jacques Tourneur]. Esse thriller me encanta, pois não apenas evita os sentimentos como os torna mais evidentes.
Vendo os grandes filmes noir de John Huston ou Howard Hawks, os diálogos são pura ironia, os deles e os delas. Para mim, “O Falcão Maltês” é alta comédia. Com essa mulher, Mary Astor, que mente cada vez que abre a boca!
Portanto, é claro que o thriller admite o humor.

PERGUNTA – José Luis Gómez interpreta o magnata apaixonado por Lena (Penélope Cruz) e que é o pai de Ray X (Rubén Ochandiano). O filme fala muito de paternidades conflitivas. O personagem interpretado por Homar chega a contar o episódio do escritor Arthur Miller e seu filho secreto, Daniel.
ALMODÓVAR –
A história do filho de Arthur Miller, assim como a do filho de Hemingway, me serve para falar desses pais poderosos e importantes que sufocam seus filhos.
Na criação do personagem de Ray X, há ecos da história de Ernest Hemingway e seu filho Gregory.
Quando era criança, Gregory gostava do contato com seda e tafetá. Depois de beber mais que seu pai, caçar elefantes maiores que os dele e ter mais filhos do que o escritor teve, acabou mudando de sexo quando tinha quase 60 anos, 15 anos após a morte de seu pai.
A história do filho de Arthur Miller também me parece terrível -esse garoto com síndrome de Down cujo pai nunca quis vê-lo e que anos depois o procurou, depois de uma conferência, para se apresentar. É assombroso.

PERGUNTA – No filme há uma homenagem explícita a quase todas as “garotas Almodóvar”: Chus Lampreave, Kiti Manver, Mariola Fuentes, Lola Dueñas, Blanca Portillo e, é claro, Penélope Cruz. O sr. diz que a maior parte dos papéis femininos que escreveu é uma mistura de sua mãe e de suas vizinhas de La Mancha, com pitadas de Holly Golightly [personagem de Audrey Hepburn em "Bonequinha de Luxo"], da Giulietta Masina de “A Estrada da Vida” e da Shirley MacLaine de “Se Meu Apartamento Falasse”.
ALMODÓVAR -
Falta uma, Blanca Sánchez, que morreu recentemente e da qual, por pudor, tenho falado pouco.
Na realidade, minha grande fonte de inspiração tem sido minha mãe, suas vizinhas e Blanca. Ela representava todas essas mulheres modernas e urbanóides, de pensamento voltado para o futuro, sem preconceitos e dotadas de tremenda vitalidade.
Em termos de cinema, eu acrescentaria a Gena Rowlands de “Opening Night” e Romy Schneider, à qual faço uma pequena homenagem no filme. Mas Blanca era mais do tipo Holly Golightly, sem ser prostituta, é claro.

PERGUNTA – Como ela era?
ALMODÓVAR -
Era muito sofisticada e moderna e, ao mesmo tempo, tremendamente ingênua para o amor. Representa essas mulheres que se desenvolvem por igual em todos os ambientes, dos mais humildes aos mais sofisticados.

PERGUNTA – Ela inspirou Candela (María Barranco) de “Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos”?
ALMODÓVAR -
Sim. Ela se apaixonou por um homem sem saber que era terrorista e que a estava usando. Ele colocou outras pessoas do ETA em sua casa, porque Blanca era muito generosa, e ali, sem que ela soubesse, planejaram um ataque ao presídio de Carabanchel para libertar outros presos.
Aquilo custou a Blanca, que era inocente, nove meses de prisão. Depois que saiu, nunca mais foi a mesma. Eu ia visitá-la e voltava arrasado. O que era incrível era sua ingenuidade para com o amor.
Quando a história dos membros do ETA veio à tona, o que ela não conseguia entender e o que a deixou arrasada era o fato de que aquele homem não tivesse confiado nela.
O que a fazia sofrer era o fato de que seu amante nunca confiou nela o suficiente para lhe dizer a verdade, na cama. Eu não acreditava naquilo e lhe dizia: “Mas, Blanca, ele era do ETA!”.
Aquilo mudou radicalmente a relação dela com os homens, e a prisão a deixou marcada.
Lembro que, antes de se entregar ao juiz, me telefonou e pediu para tirar da casa, da minha casa antiga -porque vivi bastante tempo com ela-, as caixas e caixas de torrones e chocolates que o pessoal do ETA tinha comprado para levar no Natal.
Só me dizia para não me preocupar com ela, mas para, por favor, tirar tudo aquilo de sua casa.
O absurdo, os paradoxos que me acontecem na vida, é que eu não sabia o que fazer com aquele arsenal de doces natalinos, então os dei a meu cunhado, que era guarda civil e que passou o Natal devorando os torrones e chocolates que os homens do ETA tinham comprado.

PERGUNTA – Por que era uma amizade tão forte?
ALMODÓVAR -
Ela era mais consciente de mim do que eu mesmo. Tinha uma fé cega em mim. Conheci Blanca 100% e por isso tantas vezes minha referência tem sido ela. Sua generosidade sem limites, sua inteligência, sua capacidade de correr riscos na vida, sua enorme discrição -nunca fez alarde de nossa amizade.

PERGUNTA – O sr. já se queixou algumas vezes de como a fama modificou sua relação com o mundo.
ALMODÓVAR -
A fama me afeta, na medida em que não posso ficar tranquilo na rua. Se tenho um encontro marcado com alguém, não posso ficar esperando em nenhum lugar.
Não me importo de falar com as pessoas que se aproximam de mim na rua, mas não posso com as fotos feitas por celular -essa é a pior invenção que existe. Já renunciei faz tempo a me manifestar tal como sou nas ruas ou num bar. Se você tem um problema, não pode chorar… Essa é sem dúvida uma perda enorme.
O único hábito que não mudei é o de ir ao cinema duas ou três vezes por semana. Mas apenas vou a bares, sobretudo por causa das enxaquecas -não que me falte vontade de sair, pois isso não me falta.

A íntegra deste texto saiu no jornal “El País”.
Tradução de Clara Allain.

22/03/2009 - 16:05h ”O cinema é toda a minha vida”

Pedro Almodóvar, cineasta espanhol; diretor fala sobre o novo Los Abrazos Rotos e da homenagem que faz à arte

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Pedro Almodóvar e Penélope Cruz

 

Carlo del Amo, EFE – O Estado SP

 


Às vésperas da estreia de Los Abrazos Rotos (Abraços Partidos), apresentado na semana passada na Espanha, o cineasta Pedro Almodóvar se mostrava nervoso e cheio de incertezas quanto à reação do público a esse “drama romântico com histórias de amor que se cruzam”. Interpretado por Penélope Cruz, Blanca Portillo, Lluis Homar e José Luis Gómez, o filme é uma homenagem do diretor ao cinema. “O cinema não é minha segunda vida, é a minha vida. Eu vivo não só para experimentar e pelo simples fato de estar vivo, mas tudo o que vivo tem a ver de algum modo com o cinema que vou fazer ou com as narrativas que vou escrever”, diz o diretor espanhol durante entrevista reproduzida abaixo.

Los abrazos rotos – trailerComo nasceu o filme?

De umas notas que fiz numa época em que tinha muitas enxaquecas, mas não tinha a pretensão de que elas se transformassem num roteiro; simplesmente, era eu mesmo com minha própria Sheherazade, me contando histórias para me distrair. Já faz algum tempo que comecei a me interessar pela ideia de escrever um roteiro cujo protagonista seria um diretor incapacitado, pois me chamou muito a atenção como Antonioni, que se viu condenado a uma vida incomunicável depois de uma paralisia, assim mesmo fez dois filmes.

O que esse diretor cego tem de Almodóvar?

Todos os meus personagens têm algo de mim e, no caso deste, é a necessidade de concluir o filme de qualquer maneira. Com Pepi, Luci, Bom (1979) cheguei a pedir 15 mil pesetas para terminar o filme. Meu pior pesadelo é não conseguir concluir um filme. Não sei como Orson Welles não morreu de ansiedade quando estava com sete filmes para terminar.

E o título?

Eu tinha outros, como Doble Identidad, que soa muito bem em inglês (Double Identity), e parece o Double Indemnity (Pacto de Sangue) de Billy Wilder, de 1944, mas esse título iria criar muita confusão.

É um drama, um filme noir…?

Basicamente é um drama duro e romântico com grandes histórias de amor que se cruzam.

Como é Lluis Homar?

Um ator disciplinadíssimo, como um desportista. Passou sete meses trabalhando com um treinador, porque eu queria que fosse um homem que, apesar da sua deficiência, fosse muito vivo e com desejo de flertar. Ele também fez ensaios com a cegueira, e chegou até a vir, andando ou de metrô, com um bastão, da sua casa até os estúdios. Ele expressa muito bem a ternura e essa espécie de ironia que se observa em qualquer pessoa inválida.

E José Luis Gómez?

José Luis vem do teatro, portanto, está muito acostumado a construir seus personagens, além do que faço muito trabalho de mesa com os atores. Ele intervém em cenas muito contundentes, que não admitem outra maneira de fazê-las a não ser como está no roteiro. Tive plena confiança nele.

Você volta a trabalhar com Blanca Portillo, depois de Volver…

É um mecanismo perfeito para um diretor. Ela tem uma técnica perfeita. Arrisca-se muito, não tem nenhuma sensação de vergonha ou ridículo. Eu precisava dela para o papel de Judit, porque essa personagem é uma mulher que, em silêncio, constrói uma família sem que ninguém tome conhecimento. Nela se unem um sentido de culpa total e uma generosidade absoluta. Há um monólogo que só Blanca poderia fazer. Gosto muito quando os atores se despojam de tudo e chega o momento em que têm de falar e revelar tudo o que ocultaram ao longo da película, e nisso ela é perfeita.

E Penélope, incontrolável?

A personagem dela está muito distante do que ela é. Não tinha referências para interpretar essa mulher. Tem sua beleza, mas não teve de sucumbir, nem lhe colocaram as armadilhas nas quais Lena cai. Eu a converti numa mulher adulta, muito maltratada pela vida, que no fim encontra uma grande oportunidade. É muito generosa e me deixou chegar ao mais profundo do seu ser para tirar toda a dor. Creio que foi muito difícil para ela, que o fez exclusivamente por causa da fé cega que tem em mim, e por isso me senti responsável para não lhe causar nenhum dano.

Até onde ela vai chegar?

Tudo vai depender dos roteiros que escolher e dos diretores que encontrar. É uma atriz extraordinária, mas, ao contrário de Blanca, trabalha com o coração, as vísceras e isso é muito duro, mas é também muito gratificante quando encontra o personagem e o diretor adequados. É uma mulher com muito olfato, muito inteligente. Espero que faça boas escolhas.

Qual é a sua relação com o cinema?

O cinema não é minha segunda vida, é a minha vida. Vivo não só para experimentar e pelo fato de estar vivo, mas tudo o que vivo tem a ver de algum modo com o cinema que vou fazer ou com as narrativas que vou escrever; em Los Abrazos Rotos faço uma homenagem ao cinema de um modo natural. É uma declaração de amor à minha profissão.

Como lida com a popularidade?

Quando saio na rua, as pessoas têm uma relação muito direta comigo, tratam-me de um modo muito familiar e isso é bom. O que é muito difícil é ter de posar para fotos com todo o mundo. Odeio celular com câmera, porque as pessoas acham que, quando o encontram, têm todo o direito de tirar uma foto. A popularidade o converte num bicho raro, numa espécie de macaco de circo que as pessoas ficam olhando, mas é preciso conviver com isso.

Como você vive uma estreia?

Nervoso e cheio de dúvidas, algo que nunca vai desaparecer. Não tenho nem ideia dos resultados, o público é um mistério.

E as dores de cabeça?

Passaram. Tinham aumentado nos últimos três anos e se tornaram um problema sério. Há dois anos venho me tratando com neurologistas e agora estou numa fase de bonança, e espero que continue.

POPULAR: “Odeio celular com câmera; as pessoas acham que, quando o encontram, têm direito de tirar foto.”

FILMAR: “Tudo que vivo tem a ver de algum modo com o cinema que faço ou as narrativas que vou escrever.”

MEDO: “Meu pesadelo é não concluir um filme. Não sei como Welles não morreu de ansiedade com sete para terminar.”

A Estrela

Para a atriz Penélope Cruz, que interpreta em Abrazos Rotos a jovem Lena, que sonha com o sucesso no cinema, as temporadas de trabalho com o cineasta Pedro Almodóvar são “muito intensas, repletas de aprendizados emocionais e profissionais”. Sobre Lena, a atriz afirma ser uma mulher de muito talento, mas que não conseguiu uma oportunidade. “Lena é uma sobrevivente que ajuda seus familiares, seus pais, e não se atreve a confessar a eles seus sonhos”, disse Penélope, em entrevista à agência EFE.

18/01/2009 - 18:52h Musicas em Almodóvar

Volver, Penélope Cruz no filme de Almodóvar
Recordaras, cantado por Luz Casal no filme de Almodóvar Tacones Lejanos
Cucurrucucu Paloma cantada por Caetano Veloso no filme de Almodóvar Hable con ella
Tajabone de Ismaël Lô, no fime de Almodóvar Todo sobre mi madre

13/11/2008 - 18:31h ”Sou frívolo e fissurado por mulher”

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Em entrevista realizada em Barcelona, ele declara que beleza é fundamental

Beppe Severgnini* – O Estado de São Paulo

 

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No início desta entrevista, feita em um hotel à beira-mar em Barcelona, Woody Allen parecia cansado e retraído mesmo falando sobre mulheres, o objeto de sua frivolidade assumida. Disse coisas como: “Não tenho interesse pela vida real.” Ou: “Só falo dos meus filmes para ajudar os produtores.” Mas se animou quando a conversa derivou para a política. “Sim, gosto de política. Não como artista, mas como cidadão”, declarou, dias antes da eleição de Obama.

Podemos falar sobre seu novo filme, Vicky Cristina Barcelona?

Só falo dos filmes que faço para ajudar os produtores… Mas se dependesse só de mim, eu não falaria nada. Você realiza um filme e, se ele for bom, as pessoas vão vê-lo. Não seria preciso falar dele. Mas se ele não for bom, por mais que eu fale…

Noto que alguns críticos disseram que o filme é voyeurista. Concorda?

Voyeurista? Bem, somente no sentido de que um filme é uma coisa visual. Vicky Christina Barcelona não é nada voyeurista. Tive à minha disposição um elenco principal sexualmente carismático e poderia até ter explorado essa situação para voyeurismo, com grande respaldo artístico. Mas eu fui muito, muito comedido.

O sr. diria que, com o avanço da idade, está ficando mais fascinado pela beleza feminina?

Sempre fui! Mesmo quando criancinha, eu sempre fui fissurado por mulheres. Você sabe, eu sou muito frívolo. E um de meus traços frívolos é uma obsessão pela beleza. Durante a guerra, eu podia admirar como Rita Hayworth era magnífica… E nunca deixava de admirar a beleza nas garotas de minhas salas de aula. Isso é um traço frívolo, porque exclui todos os aspectos mais valiosos e sensíveis das mulheres que não são belas.

O sr. se interessa pelas vidas amorosas de seus atores?

Não, não tenho nenhum interesse pela vida real. Isto é, eles são ótimas pessoas, mas nunca ?socializo? com meus atores. Conheço Scarlett Johansson há anos, mas jamais almocei ou jantei com ela. Se ela estivesse bem aqui em pessoa, você pensaria: “Oh, ela é muito bonita”, mas quando você a fotografa, ela se torna mais ainda. Agora, Penelope Cruz na tela é incrivelmente bela, mas quando você a encontra em pessoa, ela é ainda mais bela. Quando encontrei Penelope pela primeira vez – eu a tinha visto em Volver e achei que ela era muito linda – não conseguia acreditar o quanto ela era linda. Era uma coisa meio sobrenatural, como se ela tivesse vindo de Marte ou Júpiter.

Seus filmes recentes – Match Point, Scoop – o Grande Furo e agora este – são muito agradáveis. Mas como muitos outros, sinto falta do velho Woody Allen. Você parece ter outra coisa em mente agora. Será justo dizer que o velho Woody Allen das gargalhadas acabou?

Sim, mas acho que deixei isso há muitos anos. Fiz uma certa quantidade de filmes cômicos no começo, depois comecei a fazer filmes diferentes, mais sérios. Crimes e Pecados e Hanna e Suas Irmãs se saíram muito melhor que Bananas, Um Assaltante bem Trapalhão e Tudo Que Você sempre Quis Saber sobre Sexo, mas Tinha Medo de Perguntar.”

Por falar em Bananas, já pensou em fazer outro filme político?

Sim, pensei. Mas meu problema de sempre são os orçamentos. Eu trabalho com orçamentos pequenos, e fazer um filme político nos Estados Unidos, onde eu teria que fazê-lo, custaria muito mais dinheiro do que eu seria capaz de captar.

Acha que poderia fazer um filme que tivesse ampla aceitação em todo o território dos EUA? Ou Woody Allen é ligado demais a Nova York?

Nas cidades grandes e nas cidades universitárias, eu tenho boa aceitação. Mas a maioria do país não é isso. A maioria do país é o que chamamos de Estados vermelhos: Estados-Bíblia, Estados republicanos, Estados armas. E há pessoas nesses Estados que gostam de meus filmes, mas não a maioria. Não que elas não gostem de cinema; meus filmes nem sequer estariam em seu radar.

Não acha que Sarah Palin (que foi colega de chapa do candidato presidencial republicano John McCain) daria uma personagem fantástica para um filme de Woody Allen?

Oh, ela é divertida. Mas já foi bem explorada nas sátiras da televisão. Ela foi uma escolha estúpida, nada que mostrasse muito respeito pelos Estados Unidos. Serviu apenas para dar uma pequena ajuda momentânea à campanha, pelas tiradas divertidas. Mas acho que os americanos, por mais ridículos que tenham sido nas eleições anteriores, aprenderam alguma coisa.

Você gosta de política? Nós estávamos falando de cinema e você parecia cansado. Agora parece mais…

… mais animado?

Isso. Mais interessado.

Sim, gosto de política. Não estou interessado em política como artista, mas como cidadão. Como sabe, eu voto. Contribuo com dinheiro. Fico feliz de fazer campanha por alguém.

Al Gore teria sido bom presidente?

Sim, acho que ele teria sido um bom presidente. Acho que é um homem inteligente e foi um mau candidato. Ele não teve carisma, não teve energia para concorrer, ele não conseguia focar. Mas daria um presidente muito bom porque é uma pessoa decente e é favor de uma agenda democrática, liberal

Se pudesse voltar no tempo, gostaria de se tornar um grande tocador de clarineta, um ícone dos esportes, um grande escritor ou George W. Bush? Qual seria a sua escolha?

Um grande músico,pois a música supera tudo. É emocional e todo mundo adora música.

* Esta entrevista foi publicada originalmente no jornal The New York Times. Tradução de Celso Mauro Paciornik

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Vicky Cristina Barcelona

08/11/2008 - 16:01h Vicky Cristina Barcelona e nós

Vicky Cristina Barcelona – Woody Allen

Woody Allen tem a capacidade de provocar uma permanente interrogação em nós: como teríamos agido nas mesmas circunstâncias às quais se confrontam cada um dos seus personagens. Talvez porque o cineasta mostra a ambivalência de sentimentos e situações, as contradições dos personagens e a da própria realidade. Ou porque dá forma a seus e, ou, nossos fantasmas? Ou simplesmente porque nos confronta com nossas próprias existências?

Seus últimos filmes são dos melhores da sua carreira, na minha opinião. Em “Vicky Cristina Barcelona” é servido por ótimos atores, Scarlett Johansson, Penelope Cruz e Javier Bardem. Em verdade, aos três devemos acrescentar Barcelona e Gaudi. O filme vai fazer sucesso aqui, como está fazendo na França (onde Woody sempre faz sucesso).

Vida, frustração, paixão, sexualidade, beleza, arrebato, liberdade, introspecção, sexo, arte, aspirações, desejos e sociedade. Está tudo no filme e os caminhos aparecem diversos.

Is up to you, nos diz um Woody, aparentemente liberado de sua mãe. LF

29/10/2008 - 17:30h Cinema: Fatal (Elegy), imperdível

Ben Kingsley e Penélope Cruz no filme “Fatal”, em cartaz em São Paulo