05/04/2009 - 16:23h O garoto enxaqueca

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PEDRO ALMODÓVAR EXPLICA COMO UMA DOR DE CABEÇA INSISTENTE INSPIROU SEU NOVO FILME, “OS ABRAÇOS PARTIDOS”,
RECLAMA DO PESO DA FAMA E FALA DO FUTURO DO CINEMA E DAS NOVAS TECNOLOGIAS

ÁNGEL S. HARGUINDEY – ELSA FERNÁNDEZ-SANTOS – El País – Folha SP
Um cineasta paralisado por uma cegueira acidental, uma mulher perseguida pela fatalidade, o amor louco, a morte e o cinema, essa paixão misteriosa, capaz de redimir quase tudo.
Com “Los Abrazos Rotos” [Os Abraços Partidos], Pedro Almodóvar [1951] volta ao cinema noir, o gênero no qual, segundo ele, cabem o suspense, o drama e o humor.
“Os Abraços Partidos” é seu 17º longa-metragem e um dos mais complexos de toda sua obra. “Um drama seco”, diz o diretor. “Aqui os personagens já choraram o que tinham que chorar, mas foi antes de o filme começar.” Amor louco em três ou quatro faixas.
E, no eixo de tudo, Penélope Cruz em sua primeira estreia desde que conquistou o Oscar de melhor atriz coadjuvante, em 22 de fevereiro [por "Vicky Cristina Barcelona"].
Ela é Lena, pela qual estão loucamente apaixonados seu marido, o magnata Ernesto Martel (José Luis Gómez), e o cineasta Mateo Blanco (Lluís Homar), também conhecido como Harry Cane.
Entre eles, um passado reduzido a um quebra-cabeça de pedaços partidos escondido em uma gaveta que apenas Judith (Blanca Portillo) conhece.
Na entrevista abaixo, fala de suas enxaquecas (uma dor obscura da qual nasceu este novo filme), do futuro do cinema, da Espanha das maracutaias e da paralisia da fama: “Soa estranho, mas hoje não posso mais ficar parado na rua”.
PERGUNTA – “Os Abraços Partidos” nasceu de dores de cabeça terríveis, algo de que o sr. não gosta muito de falar.
PEDRO ALMODÓVAR - O que não gosto é de me queixar. Minhas dores de cabeça vêm de longe, mas a coisa piorou durante as viagens que fizemos para divulgar “Volver”, em 2006.
Eu tinha essas dores quase todos os dias e as combatia com um coquetel de analgésicos chamado Migral, que me traziam da Argentina. Fiquei sabendo depois que, se você abusa do coquetel -e eu abusava-, ele tem o efeito contrário: o problema se torna crônico.
PERGUNTA – Como essas dores se manifestam?
ALMODÓVAR - Não tem nada a ver com uma cefaleia comum; é como comparar uma anchova com um tubarão. Quando está muito intensa, ou mesmo quando é de intensidade média, você não suporta a luz.
Assim, torna-se impossível assistir à televisão, usar o computador ou até mesmo ler. E, claro, escrever. Ela tampouco lhe permite falar. Sua sensibilidade fica totalmente dominada pela dor. Não existe mais nada.
PERGUNTA – O personagem do cineasta cego, interpretado por Lluís Homar, nasce dessa dor…
ALMODÓVAR - A enxaqueca é uma doença misteriosa. São tantas as causas que a provocam, e dependem de tantas circunstâncias, que acertar é pouco menos que casual.
Pouco a pouco fui me acostumando à ideia de que meus problemas não teriam uma solução imediata. No silêncio e na escuridão, sem me dar conta, comecei a imaginar situações e personagens.
Assim surgiu Mateo Blanco, nesse momento claramente meu alter ego -um diretor de cinema que vive na escuridão. Cego. Comecei a fazer anotações a lápis no apartamento. É interessante descobrir que a dor não anula a imaginação.
No final de 2007, senti uma ligeira melhora e, sem me dar conta, havia terminado o roteiro de “Os Abraços Partidos”.
PERGUNTA – A fotofobia decorrente das enxaquecas não foi um problema na hora de filmar?
ALMODÓVAR - Suportei a fotofobia diante dos mil quilowatts com que o diretor de fotografia, Rodrigo Prieto, decidiu nos incendiar. Eu me protegia com chapéu e óculos escuros, fazendo todo o possível para que a luz não me atingisse.
Minha vida sempre foi cheia de paradoxos, desde a mais tenra infância. Não me parecia estranho sofrer de fotofobia e trabalhar com a luz. Porque o cinema é luz.
Já o dizia Joseph von Sternberg a Marlene Dietrich, antes de ela entregar-se a uma dieta devastadora para oferecer o rosto mais anguloso possível a seu criador.
Sternberg a convenceu de que não precisava se sacrificar -que os ângulos que a tornariam imortal, ele os criaria com a luz. E conseguiu!
PERGUNTA – Um dos personagens principais é um milionário, um magnata que vira produtor de cinema para realizar o capricho de sua mulher de ser atriz. É um protótipo da “cultura da maracutaia”.
ALMODÓVAR - Há tantos magnatas que já pagaram filmes para suas queridas! Minha experiência com homens poderosos, esses ricos que se metem a fazer cinema, tem sido nefasta.
Não deixa de me parecer comovente que, de “Cidadão Kane” até hoje, continuem a existir esses homens, diletantes, amantes da arte, mas basicamente toscos, capazes de financiar o capricho de uma mulher de ser atriz, se com isso conseguem conservá-la a seu lado.
São homens que se condenam a um duplo fracasso: primeiro, porque a pessoa que amam não tem talento; segundo, porque essa pessoa vai deixá-los da mesma maneira.
Em “Abraços Partidos”, a personagem de Penélope não se sente realizada vivendo num palácio, amarrada por correntes de ouro.
Nesse caso, além de ser atriz, é boa e tem escrúpulos.
De qualquer modo, embora os personagens possam ser inspirados em pessoas que já conheci, não se trata de cinema terapêutico nem de revanche ou ajuste de contas com ninguém. Nem sequer é um filme tão anticlerical quanto “Má Educação” foi antirreligioso.
A tecnologia está deseducando o gosto dos jovens e degradando o produto cinematográfico, do mesmo modo que os iPods degradaram a música
PERGUNTA – Essa Espanha das maracutaias, na qual transcorre parte da trama do filme, parece que virou atual outra vez.
ALMODÓVAR - Ela nunca deixou de existir. É incrível como se repetem esses tipos, e o que mais me surpreende é que não tenham sido feitos mais filmes sobre eles. Em outros países, como a Itália, já haveria vários.
Ainda que o que me interessa seja a magnitude dos sentimentos desse homens.

PERGUNTA – Sentimentos esses que giram em torno da personagem de Penélope Cruz, num papel que provavelmente é o mais maduro de sua carreira.
ALMODÓVAR - É um papel que teoricamente não combina com ela e que, por isso, lhe custou muito fazer.
Mas ao mesmo tempo é uma oportunidade para mostrar mais versatilidade, e eu não poderia ter ficado mais contente. Eu queria, de algum modo, forçá-la a trabalhar num registro novo, nesse de heroína de filme noir, que tanto me agrada.
Penélope é jovem para entender plenamente esse tipo de mulher -uma mulher de 38 anos muito experiente, que já viu de tudo na vida e que, por sua beleza, já caiu em muitas armadilhas. Uma mulher que sempre quis ser atriz, mas que não teve sorte.
Ela trabalha como secretária e, de vez em quando, como prostituta, mas não quer subir na vida, não é uma arrivista. É um anjo caído, uma mulher endurecida pela vida.
Penélope já sofreu, é claro, mas nunca teve contato com algo tão difícil quanto a personagem. Mas eu estava certo de que ela poderia fazer o papel, e ela confia plenamente em mim.
Neste momento, depois de mostrar a ótima comediante que pode ser no filme de Woody Allen ["Vicky Cristina Barcelona"], essa personagem lhe caiu muito bem.
PERGUNTA – É uma personagem muito triste.
ALMODÓVAR - Sim, eu sentia muita pena dela, porque não podia fazer nada para salvá-la.
PERGUNTA – O ano de 2008 foi muito ruim para o cinema espanhol. Em 2009 estão previstas cifras melhores, graças à estreia de seu filme e os de Alejandro Amenábar, Isabel Coixet, Fernando Trueba etc.
ALMODÓVAR - A crise está afetando o cinema positivamente. As pessoas deixam de ir jantar fora, mas querem continuar saindo às ruas, e o cinema é um entretenimento acessível, bom para estes tempos.
Sobre a redução no número de espectadores, acho que a pirataria tem muito a ver com isso. Vivemos uma fase de mudanças muito grandes em tudo o que diz respeito ao consumo de imagens, e só existe uma saída: estruturar esse consumo.
Não acredito que o cinema visto nas salas de cinema esteja morto, assim como não acredito que os jornais estejam mortos. Não vou a um café para ler o jornal no meu computador, e, como eu, há muitas pessoas.
Existem muitas coisas paradoxais, como o fato de que vejo os filmes muito melhor em meu televisor de plasma do que numa sala de cinema.
Isso me dá calafrios, porque aquilo de que gosto é justamente ir ao cinema, me sentar com pessoas que não conheço.
As novas tecnologias proporcionam uma qualidade extrema para assistir a filmes em casa, mas, ao mesmo tempo, essas mesmas tecnologias e a quantidade de janelas possíveis estão deseducando o gosto dos jovens e degradaram o produto cinematográfico, do mesmo modo que os iPods degradaram a música.
PERGUNTA – Este filme é uma história de amor louco, mas o sr. inclui uma sequência de “Viagem à Itália”, de Rossellini, em que Ingrid Bergman não poderia estar mais longe desse tipo de amor -uma mulher que, ao contemplar um casal que morreu carbonizado e abraçado, pensa na decadência e na mesquinhez de seu próprio casamento.
ALMODÓVAR - Há duas emoções nessa cena que me interessam. Uma delas é a de Ingrid Bergman, ao ver que seu casamento não se parece em nada com esse casal carbonizado pela lava de um vulcão; essa emoção coincide com a de Magdalena/ Penélope, ao ver um casal a quem a morte surpreendeu dormindo juntos e abraçados.
E há também a de Lluís Homar, que quer congelar numa foto esse abraço seu com Penélope e cuja voz também nos recorda seu desejo não realizado de morrer abraçado com ela.
Diante de tudo isso, o que fica subjacente nesse filme é o azar, uma má sorte que contagia todos os personagens, embora recaia especialmente sobre ela.
Apesar de tudo, acho que é um dos filmes que fiz com final mais feliz.
PERGUNTA – E aí entra o cinema, com sua capacidade redentora. O cinema ordena tudo e também cura todo. Talvez o grande amor retratado neste filme seja o cinema.
ALMODÓVAR - O cinema é uma paixão irracional; todos os meus filmes são impregnados de cinema e, para mim, o cinema é a realidade. O filme todo é um canto de amor a essa profissão, que é mais que um trabalho: é uma forma de vida.
Mas isso não estava presente quando escrevi o roteiro -foi surgindo pouco a pouco. As intenções nem sempre estão presentes desde o início -elas vão saindo…
E sim, sinto que é a primeira vez em que faço uma declaração tão expressa de amor pelo cinema -não com uma sequência em concreto, mas com um filme inteiro.
John Huston filmou “Os Vivos e os Mortos” numa cadeira de rodas, ligado a um cateter. Essa não é uma imagem patética, mas harmônica, de grande beleza. Eu me vejo exatamente assim na idade dele.
PERGUNTA – “Os Abraços Partidos” é um drama com toque de filme noir. É um gênero que o sr. já abordou em “Carne Trêmula” e depois em “Má Educação”. Por que o fascínio por esse gênero?
ALMODÓVAR - Na minha maturidade, venho me interessando pelos gêneros, e um tem me levado a outro.
Por exemplo, nunca assisti a um faroeste quando era criança, mas mesmo assim fui me interessando mais e mais por eles, até que o western se converteu em meu gênero favorito. Não faço um porque a ideia não me vem à cabeça.
PERGUNTA – O sr. teve uma ideia -sobre dois caubóis homossexuais-, mas foi atropelado.
ALMODÓVAR – (ri) Bem, bem, isso já é outra história. O fato é que sempre gostei de drama e de melodrama, desde muito jovem. E cheguei ao cinema noir exatamente daí. O cinema noir é drama com um pouco mais de obscuridade, com alguma arma e algum morto.
Quando o drama e o noir se esbarram, convivem perfeitamente, e o drama se converte em algo muito duro. O gênero noir se permite ter sentimentos. Sempre cito “Amar Foi Minha Ruína”, de John M. Stahl, como a união perfeita de melodrama e thriller, e a convivência desses dois gêneros é tremendamente atraente, como diretor e como espectador.
PERGUNTA – Mas seria preciso acrescentar um terceiro gênero: a comédia.
ALMODÓVAR - É que o thriller admite muita ironia; o que ele não admite tanto é a carga sentimental. Mas “Laura” [de Otto Preminger] é uma grande história de amor, como também o é “Fuga do Passado” [de Jacques Tourneur]. Esse thriller me encanta, pois não apenas evita os sentimentos como os torna mais evidentes.
Vendo os grandes filmes noir de John Huston ou Howard Hawks, os diálogos são pura ironia, os deles e os delas. Para mim, “O Falcão Maltês” é alta comédia. Com essa mulher, Mary Astor, que mente cada vez que abre a boca!
Portanto, é claro que o thriller admite o humor.
PERGUNTA – José Luis Gómez interpreta o magnata apaixonado por Lena (Penélope Cruz) e que é o pai de Ray X (Rubén Ochandiano). O filme fala muito de paternidades conflitivas. O personagem interpretado por Homar chega a contar o episódio do escritor Arthur Miller e seu filho secreto, Daniel.
ALMODÓVAR – A história do filho de Arthur Miller, assim como a do filho de Hemingway, me serve para falar desses pais poderosos e importantes que sufocam seus filhos.
Na criação do personagem de Ray X, há ecos da história de Ernest Hemingway e seu filho Gregory.
Quando era criança, Gregory gostava do contato com seda e tafetá. Depois de beber mais que seu pai, caçar elefantes maiores que os dele e ter mais filhos do que o escritor teve, acabou mudando de sexo quando tinha quase 60 anos, 15 anos após a morte de seu pai.
A história do filho de Arthur Miller também me parece terrível -esse garoto com síndrome de Down cujo pai nunca quis vê-lo e que anos depois o procurou, depois de uma conferência, para se apresentar. É assombroso.
PERGUNTA – No filme há uma homenagem explícita a quase todas as “garotas Almodóvar”: Chus Lampreave, Kiti Manver, Mariola Fuentes, Lola Dueñas, Blanca Portillo e, é claro, Penélope Cruz. O sr. diz que a maior parte dos papéis femininos que escreveu é uma mistura de sua mãe e de suas vizinhas de La Mancha, com pitadas de Holly Golightly [personagem de Audrey Hepburn em "Bonequinha de Luxo"], da Giulietta Masina de “A Estrada da Vida” e da Shirley MacLaine de “Se Meu Apartamento Falasse”.
ALMODÓVAR - Falta uma, Blanca Sánchez, que morreu recentemente e da qual, por pudor, tenho falado pouco.
Na realidade, minha grande fonte de inspiração tem sido minha mãe, suas vizinhas e Blanca. Ela representava todas essas mulheres modernas e urbanóides, de pensamento voltado para o futuro, sem preconceitos e dotadas de tremenda vitalidade.
Em termos de cinema, eu acrescentaria a Gena Rowlands de “Opening Night” e Romy Schneider, à qual faço uma pequena homenagem no filme. Mas Blanca era mais do tipo Holly Golightly, sem ser prostituta, é claro.
PERGUNTA – Como ela era?
ALMODÓVAR - Era muito sofisticada e moderna e, ao mesmo tempo, tremendamente ingênua para o amor. Representa essas mulheres que se desenvolvem por igual em todos os ambientes, dos mais humildes aos mais sofisticados.
PERGUNTA – Ela inspirou Candela (María Barranco) de “Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos”?
ALMODÓVAR - Sim. Ela se apaixonou por um homem sem saber que era terrorista e que a estava usando. Ele colocou outras pessoas do ETA em sua casa, porque Blanca era muito generosa, e ali, sem que ela soubesse, planejaram um ataque ao presídio de Carabanchel para libertar outros presos.
Aquilo custou a Blanca, que era inocente, nove meses de prisão. Depois que saiu, nunca mais foi a mesma. Eu ia visitá-la e voltava arrasado. O que era incrível era sua ingenuidade para com o amor.
Quando a história dos membros do ETA veio à tona, o que ela não conseguia entender e o que a deixou arrasada era o fato de que aquele homem não tivesse confiado nela.
O que a fazia sofrer era o fato de que seu amante nunca confiou nela o suficiente para lhe dizer a verdade, na cama. Eu não acreditava naquilo e lhe dizia: “Mas, Blanca, ele era do ETA!”.
Aquilo mudou radicalmente a relação dela com os homens, e a prisão a deixou marcada.
Lembro que, antes de se entregar ao juiz, me telefonou e pediu para tirar da casa, da minha casa antiga -porque vivi bastante tempo com ela-, as caixas e caixas de torrones e chocolates que o pessoal do ETA tinha comprado para levar no Natal.
Só me dizia para não me preocupar com ela, mas para, por favor, tirar tudo aquilo de sua casa.
O absurdo, os paradoxos que me acontecem na vida, é que eu não sabia o que fazer com aquele arsenal de doces natalinos, então os dei a meu cunhado, que era guarda civil e que passou o Natal devorando os torrones e chocolates que os homens do ETA tinham comprado.
PERGUNTA – Por que era uma amizade tão forte?
ALMODÓVAR - Ela era mais consciente de mim do que eu mesmo. Tinha uma fé cega em mim. Conheci Blanca 100% e por isso tantas vezes minha referência tem sido ela. Sua generosidade sem limites, sua inteligência, sua capacidade de correr riscos na vida, sua enorme discrição -nunca fez alarde de nossa amizade.
PERGUNTA – O sr. já se queixou algumas vezes de como a fama modificou sua relação com o mundo.
ALMODÓVAR - A fama me afeta, na medida em que não posso ficar tranquilo na rua. Se tenho um encontro marcado com alguém, não posso ficar esperando em nenhum lugar.
Não me importo de falar com as pessoas que se aproximam de mim na rua, mas não posso com as fotos feitas por celular -essa é a pior invenção que existe. Já renunciei faz tempo a me manifestar tal como sou nas ruas ou num bar. Se você tem um problema, não pode chorar… Essa é sem dúvida uma perda enorme.
O único hábito que não mudei é o de ir ao cinema duas ou três vezes por semana. Mas apenas vou a bares, sobretudo por causa das enxaquecas -não que me falte vontade de sair, pois isso não me falta.
A íntegra deste texto saiu no jornal “El País”.
Tradução de Clara Allain.
22/03/2009 - 16:05h ”O cinema é toda a minha vida”

Carlo del Amo, EFE – O Estado SP
Às vésperas da estreia de Los Abrazos Rotos (Abraços Partidos), apresentado na semana passada na Espanha, o cineasta Pedro Almodóvar se mostrava nervoso e cheio de incertezas quanto à reação do público a esse “drama romântico com histórias de amor que se cruzam”. Interpretado por Penélope Cruz, Blanca Portillo, Lluis Homar e José Luis Gómez, o filme é uma homenagem do diretor ao cinema. “O cinema não é minha segunda vida, é a minha vida. Eu vivo não só para experimentar e pelo simples fato de estar vivo, mas tudo o que vivo tem a ver de algum modo com o cinema que vou fazer ou com as narrativas que vou escrever”, diz o diretor espanhol durante entrevista reproduzida abaixo.
Los abrazos rotos – trailerComo nasceu o filme?
De umas notas que fiz numa época em que tinha muitas enxaquecas, mas não tinha a pretensão de que elas se transformassem num roteiro; simplesmente, era eu mesmo com minha própria Sheherazade, me contando histórias para me distrair. Já faz algum tempo que comecei a me interessar pela ideia de escrever um roteiro cujo protagonista seria um diretor incapacitado, pois me chamou muito a atenção como Antonioni, que se viu condenado a uma vida incomunicável depois de uma paralisia, assim mesmo fez dois filmes.
O que esse diretor cego tem de Almodóvar?
Todos os meus personagens têm algo de mim e, no caso deste, é a necessidade de concluir o filme de qualquer maneira. Com Pepi, Luci, Bom (1979) cheguei a pedir 15 mil pesetas para terminar o filme. Meu pior pesadelo é não conseguir concluir um filme. Não sei como Orson Welles não morreu de ansiedade quando estava com sete filmes para terminar.
E o título?
Eu tinha outros, como Doble Identidad, que soa muito bem em inglês (Double Identity), e parece o Double Indemnity (Pacto de Sangue) de Billy Wilder, de 1944, mas esse título iria criar muita confusão.
É um drama, um filme noir…?
Basicamente é um drama duro e romântico com grandes histórias de amor que se cruzam.
Como é Lluis Homar?
Um ator disciplinadíssimo, como um desportista. Passou sete meses trabalhando com um treinador, porque eu queria que fosse um homem que, apesar da sua deficiência, fosse muito vivo e com desejo de flertar. Ele também fez ensaios com a cegueira, e chegou até a vir, andando ou de metrô, com um bastão, da sua casa até os estúdios. Ele expressa muito bem a ternura e essa espécie de ironia que se observa em qualquer pessoa inválida.
E José Luis Gómez?
José Luis vem do teatro, portanto, está muito acostumado a construir seus personagens, além do que faço muito trabalho de mesa com os atores. Ele intervém em cenas muito contundentes, que não admitem outra maneira de fazê-las a não ser como está no roteiro. Tive plena confiança nele.
Você volta a trabalhar com Blanca Portillo, depois de Volver…
É um mecanismo perfeito para um diretor. Ela tem uma técnica perfeita. Arrisca-se muito, não tem nenhuma sensação de vergonha ou ridículo. Eu precisava dela para o papel de Judit, porque essa personagem é uma mulher que, em silêncio, constrói uma família sem que ninguém tome conhecimento. Nela se unem um sentido de culpa total e uma generosidade absoluta. Há um monólogo que só Blanca poderia fazer. Gosto muito quando os atores se despojam de tudo e chega o momento em que têm de falar e revelar tudo o que ocultaram ao longo da película, e nisso ela é perfeita.
E Penélope, incontrolável?
A personagem dela está muito distante do que ela é. Não tinha referências para interpretar essa mulher. Tem sua beleza, mas não teve de sucumbir, nem lhe colocaram as armadilhas nas quais Lena cai. Eu a converti numa mulher adulta, muito maltratada pela vida, que no fim encontra uma grande oportunidade. É muito generosa e me deixou chegar ao mais profundo do seu ser para tirar toda a dor. Creio que foi muito difícil para ela, que o fez exclusivamente por causa da fé cega que tem em mim, e por isso me senti responsável para não lhe causar nenhum dano.
Até onde ela vai chegar?
Tudo vai depender dos roteiros que escolher e dos diretores que encontrar. É uma atriz extraordinária, mas, ao contrário de Blanca, trabalha com o coração, as vísceras e isso é muito duro, mas é também muito gratificante quando encontra o personagem e o diretor adequados. É uma mulher com muito olfato, muito inteligente. Espero que faça boas escolhas.
Qual é a sua relação com o cinema?
O cinema não é minha segunda vida, é a minha vida. Vivo não só para experimentar e pelo fato de estar vivo, mas tudo o que vivo tem a ver de algum modo com o cinema que vou fazer ou com as narrativas que vou escrever; em Los Abrazos Rotos faço uma homenagem ao cinema de um modo natural. É uma declaração de amor à minha profissão.
Como lida com a popularidade?
Quando saio na rua, as pessoas têm uma relação muito direta comigo, tratam-me de um modo muito familiar e isso é bom. O que é muito difícil é ter de posar para fotos com todo o mundo. Odeio celular com câmera, porque as pessoas acham que, quando o encontram, têm todo o direito de tirar uma foto. A popularidade o converte num bicho raro, numa espécie de macaco de circo que as pessoas ficam olhando, mas é preciso conviver com isso.
Como você vive uma estreia?
Nervoso e cheio de dúvidas, algo que nunca vai desaparecer. Não tenho nem ideia dos resultados, o público é um mistério.
E as dores de cabeça?
Passaram. Tinham aumentado nos últimos três anos e se tornaram um problema sério. Há dois anos venho me tratando com neurologistas e agora estou numa fase de bonança, e espero que continue.
POPULAR: “Odeio celular com câmera; as pessoas acham que, quando o encontram, têm direito de tirar foto.”
FILMAR: “Tudo que vivo tem a ver de algum modo com o cinema que faço ou as narrativas que vou escrever.”
MEDO: “Meu pesadelo é não concluir um filme. Não sei como Welles não morreu de ansiedade com sete para terminar.”
A Estrela
Para a atriz Penélope Cruz, que interpreta em Abrazos Rotos a jovem Lena, que sonha com o sucesso no cinema, as temporadas de trabalho com o cineasta Pedro Almodóvar são “muito intensas, repletas de aprendizados emocionais e profissionais”. Sobre Lena, a atriz afirma ser uma mulher de muito talento, mas que não conseguiu uma oportunidade. “Lena é uma sobrevivente que ajuda seus familiares, seus pais, e não se atreve a confessar a eles seus sonhos”, disse Penélope, em entrevista à agência EFE.
18/01/2009 - 18:52h Musicas em Almodóvar
13/11/2008 - 18:31h ”Sou frívolo e fissurado por mulher”

Beppe Severgnini* – O Estado de São Paulo
No início desta entrevista, feita em um hotel à beira-mar em Barcelona, Woody Allen parecia cansado e retraído mesmo falando sobre mulheres, o objeto de sua frivolidade assumida. Disse coisas como: “Não tenho interesse pela vida real.” Ou: “Só falo dos meus filmes para ajudar os produtores.” Mas se animou quando a conversa derivou para a política. “Sim, gosto de política. Não como artista, mas como cidadão”, declarou, dias antes da eleição de Obama.
Podemos falar sobre seu novo filme, Vicky Cristina Barcelona?
Só falo dos filmes que faço para ajudar os produtores… Mas se dependesse só de mim, eu não falaria nada. Você realiza um filme e, se ele for bom, as pessoas vão vê-lo. Não seria preciso falar dele. Mas se ele não for bom, por mais que eu fale…
Noto que alguns críticos disseram que o filme é voyeurista. Concorda?
Voyeurista? Bem, somente no sentido de que um filme é uma coisa visual. Vicky Christina Barcelona não é nada voyeurista. Tive à minha disposição um elenco principal sexualmente carismático e poderia até ter explorado essa situação para voyeurismo, com grande respaldo artístico. Mas eu fui muito, muito comedido.
O sr. diria que, com o avanço da idade, está ficando mais fascinado pela beleza feminina?
Sempre fui! Mesmo quando criancinha, eu sempre fui fissurado por mulheres. Você sabe, eu sou muito frívolo. E um de meus traços frívolos é uma obsessão pela beleza. Durante a guerra, eu podia admirar como Rita Hayworth era magnífica… E nunca deixava de admirar a beleza nas garotas de minhas salas de aula. Isso é um traço frívolo, porque exclui todos os aspectos mais valiosos e sensíveis das mulheres que não são belas.
O sr. se interessa pelas vidas amorosas de seus atores?
Não, não tenho nenhum interesse pela vida real. Isto é, eles são ótimas pessoas, mas nunca ?socializo? com meus atores. Conheço Scarlett Johansson há anos, mas jamais almocei ou jantei com ela. Se ela estivesse bem aqui em pessoa, você pensaria: “Oh, ela é muito bonita”, mas quando você a fotografa, ela se torna mais ainda. Agora, Penelope Cruz na tela é incrivelmente bela, mas quando você a encontra em pessoa, ela é ainda mais bela. Quando encontrei Penelope pela primeira vez – eu a tinha visto em Volver e achei que ela era muito linda – não conseguia acreditar o quanto ela era linda. Era uma coisa meio sobrenatural, como se ela tivesse vindo de Marte ou Júpiter.
Seus filmes recentes – Match Point, Scoop – o Grande Furo e agora este – são muito agradáveis. Mas como muitos outros, sinto falta do velho Woody Allen. Você parece ter outra coisa em mente agora. Será justo dizer que o velho Woody Allen das gargalhadas acabou?
Sim, mas acho que deixei isso há muitos anos. Fiz uma certa quantidade de filmes cômicos no começo, depois comecei a fazer filmes diferentes, mais sérios. Crimes e Pecados e Hanna e Suas Irmãs se saíram muito melhor que Bananas, Um Assaltante bem Trapalhão e Tudo Que Você sempre Quis Saber sobre Sexo, mas Tinha Medo de Perguntar.”
Por falar em Bananas, já pensou em fazer outro filme político?
Sim, pensei. Mas meu problema de sempre são os orçamentos. Eu trabalho com orçamentos pequenos, e fazer um filme político nos Estados Unidos, onde eu teria que fazê-lo, custaria muito mais dinheiro do que eu seria capaz de captar.
Acha que poderia fazer um filme que tivesse ampla aceitação em todo o território dos EUA? Ou Woody Allen é ligado demais a Nova York?
Nas cidades grandes e nas cidades universitárias, eu tenho boa aceitação. Mas a maioria do país não é isso. A maioria do país é o que chamamos de Estados vermelhos: Estados-Bíblia, Estados republicanos, Estados armas. E há pessoas nesses Estados que gostam de meus filmes, mas não a maioria. Não que elas não gostem de cinema; meus filmes nem sequer estariam em seu radar.
Não acha que Sarah Palin (que foi colega de chapa do candidato presidencial republicano John McCain) daria uma personagem fantástica para um filme de Woody Allen?
Oh, ela é divertida. Mas já foi bem explorada nas sátiras da televisão. Ela foi uma escolha estúpida, nada que mostrasse muito respeito pelos Estados Unidos. Serviu apenas para dar uma pequena ajuda momentânea à campanha, pelas tiradas divertidas. Mas acho que os americanos, por mais ridículos que tenham sido nas eleições anteriores, aprenderam alguma coisa.
Você gosta de política? Nós estávamos falando de cinema e você parecia cansado. Agora parece mais…
… mais animado?
Isso. Mais interessado.
Sim, gosto de política. Não estou interessado em política como artista, mas como cidadão. Como sabe, eu voto. Contribuo com dinheiro. Fico feliz de fazer campanha por alguém.
Al Gore teria sido bom presidente?
Sim, acho que ele teria sido um bom presidente. Acho que é um homem inteligente e foi um mau candidato. Ele não teve carisma, não teve energia para concorrer, ele não conseguia focar. Mas daria um presidente muito bom porque é uma pessoa decente e é favor de uma agenda democrática, liberal
Se pudesse voltar no tempo, gostaria de se tornar um grande tocador de clarineta, um ícone dos esportes, um grande escritor ou George W. Bush? Qual seria a sua escolha?
Um grande músico,pois a música supera tudo. É emocional e todo mundo adora música.
* Esta entrevista foi publicada originalmente no jornal The New York Times. Tradução de Celso Mauro Paciornik


08/11/2008 - 16:01h Vicky Cristina Barcelona e nós
Vicky Cristina Barcelona – Woody Allen
Woody Allen tem a capacidade de provocar uma permanente interrogação em nós: como teríamos agido nas mesmas circunstâncias às quais se confrontam cada um dos seus personagens. Talvez porque o cineasta mostra a ambivalência de sentimentos e situações, as contradições dos personagens e a da própria realidade. Ou porque dá forma a seus e, ou, nossos fantasmas? Ou simplesmente porque nos confronta com nossas próprias existências?
Seus últimos filmes são dos melhores da sua carreira, na minha opinião. Em “Vicky Cristina Barcelona” é servido por ótimos atores, Scarlett Johansson, Penelope Cruz e Javier Bardem. Em verdade, aos três devemos acrescentar Barcelona e Gaudi. O filme vai fazer sucesso aqui, como está fazendo na França (onde Woody sempre faz sucesso).
Vida, frustração, paixão, sexualidade, beleza, arrebato, liberdade, introspecção, sexo, arte, aspirações, desejos e sociedade. Está tudo no filme e os caminhos aparecem diversos.
Is up to you, nos diz um Woody, aparentemente liberado de sua mãe. LF
29/10/2008 - 17:30h Cinema: Fatal (Elegy), imperdível
Ben Kingsley e Penélope Cruz no filme “Fatal”, em cartaz em São Paulo


