20/09/2009 - 18:00h Freud 70 anos: Sonhos, complexo e pulsão para leigos. Os livros

 

Especialistas refletem sobre a obra do pai da psicanálise

Coleção dedicada a iniciantes lança segunda leva de títulos que atualizam as principais ideias do repertório psicanalítico

Francisco Quinteiro Pires – O Estado SP

Sigmund Freud foi bastante corajoso ao expor os seus sonhos em praça pública. Em certa medida, tal coragem recebeu uma recompensa, dada por A Interpretação dos Sonhos (1900), uma de suas obras capitais que inaugurou a psicanálise. E é ela que ganha uma análise afiada de John Forrester na coleção Para Ler Freud. Professor da Universidade Cambridge, Forrester disseca, em A Interpretação dos Sonhos (Civilização Brasileira, 94 págs., R$ 15), as críticas à teoria freudiana que diz haver diferenças entre o conteúdo latente e o manifesto dos sonhos. A distinção se faz necessária. O autor inglês explica que, quando se dá sentido aos elementos oníricos, torna-se possível acessar a caixa-preta dos desejos.

Organizada pela psicanalista Nina Saroldi, a coleção, lançada no fim de 2008, manda agora para as livrarias, junto com o livro de Forrester, mais dois volumes: Complexo de Édipo, de Chaim Samuel Katz, e As Pulsões e Seus Destinos, de Joel Birman. A trinca da estreia foi formada por Além do Princípio do Prazer (Oswaldo Giacoia Junior); As Duas Análises de uma Fobia em um Menino de Cinco Anos – O Pequeno Hans (Celso Gutfreind); e Luto e Melancolia (Sandra Edler). No total, a série terá 15 volumes. “Sem textos cifrados, a coleção atualiza as principais ideias elaboradas por Freud ao longo da a sua produção”, diz Nina, que assina os prefácios das edições.

Psicanalista e escritor, Katz aborda, em Complexo de Édipo (164 págs., R$ 25), um conceito desenvolvido pelo teórico austríaco a partir de um sonho com a mãe e uma antiga babá. Valendo-se da mitologia grega, o pai da psicanálise criou a teoria da paixão pela mãe e do ciúme pelo pai. Segundo Katz, que convocou teóricos como Foucault e Jung para tratar do assunto, é o complexo de Édipo que torna a vida em sociedade viável, por delimitar o fluxo da libido e a obtenção do prazer. Katz examina a manifestação contemporânea da culpa e da vergonha.

“Joel Birman é um dos autores mais produtivos da psicanálise”, diz Nina. “Sua posição política é interessante porque mostra a preocupação e a possibilidade de as questões sociais serem tratadas pela teoria psicanalítica.” Além de As Pulsões e Seus Destinos (162 págs., R$ 25), Birman está lançando Cadernos Sobre o Mal (Civilização Brasileira, 336 págs., R$ 49,90). Professor da UFRJ, ele debate, no primeiro, as referências atuais ao conceito de pulsão, pela qual se revela a ambivalência do indivíduo. No segundo, investiga as diversas expressões da violência nos dias correntes, sob a luz da psicanálise e levando em conta os problemas sociais.

Desafios da nova tradução brasileira

Feita a partir do alemão, ela tem o objetivo de recuperar o estilo impecável do autor; serão 35 volumes, dos quais 3 já saíram

Luiz Alberto Hanns – O Estado SP

Nos anos 80 e 90, dezenas de artigos e livros questionando a teoria e denunciando a ética pessoal de Freud passaram a circular pela mídia. Alguns apontavam deficiências teóricas, outros expressavam uma fúria caluniadora que parecia responder a décadas de domínio e arrogância de muitos dos seguidores de Freud. Agora, passado o que nos EUA se denominou Freudbashing (malhar Freud), damo-nos conta que, na verdade, os novos avanços da psicogenética, das neurociências e da psicofarmacologia não se contrapõem à teoria freudiana, e podemos avaliar seu lugar na cultura e ciência com mais isenção. Neurocientistas têm relido e valorizado suas teorias, bem como em ciências humanas muitos conceitos freudianos foram incorporados. Igualmente vários países europeus e Estados americanos passaram a incluir a psicanálise nos serviços públicos de saúde.

Contudo, esta retomada de Freud não explica o interesse despertado pelas novas traduções que surgem neste momento em que sua obra cai em domínio público. Afinal, desde os anos 70 Freud é o autor de língua alemã cuja tradução é a mais debatida. O curioso é que, em geral, Freud escrevia de modo acessível visando à divulgação da psicanálise. Por que, então, a celeuma sobre sua tradução?

Uma das respostas é que sua obra não é apenas lida, mas estudada. Não só por psicanalistas, mas também por filósofos, semioticistas, críticos de arte, etc. Alguns textos são destrinchados frase a frase discutindo-se “o que Freud realmente queria dizer”, dúvidas estas alimentadas por uma desconfiança das traduções que remonta aos anos 70, época em que o debate em torno da tradução de Freud transbordou para além dos especialistas, chegando ao público leitor de jornais. As discussões de então centravam-se nos termos psicanalíticos adotados pela prestigiosa tradução inglesa de J. Strachey, a Standard Edition of Sigmund Freud Complete Psychanalytical Works, que havia estabelecido um padrão terminológico internacional.

Discutia-se uma revisão dos termos psicanalíticos, cuja tradução passou a ser considerada “medicalizada” e estranha à linguagem freudiana – uma linguagem ligada à experiência cotidiana e afetiva. Afora alguns termos já corriqueiros como ego, superego, id e narcisismo, outros como catexia (carga de energia), estase (acúmulo), epistemofilico (desejo de conhecer), seriam desnecessariamente herméticos. Além disso, nos anos 80, quando se publicaram novos estudos abarcando outras importantes traduções em diversos idiomas, novas distorções e falta de distinções conceituais foram mapeadas, colocando todas sob suspeita e incentivando uma revisão geral das traduções.

A nossa Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de S. Freud da Imago Editora passou por um processo análogo, sendo em especial criticada pela psicanalista Marilene Carone, que infelizmente morreu pouco depois de iniciar uma nova tradução. Além de ter sido traduzida do inglês, a Standard Brasileira continha diversos erros. Uma nova tradução a partir do alemão e conforme critérios atuais se fazia necessária e a própria Imago a retomou, sob minha coordenação em 2002. Entretanto, é provável que nenhuma das novas traduções internacionais, incluindo a nossa nova edição brasileira, satisfaça a todas as demandas contemporâneas. Uma das dificuldades reside na relação de Freud com a linguagem.

Para ele, havia uma sabedoria psicológica nos idiomas, e é da linguagem cotidiana que ele se servia para nomear conceitos e apontar nexos entre fenômenos. Um exemplo ilustrativo: Freud descreve um momento psíquico essencial – o cerne dinâmico da pulsão ou do instinto – que ele nomeia de Drang e que para outros idiomas foi traduzido por um termo mais pobre, pressão (pressure, poussée, presión). Ocorre que em português há um termo análogo ao Drang: ânsia. Tanto ânsia como Drang descrevem algo que brota do desconforto físico crescente (por exemplo, a ânsia do sufocado em respirar), passa pelo afã e aponta para o anseio (por exemplo, ânsia por viajar).

O nosso ânsia, tal como Drang, articula duas conexões importantes: uma com o corpo que sofre e impele, e outra com a psique que representa mentalmente os objetos de alívio almejados. Não haveria espaço aqui para demonstrar as implicações e os desdobramentos teóricos que ligam o desejo ao corpo e este à vida psíquica, bem como as relações entre sofrimento e prazer. Estes temas foram discutidos por Freud sempre empregando palavras ligadas à nossa experiência afetiva. Daí seu estilo ter sido denominado “prosa científica”.

Lembremo-nos que o mesmo Freud que foi considerado pela escola de Viena como exemplo de rigorosa ciência positivista ganhou o prêmio literário Goethe. Contudo, esse duplo registro discursivo coloca o tradutor diante de um impasse: se por um lado houve um consenso em “desmedicalizar” a linguagem, os avanços psicanalíticos atuais levaram a novas exigências de formalização teórica e padronização terminológica (em geral semanticamente mais pobre), e se contrapõem a uma tradução mais coloquial que busca restaurar os nexos semânticos e literários. Internacionalmente tem havido diversas soluções; na França, a nova tradução coordenada por Laplanche, tem um cunho mais terminologizante, na Inglaterra a atual tradução dirigida por Phillips tem um viés radicalmente literário.

A nova tradução brasileira, que começou a ser publicada em 2004 e que se estenderá até 2017, opta por dois caminhos: no corpo do texto enfatizamos a fluidez e o prazer de leitura, portanto, um viés literário, mas ao fim de cada capítulo incluímos um extenso corpo de notas com subsídios aos estudiosos. Embora nossa tradução deva se prestar a estudos, não abrimos mão de recuperar o estilo de Freud, acessível, instigante e em diálogo com a cultura. Outra providência foi não mais publicarmos a obra de Freud em ordem cronológica, pois isso nos obrigaria a publicar junto com textos relevantes de sua juventude, um grande número de cartas pessoais e artigos repetitivos que só interessam aos estudiosos e deixaria importantes textos de sua maturidade para uma publicação muito posterior.

Optamos por eixos temáticos que reúnem os textos mais lidos e procurados. O primeiro eixo, já publicado, engloba os Escritos sobre a Psicologia do Inconsciente (em três volumes, totalizando 640 páginas e 17 textos do período de 1911 a 1938). O eixo seguinte, em quatro volumes, trará os Escritos sobre Cultura, Sociedade e Religião. Mais adiante virão os textos sobre sexualidade, depois sobre arte e literatura, num total de 12 eixos temáticos, distribuídos por 35 volumes. Esperemos que este formato, bem como resgate do texto fluido e expressivo de Freud, permita à nova geração de leitores apreciar seu estilo e perceber suas múltiplas aberturas para a modernidade.

* Luiz Alberto Hanns, doutor em Psicologia pela PUC-SP, psicanalista, é cordenador-geral da nova tradução brasileira das obras de Sigmund Freud e autor do Dicionário Comentado do Alemão de Freud (Imago), entre outros livros sobre o tema

Estante Básica

RENATO MEZAN


Eis alguns livros disponíveis em português que podem interessar tanto aos marinheiros de primeira viagem quanto aos que já possuem algum conhecimento da psicanálise:

DE SIGMUND FREUD

Obras Psicológicas, editora Imago. Trata-se da nova edição da obra completa de Freud, traduzida diretamente do alemão, sob a coordenação-geral de Luiz Alberto Hanns. A publicação teve início em 2004 e já foram lançados três volumes, que reúnem os Escritos Sobre a Psicologia do Inconsciente. Neles estão incluídos os chamados textos metapsicológicos do criador da psicanálise – como O Recalque, Pulsões e Destinos da Pulsão e O Fetichismo.

SOBRE SUA VIDA E A ÉPOCA EM QUE VIVEU

Freud – Uma Vida Para o Nosso Tempo, de Peter Gay. São Paulo, Companhia das Letras, 1989.

Freud: Sua Longa Viagem Morte Adentro, de Lúcio Roberto Marzagão. Belo Horizonte, Ophicina de Arte & Prosa, 2007.

Viena Fin-de-Siècle, de Carl Schorske. São Paulo, Companhia das Letras, 1993.

SOBRE SUA OBRA

O Carvalho e o Pinheiro: Freud e o Estilo Romântico, de Inês Loureiro. São Paulo, Escuta, 2002.

Freud: Um Ciclo de Leituras. Silvia Leonor Alonso e Ana Maria Siqueira Leal (orgs.). São Paulo, Escuta, 1997.

Freud, Pensador da Cultura, de Renato Mezan. São Paulo, Companhia das Letras, 2005.

PRÁTICA CLÍNICA

Freud e o Homem dos Ratos, de Patrick J. Mahony. São Paulo, Escuta, 1991.

RELAÇÃO COM O JUDAÍSMO

O Moisés de Freud: Judaísmo Terminável e Interminável, de Yosef Hayim Yerushalmi. Rio de Janeiro, Imago, 1992.

Psicanálise, Judaísmo: Ressonâncias, de Renato Mezan. Rio de Janeiro, Imago, 1995.

O MOVIMENTO PSICANALÍTICO E OS AUTORES PÓS-FREUDIANOS

História, Clínica e Perspectivas nos Cem Anos da Psicanálise. Abrão Slavutzky, César de Souza Brito e Edson Luiz André de Sousa (orgs.). Porto Alegre, Artes Médicas, 1996.

Transferências Cruzadas: Uma História da Psicanálise e Suas Instituições, de Daniel Kupermann. Rio de Janeiro, Revan, 1996.

A Psicanálise Cura? Uma Introdução à Teoria Psicanalítica, de Roberto Girola. São Paulo, Ideias e Letras, 2004.

PSICANÁLISE NO BRASIL

A Psicanálise no Brasil: As Origens do Pensamento Psicanalítico, de Elisabete Mokrejs. Rio de Janeiro, Vozes, 1992.

Figura e Fundo: Notas Sobre a Psicanálise no Brasil, 1977-1997, de Renato Mezan. In Interfaces da Psicanálise; São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

20/09/2009 - 17:30h Freud 70 anos: Arte feita com estilhaços da teoria do ”pai”

Das primeiras vanguardas até hoje, uma presença decisiva – e particular

http://vr.theatre.ntu.edu.tw/hlee/course/th6_520/sty_20c/painting/ernst-06X.jpg
Pietá (ou Revolução à Noite) de Max Ernst. Pensando em Freud

Antonio Gonçalves Filho – O Estado SP

 

Especialistas refletem sobre a obra do pai da psicanálise

Surrealistas sempre foram grandes leitores de Freud. Já o psicanalista nunca prestou muita atenção aos surrealistas. Considerava fútil qualquer tentativa de expressar visualmente o que trama o inconsciente. Toda manifestação artística, segundo Freud, passa necessariamente pelo ego, mesmo que o francês André Breton (1896-1966), mentor dos surrealistas, tenha defendido o contrário. Então, o que teria levado Breton a seguir a cartilha de Freud? Básico: matar o pai, tomar seu lugar e tripudiar sobre seu cadáver, no melhor estilo edipiano. Não se pode esquecer que, ao contrário do eurocêntrico Freud, Breton e os surrealistas foram os primeiros a promover culturas não-europeias, admitindo a relevância dos mitos ancestrais e representações simbólicas dos antípodas.

Freud, como já acentuou Edward Said, pode até ter usado – e usou, de fato – esse conhecimento ao escrever Totem e Tabu (1913), mas não exatamente para fazer o elogio das culturas do Pacífico ou as africanas.

O conservadorismo artístico de Freud é notório – basta uma mirada em sua coleção particular para atestar que o interesse do psicanalista pela arte dirige seu olhar de volta aos gregos. Seus contemporâneos são praticamente ignorados. Apesar disso, o pintor alemão Max Ernst (1891-1976), um dos expoentes do movimento surrealista, leu seus livros ainda na Alemanha. No ano em que Freud lançou O Eu e o Id (1923), Ernst fez uma espécie de homenagem a ele numa tela chamada Pietà (ou Revolução à Noite), hoje na Tate Gallery. Na pintura, o Cristo é o próprio Ernst, mas quem o sustenta não é a mater piedosa das representações renascentistas. É o próprio pai (ou Freud), que pode ocupar simbolicamente o papel da mãe desejada nessa parábola visual automaticamente associada ao complexo de Édipo – conceito introduzido por Freud em A Interpretação dos Sonhos (1900), que Ernst, então estudante de Filosofia e Psiquiatria da Universidade de Bonn (de 1909 a 1914), conheceu antes de desembarcar em Paris e conhecer o grupo de Breton.

Breton, é provável, leu Freud na mesma época, pois foi durante a 1ª Guerra, prestando serviços num hospital para soldados traumatizados, que o poeta passou a desenvolver jogos de associações verbais semelhantes aos que o psicanalista usava com seus pacientes, conforme o estudo de Fiona Bradley sobre o movimento surrealista. Nesses jogos, os médicos estimulavam os pacientes a reagir automaticamente a palavras por eles pronunciadas, fixando-se na primeira reação dos soldados. Essa técnica teria levado Breton a desenvolver o que ficaria conhecido como escrita automática – marco zero do surrealismo, que derivaria para a pintura automática de Miró, justaposição de signos verbais a visuais num tipo de comunicação não-racional.

É claro que nem a escrita nem a pintura surrealista nasceram com os surrealistas. Tampouco com Freud. Todo mundo já sonhava – ou tinha pesadelos – bem antes de A Interpretação dos Sonhos. É grande a lista de escritores (de Dante a Lautréamont, passando por Jarry e Rimbaud ) e pintores (Bosch, Arcimboldo) que poderiam ser classificados de surrealistas. Freud tampouco se interessou por eles. Escreveu pouco sobre artistas visuais e, ainda assim concentrando suas reflexões na obra de dois renascentistas , Leonardo da Vinci e Michelangelo. Pena. Teria comprovado sua teoria de que o desejo fora de lugar pode provocar grandes estragos . Seria interessante ler suas impressões sobre o maneirismo “pervertido” de Arcimboldo, cujos rostos transfigurados certamente teriam ajudado o estudioso a introduzir a teoria da pulsão de morte em Além do Princípio do Prazer.

Freud, de origem hassídica, teria necessariamente de se voltar para a cultura literária – e não é por acaso que Sófocles vem em seu socorro com Édipo e Shakespeare com Hamlet na hora de formular o primeiro capítulo de sua teoria psicanalítica. Jung, de pais protestantes, era, nesse sentido, mais visual que seu mestre – e mais aberto às culturas visuais e mitologias arcaicas. Outra explicação é sua possível aversão à mistura explosiva entre surrealismo e radicalismo político. Para um vienense criado num ambiente hostil a inovações (musicais, em especial) e que, quando criança, sonhava se tornar um militar, a proximidade do espírito anarquista herdado do dadaísmo – do qual o surrealismo descende- era impensável. Breton era trotskista. Salvador Dalí era ambíguo, mas nunca conseguiu disfarçar sua simpatia pela ultradireita.

Apesar disso, Dalí realizou com Buñuel o filme que resume em imagens alguns dos temas mais caros a Freud: a repressão sexual, seja ela propagada pela Igreja ou pela sociedade burguesa. L’Âge d’Or (1930) foi lançado no ano em que Freud publicou O Mal-Estar na Civilização. Nesse livro, cuja atualidade é assustadora, o psicanalista diz basicamente que sacrificamos a felicidade por um alto nível de civilização – hoje poderíamos mudar as palavras e dizer que trocamos a liberdade pela segurança. A dupla Buñuel-Dalí fala exatamente o mesmo: no filme, fragmentado, um casal é sexualmente reprimido para logo em seguida vermos a imagem de uma mulher praticando fellatio no dedão do pé de uma estátua religiosa. Tanta desinibição poderia ser até demais para alguém que, a exemplo de Hobbes, defendia a existência de um limite para a civilização existir. Vale lembrar que, antes de L’Âge d’Or, Buñuel e Dalí já haviam subvertido Freud. Um Cão Andaluz (1926) descreve como condição ideal a do seu “perverso polimorfo” para garantir o êxito dessa mesma civilização – ao tratar da sexualidade infantil, Freud usou esse termo para associar o repertório dos primeiros prazeres sexuais ao dos pervertidos na idade adulta.

Não pensa diferente o herdeiro da dupla, o cineasta e psicomago chileno Alejandro Jodorowsky, autor de filmes desconcertantes, entre eles A Montanha Sagrada (1973), sobre um falso Messias que encontra um alquimista disposto a ajudá-lo na tarefa de redimir pecadores. Nem que seja castrando os infelizes, tarefa que o sádico chefe de polícia cumpre com prazer. Não é para estômagos fracos. Nem para Freud. Jodorowsky está vivo, mas sua idade (80 anos) não permite mais tanta extravagância. Passou o cetro para Matthew Barney, de 42 anos, versão soft dos delírios oníricos de Jodorowsky, assumidamente um dos que não ultrapassam o segundo estágio da tipologia freudiana, regredindo frequentemente à fase anal.

O norte-americano Matthew Barney, em seu épico de longa duração, Cremaster Cycle (1994- 2002), regride aos tempos pré-freudianos para mostrar como a biologia pode engendrar seres extraordinários dotados de virilidade animal e pouco raciocínio. Nessa antevisão apocalíptica, ele só perde para a veterana francesa Louise Bourgeois, que hoje vive em Nova York. A quase centenária escultora teve uma relação tumultuada com seu pai – bem mais do que a de Freud com o dele. Seus corpos com mil seios, aranhas e torsos sem membros são quase ilustrações da recusa infantil a uma sexualidade interpessoal. Freud teria em Matthew e Louise material farto para nova teorias. Sorte deles que morreu assim que a guerra começou.

20/09/2009 - 17:06h Freud 70 anos: Recepção profissional e consequente no Brasil teve início na década de 20

Especialistas refletem sobre a obra do pai da psicanálise

Durval Marcondes, fundador da primeira sociedade de psicanálise da América Latina, inaugurou sua institucionalização no País

Renato Mezan – O Estado SP

As primeiras referências às ideias de Freud por parte de psiquiatras brasileiros são contemporâneas da publicação dos seus artigos em revistas científicas alemãs, ou seja, datam do fim do século 19 e dos anos iniciais do 20. Isso porque, dado o prestígio da medicina germânica, muitos brasileiros faziam seus estudos na Alemanha ou em Viena, e se mantinham atualizados assinando os periódicos lá editados.

Com uma exposição sobre o novo método feita em 1899 por Juliano Moreira, da faculdade do Rio de Janeiro, pouco a pouco vão surgindo menções aos trabalhos de Freud, porém sem destaque especial: é mais um entre os autores citados, assim como Krafft-Ebing, Bleuler ou Kraepelin. Aqui e ali, temos notícias do emprego de técnicas freudianas na prática clínica, mas sempre isoladamente e sem continuidade.

Na década de 1920, a influência das vanguardas europeias sobre os modernistas abre outra via para a penetração das ideias psicanalíticas: no Manifesto Antropofágico, Oswald de Andrade se serve de algumas delas, e Mário de Andrade chegou a sugerir o termo sequestro para verter o nome do principal mecanismo de defesa proposto por Freud (Verdrängung, depois traduzido como repressão ou recalque). Sai um ou outro artigo na imprensa, ouve-se uma que outra conferência, do mesmo modo como se fala do surrealismo ou do tango: a psicanálise é mais um assunto para as conversas de salão, sem prejuízo do emprego de tal ou qual aspecto dela em determinado caso atendido por um profissional.

É com Durval Marcondes que tem início um esforço mais consequente para que as ideias freudianas deixem de ser apenas mais um item no cardápio intelectual. Ele se põe em correspondência com Freud, funda uma Revista Brasileira de Psicanálise (que teve um único número, em 1928), organiza em São Paulo a Sociedade Brasileira de Psicanálise (ainda em 1927), e busca trazer para a cidade um analista didata, capaz de realizar análises de verdade e assim formar um primeiro grupo de psicanalistas locais.

À sombra de Melanie Klein, com a chegada da dra. Adelheid Koch à capital paulista, no ano de 1937, encerra-se a fase diletante da psicanálise brasileira, e tem início um novo período, que a meu ver se estende até meados da década de 1970. Ele se caracteriza pela formação de Sociedades de Psicanálise em diversas capitais; à medida que atingiam determinados padrões, eram aceitas como filiadas pela Associação Internacional de Psicanálise (IPA, da sigla em inglês).

Quem quisesse se tornar psicanalista devia seguir um curso de formação nestas associações, de cujo currículo faziam parte os principais escritos de Freud. A maneira pela qual eram lidos, porém, era tributária de desenvolvimentos mais amplos no interior da disciplina, tanto técnicos quanto políticos. Refiro-me ao fato de que depois da guerra muitos latino-americanos vão se formar na Inglaterra, onde tomam contato com o círculo de Melanie Klein e acabam adotando o estilo clínico que ela inaugurou.

O kleinismo torna-se assim a corrente predominante nas sociedades brasileiras; Freud vai aos poucos se convertendo numa espécie de pai fundador, um vulto venerado a cujo retrato na parede se fazem as reverências de praxe, mas sua obra passa a ser considerada como algo de importância “histórica”, com que se tem a mesma relação que com os clássicos da arte e da literatura. Na clínica, porém, empregam-se as ideias de Klein e de seus discípulos.

Assim, durante as décadas de 1950 e 1960, a metrópole psicanalítica para os brasileiros é Londres. A publicação dos três volumes da biografia de Freud escrita por Ernest Jones, assim como dos primeiros volumes da nova tradução inglesa dos Gesammelte Werke por James e Alix Strachey – empreendimento que consumiu muitos anos de trabalho, e resultou nos 24 tomos da Standard Edition of the Complete Works of Sigmund Freud – estimulou alguns analistas do Rio de Janeiro a verter para o português os escritos do mestre. Mas a opção de os traduzir da Standard, e não do original, resultou num trabalho sem coerência na terminologia e eivado de erros.

O fato de a Edição Standard Brasileira – realizada com boa vontade, porém sem qualidade literária nem científica – ter sido recebida sem críticas diz bastante sobre a posição secundária de Freud nas referências dos analistas brasileiros de então: se os textos da escola kleiniana tivessem sido traduzidos com a mesma displicência, com certeza a reação teria sido outra. Somente com as novas condições mencionadas mais adiante é que se percebeu como era ruim o texto disponível na nossa língua.

Nas mesmas décadas, mas ainda sem impacto sobre a psicanálise em nosso país, Jacques Lacan estava empreendendo na França o chamado “retorno a Freud”. O estudo minucioso dos textos, frequentemente no original alemão, resultou para os seguidores de Lacan numa grande familiaridade com o pensamento do mestre de Viena, e na transformação dele num interlocutor tanto para a teorização quanto para a prática clínica, o que não era o caso nos países de língua inglesa.

A partir de 1970, as doutrinas lacanianas começam a ser divulgadas na América Latina, em especial na Argentina. Os profissionais platinos que vinham para cá – primeiro como conferencistas visitantes, e após o golpe de 1976 como emigrados políticos – traziam na bagagem uma nova visão da obra freudiana, influenciados como estavam pelo prestígio de que ela passara a desfrutar na França. Durante a década de 1980, retornam ao país vários analistas formados naquele país, ou na universidade belga de Louvain, então um importante centro lacaniano. Eles trazem consigo um conhecimento e uma valorização de Freud que muito contribuíram para a maior difusão do seu pensamento nas plagas tropicais. Em alguns novos cursos de formação para psicanalistas – como o do Instituto Sedes Sapientiae, em São Paulo – o corpus freudiano se torna o eixo central dos estudos, o que ainda hoje contrasta com o programa de corte mais britânico em uso nas sociedades filiadas à IPA.

Por fim, para compreender a situação atual de Freud na cultura brasileira é preciso mencionar três outros processos ocorridos nos últimos 30 anos. Em primeiro lugar, a crescente solicitação por parte da mídia para que psicanalistas expressem sua opinião acerca de comportamentos, atitudes, declarações de autoridades políticas e científicas, crimes particularmente hediondos, e outros fatos da vida social. Nesses comentários, frequentemente é citada alguma ideia do fundador da disciplina, e isso contribui para que o grande público se familiarize com conceitos como o de inconsciente, complexo de Édipo, perversão, e assim por diante.

Em segundo lugar, a presença da psicanálise nos cursos de pós-graduação em psicologia e filosofia deu origem a muitas teses de boa qualidade, que por sua vez – terceiro processo – vêm sendo publicadas por editoras especializadas. Nelas, e portanto nos livros a que dão origem, são frequentes as referências a Freud, e discussões acerca das suas implicações para o assunto tratado.

Sinal de uma exigência congruente com o novo papel da obra freudiana no pensamento dos analistas brasileiros é a decisão da Editora Imago de encetar uma nova tradução dela, desta vez com critérios adequados e a partir do original alemão. Sob a coordenação de Luiz Alberto Hanns, até o momento já saíram três do total de volumes projetados. As excelentes notas explicativas, e a qualidade da tradução, com certeza a tornarão um instrumento de trabalho utilíssimo para os psicanalistas, pesquisadores e demais interessados em conhecer o que Freud realmente disse (leia mais a respeito na página 11).

Para concluir: além das constantes citações em artigos, livros e conferências, esse contato mais íntimo com a obra fundadora da psicanálise vem influindo no modo como os profissionais conduzem seu trabalho clínico. A capacidade dos escritos de Freud para inspirar reflexões sobre os mais variados aspectos da vida psíquica, assim como para fornecer pistas que permitem compreender fenômenos dos quais ele não tratou explicitamente, parece dar razão ao psicanalista francês André Green, o qual, questionado certa vez sobre o que havia de novo em psicanálise, respondeu sem hesitar: “Freud.”

* Renato Mezan é psicanalista, professor titular da PUC/SP, autor de várias obras sobre Freud e a psicanálise. O texto aqui publicado é parte de um livro sobre o pensamento alemão a ser lançado em 2010 pelo Instituto Goethe de São Paulo, que gentilmente permitiu sua divulgação antecipada

20/09/2009 - 16:29h Freud 70 anos: Mistérios que vêm da masculinidade

Psicanalista não previu que mudanças na sociedade deslocariam a figura feminina de lugar e criariam uma nova relação entre os gêneros

Especialistas refletem sobre a obra do pai da psicanálise

Maria Rita Kehl – O Estado SP

Não se sabe que motivos levaram o escritor Grégoire Bouiller a encerrar por e-mail a relação amorosa com a artista plástica Sophie Calle. De fato, o protocolo contemporâneo da gestão dos afetos não recomenda o método e nem a mídia, considerada impessoal e burocrática demais diante das razões do coração. Os visitantes da exposição Cuide de Você (Prennez Soin de Vous), que ocupou o Sesc Pompeia entre 10/7 e 7/9 tiveram acesso a uma cópia da carta de rompimento, mas não às razões pelas quais o autor preferiu o e-mail a uma conversa pessoal. Quem sabe ele tivesse tentado romper a relação antes, pessoalmente, sem sucesso? Ou temesse por parte de Sophie uma cena melodramática e constrangedora, no limite do decoro tão caro aos parisienses?

O fato é que a ex-namorada conseguiu reverter a humilhação provocada pelo pé na bunda eletrônico de Grégoire convocando, a seu favor, uma fervorosa adesão feminista, pós-moderna, multidisciplinar e internacional. As 107 mulheres a quem Sophie enviou a carta de Grégoire a pretexto de consultá-las sobre como respondê-la foram unânimes em condenar a falta de etiqueta, de sensibilidade e, por que não? – de macheza por parte do rapaz. É possível agrupar as objeções das amigas de Calle em duas categorias principais: as críticas ao estilo supostamente literário de Bouiller e os diagnósticos de coloração psicanalítica à personalidade do rapaz. A carta de Grégoire foi considerada kitsch, maneirista, antiquada, estereotipada, brega, convencional – observações que teriam ferido de morte o escritor se a carta fosse uma peça literária. Já sua personalidade, foi diagnosticada por mulheres de diversas profissões como egoísta, infantil, narcisista, insegura, dissimulada e despreparada para o amor. Grégoire foi condenado, com base no código de ética pós-feminista, por um delito moderno tipicamente masculino: o de não estar à altura da imensa capacidade de amar das mulheres.

É provável que elas tenham razão. Não é difícil perceber o cabotinismo do rapaz, que tenta se passar por uma vítima de sua própria infidelidade. O que me interessa, entretanto, é observar que as fraquezas de caráter de que Grégoire é acusado são, sem tirar nem pôr, idênticas às características atribuídas por Freud às próprias mulheres, desde seu texto Introdução ao Narcisismo, de 1914. Infantilidade, narcisismo, egoísmo, frieza de sentimentos e uma habilidade para a dissimulação desenvolvida a partir de seu complexo de castração, compõem a estilística da feminilidade, segundo a observação freudiana. Em vários outros textos, entre os quais O Eu e o Id (de 1923), A Sexualidade Feminina (1931) e A Feminilidade (1933), Freud confirma suas observações anteriores. A repressão sexual à qual as moças eram submetidas desde a infância, o desconhecimento da vagina, o sentimento de humilhação devido à inferioridade de seu minúsculo órgão sexual em comparação com o falo masculino, tudo contribuiria para tornar as mulheres frígidas no sexo e arredias no amor. Do homem, uma mulher só desejaria duas coisas: que a colocasse em um pedestal de modo a confirmar seu valor como objeto privilegiado do desejo dele; e que lhe propiciasse a única e verdadeira experiência de plenitude a que a mulher teria direito: não o êxtase do sexo, mas o da maternidade. A feminilidade seria uma espécie de preço pago pela mulher ao homem, visando à obtenção do falo-filho. “A mulher freudiana é aquela que diz “obrigada” ao homem”, escreveu Colette Soler.

O homem freudiano seria o narciso ferido, sempre inseguro de seu valor; eterno amante dedicado a conquistar o amor da virgem inexperiente a quem caberia, depois do casamento, reconhecer a virilidade dele. A mulher representava o objeto misterioso que, embora dependente material e juridicamente do parceiro, jamais lhe revelaria o segredo de seu desejo e de seu gozo. O homem freudiano ocupa a posição do amante e a mulher, a do objeto idolatrado. Mas para que a estratégia funcione, é essencial que a moça conserve uma aura de mistério e de estudada indiferença. Nisso consiste a mascarada da feminilidade, cuja função é ocultar a verdade do desejo e da castração femininos.

Onde se encontram, hoje, as “verdadeiras” mulheres freudianas? Teremos nós, gerações pós-feministas, esquecido os artifícios e artimanhas que nos faziam tão atraentes quanto inacessíveis à fantasia masculina? Hoje, não nos parece que os homens é que andam arredios, ao passo que as mulheres do século 21 se comportam como guerreiras assediadoras da gélida fortaleza masculina? “O que faço para sustentar meu desejo por esta que se entregou a mim desde o primeiro momento?” perguntam os rapazes de hoje que, por angústia e vingança, transformam suas amadas em grandes mães assexuadas.

A linha divisória entre homens e mulheres, pelo visto, perdeu sua antiga fixidez, trazendo mobilidade e liberdade para ambas as partes. Se o falo não é um pênis e sim um significante, seu manejo está franqueado a homens e mulheres. Só que, ao insistir em sustentar a equação pênis=falo, os homens acabam por se colocar em uma posição muito mais frágil do que as mulheres. Estas recém-descobriram, por conta da própria psicanálise, que o órgão masculino só possui o valor fálico que elas lhe conferirem.

Freud estaria enganado em suas observações a respeito das diferenças entre os sexos, das quais faço aqui uma proposital caricatura? Não creio. O que ele não poderia prever é que as transformações da cultura, para as quais a psicanálise desempenhou no século 20 um papel central, fariam por deslocar as mulheres de seus lugares tradicionais até exigir a construção de outra feminilidade ou, ainda mais: de outra relação dialética entre homens e mulheres.

Não é impossível então, que na medida em que as mulheres se livraram de algumas restrições sexuais e existenciais impostas pela moral vitoriana, a linha demarcatória entre a masculinidade e a feminilidade tenha se deslocado – forçando os homens, por enquanto, a jogar na defensiva. Freud já havia percebido a existência de um hiato na complementariedade imaginária entre homens e mulheres, a ponto de perguntar à sua amiga Marie Bonaparte: mas afinal, o que quer uma mulher? Pergunta que repercutiu em todas as gerações de psicanalistas, sobretudo homens. Ora: é claro que ninguém pode saber o que deseja uma mulher. O desejo é, por definição, inconsciente. Um homem também desconhece o próprio desejo.

Quanto ao suposto mistério do querer feminino, que se manifesta por intermédio de fantasias triviais e de pequenas reivindicações dirigidas ao outro – bem, nesse caso qualquer mulher pós-freudiana poderia responder: eu quero o mesmo que você, seu bobo. Você só não percebe porque não quer saber que sou sua semelhante, sua rival, sua irmã.

E, nesse caso, a diferença sexual continua um mistério – para os homens e para as mulheres.


* Maria Rita Kehl, psicanalista, é autora de O Tempo e o Cão (Boitempo), entre outros livros

20/09/2009 - 15:56h Freud 70 anos: O papel de refletir sobre o conjunto do espírito humano

Especialistas refletem sobre a obra do pai da psicanálise

O exame da cultura e da civilização tornou-se uma das linhas de força da psicanálise, que prossegue dedicada a essa frente

Sérgio Telles – O Estado SP

A inquietante e dolorosa vacilação humana entre o Bem e o Mal, a razão e a irracionalidade – enigma sobre o qual há séculos se debruçavam a filosofia e as religiões – foi entendida por Freud como decorrente da divisão estrutural do psiquismo em diversas instâncias, cujo funcionamento percebeu ser regido por um conflito permanente entre forças opostas.

Foi com as histéricas que Freud descobriu a dimensão inconsciente do psiquismo, mas logo a reconheceu nos demais quadros psicopatológicos e no funcionamento mental dos ditos “normais”. É quando passa a fazer o levantamento desta forma de funcionamento psíquico que escapa totalmente à consciência e à lógica racional e que usa uma linguagem cifrada, até então incompreensível a ponto de lhe ser negado qualquer sentido. Daí a necessidade de interpretá-la ao se manifestar em sintomas, sonhos, atos falhos, fantasias e desejos.

Freud constata que o inconsciente pode ser detectado em toda e qualquer manifestação do psiquismo humano, desde os mais simples e rudimentares até as mais complexas produções culturais, como a arte, a religião, a filosofia.

Por isso mesmo, desde o início, Freud estabeleceu que a psicanálise não se restringe a seu aspecto terapêutico e procurou aproximá-la dos demais domínios do espírito.

É grande o número de textos que Freud dedicou a assuntos artísticos e culturais, como Delírios e Sonhos na Gradiva de W. Jensen (1907), Leonardo da Vinci e Uma Lembrança de Sua Infância (1910), O Moisés de Michelangelo (1914) e Moisés e o Monoteísmo (1939). Essa linha de trabalho culminou com obras magistrais nas quais estuda a gênese da lei (Totem e Tabu, 1913), a questão da psicologia das massas e da liderança (Psicologia de Grupo e a Análise do Ego, 1921), a religião (O Futuro de Uma Ilusão, 1927) e a própria civilização (O Mal-Estar na Civilização, 1930).

O pensamento “sociológico” e “cultural” de Freud – que, durante certo tempo e por vários motivos foi relegado a um segundo plano – recebeu uma grande revitalização a partir dos trabalhos de Jacques Derrida. Ele convoca os psicanalistas a retomarem seu posto na polis, a participarem – como Freud o fez – mais intensamente dos debates que envolvem as grandes questões da atualidade. Confirma Derrida o que já é sabido desde o aparecimento dos primeiros trabalhos de Freud – que o mundo é hostil à psicanálise e a ela oferece grande resistência. Mas – continua Derrida – é necessário reconhecer que a psicanálise, por sua vez, também “resiste” ao mundo, e – o que é mais grave – resiste a si mesma, recusando-se a continuar expandindo o campo de saber criado por Freud.

Derrida lamenta a ausência da psicanálise no enfrentamento com questões nas quais sua contribuição é imprescindível, como nos campos da ética, da política e do jurídico.

O Mal-Estar na Civilização é o texto magnífico onde Freud analisa os impasses decorrentes do fato de o homem ter saído da natureza e ingressado no campo da cultura. Ali ele afirma ser necessário conter os desejos agressivos e sexuais para tornar possível a vida em comum. Como conciliar isso com o objetivo terapêutico maior da psicanálise que propõe justamente combater a repressão e tornar conscientes os conteúdos agressivos e sexuais que ela afastava da consciência? Essa aparente contradição se desfaz quando lembramos que a superação da repressão e a integração no psiquismo dos conteúdos até então reprimidos não deve ser confundida com a realização concreta destes desejos na realidade. O levantar da repressão dá ao sujeito um maior conhecimento sobre si mesmo, fortalece seu ego e faz com que ele deixe de atribuir à outra pessoa (via projeção) desejos e fantasias que são de sua própria lavra. Cabe ao sujeito, agora de posse de seus desejos antes reprimidos, avaliar a adequação e a oportunidade de pô-los em prática ou reconhecer que tem de renunciá-los de uma vez por todas. Isso implica o reconhecimento da lei e a aceitação de limites, um abandono do narcisismo onipotente infantil e uma aceitação do princípio da realidade.

O fato de Freud considerar a civilização como valioso apanágio da humanidade a ser protegido contra a barbárie sempre à espreita não impede que a psicanálise exerça sobre ela uma crítica sistemática, o que a coloca numa posição muitas vezes contrária ao consenso geral, despertando resistências e hostilidades.

No tempos iniciais, Freud e a psicanálise se opunham à hipocrisia com a que a sociedade tratava a sexualidade, reprimindo-a maciçamente, fazendo-a manifestar-se no corpo contorcido, paralisado, convulsivo da histérica.

A psicanálise ajudou a mudar este panorama e o que vemos hoje em dia é o oposto do que ocorria no tempo de Freud.

Ao contrário da censura, da repressão e do impedimento superegoico contra a sexualidade, prevalece agora a imposição do gozo ininterrupto, a ordem é gozar. É exigido de todos uma vida sexual intensa e variada, sendo discriminados aqueles que não cumprem com tal imperativo. A sexualidade se exibe às escâncaras nos meios de comunicação, que ininterruptamente confundem o público e o privado.

Enquanto os anseios eróticos eram vigiados e reprimidos na era vitoriana, agora o mercado está atento a todo e qualquer desejo para transformá-lo num objeto de consumo, oferecido pela enganosa publicidade como o passaporte para a felicidade instantânea.

O que aconteceu? Teriam desaparecido os impedimentos e a repressão? É claro que não. A psicanálise entende que a repressão se desloca para outras áreas, por exemplo, impedindo a manifestação da genuína intimidade afetiva.

Ao apontar as falácias da sociedade do consumo, o vazio decorrente do narcisismo desenfreado, a negação da falta e da incompletude, a liberdade equivocada que leva às fobias e ataques de pânico, a psicanálise, mais uma vez. está na contramão.

No próprio campo terapêutico, o espírito do tempo volta a ficar contra a psicanálise. Ela é desmerecida como algo ultrapassado pela neurociência (que reduz o funcionamento mental ao equilíbrio dos neurotransmissores cerebrais) e pelo cognitivismo (teoria psicológica herdeira do behaviorismo, baseada em processos cognitivos conscientes, que ignora – consequentemente – o Inconsciente freudiano, e tenta aproximar o funcionamento da mente ao processamento de dados por um computador).

Neste contexto, é reconfortante que um pensador do calibre de Derrida tenha reafirmado a radical novidade do inconsciente freudiano, que continua descentrando e desafiando o saber humano baseado no cogito, na razão, na consciência.


* Sérgio Telles é psicanalista e escritor, autor de Visita às Casas de Freud e Outras Viagens (Casa do Psicólogo), entre outros

20/09/2009 - 15:21h Freud 70 anos: Uma prática da subjetivação

Inseparável do corpo teórico, clínica freudiana admite transformar a ‘miséria neurótica’ em ‘infelicidade banal’

Especialistas refletem sobre a obra do pai da psicanálise

*Joel Birman – O Estado SP

A experiência psicanalítica se constituiu pelo reconhecimento insofismável da presença de conflitos no psiquismo. Essa evidência foi, para Freud, o canteiro de obras para a construção da teoria analítica e para o delineamento das coordenadas da clínica em psicanálise. Isso implica enunciar, inicialmente, que não existiria para Freud nenhuma possibilidade de separar estes dois registros, na medida em que a teoria e a clínica estariam organicamente costuradas. Seria em decorrência disso, portanto, que as diversas transformações da teoria ocorridas no discurso freudiano foram as consequências das mudanças operadas no registro da clínica. É preciso afirmar, em seguida, que a clínica foi um dispositivo inventado para remanejar e oferecer outros destinos para os ditos conflitos.

A presença do conflito evidenciava a existência de luta entre partes opostas que se contrapunham na experiência psíquica. Seria tal luta que se apresentava como dor e sofrimento nos indivíduos. Além disso, esse conflito se consubstanciava pela produção de sintomas que, como formação de compromisso que era entre os polos em luta, materializava o dito conflito. Contudo, esse se manifestava ainda em outras produções psíquicas, como o sonho, o lapso, o ato falho e a piada. O conjunto dessas produções psíquicas foram denominadas por Lacan de formações do inconsciente, constituindo a argamassa da experiência psicanalítica

A novidade teórica inventada por Freud foi a de demonstrar como o conflito psíquico se fundava em parte no inconsciente, mas que esse se mantinha oculto aos registros psíquicos do eu e da consciência, que representavam o outro polo do conflito. A experiência analítica visava então a colocar em cena o conflito em pauta, para que o sujeito pudesse relançar esse em outras bases, de maneira a dissolver o sintoma assim como o seu correlato, qual seja, a dor e o sofrimento que lhe acompanham. Enfim, como nos disse Freud numa fórmula concisa, em A Psicoterapia da Histeria (1895), seria preciso transformar a miséria neurótica em infelicidade banal.

Porém, no polo conflitivo centrado no inconsciente, Freud inscreveu o desejo. Seria esse na sua potência que procuraria sempre se impor no campo psíquico, como um imperativo efetivo do sujeito visando à sua satisfação. No entanto, encontraria sempre obstáculos para a sua realização, de maneira que teria que ser recalcado pela censura. O desejo, contudo, na sua insistência, buscaria sempre encontrar brechas para a sua circulação, driblando as infinitas dobras da censura. Seria, assim, pelo retorno do recalcado que o desejo se faria presente nas diferentes formações do inconsciente. Enfim, o desejo seria sempre transvestido por fantasmas, que definiriam as cenas e as personagens pelas quais o desejo tomaria corpo e forma.

No entanto, ao longo do seu percurso teórico, Freud empreendeu diferentes leituras do conflito psíquico e do desejo, procurando enfatizar então as suas bases pulsionais. Se inicialmente formulou que o conflito se daria entre a pulsão sexual e a pulsão do eu, posteriormente passou a enunciar que aquele se centraria entre a pulsão de vida e a pulsão de morte. Vale dizer, no início da psicanálise era a sexualidade que colocaria questões para o sujeito, mas em seguida a sexualidade faria parte das forças estruturantes do psiquismo e o que passou a ser problemático eram as forças destrutivas, representadas pelo imperativo da pulsão de morte. Seria então a crueldade o que promoveria estragos no sujeito, nas relações desse com o seu corpo e com o mundo. Foi neste contexto teórico-clínico, enunciado em Além do Princípio do Prazer (1920), que Freud nos disse que a experiência analítica não se centraria mais nem na interpretação nem tampouco na superação da resistência, como nos seus tempos primordiais, mas no domínio e na elaboração da compulsão à repetição.

De qualquer maneira, Freud sempre atribuiu a uma impossibilidade, existente na atualidade do sujeito, a fonte crucial para a constituição das diferentes perturbações psíquicas. Assim, da impossibilidade na realização do desejo até a perda de algo que fosse significativo para o sujeito, passando pelo impacto de experiências traumáticas, o que estaria sempre em pauta era a presença de um excesso intensivo no psiquismo, que o sujeito não conseguiria devidamente dominar e constituir assim destinos estruturantes para isso. A dimensão econômica do psiquismo seria o que melhor interpretaria o que estaria em causa inicialmente na produção das perturbações psíquicas, na impossibilidade de gozar que capturaria então o sujeito.

Em seguida, contudo, para canalizar este excesso pulsional, o psiquismo procuraria simbolizar o que ocorreu de maneira catastrófica, lançando mão de representações psíquicas. Seria a dimensão simbólica do psiquismo o que estaria agora em causa na produção das perturbações psíquicas, pela qual os diferentes sintomas serão tecidos nas suas particularidades. Assim, o sujeito procura lidar com uma questão real por caminhos oblíquos e transversos, lançando mão de seus arquivos do passado para enfrentar algo que se impõe na atualidade de sua experiência. Portanto, o que estaria agora em pauta seria uma tática equivocada para lidar com uma impossibilidade. Estaria aqui a dimensão do paradoxo presente em qualquer perturbação psíquica, seja essa da ordem da neurose, da perversão ou da psicose.

Dessa maneira, no entanto, o sujeito formula uma questão que estaria materializada no seu sintoma, de forma singular. A novidade trazida por Freud foi a de procurar traduzir o que se materializava no sintoma, isto é, na indagação que assim se balbuciava. Vale dizer, o sintoma queria sempre dizer algo de singular sobre o sujeito, que na sua impossibilidade falava disso de maneira transversa. Caberia, assim, ao psicanalista declinar essa voz sincopada, forjando as frases e conjugando os verbos enunciados no lusco-fusco dos fantasmas, para que as subjetivações pudessem então se produzir efetivamente.

Seria, portanto, pela invenção de novas formas de simbolização e de fantasmatização, que o sujeito poderia percorrer outros caminhos para sair do seu impasse, de maneira a dissolver a dor e o sofrimento que lhe dilacera. Para isso, a experiência psicanalítica possibilitaria a constituição de repetições de diferença no campo da repetição do mesmo, de maneira que o psiquismo pudesse realizar então a inflexão decisiva da compulsão à repetição em outras direções.

Fala-se muito hoje que a psicanálise não conseguiria mais sustentar o seu projeto clínico, não apenas em decorrência de sua duração e de seus custos como se dizia outrora, mas diante das novas modalidades de sofrimento que se apresentam na atualidade. Como se a psicanálise ficasse surda e opaca às novas formas de dor, que constituem a matéria-prima do mal-estar na contemporaneidade. Proclama-se, assim, a maior eficácia terapêutica da psiquiatria biológica e da psicologia cognitiva, que seriam os novos bálsamos para curar definitivamente os nossos males do espírito. Contudo, no projeto teórico-clínico delineado por Freud nunca foi fácil lidar com o conflito psíquico e as impossibilidades colocadas para a realização do desejo, de forma a constituir outros destinos que fossem estruturantes para o sujeito. Por isso mesmo, a resistência sempre se perfilou no campo da experiência psicanalítica, que não deve ser considerada negativamente, pois a resistência seria também o caminho pelo qual o sujeito procura afirmar o seu desejo em face da máquina interpretativa do analista, que ameaça apagar dessa maneira a sua singularidade.

Assim, a diferença fundamental da psicanálise em face de tais práticas clínicas é que para aquela o conflito psíquico não desaparece magicamente, nem pela ação das drogas psicofarmacológicas, nem tampouco pelo aprendizado de novos comportamentos. Isso porque o conflito psíquico se funda no desejo e nos fantasmas, que marcam a singularidade do sujeito. Esse não pode abrir mão de sua singularidade, sob o risco fatal de desaparecer. Vale dizer, a psicanálise é uma poderosa prática de subjetivação, que procura inventar destinos outros para o desejo e para os fantasmas do sujeito, através dos quais esse pode se enunciar em palavras, gestos e ações. Enfim, é preciso declinar o desejo e o fantasma do sujeito para que esse possa assumir plenamente a sua singularidade.

*Joel Birman é psiquiatra e psicoterapeuta, professor de Psicologia das Universidades Federal e Estadual do Rio de Janeiro e pesquisador do Collège International de Philosophie, de Paris. Escreveu, entre outros livros, Arquivos do Mal-Estar e da Resistência e Cadernos Sobre o Mal (Civilização Brasileira)

20/09/2009 - 15:03h Freud em analise

Especialistas refletem sobre a obra do pai da psicanálise
Arquivo/AE

Especialistas refletem sobre a obra do pai da psicanálise

 

”Psicanálise é a medicina da alma do nosso século”

Uma das intelectuais mais respeitadas da França, ela fala com exclusividade ao ‘Estado’ sobre o legado do pensador de Viena

Andrei Netto – O Estado SP

Poucos intelectuais traduziram tão bem sua época como Sigmund Freud fez com o século 20. Em sua obra, estão expressas as bases de conceitos tão poderosos e, ao mesmo tempo, tão legíveis, que se tornaram parte do cotidiano com a velocidade característica de sua época. É o caso do inconsciente – um conceito já elaborado nos séculos 18 e 19 por autores como Leibniz e Edward von Hartmann. Reinterpretada por Freud, a ideia de que o que falamos pode ter significados ocultos que fogem à esfera da consciência e, portanto, ao nosso domínio, é hoje reconhecível por todos.

Resumir seu pensamento a esse conceito, porém, é limitar uma obra enérgica e influente, alerta Elisabeth Roudinesco. Psicanalista, historiadora, docente, escritora, discípula de Jacques Lacan, amiga de Jacques Derrida, Elisabeth é, aos 64 anos recém-feitos, um dos pensadores vivos mais importantes de sua área, a psicanálise – um dos legados de Freud à humanidade. Segundo a intelectual marxista, o médico neurologista convertido em gênio está por trás, de uma forma ou de outra, de todas as formas de emancipações vividas pela sociedade do século 20, das quais o feminismo e a liberação sexual são só dois exemplos evidentes.

Além de suas atividades acadêmicas, que a levam a viajar o mundo todo, Elisabeth, uma das intelectuais mais respeitadas da França, se mantém hiperativa como escritora. E no centro de seus interesses está Freud. Ele explicaria a efervescência da autora, que lançará dois novos livros – Histoire de la Psychanalyse en France (La Pochotèque) e Retour à la Question Juive (Albin Michel) – nos próximos dias.

Previsto para outubro, Em Defesa da Psicanálise (Jorge Zahar, 248 págs.) é o seu próximo lançamento no Brasil. Nessa obra, estão reunidos entrevistas e ensaios da autora inéditos no País. Organizados pelo psicanalista Marco Antonio Coutinho Jorge, os textos são de épocas diversas e abordam temas polêmicos: a falta de participação dos psicanalistas na vida pública, a homossexualidade, o antissemitismo e a ciência, além das conexões da psicanálise com a medicina e a filosofia. No livro, a resposta da autora para os que falam da morte da psicanálise é direta: “Que ilusão!”

Em 23 de setembro de 1939, Freud morria em Londres. Às vésperas do aniversário de 70 anos de seu desaparecimento, o Estado pediu ajuda a Elisabeth para esmiuçar a herança de um mestre. Em seu apartamento, em um quartier pequeno-burguês de Paris, na quarta-feira, foram registradas mais de duas horas de entrevista exclusiva. A seguir, sua síntese.

Estamos a 70 anos da morte de Freud. O que ainda é tão representativo em sua obra? Por que ele é uma referência para a própria humanidade?

Ele é o único a ter teorizado, assim como seus herdeiros, o que chamamos de inconsciente. Não falo do subconsciente nem do inconsciente dos psicólogos. Eu me refiro ao inconsciente, que pode ser traduzido pela noção de que, quando alguém fala, não sabe o que diz. Há milhões de exemplos concretos, como o ministro do Interior da França (Brice Hortefeux), que fez declarações racistas na semana passada. Conscientemente, ele não é racista. Inconscientemente, sim. Mas julgamos alguém por seu inconsciente? Sim, se ele é ministro. Mas, via de regra, não podemos enviar alguém aos tribunais por seu inconsciente. Podemos dizer: “Comporte-se!” Muitas pessoas são inconscientemente racistas e antissemitas. Quando não há lei, esses sentimentos se exprimem.

Está no inconsciente? É inexorável?

É inexorável. Freud dizia, com razão, que a única maneira de impedir o crime é a lei, a civilização. No fim do século 19, havia pessoas e governos pública e oficialmente racistas. Não era proibido.

Permita-me retomar a questão: por que Freud ficou marcado como o homem que sintetiza o século 20?

Porque ele aportou algo de novo. Ele estava no prolongamento da filosofia do sujeito. Ele trouxe explicações que a filosofia havia pensado, mas ele lhes deu um assento teórico. E isso não me surpreende. Além disso, Freud permite compreender os dois totalitarismos do século 20: o nazismo, sobre o qual pensou e anteviu melhor do que qualquer outro, e o comunismo, que não teve nada a ver com sua ideia original, com o marxismo. Os dois, aliás, são diferentes: o nazismo se inscreveu desde seu início, sabia-se o que esperar; o comunismo caminhou para o lado errado. Mesmo assim, Freud viu que ele não funcionaria. É verdade que ele era conservador, assim como muitos de seus herdeiros. Mas há muitos freud-marxistas, muitos freudianos de esquerda – que são os meus preferidos, aliás. Nessa época, psicanálise era uma teoria da regeneração do homem, da emancipação. Quatro coisas nasceram ao mesmo tempo: o sionismo, o último movimento de emancipação dos judeus; a psicanálise, que é a emancipação do inconsciente; o socialismo, a emancipação social; e o feminismo, a emancipação da mulher. Era um grande movimento. O século 20, como anteviu Freud, foi o triunfo do contrário – o que pode ser resumido no nazismo. Freud afirmou que o triunfo do contrário já estava lá, entre nós, naquela época. E disse ainda: “Atenção, eu sou a favor da emancipação, mas o homem é habitado pelo contrário disso.” Eu creio que ele foi o único a dizê-lo. É um dos motivos pelos quais é o Homem do Século 20. Por outro lado, ele jamais abandonou a ideia do progresso. Freud foi um homem progressista. Contra Schopenhauer, contra os grandes conservadores de seu tempo, contra os que eram inteiramente pessimistas em relação ao progresso, acusando-o de não servir para nada, Freud disse: “Sim, ele serve.” Foi por isso que eu o chamei, depois de Adorno e outros, como a “luz sombria”, marcada pelo iluminismo, mas sem muitas ilusões. Esse vínculo, o fato de ter pensado a relação entre as duas coisas, o levou a pensar ao mesmo tempo que o pior e o melhor podem acontecer com o homem. Ele nunca foi antiprogressista, ao contrário do que se diz. Por tudo o que mencionei, ele está no centro dos dias de hoje. Você não pode pensar o sionismo, o feminismo, a liberação das mulheres, a transformação da família, sem passar por Freud em determinado momento.

Se Freud é o homem do século 20, qual é o seu lugar no século 21?

É o mesmo. A maioria dos psicanalistas tornou-se conservadora. Não 100%, mas a maioria é conservadora. Por quê? É uma de minhas grandes interrogações. Eu não o sou, e no Brasil eles são menos. Diria até que são menos na América Latina. Mas eles são conservadores por diversas razões. Os lacanianos não deveriam sê-lo, já que Lacan relançou o pensamento da rebelião, da contestação. A Internacional Freudiana tornou-se conservadora porque caiu na repetição do dogma. Eles não se renovaram, tornaram-se um movimento dogmático, centrado sobre a clínica e não sobre a reflexão a respeito da sociedade e do indivíduo. Além disso, cometeram o erro de dialogar demais com as ciências duras, ao crer que o debate sobre o cérebro e os neurônios era essencial. Sempre afirmei que esse debate não era essencial, porque o cérebro e os neurônios não precisam de psicanálise. Não há muito o que fazer com isso, senão dar medicamentos. Mas se a psicanálise se ocupa apenas disso, afastando-se das moeurs (expressão francesa para costumes), ela se torna conservadora, familiarista. Os psicanalistas se desinteressaram dos assuntos sociais. Foi assim que se tornaram conservadores.

Por que a psicanálise brasileira é menos conservadora?

A América Latina, e sobretudo o Brasil, é uma sociedade que espelha a Europa. Os psicanalistas brasileiros são ecléticos. Em alguns momentos são culturalistas, e nos chateiam com a sua brasilidade – não esqueça que houve na França a francilidade e na Alemanha a germanidade. Mas, fora isso, eles, como espelho da Europa, importaram conhecimento. Ao importar, misturaram-no. E o ecletismo dos brasileiros – mais do que dos argentinos, que são menos ecléticos – se formou pegando um pouquinho de Freud, um pouquinho de Lacan e por aí foi. Isso funciona porque questiona o dogmatismo. Eles desconstruíram, para empregar a expressão de Derrida, o dogma europeu.

Voltemos a Freud. Ele não avançou em dois domínios: as crianças e os psicóticos. Por quê?

Sim, ele avançou sobre o tema da infância. Ele nos deu a base da análise da infância. O que se pode dizer é que sua corrente não triunfou no mundo psicanalítico quando se fala em infância, e sim a de Melanie Klein. Nisso, estou completamente de acordo com você. Foi ela quem fundou a psicanálise da infância. No entanto, tudo isso é psicanálise. Ela engloba todas as correntes. Sobre os psicóticos, você tem razão. Freud não acreditava que seria possível analisar os psicóticos. Muito cedo, quando ele compreendeu que essa era a “Terra Prometida” – bem antes da aparição dos medicamentos -, quando ele percebeu que quase todos os seus discípulos eram psiquiatras e trabalhavam com a psicose, ele se desinteressou, embora não tenha desestimulado ninguém. É verdade que é um domínio muito problemático. A análise se faz para os neuróticos. A “cura” analítica funciona muito para os neuróticos, porque, como eles não se curam, se acomodam. E, como transformamos a neurose de fracasso em neurose de sucesso, a cura funciona. A psicanálise torna mais inteligente, mais corajoso, mais apto na sociedade. A psicanálise funciona muito bem. Entretanto, é verdade que não curamos bem a psicose, embora tenhamos nos desenvolvido muito nesse tema também. Os loucos hoje buscam na psicanálise um complemento, já que os psiquiatras só querem saber de medicamentos. Se não há a psicanálise, o paciente vira um legume, um morto em vida.

No início, com Freud, a psicanálise era um processo breve, rápido. Hoje, é o contrário, estende-se por anos, décadas às vezes. O que mudou?

Era rápido porque Freud fazia seis sessões por semana de uma hora. Era intensivo. Há também o fato de que estendemos a análise para domínios não previstos de início, o que a tornou mais difícil. Mudou-se a modalidade da cura, também. Há pessoas que precisam falar sempre, ao longo de sua vida. Mas é verdade que Freud ficaria chocado hoje. Duas vezes por semana, durante 10 anos? Não! Para Freud, era de seis meses a um ano, todos os dias, por uma hora. Quando não era possível, como Marie Bonaparte, tudo bem. Ela ficou 14 anos em análise.

Freud esforçou-se muito para dar à psicanálise o status de ciência, mas ela sempre esteve na alça de mira de cientificistas ortodoxos. Como a psicanálise responde a essas críticas? E por que ela deve ser considerada uma ciência?

Freud oscilou, hesitou muito entre o status de ciência, no sentido de ciência dura – ele queria no fundo que a psicanálise fosse uma “neurologia da alma” – e um outro status, que ele não chamava filosofia, mas ainda assim estava do lado da especulação, da literatura e da filosofia. Ele renunciou completamente e muito cedo ao status de ciência dura, porque se deu conta de que não se tratava de uma ciência no sentido que se conhece. Logo, é preciso inscrever a psicanálise no registro das ciências humanas. É uma ciência, no sentido da racionalidade, mas não no mesmo sentido da biologia e da neurologia. Freud se dividia entre as duas concepções. Não estamos mais no tempo do darwinismo, e a biologia é reconhecida como uma ciência, uma ciência da natureza. A psicanálise não o é de modo algum. Não tem metodologia, resultados ou a positividade das ciências duras. É uma ciência mais próxima das Humanas, como a Antropologia, a Sociologia, a História. Mas mesmo essa concepção, a de parte das ciências humanas, já foi contestada.

O pensamento de Freud é íntegro e poderoso ainda hoje? Sua força criativa ainda é existe?

Sem dúvida. Creio que vamos assistir a um grande retorno a dois pensadores, inclusive: Marx e Freud. Não ao comunismo e à psicanálise, mas a Marx e Freud. Autores como Marx, Freud, Nietzsche e toda a filosofia da rebelião se tornaram malditos nos últimos 20, 30 anos, quando caímos em um estado de neoconservadorismo. A crise econômica, em especial como a que se passou nos Estados Unidos, vai desempenhar um papel considerável. Vamos voltar ao pensamento da rebelião.

Como as ideias de Freud retornarão? Com que aplicação?

Retornarão com as de Marx. Mas não sei como serão aplicadas. O que está voltando com muita força é a ideia de que temos um inconsciente, de que o desejo é capital. A psicanálise, bem pensada, permite compreender a moeurs, o inconsciente, o desejo e a sexualidade de uma forma inteligente. É uma teoria do desejo, afinal.

A senhora vê conceitos de Freud confirmados pelos progressos da ciência ou por novas tecnologias?

Não. Os progressos da ciência são os progressos da ciência. Nenhum dos conceitos de Freud é confirmado pela biologia. São dois domínios diferentes. A psicanálise é a medicina da alma. É especial.

Assim como a psiquiatria, em sua origem?

Hoje não há mais psiquiatria. E, logo, nos damos conta de que existem cada vez mais loucos. Porque são usados apenas medicamentos, ela não funciona mais. É útil, mas não resolve. É muito interessante o que se passou na psiquiatria. Biologizaram-na. Até então, era um equivalente da psicanálise. Era uma medicina da alma. Mas a deslocaram para a biologia. Curamos a loucura? Não. Acalmamos os loucos? Sim. Vivemos um recuo de 50 anos com a psiquiatria “biologizada”.

A obra de Freud é marcada por sua didática, sua clareza. E esse não me parece ser o caso dos pensadores da psicanálise contemporânea. De onde vem esse problema de comunicação?

Esse problema é enorme. Os psicanalistas escrevem em clichês. Mesmo que Lacan seja um autor difícil de ler, não se trata de um clichê. Além disso, mesmo que os seguidores de Lacan escrevam em secto, os freudianos também o fazem. Freud era um autor claro, o que influenciou todo o movimento psicanalítico. Hoje, quando leio psicanalistas freudianos norte-americanos ou ingleses fico impressionada com os clichês que estão presentes. É um símbolo muito grave de encerramento sectário. Quando os intelectuais se fecham em torno de si mesmos, eles falam a linguagem de uma tribo. No interior, a tribo se compreende. Eu sempre compreendi a tribo, mas não posso escrever como ela. Não sei fazer. Sou muito clara. Às vezes os antropólogos e sociólogos que queriam se divertir me perguntavam se eu, como psicanalista, não me sentia como o antropólogo que chega à Melanésia e que deve decifrar a linguagem da tribo. É uma alegoria exata. Eu decifro facilmente essa linguagem. Mas para você, que a lê, não deve ser fácil. A psicanálise é mais afetada pelos clichês que a filosofia, por exemplo.

O meu ponto é: se o problema da clareza da comunicação existe, o que torna a psicanálise tão popular em todo o mundo?

Ela é popular em todo o mundo, mas o é de uma forma inconveniente. Por exemplo, ela é popular em muitos países, infelizmente, pela forma da psicologia interpretativa dos chefes de Estado. Eu recuso todos os pedidos de entrevista sobre as fantasias dos chefes de Estado. Mas isso a TV adora, sob a forma da psicologia. Todos os antifreudianos, todos os que não gostam da psicanálise, dirão que ela está em todo lugar. Sim, os psicanalistas estão em todo lugar, mas sob que formas! É ridículo!

11/09/2009 - 19:16h Recordar e esquecer

…porque el olvido
es una de las formas de la memoria
su vago sótano
su otra cara secreta…


Jorge Luis Borges

… porque o esquecimento
é uma das formas da memória
seu vago porrão
sua outra cara secreta…


Jorge Luis Borges

21/01/2009 - 19:25h Os Doutores do Pessimismo

MARCELO COELHO – FOLHA SP


Será chamado de ingênuo aquele que quiser algo melhor do que o mundo em que vive


NÃO É PRECISO ser um grande gênio para constatar que vivemos num mundo bárbaro.
Que o ser humano é capaz das maiores atrocidades. Que a vida é feita de competição, inveja, egoísmo e crueldade.
Ninguém precisa ter vivido num campo de prisioneiros na Sibéria nem ter sido moleque de rua no Capão Redondo para saber disso. Mas virou moda entre muitos intelectuais e jornalistas anunciar uma espécie de “visão trágica” do mundo, como se se tratasse da mais surpreendente novidade.
Com certeza, há nisso uma reação saudável contra o excesso de otimismo. Durante o século 20, grande parte da esquerda não quis ver as barbaridades cometidas por Stálin e Mao porque, em última instância, “tudo iria dar certo”. Belas esperanças tornaram-se pretexto para atos de horror. Nada mais correto do que denunciar o horror.
O que me parece estranho é que, mais do que denunciar o horror, esses pensadores trágicos e jornalistas sombrios gostam de destruir as esperanças.
O reconhecimento do Mal, a crítica à violência da esquerda, a percepção de que ninguém é “bonzinho” e de que a realidade é uma coisa dura e feia vão se transformando em algo próximo do fascínio.
E, com diferentes níveis de elaboração e de cortesia pessoal, esses autores tendem a fazer do fascínio uma estratégia de choque.
Quanto mais chocarem o pensamento corrente (que considera ruim bombardear crianças e bom defender a Amazônia, por exemplo) mais ganharão em originalidade, leitura e cartas de protesto. Parece existir uma competição nas páginas dos jornais e na internet para ver quem conseguirá ser o mais “durão”, o mais “realista”, o mais desencantado.
Há diferenças notáveis de atitude e de opinião entre pessoas como Luiz Felipe Pondé, João Pereira Coutinho, Demétrio Magnolli ou Reinaldo Azevedo. Mas é um time e tanto, e minha experiência pessoal com a violência do ser humano, adquirida nos pátios de recreio do ginásio, é suficiente para não querer polemizar com alguns deles.
Não vou, portanto, individualizar as minhas críticas. Mas, de modo geral, os “durões” do mundo opinativo parecem correr um mesmo risco. A crítica às utopias do século 20 faz sentido, com certeza, mas termina funcionando para justificar muitos erros e abusos do presente -desde que sejam suficientemente “não-utópicos”. Será chamado de ingênuo ou nostálgico todo aquele que quiser algo melhor do que o mundo em que se vive.
Nem todos os “durões” de que falo abdicam desse “melhorismo”. Mas ai de quem tiver ideias um pouquinho mais à esquerda do que as deles -o que não é difícil.
Às vezes, a crítica ao stalinismo se compraz em tornar stalinista quem se afaste um milímetro das opiniões de quem a professa. Outras vezes, a crítica às velhas utopias tende a se transformar numa glorificação da realidade.
Curiosamente, então, aquilo que deveria ser ponto de partida se torna ponto de chegada. O mundo é horrível e a realidade é cruel. É um ingênuo quem quiser mudar essa situação. O horror e a crueldade fazem parte da paisagem. Melhor assim, quem sabe: nós, pelo menos, tiramos disso a satisfação de não sermos ingênuos.
Você está esperançoso com a vitória de Obama? Ouço um risinho: que otário. Mas fico feliz de nunca ter sido otário a respeito de Bush. Você se choca com as crianças mortas em Gaza? Ouço um risinho: os militares israelenses entendem mais do problema que você.
Você quer que se preservem as reservas indígenas da Amazônia? Mais um risinho: os militares brasileiros entendem mais do problema que você, que pensa ser bonzinho mas é tão malvado como todos nós.
Pois o ser humano é mau, desgraçado e infeliz, desde que foi expulso do Paraíso. Você não sabe disso?
O que sei é algumas pessoas foram expulsas do Paraíso para morar numa mansão em Beverly Hills, e outras para morar em Darfur. Todo o poder aos poderosos, toda realidade aos realistas, e todas as bombas para quem ficar no meio do caminho. Eis o resumo da atitude dos “durões”. Mas quem precisa de articulistas num mundo desses? Os militares dão conta do recado.

coelhofsp@uol.com.br

02/10/2008 - 18:04h Sobre o exercício da hipocrisia

por Luis Nassif

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Há alguns tempo publiquei um tratado sobre a hipocrisia na política. Mostrava que era impossível a qualquer governo atuar sem recorrer à hipocrisia. Mais ainda no Brasil, onde a precariedade institucional elevada.

Mas duas hipocrisias chocam pelo excesso.

A primeira, a maneira como estão fritando o Geraldo Alckmin agora, comparada ao jogo hipócrita das últimas eleições, em que se tentava vendê-lo como o grande gerente. Experimentei na pele a dificuldade que era dizer o óbvio: que Alckmin era um administrador sofrível. Agora, virou a própria Geny, nos mesmos veículos que o incensavam.

A segunda, o mea culpa dos intelectuais que foram na onda do neocon e do anti-lulismo exacerbado. O oportunismo de atender à demanda de anti-lulismo da mídia, recorrendo a um pensamento preconceituoso e radical, já foi vergonhoso. Voltar atrás agora, que o efeito manada vai em outra direção, é duplamente vergonhoso. Só estão faltando beijar o Lula na boca.

Nunca foi tão presente aquele artigo do Luiz Fernando Veríssimo, um clássico, em que dizia da péssima companhia em que ficaria, se entrasse na onda.

Outro dia, um comentarista – não me lembro se o João Vergílio – falou do refluxo desse neo-conservadorismo na USP. Passou a onda, ficou o cheiro. Intelectuais respeitáveis, da USP e da Unicamp, carregarão pelo resto da vida, na sua biografia, o fato de que, um dia, ficaram lado a lado com o pior esgoto que o jornalismo brasileiro produziu em muitas e muitas décadas.

Agora, esse jogo ficou reduzido a meia dúzia de pessoas que compõem o Clube da Auto-Ajuda: “eu te chamo de gênio, você me chama de gênio, e mandemos os escrúpulos e o ridículo às favas”.

Escrito por Luis Nassif do Blog de Nassif

20/07/2008 - 10:25h Antonio Candido, o mestre (I)

antoniocandidoestadao.jpg


Antonio Candido, 90 anos

Considerado o maior crítico literário do País, o autor de Formação da Literatura Brasileira ganha documentário sobre sua vida na semana do seu aniversário

Antonio Gonçalves Filho – O Estado de São Paulo

Apesar de ter aprendido a ler, ainda pequeno, em livros sobre mitos germânicos, o professor de literatura Antonio Candido, que completa 90 anos na quinta-feira, sempre manteve distância cautelosa da mitologia. Ele até imaginou, numa antiga entrevista, como iriam falar dele no futuro, quando se contasse os primórdios da sociologia na Universidade de São Paulo. Irônico, imitou o estilo de seus biógrafos – ou hagiógrafos – ao tentar descrevê-lo como “um professor que se caracterizava pela capacidade de especialização e pela profundidade”, lembrando que, quanto mais escuta o que se conta sobre sua época, tanto mais entende como se constrói a história. Ou o mito. Candido, mais conhecido como crítico literário, nunca se considerou um especialista e jamais se arrependeu de ter feito o curso de Ciências Sociais. Foi, segundo ele, a coluna vertebral de sua visão de mundo – literária, inclusive – e credita seu interesse na área ao amigo Florestan Fernandes, cujo filho, Florestan Fernandes Jr., acaba de dirigir um documentário sobre ele, que vai ao ar pela TV Brasil, na quinta, às 22 horas.

Como de costume, Antonio Candido é a figura central, mas só aparece em gravações antigas. Há muito não concede entrevistas e não abriu exceção nem para o filho do amigo Florestan, que teve de recorrer a entrevistas gravadas há alguns anos e convocar os amigos para falar dele. E são muitos. Quatro deles participaram na última segunda-feira, no teatro da USP, de um debate em que analisaram o papel fundamental que os livros Formação da Literatura Brasileira (1957) ou Os Parceiros do Rio Bonito (1964) tiveram na vida intelectual do País no último meio século: a professora de literatura Walnice Nogueira Galvão, o historiador Carlos Guilherme Motta, o sociólogo Francisco de Oliveira e o jurista Fábio Konder Comparato.

Candido apareceu nesse debate tanto como o professor que tirou do limbo autores antigos (Gregório de Matos, entre eles) quanto o crítico que contribuiu para criar a revista Clima e o Suplemento Literário do Estado, revelando novos escritores (Clarice Lispector, por exemplo), além de ser lembrado como o militante político que ajudou a fundar o Partido dos Trabalhadores (PT) em fevereiro de 1980. Antonio Candido teria gostado de ouvir episódios de uma vida marcada por fatos pitorescos e amizades com os maiores intelectuais que este país já teve, de Mário de Andrade a Sérgio Buarque de Holanda, passando por Paulo Emílio Salles Gomes, Décio de Almeida Prado, Lourival Gomes Machado e Ruy Coelho.

Entre os episódios engraçados, um que não foi contado durante o debate – seu exame vestibular para a Faculdade de Filosofia-, talvez seja o mais conhecido. Fazia parte da banca o sociólogo francês Roger Bastide, que lhe perguntou qual era a importância sociológica de uma ilha (”une île”), ou seja, qual a importância do isolamento, que segrega os grupos. Ele entendeu como “la importance sociologique du Nil”, tratando logo de discorrer sobre a importância do transbordamento do Rio Nilo para a formação de comunidades no Egito. Bastide deu corda e Candido poderia ter falado horas sobre as cheias do Nilo, não fosse interrompido pelo presidente da banca, o italiano Luigi Galvani. Se isso não provou a verve sociológica de Candido, ao menos ficou como registro de uma tremenda vocação literária. Bastide, que não ligava para a especificidade da ciência sociológica, gostou, mas sua maior influência na faculdade seria o professor Jean Maugüé, que recomendava a seus alunos a leitura de Shakespeare e Dostoievski, além do estudo dos escritos de Marx, ortodoxo comunista que era.

Por causa do curso de Mangüé, Candido viria a se tonar militante do Partido Socialista Brasileiro e participante do Grupo Radical de Ação Popular, que, em 1942, espalhou panfletos contra a ditadura do Estado Novo, condenando-a por manter um posicionamento neutro com os países do Eixo até Vargas ser obrigado a romper relações diplomáticas com o nazi-fascismo. Um ano depois, Candido e outros jovens formados em Direito organizaram uma Frente de Resistência e, em 1944, por iniciativa do amigo Paulo Emílio Salles Gomes, criador da Cinemateca Brasileira, essa frente manteve contato com um grupo de comunistas dissidentes que discordavam do apoio do PC a Vargas. Entre eles estava Caio Prado Júnior, lembrado pelo historiador Carlos Guilherme Motta, no debate da USP, como um dos representantes da oligarquia, da “gauche elegante”, que refletiu sobre as desigualdades do Brasil. Candido seria, segundo ele, o limite do pensamento radical da classe média que freqüentou a Faculdade de Filosofia, apesar de o crítico sempre ter se definido como “desprovido de cabeça política”. Tendo convicção e princípios, não sabia transformá-los em ação, disse numa entrevista, revelando ter um um fundo de ceticismo que “atrapalha os ímpetos da militância”.

Essa modéstia não impediu, diz o professor de sociologia Francisco de Oliveira, que Candido fornecesse os instrumentos sensoriais para interpretar o Brasil, destacando seu papel cultural nas transformações políticas do País, em especial com Os Parceiros do Rio Bonito, livro que evita olhar a realidade brasileira de maneira mecânica, buscando entender as relações de uma sociedade caipira em confronto com os valores da civilização urbana que a levam ao isolamento. Quem quiser estudar a história social do Brasil, terá necessariamente de passar por essa literatura. Antonio Candido é incontornável.

06/07/2008 - 15:11h Um Escritor na Periferia: a Argentina em Borges

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Beatriz Sarlo e Jorge Luis Borges

Antonio Gonçalves Filho – O Estado de São Paulo


Os críticos, de forma geral, quase sempre ignoraram que a questão da literatura argentina é central na obra de Jorge Luis Borges, mas não a ensaísta Beatriz Sarlo, uma das vozes mais lúcidas de seu país. Segundo a professora de Literatura, que lança no Brasil seu livro Jorge Luis Borges: Um Escritor na Periferia (Editora Iluminuras, tradução de Samuel Titan Jr., 160 págs., R$ 35), não existe escritor mais argentino que Borges. Cosmopolita e universal, sua obra, segundo Beatriz Sarlo, é perturbada pela tensão entre a mistura e a nostalgia por uma literatura européia que ele não poderia viver integralmente. Como ler Borges sem remetê-lo a Martín Fierro, a Sarmiento ou a Lugones?, pergunta Beatriz Sarlo, que concedeu ao Estado a entrevista abaixo e faz amanhã, às 19h30, uma palestra no encontro Fronteiras do Pensamento Copesul Braskem, em Porto Alegre.

Mais forte que a literatura argentina, Borges quase perdeu a nacionalidade. Não ocorreria a nenhum crítico dissociar Balzac e Baudelaire da literatura francesa. Borges, ao contrário, navegou, segundo Beatriz Sarlo, na corrente universalista da ”literatura ocidental”. Qualquer citação biográfica de Borges passa necessariamente pelo fascínio por Chesterton ou Kipling ou pela influência da literatura de Kafka, mas quase nunca por nomes como os de José Hernández, Evaristo Carriego, Macedonio Fernández ou Sarmiento, como se Borges tivesse ignorado sua dívida com a tradição literária argentina. O livro da professora argentina lembra que Borges não apenas escreveu ensaios sobre o Martín Fierro, obra maior da literatura argentina, como foi obcecado pelo poema de José Hernández. E, sobretudo, foi um autor que construiu sua originalidade por via da citação, da cópia.

Borges considerava infundada a opinião de que os escritores argentinos estavam desconectados do passado, ou seja, que houvesse uma ruptura entre eles e a Europa, porque, justamente por ser um país novo, haveria um grande sentido de tempo na Argentina. Por que a crítica insiste em tratar Borges como um escritor que nada deve à tradição literária argentina?

Não é essa a posição da crítica nas últimas décadas. Ricardo Piglia, anteriormente, sublinhou a conexão borgiana com a tradição nacional, num ensaio publicado na revista Punto de Vista. Por essa época também escrevi um artigo cujo título era Borges no Sul, um Episódio do Formalismo Criollo, acentuando a localização argentina de alguns temas de teoria literária suscitados por textos de Borges e publicados nos primeiros anos da revista que dirigia com Victoria Ocampo. Mas, mesmo antes, a professora María Teresa Gramuglio tratou da questão na leitura do livro de Borges sobre Evaristo Carriego, poeta menor que o primeiro usa quase como pretexto para expor uma teoria do bairro de Palermo. De modo que o Borges ocupado com labirintos e espelhos, ou seja, o Borges da primeira leitura crítica e das leituras européias, desde o fim dos anos 1970, adquire um novo rosto, como leitor e reescritor de alguns textos fundamentais da tradição argentina.

A senhora define Borges como escritor da periferia, um cosmopolita à margem, mas, nos capítulos finais de seu livro, apresenta o lado político-filosófico do escritor em termos universais. Há algum projeto de desenvolver esse aspecto particular num próximo livro sobre ele?

Creio, com efeito, que meu propósito de reinscrever criticamente Borges na literatura argentina, como matriz formal e ideológica dessa mesma literatura, como o escritor que inventa ou descobre a centralidade do marginal, só quase no final do livro que está sendo lançado no Brasil considera as figurações borgianas com respeito à ordem, em especial no capítulo sobre O Informe de Brodie. Nesse momento, já acertadas as contas com o Borges fundador das margens ”criollas” de Buenos Aires, parece-me que poderia voltar a contos como O Imortal para ver de que modo outras imagens da cidade, mais abstratas e universais, podem ser representadas na literatura. Precisamente é esse o conto que estou relendo neste momento, ao lado de Abenjacán, el Bojari Muerto en Su Laberinto.

Um dos temas mais interessantes de seu livro é a construção da originalidade de Borges, paradoxalmente por meio da cópia, da reescrita de textos alheios. Essa seria uma insinuação de que a veracidade literária representaria uma ficção para Borges, considerando seu pouco apreço pela literatura realista?

A idéia de veracidade é, em si mesma, uma idéia a que estamos acostumados a encontrar nas poéticas realistas, vale dizer, nos textos que se propõem uma representação cujas origens seriam exteriores à literatura: ou seja, uma representação heterônoma. Borges, ao contrário, está profundamente convencido da autonomia do literário, de sua independência a respeito dos referentes sociais diretos. O literário, em Borges, entra em relação com o social por meio da própria literatura, numa cadeia que vai de texto a texto. A dimensão social da literatura não provém de sua relação direta com uma exterioridade social, mas de uma trama social de discursos, geralmente literários, mas não apenas literários. Ou seja, para ele, a relação é sempre entre discursos, ficções. A verdade dessas ficções não responde nem a uma lógica da verossimilhança realista nem à lógica da acumulação de referências ”verdadeiras”, mas a uma lógica mais abstrata, por um lado de grandes categorias e, por outro lado, de argumentos cuja estrutura seja perfeita e fechada. Nesse sentido, a literatura fantástica de Borges é sempre racionalista, diferentemente, por exemplo, da literatura de Cortázar.

A representação de Buenos Aires por Borges, a partir de sua invenção da periferia, é um aspecto pouco analisado pela crítica internacional. Por que a descrição de Borges tende a retratar Buenos Aires com ares do passado, uma cidade impermeável à modernidade, ao contrário da Buenos Aires de Arlt?Borges pretendia fazer uma nova leitura da tradição ou simplesmente tinha nostalgia do século 19?

Borges lembra da cidade de sua infância e, quando volta a Buenos Aires no começo dos anos 1920, frente a uma cidade real em processo de modernização, coloca em seu lugar uma cidade lembrada e imaginária sem vestígios dessa modernidade. Sabe, contudo, que essa cidade está desaparecendo e que, portanto, há que buscá-la nas figuras do bairro e da periferia urbana. Como muitos modernos, Borges não tem vocação futurista, diferentemente de Roberto Arlt. A tecnologia, que para Arlt define a época, não desperta o menor interesse em Borges. Ele, ao contrário de Bioy Casares em A Invenção de Morel, jamais escreveu algo que pudesse evocar as tramas da ficção científica. São sensibilidades diferentes. É mais provável que um escritor da elite tivesse uma perspectiva nostálgica; e que um escritor filho de imigrantes como Arlt seguramente pudesse se ligar melhor ao radicalmente novo. É admissível essa hipótese sociológica, mas, de todas as maneiras, não explicaria o gosto de Borges por ficções cujo motor narrativo fossem as invenções técnicas.

08/06/2008 - 14:43h O futuro dos jornais

FOLHA SP

http://www.mediabistro.com/fishbowlLA/original/newspapers.jpg

Blog de política mais popular dos EUA, Huffington Post radicaliza a noção de interatividade, mas ainda depende das reportagens dos grandes diários; para sua fundadora, falar da morte dos jornais é “ridículo”

ERIC ALTERMAN

O jornal norte-americano está na praça há mais ou menos 300 anos. A folha veemente de Benjamin Harris “Publick Occurrences, Both Foreign and Domestick” [Ocorrências Públicas Estrangeiras e Domésticas], só conseguiu tirar um número, em 1690, antes de ser fechada pelas autoridades de Massachusetts.
Harris sugerira uma linha dura e politicamente incorreta quanto à remoção dos indígenas e chocara as suscetibilidades locais ao informar que o rei da França tomava liberdades com a mulher do príncipe.
Mas foi apenas em 1721, quando o impressor James Franklin lançou o “New England Courant”, que as colônias britânicas na América do Norte viram surgir algo semelhante aos jornais de hoje.
Irmão mais velho de Benjamin, Franklin se recusava a aderir às praticas costumeiras de direitos autorais e atacava os poderes estabelecidos na Nova Inglaterra, logrando assim tanto independência editorial como sucesso comercial.
Preenchia seu jornal com cruzadas (contra tudo, dos piratas ao poder dos pastores puritanos Cotton e Increase Mather), ensaios literários, vinhetas e ruminações filosóficas.
Três séculos depois do “Courant”, já não é preciso ter uma imaginação distópica para cogitar quem terá a honra ambígua de publicar o último jornal de verdade nos EUA.
Pouca gente acredita que os jornais, na forma impressa de hoje, tenham chance de sobreviver. Eles estão perdendo anunciantes, leitores, valor de mercado e, em alguns casos, o próprio senso de missão, num ritmo que teria sido difícil imaginar meros quatro anos atrás.
Num discurso recente em Londres, Bill Keller, editor-executivo do “New York Times”, declarou: “Onde quer que editores e publishers se encontrem, a atmosfera é funérea. Os editores perguntam “como você está?” naquele tom que se usa com um amigo que acaba de sair de uma desintoxicação ou um divórcio”.
Seu discurso foi publicado no site de seu anfitrião, o “Guardian”, sob a manchete “Vivo ainda”. Ainda. Mas as tendências de circulação e publicidade, a ascensão da web, que faz o jornal diário parecer lento e lerdo, e o advento da Craigslist, que está extinguindo os classificados, criaram uma sensação palpável de fim iminente.
Nos últimos três anos, os jornais americanos independentes perderam 42% de seu valor de mercado, segundo o empresário de mídia Alan Mutter.
Poucas companhias foram tão punidas em Wall Street quanto aquelas que ousaram investir no ramo jornalístico. A McClatchy Company, a única a dar um lance pela cadeia Knight Ridder quando ela foi a leilão em 2005, perdeu 80% de seu valor acionário desde que concluiu a aquisição de US$ 6,5 bilhões. As ações da Lee Enterprises caíram 75% desde que ela adquiriu a cadeia Pulitzer, naquele mesmo ano.
As companhias jornalísticas mais prezadas começaram, de repente, a parecer um fardo empresarial. Em vez de competir numa era de transformação, as famílias que controlavam o “Los Angeles Times” e o “Wall Street Journal” venderam a maior parte de suas ações.
A New York Times Company viu suas ações caírem 54% desde 2004, em especial no último ano; em fevereiro, o Deutsche Bank recomendou que seus clientes vendessem ações do “New Tork Times”. A Washington Post Company só evitou o mesmo destino ao se apresentar como “empresa de educação e comunicação”; seu braço didático, a Kaplan, agora responde por pelo menos metade do faturamento total.

(mais…)

07/06/2008 - 14:48h Bravas Guerreiras

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do artigo anterior sobre Rosa Montero

“Simone de Beauvoir era altiva e se acreditava superior a quase todo mundo. Não a Sartre, claro, o qual venerava provavelmente muito além dos merecimentos dele. Quando os dois prestaram o exame final de filosofia, ela com 21 anos, ele com 24, Sartre tirou o primeiro lugar e Simone o segundo, mas os membros da banca estavam convencidos de que ”a verdadeira filósofa era ela”. Sartre sempre foi muito mais criativo e Simone, mais rigorosa. Provavelmente, ela deveria ter-se dedicado mais ao ensaio que à narrativa (seus romances são muito frouxos), mas, numa de suas poucas fraquezas tradicionalmente femininas, sempre considerou que a grandeza do pensamento correspondia a Sartre, reservando para si mesma um lugar subsidiário (…) Em sua entrega, em sua aceitação do papel substancial do homem eleito (o homem como o sol, a mulher, um planeta), Simone cumpriu sua herança cultural, as antigas normas do seu sexo.

http://onechick.com/smog/images/frida_kahlo.jpgFrida Kahlo pintava quadros muito pequenos (enquanto seu marido, Diego Rivera, fazia murais enormes) e sempre se mostrou extremamente humilde em relação ao seu trabalho. Durante muitos anos não mostrou suas obras, e só se tornou uma pintora conhecida graças ao empurrão de Rivera, que praticamente a obrigou a expor em Nova York em 1938.
Por essa época ela conheceu André Breton, o principal teórico do surrealismo, que ficou fascinado por aquela pintora que era surrealista “sem saber”. Em 1930 expôs em Paris e foi considerada mais ou menos incluída nesse movimento estético. Anos mais tarde, sobre a febre stalinista, Frida repudiaria o surrealismo por ser este “uma decadente manifestação da arte burguesa”. Mas para chegarmos a isso, ao fanatismo final pró-soviético, devemos contar a parte mais amarga, mais terrível desta história. O corpo de Frida foi-se desfazendo: o pé ulcerava, a coluna entortava, ela ansiava ter filhos e não podia.

http://www.afjv.com/press0502/050208_agatha_christie.jpgAgatha Christie passou a vida ocultando as coisas, dissimulando defeitos, alterando virtudes, construindo de sim mesma uma comovedora personagem imaginária. De fato, ela foi uma grande farsante, uma sutilíssima impostora. Fingia, por exemplo, um aspecto de completo e sereno domínio sobre a existência, e até de frieza e desapego, quando na verdade era uma mulher cheia de fogo e de terrores. Aparentava não dar nenhuma importância às sua literatura e considerá-la um divertimento modestíssimo, mas era uma escritora de vocação intensa que depois defendia ferozmente suas obras. Falsificava seu sorriso sem dentes e, a partir dos 63 anos, tentou evitar que a fotografassem: inquietava-se ao ver-se como era, sua imagem mutável e progressivamente envelhecida, e não a pulcra e estática imagem de grande dama que ela cultivava em seus retratos publicitários. E todo mundo a considerava uma senhora muito decente e prestativa.”

07/06/2008 - 14:37h As mulheres desafiadoras das normas

Frida Kahlo e Simone de Beauvoir
http://www.ovationtv.com/Images/people/frida_kahlo_372x280.jpgbeauvoir_cafedesdeuxmagotsp6.jpg


Rosa Montero traça o perfil de senhoras que decidiram viver com liberdade plena

Ubiratan Brasil – O Estado de São Paulo

Margaret Mead
http://www.colby.edu/personal/e/ebeasley/mead2.jpg Mulheres que tiveram a coragem de lutar contra as convenções sempre fascinaram a escritora e jornalista espanhola Rosa Montero. Autora de opiniões francas sobre os horrores da sociedade, ela se voltou, em Histórias de Mulheres (Agir, tradução de Joana Angélica d’Ávila Melo, 224 páginas, R$ 30), para a trajetória de um grupo de 18 mulheres que, por desejarem viver sob liberdade plena, ajudaram a construir a história da humanidade.

Assim, encontram-se, lado a lado, Frida Kahlo, Simone de Beauvoir, Agatha Christie, Mary Wollstonecraft, Zenobia Camprubí, Lady Ottoline Morrel, Alma Mahler, Maria Lajárraga, Laura Riding, George Sand, Isabelle Eberhardt, Aurora e Hildegart Rodríguez, Margaret Mead, Camille Claudel e as irmãs Charlotte, Emily e Anne Brontë. Mulheres capazes tanto de gestos heróicos como abomináveis, o que expõe suas ambigüidades e revela toda sua complexidade humana.”O que nos reafirma em nossa humanidade cabal e completa: somos capazes, como qualquer pessoa, de todas as excelências e de todos os abismos”, comenta Rosa, que concedeu, por e-mail, a seguinte entrevista.

Qual característica comum a todas essas mulheres?

São todas muito distintas, por isso, tentei oferecer um panorama de mulheres as mais diferentes possíveis. Algumas são boas personas, outras malíssimas; algumas triunfaram na vida, outras foram um completo fracasso. Todas, porém, têm histórias fascinantes. Foi o que despertou minha atenção: suas peripécias vitais são incríveis, interessantíssimas, pouco habituais.

Como essas mulheres te influenciaram?

Não sei como dizer. Todo trabalho que realizamos nos modifica. Convivi por muito tempo com essas mulheres durante as pesquisas, mas não diria que me influenciaram. Adianto que muitas delas são aborrecidas, não gostaria de ser como elas. O que me interessou foi, depois de estudar suas vidas, descobrir que em todas as épocas existiram muitas mulheres heterodoxas fazendo coisas incríveis, apesar das limitações do sexismo.

Por que você sempre se posicionou contra a classificação de literatura feminina?

A literatura feminina não existe. Um autor escreve influenciado por sua língua, leituras, sonhos, medos, sua classe social, experiências, amores, desamores, seu estado de saúde, e também de seu gênero, claro, seja homem ou mulher. Mas isso, ser homem ou mulher, nada mais é que uma variante entre outras. É impossível objetivar uma literatura apenas pelo sexo do escritor. Também é razoável pensar que meus livros mais parecem escritos por um homem da minha idade, espanhol e proveniente de uma metrópole que por uma autora negra de 90 anos, sul-africana, que viveu sob o apartheid. Porque o que me separa de uma sul-africana é muito mais do que nos une.

Histórias de Mulheres foi escrito em 1995. Como a História não se escreve de forma linear, como foi a evolução nesses 13 anos? O momento agora é bom para a mulher?

Sim, tenho a nítida sensação de que, desde a publicação do livro, a situação das mulheres melhorou em todo o mundo, salvo, é claro, nas bolsas do integrismo retrógrado, fundamentalmente islâmico mas também, em alguns casos, cristão. Guardo um exemplar do jornal El País, de 27 de novembro de 2005. As páginas 2 e 3 estão integralmente dedicadas a Michelle Bachelet, então candidata à presidência do Chile, cargo que hoje ocupa. Toda a página 4 é uma entrevista com Ellen Johnson-Sirleaf, presidenta da Libéria, com um enorme retrato de seu rosto. Adiante, na 5, outra grande entrevista com imagem da estupenda Ayaan Iris Ali, ex-deputada holandesa de origem somali. Na página 6, um artigo sobre as eleições na Chechênia, ilustrado casualmente com o retrato de duas mulheres passando em frente a um muro repleto de cartazes. E, em frente, na 7, uma entrevista de página inteira, com sua foto correspondente, de Fayza Aboulnaga, ministra egípcia de Cooperação Internacional. Não se tratava de uma edição especial feminina, como as que fazem no Dia Internacional da Mulher. Era a edição qualquer, de um dia qualquer, cujas sete primeiras páginas da seção internacional estavam ocupadas quase exclusivamente por essas jovens mulheres, responsáveis pelo governo, por ministérios, com funções parlamentares. Uma prova evidente da vertiginosa velocidade das mudanças históricas.

Por que você reivindica a palavra “feminista”? No que ela difere da palavra “machista”?

Reivindico porque é uma charmosa palavra histórica, uma bandeira sob a qual lutaram muitas mulheres e também muitos homens, como o filósofo Condorcet. O que acontece é que parece ser uma palavra semanticamente equivocada porque parece significar o contrário de machismo, ou seja, que reclama a supremacia da mulher sobre o homem, quando não é assim. Em sua quase absoluta maioria, o feminismo reclama pelo fim do sexismo e que nenhum dos dois sexos seja superior ao outro. Assim, por claridade expressiva, prefiro definir-me como anti-sexista.

Você acredita que o homem teme a evolução da mulher? Por quê?

Não todos, mas são muitos. A revolução anti-sexista ou feminista vem se caracterizando como um movimento social profundo e muito rápido, historicamente falando. Em apenas um século, mudaram-se comportamentos básicos que duravam milênios. E alguns homens se sentem perdidos diante dessas mudanças. Acreditam ter perdido seu lugar no mundo. E os piores, os mais miseráveis, os mais cruéis e malvados desses homens convertem essa sensação de desconcerto em violência. Boa parte da violência doméstica se deve a isso, me parece. Assim, os países com maior porcentagem de mortes de mulheres pelos homens são os nórdicos, nos quais a sociedade avançou mais na destruição do sexismo.

Para você, que sentido tem hoje a literatura, que sofre especialmente com a pressão do mercado?

Os romances são os sonhos da humanidade. Sem romances, todos seríamos muito mais loucos. E a literatura em geral, assim como a arte, são as maiores armas que o ser humano dispõe para lutar contra o horror e o caos. Há muita esperança no ato de ler e escrever, esperança na possibilidade de ser entendido e de compreender o outro, esperança na capacidade que temos para comunicarmos, para transmitirmos pensamentos, para compartilhar sentimentos, para criar beleza. A literatura permite que sejamos melhores do que somos. E o mercado não passa de um pequeno acidente nesse percurso.

06/06/2008 - 17:02h Brasil e Argentina juntos pela arte

Sucesso de feira em Buenos Aires, com destaque dos brasileiros, ilustra potencial do mercado vizinho

Maurício Moraes, Buenos Aires – O Estado de São Paulo


É um homem que come. Foi assim que Tarsila do Amaral definiu O Abaporu, sua obra-prima e ponto de partida do pensamento moderno brasileiro. Comer a cultura estrangeira, degluti-la e criar o equivalente nacional foi a utopia modernista, com ecos que ressoam até hoje. Comprada em 1995 pelo colecionador argentino Eduardo Costantini, a tela é um dos destaques do Malba – Museu de Arte Latino Americano de Buenos Aires e o grande chamariz da mostra Tarsila Viajera, a mais badalada desta temporada portenha. Nesta semana, o Brasil ainda foi destaque na ArteBA, por ter a maior representação na principal feira de arte latino-americana, com galeristas brasileiros ávidos por arte argentina. Se nos tempos de Tarsila o cardápio cultural era eminentemente europeu, o menu atual cada vez mais inclui os vizinhos, e vice-versa. A diferença de idioma já não importa. A exemplo do que fez o Brasil com o espanhol, o ensino de português está prestes a ser adotado em todas as escolas da Argentina.

”O Brasil, seguramente, é o país mais bem representado no Malba. A coleção também é identificada com o País”, diz o curador-chefe do museu, Marcelo Pacheco. Cândido Portinari, Lygia Clark, Di Cavalcanti e Hélio Oiticica e outros grandes artistas brasileiros têm obras nas galerias do museu, fundado e presidido por Eduardo F. Constantini, que em 1995 arrematou O Abaporu por U$S 1,25 milhão. A obra que inspirou o movimento antropofágico, de Oswald e Mário de Andrade e companhia, fez Tarsila tornar-se conhecida no país vizinho. Tanto que a mostra Tarsila Viajera, que esteve na Pinacoteca do Estado de São Paulo sob o título Tarsila Viajante, atraiu mais de 80 mil visitantes em oito semanas. O museu já recebeu retrospectivas de Alfredo Volpi e Lasar Segall e mandou para o Brasil um mostra do argentino Xul Solar e co-produziu uma outra de Leon Ferrari com a Pinacoteca, além de manter parcerias com várias instituições brasileiras.

”O aprofundamento do intercâmbio é uma retomada de uma forte relação que existiu nos anos 20, 30 e 40”, diz Pacheco, explicando o hiato posterior como resultado de questões políticas do pós-guerra. Segundo o curador, argentinos e brasileiros se encontravam na Europa, onde estudavam, e na volta aos seus países mantinham contacto. A própria Tarsila teria planejado uma malograda exposição em Buenos Aires, em 1931. Já Cândido Portinari fez sucesso na cidade com uma exposição em 1947. Mas esses intercâmbios, ressalta Pacheco, se deram muito mais pelas relações pessoais entre os artistas que por políticas de fomento governamentais.

Pelo menos na ArteBA deste ano, que ocorreu entre os dias 29 de maio e 2 de junho, o fomento da Embaixada do Brasil foi preponderante para o destaque do País na feira. O incentivo diplomático fez crescer de quatro, em 2005, para nove, em 2008, o número de galerias nacionais, num total de 31 estrangeiras. A feira é a segunda mais visitada do mundo, com mais de 110 mil pessoas, perdendo apenas para a espanhola Arco. A SP Arte recebeu cerca de 15 mil visitantes em sua última edição, com apenas sete galerias internacionais. Os números ilustram o grande potencial do mercado vizinho, que ainda se recupera dos recentes abalos em sua economia.

Além do olhar argentino, os marchands e o governo brasileiro se interessam pelo olhar dos curadores de importantes instituições como a Tate, de Londres, o Lacma (Los Angeles Country Museum of Art), da Califórnia, e o MoMA (Museum of Modern Art), de Nova York, presentes no evento, a maior vitrine de arte latino-americana. O Brasil já é destaque nas coleções destes museus e a porta de entrada para os acervos pode estar em Buenos Aires.

O marchand Oscar Cruz, da galeria paulistana Baró Cruz, participa da feira há três anos. ”É uma ótima oportunidade não apenas para mostrar arte brasileira, mas sobretudo para prospectar artistas argentinos”, conta. Segundo Cruz, o mercado vizinho é muito fechado e por razões diversas, inclusive pelo contexto econômico, as galerias argentinas não participam das grandes feiras internacionais. Daí a pouca proeminência da Argentina no circuito internacional. ”Nós acabamos fazendo esse papel, levando-os para fora”, explica Cruz. Sua galeria representa dez artistas do país vizinho e é a segunda que mais comercializa argentinos no exterior. Ele vê uma perspectiva de bons negócios no país de Jorge Luis Borges, destacando a alta qualidade da produção e os preços baixos se comparados aos do Brasil.

Um destes artistas é Hérman Salamaco. ”Minha primeira exposição individual foi em São Paulo, na Galeria Thomas Cohn, de modo que o Brasil me abriu as portas”, diz. Muitos artistas locais também adentraram o mercado brasileiro pela Bienal do Mercosul, de Porto Alegre, que desde 1997 serve como grande ocasião de intercâmbio dos circuitos regionais, também em termos de linguagem. Há várias diferenças na postura adotada pelos artistas dos dois países. Os argentinos são em geral mais figurativos, narrativos e dramáticos que os brasileiros, quase sempre mais conceituais.

Por muito tempo, tanto Brasil quanto Argentina tiveram os olhos voltados para o Norte, à Europa e aos Estados Unidos. Embora a relação entre os dois principais sócios do Mercosul esteja longe de ser ideal, é cada vez mais intensa no setor cultural. ”Inclusive porque temos problemas semelhantes”, diz Marcelo Araújo, diretor da Pinacoteca do Estado de São Paulo.

Antes de dar esta entrevista, Araújo esteve no Museo de Bellas Artes de Buenos Aires, onde assinou um protocolo de intenções com o museu portenho. A iniciativa pioneira visa ao intercâmbio entre profissionais das duas instituições, além de ser um laboratório para projetos conjuntos no futuro. Araújo salientou que as instituições argentinas têm prioridade nas relações estrangeiras da Pinacoteca. Segundo ele, houve uma grande aproximação de museus latino-americanos nos anos 70, por questões de ordem ideológica, nos tempos da Cepal (Comissão Econômica para América Latina e Caribe). ”Hoje o contexto é de necessidade”, diz, afirmando que muito dessa relação se dá mais pela boa vontade das instituições que por mecanismos governamentais que facilitem essa articulação.

RELAÇÃO INEVITÁVEL

Uma boa forma de medir o intercâmbio cultural entre os dois países é o crescimento de cursos de português na Argentina. Recentemente, a Câmara dos Deputados aprovou uma lei que determina a oferta obrigatória da língua em todas as escolas de ensino médio do país. O projeto aguarda votação no Senado, o que pode acontecer nos próximos meses. Neste ínterim, o Congresso abriu o primeiro curso de português para os assessores parlamentares. Buenos Aires, por sua vez, se antecipou e hoje a língua do Brasil é o principal idioma estrangeiro ensinado em 11 escolas da cidade.

”A lei é uma decisão política muito séria para a integração entre os países”, diz Camilla do Vale, diretora da Fundação Centro de Estudos Brasileiros, Funceb. Maior responsável pela difusão do português na Argentina, a instituição ligada à embaixada possui 1.100 alunos em cursos regulares e dispõe de concorridos cursos de capacitação para professores. Uma oficina na distante província do Chaco, por exemplo, reuniu 70 interessados e ”a demanda é muito grande”, segundo a diretora.

Localizado numa rua estreita do centro de Buenos Aires, ladeado por edifícios de arquitetura clássica, o centro possui programação de cinema e literatura e uma biblioteca, além de convênios com várias outras instituições como a Cátedra Livre de Estudos Brasileiros, criada em novembro do ano passado pela Universidade de Buenos Aires. O Brasil também fez sucesso na Feira do Livro, realizada em maio; o estande do País vendeu mais de 3 mil obras em português. O embaixador do Brasil na Argentina, Mauro Vieira, classifica como ”estratégico” o fomento para intercâmbio entre brasileiros e argentinos. Fora do circuito oficial, cartazes nas ruas de Buenos Aires anunciavam shows de Lenine e Maria Bethânia, na mesma semana. Concertos brasileiros são freqüentes, com casa sempre lotada. A fronteira está aberta, é só passar.

15/05/2008 - 17:42h O ESCRITOR E SEUS FANTASMAS, de Ernesto Sabato

por Claudinei Vieira

Blog Desconcertos


Ernesto Sabato é o autor de “Sobre Heróis e Tumbas”, uma das três maiores obras da literatura latino-americana de todos os tempos (as outras duas são, obviamente, “Cem Anos de Solidão”, de Gabriel Garcia Marquez e “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa), mesmo considerando que seu primeiro romance, “O Túnel”, também reeditado pela Companhia das Letras, já era um clássico. Junto com “O Túnel”, a editora publicou quase ao mesmo tempo o livro de memórias de Sabato, “Antes do Fim”, o amargo e poético testemunho deste velho senhor nascido em 1911, agora quase cego e que tem se dedicado à pintura por conta dos seus problemas de visão, pois uma tela exige menos dos seus olhos. Ainda assim, continua com uma lucidez impressionante e uma mentalidade afiada e instigante. (demorou um pouco para reeditar também seu terceiro romance, “Abadon, O Exterminador”, mas aconteceu)

“O Escritor e seus Fantasmas” são as reflexões de Sabato sobre o ofício de escrever. Publicado pela primeira vez na Argentina em 1963, fez parte de uma intensa discussão sobre a literatura e seus compromissos onde se misturavam, e se confundiam, propósitos políticos e ideológicos, além dos propriamente artísticos. A grande questão talvez fosse saber onde ficavam os limites, se é que existiam, entre arte e realização pessoal em contraponto a uma literatura desejosa de radicais transformações sociais. Hoje em dia, com a derrocada do mais poderoso expoente e sustentador da nefasta política de uma cultura proletária em oposição a uma cultura burguesa e decadente, esta discussão parece ter sido superada pela própria realidade.

Aparentemente, então, boa parte deste livro pode ser considerada como distante, antiga e ultrapassada, uma curiosidade quanto muito. No entanto, mesmo se Sabato se limitasse a um ataque a literatos marxistas, dos quais a História, com H maiúsculo, já tenha se encarregado de jogar na lata do lixo, só por isso já valeria a pena conhecer seu pensamento.

“O Escritor e seus Fantasmas” vai muito além da descrição de uma rixa entre literatos. Em primeiro lugar, porque Sabato não se coloca como um pensador profissional de literatura teórica. Ele não é um crítico ou um filósofo literário, muito menos um pesquisador. Ele é, acima e antes de tudo, um escritor.

É através de sua árdua experiência prática e cotidiana, que ele vai tecendo suas considerações. Afinal de contas, para que um escritor escreve? No prefácio, Sabato é bem claro: “Este livro se constitui de variações em torno de um único tema, o que tem me obcecado desde que comecei a escrever: por que, como e para que se escrevem ficções?”

Não há capítulos ou progressão geral para um pensamento único. São considerações que podem tomar várias páginas como quando discute o pretenso desaparecimento do romance como gênero literário ou quando combate o “subjetivismo” e o “cientificismo” na literatura. Ou, então, apenas um parágrafo, uma idéia, uma citação de algum outro autor.

Deste livro, algo que se impõe à primeira vista é o profundo comprometimento do artista com sua arte. Sabe-se como Sabato pode ser sério em suas convicções: sua primeira formação foi como físico. Deixou a Física, mesmo tendo fortes possibilidades de ganhar o Prêmio Nobel por suas pesquisas, porque ela não lhe completava como ser humano e nem respondia a suas angustiadas questões morais e pessoais. A literatura, sim, a arte em geral podem proporcionar respostas.

Esse engajamento na arte deve ser absoluto. Em um trecho intitulado “A condição mais preciosa do criador”, ele diz que essa condição é “O fanatismo. É preciso ter uma obsessão fanática, nada deve antepor-se a sua criação, deve sacrificar qualquer coisa a ela. Sem esse fanatismo nada de importante pode ser feito”. Mais para frente, diz: “O homem de hoje vive em alta tensão, diante do perigo da aniquilação e da morte, da tortura e da solidão. É um homem de situações extremas, chegou aos limites últimos de sua existência ou está diante deles. A literatura que o descreve e o interroga só pode ser, portanto, uma literatura de situações excepcionais”.

L'image “http://desconcertos.files.wordpress.com/2008/05/sabato.jpg?w=150&h=211” ne peut être affichée car elle contient des erreurs.Para Sabato, a arte não pode ser prostituída: “Se recebemos dinheiro por nossa obra, tudo bem. Mas escrever para ganhar dinheiro é uma abominação. Essa abominação se paga com o abominável produto que assim se engendra”. Então, como viver? “De qualquer modo, desde que a criação não seja manuseada, abastardada, barateada: montando uma oficina mecânica, trabalhando de empregado em um banco, vendendo quinquilharias na rua, assaltando um banco”.

Partindo de Sabato, estas afirmações adquirem uma conotação que saem do meramente retórico. Afinal, ele é uma pessoa que teve a coragem moral de assumir suas convicções e de pagar por elas.

Fanatismo artístico, no entanto, não significa cegueira cultural. Ao lado de todo esse seu radicalismo artístico, há uma enorme dose de sobriedade e lucidez. Ao discutir a visão marxista de arte, por exemplo, Sabato critica, ataca e denuncia a falsidade dos quadros dogmáticos e esquemáticos dos marxistas de carreira tanto quanto a ignorância e preconceito dos que acreditam que o marxismo, e o próprio Karl Marx, se reduzem a um economicismo simplório.

Sua ironia fina, elegante e penetrante e a escrita direta e simples, marcas absolutas de toda sua literatura, estão presentes aqui em alto grau. Em um trecho intitulado “Sobre os perigos do estruturalismo”, ele comenta: “Quase tudo é estrutura. Como afirmou solenemente um professor: com a única exceção do que é amorfo, tudo apresenta uma estrutura. O que é mais ou menos como dizer que, com a única exceção dos animais invertebrados, todos são vertebrados”, isto é, uma “pomposa imbecilidade”.

A tentação de encher este texto com citações é quase incontrolável; quase a cada página, é possível encontrar uma pérola. O que não significa que não haja também momentos baixos ou afirmações óbvias e simplistas. Mas, elas não atrapalham nem o desmerecem. Afinal, “O Escritor e seus Fantasmas” são as palavras de quem sabe o que está fazendo e fez durante a vida inteira.

publicado agora também pelo blog de amigos e amigos de literatura, o Rosebud.

14/05/2008 - 08:54h ‘Religião é superstição infantil’

Em carta a ser leiloada, Einstein diz que Deus é fruto da fraqueza humana

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TRECHOS DA CARTA

“A palavra Deus, para mim, nada mais é do que expressão e produto das fraquezas humanas.” “A Bíblia é uma coleção de lendas bem intencionadas, mas, ainda assim, primitivas e bastante infantis. Nenhuma interpretação, não importa quão sutil, muda isso (para mim).” “Para mim, a religião judaica, como todas as outras, é uma encarnação das mais infantis superstições.” “E o povo judeu, ao qual eu pertenço com orgulho e com cuja mentalidade eu tenho profundas afinidades, não apresenta nenhuma qualidade diferente, para mim, em relação a todos os outros povos. Até onde vai a minha experiência, (os judeus) não são melhores do que outros grupos humanos, embora sejam poupados dos piores tipos de câncer pela falta de poder. Fora isso, não consigo ver nada de ‘escolhido’ sobre eles.”

LONDRES – O GLOBO

Uma carta escrita por Albert Einstein em 1954 e só agora divulgada ao público parece pôr fim ao intenso debate sobre o papel da religião na vida de um dos maiores cientistas da Humanidade.
No texto manuscrito em alemão, que será leiloado amanhã em Londres, Einstein diz que “a crença em Deus é um produto das fraquezas humanas”, uma superstição, e “que a Bíblia não passa de uma coleção de lendas primitivas e infantis, ainda que bem intencionadas”.

Ao longo de sua vida, o cientista fez algumas referências a Deus, interpretadas por religiosos como um sinal claro de sua crença num ser superior. Ateus, em contrapartida, argumentavam que essa interpretação seria leviana e que o “Deus” citado por Einstein seria uma referência às leis que regem o Universo.
A carta escrita por Einstein um ano antes de sua morte era endereçada ao filósofo alemão Eric Gutkind.

Passou os últimos 50 anos em mãos de um colecionador particular e, por isso, não era conhecida. O leilão do texto será na Bloomsbury Auctions e as expectativas é de que seja vendido por algo entre US$ 12 mil e US$ 16 mil.
A carta não deixa muito espaço para dúvidas sobre a posição de Einstein.

Nela, o criador da Teoria da Relatividade escreve: “A palavra Deus, para mim, nada mais é do que expressão e produto das fraquezas humanas; a Bíblia é uma coleção de lendas bem intencionadas, mas, ainda assim primitivas e bastante infantis. Nenhuma interpretação, não importa quão sutil, muda isso (para mim).” Einstein, que era judeu e declinou a oferta de ser o segundo presidente do Estado de Israel, também rejeita na carta a idéia de que os judeus seriam o povo escolhido por Deus.

“Para mim, a religião judaica, como todas as outras, é uma encarnação das mais infantis superstições.

E o povo judeu, ao qual eu pertenço com orgulho e com cuja mentalidade eu tenho profundas afinidades, não apresenta nenhuma qualidade diferente, para mim, em relação a todos os outros povos. Até onde vai a minha experiência, eles não são melhores do que outros grupos humanos, embora sejam poupados dos piores tipos de câncer pela falta de poder. Fora isso, não consigo ver nada de ‘escolhido’ sobre eles.” A carta não é listada como fonte da principal obra acadêmica sobre o tema, o livro “Einstein e a religião”, de Max Jammer. Um dos maiores especialistas em Einstein do Reino Unido, John Brooke, da Universidade de Oxford, diz que jamais ouviu falar no texto. O porta-voz da Bloomsbury, Richard Caton, disse que a casa está “100% segura da autenticidade da carta”.

As reflexões do autor da Teoria da Relatividade sobre religião deram origem a muitas conjecturas.
Os pais de Einstein não eram religiosos, mas ele estudou numa escola católica ao mesmo tempo em que tinha aulas particulares sobre o judaísmo.
Mas o idílio religioso durou pouco. Por volta dos 12 anos, ele já questionava a verdade de muitas histórias bíblicas.

Nem sempre coerente

Ao longo de sua vida, ele fez referência a “um sentimento religioso cósmico” que permearia e sustentaria seu trabalho científico. Em 1954, ele falou no desejo de “vivenciar o Universo como um único todo cósmico”.
Ele também costumava fazer referências religiosas, como em 1926, ao declarar que “Deus não joga dados”.

E ainda, na não menos famosa frase: “A ciência sem religião é manca; e a religião sem ciência é cega.” Mas ele também disse: “Eu não acredito no Deus da teologia que recompensa o bem e pune o mal. Meu Deus criou leis que tomam contam disso. Seu Universo não é governado por pensamentos positivos, mas por leis imutáveis.” Para o especialista John Brooke, professor de ciência e religião em Oxford, a carta reforça a teoria de que “Einstein não era teísta convencional, embora também não fosse um ateu”.

— Como muitos grandes cientistas do passado, ele era meio esquisito sobre religião e nem sempre coerente de uma época para outra — afirmou Brooke.

Na análise de Brooke, Einstein acreditava que “havia algum tipo de inteligência em ação na natureza. Mas certamente não era a visão tradicional das religiões cristãs e judaicas”.

09/04/2008 - 19:18h Interesse nacional

Merval Pereira – O Globo

O que vem a ser o “interesse nacional”? Como definir as bases da participação do Brasil num mundo que cada vez mais exige uma integração internacional para o desenvolvimento sustentável? Para tentar responder a essas perguntas e debater a nossa atualidade, está chegando às bancas e livrarias do país a revista “Interesse Nacional”, uma idéia do embaixador Rubens Barbosa, que no número de estréia trava um bom debate com o assessor especial da Presidência, Marco Aurélio Garcia, sobre nossa política externa na América do Sul. O conselho editorial da revista é plural, com nomes como o do exportavoz de Lula André Singer, os advogados João Geraldo Piquet Carneiro e Joaquim Falcão, o ex-governador de São Paulo Cláudio Lembo, o presidente da Bolsa, Raymundo Magliano, o geógrafo Demétrio Magnoli, o sociólogo Sérgio Fausto e o jornalista Roberto Pompeu de Toledo.

Na apresentação, fica definido que “a democracia e a inserção internacional são parte do interesse nacional brasileiro, aquela como valor, esta como objetivo. Se a democracia é um valor que queremos preservar, e se a inserção internacional é hoje, mais do que nunca, uma condição do desenvolvimento, resta perguntar como se inserir no mundo para fortalecer a democracia e promover o desenvolvimento”.

No editorial, os editores defendem que o lugar de um país no mundo global e a sua capacidade de gerar bem-estar às suas populações dependem “das escolhas que ele internamente souber fazer, corrigir ou sustentar, ao longo do tempo, a partir de uma determinada interpretação de seus interesses e valores comuns e de uma certa leitura das oportunidades e riscos que o ambiente externo oferece à sua realização”.

Estaria a política externa brasileira na América do Sul correspondendo às escolhas certas? O embaixador Rubens Barbosa defende que não. Para ele, do ponto de vista do interesse nacional, “não estão claramente identificados nem os objetivos políticos e econômicos do Brasil nem as prioridades para o desenvolvimento de uma agenda brasileira para a região”.

Na sua opinião, o Brasil não parece estar captando corretamente o significado das transformações políticas que estão ocorrendo na região “em função do declarado viés ideológico que norteia a nossa atuação externa.

Assim, nossos interesses estão sendo crescentemente afetados e continuam carentes de uma resposta adequada.

O que vemos é uma agenda que não é a nossa sendo executada por nós”.

Ele atribui essa indefinição à “dualidade de interlocução externa”, dividida entre a assessoria internacional da Presidência da República e o Itamaraty, que “tem tornado mais difícil a formulação de uma política externa clara para a América do Sul, visto que, em muitos casos, o profissionalismo diplomático é deixado de lado e substituído por motivações políticopartidárias e ideológicas que nem sempre coincidem com os interesses nacionais mais permanentes”.

A disputa pela liderança regional com a Venezuela e a construção de uma imagem de parceiro generoso e não imperialista levaram o governo brasileiro, analisa Barbosa, “a distribuir ajuda financeira e prometer investimentos, nem sempre podendo compatibilizar as iniciativas bilaterais dentro de uma estratégia de integração”.

Já o assessor especial da Presidência, Marco Aurélio Garcia, defende o ponto de vista de que o Brasil optou “por uma associação com países de seu entorno, com os quais comparte história, valores e possibilidades de complementação econômica”.

Por essa razão, diz ele, a América do Sul, transformouse em prioridade de sua política externa. “Essa opção decorre da percepção brasileira acerca das potencialidades da América do Sul no mundo de hoje, mas, sobretudo, no de amanhã”.

Ele passa a enumerar as razões dessa prioridade: “O continente tem o maior e mais diversificado potencial energético do planeta, se levarmos em conta suas reservas hidrelétricas, de gás e de petróleo, além de sua capacidade de produção de biocombustíveis.

A América do Sul possui a maior reserva de água doce do mundo”.

“Sua agricultura ocupa lugar de destaque, não só pela extensão e fertilidade de suas terras, como pelos avanços científicos e tecnológicos alcançados nos últimos anos. Suas jazidas minerais são enormes e diversas”.

Marco Aurélio Garcia ressalta que “para um mundo que se mostra (e se mostrará mais ainda) ávido de energia, água, alimentos e minérios, os fatores antes alinhados mostram quão relevante pode ser a contribuição da região para o desenvolvimento da humanidade. Some-se a tudo isso a rica biodiversidade do continente, o tamanho de sua população, a extensão e a diversidade de seu território e clima”.

O assessor especial da Presidência destaca, claramente defendendo a Venezuela, que “América do Sul conseguiu superar a era das ditaduras. Todos os seus atuais governos foram eleitos em pleitos marcados pela lisura e pela amplitude da participação popular”.

Para ele, “a efervescência social que se pode detectar em alguns países é expressão da incorporação recente de milhões de homens e mulheres — antes excluídos da cidadania real — na vida política.

Isso explica, em grande medida, os choques desses novos personagens com a obsolescência dos sistemas políticos e instituições herdadas do passado”.

O ingresso da Venezuela no Mercosul pode representar uma mudança qualitativa no bloco, afirma Garcia. A alegada “instabilidade” da Venezuela deve ser vista, segundo ele, como uma razão suplementar para apressar o ingresso desse país no Mercosul. “Devese a todo custo evitar o isolamento de Caracas do contexto sulamericano”.