29/08/2012 - 09:39h Conteúdo local para eólica vai garantir expansão no Brasil

Aline Massuca/Valor / Aline Massuca/Valor
Faubel, vice-presidente mundial da Alstom Wind, planeja oferecer máquinas adaptadas ao regime de ventos brasileiro


Por Rodrigo Polito | VALOR

Do Rio

De olho na competição agressiva prevista entre os parques eólicos nos dois leilões de energia marcados para outubro, que contam com mais de 500 projetos inscritos, as fornecedoras de aerogeradores traçam estratégias para elevar a participação no mercado. A aposta das fabricantes está no aumento do índice de conteúdo local e da eficiência dos equipamentos.

Disputado por pouco mais de dez empresas, o mercado brasileiro responde hoje por cerca de 5% das vendas de equipamentos eólicos no mundo, da ordem de 50 mil megawatts (MW) anuais. A fatia do país, porém, tende a crescer, devido à queda da demanda na Europa, causada pela crise econômica, e à perspectiva de novos negócios no Brasil.

Com a decisão da Petrobras de não fornecer gás para novas térmicas e com apenas duas novas hidrelétricas licenciadas até o momento, a expectativa é que a fonte eólica repita o desempenho do ano passado e domine novamente os leilões de outubro, que negociarão energia a ser entregue a partir de 2015 e 2017.

Atenta à demanda crescente do mercado, entre 2 mil e 2,5 mil MW por ano, a Alstom vai construir uma nova fábrica no Brasil. A companhia anunciará o investimento nas próximas semanas, quando serão divulgados o valor e o local da nova unidade, ainda guardados em sigilo. A francesa inaugurou em novembro de 2011 sua primeira fábrica eólica no Brasil, com investimentos de R$ 50 milhões e capacidade para produzir 300 MW/ano de aerogeradores.

“[A nova fábrica] é decisão já tomada. Estamos comprometidos em fazer a segunda unidade. Continuaremos aumentando a nossa participação no Brasil”, contou ao Valor o vice-presidente mundial da Alstom Wind, Alfonso Faubel.

Segundo o executivo, a companhia escolheu o Brasil para iniciar a instalação de um novo modelo de aerogerador, de 2,7 MW de potência e 122 metros de diâmetro do rotor. A aposta da empresa é construir máquinas de maior porte e adaptadas ao regime de ventos brasileiro, para reduzir custos do produto final e da manutenção das peças.

A dinamarquesa Vestas, que foi descredenciada da linha Finame do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) há pouco mais de um mês, está negociando seu reingresso ao programa, que lista empresas de máquinas e equipamentos habilitadas a receber financiamento do banco estatal. Para isso, a empresa planeja fechar parcerias com subfornecedores no Brasil e ampliar seu índice de nacionalização para os 60% exigidos pelo banco.

“Temos muito claro que precisamos de conteúdo local no Brasil”, afirmou o vice-presidente mundial de marketing, comunicação e atendimento ao consumidor da Vestas, Morten Albaek. “Temos um diálogo muito construtivo com o BNDES. E vamos achar uma solução para isso”, completou o executivo.

De acordo com Albaek, o mercado brasileiro ainda é muito pequeno. Mas nos próximos cinco a dez anos, o país estará no grupo dos cinco principais mercados da companhia. Segundo ele, a Vestas respondeu por 13% a 14% das vendas globais de aerogeradores em 2011.

Enquanto as perspectivas no Brasil são boas, lá fora a companhia pretende cortar empregos para atingir a meta de redução de custos fixos em € 250 milhões em 2012. Ontem, as ações da dinamarquesa registraram alta de 18,3% após a confirmação de que a companhia negocia uma parceria com a Mitsubishi Heavy Industries para reduzir o seu endividamento.

Os dois executivos participarão hoje de um seminário de energia eólica, no Rio de Janeiro, que discutirá, até sexta-feira, os rumos do setor nos próximos anos no Brasil. Apesar da contínua trajetória de crescimento do mercado, o segmento enfrenta seus primeiros obstáculos para se consolidar como uma fonte de energia confiável no país.

Um dos desafios é o atraso do início de operação de projetos que venceram o primeiro leilão em 2009. De acordo com a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), de janeiro a junho, entraram em operação 118,25 MW de potência de parques eólicos. Também estão previstos para iniciar o funcionamento este ano outros 554,28 MW, dos quais 247,20 MW apresentam algum tipo de restrição, jurídica ou ambiental, para serem concluídos.

23/08/2012 - 09:25h Aker investe para atender Petrobras


Fabricante norueguesa de equipamentos para petróleo aplica US$ 100 milhões na terceira fábrica em Macaé para fornecer ao pré-sal

Luciana Whitaker/Valor / Luciana Whitaker/Valor
Luis Araújo, presidente da Aker Solutions: “Aqui está o maior mercado do mundo para perfuração de petróleo”


Por Cláudia Schüffner | Do Rio

Com investimento de US$ 100 milhões em andamento para construir sua terceira fábrica no Brasil, em Macaé (RJ), a Aker Solutions vai dobrar os atuais 1.400 funcionários no Brasil até 2016. A empresa tem uma carteira de encomendas de R$ 1 bilhão no país, sendo a maior, no valor de US$ 300 milhões, destinada ao pré-sal de Santos. A Petrobras encomendou 40 árvores de natal molhadas – um conjunto de válvulas gigantescas que controlam a vazão dos poços que ficam no fundo do mar -, as quais serão instaladas nos campos de Lula e Sapinhoá. A encomenda, que será entregue para a estatal petrolífera com atraso, está sendo produzida na fábrica de Curitiba (PR).

A empresa norueguesa é presidida desde novembro do ano passado por Luis Araújo, que deixou outra fabricante de equipamentos, a Wellstream. Além da fábrica no Paraná, a Aker tem uma base em Rio das Ostras, cidade vizinha a Macaé, onde a nova unidade ficará pronta em 2014.

Na nova unidade industrial vai ser responsável pela produção, montagem e testes de equipamentos de perfuração e vai ocupar uma área de 335 mil quilômetros quadrados, espaço quase oito vezes maior que a da vizinha e onde são produzidos equipamentos juntos equipamentos submarinos e de perfuração. A empresa também tem um navio no Brasil, o Aker Santos, que está alugado para a Petrobras. E escritório de engenharia e gerência de projetos e vendas no Rio.

A nova fábrica, frisa Araújo, é a prova de comprometimento da companhia com o Brasil. “Aqui está o maior mercado do mundo para perfuração. Hoje, existem trinta sondas de perfuração no Brasil que tem equipamento nosso, sendo 14 com pacotes inteiros de equipamentos construídos no exterior e temos que prestar serviços para eles”, diz o executivo.

Ele se refere a equipamentos complexos usados para perfurar poços em águas profundas como risers de perfuração (tubos que fazem a ligação entre o poço no fundo do mar e a plataforma ou navio), blowout preventers (BOPs) e top drives (dispositivos mecânicos que são instalados na sonda que dá força rotacional durante a perfuração). Esses equipamentos estão em sondas próprias ou alugadas para clientes como Odebrecht, Statoil, Shell, Chevron. Entre as que tem equipamento completo da Aker estão as unidades de empresas especializadas em perfuração, como a Seadrill e a Sevan.

Luis Araújo diz que o compromisso da Aker com o Brasil é definitivo, imune a problemas como o aumento do custo-Brasil que vem afetando tanto as companhias estrangeiras que aportaram no Brasil para atender ao crescimento das encomendas e as exigências de conteúdo local nos equipamentos e serviços. “Hoje é difícil estimar o custo- Brasil. Ninguém sabe. Temos nossa fábrica de risers em Rio das Ostras, a única do Brasil, de perfuração e me pergunto porque os outros não vierem. Conseguimos uma excelência naquela fábrica, até pela qualidade e produtividade do pessoal, que se equivale à da Malásia”, responde.

Segundo o executivo, a companhia está acompanhando o custo de mão de obra e ela está cara. “Um executivo aqui está ganhando mais do que na Noruega, o que é difícil de explicar”. Para minimizar isso a Aker está treinando brasileiros no exterior e repatriando aqueles que moravam fora.

Sobre o atraso na entrega de árvores de natal para o pré-sal que custou o equivalente a R$ 171,5 milhões em multas cobradas pela Petrobras, Araujo diz que é passado. “Isso foi lançado como prejuízo [em 2011] por motivos claros. A Aker falou antes da Petrobras o que todo mundo já sabia mas que ninguém queria falar, que estava tudo atrasado. Agora não vamos atrasar. Estamos dentro dos que eles querem”, garante Araújo.

22/08/2012 - 10:28h Jovens escolhem a Petrobras como a empresa dos sonhos

Estatal desbanca Google na preferência dos recém-formados por conta dos salários mais atraentes e da estabilidade em tempos de incertezas na economia

Luciana Whitaker/Valor / Luciana Whitaker/Valor
Celine Blotta, 29, atua como técnica de administração e controle da Petrobras


Por Carolina Cortez | VALOR

Conquistar um emprego que permita o desenvolvimento e a realização profissional é a prioridade dos jovens na hora de se candidatar a uma vaga, mas não a única. Motivados pela escassez de talentos no mercado de trabalho, profissionais de até 30 anos voltaram a dar maior importância aos salários e benefícios diferenciados – quesito que estava fora da lista desde 2008. Os dados são da pesquisa “Empresa dos sonhos dos jovens”, da Cia de Talentos e NextView People. O fator remuneração, inclusive, levou a Petrobras à preferência dos mais de 45 mil brasileiros recém-formados entrevistados no levantamento.

A estatal de petróleo havia perdido a primeira posição para o Google em 2010 e 2011. Mas, em um momento de instabilidade econômica e de investimentos recordes no segmento de petróleo e gás – conhecido pela falta de mão de obra qualificada -, a Petrobras volta à liderança do ranking em 2012. O movimento, contudo, reflete uma leve mudança no perfil dos jovens profissionais.

Segundo Maíra Habimorad, sócia da Cia de Talentos, em um mercado mais abundante de oportunidades, o salário ganha mais peso na hora da escolha. “O jovem, ao contrário do que se costuma pensar, busca estabilidade no emprego. Esse conceito, porém, não envolve apenas a remuneração”, diz. Para a especialista, o desejo de permanência está atrelado a um trabalho prazeroso, com mais qualidade de vida, ao mesmo tempo em que o jovem possa contribuir para o desenvolvimento da sociedade.

Foi com essa perspectiva que Celine Blotta, de 29 anos, prestou concurso na Petrobras para o cargo de técnica de administração e controle, posição que exerce há quase dois anos na companhia. Formada em história, ela conseguiu entrar em um departamento responsável pelo relacionamento com os sindicatos, o que permite conciliar sua carreira com a paixão pela política, área na qual possui mestrado. Celine chegou a cursar administração e fez um programa de educação continuada em direito do trabalho e um MBA em gestão e liderança, ambos pagos pela Petrobras. A estabilidade que uma carreira pública proporciona é outro fator de atração. “Isso me permite vislumbrar minha vida nos próximos dez anos”, afirma.

Segundo o gerente executivo de recursos humanos da Petrobras, Diego Hernandes, os salários pagos pelo setor de petróleo e gás estão 20% acima dos demais segmentos da economia, o que tem motivado muitos jovens a procurar a área. “Na companhia existe plano de carreira tanto para a área técnica quanto para a gerencial. Também incentivamos os estudos no exterior para empregados com mais de seis anos de casa. Em 2012, vamos levar mais de dois mil jovens para se especializarem fora.”

Salários e benefícios diferenciados, desenvolvimento profissional e estabilidade também estão entre os motivos que levam os jovens a escolher a Vale como a terceira melhor empresa para iniciar carreira, logo após o Google. “Mineração é uma área que também sofre com escassez de talentos. Desse modo, a alta remuneração é um chamariz”, diz Carla Gama, diretora de educação e gestão de talentos da companhia. De acordo com ela, o desenvolvimento dos profissionais é contínuo. “Logo que ingressam na Vale, eles passam por diversas etapas de capacitação. Esse investimento segue ao longo da carreira por meio de cursos subsidiados.”

Estudar em outros países, ter mobilidade interna e experiência em diferentes mercados ou áreas podem fazer um jovem permanecer na mesma empresa por mais de 20 anos. “As companhias que querem reter os seus talentos devem criar programas voltados ao desenvolvimento pessoal e não só profissional”, diz Maíra, da Cia de Talentos. Segundo ela, a possibilidade de ter “diversas funções dentro da mesma companhia” alimenta a demanda dos jovens de estar em constante movimento. Mesmo no cargo de técnica de administração na Petrobras, Celina, por exemplo, já deu aulas de história na universidade da estatal. “Tenho aptidões e vontades que nem sempre se enquadram no meu trabalho, mas que são valorizadas”, diz.

Possuir múltiplos interesses e especialidades é uma característica dos jovens de hoje. Para o Monica Santos, diretora de RH do Google, esse é o trunfo da chamada geração Y. “Procuramos pessoas que queiram entender todo o processo e que gostem de exercer funções diferentes”, afirma. Assim, a empresa não possui um plano de carreira fechado. “Nosso papel é oferecer as ferramentas para que os profissionais se desenvolvam no caminho que escolherem”, diz.

Luciana Cordeiro Espírito Santo, de 26 anos, é um exemplo. Com formação em economia, ela deixou o mercado financeiro no Rio de Janeiro para assumir um cargo no departamento de vendas da empresa há dois anos, em São Paulo. No começo de 2011, migrou para o segmento educacional, tornando-se gerente de contas da área. “Comecei a gostar e a desenvolver soluções, até que me chamaram para assumir a área”, conta. Com o apoio do Google, ela terminou uma pós em engenharia de marketing, fez cursos de espanhol, inglês e, atualmente, estuda alemão. Além disso, já viajou para os escritórios da companhia fora do país e fez um intercâmbio de um mês em Buenos Aires.

“Nosso objetivo é tornar o trabalho mais flexível e divertido. É possível participar de reuniões a distância, trocar informações na mesa do café, jogar videogame e participar de grupos de interesse em comum, por exemplo. A vida pessoal e profissional não devem estar separadas”, afirma Monica.

13/08/2012 - 09:23h Conteúdo nacional será reforçado

Por Luiz Maciel | Para o Valor, de São Paulo

A presidente da Petrobras, Maria das Graças Foster, assegurou que a companhia vai aumentar ainda mais a proporção de conteúdo nacional em todas as suas áreas de atuação, que deverão receber, em conjunto, o investimento recorde de US$ 236,5 bilhões até 2016. “Este é um compromisso que estamos reafirmando com muita clareza, porque entendemos a importância de fortalecer o empresariado nacional”, afirmou, no encerramento do 13º Encontro Internacional de Energia realizado pela Fiesp.

Segundo Foster, a porcentagem de conteúdo nacional no fornecimento de produtos e serviços à Petrobras vem aumentando progressivamente nos últimos anos. “Entre 2004 e 2011, a participação de fornecedores nacionais passou de 55% para 62% na área de exploração, de 82% para 92% no setor de abastecimento e de 70% para 90% nas atividades de gás e energia”, informou.

O Plano de Negócios 2012-2016 da Petrobras, recentemente aprovado pelo Conselho de Administração, destina US$ 141,8 bilhões (60% do total) para a exploração e produção, US$ 65,5 bilhões para o refino, US$ 13,8 bilhões para gás e energia, US$ 5 bilhões para a área petroquímica, US$ 3,8 bilhões para biocombustíveis, US$ 3,6 bilhões para a distribuição e US$ 3 bilhões para o setor corporativo. “Esses recursos vão colocar em prática 980 projetos, dos mais de 5 mil que foram apresentados e discutidos no âmbito da empresa”, revelou Graça Foster.

Perguntada sobre uma possível readequação da área de refino para atender o mercado nacional de gasolina, que teve a demanda aumentada nos últimos anos, a presidente da Petrobras descartou a ideia, principalmente porque isso implicaria atrasar a implantação da refinaria Abreu e Lima, em Ipojuca (PE), e do 1º Trem de Refino da Comperj, em Itaboraí (RJ), previstos para entrar em operação no ano que vem. “E não há nada que me tire mais do sério do que atrasos”, observou, antes de acrescentar que esse déficit momentâneo na produção de gasolina será corrigido naturalmente com a expansão da oferta de etanol. “As informações que tenho indicam um aumento na produção do etanol nas safras de 2013 e 2014, o que nos permitirá reduzir a importação de gasolina na mesma proporção. Enquanto isso, continuaremos comprando no exterior a gasolina necessária para o abastecimento interno, sem problema algum”, justificou.

16/05/2012 - 11:21h Mantega volta a dizer que preço da gasolina não sobe

16 de maio de 2012

O Estado de S.Paulo

Apesar da pressão velada da Petrobrás por um aumento no preço dos combustíveis, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, reafirmou ontem que o governo não autorizará o reajuste. “Não vai ter nenhum aumento”, limitou-se a dizer quando questionado por jornalistas.

Mantega participou da reunião do Conselho de Administração da Petrobrás, presidido por ele, para debater e aprovar os resultados da petrolífera no primeiro trimestre deste ano.

Embora o descompasso entre o custo internacional do petróleo e o preço da gasolina nas bombas brasileiras tenha impacto nas contas da companhia, a presidente da estatal, Maria das Graças Foster, negou que o assunto tenha sido debatido no encontro.

Há menos de um mês, Graça chegou a dizer que a alta da gasolina seria inevitável caso os custos do barril de petróleo continuassem a subir.

Na ocasião, a executiva também disse que um dos fatores que pressionariam essa decisão seria o câmbio, que ontem chegou a superar a casa de R$ 2, pela primeira vez em quase três anos.

“Não tenho como dizer que não vou aumentar os combustíveis, porque tenho contas a pagar”, afirmou ela no último dia 25 de abril, em audiência pública realizada na Comissão de Minas e Energia da Câmara dos Deputados. / EDUARDO RODRIGUES

02/05/2012 - 10:44h Equador diz que pagará US$ 217 milhões de indenização à Petrobras

Por Associated Press, de Quito – VALOR

(O título da matéria estava incorreto quanto ao valor do acordo, que é de US$ 217 milhões, não de US$ 270 milhões como antes informado)

Após longo impasse, o governo do Equador informou ontem que chegou a um acordo para o pagamento de US$ 217 milhões à Petrobras como forma de indenização por ter rompido contrato com a estatal brasileira em 2010.

O montante será pago em duas parcelas anuais, informou o ministro de Recursos Naturais Não Renováveis, Wilson Pástor, citado pela imprensa local. “O acordo poderá ser concretizado nas próximas semanas”. Segundo ele, com o acordo a Petrobras desistirá formalmente de levar a questão à arbitragem internacional e a única pendência são as obrigações tributárias com o país.

A indenização cobrirá os investimentos da Petrobras no Bloco 18 e no Campo Unificado Palo Azul, na Amazônia equatoriana, até dezembro de 2010, quando a estatal brasileira deixou o país. Em novembro daquele ano, Quito suspendeu cinco convênios para exploração de petróleo, incluindo dois com a Petrobras, ao mesmo tempo que fechou outros oito contratos, inclusive com a estatal chilena ENAP e com a então hispano-argentina Repsol-YPF.

Pelos novos contratos, Quito garantiu 100% do controle da produção e uma renda média de 80%, contra os 18% que recebia no modelo anterior. As novas condições reduziram a autonomia das empresas, transformando-as em prestadoras de serviços – o que não interessou à Petrobras. Na época, a estatal reiterou que “não é uma prestadora de serviços, mas uma empresa produtora de petróleo”.

A Petrobras defendia que o Equador cumprisse uma cláusula do contrato que prevê indenização por investimento não amortizado. O cálculo era de US$ 300 milhões, e levava em conta quanto a companhia investiu e previsão de retorno desse investimento com base em um determinado volume de petróleo que seria produzido durante o período da concessão. As informações sobre o acordo não foram confirmadas com a Petrobras.

29/04/2012 - 12:44h Um Brasil cheio de gás

ANP descobre grandes reservas em terra que devem quadruplicar oferta. Preço cairá mais de 50%

Ramona Ordoñez e Bruno Rosa – O Globo

Publicado: 28/04/12

RIO — Visto como a nova fronteira energética do país, o gás natural pode colocar o Brasil em um novo patamar no cenário internacional. Até então associado à exploração de petróleo no mar, o gás virou tema de estudos profundos, feitos pela Agência Nacional do Petróleo (ANP) e por empresas, que indicam enorme potencial em bacias terrestres. Para especialistas, o país tem reservas gigantescas de gás natural do porte das de petróleo no pré-sal da Bacia de Santos. Com isso, a oferta ao mercado deve aumentar 360%, passando dos atuais 65 milhões para 300 milhões de metros cúbicos por dia entre 2025 e 2027. Para 2020, a Petrobras, principal produtor, trabalha com um cenário de 200 milhões de metros cúbicos por dia. O ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, vai mais longe. Em entrevista ao GLOBO, prevê a autossuficiência do país no setor em cinco anos. Depois, pode até se tornar exportador:

— O país vai viver a era de ouro para o gás.

É tanto gás que em áreas como nas bacias dos Parecis, em Mato Grosso, e do São Francisco, em Minas Gerais, o gás chega a borbulhar, num fenômeno denominado exsudação. Em certos pontos, como na pequena Buritizeiro, em M8inas Gerais, na água que jorra do solo, com apenas um fósforo, se acende uma chama intermitente.

— Na Bacia dos Parecis, em Mato Grosso, no Rio Teles Pires, há 800 metros de rio borbulhando gás e, em certos pontos, se pode até gravar o som. Podemos deixar um Brasil desses para trás? — pergunta Magda Chambriard, diretora-geral da ANP.

Mas, para aproveitar todo esse potencial, é preciso que o governo defina uma nova política para o uso do gás e que a ANP, que já investe R$ 120 milhões por ano no estudo das bacias sedimentares, volte a fazer as rodadas de licitações, paradas desde 2008, com a descoberta do pré-sal.

Especialistas acreditam que, com mais matéria-prima e novas técnicas de exploração, a indústria nacional pode ganhar competitividade. E, hoje, o preço do gás, acima da média mundial, pode convergir para patamares internacionais nos próximos oito anos, reduzindo em 53% o valor cobrado do setor, estima a Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan).

O potencial é enorme. Hoje, 96% das bacias ainda não foram exploradas. Estudos geológicos da ANP indicam grandes reservatórios em seis bacias, do Norte ao Sul. O diretor do Instituto de Eletrotécnica e Energia (IEE) da USP e ex-diretor da Petrobras Ildo Sauer vai mais longe: para ele, o Brasil está à beira de uma revolução energética. Segundo o especialista, estimativas do Departamento de Energia dos EUA dão conta de que o Brasil pode ter reservas de 7 trilhões de metros cúbicos, contra os 395 bilhões de metros cúbicos atuais. O volume é equivalente a quatro milhões de barris de petróleo por dia.

— É uma verdadeira revolução. Com o desenvolvimento de tecnologia na produção, haverá redução dos custos e menores impactos ambientais. Mas o governo tem que traçar uma política para isso — destaca Sauer.

Transição para uma matriz limpa

Marco Tavares, da consultoria Gas Energy, diz que a exploração de gás em parte das bacias ganhou nova dimensão com a descoberta de uma nova técnica, pelos americanos, que torna os campos economicamente viáveis:

— Assim, os EUA, que importavam 20% do seu consumo de gás, produzem hoje 100% da sua demanda. Lá, o mercado é 30 vezes maior que o do Brasil. O gás é mais limpo que outros combustíveis e pode alavancar o desenvolvimento industrial do país.

Entre os ambientalistas, o gás não associado ao petróleo também é visto como uma opção a carvão, diesel e óleo combustível, por ter menos impactos ambientais. Segundo Ricardo Baitelo, coordenador da Campanha de Energias Renováveis do Greenpeace, o gás é o elo entre as energias de baixa emissão, como a eólica e renovável, e os mais poluentes:

— O gás tem um papel importante, que é servir de transição do atual cenário para uma matriz energética limpa. Por isso, é fundamental essa transição, que vai durar até 2050. Se comparar as emissões do gás com o óleo combustíveis, a emissão cai até pela metade.

Rodolfo Landim, presidente da petroleira YXC e da Mare Investimentos, lembra que o gás aparece como a melhor opção frente a outras fontes de energia envoltas em polêmica. Por outro lado, Landim destaca a importância de o Brasil voltar a fazer os leilões:

— O mercado reage às decisões do governo. Vemos tantos problemas para a aprovação das hidrelétricas, a usina nuclear é um tabu, o carvão tem uma série de problemas (ambientais) e as energias solar e eólica não geram energia suficiente. E o Brasil vai continuar crescendo. Por que não se usa o gás para produzir diesel, o derivado mais consumido no país? Em todas essas bacias, o potencial precisa ser avaliado. Não adianta deixar lá embaixo.

Além dos leilões, é preciso pesquisa. Sauer lembra que o gás em São Francisco e Solimões está em um reservatório diferente (chamado folhelho) dos até então conhecidos:

— Estamos estudando a tecnologia, os custos e o impacto ambiental para a produção desse tipo de gás. Os EUA têm um gás semelhante, o chamado gás de xisto, para o qual foi desenvolvida uma tecnologia que reduziu os custos, para cerca de US$ 2 por milhão de BTUs (unidade internacional do gás), contra os mais de US$ 8 do gás produzido pela Petrobras e o que vem da Bolívia.

Magda brinca com o tamanho das reservas:

— Existe uma profecia de um colega nosso petroleiro que diz que o Brasil ainda vai achar gás natural embaixo do gasoduto Brasil-Bolívia.

É por esse gasoduto que vêm os 30 milhões de metros cúbicos que o país importa por dia do vizinho.

Os recursos da ANP para os estudos das bacias vêm do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), para evitar que esse dinheiro seja contingenciado pelo governo. Nos últimos quatro anos, foram destinados R$ 500 milhões. A agência diz que já está com todos os estudos prontos para realizar a 11ª rodada de licitações, em áreas acima do Rio Grande do Norte. Só falta a presidente Dilma Rousseff autorizar.

Cristiano Prado, da Firjan, acredita que o aumento da oferta de gás vai elevar a competitividade das empresas brasileiras. Hoje, o preço do gás está 17,3% acima da média mundial, com valor de US$ 16,84 por milhão de BTUs:

— Com mais gás, e uma política de governo, o preço pode convergir para o padrão internacional, fazendo com que o preço final à indústria caia 53%.

A abundância de gás já foi até mencionada, em 1956, por Guimarães Rosa em suas caminhadas pelo sertão. Em “Grande Sertão Veredas”, fica clara a referência na região de Minas. “Em um lugar, na encosta, brota do chão um vapor de enxofre, com estúrdio barulhão, o gado foge de lá, por pavor.”

26/04/2012 - 09:16h Perú: Petrobras tendría otra Camisea en sus manos

Petrobras prevé encontrar en Perú entre 8 y 10 TCF de gas en dos lotes

GESTIÓN

Miércoles, 25 de abril del 2012

Pedro Grijalba, gerente general de la filial local, calculó que invertirían entre US$ 130 y US$ 150 millones.


LIMA (Reuters).- La petrolera brasileña Petrobras espera encontrar entre 8 y 10 billones de pies cúbicos (TCF) en dos lotes gasíferos en el sureste de Perú, previó el gerente general de la filial local, Pedro Grijalba.

Grijalba dijo, además, que Petrobras prevé invertir este año entre 130 y 150 millones de dólares en Perú.

“Nosotros creemos que en esa zona (lote 57 y 58) podemos imaginar que tenemos unos 8 TCF, o sea, vamos a explorar por 8 a 10 TCF. ¿Qué es lo que encontremos? Vamos a saber después de que perforemos”, afirmó Grijalba a periodistas.

Petrobras iniciará en breve la evaluación de los hallazgos de uno de los pozos perforados en el lote 58, lo que tomaría de tres a seis meses, y en unos 15 días planifica comenzar a perforar otro pozo en el lugar, explicó Grijalba.

Petrobras ya anunció en el 2010 un hallazgo de unos 1.7 millones de billones de pies cúbicos en el lote 58, donde la empresa a través de su subsidiaria local posee el 100% del área de concesión.

En el lote 57, Petrobras está asociada con la española Repsol, empresa que ya anunció formalmente en el 2008 el hallazgo de unos 2 billones de pies cúbicos en ese lote.

El ejecutivo precisó que “hasta la fecha en la zona (el porcentaje de tener éxito en el descubrimiento de gas) es del 100%, esperemos tener resultados similares”.

En Perú, Petrobras también participa en un proyecto petroquímico con la brasileña Braskem de 3,500 millones de dólares, que produciría 1.2 millones de toneladas de polietileno al año desde fines del 2018.

05/04/2012 - 09:54h O megaprojeto integrado de gás do sul do Peru sai do papel. Será o maior investimento da história do país

Por Humberto Saccomandi – VALOR

Depois de anos de negociações e estudos, começou de fato aquele que é possivelmente o maior investimento industrial brasileiro no exterior: o projeto integrado de gás do sul do Peru. Estimado em até US$ 16 bilhões, ele deve transformar o setor industrial peruano. Esse é o tipo de projeto que os vizinhos pedem ao Brasil: um comprometimento de longo prazo, que traga a capacidade tecnológica e financeira brasileira para agregar valor aos recursos naturais locais.

À frente do projeto estão Braskem, Petrobras e Odebrecht. A Petrobras produzirá, na região de Camisea (no centro do país), o gás natural. A Odebrecht iniciou a construção do Gasoduto Andino do Sul, que levará o gás até o previsto Polo Petroquímico do Sul do Peru, a ser construído e operado pela Braskem.

Por enquanto, a Braskem tem uma carta de intenção assinada com o governo peruano, mas analistas avaliam que o anúncio definitivo é só questão de tempo, já que o gasoduto em construção pela Odebrecht só faz sentido junto com o polo petroquímico.

‘É uma obra faraônica, porém real’, disse o presidente Humala.

Segundo uma autoridade brasileira, a Braskem aguarda a confirmação, pela Petrobras, das reservas disponíveis de gás, o que deve acontecer nos próximos meses. Mas um anúncio final é possível já durante a visita da presidente Dilma Rousseff ao Peru prevista para maio.

Ainda que sua localização não tenha sido anunciada – o mais provável é que seja na cidade portuário de Ilo (veja no mapa) – o polo estará numa posição estratégica. Como quase toda a produção de petróleo no continente americano está do lado do Atlântico, assim como quase todo o petróleo importado também chega pelo Atlântico, não existe nenhum complexo petroquímico importante do lado do Pacífico. Isso permitirá ao novo polo atender à demanda por derivados petroquímicos, como etileno e polietileno, de países como Chile, Colômbia, México, EUA e Canadá.

O projeto vem sendo estudado há mais de três anos. Os acertos iniciais foram feitos ainda no governo anterior, do presidente Alan García. Com a vitória do nacionalista Ollanta Humala nas eleições de 2011, foi preciso reapresentá-lo ao novo governo, que se mostrou entusiasta.

É difícil subestimar a importância desse projeto para o Peru. Será o maior investimento da história do país. “É um projeto que vai transformar a indústria peruana, que hoje se limita a setores tradicionais, como têxteis e vestuário, processamento de pescado e alguma coisa de metalmecânica e processamento de minérios”, disse uma fonte brasileira. “Isso levará a indústria peruana a um novo patamar, dará um salto de qualidade na estrutura produtiva”, disse Antonio Castillo, conselheiro econômico e comercial da Embaixada peruana no Brasil.

A mídia peruana estima, por exemplo, que o imposto de renda a ser pago por todo o projeto poderá chegar a 3,9% de toda a receita de IR do país.

Na semana passada, ao participar em Cuzco da cerimônia de início das obras do gasoduto, o presidente Humala não economizou adjetivos. “É uma obra faraônica, porém real”, disse. E deixou claro ainda que o governo peruano já dá como certa a construção do polo. “O Peru se coloca na vanguarda da petroquímica”, completou.

O valor total, entre US$ 15 e 16 bilhões, não é confirmado pelas empresas envolvidas – procuradas pelo Valor, nenhuma delas quis comentar sobre esse projeto. Mas esse valor é citado por autoridades tanto brasileiras como peruanas que estão a par das negociações. Não está claro como o investimento seria financiado.

Nem todo o custo ficaria a cargo das empresas brasileiras. Deve haver um aporte do governo peruano, por meio da estatal PetroPeru, que terá participação no projeto. Esse aporte poderia chegar a US$ 1,2 bilhão, segundo uma autoridade.

Espera-se ainda a participação de outras companhias, já que o projeto inclui outros negócios, como duas termelétricas, duas plantas de fracionamento de gás para consumo local, uma planta de liquefação para exportação, a ampliação e operação do porto, além de um cluster de empresas complementares, como de plásticos e fertilizantes. Segundo uma autoridade brasileira, há empresas asiáticas interessadas.

Do investimento total, cerca de US$ 3 bilhões irão para a construção do gasoduto, de 1.085 km. Na semana passada, a Odebrecht Peru, que já tinha o controle do consórcio, comprou a participação restante. Mas PetroPeru deve se tornar sócia.

O trajeto do gasoduto é particularmente importante para o governo peruano, pois atravessa algumas das áreas mais pobres do país. No Peru, os royalties da mineração ficam com as províncias. Isso gerou uma forte desigualdade interna. Regiões mineradoras prosperam, enquanto áreas agrícolas do sul continuam miseráveis, o que é um foco de tensão social. Algumas das regiões mais pobres passarão a receber royalties da passagem do gasoduto.

O gasoduto terá três dutos: um para o gás, um para o liquido que é retirado junto com o gás, e outro para fibra ótica, que levará internet de alta velocidade para esse interior pobre do Peru.

A previsão é que o gasoduto fique pronto em três anos. Já o polo levaria até quatro anos para ser construído. Ambos, assim, poderiam ser inaugurados pelo presidente Humala.

Não é surpresa que um projeto desse porte ocorra no Peru. O país tem uma política agressiva de atração e de facilitação de investimentos externos. Além disso, fechou acordos de livre comércio que permitem exportar sem tarifas para países como EUA, Canadá, China e Japão.

Já na Bolívia, que tem reservas comprovadas de gás maiores que a do Peru, a ação atabalhoada do governo do presidente Evo Morales criou tamanha incerteza que afujentou investimentos, inclusive a própria Braskem.

Humberto Saccomandi é editor de Internacional. Escreve mensalmente às quintas-feiras

E-mail humberto.saccomandi@valor.com.br

16/03/2012 - 10:43h Petrobras põe fim à trégua com os estaleiros do país

Graça Foster, presidente: “Não adianta sonhar, sonho não constrói sondas”, afirmou, referindo-se à crise no EAS


Por Cláudia Schüffner, Heloisa Magalhães e Francisco Góes | VALOR

Do Rio

A nova presidente da Petrobras, Maria das Graças Foster, que assumiu o cargo há pouco mais de um mês, deixou claro em entrevista ao Valor que pôs um fim à sua trégua com os estaleiros, aos quais a estatal tem encomendas de navios, sondas e plataformas. O principal alvo da executiva à frente da empresa, onde está há 32 anos, é atingir a meta de produção de petróleo, em 2020, de 6 milhões de barris por dia. A entrevista de Graça Foster ao jornal foi feita antes da decisão da saída da companhia coreana Samsung da associação no Estaleiro Atlântico Sul (EAS) com Camargo Corrêa e Queiroz Galvão. A executiva teve reunião com a fabricante coreana na quarta-feira, na sede da companhia, e, na sua opinião, ou a Samsung tinha uma participação expressiva no EAS ou não fazia sentido ficar apenas na associação com apenas 5%, 6% ou 10%.

Abaixo, os principais trechos da entrevista:

Valor: A Petrobras é criticada por descumprir as próprias metas de produção. Porque esse atraso?

Maria das Graças Foster: Nós estamos fazendo o que é previsível e, é um fato, a revisão do plano de negócios todos os anos. O plano de negócios termina e, em seguida, está sendo avaliado novamente. É nesse processo que nos encontramos. Na próxima semana vamos terminar toda a análise de 2012. Estamos pegando o plano de E&P [exploração e produção], abrindo completamente, olhando o que é eficiência operacional e começando a abrir [os números] como se fosse uma cebola, em cascas.

Valor: Há alguma boa notícia na área de produção?

Graça Foster: O que tem de muito bom acontecendo em 2012 é que começamos o ano com 16 sondas de perfuração operando. Ao longo de 2011 chegaram 10 sondas. Ao todo, são 26 sondas. E este ano chegarão mais 14 sondas, totalizando 40 [encomendadas].

Valor: A senhora pode falar sobre a visita que fez ao estaleiro EAS?

Graça Foster: Posso falar daquilo que cabe à Petrobras. Não posso falar das empresas porque não seria ético. Na quarta-feira, a Samsung [acionista do EAS, com 6% ]esteve aqui o dia inteiro reunida conosco.

Valor: A presidente Dilma pediu para a senhora auxiliar na negociação entre os sócios?

Graça Foster: Não recebi da presidenta nenhum pedido para tratar desse assunto. Como controlador desta empresa [Petrobras], o governo quer que a gente cumpra metas de produção, de refino, em relação ao etanol. Para produzir 6 milhões de barris de petróleo por dia [em 2020], tenho que resolver problemas de estaleiro. Nós contratamos a Sete Brasil e eu não vou ficar esperando a empresa resolver problemas que são muito maiores do que ela, pois sei de um problema que é claro de desempenho, abaixo da expectativa do mercado, por parte do Estaleiro Atlântico Sul.

Valor: E por que aconteceu?

Graça Foster: Porque não adianta sonhar, sonho não constrói sonda. Tem duas empresas brasileiras que têm tradição, empresas de envergadura que são Camargo Corrêa e Queiroz Galvão e outra empresa espetacular, a Samsung, que produziu o maior número de sondas de perfuração do mundo. Não adianta vir com 5%, 6% ou 10% [de participação societária] para o Brasil. Isso não funciona, não prospera. Não será possível fazer se a Samsung não crescer em participação societária. Não se pode imaginar que a Samsung, que tem um mercado lá fora que é todo dela, vem para cá com 6%. Ou ela vem para cá gostando do Brasil, dos sócios e de fazer dinheiro aqui… Eu, como não sou a Samsung, só posso dizer que acho que não viria por 5% ou 10%.

Valor: Qual é a solução?

Graça Foster: Que venha e cresça em participação societária e é isso que a gente espera.

Valor: E já há acordo?

Graça Foster: Eles estão discutindo o acordo. Nessa discussão, a Graça só fica olhando e provocando para que eles discutam.

Valor: Mas o acordo seria para a Samsung assumir o controle acionário?

Graça Foster: Não é assumir o controle. Até onde eu sei, veja bem, eu não tenho os detalhes porque eu não sou parte desse jogo, nem a Petrobras nem a Sete Brasil. Então, o que eu faço é [perguntar] se já teve a reunião com a Samsung. Se não teve, chamo a Samsung. Eu esperava que o seu CEO [da Samsung] viesse. Não veio? Veio quem? O vice? Então vamos conversar. Chego, vejo reunião morna entre Petrobras e Samsung e aí digo: “não vai embora não, vou chamar a Sete Brasil, vou chamar as duas empresas para sentarem”. Aí saio da sala porque não sou sócia. Depois da reunião, volto para saber quando vai ser o novo prazo.

Valor: Poderia ser um terço de participação cada um?

Graça Foster: Poderia, mas não sei se será assim. Só sei que do jeito que está não sai sonda.

Valor: Para a Petrobras há um atraso no contrato das primeiras sete sondas com o EAS?

Graça Foster: Parece que não, porque a primeira sonda está prevista para 2015 e como a Sete Brasil tem uma estratégia de contratação já contratou outras sondas, então ela insiste e a gente não tem porque não acreditar, até agora, que vai nos entregar em 2015 a primeira sonda.

Valor: Quando a Petrobras assina contratos das sondas com a Sete Brasil e com a Ocean Rig?

Graça Foster: Aí é diferente. Quero ver onde vai construir, quem são os sócios que estão lá. Eu vou assinar com a Sete Brasil, mas saberei o que estou assinando. Vou assinar porque estou vendo que essas três [sondas] vai fazer ali, duas aqui. Não é ali no meio do mato, sem plano.

Valor: Como vai ficar isso?

Graça Foster: Terão de fazer.

Valor: Alguns dos estaleiros ainda não existem.

Graça Foster: Não tem problema não existir, não pode é não ficar existindo por muito tempo. Os projetos têm um tempo. Não há problema de o estaleiro ser virtual. Só vai ter assinatura de contrato na hora em que a Sete Brasil demonstrar por A mais B mais C mais D mais E que vai construir ali e que aquele estaleiro tem toda a condição de receber a encomenda porque tem um plano B, um plano C. Então a pressão junto à Sete é verdadeira. Não fui nomeada pela presidente [neste assunto]. A presidente me cobra meta e segurança operacional.

Valor: As sondas no Brasil serão construídas com custo em bases internacionais?

Graça Foster: Não tem no contrato com a Sete Brasil, nas sete primeiras [unidades], espaço para aumentar de preço. Se aumentar, está na conta da Sete.

Valor: Qual é o tempo de atraso das sondas?

Graça Foster: Essas sondas atrasaram 36 meses no total e não tem nenhuma brasileira. São todas feitas no exterior. A Petrobras pode fazer um trabalho na frente de que essas sondas vão funcionar este ano. E vão trazer grandes resultados a partir de 2013 e 2014. Depois, vem as unidades de produção. Começamos 2011 com 111 unidades e chegaram mais duas, depois chegaram mais cinco, e este ano, mais duas. Ao final de 2013, teremos 127 unidades de produção. Então teremos as sondas de perfuração, as sondas de produção e o óleo descoberto. Não tem como dar errado.

Valor: Mas trata-se de um atraso de três anos.

Graça Foster: Não é atraso de três anos. É atraso de 36 meses. Uma sonda atrasou três meses, outra cinco meses, outra quatro. Quando soma, tem 36 meses no conjunto. Este ano temos planejamento para fazer 42 poços e estão em harmonia com a chegada das sondas.

Valor: Dá para dizer que atrasou o pré-sal?

Graça Foster: Atraso do pré-sal não. Mas essas sondas que atrasaram 36 meses causam impacto na carteira toda. Você tem recursos e movimenta esses recursos em direção ao que há de maior volume potencial de produzir. Não há correlação direta: atrasou a sonda, atrasou o pré-sal.

Valor: A queixa é que a empresa gasta demais e não produz. Aí vem um outro tema, que é o preço cobrado dos combustíveis. O preço interno inferior ao internacional não é um problema?

Graça Foster: A Petrobras tem um plano de negócios, um pré-sal pela frente, um plano de refino, de novas refinarias, uma série de compromissos já iniciados no que se refere ao investimento e a construção dos ativos. A Petrobras investe US$ 225 bilhões [até 2015], olha para dez anos à frente e para 2020 com uma meta de produção de 6 milhões de barris de óleo equivalente [por dia] ou 4,67 milhões de barris de óleo líquido de gás [por dia]. O fato é que o nosso investimento é de longo prazo e a política de preços também é de longo prazo.

Valor: Qual o benefício?

Graça Foster: Entendemos que é bastante favorável que esse mercado novo vingue. Essas refinarias, no passado, eram todas para a exportação. E reverteu o quadro por conta da inclusão social, da fatia nova de consumidores. Temos noventa e tantos por cento do consumo de gasolina e de diesel no país. Produzimos e consumimos aqui. Temos a produção doméstica, as refinarias e o consumidor aqui. O custo de logística é mínimo comparado com o custo de colocar [os derivados ou petróleo] em um mercado que está a cinco mil milhas e que tem outros ofertantes.

Valor: E as perdas?

Graça Foster: O nosso investimento é de longo prazo, o resultado é de longo prazo e a política de preços também. Esse mercado novo, que cresce em torno de 40% a 50% – essa é a projeção para até 2020 -, é muito interessante. Estados Unidos, Japão e Coreia não ficam dependentes em mais do que 10% da importação de líquidos. No caso da Petrobras, se não tivéssemos esse parque de refino, estaríamos com 40% de importação de derivados e exportando mais petróleo com a volatilidade contra nós na exportação e na importação.

Valor: Mas, e as perdas?

Graça Foster: O que acontecem são perdas reais em determinado mês, em determinado trimestre, como aconteceu no último trimestre de 2011, quando a gente importou muito mais derivados e não teve a paridade exata de preços com o mercado interno. Agora, esse mercado novo para nós é muito valioso. Então, neste mês perdemos, no [quarto] trimestre nós perdemos, mas no conjunto do ano tivemos o segundo melhor resultado da Petrobras – o melhor foi o de 2010 e o de 2011 foi R$ 3 bilhões menor no resultado líquido. Além do que, em 2008, 2009 e parte de 2010 estávamos vendendo mais caro aqui do que estava lá fora. O que queremos é que haja estabilidade econômica, que esse mercado cresça. Em determinado momento vamos ter que ajustar, isso é inexorável. Estou dizendo com todas as letras que vai ter de ajustar em determinado momento.

Valor: Em que momento?

Graça Foster: O momento será aquele necessário para não perdermos a capacidade de investir. O mercado cresce e vai chegar um certo momento em que vai aumentar o preço e ficar mais caro aqui do que lá fora. Não sei que momento é esse, se é em três anos ou daqui a dois ou um. Então, vamos estar com um volume maior que é todo nosso e vou ganhar esse dinheiro de volta.

Valor: O conteúdo nacional é uma política do governo, mas há preocupações com aumentos de custos. Como a sra. vê esse assunto, que é muito sensível, dado o tamanho das encomendas?

Graça Foster: O que me preocupa não é a questão do conteúdo nacional. Todos os números foram apresentados pela Petrobras ao governo. Então não me venha chorar que não dá [para cumprir os compromissos], porque foi você [a empresa] que levou o número. Digo isso porque já estive do lado de lá. Eu montei, com a colaboração da Petrobras, o primeiro Prominp [Programa de Mobilização da Indústria Nacional de Petróleo e Gás Natural]. José Eduardo Dutra [diretor da estatal] era presidente da Petrobras, a presidenta Dilma, ministra de Minas e Energia, e, eu, secretária de petróleo e gás [do Ministério de Minas e Energia]. Foi feita uma conta e foi apresentada ao governo 60%, por exemplo, para o conteúdo local de uma sonda de perfuração. O número que é fechado é de total e absoluta responsabilidade da Petrobras, foi a Petrobras que concordou.

Valor: E outras operadoras também.

Graça Foster: E outras tantas operadoras.

Valor: Há entre as empresas quem diga que achava que conseguiria cumprir o conteúdo local, mas não tinha certeza.

Graça Foster: O que havia talvez fosse a possibilidade de que o governo recuasse, mas o governo não vai abrir mão, é política de governo. Acontece na Noruega e em tantos países defender que a indústria de petróleo e gás passe também pelo desenvolvimento da indústria de bens e serviços. Existe uma questão fundamental que cada empresa tem que cuidar que é documentar porque o dia vai chegar. Vai chegar o dia em que [a empresa] terá que ir lá provar [na ANP] que fez o conteúdo local.

Valor: Mesmo que onere custos?

Graça Foster: As 40 sondas que comentei foram feitas fora e estão em valores de mercado. E a gente só assina o contrato [com Sete Brasil e com Ocean Rig ] se o preço estiver dentro das métricas internacionais porque não tem como contratar com valor maior.

Valor: E a questão dos minoritários no conselho de administração. Como a senhora vê a reclamação?

Graça Foster: É algo que a Petrobras não tem poder. Vejo os minoritários tomando posição a favor da companhia no entendimento deles, das melhores práticas [de gestão], das questões de mercado. Vejo com satisfação o movimento a favor da companhia no sentido de observá-la, de participar mais dedicadamente da gestão da companhia através de seu representantes de ações ordinárias e preferenciais. Mas deixo claro, conheço o Josué [Gomes da Silva, presidente da Coteminas, cuja indicação vem sendo criticada], ele é um excelente quadro técnico. Antes de vocês chegarem, eu estava usufruindo do conhecimento do conselheiro [Jorge] Gerdau. Conversamos sobre Petrobras, sobre a indústria. É fantástico ter o minoritário participando da minha vida, de minha gestão, dando ideias.

Valor: Mas há insatisfação dos minoritários em relação a sua representação…

Graça Foster: É algo que não tenho que opinar, é sobre o processo de eleição.

Valor: Quando vão anunciar o plano de desinvestimento?

Graça Foster: Esse ano tem uma programação relevante de desinvestimento. Não posso falar, mas posso dizer que inclui ‘farm-outs’ [venda de participações em campos de petróleo].

Valor: A Argentina está cobrando mais investimentos da Petrobras nas operações locais?

Graça Foster: A reunião acho que será na semana que vem. Eu ainda não sei qual é a agenda. Não vamos investir mais para perder, mas para ganhar, então tenho que conhecer as regras. A depender das regras, a gente pode se interessar mais ou menos pelo negócio.

Samsung deixa de ser sócia do EAS

Por Ivo Ribeiro | VALOR
De São Paulo

Depois de fortes pressões, inclusive da direção da Petrobras, a maior cliente do Estaleiro Atlântico Sul (EAS), a companhia coreana Samsung Haevy Industriais deixou ontem, após frustradas negociações, a associação que tinha com Camargo Corrêa e Queiroz Galvão no estaleiro, localizado dentro da área do porto de Suape, em Pernambuco.

As duas sócias brasileiras do EAS, que exerceram o direito de preferência na compra da participação de 6% da coreana, já negociam com dois grupos estrangeiros um novo parceiro tecnológico para o estaleiro. A escolha por um deles deverá sair logo, apurou o Valor com uma fonte que acompanha as negociações.

A avaliação de um dos sócios é que a Samsung trabalhava contra o EAS o tempo todo, querendo levar a produção para a Coreia e inviabilizar o EAS.

A Samsung foi escolhida desde o início do projeto, sete anos atrás, para ser a fornecedora de tecnologia ao EAS na construção de navios, sondas de perfuração de petróleo e plataformas. O EAS, o maior e um dos mais modernos do país, no entanto, vinha enfrentando uma série de problemas, como atraso nas entregas, problema na construção do primeiro navio, o “João Cândido”.

O navio é primeiro petroleiro a ser lançado ao mar no âmbito do Programa de Modernização da Frota da Transpetro (Promef), mas até agora não foi entregue à subsidiária da Petrobras. Ao todo, as encomendas da Transpetro ao EAS somam 22 petroleiros e R$ 7 bilhões, dos quais cerca de 90% financiados pelo BNDES. Além de navios, há pedidos de sondas.

A saída repentina da Samsung vai na direção oposta do que desejava o governo. Nos últimos dias, a presidente da Petrobras, Maria das Graças Foster, seguindo orientação da presidente Dilma Rousseff, que está preocupada com atrasos na entrega de encomendas e com problemas tecnológicos do estaleiro, vinha negociando o aumento da fatia dos coreanos no EAS.

13/03/2012 - 08:46h BNDES prevê R$ 15 bi para financiar sondas

Zurli, do BNDES, diz que o principal risco a ser considerado é o da construção, mas existem instrumentos de mitigação


Por Francisco Góes e Cláudia Schüffner | VALOR

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) prepara-se para financiar as sondas de perfuração que vão operar em águas ultraprofundas para a Petrobras. Os valores envolvidos são bilionários e ainda não foi definido o desembolso total do banco para esses contratos. Uma estimativa da superintendência de insumos básicos do BNDES indica que o financiamento do banco pode chegar a R$ 15 bilhões. O valor considera a construção de 28 sondas encomendas pela Petrobras à Sete Brasil que devem ter índice de nacionalização médio de 55%.

O número difere em quase US$ 5 bilhões do projetado pela empresa Sete Brasil, que conta com financiamentos do BNDES de US$ 13,5 bilhões dentro de um investimento total no projeto, incluindo custos de construção e dos financiamentos, de US$ 27 bilhões. Já as contas do banco consideram um valor total para as 28 sondas de US$ 23,24 bilhões considerando um valor médio por unidade de US$ 830 milhões.

Uma explicação para a diferença de valores pode estar no percentual de bens e serviços nacionais a ser financiado pelo BNDES. O banco não informa qual será exatamente esse percentual, mas sugere um teto de até 80% na parte de serviços elegíveis para financiamento e de até 100% nos equipamentos, segundo Roberto Zurli, diretor das áreas de insumos básicos e infraestrutrura do banco. Em seu exercício para chegar a R$ 15 bilhões, o superintendente da área de insumos básicos, Rodrigo Bacellar, considerou ainda a taxa de câmbio de R$ 1,70 por dólar.

O presidente da Sete Brasil, João Carlos Ferraz, disse que a empresa tem carta do BNDES que garante financiamento de 80% do conteúdo local das sete primeiras sondas. Essas unidades terão índice de nacionalização de 62%, o que, considerando o conteúdo local de 80%, garantem financiamento de 50% do valor das sondas, segundo o executivo. As sete unidades vão custar US$ 5,2 bilhões, o que resultaria em financiamento do banco de US$ 2,6 bilhões, afirmou Ferraz. Ele projeta essa mesma estrutura financeira para chegar aos US$ 13,5 bilhões para as 28 unidades.

O diretor do BNDES afirmou que as primeiras sete sondas têm índices gerais de conteúdo nacional que começam em 55% e chegam a 65%. Mas também há requisitos específicos de nacionalização para os pacotes de perfuração e de posicionamento dinâmico que vão equipar as unidades. O banco considerou um prazo médio de amortização de 15 anos para essas sete sondas.

Considerando que o banco pode financiar até 80% dos serviços e até 100% dos bens nacionais, Zurli estima que o BNDES deve entrar com 45% a 50% do valor das sondas. Cada uma vai pertencer a uma sociedade de propósito específico (SPE) que terá a Sete Brasil e um operador como sócios. A Sete Brasil entrou com carta-consulta no BNDES para pedir financiamento para as sete primeiras unidades que serão construídas no Estaleiro Atlântico Sul (EAS), em Pernambuco. O pedido ainda está em análise.

Além da sete unidades no EAS, a Sete Brasil ganhou licitação para outras 21 sondas a serem afretadas à Petrobras em contratos de 10 a 20 anos. Zurli afirmou que o BNDES considera a construção das sondas no Brasil um projeto estratégico como resultado do impulso que pode dar ao desenvolvimento da cadeia produtiva de petróleo e gás. A iniciativa também é fundamental para o crescimento da produção da Petrobras.

As sondas também vão receber financiamentos de outros bancos e haverá investimentos próprios da Sete Brasil e dos operadores das sondas. “A ideia é estruturar a melhor forma de financiamento possível”, disse Zurli. Ele afirmou que não será criada uma nova linha de financiamento para as sondas, mas haverá operações específicas envolvendo cada unidade. O financiamento será em dólares, a moeda de referência da indústria de petróleo e gás.

Zurli afirmou que houve um esforço do BNDES para tentar reduzir ao máximo o custo dos financiamentos e acrescentou que a área de crédito do banco vai precificar as operações de acordo com a estrutura de garantias. O principal risco a ser considerado é o da construção, mas na visão dele existem instrumentos de mitigação, entre os quais seguro de performance e o Fundo Garantidor da Construção Naval (FGCN), gerido pela Caixa Econômica Federal (CEF) e que cobre 50% do risco de construção. O FGCN é interessante, segundo ele, para cobrir eventuais atrasos na construção das sondas.

08/03/2012 - 11:02h As 18 mulheres do pré-sal brasileiro

Petrobras tem 15,4% do efetivo formado por mulheres, menos do que cursos de Engenharia

Clarice Spitz – O GLOBO

8/03/12

RIO — Já forma um time de futebol, mas ainda não dá uma partida. A Petrobras tem hoje apenas 18 mulheres com o crachá como o da presidente da empresa trabalhando em plataformas do pré-sal, um dos projetos mais promissores da economia brasileira. Elas são apenas 4% dos funcionários dessas unidades de produção _o que corresponde a uma proporção de 23 homens para cada mulher_ percentual que desafia a presença feminina em cursos de Engenharia. Dos cinco mil alunos matriculados na Escola Politécnica da UFRJ, 30% são mulheres. Na engenharia civil, chegam a 40%.

FOTOGALERIA: Veja imagens das mulheres que trabalham na estatal

Na empresa comandada por Graça Foster, ela própria a segunda mulher na empresa a subir em uma plataforma, as funcionárias ainda vivem em um ambiente dominado por homens, mas que vem mudando de cara lentamente. As mulheres representam hoje 15,4% do efetivo da estatal. Em 2003, eram 12,1%. A maior parte das embarcadas no pré-sal não tem filhos ou é casada há pouco tempo.

Além das 18 do pré-sal, há muitas outras terceirizadas nas plataformas da empresa. A estatal não passa os números, mas segundo o Sindipetro-NF, as terceirizadas são de longe a maioria entre as mulheres nas plataformas (de todos os tipos) do Norte Fluminense: com um placar de 1.707, contra 254 efetivas.

Poucas mudanças na rotina de trabalho

Sobre o que mudou no pré-sal? Muitas dizem que a rotina de trabalho pouco se alterou. Citam a viagem de helicóptero até a plataforma, que agora ficou mais longa (cerca de uma hora e vinte minutos), e o aumento da cobrança por rapidez nos resultados.

— O trabalho é basicamente o mesmo, mas a plataforma ganhou mais visibilidade na mídia por causa do pré-sal — afirma a técnica de suprimentos Adriana Souza da Cruz, 29 anos, embarcada há três na P-53, na Bacia de Campos.

Embora não falem em discriminação ou preconceito, reconhecem que passaram por um sentimento de “estranheza” quando começaram.

—Agora é tranquilo. No início teve um pouco de estranheza pelo fato de ser mulher, tradicionalmente nas plataformas onde a maioria de trabalhadores é homens. Mas, a cada dia que passa, há mais mulheres chegando. A mulher sendo competente e sabendo se colocar não tem problema – diz ainda Adriana.

Do total de funcionários com nível superior na estatal hoje, 20,8% são mulheres. Entre as 18 funcionárias do pré-sal, uma ocupa função com nível superior e as outras 17 são técnicas, embora muitas dessas tenham formação superior. Na posição de liderança, a Petrobras tem hoje 960 gerentes mulheres – o número quase dobrou de 2003 para cá, quando eram 526. Entre os homens, o comando fica com 5.013 deles.

Conversar pelo Skype com o marido

A química Cândida Carolina de Paula Santana, 30 anos, trabalha na FPSO Cidade Angra dos Reis, na Bacia de Santos, fiscalizando a atuação da da Modec, operadora da plataforma. Casada há um ano, desde outubro do ano passado está embarcada. Ela diz que a função é conveniente. O marido trabalha como engenheiro para a indústria automobilística no Uzbequistão, na Ásia. Nos 21 dias que tem de descanso, ela voa para encontrá-lo. Quando está embarcada, sua rotina inclui conversas pelo Skype, a leitura de um livro, quando há tempo, e os momentos em que socializa com os colegas no refeitório.

—É bem intenso quando se trabalha, mas depois quando tem a folga, há longo período de descanso. Exige planejamento, tenho minhas contas todas no débito automático — afirma.

A técnica de operações Vívian Patrícia de Paula Reis trabalha na sala de controle, junto a monitores e telas, acompanhando os dados de exploração, sem nenhuma outra mulher para tratar diretamente. Está há quase quatro anos na P-53. Namora, tem 28 anos e acha que por enquanto é difícil compatibilizar a ideia de filhos com o trabalho que leva.

—Ter filho para nós, pelo menos por um período, é inviável porque passamos muito tempo fora de casa. É complicado ter um bebezinho e estar embarcando — diz.

“Não temos que ouvir só futebol”

A engenheira Ana Maria Blanco, da Gerência de Desenvolvimento de Projetos do Pré-Sal, vê uma mudança no panorama das mulheres dentro da empresa, desde que começou na empresa, trabalhando embarcada, na década de 80.

— Quando comecei havia muito poucas mulheres. Hoje, no departamento que trabalho, somos 42 pessoas, sendo que a metade, mulheres. O ambiente fica mais equilibrado, mais agradável, não temos que ouvir só futebol — afirma.

Se a ascensão de Graça Foster acelera o espaço das mulheres na empresa? As opiniões são divididas, mas boa parte acha que a escalada profissional está mais ligada ao empenho pessoal.

—Não sei, acho que a mudança principal tem a ver com a competência – considera Ana Maria.

Segundo a Petrobras, na área de pesquisa, as mulheres também aumentam a participação. Em 2002, antes da descoberta do petróleo na camada pré-sal, 113 mulheres atuavam nas atividades de pesquisa e desenvolvimento relacionadas à Exploração e Produção, no Cenpes. Hoje são 162 mulheres dedicadas às atividades de pesquisa ligadas ao pré-sal.

“18 virou número cabalístico”

A economista Hildete Pereira, especialista em gênero e pobreza no Brasil, lembra que além do número funcionárias do pré-sal, 18 também é o número de mulheres que ocuparam cargo de ministras na república brasileira. A conta vai até 2010 e não considera o governo Dilma.

— É um número que parece ter virado cabalístico. Temos nas plataformas do pré-sal, que são as plataformas do futuro também 18 mulheres, o que permite pensar que o poder pode ser dividido entre calças e saias — afirma.

Hildete considera um avanço a petrolífera ser comandada pela primeira vez por uma mulher, em um setor eminentemente masculino, mas lembra que no Parlamento e nas empresas, elas ainda estão em menor número.

—As mulheres são muito boas para administrar a pobreza, tomar conta da casas, gerir o Bolsa Família, mas para gerir a riqueza e o poder, chamam os homens. Isso ainda acontece no mundo inteiro — afirma.

05/03/2012 - 20:44h Petrobras não vai aumentar preços de combustíveis, diz Graça Foster

Marca internacional de US$ 125 o barril é apenas pico de preços, garante presidente

Ramona Ordoñez – O GLOBO

RIO – A Petrobras não planeja aumentar os preços da gasolina ou do óleo diesel neste momento, garantiu há pouco a presidente da companhia, Maria das Graças Foster. Para a dirigente da empresa, o fato de o preço do petróleo ter atingido US$ 125 o barril no mercado internacional não representa um novo patamar, mas apenas um pico de preços.

- Não existe nenhuma ação em curso entre a Petrobras e o governo federal para aumentar os preços dos combustíveis. Não tem nenhuma data prevista – garantiu Graça Foster.

A presidente falou sobre o assunto após participar do lançamento da 6ª edição do Prominp (Programa de Mobilização da Indústria Nacional de Petróleo e Gás Natural), que tem como objetivos capacitar a indústria nacional e qualificar pessoal para atender à demanda da companhia nos próximos anos. As inscrições para o processo de seleção pública do Prominp para atender a futura necessidade de mão de obra na indústria nacional de petróleo e gás começam nesta quarta-feira, dia 7 de março.

Graça Foster fez questão de anunciar a nova fase do programa, no qual serão oferecidas 11.671 vagas em 14 estados, para cursos gratuitos em categorias profissionais de níveis básico, médio, técnico e superior. Os estados incluídos no 6º ciclo de seleção pública do Prominp, com o respectivo número de vagas, são: Amazonas (562), Bahia (920), Ceará (212), Espírito Santo (387), Maranhão (130), Minas Gerais (180), Mato Grosso do Sul (708), Pernambuco (384), Rio de Janeiro (4.602), Rio Grande do Norte (485), Rio Grande do Sul (1.192), Santa Catarina (524), Sergipe (364) e São Paulo (1.021).

Petrobras está preocupada com estaleiros

Ela disse ainda que Petrobras está preocupada com a capacidade de os estaleiros instalados no Brasil conseguirem atender a forte demanda de encomendas, principalmente das 35 sondas para o pré-sal, nos próximos anos. Segundo ela, todo o trabalho que vem sendo feito pela companhia, como o lançamento da nova etapa do Prominp (Programa de Mobilização da Indústria Nacional de Petróleo e Gás Natural), é justamente para garantir que a indústria nacional possa atender a demanda de forma competitiva e sustentável.

- Todo esse trabalho que fazemos é fruto da nossa preocupação de que a indústria nacional possa nos atender com bases competitivas e sustentáveis. Ser um estaleiro virtual não é um problema, o problema é não fazer nada para deixar de ser virtual, aí é um problema real – afirmou Graça.

Estão sendo chamados estaleiros virtuais aqueles que ainda não existem fisicamente, mas que ganham encomendas da Petrobras a partir das quais são construídos. O Estaleiro Atlântico Sul, em Pernambuco foi um dos primeiros estaleiros virtuais, que só passaram a existir após receber a encomenda de uma série de navios petroleiros da Petrobras.

- Essa solução em relação a pessoal e oferta de serviços é fundamental para conseguirmos nossas metas a partir de 2014/15 – destacou Graça.

A presidente disse que hoje, inclusive, teve uma longa reunião com os executivos da Sete Brasil, empresa que ganhou a licitação para construir ao todo 28 sondas de perfuração no país.

- Tudo que diz respeito a sondas nos preocupa. E tudo tem que ser muito bem administrado e acompanhado – afirmou Graça.

Segundo a presidente, estaleiros virtuais como o da Jurong Aracruz, no Espírito Santo, que ainda não saiu do papel, não estão atrasados.

- Existem uma série de discussões entre as partes que estão buscando um novo modelo de negócios para se tornarem mais eficientes. O contrato que eu tenho é com a Sete Brasil, então a cobrança forte é com eles – afirmou Graça.

Petrobras busca vazamento zero

Ao se referir ao vazamento de gás natural ocorrido na última sexta-feira na plataforma P-51, a presidente da Petrobras disse que a companhia trabalha para não acontecer nenhum vazamento. O total de óleo vazado ano passado foi de 234 mil litros, abaixo do limite máximo fixado pela companhia que é de 600 mil litros por ano.

- A gente planeja vazamento zero. Vazamento é completamente inadmissível, não trabalhamos para contabilizar vazamentos. Mas no ano passado o volume de óleo vazado foi menor do que no ano anterior – destacou Graça.

No ano passado, o total de vazamentos em todas as atividades da Petrobras foi de 234 mil litros, contra 668 mil litros no ano anterior. Esse volume representou uma média de 600 litros por dia para uma produção de 218 milhões de litros por dia de petróleo (2 milhões de barris/dia). A Petrobras destaca que o total de vazamentos de 234 mil litros se refere a todas as atividades da companha da produção, ao refino e transporte. A Petrobras informou ainda que mais da metade do volume de óleo vazado ano passado se referiu a acidentes rodoviários com caminhões da Petrobras Distribuidora.

No ano anterior o volume foi significativamente elevado, de 669 mil litros, devido a um problema em um oleoduto terrestre no Rio Grande do Norte, que apresentou problemas na solda.

05/03/2012 - 15:48h Governo quer Samsung no controle de estaleiro em PE

Por Cristiano Romero e Carlos Prieto | VALOR

De São Paulo

SÃO PAULO – Com o aval da presidente Dilma Rousseff, a presidente da Petrobras, Maria das Graças Foster, está negociando nos bastidores a troca do controle acionário do Estaleiro Atlântico Sul (EAS), localizado no Porto de Suape, em Pernambuco. O plano é fazer com que a coreana Samsung Heavy Industries compre a participação dos outros sócios ou adquira o suficiente para ter o controle acionário da empresa.

Inaugurado em 2005, o estaleiro é o maior do Brasil, com capacidade para processar 160 mil toneladas/ano de aço, e tem como principais sócios os grupos Camargo Corrêa e Queiroz Galvão. Embora seja a responsável pelo know-how do projeto, a Samsung detém hoje participação pequena no estaleiro – 6%. O quarto sócio da empresa é a PJRM Empreendimentos.

O governo decidiu forçar a mudança do controle do Estaleiro Atlântico Sul por considerar que a empresa, um símbolo do renascimento da indústria naval brasileira, não está conseguindo atender a demanda da Petrobras. O EAS tem 22 navios contratados com a Transpetro, empresa controlada pela Petrobras, dos quais em construção efetiva existem apenas quatro. As encomendas da estatal ao estaleiro totalizam carteira de projetos estimada em R$ 7 bilhões.

A presidente Dilma, que trocou recentemente o comando da Petrobras, está preocupada com o baixo desempenho da estatal, que, nos últimos dois anos, perdeu a autossuficiência na produção de petróleo. “A velocidade da produção de petróleo não está acompanhando a velocidade do consumo”, observa um auxiliar da presidente.

Dilma deu carta branca à Graça Foster para negociar mudanças no controle acionário do EAS. Quando a sociedade que deu origem ao estaleiro foi montada, os sócios brasileiros impediram que a Samsung tivesse participação maior. Além de deter tecnologia de ponta, a empresa coreana é uma das lideres mundiais em construção naval. Seu estaleiro na Coreia do Sul tem capacidade para processar 600 mil toneladas de aço por ano, quase quatro vezes a capacidade do EAS.

Os sócios resistem a mudanças, mas o governo vai insistir. Procuradas, a Camargo Corrêa e a Queiroz Galvão disseram que não comentariam o assunto. O EAS nega a transferência do controle, mas informou que a colaboração dos coreanos foi recentemente “reforçada com a chegada de novos profissionais”.

(Cristiano Romero e Carlos Prieto | Valor)

27/02/2012 - 08:44h Aumento de preços pressiona Petrobras

Por Cláudia Schüffner | VALOR

Do Rio

O embargo da União Europeia ao petróleo iraniano como represália ao programa nuclear daquele país vai pôr mais pressão sobre os preços da gasolina e diesel comercializados pela Petrobras no Brasil. Tanto o petróleo tipo Brent, usado como referência na Europa, como o WTI, do mercado americano, estão subindo rapidamente. O Brent chegou a ser cotado a US$ 125 na sexta-feira e os contratos para entrega em maio fecharam o dia cotados em US$ 124,48 o barril depois que a Agência Internacional de Energia Atômica divulgou um relatório mostrando um aumento do programa nuclear do Irã e da produção de urânio enriquecido.

No ano, a alta do Brent já chega a 16,48%, ante 12,03% nos últimos 12 meses. Em euro, a cotação na sexta também foi a maior desde julho de 2008. A nova crise internacional do petróleo ocorre em um momento em que a Petrobras está com preços defasados e aumentou importações, pagando em dólar e a preços internacionais pelos derivados trazidos do exterior para suprir o mercado interno.

Essa combinação de fatos aumentou o processo de sangria das receitas da companhia e deve ficar mais crítica com a nova alta dos preços internacionais. A estatal vinha deixando de elevar suas receitas por não vender derivados no Brasil pelos preços que obteria se fossem oferecidos no mercado internacional. Mas, com a retomada de pesadas importações, o impacto dos subsídios passou a ser sentido direto no caixa.

Os resultados da atual política de preços são difíceis de mensurar, pois a Petrobras não divulga detalhes de sua política comercial. Mas não faltam projeções. O Centro Brasileiro de Infra Estrutura (CBIE) calcula que a estatal teve prejuízo de R$ 3,7 bilhões somente com importações de gasolina e diesel em 2011, valor que pode subir para R$ 6,1 bilhões em 2012. O economista Adriano Pires destaca que o impacto pode ser maior, já que os cálculos foram feitos tomando como base a cotação de US$ 100 o barril de petróleo, com o câmbio a R$ 1,80 e sem considerar reajustes de preços no mercado doméstico.

“Estamos prevendo um crescimento de 20% das vendas, inferior aos 24% de 2011, e crescimento de 240% nas importações em 2012, o que é conservador, já que em 2011, em relação ao ano anterior, elas cresceram 300%. O problema da Petrobras é que sua capacidade de refino bateu no teto e qualquer crescimento adicional será por meio de importações até que as novas refinarias fiquem prontas”, afirma Pires, para quem as perdas totais da Petrobras este ano podem ficar entre R$ 12 bilhões e R$ 15 bilhões.

Um relatório do Bank of America (Bofa) Merrill Lynch, divulgado na sexta-feira, lembra que se o petróleo continuar subindo poderá prejudicar a meta do Brasil de obter um superávit primário de 3,1% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2012. Isso porque há riscos ascendentes de uma transmissão dos preços dos combustíveis para a inflação. O analista Marcos Buscaglia, autor do relatório, vê poucos mecanismos para controlar um eventual aumento dos preços. E cita apenas duas possibilidades: a redução da Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide) ou da mudança do percentual de mistura de etanol na gasolina, ressaltando que elas podem prejudicar a meta de inflação.

A estimativa do Bofa é que os preços da gasolina no Brasil estão com 15% de defasagem em relação aos preços internacionais, enquanto no diesel é de 13%. Esse “desconto” é maior do que a defasagem de 5% e 3%, respectivamente, que existia em março de 2011.

O cenário global pode piorar a partir de 1º de julho, quando entra em vigor o embargo que pode reduzir entre 500 mil e 700 mil barris ao dia – as estimativas variam – as importações dos países membros da União Europeia originárias do Irã. Adicionalmente, os Estados Unidos ameaçam com sanções a quem furar o embargo, o que deve reduzir as compras da India.

Na Zona do Euro, o Deutsche Bank aponta que as maiores reduções das importações serão da Itália (190 mil barris), Espanha (160 mil) e Grécia (120 mil). Esses países já começaram a cortar importações do Irã, que foi substituído pela Arábia Saudita, maior produtor do mundo. O reino saudita tem capacidade ociosa de produção de 2 milhões de barris ao dia, o equivalente à capacidade de produção da Petrobras.

Greg Priddy, diretor global da área de petróleo da consultoria Eurasia Group destaca que nos últimos dois meses houve alta de 300 mil barris nas exportações de petróleo leve da África em direção à China, enquanto, em fevereiro, o Irã exportou 400 mil barris a menos. Ele chama a atenção para o fato de a China ter motivações comerciais para a medida, pois a trading estatal Unipec estava em renegociação do contrato de venda a termo entre os dois países concluído semana passada. Agora, segundo Priddy, a expectativa é de que o Irã tente cooptar compradores, reduzindo seus preços. Para o mercado, essa nova tensão está longe de um desfecho.

13/02/2012 - 10:54h Com Gabrielli, Petrobras fica mais perto do governo


José Sergio Gabrielli, ex-presidente da Petrobras, e Graça Foster, atual presidente, na divulgação do balanço da empresa


Por Cláudia Schüffner | VALOR

Do Rio

Depois de nove anos na Petrobras, seis dos quais na presidência, o economista José Sergio Gabrielli deixa a companhia em um trimestre de resultados bastante fracos. As ações reagiram mal ao balanço de outubro a dezembro e caíram 8,3% (ordinárias) e 7,8% (preferenciais) no fechamento de sexta-feira. Nos comentários sobre os números, os analistas só fizeram um elogio: à indicação do engenheiro José Formigli, atual gerente-executivo do pré-sal, para a diretoria de exploração e produção, no lugar de Guilherme Estrella. “Formigli é um técnico respeitado, ponderado e realista. Tem credibilidade e talvez consiga trazer metas mais realistas para a empresa”, disse Emerson Leite, do Credit Suisse.

O analista se refere a um ponto nevrálgico para qualquer empresa de petróleo: a produção. Entre 2003 e 2011, a da Petrobras cresceu pouco mais de 30%, de 1,5 milhão para 2 milhões de barris, enquanto os investimentos saltaram 280%, para R$ 72,5 bilhões. A produção da empresa anda de lado, não vem atingindo as metas estabelecidas pela própria companhia e fechou 2011 com uma média de 2,022 milhões de barris por dia. Os custos e despesas operacionais também são ascendentes e subiram 27,1% no ano passado.

Se de um lado as reservas cresceram desde 2003 com as descobertas no pré-sal, algumas inclusive ainda não contabilizadas, a Petrobras vem tendo dificuldade de apresentar resultados que justifiquem a máxima de John Rockfeller de que uma empresa de petróleo é “o melhor negócio do mundo”.

O baiano Gabrielli, que volta para Salvador para trabalhar em uma secretaria do governador Jaques Wagner (PT), é muito querido pelos funcionários da Petrobras, mas não deixa saudades no mercado, de quem ganhou antipatia depois da sua participação em defesa dos interesses do governo no processo de capitalização da companhia.

A avaliação dos menos críticos à sua gestão é que ela correu “frouxa” e em um ambiente em que cada diretor cuidava dos interesses de sua área de forma independente, como se a empresa fosse compartimentada. Gabrielli, de fato, é um “intelectual” que nunca procurou exercer pela força o poder do cargo que ocupava. É justamente essa característica, elogiada pelos mais próximos dele, que o mercado espera que seja revertida na gestão da nova presidente, Graça Foster. A engenheira, que toma posse hoje, é considerada mais firme, dura e focada na gestão e nos resultados que seu antecessor.

A notória proximidade de Graça com a presidente Dilma Rousseff e a forma como a relação poderá funcionar em benefício dos interesses da Petrobras – que nem sempre são os do governo – são algumas incógnitas que o mercado agora tenta desvendar. Em um relatório para clientes do Eurasia Group, o analista Christopher Garman fez uma leitura que é parecida com a de muitos: “A proximidade de Graça com Dilma significa que a Petrobras não encaminhará interesses corporativos que possam estar em desacordo com as prioridades do governo. Ao mesmo tempo, Foster está provavelmente mais bem posicionada para defender os interesses da empresa por trás de portas fechadas, por causa de sua proximidade com a presidente.”

Apesar da avaliação quase unânime de que Gabrielli, assumidamente um homem “de partido” (é vinculado ao PT desde a fundação do partido, em 1980), era ideológico e não defendeu a companhia, isso pode não ser de todo verdade. Ficaram conhecidos alguns embates dele com a presidente Dilma e, mais recentemente, sua vã tentativa de convencer a Fazenda a autorizar a equalização dos preços. Mas ele nunca admitiu discordância do governo e, em público, tornou-se ferrenho defensor das medidas consideradas negativas para a companhia pelos analistas.

O analista Marcus Sequeira, do Deutsche Bank, escreveu em relatório que o principal legado de Gabrielli foi o fato de a Petrobras ter se aproximado do governo, especialmente após a descoberta do pré-sal. “Sob sua gestão, o desempenho financeiro da empresa refletiu um forte aumento de preço do petróleo que compensou o limitado crescimento da produção”, escreveu o analista, concluindo que o investimento aumentou acentuadamente, mas o retorno sobre o capital empregado [tanto dos acionistas quanto dos credores] na empresa caiu.

De fato, durante a gestão de Gabrielli a Petrobras passou por uma grande transformação. Mudou o patamar de reservas com o pré-sal, realizou a maior capitalização da história do mercado (US$ 70 bilhões) e obteve o grau de investimento pela Moody´s em 2005. A descoberta do pré-sal aumentou o apetite do governo pela empresa e também seu suposto uso político.

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva “adotou” a Petrobras quase como um símbolo de seu governo, pegando carona no brilho da empresa que era uma estrela na bolsa. Em dezembro de 2007, a estatal atingiu seu maior valor de mercado: R$ 430 bilhões, o equivalente a 3,4 vezes o patrimônio. A situação piorou drasticamente desde então. No fim de 2011, a empresa valia menos que o patrimônio (0,9 vez), e agora o valor de mercado está igual ao patrimonial.

Uma das maiores críticas de investidores e analistas refere-se ao controle de preços dos combustíveis no mercado interno para o cumprimento de metas macroeconômicas. Poucas vezes o efeito ruinoso dessa política ficou tão claro como no balanço de 2011. Segundo cálculos do Centro Brasileiro de Infraestrutura, a defasagem média do preço do diesel em 2011 foi de 16% e a da gasolina ficou em 15%.

Para manter a política de preços alinhados no longo prazo e não no curto, a Petrobras teve que comprar combustíveis fora do país pagando em dólares para suprir o crescimento do consumo no Brasil. Pagou mais caro e não pode repassar o custo. “Em 2011, a Petrobras perdeu R$ 500 milhões somente vendendo gasolina importada mais barata”, diz Adriano Pires, do CBIE, que calcula em R$ 7,9 bilhões o saldo negativo da empresa com derivados no ano.

A exigência de maior conteúdo nacional nas compras de bens e serviços também deu à companhia a responsabilidade de reerguer a indústria naval brasileira, e o preço já está sendo pago por meio de atrasos na produção atual e futura. Esse é um consenso de mercado.

12/02/2012 - 10:33h ‘No modelo do pré-sal, a Petrobrás dirige o processo’

Gabrielli, que deixa a presidência da estatal amanhã, defende as mudanças na empresa e no marco regulatório

12 de fevereiro de 2012

FERNANDO DANTAS / RIO – O Estado de S.Paulo

Para José Sergio Gabrielli, que deixa a presidência da Petrobrás amanhã, o modelo para o setor de petróleo e gás implantado pelo PT fortalece a Petrobrás e a cadeia nacional de fornecimento à indústria petrolífera.

O que o Brasil ganhou com a mudança do modelo do setor de petróleo entre o governo FHC e os de Lula e Dilma?

Fizemos um modelo muito bonitinho, com uma empresa-âncora como a Petrobrás fortalecida, capitalizada, com condições de dirigir o processo. Um marco regulatório com as áreas de risco exploratório baixo onde o governo vai ter uma parcela maior no bolo futuro, mantendo-se a concessão para as áreas com alto risco exploratório. E você tem ainda a intensificação da política de conteúdo nacional, fazendo com que a expansão e o crescimento da exploração do petróleo no pré-sal tenha como limitador de velocidade a capacidade de a indústria brasileira responder, fornecendo os bens e serviços necessários.

Quais os ganhos para o País de a Petrobrás ter ficado com tanto poder?

O fato de ser operadora única permite maximizar sinergias que ela tem da infraestrutura existente e viabilizar soluções para problemas. Vale recordar o que aconteceu conosco em 2007. Tínhamos duas sondas na frota da Petrobrás com capacidade de perfurar mais de 2,5 mil metros de lâmina d’água, e tivemos de usá-las para delimitar as novas descobertas do pré-sal. As nossas sondas tinham custo de US$ 200 mil a US$ 250 mil por dia, o mercado alugava na época por US$ 700 mil dólares por dia, mas nem por esse preço conseguimos encontrar sondas para os campos já existentes. Pensamos em construir sondas, mas não encontramos lugar para fazer estaleiro, e o desespero começou a bater. Foi aí que decidimos fazer um programa de larga escala e longo prazo que vai viabilizar a construção de estaleiros no Brasil, para que eles construam sondas para nos entregar daqui a algum tempo (a Petrobrás acaba de encomendar 26 sondas de perfuração para o pré-sal). Daqui a quatro, cinco anos, o mercado de sonda mundial será outro, porque nós somos muito grandes nesse mercado e estamos estimulando a criação de vários estaleiros dedicados à construção de sondas.

E qual a vantagem de uma política industrial que desloque investimentos para o setor de petróleo e gás?

A indústria de petróleo em si não é muito empregadora de mão de obra. Mas a cadeia de fornecimento de equipamentos e serviços para a indústria de petróleo é extremamente integrada com o conjunto das atividades econômicas. Há milhares de atividades relacionadas com a fabricação de uma sonda e outros equipamentos da indústria petrolífera. Além disso, a tecnologia desenvolvida extrapola o setor.

Como assim?

Montamos uma rede de pesquisa no Brasil extraordinária, mais de 50 redes temáticas, com temas diferentes relacionados com petróleo. Temos envolvimento com universidades e centros de pesquisa no Brasil inteiro, construímos laboratórios, temos milhares de estudantes envolvidos nessas pesquisas, centenas de pesquisadores, com uma capacidade de desenvolvimento de pesquisa empírica que vai ser importante para o petróleo, mas não só. Porque o cara que está estudando bactérias que se alimentam de enxofre vai usar esse estudo para várias coisas, não só para o petróleo. O mesmo pode ser dito do sujeito que estuda nanotecnologia para sensibilidade de superfície de tubulações, ou está desenvolvendo sistemas de informática para entendimento de comportamento dos reservatórios, que são intensivos em processamento de dados. É um complexo de pesquisa e desenvolvimento que não é só voltado para o petróleo.

Por que a Petrobrás se expandiu tanto nos últimos anos. Isso não piora a competição e a eficiência?

Está estatisticamente comprovado que a empresa petrolífera integrada é mais rentável no longo prazo do que as dedicadas exclusivamente ao “upstream” (exploração e produção), ou ao downstream (refino, distribuição, etc.). Dado o tamanho da Petrobrás no mercado brasileiro, a integração é mais importante ainda. Nós importamos todos os tipos de derivados hoje, porque a última refinaria construída no Brasil foi em 1980. E agora uma nova refinaria vai entrar em operação em 2013 (Abreu e Lima, em Pernambuco). Sem nova refinaria, nós sairíamos de uma situação hoje em que importamos mais ou menos 10% a 15% do mercado brasileiro para importar 45% daqui a dez anos. E qualquer empresa que esteja no controle desse mercado vai investir para garantir sua posição, mesmo sabendo que as margens de refinaria são muito mais voláteis do que as margens na exploração e produção.

Qual a vantagem da política de preços de derivados da Petrobrás, que hoje provoca perdas?

A grande vantagem dessa política é ter uma estabilização do fluxo de caixa da empresa. O desabamento dos preços depois da crise global foi um desastre para o fluxo de caixa de muitas empresas petrolíferas, mas não atingiu a Petrobrás.

O sr. se preocupa com a queda das ações da Petrobrás (as ON caíram 8,28% na sexta, com o mau resultado do 4º trimestre)?

Descobri recentemente uma informação técnica importante: em cada dez ações negociadas da Petrobrás no mercado de Nova York, nove são negociadas por robôs. São negociações indexadas, ou seja, a decisão de vender ou comprar as ações são feitas com base em algoritmos computacionais com ordens automáticas. Só uma em dez tem uma decisão de um gestor baseado em expectativas. O movimento das ações da Petrobrás tem a ver muito mais com a dinâmica dessas operações do que com a decisão de um acionista minoritário que está revoltado porque a Petrobrás está dando menos lucro do que ele queria.

08/02/2012 - 13:11h PDVSA não consegue garantias para a parceria com Petrobrás em refinaria


Para ficar com 40% do capital, venezuelana tinha até dia 31 de janeiro para entregar documentação ao BNDES; 50% da obra está pronta

08 de fevereiro de 2012

GLAUBER GONÇALVES / RIO – O Estado de S.Paulo

A PDVSA avisou ontem oficialmente à Petrobrás que não conseguiu concluir a comprovação das garantias exigidas pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para a sua entrada no projeto da refinaria de Abreu e Lima, em Pernambuco. A carta encaminhada à Petrobrás é mais um revés na novela que se tornou a entrada da venezuelana como sócia na construção da refinaria, negociada desde 2005.

Sem revelar muitos detalhes do documento, o diretor de Abastecimento da Petrobrás, Paulo Roberto Costa, adiantou que a PDVSA não pediu adiamento de prazo para entrega da documentação, que se encerrou em 31 de janeiro. Porém, deixou uma porta aberta para futuros acordos, já que não manifestou interesse em abandonar o projeto.

“Só há dois caminhos a seguir, ou se prorroga o prazo ou se cancela (a parceria)”, disse Costa, prometendo uma decisão nos próximos dias. “Talvez cinco dias”, estimou.

Para entrar de vez no projeto e ficar com 40% do capital da refinaria, a PDVSA precisa da aprovação do BNDES para as garantias oferecidas para que ela assuma o pagamento de parte do empréstimo de R$ 10 bilhões tomado pela Petrobrás para tocar a primeira parte das obras.

Segundo Costa, o BNDES já deu sinal verde às entidades bancárias apresentadas pela PDVSA, mas ainda faltaria apresentar a documentação referente às garantias. “Isso (o primeiro aval do banco) não é suficiente. É preciso fechar os contratos”, disse.

Se a Petrobrás decidir por prorrogar o prazo dado à PDVSA, numa segunda etapa a empresa venezuelana teria de ressarcir a estatal em dinheiro pelo valor já aportado no início das obras, antes da liberação do financiamento do BNDES. Nessa conta entram os montantes que a Petrobrás desembolsou em janeiro e fevereiro deste ano, após o fim do empréstimo, no mês anterior.

Sem demonstrar preocupação com a não entrada da PDVSA no negócio, Costa disse que, se preciso, a Petrobrás vai concluir a planta sozinha. “Nós precisamos da refinaria. Estamos com 50% dela pronta e vamos concluí-la. Agora, se a PDVSA entrar, será muito bem vinda”, declarou.

Segundo Costa, 50% das obras da refinaria de Abreu e Lima já estão concluídas. A previsão de entrega do empreendimento no ano que vem está mantida, assegurou o executivo, ressaltando que a única coisa que pode atrapalhar o projeto são as chuvas. “Se a meteorologia não for desfavorável, estamos perseguindo junho de 2013″

Refino. A Petrobrás prevê que suas refinarias fecharão 2012 com uma produção diária média superior a 1,9 milhão de barris, afirmou ontem Costa. O número é superior ao 1,850 milhão de barris registrado em 2011.

“A eficiência operacional das unidades está muito alta e tenho menos paradas programas de manutenção”, disse o executivo ao elencar os fatores que levarão a uma produção maior este ano. De acordo com ele, a média de refino desde janeiro está acima de 1,9 milhão de barris/dia. Segundo ele, o nível de utilização das refinarias é recorde.

Costa informou que a média diária de importação de gasolina desde o começo do ano está em 80 mil barris por dia. O volume é superior à média de 45 mil barris/dia de 2011, mas está abaixo dos picos de 100 mil barris/dia registrados no fim do ano passado.

02/02/2012 - 08:32h Petrobras capta US$ 7 bi no exterior

Por Fernando Travaglini | VALOR

De São Paulo

A Petrobras concluiu ontem a maior captação de recursos de uma empresa brasileira no exterior, no valor de US$ 7 bilhões. A demanda, que superou US$ 25 bilhões, mostra o apetite dos investidores estrangeiros pelos papéis de companhias nacionais e aponta também o bom momento para a renda fixa internacional.

A estatal lançou US$ 1,25 bilhão em papéis com vencimento em três anos e outros US$ 1,75 bilhão em títulos de cinco anos. Além disso, a empresa realizou a reabertura de seus bônus com vencimento em 2021 (US$ 2,75 bilhões) e em 2041 (US$ 1,25 bilhão).

“O tamanho de algumas ordens me surpreendeu. Mostra que os investidores estão sentados em cima de muito dinheiro para as operações ainda por vir”, diz Richards Dubbs, chefe da área de renda fixa da BB Securities em NY, braço do Banco do Brasil para o mercado de capitais internacional. O BB liderou a operação ao lado de Citigroup, Itaú BBA, J.P. Morgan, Morgan Stanley e Santander.

“A Petrobras conseguiu seu objetivo de obter taxas bem baixas”, diz Cristina Schulman, chefe da área de renda fixa do Santander, que também liderou a operação. A Petrobras esperou o melhor momento para acessar o mercado, após a recuperação dos títulos negociados no mercado secundário. “Foi uma estratégia que deu certo”, diz.

O retorno para o investidor ficou em 3,051% ao ano para os papéis de três anos e de 3,628% ao ano para os títulos de cinco anos. Nas duas operações de reabertura, a taxa ficou em 4,796% ao ano para os títulos de 10 anos e de 5,935% ao ano para 30 anos.

De fato, as taxas estão em queda, à medida que o mercado fica mais receptivo. A demanda elevada pelos papéis brasileiros – que superou os US$ 50 bilhões nas 11 emissões já realizadas no ano – ajuda a puxar para baixo os custos dos negócios. Soma-se a isso, o preço dos títulos soberanos americanos, as “treasuries”, que atingiram nessa semana um dos patamares mais baixos da história – essas taxas servem de referência para as captações privadas.

Além disso, os prêmios de risco pagos pelas companhias brasileiras ficaram entre os menores do mundo. Em média, as taxas das colocações brasileiras tem ficado entre 10 e 20 pontos básicos acima dos preços dos papéis negociados no mercado secundário (medida conhecida como “new issue premium”). Essa mesma média ao redor do globo gira entre 20 e 25 pontos básicos.

Com a transação da Petrobras, o total de recursos atraídos pelo Brasil neste ano soma US$ 13,075 bilhões, volume 27% superior ao mesmo período do ano passado (US$ 10,33 bilhões). E há pelo menos outras seis companhias na fila que podem trazer mais US$ 2 bilhões já nas próximas semanas. A própria Petrobras deve acessar novamente o mercado internacional em três ou quatro meses.

As empresas de mais alto risco também já conseguem acessar os mercados internacionais, como foi o caso de JBS e Banrisul. Outras companhias, como Cimento Tupi, Virgolino Oliveira, Grupo Farias e Minerva estão em processo de “roadshow”.

A operação do Grupo Farias, por exemplo, produtora de açúcar e álcool, começou a visitar investidores nessa semana e mesmo nunca tendo acessado os mercados internacionais vem tendo uma aceitação muito boa por parte dos investidores, segundo fonte próxima à operação.

As empresas estão aproveitando o bom humor do mercado neste início de ano para antecipar captações, mas o primeiro mês foi até mais ativo do que o esperado pelos bancos de investimentos. Houve uma grande procura por papéis brasileiros e as taxas ficaram em linha com o esperado.

Mas um fato chama atenção nesse primeiro mês: quase todas as companhias optaram por reabertura de operações antigas. Ao recolocar mais papéis de uma transação realizada no passado, as companhias ganham tempo e podem aproveitar dias de melhor humor dos investidores em meio à volatilidade ainda presente.

31/01/2012 - 10:00h Planeta pré-sal


Petrobrás financia pesquisas em cinco universidades para reduzir a margem de erro na exploração de petróleo na costa brasileira

31 de janeiro de 2012

Leonardo Soares/AE

Os alunos da Poli Guilherme e Ana no TPN, laboratório financiado pela Galileu - Leonardo Soares/AE

Os alunos da Poli Guilherme e Ana no TPN, laboratório financiado pela Galileu


Carlos Lordelo, do Estadão.edu

Qual a melhor maneira de transportar o gás natural produzido nos campos do pré-sal para o continente? Como perfurar um poço de petróleo a sete quilômetros de profundidade sem que as brocas sejam danificadas? É possível garantir a estabilidade de tubulações em condições extremas de pressão?

Não se trata de questões de vestibular ou de provas de Engenharia. É que, antes de se lançar ao mar na atividade de exploração de petróleo e gás, a Petrobrás realiza milhares de simulações computacionais para responder a perguntas como essas. A avaliação de diferentes cenários permite à estatal reduzir a possibilidade de erros numa operação em que qualquer falha pode significar desastres ambientais e até mortes.

Nessa tentativa de planejar o futuro, a empresa conta com uma infraestrutura própria de pesquisas e também financia laboratórios de escolas de Engenharia do País. A iniciativa ganhou reforço em 2006 com a criação da Rede Galileu, um consórcio de faculdades conectado por um parque de computadores capaz de fazer 140 trilhões de operações por segundo (teraflops).

Só para fazer uma comparação, enquanto um cluster de 20 teraflops roda 30 mil simulações em três meses, um PC comum levaria pelo menos 15 anos.

Integram a rede USP, ITA, PUC-Rio e as Federais de Alagoas e do Rio de Janeiro. Ao todo, a Petrobrás repassou R$ 32 milhões para essas universidades construírem novas sedes para os laboratórios – até o momento, só ficaram prontas as da USP e da Ufal. A estatal investiu outros R$ 20 milhões na compra dos clusters e todos, exceto o do ITA, já estão em funcionamento.

Mais oito instituições completam o projeto como satélites e receberam R$ 21 milhões para efetuar melhorias na estrutura física.

Os dados que chegam aos laboratórios são coletados pelos funcionários de campo da Petrobrás. As simulações mais sofisticadas rodam nos clusters, enquanto os pesquisadores se reúnem em salas de visualização para checar a representação precisa dos diferentes cenários em programas de realidade virtual.

Estão à frente do projeto alunos da graduação ao pós-doutorado, sob a supervisão de professores. A remuneração desse pessoal varia: há desde bolsistas das próprias universidades até pesquisadores contratados pela estatal que recebem por meio de fundações de apoio. Sem contar o ITA, cujos laboratório e cluster ainda não foram entregues, a Petrobrás já destinou R$ 40 milhões para custear as pesquisas. Novos contratos devem ser assinados neste ano.

“A rede permite que se mobilize toda a capacidade da engenharia nacional com rapidez”, afirma Luiz Augusto Levy, gerente de Métodos Científicos do Centro de Pesquisas e Desenvolvimento (Cenpes) da Petrobrás. Segundo ele, em termos de simulação computacional, o País está pronto para encarar os desafios da exploração do pré-sal.

O Cenpes é vizinho do principal nó da Galileu, o Instituto de Pós-graduação e Pesquisa de Engenharia (Coppe) da UFRJ, na Ilha do Fundão. Tradicional parceiro da Petrobrás, o Coppe opera o maior cluster do projeto, de 80 teraflops – os outros três aglomerados de computadores têm 20 teraflops cada. Até o fim do ano, os dois laboratórios do instituto financiados pela estatal deverão ser entregues.

Na PUC-Rio, onde há 50 anos foi instalado o primeiro supercomputador do Brasil, os benefícios de integrar a rede vão além das melhorias na infraestrutura. Segundo o professor Marcelo Gattass, responsável pelo cluster da universidade, desvelou-se um novo rumo para as pesquisas desenvolvidas na pós-graduação. “Os alunos passaram a ter uma formação mais próxima do que é usado na prática.”

Se no Rio o ponto forte das universidades é a simulação computacional, a USP se destaca na rede pelos trabalhos em Engenharia Oceânica. “A intenção da Petrobrás é que exista transferência de tecnologia entre os participantes da Galileu”, diz o professor da Poli Kazuo Nishimoto, coordenador do Tanque de Provas Numérico (TPN). O laboratório nasceu em 2002 com 100 metros quadrados e hoje, no novo prédio, ocupa um espaço 17 vezes maior.

A moderna sala de visualização do TPN chamou a atenção da aluna de Engenharia Mecânica Ana Grassi, de 22 anos, quando ela esteve no laboratório pela primeira vez. A convite de um professor, a estudante do 5.º ano da Poli faz estágio no local há um ano. “Trabalhar aqui foi bom porque descobri uma nova área, a naval, da qual acabei gostando bastante”, conta. No momento, ela está desenvolvendo um projeto que simula o transporte de etanol por um comboio de barcos pela Hidrovia Tietê-Paraná. Ana diz que vai usar o que aprendeu no estágio em seu TCC e pensa em fazer mestrado para aprofundar os conhecimentos no software que utiliza no TPN.

Já Guilherme Goraieb, de 22, não pretende seguir a carreira acadêmica. Aluno do 5.º ano de Engenharia Naval, ele quer aproveitar o aquecimento do mercado para se lançar consultor da indústria offshore. “No estágio, aprendi a trabalhar com softwares diferentes dos que usamos em sala de aula”, afirma o estudante, que faz iniciação científica no TPN desde julho. Guilherme já projetou 11 navios em 3D para avaliar a estabilidade deles em diversas condições de carregamento. “Quis a vaga por ser uma oportunidade de lidar com uma coisa prática e conhecer melhor a área.”

28/01/2012 - 10:32h A Dilma da Dilma

Quais os planos e o que representa a ida para o comando da Petrobras de Maria das Graças Foster, engenheira de reconhecida capacidade técnica, que, há 32 anos na gigante do setor energético, conquistou a admiração da presidenta da República

Adriana Nicacio e Izabelle Torres – ISTOÉ

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ENÉRGICA
Dona de perfil técnico, Graça Foster assume a
Petrobras com perspectivas de choque de gestão

Em 22 de dezembro de 2011, uma rápida visita da presidenta Dilma Rousseff ao seu antecessor, Luiz Inácio Lula da Silva, selou o futuro da Petrobras. No encontro em São Paulo, Dilma entregou a Lula um Papai Noel feito de material reciclado, presente enviado por catadores de lixo do Estado, e avisou: “Presidente, vou trocar o Gabrielli.” Se no início do mandato de Dilma ele pediu que mantivesse José Sérgio Gabrielli na presidência da Petrobras, desta vez Lula decidiu não interferir. E não precisou perguntar quem seria o substituto. Desde que foi eleita, Dilma sonhava em colocar a engenheira química Maria das Graças Foster no comando da terceira maior empresa de energia do mundo, mas não sabia como nomeá-la sem se desgastar com Lula. Tomou a decisão em outubro quando levou Graça Foster em sua pequena comitiva na viagem afetiva à Bulgária, terra dos Rousseffs. E comunicou a Lula que a troca seria anunciada em janeiro, durante a minirreforma ministerial. Dilma explicou ao ex-presidente que confia na competência de Graça, atual diretora de gás e energia da companhia, para realizar as metas de produção de combustíveis e de exploração do pré-sal, um fator importantíssimo para o desenvolvimento do País.

Em suma, ela põe a mão no fogo pela competência administrativa de Graça Foster. Um mês depois do encontro com Lula, Dilma autorizou que seus assessores vazassem sua decisão. Os efeitos foram imediatos. O mercado presenciou uma alta no valor das ações da estatal, como não se via havia dois anos. E o mundo político presenciou a mais nova demonstração de que a presidenta está disposta a prezar o perfil técnico nas nomeações do primeiro escalão, deixando em segundo plano as interferências partidárias.

São vários os significados da nomeação de Graça Foster na gigante do setor energético. O principal deles é um maior alinhamento com o Palácio do Planalto e Dilma Rousseff. Graça Foster é amiga da presidenta. As duas se conheceram em 1995, ao se unirem contra a política de privatização do governador do Rio Grande do Sul, Antonio Brito, do PMDB. Anos mais tarde, Dilma era secretária de Energia do governo Olívio Dutra e negociou com Graça Foster, gerente da Petrobras, a construção de um oleoduto no sul do Estado. O zelo e a intransigência da engenheira despertaram a admiração da presidenta, que considera Graça, na Petrobras há 32 anos, um dos melhores quadros técnicos da estatal. De fato, a engenheira conhece como poucos a rotina da empresa e, muitas vezes, em caso de dúvida sobre um número ou uma decisão vai buscar informações pessoalmente nas plataformas. Sua dedicação rendeu R$ 2,6 bilhões em lucro para a estatal até setembro de 2011. O resultado da diretoria de gás e energia só não foi melhor do que o da tradicional diretoria de exploração e produção. Outro exemplo de sua dedicação quase integral à estatal: há cinco anos ela não tira férias.“Graça não só trabalha muito como cobra que todos trabalhem muito”, afirma um dos seus assessores mais próximos. Por isso, no setor de energia, Graça é vista como uma cópia autêntica da presidenta da República, principalmente pela rara disposição para o trabalho e o pavio curto diante de erros de seus auxiliares.

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Ex-presidente da Petrobras José Sérgio Gabrielli vai ocupar uma
secretaria na Bahia, de olho nas eleições estaduais de 2014

Quem acompanha a engenheira de perto sabe que quando ela diz que poderia morrer pela Petrobras não está fazendo pura retórica. Espalhou-se pela estatal que das três estrelas tatuadas no antebraço direito de Graça duas representam seus dois filhos e a terceira, a Petrobras. Ela, de fato, é osso duro de roer quando está em jogo o interesse da empresa. Esse é outro significado de sua nomeação. Atendendo aos anseios do Palácio do Planalto, a empresa irá respirar trabalho e será intransigente na defesa dos seus interesses, dizem auxiliares do governo. Espera-se uma gestão eminentemente técnica. O antecessor, Sérgio Gabrielli, apesar dos elogios à sua gestão feitos por integrantes do governo durante a despedida, sempre teve no horizonte claros objetivos políticos. Tanto que, depois de sete anos na presidência da Petrobras, Gabrielli agora investirá num projeto político. Ligado ao PT e ao ex-ministro José Dirceu, ele vai ocupar uma secretaria no governo da Bahia, de onde pretende se cacifar para disputar as eleições estaduais em 2014. Graça, não. Ela é Petrobras Esporte Clube. Entre tantos exemplos, até hoje se comenta a briga de Graça Foster com a Associação Brasileira das Distribuidoras de Gás (Abegás), em abril de 2010, por causa do preço do gás natural. O insumo é cerca de três vezes mais alto no Brasil do que nos Estados Unidos, o que Graça considera um absurdo. O clima de tensão chegou a tal ponto que, por determinação de Graça, a Gaspetro, subsidiária da Petrobras, deixou a associação, apesar de dominar 45% do mercado de gás. A futura presidente da estatal disse, à época, que ficaria ao lado de quem produz, carrega e transporta gás. “Não das distribuidoras que vendem gás”, concluiu. Agora, com Graça Foster à frente da Petrobras, o mercado espera uma nova política para o preço do gás natural.

O nome de Graça Foster será oficializado na próxima reunião do conselho de administração da Petrobras, em 9 de fevereiro. Até lá, ela prefere não fazer comentários sobre sua gestão. Mas ISTOÉ apurou com pessoas próximas a ela quais são os seus principais planos. É quase certo que, com aval de Dilma, fará um choque de gestão na estrutura e no preço dos contratos. Quando assumir a presidência da estatal no dia 14 de fevereiro, nenhuma diretoria continuará a funcionar como um feudo autônomo. Sua ideia é centralizar todas as atividades. Poucos diretores devem permanecer no cargo. Uma das exceções será o diretor de abastecimento, Paulo Roberto Costa. O presidente da Petrobras Distribuidora, José Lima Neto, que tem trajetória muito parecida com a de Graça, deverá ser remanejado para a diretoria de exploração e produção. Para a diretoria de gás e energia, o mais cotado é seu braço direito, Ênio Barreto. Mas o atual presidente da Petrobras Uruguai, Irani Varella, deve retornar ao Brasil para ocupar um cargo de destaque, que pode ser tanto o de Graça quanto a presidência da Petrobras Distribuidora. Na nova gestão, volta à cena José Eduardo Dutra, que presidiu a estatal entre 2003 e 2005. Para abrigar Dutra, deve ser criada uma diretoria corporativa.

O principal desafio de Graça será aumentar a produção petrolífera, que caiu 0,9% no ano passado. Além disso, todos os olhos estão voltados para a meta de dobrar a produção até 2020 e também para a exploração comercial do pré-sal. O diretor da Coppe/UFRJ, professor Luiz Pinguelli Rosa, lembra que em 2010 a Petrobras fez a maior oferta de ações de sua história e se capitalizou em US$ 70 bilhões exatamente para explorar as imensas reservas no pré-sal. Segundo ele, toda a ansiedade é natural, mas o processo exige tempo, investimento e tecnologia. “Graça é rigorosa e preparada. Fez pós-graduação em engenharia nuclear aqui na Coppe. Ela vai dar conta da missão”, afirma. Outra missão da nova comandante da Petrobras será acelerar o plano de investimentos da estatal que prevê 688 projetos, num total de US$ 224,7 bilhões, até 2015. A Petrobras exerce papel fundamental no PAC, com cerca de 40% dos investimentos.

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27/01/2012 - 10:27h Gabrielli diz que Graça está apta a dirigir a Petrobras

Por Assis Moreira | VALOR

De Davos

“A Graça vai tocar isso de ouvido”, afirmou Sergio Gabrielli sobre os desafios que aguardam sua sucessora na presidência da Petrobras, ao mesmo tempo em que falava que vai “partir para outro estilo de vida”, ontem em entrevista no Forum Mundial de Economia.

Para Gabrielli, o grande desafio da Petrobras “é levar a cadeia de fornecedores a investir para atender aos projetos da maior companhia da America Latina”. “Tem de estimular o fornecedor do fornecedor do fornecedor”, afirmou.

Ele recusa a ideia de relaxamento nas exigências de conteúdo nacional para a produção de equipamentos afim de atender a Petrobras. Diz que os problemas de atraso na entrega de sondas e outros equipamentos são todos internacionais, originários por companhias abaladas pela crise financeira. “A crise de 2008 e do euro afetou a Petrobras por ai, mas não a exigência do conteúdo local, que vai melhorar a situação”, afirmou.

Para o executivo, a Petrobras precisará consolidar tambem as 50 redes temáticas nas universidades brasileiras para desenvolver pesquisas e atender a demandas tecnológicas dos fornecedores, por exemplo. Outro desafio será fazer a transferência de conhecimento e retenção de pessoal, quando se sabe que 52% dos funcionários da Petrobras tem menos de dez anos na empresa e que o mercado está aquecido e a busca por mão de obra qualificada é grande.

Com relação ao plano de investimentos até 2014, de US$ 225 bilhões, Gabrielli admite que a geração de caixa está pouco abaixo da prevista, por causa do câmbio e do aumento de custo inesperado. Por exemplo, se o preço do barril de petróleo estivesse em US$ 95, estaria gerando fluxo de caixa de US$ 140 bilhões mas, como todas as empresas de petróleo estão investindo e aqueceram o mercado, os custos tanto operacional como de investimento aumentaram.

Também acha que a Petrobras precisará de uma operação de financiamento um pouco diferenciada. Terá de buscar mais bancos não europeus para emissões de títulos de dívida, porque a captação está menor no velho continente. Outro caminho será buscar financiamento junto a bancos de desenvolvimento, desde o BNDES ao banco chinês e agências de crédito a exportação.

Nos próximos dois anos, a nova presidente vai comandar um plano de venda de ativos de US$ 14 bilhoes no mundo todo.

Indagado sobre a reação do mercado financeiro, que fez a ação da Petrobras valorizar 10% após o anúncio de sua substituição, o executivo disse que não foi nenhuma surpresa. Ele defende que investidores de curtíssimo prazo aproveitaram para ganhar dinheiro.

Gabrielli considera, em todo caso, que no curto prazo tudo o que a empresa tiver em caixa vai para investimentos, e não será geradora de dividendos. “Investir na Petrobras é investir no longo prazo.” E nota que o preço da ação está barato. Estima que em quatro anos a Petrobras terá o equivalente a 30 bilhoes de barris de reservas. Como o valor de mercado da empresa hoje está em torno de US$ 169 bilhoes, isso significa US$ 5,3 por barril de reservada comprovada.

Gabrielli participou pela nona vez do Fórum Mundial de Economia. Ele esteve no encontro da “Comunidade de óleo e gás”, fora do fórum, reunindo os dirigentes das empresas de petróleo. “Quem sabe venho ano que vem para atrair investidor para a Bahia”, brincou.

25/01/2012 - 11:23h Dilma vai definir mais cargos na Petrobras


Decisão será tomada com a nova presidente da estatal, Graça Foster, que assumiu comando da empresa como interina

Duas mulheres são cotadas para a área de Exploração e Produção, que mais concentra investimentos

DENISE LUNA, DO RIO E NATUZA NERY, DE BRASÍLIA – FOLHA SP

Diretora de Gás e Energia da Petrobras, Graça Foster não precisou esperar até fevereiro para experimentar como será seu futuro na presidência da estatal.

Como já ocorreu outras vezes, obedecendo a um rodízio entre diretores, Foster assumiu ontem o lugar de José Sergio Gabrielli, que viajou para Davos, Suíça. Na quinta-feira ela comandará a reunião semanal da diretoria.

Na sexta-feira passada, antes de seu nome ser oficialmente indicado ao cargo, Graça esteve em Brasília com a presidente Dilma Rousseff.

Dilma, responsável pela escolha de Graça, influenciará na definição de alguns postos-chave da Petrobras.

Já está decidido que haverá mudança na principal área da empresa, a diretoria de Exploração e Produção.

Segundo a Folha apurou, Graça e Dilma decidirão juntas o nome do substituto de Guilherme Estrella, atual responsável pelo cargo.

Dois nomes são cotados: Solange Guedes, gerente-executiva de Engenharia de Produção, tem perfil parecido com o de Graça e é uma das auxiliares mais próximas de Estrella; Magda Chambriard, diretora da ANP (Agência Nacional do Petróleo), é funcionária aposentada da estatal, mas pesa contra ela o fato de ter ainda mandato na agência até o fim deste ano. Mesmo que antecipe sua saída, terá de cumprir um período de quarentena antes de voltar para a Petrobras.

A principal missão de Foster é garantir aumento da produção, que não tem crescido nos últimos anos. A diretoria de Exploração e Produção responde por 57% dos investimentos da empresa. O governo quer mais recursos para a área e melhorar a qualidade desses gastos.

DESAFIOS

Para Luiz Pinguelli Rosa, diretor da Coppe/UFRJ, aumentar a produção será uma tarefa difícil, porque os obstáculos continuam os mesmos da época de Gabrielli.

A exigência de conteúdo nacional mínimo, estipulado pelo governo para equipamentos usados na indústria de petróleo, não foi alterada, e a velocidade da indústria local tem sido insuficiente para acompanhar a expectativa de crescimento da empresa.

Jean-Paul Prates, diretor-geral do Centro de Estratégias em Recursos Naturais e Energia, conta com a proximidade de Graça com Dilma para atuar contra o impasse da exigência de conteúdo nacional.

“Ela pode fazer ajustes cirúrgicos em casos pontuais, alterar alguns projetos visando uma performance melhor da Petrobras”, disse.

24/01/2012 - 18:02h Mudanças na Petrobras vão além de Gabrielli

Por Daniel Rittner | VALOR

De Brasília

A saída de José Sérgio Gabrielli e sua troca por Maria das Graças Foster deve gerar um efeito-cascata na cúpula da Petrobras. Interlocutores da presidente Dilma Rousseff garantiram ontem que a queda de Almir Barbassa, diretor financeiro e ligado a Gabrielli, é questão de semanas ou, na melhor das hipóteses, de meses.

Também colocaram em dúvida a permanência do diretor de abastecimento, Paulo Roberto Costa, no cargo. Dilma não tem restrições a ele, mas sua relação com Graça Foster é considerada “desgastada” e Costa precisará agarrar-se mais do que nunca a seus padrinhos políticos – PP e PMDB – para permanecer na estatal. Mas o primeiro a deixar seu posto depois de Gabrielli, conforme garantiram fontes do PT, será Guilherme Estrella, diretor de exploração e produção e um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores no Rio de Janeiro.

Dilma já desejava a saída de Gabrielli desde a época de ministra-chefe da Casa Civil. Após a vitoriosa campanha presidencial, estava decidida a trocá-lo por Graça Foster, mas apelo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva a convenceu a mantê-lo por pelo menos um ano mais. Na primeira oportunidade que surgisse, depois disso, pretendia executar a troca. Na visão de Dilma e de gente próxima a ela, a Petrobras é uma empresa “presidencialista”, que precisa ser gerida com centralização e sem que decisões importantes sejam delegadas. Para a presidente e seus auxiliares, no entanto, Gabrielli tem um perfil diferente, dividindo poderes e mais afeito à descentralização.

Dilma ironizou as estimativas do próprio governo de que o país vai produzir 5 milhões de barris/dia em 2020

Graça é descrita por um interlocutor de Dilma como “absolutamente leal” à presidente, mas como “uma das cinco pessoas do país” que não têm medo de discutir com ela. Por isso, Dilma espera de sua ex-secretária de gás e petróleo no Ministério de Minas e Energia linha dura no comando da estatal, além de firmeza no relacionamento com outras áreas do governo e nas conversas com ela mesma – algo que a presidente não percebia em Gabrielli.

Dilma quer mais agilidade da Petrobras na produção de áreas do pré-sal e acredita que a queda no valor de suas ações não se deve exclusivamente à política de contenção de reajustes dos combustíveis, como forma de atenuar as pressões inflacionárias, mas também à gestão financeira.

Recentemente, quando o Senado discutia um novo acordo para redistribuição das receitas com royalties do petróleo, Dilma ironizou as estimativas do próprio governo de que o Brasil estará produzindo 5 milhões de barris por dia em 2020. Isso foi entendido, por observadores próximos, como mais uma insatisfação com o ritmo de exploração e produção da empresa no pré-sal.

Dilma também tem demonstrado irritação com as dificuldades da Petrobras em contratar e receber navios e plataformas produzidos por estaleiros nacionais. A recuperação da indústria naval, por meio de encomendas da Petrobras, foi uma das grandes apostas de Lula. Mas a presidente avalia que o programa não anda com o sucesso esperado.

Para suceder Graça Foster na diretoria de gás e energia da estatal, o nome mais provável é o de José Lima Neto, atual presidente da BR Distribuidora. Ele já havia sucedido a nova presidente da Petrobras na secretaria de gás e petróleo do ministério. As futuras indicações serão discutidas entre Dilma e Graça Foster. (Colaborou João Villaverde)

23/01/2012 - 10:10h Gabrielli deve deixar Petrobras para disputar governo da Bahia em 2014

Por João Villaverde e Fernando Exman | VALOR

De Brasília

O presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli, deve deixar o cargo no próximo dia 12 e, no início de março, assumir uma secretaria no Governo do Estado da Bahia. Gabrielli deverá ser substituído no comando da estatal por Maria das Graças Foster, atual diretora da Área de Negócios de Gás e Energia da Petrobras, que esteve na sexta-feira à noite no Palácio do Planalto, onde se reuniu com a presidente Dilma Rousseff.

As mudanças na Petrobras foram decididas pela presidente e acertadas, há duas semanas, com o governador da Bahia, Jacques Wagner (PT). A substituição visa abrir caminho para Gabrielli “se aproximar” do Estado da Bahia, onde deve se candidatar para suceder Wagner em 2014. Procurada, a assessoria da Petrobras negou, no sábado, que Gabrielli esteja deixando o comando da estatal.

Segundo apurou o Valor, a próxima reunião do Conselho de Administração da Petrobras, marcada para 13 de fevereiro, terá um dia a mais. No dia 12, um domingo, o conselho deve se reunir para referendar a decisão política. O encontro do dia 13, portanto, já seria realizado com Maria das Graças Foster à frente da companhia. A atual diretora de Negócios de Gás e Energia da Petrobras é próxima de Dilma (leia matéria abaixo).

Com as mudanças, o governador Wagner terá em sua equipe os dois principais pré-candidatos petistas à sua sucessão: além de Gabrielli, o atual secretário da Casa Civil, Rui Costa, é nome forte no PT da Bahia, um “petista querido por Wagner”, como definiu uma fonte do PT nacional.

“Ele [Gabrielli] precisa deixar de ser um nome nacional, que vive no Rio de Janeiro [sede da Petrobras] e em Brasília, para viver e trabalhar na Bahia”, disse Wagner a aliados petistas. O candidato petista para as eleições na capital do Estado, Salvador, neste ano, é Nelson Pellegrino, também aliado do trio Wagner, Gabrielli e Costa.

A saída de Gabrielli em 2012 o afastaria, também, de temas considerados “espinhosos” pela cúpula do PT, como a definição das novas regras de repartição dos royalties e das participações especiais do petróleo. Além disso, os negócios envolvendo o petróleo do pré-sal, foco principal da área dirigida por Maria das Graças Foster na estatal, passarão a ser cada vez mais centrais nos planos da empresa. Pré-candidato ao governo baiano, Gabrielli poderia entrar na mira da oposição caso continuasse no cargo por muito mais tempo. O PT quer que sua gestão de 79 meses à frente da Petrobras seja analisada como “100% técnica”, disse uma fonte ao Valor.

Mestre em economia pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), onde é professor licenciado, e doutor pela Universidade de Boston, Gabrielli iniciou sua atuação na Petrobras em fevereiro de 2003, como diretor financeiro. Indicado pelo PT baiano, e fortemente apoiado por Jacques Wagner, nome forte do governo Luiz Inácio Lula da Silva, Gabrielli desempenhou a função até julho de 2005, quando foi alçado à presidência da estatal.

Naquele momento, auge da crise do “mensalão”, Wagner passou a ocupar a linha de frente do governo Lula, e Gabrielli passou a ter o papel de “mensageiro das boas notícias”, lembra um petista. “A Petrobras passou a ser a menina dos olhos do governo, servindo aos planos do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), do superávit primário [capitalização da estatal em 2010 ajudou o governo a cumprir a meta fiscal] e culminando com o pré-sal”, afirma um graduado petista.

Gabrielli fez uma gestão na Petrobras em que procurou atender às diretrizes do governo, quase nunca favoráveis aos acionistas minoritários da empresa. Protagonizou discussões ásperas com a presidente Dilma quando ela comandou as pastas das Minas e Energia e da Casa Civil no governo anterior.

Desde o início de sua gestão, Gabrielli negou ter politizado a estatal. Em entrevistas, alegou que manteve nomes indicados pelo PSDB e que só colocou sindicalistas na área de comunicação. Quando da elaboração do novo marco regulatório do pré-sal, Gabrielli defendeu o monopólio das reservas pertencentes à União e sua exploração pela Petrobras. (Colaborou Paola de Moura, do Rio)

Graça Foster poderá assumir comando da estatal

Por Heloisa Magalhães e Stella Fontes | VALOR

Do Rio e de São Paulo

A engenheira química com mestrado em engenharia de fluidos, pós-graduação em engenharia nuclear e MBA em economia, Maria das Graças Silva Foster, ou Graça Foster, como é chamada, terá como desafio à frente da Petrobras, se confirmada sua nomeação para a presidência da estatal, tirá-la de um impasse: aumentar a produção e dar fim à desconfiança do mercado financeiro de que, hoje cheia de reservas, não consegue atingir esse objetivo.

Comparada a José Sérgio Gabrielli, Graça tem perfil mais executivo e de menor exposição à mídia. E é vista pela presidente Dilma Rousseff como grande executora de projetos. “Assim como Dilma, ela tem profundo conhecimento sobre a indústria química e de energia. É extremamente preparada”, avalia o sócio-diretor da consultoria MaxiQuim, João Luiz Zuñeda. “Seja quem for responder pelo cargo, um dos principais desafios será acelerar os projetos e o debate sobre como valorar o pré-sal.”

A atual situação da Petrobras preocupa. Em dezembro a empresa não conseguiu atingir a meta de produção de 2,1 mil barris diários. A estatal encontra dificuldades para tocar projetos em função dos entraves que a nova legislação impõe à companhia, como as exigências de nacionalização de plataformas.

Conforme Zuñeda, a definição do papel que a Petrobras vai desempenhar nesta década, com vistas ao fortalecimento da indústria química e petroquímica, também aparece como uma das prioridades da empresa. “A Petrobras é peça fundamental para fazer acontecer qualquer grande movimento na área. É preciso encontrar alguma maneira de acelerar o fortalecimento da cadeia, a exemplo do que os EUA já fazem”.

Em outubro, foi Graça quem participou, como executiva da Petrobras, da visita oficial da presidente Dilma à Bulgária, Bruxelas e Turquia. A executiva conheceu a presidente em 1999, quando ela ainda era secretária de Energia do Rio Grande do Sul e presidente do conselho de administração da distribuidora Sulgás. Graça era gerente da área de Tecnologia do Gás Natural da Gaspetro. A aproximação rendeu o convite para ocupar a secretaria de Petróleo e Gás quando Dilma assumiu o Ministério de Minas e Energia, no primeiro governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ela ocupou o cargo por dois anos e oito meses, de 2003 a 2005, período em que as duas mulheres fortes da área de energia ficaram ainda mais próximas.

Da Petroquisa, a executiva foi presidir a BR Distribuidora, onde organizou o mercado de biocombustíveis. Ficou na subsidiária até setembro de 2007, quando se tornou a primeira mulher a assumir uma diretoria da Petrobras. A área acumulou lucro de R$ 2,6 bilhões até setembro de 2011, o segundo melhor resultado da estatal, só atrás da exploração e produção. Quando assumiu o posto, o prejuízo acumulado no mesmo período era de R$ 895 milhões.

O estilo de Graça é duro, semelhante ao da presidente. Com a Associação Brasileira das Distribuidoras de Gás (Abegás), travou uma queda de braço em torno dos preços do gás natural, que terminou por retirar a Gaspetro da associação, apesar de a subsidiária ter participação acionária em 21 das 27 distribuidoras de gás do país. Graça justificou a medida dizendo que a Petrobras tinha que se unir às empresas que produzem, carregam e transportam gás, e não das que vendem. Tanto esforço lhe rendeu críticas nas negociações de regulamentação da Lei do Gás. Outro atributo da executiva é o horário de trabalho, que pode começar às 7h e se estender até 21h. Mas sempre carrega uma pasta intitulada “trabalho de casa”. Também é conhecido o fervor quase religioso com que defende a Petrobras como corporação.

Graça Foster nasceu em Minas e cresceu em uma favela do Rio nos anos 50 – o Morro do Adeus, que hoje faz parte do Complexo do Alemão. Foi lá que viveu até os 12 anos, quando a família se mudou para a Ilha do Governador. No morro, começou a trabalhar aos oito anos, catando papel, garrafas e latas, que vendia para comprar material escolar e presentes para sua “florzinha”, como chama a mãe, Terezinha Pena Silva. Procurada pelo Valor, Graça Foster não foi encontrada até o fechamento desta edição.