14/10/2008 - 09:49h ‘Acho que Deus é realmente brasileiro’

Presidente do Citigroup diz que país pode dar lições aos países ricos

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William Rhodes, presidente do Citigroup: Brasil é exemplo

José Meirelles Passos - O Globo

Correspondente

WASHINGTON. Houve unanimidade entre banqueiros internacionais e brasileiros, ontem, sobre a capacidade de o Brasil suportar o impacto da atual crise financeira, sem perder o rumo do crescimento sustentável.

Ao fim de uma ampla análise da situação do país, o presidente e executivo-chefe do Citigroup, Bill Rhodes, utilizou um velho ditado brasileiro para resumir a situação privilegiada do país em meio à turbulência do momento.

— Começo a acreditar que Deus é realmente brasileiro.
Pelo jeito ele tinha tirado umas férias anos atrás — disse o banqueiro, provocando risos na platéia de investidores que lotou ontem a Conferência Econômica Brasileira, em Washington.

Para Mantega, crise foi uma “orgia financeira”

Rhodes, que nos anos 80 e 90 comandou o grupo de credores do país, numa longa e complicada negociação da dívida externa, disse que “o Brasil mudou completamente”, aprendendo muito com as crises que enfrentou. E acrescentou que os brasileiros hoje têm condições de ensinar os países ricos: — Se algum país é capaz hoje de domar essa tempestade que enfrentamos é o Brasil.
O que me incomoda é os Estados Unidos não terem aprendido com as lições da América Latina. Os EUA passaram décadas ditando regras.
Acontece que os estudantes cresceram e se tornaram professores — disse ele.
Em seu discurso, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, definiu a crise deflagrada nos Estados Unidos como “uma orgia financeira”. E admitiu que, a princípio, não imaginava que ela seria tão grave: — Não sabíamos o tamanho da encrenca.
Banqueiros brasileiros que participaram do evento, traçaram um retrato positivo do país.
Eles exibiram estudos mostrando que, mesmo com o dólar a R$ 2,20 e com o preço das commodities caindo, o país terá condições de continuar crescendo de forma sustentada.
Sergio Werlang, chefe do setor de riscos da Itaú Holding Financeira, chegou a dizer que isso será possível mesmo com grandes gastos federais: — Mesmo que o governo queira continuar gastando como está fazendo, o que eu não aprovo, o resultado continuará sendo positivo no ano que vem — disse ele.
Mantega respondeu: — Vamos cortar gastos, mas manter investimentos que são importantes. Eles representam nada mais que 1% do PIB.
Caio Megale, da Mauá Investimentos, disse que a crise tem um lado benéfico para o Brasil, uma vez que o país estava precisando desacelerar um pouco: — Estamos crescendo acima do potencial, acima do limite de velocidade. É como um carro numa estrada: você pode ir a 180 quilômetros por hora. Só que, em algum momento, vai dar uma trombada — comparou ele, acrescentando que “o risco seria haver uma redução do ritmo maior do que estamos precisando”.
Beny Parnes, diretor-gerente do Banco BBM, foi taxativo ao falar da capacidade de resistência do Brasil.

— Alguns anos atrás o Brasil sofreria um nocaute em dez segundos. Já temos grande experiência em enfrentar crises: é uma especialidade nossa.

10/10/2008 - 07:27h “Poderemos ter uma depressão global”

FOLHA SP - ENTREVISTA  NOURIEL ROUBINI

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Economista que previu crise diz que sistema financeiro precisa mudar para evitar “derretimento total”

SÉRGIO DÁVILA
DE WASHINGTON

Na segunda-feira, Nouriel Roubini escreveu que o governo norte-americano deveria organizar um corte coordenado de juros nas principais economias mundiais e o Federal Reserve, o banco central do país, tinha de fazer empréstimos de curto prazo diretamente para as empresas. Na terça e na quarta, as duas medidas foram anunciadas. Você sabe que a crise é realmente grave quando um economista conhecido pelo apelido de “Sr. Apocalipse” começa a ser ouvido pela Casa Branca.
Profissional do meio que mais acertos fez em relação à crise atual, Roubini falou à Folha por telefone na tarde de anteontem. Sotaque de mafioso de filme B de Hollywood -filho de judeus iranianos, nasceu na Turquia, morou na Itália e vive em Nova York-, disse que toureava 300 pedidos de entrevista que chegaram apenas naquele dia. Ele acha que o mundo corre o risco de uma depressão, e o Brasil, de crescer menos de 3% (leia texto nesta página). Leia trechos da entrevista.

FOLHA - Depois de os 12 passos que o sr. previu em fevereiro para a crise atual se cumprirem, o que podemos esperar para o 13º?
NOURIEL ROUBINI
- Bem, há duas opções. Ou promovemos uma mudança radical no sistema financeiro para evitar o derretimento completo, que é a coisa certa a fazer, ou esse sistema sofrerá colapso nos Estados Unidos, na Europa e em outros países. E poderemos ter uma depressão global.

FOLHA - O sr. vê contágio no setor corporativo?
ROUBINI
- Já começa a acontecer aqui nos EUA. Em geral, com algumas exceções, as companhias americanas não estavam tão expostas ao papéis tóxicos hipotecários. Ainda assim, nas últimas semanas, diminuiu drasticamente o acesso a crédito das empresas aqui no país, mesmo companhias avaliadas pelas agências de risco como AAA.
Com o mercado de papéis comerciais [letras de câmbio não-garantidas] praticamente interrompido e os empréstimos bancários caríssimos, não há dinheiro para que elas cumpram as obrigações do dia-a-dia. Se nem essas estão tendo acesso, imagine as que têm avaliação pior. Se isso se agravar no setor corporativo, todo o sistema pára, começaremos a ver quebras de empresas incapazes de honrar seus compromissos de curto prazo. Na minha opinião, já estamos no ponto de crise grave também aqui.

FOLHA - Isso leva à minha próxima pergunta. O sr. escreveu na última segunda um artigo em que pedia um corte coordenado de juros nas principais economias mundiais e que o Federal Reserve emprestasse diretamente para as empresas. Nos dias seguintes, as duas medidas foram anunciadas. Coincidência, é claro, mas o sr. acha que alguém no governo finalmente começou a ler suas colunas?
ROUBINI
- Eu sei que eles ouvem de fato, porque muitos deles me ligam e dizem isso. As decisões foram corretas e vão na direção certa, mas não são suficientes, muito mais tem de ser feito. Se você ler o meu artigo, eu pedia duas outras ações, que o Fed garanta que vai prover liquidez no caso de uma corrida generalizada aos bancos e que aumente sua ação para prover liquidez de curto prazo a atores não-bancários que emprestam a corporações. A primeira eu não sei quando vai acontecer, a segunda já estamos vendo aos poucos.
Outro aspecto que eu não escrevi mas que acho necessário é um programa de expansão fiscal do governo nos moldes dos da Grande Depressão, porque a demanda privada e o consumo estão sofrendo colapso, então serão necessários gastos governamentais em infra-estrutura nos níveis municipal, estadual e federal. Precisamos revisar o Plano Paulson também para que aja efetivamente nos setores imobiliário e no sistema bancário. Resumindo, ainda falta fazer muito.

FOLHA - O sr. pinta um quadro excessivamente grave. A situação é tão ruim assim?
ROUBINI
- Sim, na última semana ou dez dias, o sistema financeiro inteiro parou de funcionar, não há mais empréstimos interbancários, não há mais transmissão de liquidez entre os bancos e do sistema bancário para o sistema financeiro paralelo, que está em extinção, e começa a chegar ao setor corporativo. As Bolsas se enfraquecem a cada dia, o mercado seca e os gastos começam a diminuir. Estamos a um passo do derretimento total.

FOLHA - O sr. mencionou a possibilidade de depressão global. Quão perto estaria?
ROUBINI
- Já estamos em recessão nos Estados Unidos, na Europa, no Reino Unido, no Canadá, na Austrália, na Nova Zelândia, no Japão. Ou seja, cerca de 50% das economias globais já estão em recessão. Depois que essa se estabelecer, começaremos a ver desaceleração maciça de crescimento nas economias emergentes. O que quer dizer isso? Que teremos algum crescimento nos mercados emergentes, entre 2% e 3%, o que será uma aterrissagem dura para esses países, que necessitam de muito mais do que isso. Essa diminuição contribuirá para a queda do crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) global, que pode ficar negativo.

FOLHA - E quanto durará?
ROUBINI
- Se fizermos tudo certo, o que não está garantido, deve durar entre 12 e 24 meses. Há também o risco de os EUA entrarem numa estagnação como a que atingiu o Japão.

FOLHA - E quem é o culpado , em sua opinião?
ROUBINI
- São muitos e diferentes fatores. É uma tempestade perfeita composta de dinheiro fácil, crédito fácil, baixas taxas de juros, instituições financeiras se expondo a risco excessivo, instrumentos financeiros novos e modernos, mas também exóticos e sem liquidez, cumplicidade das agências classificadora de riscos, falta de regulação e supervisão adequada por parte dos governos. Não há um só culpado, mas vários: agentes financeiros, reguladores, governantes, bancos centrais…

FOLHA - O sr. foi um dos primeiros a preverem essa crise, já em 2006. Foi chamado de catastrófico, apocalíptico e alarmista então. O sr. se sente vingado, de alguma maneira?
ROUBINI
- Vingado não é a palavra, pela quantidade de desastres que essa crise trouxe, mas eu estava seguro de que minhas análises eram plausíveis e que meus dados eram corretos, que eu tive a honestidade intelectual de manter meus pontos de vista porque sabia que estava certo. E, infelizmente, eu estava certo.

FOLHA - Por que o sr. foi quase uma exceção?
ROUBINI
- Os que fazem a política econômica tinham receio de dizer que temiam pelo futuro da economia, muitos analistas econômicos fazem previsões que procuram agradar a seus clientes, havia ainda um clima de euforia, muita gente dizendo que era um novo mundo, que seria diferente dessa vez. Muita gente dizendo que não se tratava de uma bolha imobiliária, mas de uma série de pequenos avanços…

FOLHA - O que o sr. não previu? O que o surpreendeu?
ROUBINI
- A velocidade com que os 12 passos que eu previ aconteceram. Na minha análise, o que aconteceu desde a quebra do Lehman Brothers levaria talvez dois anos.

FOLHA - O sr. trabalha numa nova série de passos?
ROUBINI
- Não, em vez de ficar prevendo desgraças novas, estou me dedicando a sugerir soluções para a catástrofe.

FOLHA - O Plano Paulson vai funcionar?
ROUBINI
- Não, falta muita coisa. Recapitalizar o sistema bancário, lidar diretamente com os mutuários inadimplentes, fazer uma triagem entre os bancos que merecem ser salvos e os que devem quebrar, muito mais tem de ser feito para que o plano funcione, e eu não vejo isso acontecendo.

FOLHA - O secretário do Tesouro, Henry Paulson, e o presidente do Fed, Ben Bernanke, parecem estar sempre um passo atrás dos acontecimentos.
ROUBINI
- Sim, atrás da curva, e isso prejudica até as ações positivas que eles tomam. Muitas vezes os mercados têm reagido mal a boas iniciativas, porque chegam tarde.

FOLHA - O próximo presidente vai encarar o pior da crise. Qual a diferença fundamental entre a política econômica do democrata Barack Obama e a do republicano John McCain?
ROUBINI
- A principal diferença é que Obama, a quem apóio, tomará ações mais decisivas para lidar com a crise, não deixará o mercado cuidar de si mesmo. Precisaremos de uma intervenção mais formal, e isso estava faltando na última gestão e continuará faltando na de McCain. Essa será a principal diferença entre os dois.

FOLHA - O sr. se incomoda de ter sido apelidado “Sr. Apocalipse”?
ROUBINI
- Não ligo. Não é que eu seja uma pessoa permanentemente pessimista em relação ao mercado, eu serei o primeiro a gritar “a crise acabou!” quando ela acabar e me tornarei um otimista. Creio, na verdade, que ainda há muitas oportunidades na economia global para que mercados emergentes cresçam num ritmo sustentável, mesmo agora. Não é uma questão de otimismo versus pessimismo. É que os eventos das últimas semanas surpreenderam até mesmo o meu pessimismo.

FOLHA - Quando o sr. se sentirá otimista?
ROUBINI
- Quando eu sentir que chegamos ao fundo do poço, o que não aconteceu. Eu vejo uma luz no fim do túnel, mas é uma locomotiva vindo em nossa direção…

08/10/2008 - 11:54h É hora de um resgate abrangente no mercado

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MARTIN WOLF - “FINANCIAL TIMES” - FOLHA SP

COMO JOHN Maynard Keynes teria supostamente dito, “quando os fatos mudam, eu mudo de idéia.

O que o senhor faz?”. Mudei de idéia, à medida que o pânico se espalha. Investidores e instituições de crédito deixaram de confiar em todo mundo e agora confiam em ninguém. O medo que propele o colapso atual nos mercados financeiro é tão exagerado quanto a cobiça que propelia o comportamento oposto não muito tempo atrás.

Mas pânico injustificado também causa devastação. Devemos detê-lo -não na semana que vem, mas agora mesmo.

O momento para abordagens improvisadas, de instituição a instituição e de país a país, já passou. Demorei algum tempo -talvez tempo demais- para perceber as dimensões do perigo. Talvez tenham sido erros do Tesouro dos Estados Unidos -em particular a decisão de permitir a quebra do Lehman Brothers- que tenham deflagrado o pânico atual. Assim, o que deveria ser feito? Em resumo, “tudo”. As economias afetadas respondem por mais de metade da produção mundial.

Isso torna a crise atual a mais significativa desde os anos 30.

Primeiro, é preciso enfrentar o pânico. Essa necessidade já convenceu alguns governos a oferecer garantias totais ou parciais a passivos. Essas garantias distorcem a competição. Mas, quando concedidas, não se pode retirá-las até que a crise tenha passado. Por isso, os países europeus deveriam oferecer agora uma garantia por prazo limitado (digamos, seis meses) para o grosso dos passivos de instituições com papel sistêmico importante. Nos Estados Unidos, porém, dado o imenso número de bancos, uma garantia como essa não é nem viável nem necessária.

Uma garantia por prazo limite encorajaria as instituições financeiras a concederem empréstimos umas às outras. Caso isso não aconteça, os bancos centrais precisarão emprestar sem limites, mesmo que não existam garantias, às instituições sistemicamente importantes a ponto de tornar impensável uma quebra.

Com medidas como essas, o fluxo de crédito deve ser reativado. Mas os governos não podem permitir que os bancos apostem livremente com recursos oriundos dos cofres públicos. No período de garantia, os governos precisam fiscalizar severamente as instituições que decidiram proteger.

A segunda prioridade é a recapitalização. A grande lição das crises da história recente -como demonstra um capítulo excelente na mais recente “Perspectiva Econômica Mundial” do FMI (Fundo Monetário Internacional)- é que “as autoridades econômicas devem forçar o reconhecimento de prejuízos o mais cedo possível e tomar medidas que garantam capitalização adequada às instituições financeiras”.

Recapitalização

Recapitalização é essencial para que as instituições tenham boa classificação de crédito quando as garantias expirarem. Os governos deveriam insistir em uma capitalização que permita que novos prejuízos venham a ser contabilizados. Deveriam em seguida ou subscrever uma emissão de direitos acionários ou adquirir ações preferenciais. Os governos têm de esperar lucros com esses investimentos quando as instituições se recuperarem.

Uma recapitalização como essa serve de alternativa à conversão forçada de títulos de dívida em ações. Considero que essa idéia tenha atrativos, mas hoje é seguro que ela geraria ainda mais histeria, a menos que fosse possível apresentá-la de maneira confiável como uma medida extraordinária que não seria repetida. Alguns de vocês podem ter percebido que minhas idéias têm por objetivo evitar que encolham os balanços de peças centrais do sistema financeiro. Mas é inevitável que o setor se encolha um pouco, especialmente no Reino Unido e nos Estados Unidos. Devemos permitir que isso aconteça no chamado “setor bancário paralelo”.

O que nos conduz a uma terceira questão: o que fazer quanto aos maus ativos? Ocasionalmente faz sentido tirar esses ativos das mãos dos bancos. É isso que o novo Tarp (Programa de Alívio a Ativos Problemáticos dos EUA) propõe fazer.

Porque maus ativos norte-americanos estão bem distribuídos pelo mundo, o programa do país envolve criar um mercado para esses ativos -e talvez elevar seus preços a um patamar de equilíbrio mais alto-, o que beneficiaria muitos outros sistemas bancários.

Outros mercados

No entanto, em outros mercados a quantidade de maus ativos gerados localmente parece pequena. Assim, esquemas semelhantes não seriam necessários. De modo semelhante, caso os bancos disponham de capitalização adequada, preocupações quanto a contabilizar ativos pelo valor de mercado importam menos, porque os balanços podem arcar com a contabilização de prejuízos necessários. Mas seria sensato declarar explicitamente que as autoridades regulatórias não se concentrarão apenas nas avaliações atuais para determinar os requisitos de capital.

A maior questão quanto a essas propostas é determinar se os governos têm condições de bancá-las. Alguns economistas argumentam que existem bancos que são não só grandes demais para falir como grandes demais para salvar. Eles defendem essa hipótese comparando os passivos bancários brutos ao PIB (Produto Interno Bruto) do país-sede da instituição.

Mas o que importa é a relação entre a pior hipótese possível de recapitalização e o PIB. E infelizmente ela pode ser elevada.

Considerem o Reino Unido, onde os ativos combinados dos cinco grandes bancos equivalem a quatro vezes o PIB. Uma recapitalização equivalente a 1% de seus ativos custaria ao governo uma elevação de dívidas equivalente a 4% do PIB; uma recapitalização de 5% envolveria dívidas equivalentes a 20% do PIB. Se o sistema bancário de qualquer país começar a sofrer perdas dessa escala, converter títulos de dívida em capital poderá se tornar uma solução inescapável. Essa talvez venha a ser a única saída para a Islândia, agora.

Desafio

Alguns argumentam que os países-membros da zona do euro têm um desafio especial: individualmente, afinal, eles não têm acesso a um banco central.

Os saltos recentes, e notáveis, nos “spreads” entre as taxas dos títulos alemães e italianos, para um pico de pouco menos de 90 pontos básicos, sugerem que os mercados podem concordar com essa avaliação. A inflação não deixa de ser também uma forma de inadimplência.

Mas, se a recapitalização de número substancial de bancos da zona do euro se tornar necessária, alguns países-membros podem se provar incapazes de injetar o dinheiro necessário. Haveria risco para os demais caso aquele governo optasse por não agir ou por forçar a conversão de títulos de dívida em capital. Ações como essa poderiam causar pânico em toda parte. A coordenação sobre como proceder é essencial, caso desejemos um sistema bancário saudável na zona do euro.

O pânico também terá grande impacto sobre as economias.

Os bancos centrais, mas não o Federal Reserve, deveriam cortar suas taxas de juros. Na semana passada, eu imaginava que um corte de 0,5 ponto percentual faria sentido no Reino Unido. Caso integrasse o comitê de política monetária hoje, defenderia corte de um ponto.

Os ministros das Finanças e os dirigentes de bancos centrais do G7 (Grupo dos 7) -principais países de alta renda- em breve se reunirão em Washington. Teremos as pessoas certas todas reunidas. É preciso que viajem com uma única tarefa em mente: restaurar a confiança. A história julgará seu sucesso. Eles podem vir a ser conhecidos como responsáveis por uma nova Grande Depressão. É um destino que precisam decidir como evitar, pelo bem de todos nós.
Tradução de PAULO MIGLIACCI

04/10/2008 - 13:51h Receita em alta favorece onda de reeleições

César Felício e Marta Watanabe, VALOR (3/10/2008)

Está nas contas públicas uma das explicações para a força reeleitoral deste ano, que faz com que nas capitais estaduais o candidato com apoio da prefeitura apareça liderando as pesquisas de intenção de voto em 20 das 26 cidades. A receita corrente das prefeituras das capitais pulou de R$ 41 bilhões para R$ 59,6 bilhões entre 2004 - último ano da administração passada - e 2007, um salto de 46,8%. No conjunto dos municípios como um todo, onde o peso das transferências da União e dos Estados é maior, os recursos disponíveis nos cofres municipais tiveram um salto ainda maior, de 52,4%.

Leo Pinheiro/Valor - 2/10/2008

Solange Amaral: candidata do prefeito César Maia, no Rio, que teve elevação modesta de receita, está fora do páreo

O cofre reforçado das prefeituras conseguiu a façanha de acompanhar a tendência das receitas no plano federal, que ano após ano bateu recordes de arrecadação nesse período. A União teve um incremento de receita praticamente igual neste período (45,7%) e os Estados não tiveram o mesmo fôlego, aumentando os ingressos em 41,7%.Os recursos adicionais das prefeituras permitiram aumento de investimentos totais de R$ 4,1 bilhões para R$ 5,87 bilhões, o que representa avanço de 41%.O crescimento das receitas continua impulsionando as prefeituras em 2008.

Segundo levantamento da Associação dos Secretários de Finanças das Capitais (Abrasf), a receita corrente líquida no acumulado dos últimos doze meses encerrados em julho cresceu em termos reais 10,7%. Elísio Soares, secretário de Finanças do Recife e presidente da Abrasf, diz que o desempenho econômico ainda continua impulsionando a receita tributária própria, puxada principalmente pelo ISS. A arrecadação do imposto cresceu 12% nos doze meses encerrados em julho. Nas transferências da União teve grande peso o repasse via Fundo de Participação dos Municípios (FPM), que cresceu 20,1%.Caso o resultado das pesquisas se confirme nas urnas, será um grande contraste em relação ao que ocorreu em 2004, ano em que , em um ambiente geral de crise econômica, a oposição municipal ganhou em 16 das 26 capitais estaduais, com dez prefeitos reeleitos. Foi a primeira gestão regida do início ao fim pela Lei de Responsabilidade Fiscal, que estabeleceu limites de endividamento e de gastos pessoais.

“Os prefeitos atuais que estão no primeiro mandato e tentam se reeleger este ano estão se beneficiando do contraste em relação aos eleitos em 2000. O mesmo não se dá com tanta intensidade em relação aos que estão no segundo mandato”, disse o consultor político Alberto Carlos Almeida. Dos vinte prefeitos candidatos a um novo mandato, apenas dois (Gilberto Kassab , do DEM, em São Paulo e Serafim Corrêa, do PSB, em Manaus) não lideram as pesquisas. Já nas seis capitais em que os prefeitos estão cumprindo segundo mandato, apenas no Recife e em Belo Horizonte os atuais prefeitos, João Paulo (PT) e Fernando Pimentel (PT) vêem seus indicados líderes nas pesquisas. Em São Luís, Natal, Macapá e no Rio candidatos da oposição lideram.

Ednaldo Moraes/Roraima Hoje

Iradilson Sampaio: prefeito de Boa Vista, que deve ser reeleito, administra hoje caixa duas vezes maior que em 2004

A boa situação financeira das prefeituras é uma condição necessária, mas não suficiente para deixar bem posicionado o prefeito que tenta um novo mandato. Em Salvador, onde a receita corrente cresceu 69,5%, impulsionado principalmente pelo fato das transferências da União terem pulado de R$ 252 milhões para R$ 690 milhões, o prefeito João Henrique (PMDB) ainda luta para garantir-se no segundo turno, em um empate triplo com ACM Neto (DEM) e Walter Pinheiro (PT). Pesou o fator político: Henrique não tem apoio claro do governo federal- apesar do empenho do ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima, e nem do estadual.

O prefeito que provavelmente será o campeão proporcional de votos no Brasil, Cícero Almeida (PP), de Maceió, assistiu a um aumento de 60,5% em sua receita. É um percentual próximo ao obtido em São Paulo, onde a receita municipal pulou de R$ 12,9 bilhões para R$ 20,1 bilhões no período, sem que isto fosse suficiente para impulsionar Gilberto Kassab (DEM). O prefeito paulistano , que deve ir ao segundo turno , teve a ascensão travada pela divisão política de sua base, com a candidatura de Geraldo Alckmin (PSDB), além de ter uma oposição robusta comandada pelo PT. Prefeito de Boa Vista, Iradilson Sampaio (PSB) administra um Orçamento duas vezes maior que o de 2004, e aparece com 54% das intenções de voto.

O Rio de Janeiro, capital que registrou o menor avanço de receita, é também a cidade em que a candidatura apoiada pela máquina municipal consegue o pior resultado em pesquisas de intenção de voto. Na capital fluminense, a receita corrente cresceu 24,1%, arrecadação tributária própria elevou-se 45,8%, mas diminuiu a ajuda federal: o Rio foi a única capital em que os repasses da União diminuíram entre 2004 e 2007, recuando 6,8%.

Sustentada pelo prefeito Cesar Maia (DEM), a deputada Solange Amaral (DEM) disputa o quinto lugar com Chico Alencar (P-SOL) e Alessandro Molon (PT). Muito criticado pela gestão na saúde, Cesar Maia fez a sua principal aposta administrativa na realização dos Jogos Pan Americanos, no ano passado. Alguns dos principais concorrentes de Solange, como o líder nas pesquisas Eduardo Paes (PMDB) e a deputada federal Jandira Feghali (PC do B) fizeram da saúde a principal bandeira da campanha.

A elevação das receitas pelos municípios nos últimos anos foi resultado de uma combinação de fatores que vão desde mudanças na legislação até o desempenho geral da economia, explica o consultor Amir Khair, especialista em contas públicas e ex-secretário municipal de finanças em São Paulo, na gestão petista de Luiza Erundina. Mas a geração de recursos próprios, sobretudo nas capitais, teve lugar de destaque. Enquanto as transferências da União tiveram uma elevação de 38,6% e as dos Estados subiram 35,8%, a arrecadação tributária nas capitais aumentou 51,8% nos últimos três anos.

No conjunto de todos os 5.564 municípios do país as transferências tiveram peso representativo para as finanças municipais, com crescimento de 55,6% no período. Embora com elevação menor, as receitas tributárias também tiveram aumento robusto, de 48,54%.

Um dos fatores para o aumento da arrecadação própria foi uma mudança na lei complementar federal do ISS. A alteração ampliou, para todos os municípios, o rol de serviços tributáveis pelo ISS, incluindo vários serviços bancários, por exemplo. Uma mudança anterior havia estabelecido ISS mínimo de 2%, amenizando a guerra fiscal.

A ampliação permitiu aos municípios aumentar a base de contribuintes sem precisar elevar alíquotas sobre os serviços que já pagavam o imposto. Com a ampliação, propiciada por alteração em legislação federal, pelo menos nove produtos e serviços financeiros, por exemplo, passaram a ser tributados pelo ISS. Três serviços financeiros antes atingidos de forma limitada ficaram amplamente sujeitos à cobrança.

A mudança, explica Khair, foi aprovada em 2003, mas demorou para ser regulamentada pelas administrações. “As novas cobranças com base na mudança de lei foram implementadas a partir de 2003 e 2004, mas aproveitadas principalmente por aqueles que assumiram a prefeitura em 2005.”

O quadro foi amplamente favorável porque a mudança tributária veio justamente num momento de crescimento econômico. De 2001 a 2004, período da gestão anterior, o Produto Interno Bruto (PIB) do setor de serviços cresceu 11,3% enquanto de 2005 até o primeiro semestre de 2008 a elevação foi de 18,5% “Paralelamente, nos últimos cinco anos as prefeituras seguiram o exemplo da União e dos Estados, aperfeiçoando a fiscalização e tornando a arrecadação mais eficiente”, diz Khair.

Além do ISS puxando a arrecadação própria dos municípios, houve um aumento das transferências dos Estados e da União. Da parte dos governos estaduais, os repasses aumentaram por conta do bom desempenho de arrecadação do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) e do Imposto sobre Propriedade de Veículos Automotores (IPVA), cobrado sobre a venda de automóvel e que tem metade do recolhimento destinado ao município em que o carro foi emplacado.

Do lado da União, houve o reajuste da tabela de procedimentos do SUS em outubro de 2007, que superou o concedido nos quatro anos anteriores. O dinheiro adicional para a saúde deve surtir efeito principalmente este ano. Segundo informou o ministério da Saúde, o reajuste de 2007 consumiu recursos adicionais de R$ 1,2 bilhão. Além disso, os repasses obrigatórios do governo federal via Fundo de Participação dos Municípios (FPM) porque o principal tributo que o alimenta, o Imposto de Renda (IR), teve um aumento de arrecadação maior que o aumento médio no recolhimento total de tributos da Receita Federal. De 2004 a 2007, a participação do IR na arrecadação da União aumentou de 34,58% para 37,13%.

01/10/2008 - 11:56h O fim do que nunca foi

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ALEXANDRE SCHWARTSMAN - Folha de São Paulo


Diante da atual situação, ou o governo norte-americano resgata o sistema financeiro ou vive uma crise ainda maior

“QUANDO o governo pede que paguem pelos erros de Wall Street, não parece justo”, disse o presidente dos EUA, George W. Bush, enquanto pedia nada menos do que isso. Se reconhece a injustiça, por que, então, seu governo, como tantos outros, enfrenta o custo econômico e político de se envolver numa operação complexa, quando poderia anunciar que se trata de problema privado, que caberia ao setor privado resolver? A resposta é, até certo ponto, simples: o governo americano (mas não, aparentemente, o Congresso) acredita que o custo do resgate é inferior ao da alternativa. O plano envolveria a troca de US$ 700 bilhões de títulos públicos por papéis lastreados em hipotecas pertencentes aos bancos.
Caso esses últimos valham zero (hipótese extrema, mas que ajuda a simplificar o raciocínio), o custo do resgate seria exatamente de US$ 700 bilhões, ou cerca de 5% do PIB.
Já o custo de não fazer nada (ainda sob a hipótese de valor zero) seria uma redução adicional de US$ 700 bilhões no capital dos bancos. Bancos, porém, ofertam crédito como um múltiplo de seu patrimônio (a famosa “alavancagem”) e, portanto, a redução de crédito seria um múltiplo de US$ 700 bilhões. Supondo (conservadoramente) uma alavancagem de dez vezes, falamos de uma contração de US$ 7 trilhões, algo como 50% do PIB. Não é preciso muito para concluir que os EUA podem passar por uma recessão bíblica, mesmo se os bancos sobrevivessem para contar a história.
Assim, justa ou injustamente, quando a situação chega aonde chegou, a verdade é que o governo deixa de ter opções: ou resgata o sistema financeiro ou vive uma crise ainda maior. Obviamente, sabendo disso, bancos têm incentivos para se engajar em operações arriscadas: caso as apostas funcionem, ficam com os ganhos; caso percam, sabem que ao menos parte dos prejuízos será paga pela sociedade.
Essas circunstâncias envolvem temas complexos do ponto de vista teórico. Não apenas o governo não consegue se comprometer com uma promessa de não salvar os bancos como, por esse motivo, gera incentivos errados em termos de atitudes com relação à tomada de risco. Por esse motivo, a única alternativa que sobra ao poder público é não permitir que a situação chegue a esse ponto e os instrumentos para isso são regulação e fiscalização, lição que há muito se sabe, mas que parece ter sido solenemente ignorada no caso.
A crise que observamos hoje, portanto, tem origens mais prosaicas do que certos analistas parecem crer.
Não resulta das “contradições inerentes ao capitalismo” nem implica o fim do credo liberal. Resultou, sim, de uma regulação inadequada (que, por exemplo, admitiu que bancos mantivessem estruturas fora do seu balanço, além do alcance dos órgãos reguladores e fiscalizadores) e de fiscalização frouxa, aparente na queda dos padrões de análise de crédito, permitindo que famílias tomassem crédito além de sua capacitação.
Não por acaso, onde regulação e fiscalização foram mais adequadas, os efeitos da crise têm sido menores. Por fim, não é verdade que a inevitável mudança de regulação/fiscalização que iremos testemunhar marque o fim do “laissez-faire”, pela simples razão de que há muito não existe “laissez-faire” no sistema financeiro. Devido a problemas como os mencionados acima, não há sistema financeiro no mundo que não seja regulado. A questão não é, pois, saber se devemos regular o sistema financeiro, mas sim como desenhar a regulação para equilibrar os benefícios da expansão de crédito e os riscos que esta acarreta.

ALEXANDRE SCHWARTSMAN, 45, é economista-chefe para América Latina do Banco Santander, doutor em Economia pela Universidade da Califórnia (Berkeley) e ex-diretor de Assuntos Internacionais do Banco Central. Internet: http://www.maovisivel.blogspot.com/

alexandre.schwartsman@hotmail.com

30/09/2008 - 11:33h Reservas elevadas reduzirão impacto

http://www.journaldunet.com/economie/expliquez-moi/victimes-crise-financiere/index.jpg

ALEXANDRE SCHWARTSMAN COLUNISTA DA FOLHA

Inesperadamente, a Câmara norte-americana rejeitou a proposta de resgate dos bancos após líderes partidários terem concordado com um projeto que, mesmo bastante diferente do esboçado pelo secretário do Tesouro, mantinha o desenho básico de adquirir dos bancos US$ 700 bilhões de papéis lastreados em hipotecas. Não haverá, portanto, até segunda ordem, o resgate dos bancos, que terão de carregar no seus balanços esses títulos, cujo valor permanece uma incógnita.

Isso representa duro golpe para o setor bancário. Se há dúvidas sobre o valor desses papéis, sem a troca deles por títulos públicos essa desconfiança apenas aumentará, levando a uma queda adicional do seu valor de mercado. O problema, porém, é que essa queda se manifestará de forma desproporcional sobre o crédito e o crescimento.

Com efeito, cada dólar de redução de valor de mercado desses papéis implica um dólar a menos de capital do sistema bancário, com duas possíveis conseqüências. A menos grave, mas praticamente certa na ausência do programa de resgate, seria a redução significativa do volume de crédito. Como bancos tipicamente têm um volume de empréstimos equivalente a um múltiplo do seu capital, esse mesmo dólar de capital a menos vira um valor bem maior em termos de redução do crédito, reduzindo a demanda doméstica norte-americana.

A mais grave, ainda que menos provável, seria o aprofundamento da onda de quebras de instituições financeiras. De fato, a depender do montante de perda de valor dos papéis lastreados em hipotecas, as perdas do banco podem superar o seu capital, o que configura um problema de insolvência. Dada a profunda integração entre bancos, falamos da possibilidade de uma crise de grandes proporções, com efeitos ainda mais severos e duradouros sobre o nível de atividade.

De qualquer forma, portanto, vivemos a iminência de uma forte queda adicional do crescimento americano, cujas conseqüências não podem ser ignoradas. Especificamente no caso brasileiro, se é verdade que apenas pouco mais de 2% do PIB estão diretamente expostos (via exportações) à economia americana, há outros canais pelos quais o país pode sofrer impactos negativos.

O primeiro viria pela queda no preço de commodities na esteira da desaceleração mundial.

A elevação no preço desses bens implicou aumento no preço dos bens exportados pelo Brasil relativamente àqueles que importamos. Isso tem permitido aumentar as importações mais do que poderíamos em circunstâncias normais, e, portanto, possibilita que a demanda doméstica cresça bem à frente do PIB. Sem, porém, o auxílio das commodities, isso não poderia ser mantido, implicando significativa depreciação do real combinada com aperto monetário para trazer o crescimento da demanda doméstica a níveis inferiores aos do crescimento do PIB.

Por outro lado, é difícil imaginar que uma forte redução do crescimento mundial não resulte também em redução do fluxo de capitais para as economias emergentes, Brasil entre elas, levando à depreciação adicional do câmbio e à necessidade de conter ainda mais a demanda.

Isso dito, se as conseqüências da crise serão negativas, é também importante notar que o Brasil dispõe, hoje, de instrumentos que permitem, ao menos, mitigar esses efeitos. Destaco em particular o volume de reservas que, à taxa de câmbio atual, reduziria a relação dívida-PIB em 2,5%. Em outras palavras, a solvência do país, ao contrário de outros episódios, não será questionada, fator que deve impor limites aos efeitos da crise sobre o Brasil.

ALEXANDRE SCHWARTSMAN , 45, é economista-chefe para América Latina do Banco Santander, doutor em Economia pela Universidade da Califórnia (Berkeley) e ex-diretor de Assuntos Internacionais do Banco Central.

28/09/2008 - 12:59h Desvantagem do Brasil pode virar vantagem na crise


Por ter crescido menos que outros Brics e ser mais fechado, país deve ganhar com agravamento da situação externa

Sistema financeiro do país é mais sólido que o de China, Rússia e Índia; perigo maior está numa queda brusca no preço das commodities

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ÉRICA FRAGA ESPECIAL PARA A FOLHA

O agravamento da crise financeira global nas últimas semanas enterrou de vez a tese de que as chamadas economias emergentes, como a brasileira, poderiam ter se descolado (”decoupled”, em inglês) daquelas dos países desenvolvidos e, com isso, estariam quase imunes ao furacão que se aproximava. Mas é fato que a maioria dos emergentes está menos vulnerável hoje do que há uma década. E o Brasil, que nos últimos anos de bonança sempre foi considerado o patinho feio dos Brics (expressão cunhada pelo Goldman Sachs em 2003 em referência às grandes economias “do futuro”: Brasil, Rússia, Índia e China), pode ter uma história melhor para contar nestes tempos difíceis.

O fato de que a economia brasileira ainda é bastante fechada contribuiu para que o país crescesse de forma bem menos exuberante do que Rússia, Índia e China em anos recentes.

Mas agora o que era desvantagem virou seguro: o país pode acabar suportando melhor os efeitos negativos da crise do que os “Rics”, desde que não haja um colapso nos preços das commodities.

Embora os problemas que levaram à crise atual tenham sido gerados no mundo desenvolvido, vão continuar afetando os emergentes por dois canais: o da economia real e o dos mercados financeiros. O principal dado que já depunha contra a tese do descolamento se refere ao peso que os países desenvolvidos ainda têm na demanda global. Juntos, Estados Unidos e Europa Ocidental representam mais da metade (52%) do consumo privado mundial.

É verdade que as fatias representadas por China, Brasil, Índia, Rússia e outros vêm aumentando. Mas não o suficiente para evitar que uma brutal desaceleração da demanda por bens e serviços por parte dos países desenvolvidos fosse pouco sentida no mundo emergente. E esse impacto negativo tende a ser ainda maior porque o peso das exportações no PIB dos países emergentes aumentou sem parar nas últimas décadas: passando de 26% em 1990 para quase 44% em 2007.

Ou seja, o crescimento nos países emergentes se tornou muito dependente da performance de suas exportações. E, agora, os mercados que costumavam absorver boa parte dessas exportações caminham para a recessão: vão consumir menos, importar menos, quem vendia para eles vai crescer menos.

O Brasil obviamente não está imune, descolado, dessa tendência, mas é menos vulnerável que a maioria dos seus pares à forte desaceleração da demanda privada dos países ricos. Isso porque enquanto as exportações têm um peso de mais de 40% no PIB da média dos emergentes (41% na China, 31% na Rússia, 21% na Índia), no Brasil representam apenas 14%. Embora esse percentual seja bem maior que os cerca de 7% registrados em 1995-98, ainda caracteriza uma economia bastante fechada, menos vulnerável a choques como o que vem pela frente, principalmente se a desaceleração econômica no mundo desenvolvido for ainda pior do que se espera hoje. Um risco que, dada a forte turbulência nos mercados globais nas últimas semanas, não é nada desprezível.

Isso não quer dizer que o Brasil deva se orgulhar de ter uma economia ainda bastante fechada (na qual o peso de exportações e importações no PIB é relativamente baixo).

Graus maiores de abertura tendem a vir acompanhados de maior concorrência e ganhos de produtividade que beneficiam os consumidores e tornam a economia mais eficiente.

O fato de que o Brasil parece seguir rumo a uma maior abertura da economia é positivo, ainda que, neste momento, a menor importância relativa das exportações para o crescimento econômico ajude a amortecer os efeitos negativos da crise externa.

Mas há outros indicadores que podem fazer o Brasil menos vulnerável aos desdobramentos da crise atual, esses, sim, positivos “per se”. De forma geral, os indicadores que medem a solidez do sistema financeiro brasileiro-o outro canal pelo qual a turbulência externa continuará se propagando- são melhores que os dos outros três Brics. Os bancos brasileiros possuem altos níveis de solvência e liquidez e o regime de supervisão do setor é eficiente.

Diferentemente da China, o risco de grandes colapsos no sistema financeiro brasileiro é relativamente pequeno. Ao contrário do que ocorre em China e Índia, não existem bolhas significativas nos preços de ativos (como casas) no Brasil. O nível de inadimplência em empréstimos bancários na China (próximo de 6%) é pouco menos do que o dobro da média registrada no Brasil e quase certamente é subestimado.

Além disso, inflação no Brasil preocupa, mas bem menos que na Rússia e na Índia. Na verdade, talvez o risco maior para o Brasil nessa área seja que um excesso de cautela por parte do Banco Central leve a uma desaceleração excessiva da demanda doméstica. O perigo de desvalorização muito forte do real é bem menor que o da moeda russa (o rublo), que está bastante sobrevalorizada. As empresas russas contraíram crédito em moeda estrangeira de forma excessiva nos últimos anos. O estoque de dívida privada externa na Rússia pulou de US$ 64 bilhões em 2004 para quase US$ 300 bilhões neste ano, o que representa um risco grande de possível dificuldade de rolagem neste momento de forte retração do crédito.

Risco

Tudo isso quer dizer que o Brasil está blindado contra a crise? Certamente, não. Se os preços de commodities, por exemplo, desabarem, o país será um dos mais negativamente afetados, dado o alto peso das mesmas (por volta de 50%) na pauta de exportação brasileira.

Mas esse risco ainda parece ser relativamente pequeno. Fatores estruturais que sustentam os preços nos altos níveis atuais (como muito mais gente consumindo mais comida na Ásia) dificilmente desaparecerão.

Tampouco os dados que fazem com que o Brasil esteja menos sensível que outros emergentes a riscos associados à crise atual querem dizer que o potencial de crescimento de longo prazo do país seja melhor que os dos demais. Isso vai depender de muitos outros fatores, como progresso na área de educação e reformas estruturais. Mas os dados, sim, chamam atenção para o fato de que o Brasil não é mais (talvez nunca tenha sido) o pior dos Brics.

ÉRICA FRAGA é editora de América Latina da consultoria britânica Economist Intelligence Unit (ericafraga@economist.com)

26/09/2008 - 09:33h Mundo precisa de autoridade monetária

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JEFFREY GARTEN ESPECIAL PARA O “FINANCIAL TIMES” - FOLHA SP

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MESMO QUE a imensa operação de resgate financeiro dos EUA obtenha sucesso, ela deveria ser seguida por algo de muito mais abrangente -o estabelecimento de uma autoridade monetária mundial para fiscalizar mercados que não respeitam mais fronteiras.

Washington reconhece que a crise se tornou mundial. Hank Paulson, secretário do Tesouro norte-americano, disse que os bancos estrangeiros que operam nos Estados Unidos serão elegíveis para assistência federal e está instando outras nações a criarem programas próprios de resgate.
Os bancos centrais também vêm sincronizando suas injeções de fundos nos mercados.

Essas medidas devem ser passos em direção de resposta internacional mais abrangente concebida não só para apagar o atual incêndio mas para reconstruir e manter os mercados de capitais em longo prazo.

O aparato atual de instituições internacionais é miseravelmente incapaz de fiscalizar o sistema financeiro que está evoluindo. O FMI (Fundo Monetário Internacional) é irrelevante para essa crise, o G7 (grupo dos sete países mais industrializados) carece de relevância em um mundo no qual China, Brasil e outros exercem papéis importantes, e o BIS (Banco de Compensações Internacionais) não tem funções operacionais. O Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) está sob pressão forte demais para que funcione como banco central planetário.

O vácuo que existe no centro do sistema é perigoso para todos. A dependência norte-americana de influxos maciços de capital, da ordem de US$ 3 bilhões diários, certamente aumentará agora que os EUA estão adquirindo US$ 1 trilhão em novas obrigações relacionadas aos resgates em curso. Por muitos anos, Wall Street e Washington não serão capazes de se manter sem forte cooperação de outros mercados.

Dimensões estonteantes

Além disso, as dimensões internacionais do mundo financeiro se tornaram estonteantes. Os ativos mundiais cresceram de US$ 12 trilhões em 1980 para cerca de US$ 200 trilhões em 2007, superando de longe o crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) em qualquer nação ou o ritmo de expansão do comércio. Montante crescente desse capital hoje reside na Ásia e no golfo Pérsico, e não mais nos Estados Unidos e na Europa.

Uma empresa norte-americana como a seguradora AIG vendia mais de seus CDS (”credit default swaps”) e apólices de seguros fora dos Estados Unidos do que no país. O suíço UBS tem 30 mil funcionários norte-americanos e está cotado na Bolsa de Nova York.

Os mercados de capital evoluirão em um contexto no qual economias de mercado emergente estarão crescendo duas vezes mais rápido do que as dos países ricos e, na metade do século, provavelmente responderão por dois terços do PIB mundial.

A globalização agora criará também um confronto de filosofias. A maioria dos governos e dos investidores de fora dos Estados Unidos jamais aderiu ao estilo caubói do capitalismo norte-americano. Agora, eles têm bons motivos para exigir que mudanças fundamentais sejam adotadas na maneira pela qual os Estados Unidos administram suas instituições financeiras. Isso pode acontecer com uma modificação consciente e negociada do modelo financeiro norte-americano ou pode resultar da transferência dos fundos de investidores estrangeiros para outros mercados.
Todas essas considerações apontam para a necessidade futura de uma nova autoridade monetária mundial (AMM).

Ela ditaria o tom para os mercados de capital de uma maneira que não seria visceralmente oposta a uma forte função de fiscalização pública, com regras de intervenção, e devolveria à formação de capital a condição de objetivo do crescimento econômico e do desenvolvimento, com o abandono da idéia de que é suficiente operar por operar.


Funcionamento

Uma AMM funcionaria como central de resseguro ou casa de desconto para determinadas obrigações detidas por bancos centrais. Avaliaria as atividades regulatórias das autoridades nacionais de forma mais eficaz que o FMI e fiscalizaria a implementação de um número limitado de regulamentos mundiais. Monitoraria os riscos internacionais e estabeleceria um sistema efetivo de alerta antecipado, com mais moral para soar alarmes do que era o caso do BIS.

A instituição também funcionaria como “tribunal de falências” para a reorganização mundial de companhias financeiras com tamanho superior a um determinado limite. As maiores companhias financeiras mundiais teriam de se registrar junto à AMM e estariam sujeitas à sua monitoração, ou seriam incluídas em uma lista negra. Isso incluiria empresas comerciais e bancos, mas também fundos soberanos de investimento, fundos de hedge de grande porte e empresas de capital privado.

O conselho da AMM seria formado por dirigentes de bancos centrais não apenas dos Estados Unidos, do Reino Unido, da zona do euro e do Japão mas também da China, da Arábia Saudita e do Brasil. A instituição seria financiada por contribuições compulsórias de todos os países capazes de pagar e por prêmios à maneira de seguros pagos pelas empresas financeiras do planeta -as de capital aberto, as estatais e as de capital fechado igualmente.

Em termos de política norte-americana e internacional, a autoridade monetária mundial provavelmente representa uma idéia cujo momento ainda não chegou. Mas isso pode mudar, à medida que evolui a crise atual.

JEFFREY GARTEN é professor da cátedra Juan Trippe de comércio internacional e finanças na Escola de Administração de Empresas da Universidade Yale.

Tradução de PAULO MIGLIACCI

25/09/2008 - 08:29h Brics podem indicar saída para atoleiro

JIM O’NEILL ESPECIAL PARA O “FINANCIAL TIMES” - FOLHA SP

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A DESPEITO da magnitude dos desafios atuais, se já houve um bom momento para que os Estados Unidos e o mundo enfrentassem as notáveis dificuldades que vivemos, é este. E isso porque o consumo dos principais países de mercado emergente Bric (Brasil, Rússia, Índia e China) parece capaz de compensar a desaceleração nos Estados Unidos. Um grande volume de demanda mundial continua a ser criado pelos Brics. Isso é especialmente válido no que tange à China, que em agosto viu uma aceleração de 15,9% nas vendas do varejo, já considerada a inflação. Os consumidores chineses estão contribuindo mais para o PIB (Produto Interno Bruto) mundial do que os infames consumidores dos Estados Unidos. Enquanto isso, o Brasil registrou crescimento muito mais forte que o esperado em seu PIB, no trimestre passado, com 6,1%.

Demanda

De acordo com as nossas mais recentes estimativas, até agora nesta década os países Brics apresentaram quase tanta demanda quanto os Estados Unidos. No futuro, a porção deles na demanda mundial começará a se encaminhar ao mesmo patamar ocupado pelas economias agregadas do G7 (grupo dos 7 países mais industrializados). Os Estados Unidos estão empreendendo uma dramática mudança de equilíbrio. Era óbvio há algum tempo que os consumidores norte-americanos estavam distendidos e que uma razão de consumo superior a 70% do PIB é insustentável. A tendência começou a se reverter no último ano. É bastante concebível que, ao longo dos próximos dez anos, o consumo caia para perto dos 60% do PIB, nos Estados Unidos. Para que o PIB mundial seja capaz de enfrentar a queda no consumo norte-americano, o consumo precisa subir em outros lugares. O consumo norte-americano, em 70% do PIB do país, equivale a 21% do PIB mundial. Caso caia a 60% do PIB dos Estados Unidos, equivalerá a apenas 18% do PIB mundial. O consumidor dos Brics pode ajudar a compensar esse fator e pode também receber alguma ajuda dos consumidores alemães e japoneses, ainda que de forma mais limitada. Isso significa que, no início desse período de ajuste, um crescimento mundial da ordem de 3,5% é perfeitamente viável, mesmo que não sejamos capazes de sustentar os 5%. Embora muita gente no setor de serviços financeiros, que compreensivelmente vem concentrando suas preocupações nos próprios problemas, acredite agora que existe uma compressão de crédito em toda parte, é improvável que todos os demais países enfrentem a mesma situação que os Estados Unidos. De fato, o que acontecer quanto ao preço do petróleo e de outras commodities provavelmente será muito mais importante, certamente para os grandes países de mercado emergente e talvez para alguns dos países desenvolvidos nos quais as restrições de crédito sejam menores, como na Alemanha e no Japão. Quanto a isso, os desdobramentos das últimas semanas parecem positivos. Os preços menores do petróleo são bons para a renda real disponível em muitos desses lugares, e isso quase certamente significa que a inflação cairá de forma acentuada nos próximos meses. Uma das grandes lições do crash das Bolsas em 1987, e também da crise da Long-Term Capital Management em 1998, é que, ao agir com rapidez, as autoridades conseguiram isolar os mercados financeiros do restante da economia. A economia dos Estados Unidos e a mundial não entraram em recessão, nos dois casos. As lições deveriam ser lembradas quanto às ações que estão sendo empreendidas pelas autoridades dos Estados Unidos. Apoiar a Fannie Mae e a Freddie Mac, apoiar a AIG e agora propor uma versão modernizada do resgate às instituições de poupança e empréstimos pela RTC são as medidas necessárias a garantir que os males do setor bancário não causem crise econômica mundial generalizada.

Condições melhoram

Prever para onde vamos nos próximos dias e semanas seria ousadia. Mas as condições para uma recuperação significativa nos mercados de capitais melhoraram dramaticamente, não menos por efeito do senso de “crise”, que facilita as ações das autoridades. As ações das autoridades norte-americanas e chinesas na semana passada mostram que os líderes das duas economias possivelmente mais importantes do mundo estão agindo de maneira proativa para conter a crise. Agora, todas as atenções estarão concentradas nos demais países dos quais se espera resposta igualmente proativa. No Reino Unido, por exemplo, onde os empréstimos hipotecários caíram de maneira dramática e a economia é mais fraca que a dos Estados Unidos, algumas medidas econômicas criativas para mitigar os efeitos de desaceleração cíclica de outro modo severos deveriam ser consideradas seriamente.

JIM O’NEILL é economista-chefe do Goldman Sachs

24/09/2008 - 08:54h Plano Paulson não é solução

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Proposta prevê aquisição de maus ativos por valor muito superior ao justo

MARTIN WOLF DO “FINANCIAL TIMES” - FOLHA SP

MOMENTOS de desespero requerem medidas desesperadas. Mas lembrem-se, igualmente, de que decisões apressadas podem terminar ditando a forma do sistema financeiro por uma geração. A rapidez é essencial. Mas acertar quanto ao novo regime a ser adotado, também.

Sem dúvida a crise há muito passou do estágio no qual os governos poderiam deixar ao setor privado a responsabilidade por se salvar, com apenas uma pequena ajuda dos bancos centrais. Para os EUA, o resgate ao Bear Stearns foi o momento em que essa opção desapareceu.

Mas os acontecimentos das últimas semanas -o resgate a Fannie Mae e Freddie Mac, a quebra do Lehman Brothers, a venda do Merrill Lynch, o resgate à AIG, a fuga para a segurança e a decisão pelo Morgan Stanley e pelo Goldman Sachs de que se tornarão holdings bancárias sujeitas ao regime regulatório- tornam inevitável uma solução abrangente.


O público dos EUA quer ação

A questão é determinar se receberá a ação correta. Para responder a isso, devemos concordar quanto aos desafios que o sistema financeiro dos EUA enfrenta e aos critérios para julgar a forma de enfrentá-los.

Quais são os desafios? A resposta dada por Hank Paulson, o secretário do Tesouro americano e um dos proponentes mais insistentes de ação imediata, ao anunciar, na sexta-feira, seu “programa de alívio de ativos problemáticos”, é que “a fraqueza inerente do nosso sistema financeiro hoje são os ativos hipotecários sem liquidez que perderam valor à medida que avança a correção no mercado da habitação. Esses ativos estão bloqueando o fluxo de crédito tão vitais para a nossa economia”. O desafio principal, portanto, seria a falta de liquidez, não a insolvência. Ao criar um mercado para esses ativos tóxicos, Paulson espera deter a espiral de quedas de preços e de quebra de empresas.

Sugiro a adoção de uma visão mais ampla. O total agregado de dívidas dos EUA subiu de apenas 163% do PIB, em 1980, para 346%, em 2007. Só dois setores foram responsáveis por essa imensa alta no endividamento: os domicílios, cujas dívidas avançaram de 50% do PIB em 1980 para 71% em 2000 e 100% em 2007; e o setor financeiro, cujo endividamento subiu de 21% do PIB em 1980 a 83% em 2000 e 116% em 2007. Os balanços do setor financeiro explodiram, da mesma forma que sua lucratividade hipotética. Mas alavancagem, infelizmente, funciona nos dois sentidos.

Já que a dívida externa líquida dos EUA era de 39% do PIB pelo final de 2007, virtualmente toda essa dívida representa ativos para outras entidades domésticas, e uma coisa deveria compensar a outra. Mas, quando o estoque de dívida bruta é imenso e as condições econômicas são complicadas, a chance de que muitas entidades quebrem se torna alta.

Quando as pessoas temem insolvência em massa, as instituições de empréstimo suspendem seus empréstimos, e os devedores deixam de gastar. O resultado pode ser uma “deflação de dívidas”, descrita por um economista americano, Irving Fisher, em 1933, e vivida pelo Japão nos anos 1990.

Dada a recente explosão no nível de alavancagem, é improvável que o desafio seja só o de determinar de maneira incorreta o preço dos títulos tóxicos lastreados por hipotecas. Muitas pessoas e instituições fizeram apostas alavancadas que saíram pela culatra. As dívidas dessas pessoas não podem ser pagas. Os credores estão reagindo como esperado.

Agora consideremos os critérios que devem ser usados para avaliar a intervenção. Primeiro, ela deve responder à ameaça sistêmica. Segundo, deve minimizar os danos aos incentivos. Terceiro, precisa apresentar custo e risco mínimo para os contribuintes. E, acima de tudo, precisa ser coerente com a idéia de justiça social.

O problema fundamental com o esquema de Paulson, na forma proposta, é, portanto, o de que não constitui nem a solução necessária e nem uma solução eficiente. Não é necessária porque o Federal Reserve tem capacidade para enfrentar o problema da falta de liquidez por meio de suas muitas opções como emprestador de último recurso. E não é eficiente porque só seria capaz de lidar com a insolvência ao adquirir maus ativos por valor muito superior ao justo, o que garantiria grandes prejuízos para os contribuintes e ofereceria um resgate sem limites claros aos mais irresponsáveis dos investidores.

Além disso, esses ativos sofriam de fala de liquidez exatamente porque estimar seu valor era tão difícil. O governo correria o risco de ver seus cofres recheados de imensas quantias de papéis podres superavaliados, mesmo que tente evitar essa situação. Igualmente reprovável, ainda que mais em termos de forma que de fundamento, era a idéia de poderes ilimitados ao Tesouro.

Um fundo como esse deveria ser operado de maneira profissional e fiscalizado por instituições independentes. Por fim, se o governo dos EUA pretende resgatar os investidores incompetentes, deveria também oferecer assistência aos devedores, pobres e mal informados.

No entanto, acima de tudo, um esquema para enfrentar a crise deveria ser capaz de remediar a descapitalização iminente do sistema financeiro, da maneira mais dirigida possível.

A maneira mais simples de recapitalizar essas instituições seria forçá-las a levantar capital e a suspender seus dividendos.

Caso isso não funcione, poderia haver conversões forçadas de dívida em capital. A atração das conversões de dívidas em capital é que isso criaria prejuízos para os credores, e isso é essencial para a saúde em longo prazo de qualquer sistema financeiro.

A vantagem desses esquemas é que eles não requereriam um centavo em dinheiro público. A desvantagem é que causariam perturbações e seriam altamente impopulares. As instituições bancárias teriam de ter seu valor determinado, e as instituições consideradas como descapitalizadas teriam de adotar um dos métodos sugeridos para melhorar suas posições de capital.

Se, como parece plausível, um esquema que imponha esse tipo de sofrimento ao sistema financeiro, tenha de ser rejeitado de imediato, a segunda melhor escolha seria uma injeção de ações preferenciais pelo governo nas instituições descapitalizadas, como propôs Charles Calomiris, da Universidade Columbia. Isso representaria um resgate, mas determinado pelo comportamento dos beneficiários, em especial quanto pagamento de dividendos. A idéia seria bem melhor do que oferecer benefícios a quem não os merece por meio de aquisições em massa de papéis tóxicos a preços absurdos.

Qual é minha conclusão, portanto? Sim, pode existir espaço para uma intervenção no mercado de títulos tóxicos. Mas essa é uma maneira dispendiosa e ineficiente de enfrentar os mais profundos desafios atuais.

O que precisamos, acima de tudo, é de uma maneira clara e efetiva de promover a redução das dívidas e a recapitalização do sistema financeiro, idealmente sem recurso ao dinheiro dos contribuintes. Caso seja preciso usar o dinheiro deles, as injeções devem ser dirigidas de maneira cuidadosa e controlada. Ação abrangente é essencial, como Paulson decidiu.

Mas os Estados Unidos deveriam dedicar o tempo necessário a adotar a ação abrangente certa.

Tradução de PAULO MIGLIACCI

23/09/2008 - 08:49h O Brasil e a turbulência global

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Antonio Corrêa de Lacerda* - O Estado de São Paulo

O agravamento da crise oriunda do mercado subprime norte-americano traz à tona o debate sobre os possíveis impactos na economia brasileira. Não sem razão. Primeiro, porque, com a economia cada vez mais globalizada, o efeito contágio entre os mercados se amplia; segundo, porque, em nossa experiência histórica, sempre que havia uma turbulência internacional isso diretamente implicava instabilidade e um freio no crescimento do Brasil, com a chamada restrição externa ao crescimento.

Vale uma primeira consideração a respeito da profundidade e extensão dessa crise. Ninguém sabe ao certo até que ponto a turbulência pode chegar, porque isso depende de vários fatores: qual o sucesso das medidas adotadas pelos governos e bancos centrais, como reagem empresários, consumidores e investidores, entre outras variáveis. A economia não vive só de fatores concretos e objetivos, mas também de aspectos subjetivos e comportamentais - as expectativas.

A economia norte-americana goza do privilégio de ser emissora exclusiva do dólar, ainda a moeda de referência internacional, que concentra cerca de 75% de todas as transações mundiais e em torno de 65% das reservas cambiais dos bancos centrais dos demais países, estimadas em US$ 7 trilhões. A despeito da crise, o dólar e os títulos emitidos pelo Tesouro norte-americano seguem exercendo o papel de refúgio para as aplicações. Isso significa um importante trunfo para a recuperação da crise norte-americana. Outro fator importante é a extraordinária capacidade de inovação das empresas e do mercado financeiro daquele país, o que também poderá amenizar e encurtar a instabilidade, dependendo ainda dos fatores já apontados.

No entanto, até lá, devem mesmo prevalecer a volatilidade dos mercados, o encurtamento e encarecimento do crédito e suas conseqüências sobre bancos e empresas, afetando a economia real. O crescimento dos países emergentes, embora em ritmo menor do que nos anos recentes, deve também contribuir para amenizar os impactos negativos advindos das economias centrais.

Para o Brasil, a grande mudança estrutural veio da substancial diminuição da dependência do petróleo. Isso se deveu a um bem-sucedido programa de ampliação da produção de petróleo, assim como a mudança na matriz energética, com a incorporação do etanol e de outras energias renováveis. Nossa dependência de importação de petróleo, que era de 90% do consumo interno nos dois choques da década de 70, foi reduzida a apenas 5% nos tempos atuais.

Outra mudança veio da diversificação dos destinos de exportações. O Brasil ainda exporta pouco pelo seu porte e depende excessivamente de commodities. No entanto, um fator positivo é que houve uma significativa diversificação de destinos das exportações. Apenas 15% se destinam aos EUA, enquanto 25% vão para a Europa, 20% para a América Latina e 15% para a Ásia, destacando os principais. Bem ao contrário do México, que dirige 90% das vendas externas para o mercado norte-americano.

Nas contas externas brasileiras houve uma melhora expressiva, o que diminuiu nossa vulnerabilidade. Nesse ponto, os anos de superávit em conta corrente - aliás, em má hora revertido -, o conforto de US$ 207 bilhões de reservas e a relativamente pequena dívida externa pública representam defesas importantes. No lado fiscal, a dívida interna, além de ter sido reduzida dos 57% para 41% do PIB, nos últimos sete anos, também teve zerada a sua parcela de títulos cambiais, que sempre implicaram ônus em períodos passados de instabilidade cambial.

Feitas essas ressalvas, o efeito da crise se dará, como já ocorre, no mercado de capitais, com a reprecificação de ativos e nos fluxos de capitais. O crédito ficará mais escasso, assim como as exportações serão afetadas pela queda da demanda e dos preços internacionais das commodities. Os 6% de crescimento do PIB no primeiro semestre inevitavelmente serão reduzidos, embora não se espere uma parada brusca, mas uma diminuição de ritmo. Sem esquecer que a qualidade da gestão e a calibragem da política macroeconômica também serão determinantes, ainda mais em mares turbulentos…

*Antonio Corrêa de Lacerda, professor doutor da PUC-SP e doutor em economia pela Unicamp, é economista-chefe da Siemens e autor de Crise e Oportunidade: o Brasil e o cenário internacional (Lazuli) E-mail: aclacerda@pucsp.br

17/09/2008 - 12:52h 1929 pode acontecer de novo?

José Luis Oreiro e Gabriel Coelho Squeff - VALOR

“O evento econômico mais importante do período Pós-Segunda Guerra mundial foi algo que não aconteceu: não houve uma grande e prolongada depressão”. Essa frase do economista pós-keynesiano americano Hyman Minsky abre o capítulo introdutório do seu livro clássico: “Pode ‘aquilo’ acontecer de novo?”, publicado em 1982. Por “aquilo”, Minsky se referia à Grande Depressão de 1929, o evento mais traumático da história econômica dos Estados Unidos no século XX. Nesse livro, Minsky procura responder a uma questão fundamental, a saber: que ou quais razões têm impedido que a instabilidade crônica das economias de mercado se traduza numa queda profunda e prolongada do nível de atividade econômica, tal como ocorreu nos EUA e demais países desenvolvidos na década de 1930?

Essas questões ganham uma importância redobrada no atual cenário econômico internacional. Em apenas sete dias observou-se: 1) o anúncio de que o Tesouro americano assumiu o controle das gigantes do mercado hipotecário, Fannie Mae e Freddie Mac, conjuntamente a um aporte de US$ 200 bilhões nessas instituições; 2) o pedido de concordata do quarto maior banco do país, o Lehman Brothers; e 3) a solicitação de empréstimo da ordem de US$ 40 bilhões da seguradora AIG ao Federal Reserve (Fed). Como resultado, as principais bolsas de valores caíram: o Ibovespa teve o pior resultado dos últimos sete anos (-7,59%), o índice Dow Jones perdeu 4,42% e o Nasdaq 3,6%; comportamento similar foi observado nas bolsas de valores do Leste Asiático e na Europa Ocidental. Ao que tudo indica, a crise internacional, iniciada em meados do ano passado como decorrência do colapso do mercado de crédito subprime nos Estados Unidos, não só está bem longe do fim, como ainda parece ser muito mais grave do que a maior parte dos analistas acreditava até então. Nesse contexto, coloca-se mais uma vez a pergunta de Minsky: “Pode acontecer de novo?”.

De acordo com Minsky, foram duas as razões pelas quais uma Grande Depressão não surgiu no mundo capitalista desenvolvido, principalmente nos Estados Unidos, no período Pós-Segunda Guerra mundial. Em primeiro lugar, os bancos centrais do mundo inteiro, particularmente o Fed, aprenderam com a crise de 1929 que a sua função primordial é garantir o funcionamento adequado do sistema financeiro, fornecendo a liquidez necessária para a realização de suas operações. Quando a estabilidade do sistema financeiro está ameaçada devido a uma crise de liquidez, os bancos centrais devem deixar de lado quaisquer outros objetivos de política monetária, em especial o de controle da inflação. Se não o fizerem, tal como o Fed não fez na década de 1930, o resultado será o um “colapso do crédito”, com efeitos devastadores sobre o nível de produção e de emprego. Nesse cenário, é preferível “salvar alguns pecadores” (ou seja, impedir que bancos que se arriscaram demais na fase de expansão quebrem) do que permitir, em nome do combate ao “risco moral”, que os inocentes venham a perecer (ou seja, todos os demais indivíduos que não tiveram nenhuma participação direta na euforia especulativa).

A segunda razão é que o orçamento e os gastos do governo passaram a responder por um percentual muito maior do PIB no período Pós-Segunda Guerra mundial do que na década de 1930. O orçamento público funciona como uma espécie de estabilizador automático do nível de atividade econômica. Quando a produção e o emprego se contraem em função de uma diminuição da demanda agregada induzida, por exemplo, pela queda do consumo do setor privado, a arrecadação de impostos diminui e os gastos do governo aumentam (em função, por exemplo, do pagamento de seguro desemprego). O aumento do déficit fiscal do governo atua no sentido de sustentar o volume agregado de lucros, permitindo assim às empresas obterem um fluxo de caixa suficiente para fazer frente às suas obrigações com os bancos. A sustentação dos lucros por intermédio do aumento do déficit público impede que a economia entre num processo de “deflação de ativos”, no qual as firmas são obrigadas a vender seus ativos com maior liquidez para fazer frente às suas obrigações com os bancos comerciais, o que induziria uma queda dos preços dos ativos de capital, a qual teria efeitos negativos sobre as decisões de investimento das empresas e, portanto, sobre a demanda agregada, aprofundando a queda do nível de atividade econômica.

Em resumo, para Minsky uma grande depressão pode ser evitada se duas condições forem atendidas: 1) os bancos centrais devem atuar como “emprestadores de última instância” para impedir o aprofundamento de uma crise de liquidez; 2) o Tesouro deve sustentar os lucros a nível agregado por intermédio de uma política deliberada de aumento do déficit público.

Essas duas condições têm sido atendidas pelo Fed e pelo Tesouro dos EUA. O primeiro tem atuado intensamente por meio de suas linhas de redesconto para proporcionar a liquidez necessária ao funcionamento “normal” do sistema financeiro. Mais precisamente, o banco central dos EUA já emprestou centenas de bilhões de dólares a instituições financeiras em dificuldades para evitar o colapso das mesmas. O Tesouro americano, por sua vez, não só adotou uma política fiscal expansionista por intermédio de uma redução temporária do imposto de renda das pessoas físicas, como ainda socorreu com títulos públicos as operações das duas maiores empresas de hipoteca americanas.

Então podemos dormir tranqüilos, confiantes de que nada parecido com a crise de 1929 pode ocorrer outra vez? Não necessariamente. Somente a absorção das operações da Fannie Mae e da Freddie Mac no orçamento do governo americano aumenta o problema fiscal dos EUA. Sem contar as operações dessas empresas, o endividamento público dos EUA é superior a US$ 5 trilhões. O passivo dessas empresas é de um montante igual a esse valor. Se somarmos os dois valores, então teremos um passivo exigível do governo americano de cerca de US$ 10 trilhões, ou cerca de 80% do PIB dos EUA. O déficit fiscal para o ano fiscal de 2008 está estimado em mais de US$ 400 bilhões. Esses números indicam que o instrumento fiscal está bastante sobrecarregado. E se for necessário um novo pacote de estímulo fiscal para impedir que a economia entre em recessão, o Tesouro americano terá condições, nesse cenário, de aumentar o seu déficit? Até quando os mercados financeiros estarão dispostos a comprar títulos do governo americano num contexto de endividamento alto e crescente?

Não existem respostas prontas para essas perguntas. A única coisa que podemos fazer é torcer para que a resposta a elas seja “sim”. Do contrário, a pergunta lançada por Minsky há aproximadamente 25 anos poderá ser respondida de maneira afirmativa.

José Luis Oreiro é professor do Departamento de Economia da UNB e pesquisador do CNPq. E-mail: jlcoreiro@terra.com.br. Página pessoal: www.joseluisoreiro.en.br .

Gabriel Coelho Squeff é economista da Finep. E-mail: gabriel@finep.gov.br.

17/09/2008 - 12:29h Velhos problemas, novas oportunidades

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Tudo indica que, a despeito da piora percebida no cenário internacional, a meta de atingir uma taxa de investimento anual de 21% do PIB estabelecida pelo governo para 2010 vai ser atingida ou mesmo ultrapassada

David Kupfer - VALOR

Com esse título, a Cepal, Comissão Econômica para a América Latina, realizou em junho último a sua 32ª Conferência, visando definir as linhas mestras de ação para o fomento do desenvolvimento latino-americano a serem perseguidas nos próximos anos (documento disponível em www.cepal.org). Duas décadas após a eleição do lema “Transformação produtiva com equidade”, que em si mesmo revelava uma certa dose de pessimismo diante da capacidade de resposta insuficiente que se antevia para as economias da região, a revisão contida no novo documento buscou registrar diagnósticos e propostas voltadas para reconectar os diversos países às perspectivas de crescimento mais acelerado trazidas pelo novo padrão de expansão da economia global, no qual é maior o papel reservado aos países emergentes. Dentre os países do subcontinente latino-americano, o Brasil foi o que conseguiu ir mais longe no projeto original de industrialização, o que enfrentou o mais prolongado período de estagnação e é, agora, o que reúne as melhores condições para o salto em direção a um novo estágio de desenvolvimento. Há, de fato, um importante conjunto de oportunidades que estão se abrindo, mas que não deixam de embutir os velhos problemas dos quais o país não conseguiu ainda se desvencilhar em seu esforço para escapar das mazelas do baixo crescimento.

É exatamente quando o cenário internacional começa a atravessar uma zona de crescente turbulência que essas questões ganham relevância. Enquanto muitos analistas afirmam que a deterioração da situação financeira internacional já atingiu proporções que a tornam o pior episódio de crise desde a Grande Depressão de 1929, o Brasil vê-se diante do mais forte ciclo de investimentos desde os idos dos anos 1970. Como previsível, essa mesma dicotomia entre o velho e o novo dominou o 5º Fórum de Economia da Escola de Economia da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo, realizado no início dessa semana. Na mesa que buscou discutir as relações entre investimento e mercado interno, ficou claro que, no que respeita as probabilidades de sustentação das atuais taxas de crescimento por um horizonte temporal mais duradouro, existe espaço tanto para otimistas quanto para pessimistas, e também para ressabiados. Os otimistas nutrem-se das oportunidades abertas pelas novas frentes de expansão da economia relacionados ao deslanche das obras de infra-estrutura, de energia, incluindo a grande estrela que é a exploração do petróleo no pré-sal, e ainda de setores de commodities, que finalmente entraram em rota de ampliação da capacidade produtiva. Os pessimistas alimentam-se do temor do ressurgimento dos velhos problemas, dentre os quais a sensação de que os grandes déficits da conta-corrente poderão voltar muito antes do que se esperava e, em um quadro de maior restrição de liquidez internacional que se anuncia, devolver o país aos tempos de vulnerabilidade externa, da qual parecia ter recém se libertado.

No debate macroeconômico, faz todo sentido tentar avançar na modelagem teórica das relações de causalidade que entrelaçam crescimento econômico ao investimento, e esse último à poupança. A conclusão provável deve ser, porém, pela ausência de qualquer relação fixa unindo esses pares de variáveis. O problema é que os efeitos de um dado nível de investimento não podem ser totalmente determinados sem o conhecimento da produtividade do capital, isto é, qual a quantidade de produto que uma unidade de capital permite obter esse valor, que tecnicamente é chamado de relação capital-produto, é um parâmetro estritamente empírico, de difícil estimativa, pois depende da tecnologia, das instituições e, ainda, dos mistérios da capacidade organizacional humana. Para o Brasil não são disponíveis dados sobre essas relações capital-produto setoriais que, sabe-se, são hoje muito diferentes das que vigoravam no passado devido à profunda reestruturação ocorrida nos métodos de produção praticados no país. A título de exemplo, uma fábrica projetada para realizar simplesmente a montagem de componentes importados terá um nível de investimento muito menor do que outra com a mesma capacidade produtiva, mas com maior densidade de operações industriais, isto é, mais integrada do ponto de vista dos insumos e processos produtivos realizados. Posteriormente, quando entrar em operação, também irá gerar menos emprego e renda. Quanto a investimento e poupança, é lógico que, olhados a posteriori, ambos evoluem em sincronia, como os dois lados de uma mesma moeda, simplesmente porque fazem parte de uma identidade contábil. Há porém fortes evidências a sugerir que a poupança cresce quando o investimento cresce, definindo uma relação de precedência para a decisão de investimento, o que não quer dizer, porém, que o problema do financiamento macroeconômico do investimento não exista e não deva atrair a devida atenção dos formuladores da política.

Tudo indica que, a despeito da piora percebida no cenário internacional, a meta de atingir uma taxa de investimento anual de 21% do PIB estabelecida pelo governo para 2010 vai ser atingida ou mesmo ultrapassada, a confirmar-se para o segundo semestre a expansão de 16% da formação bruta de capital já ocorrida nesse primeiro semestre de 2008 - uma velocidade quase o triplo da do crescimento do PIB. As causas desse fato estão associados aos efeitos aceleracionistas do ciclo de crédito no mercado de bens e habitações, à dinamização da demanda no mercado interno provocada pelo processo de redistribuição de renda em curso, aos efeitos do cenário benigno no mercado internacional de nossos principais produtos de exportação que vigorou no passado recente e, finalmente, à retomada dos investimentos em infra-estrutura energética e de transportes que, de tão atrasados, não podiam mais esperar.

Em conjunto, esses blocos de investimento conseguiram fazer funcionar o motor de arranque da economia brasileira, ultrapassando uma barreira que vinha se mostrando quase irredutível. Daí a serem indutores de um processo de crescimento sustentado, dependerá da capacidade do governo modificar o atual mix da política macroeconômica, que é direcionado para objetivos puros de estabilização para começar a construir uma macroeconomia do crescimento no país. Na prática, após décadas de políticas curto-prazistas, será necessário reaprender a fazer políticas eficazes de financiamento do desenvolvimento. São as dificuldades envolvidas nessa passagem que deixam alguns nem otimistas nem pessimistas, mas bastante ressabiados.

11/09/2008 - 10:18h O Brasil continua bombando

PAULO NOGUEIRA BATISTA JR.



É possível cuidar da inflação e das contas externas sem paralisar o desenvolvimento econômico do país

O IBGE divulgou ontem o PIB do segundo trimestre. Mais uma vez, os resultados foram animadores. Com o passar do tempo, vai ficando mais claro que o Brasil está finalmente conseguindo deixar para trás o quadro de estagnação ou crescimento medíocre que marcou a maior parte das décadas de 1980 e 1990 e o início da atual.
No primeiro semestre, o PIB aumentou 6% em relação ao primeiro semestre de 2007. Desde o ano passado, vem ocorrendo uma aceleração gradual da economia. Todos os macrossetores estão crescendo de forma respeitável. A indústria cresceu 6,3% em relação ao primeiro semestre de 2007; a agropecuária, 5,2%; o setor de serviços, 5,3%. Brasileiro desconfia de boa notícia.
E com razão. Ficamos todos mais ou menos traumatizados pelos choques e frustrações que o país experimentou durante quase 25 anos.
Muitos podem estar se perguntando: será que estamos crescendo demais? A economia brasileira corre o risco de bater em algum teto?
A preocupação é pertinente. Se a expansão da demanda ultrapassa a capacidade produtiva, pode haver pressão inflacionária e/ou aumento exagerado das importações e desequilíbrio nas contas externas.
Os dados mostram, contudo, que o investimento produtivo vem apresentando desempenho excepcional.
A formação bruta de capital fixo está aumentando há oito trimestres consecutivos. No segundo trimestre deste ano, o investimento fixo foi nada menos que 16,2% mais alto do que em igual período de 2007.
Ora, a formação bruta de capital é o componente da demanda agregada que, deduzida a depreciação do estoque de capital existente, cria capacidade produtiva adicional na economia. O comportamento vigoroso do investimento talvez explique o fato de que não se tenha notado, no passado recente, uma elevação expressiva do grau de utilização da capacidade no setor industrial. As séries dessazonalizadas, baseadas em levantamentos da Fiesp e da CNI, indicam estabilização do nível de aproveitamento da capacidade industrial instalada. De outubro de 2007 a junho de 2008, o grau de utilização vem variando entre 83% e 84%. Segundo a FGV, o grau de utilização do potencial de produção da indústria chegou a 86,1% em julho, contra 85,2% em julho de 2007.
Em outras palavras, estima-se uma ociosidade média da ordem de 14% a 17% no setor industrial. Podem existir, é claro, pontos de estrangulamento em alguns subsetores, com efeitos sobre preços e/ou a balança comercial. Por outro lado é bem provável que os dados de capacidade instalada subestimem o potencial da indústria. Muitas firmas podem aumentar os níveis de produção de modo relativamente rápido por meio de investimentos de pequeno porte, aumento no número de turnos de trabalho e outras adaptações nos processos industriais.
Não se deve perder de vista, além disso, que também existe capacidade ociosa no mercado de trabalho.
As taxas de desemprego vêm caindo, mas ainda há muitos trabalhadores à procura de emprego ou subempregados em ocupações precárias. A taxa de desemprego aberto nas seis principais regiões metropolitanas ainda se situava em 8,1% em julho.
As taxas de desemprego total (desemprego aberto, desemprego por trabalho precário e desemprego por desalento) variavam entre 9,6% em Belo Horizonte e 21,6% em Recife.
Temos condições, portanto, de continuar crescendo. Não podemos descuidar da inflação e das contas externas. Mas parece possível equacionar esses problemas sem paralisar o desenvolvimento do país.


PAULO NOGUEIRA BATISTA JR., 53, escreve às quintas-feiras nesta coluna da FOLHA DE SÃO PAULO. Diretor-executivo no FMI, representa um grupo de nove países (Brasil, Colômbia, Equador, Guiana, Haiti, Panamá, República Dominicana, Suriname e Trinidad e Tobago). pnbjr@attglobal.net

PIB a 3,5% não é tragédia, afirma Belluzzo

Na opinião do economista, a crise global levará o Brasil a diminuir o ritmo e pode requerer um forte corte de juros

A exploração dos campos do pré-sal ajudará o Brasil a absorver melhor o impacto da desaceleração mundial, afirma conselheiro de Lula

Joel Silva - 13.jun.08/Folha Imagem
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O economista Luiz Gonzaga Belluzzo, professor da Unicamp

DENYSE GODOY - Folha SP

DA REPORTAGEM LOCAL

O desempenho da economia brasileira no segundo trimestre foi animador, mas, agora, já se notam sinais de desaquecimento, diz o economista Luiz Gonzaga Belluzzo, 65, professor da Unicamp e conselheiro informal do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Para ele, não se deve fazer drama com a diminuição do ritmo do país, pois os futuros avanços partirão de um nível de atividade elevado.

FOLHA - O PIB brasileiro cresceu 6,1% no segundo trimestre porque os juros ainda não começaram a fazer efeito. Como fica o cenário para o Brasil em 2009, considerando também a crise global?
LUIZ GONZAGA BELLUZZO - Minha impressão é que já há sinais de desaceleração. Acho que teremos, sim, uma taxa de crescimento mais baixa. Mas precisamos ter claro que uma queda de 6% para 4% ou 3,5% [ao ano] não é nenhuma tragédia. A partir de um nível já alto, vai ter um crescimento menor. E não há como evitar essa desaceleração, pelo menos nos próximos anos, enquanto durar a desaceleração global.

FOLHA - O senhor disse anos?
BELLUZZO - O Brasil terá que atravessar um período de ajustamento, no tempo que durar a recessão global. Mas, depois, tem a exploração do pré-sal, que começa a dar resultados.
Será necessário então cuidar do financiamento à exploração. A descoberta do pré-sal pode reduzir um pouco as trombadas do ajustamento brasileiro.

FOLHA - A economia dos EUA cresceu 3,3% no segundo trimestre. Isso significa que o alastramento dos problemas bancários pela economia ainda não se deu?
BELLUZZO - Na verdade, o setor externo deu uma contribuição importante para que o PIB americano não recuasse. Porque todos os componentes da demanda agregada caíram: o emprego caiu, a produção caiu, o desemprego aumentou. O efeito positivo do setor externo vai depender [daqui para a frente] da reação das outras econ