15/08/2012 - 08:55h A aparente contradição entre PIB e emprego

Por Cristiano Romero – VALOR

A economia brasileira parece viver uma aparente contradição. Mesmo com o PIB crescendo no atual biênio bem abaixo do potencial – 2,7% em 2011 e menos de 2% neste ano -, o desemprego continua baixo (5,8%), situação que muitos especialistas classificam como pleno emprego.

Como fazem mensalmente, economistas do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da FGV se debruçaram sobre o principal tema da conjuntura para tentar entender o que parece ser um paradoxo. Chegaram à conclusão de que não há explicação fácil nem única. A primeira dúvida sobre o complexo momento que vivemos diz respeito à própria desaceleração do PIB.

Muitos analistas atribuem esse fato ao desaquecimento da demanda, provocado pelo recuo da demanda externa e dos investimentos. O ciclo de estoques da indústria, que chegou ao pico na virada do ano e foi gradativamente sendo eliminado no primeiro semestre de 2012, também seria um indício de demanda fraca.

Não há explicação única para a conjuntura brasileira

Quando se observa a inflação medida em 12 meses, houve recuo de um ponto percentual nos preços dos serviços. Uma parte disso se deve à nova ponderação feita pelo IBGE dos hábitos de consumo dos brasileiros, mas, no geral, a pressão desses preços diminuiu, um sinal de moderação da demanda. Ademais, o aumento da inadimplência, mesmo com o baixo desemprego e a renda elevada, é indicação de que o ciclo do crédito estaria se esgotando. Não se deve subestimar o fato de que as vendas do varejo estão caindo.

É preciso lembrar, ainda, que nos últimos 12 meses o Banco Central cortou a taxa básica de juros (Selic) de 12,5% para 8% ao ano. O processo não acelerou a inflação, mas também não reanimou a economia. O que chama atenção na tese da queda da demanda é o mercado de trabalho, que segue aquecido.

Alguns analistas acreditam que a razão é de natureza demográfica. O mercado de trabalho continua apertado porque o número de entrantes potenciais está diminuindo e não porque a demanda esteja aquecida. Outra visão possível, que confronta a tese do recuo da demanda, é a de que a economia está em pleno emprego e a desaceleração do PIB representa um processo de ajuste estrutural.

Por esse raciocínio, a economia estaria transferindo postos de trabalho do setor industrial para o de serviços. “Na transição, há uma fase em que necessariamente parcelas de capital ficam ociosas na indústria, o que reduz o crescimento pelo lado da oferta. Adicionalmente, como o setor de serviços emprega mais para uma mesma quantidade de capital do que a indústria, a mudança estrutural contribuiu para dar fôlego ao mercado de trabalho. A recomposição setorial explicaria tanto a desaceleração quanto a manutenção de um mercado de trabalho pressionado”, diz o diretor do Ibre, Luiz Guilherme Schymura.

A dificuldade dessa tese, aponta Schymura, são os indicadores de desaquecimento da demanda. “Isso torna pouco crível a visão de que os últimos desdobramentos da economia brasileira possam se resumir a um fenômeno apenas do lado da oferta.”

Há outras explicações para o suposto descasamento entre PIB e mercado de trabalho. Uma delas, “reiteradamente negligenciada” pelo debate na opinião de Schymura, é a longa defasagem dos efeitos do corte de juros e também do próprio esfriamento da economia.

Do lado do desaquecimento, a indústria, afetada pelo câmbio apreciado, a concorrência dos importados e a alta salarial provocada pelo setor de serviços, foi a primeira a sentir o golpe e está praticamente estagnada há dois anos. Os investimentos não se recuperam por causa da crise de confiança provocada pela turbulência internacional.

Por essa tese, o emprego industrial já estaria sendo afetado e o desaquecimento chegará ao setor de serviços, se espalhando para o mercado de trabalho de forma generalizada. “É precisamente esse passo, que tanto tarda, felizmente, no atual ciclo de negócios, que gera perplexidade entre os analistas”, comenta Schymura.

A ideia da defasagem prolongada, acentuada pela mudança estrutural da economia pró-serviços, ganha força. O diretor do Ibre observa que os números do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) revelam que 2012 tem sido o pior ano, desde 2006, em criação líquida de empregos formais. Se isso for uma tendência, haverá problemas mais amplos de emprego nos próximos meses.

Uma outra tese sobre a manutenção do emprego, em meio ao PIB fraco, é a de que, dada a forte absorção de novos trabalhadores nos anos recentes, restaram desocupados com baixa qualificação, desestimulando contratações formais adicionais. Uma outra hipótese seria a de que as empresas estariam retendo empregados, esperançosas de que a “recessão” seja temporária, um sentimento estimulado pelo governo.

As razões da retenção seriam variadas – elevados custos de contratação, treinamento e demissão; custos de manutenção de estoques superiores aos de manutenção de trabalhadores; baixa disponibilidade de mão de obra qualificada. A retenção, em meio ao desaquecimento da economia, tem um efeito colateral, embora temporário: a queda da produtividade, como vem ocorrendo.

O risco, no caso da retenção de mão de obra, é o de uma reversão rápida e brusca, motivada pela desistência das empresas em esperar pela recuperação da economia. Nessa hipótese, a taxa de desemprego subiria rapidamente, podendo jogar o mercado de trabalho num ciclo vicioso.

“Se a razão para o alto nível de emprego for demográfica, e, portanto, fundamentalmente de oferta, nada há a fazer”, diz Schymura. “Por outro lado, se consiste num ajuste estrutural da composição dos setores da economia, aceitá-lo ou tentar neutralizá-lo parcial ou totalmente depende da estratégia econômica do ponto de vista mais amplo. Num foco mais imediato, uma mudança desse tipo pode até ajudar a preservar o consumo no ponto mais fraco do ciclo econômico – já que o aumento relativo do setor de serviços é gerador de emprego e, portanto, de renda. Uma vez concluída a transição, no entanto, essa benesse cíclica cessará, e, se esse momento coincidir com um período de economia ainda combalida, pode precipitar uma piora ou até mesmo recessão”, adverte ele.

Cristiano Romero é editor-executivo e escreve às quartas-feiras

E-mail: cristiano.romero@valor.com.br

09/07/2012 - 09:46h ‘Reação do governo evitou a recessão’


Ele diz que é preciso olhar o lado positivo: ‘economia brasileira, mesmo num cenário extremamente adverso, vai crescer’

09 de julho de 2012

IURI DANTAS / BRASÍLIA – O Estado de S.Paulo

Principal formulador do Plano Brasil Maior, a política industrial do governo, o presidente da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), Mauro Borges Lemos, avalia que o País “provavelmente estaria à beira da recessão”, não fossem os pacotes de estímulo ao consumo. Ele aposta em crescimento “pequeno” da indústria neste ano, apesar da queda da produção industrial nos primeiros seis meses de 2012.

Amigo de longa data de Dilma e do ministro do Desenvolvimento, Fernando Pimentel, a quem é subordinado, o economista afirma que “o governo está fazendo tudo o que pode para manter a economia crescendo”. A seguir, os principais trechos da entrevista que concedeu ao Estado:

Por que a indústria está patinando?

Porque estamos no meio de uma crise internacional de grandes proporções. A forma mais visível de mensurar isso é a grande agressividade das importações. Há excedente de bens manufaturados no mundo e a estratégia, em geral, é desová-los em mercados que ainda estão em crescimento.

O dólar a R$ 2 demorou?

O dólar a R$ 2 é insuficiente para impedir a desova.

O endividamento das famílias e a cautela dos bancos em emprestar limitam o impacto das medidas de estímulo ao consumo anunciadas pelo governo?

O maior economista do século 20, o John Maynard Keynes, denominou a economia capitalista de uma economia monetária, regida por relações mediadas pelo dinheiro, pela moeda. Hoje, no Brasil, como somos uma economia monetária em pleno funcionamento, é absolutamente normal que, frente a um quadro totalmente adverso, você aumente o que Keynes chamava de preferência pela liquidez. Nestes momentos, você tem contração do consumo das famílias e dos empresários, que é o investimento. Eles tendem a reagir com uma contração relativa perante grande incerteza.

Medo de a crise piorar?

Claro que há uma aversão à incerteza. Não é aversão ao risco, é mais do que isso. É uma aversão a um cenário econômico futuro que não conhecemos. Obviamente o governo está tentando, com todos os instrumentos à sua disposição, mitigar isso e eventualmente retomar o crescimento no segundo semestre. O governo está fazendo tudo o que pode para manter a economia crescendo, que é a questão fundamental.

A presidente Dilma apelou ao espírito animal dos empresários, mas o investimento não deslanchou. Por que não deu certo?

Primeiro, eu diria que está dando certo. Vamos ter um crescimento positivo neste ano. Se pegar o analista mais pessimista, ele não projeta recessão. A economia brasileira, mesmo num cenário extremamente adverso, vai crescer. Que seja 2%, 2,5% ou 3%, não interessa.

O governo deixou de arrecadar R$ 100 bilhões da indústria, mas a tributação continua alta. O que falta para a indústria reagir?

O problema central não é, em si, da desoneração tributária, mas fatores estruturais e heranças regulatórias e tributárias, que fazem com que capital e trabalho e os insumos básicos da economia estejam relativamente caros. A questão é como caminhar na agenda de redução destes fatores e insumos. Quando você inicia uma trajetória de política econômica com redução da taxa real de juros, está reduzindo o custo do crédito, do dinheiro. Quando desonera a folha de pagamentos de setores intensivos de trabalho está reduzindo custos que, por razões históricas, têm uma tributação muito grande. A grande estratégia do governo é um programa de redução desses custos no longo prazo. Há um conjunto de medidas que vão além de pura desoneração para aumentar o consumo, como vem sendo propalado.

Por exemplo?

Os regimes especiais de tributação. O esforço pela redução do custo da energia. Essa é uma agenda que tem impacto nos custos da indústria muito grande. Se desonerar o custo da energia, ou reduzi-lo através de mecanismos regulatórios, está aumentando a competitividade da indústria. Ao contrário da chamada agenda do puxadinho, é uma agenda de longo prazo.

A produção industrial cai há nove meses, cadê os resultados? Vamos fazer um raciocínio contra-factual: se o governo não estivesse tomando nenhuma medida, como estaria a economia brasileira hoje? Possivelmente, já estaria à beira da recessão. A reação do governo está contribuindo decisivamente para não entrarmos em recessão

Economistas defendem reformas estruturais. O País consegue superar a crise sem isso?

O Brasil vai continuar fazendo reformas e já fez muitas. Não vamos parar o País, fazer reformas durante um determinado número de anos e depois voltar a funcionar. Nessas reformas, você troca o pneu furado com a bicicleta andando. Estamos num processo permanente. Por exemplo: criar um sistema privado de financiamento do longo prazo, do investimento, é um grande desafio hoje. Temos condições de implementar essa reforma e isso está no radar do Banco Central e da Fazenda. Outro exemplo é a mudança do sistema previdenciário público, que está em plena implantação e é um dos projetos mais importantes da Presidência da República.

A indústria encerra o ano com crescimento? De quanto?

Estamos torcendo fortemente para um crescimento. Vai ser um número positivo, mas pequeno.

02/07/2012 - 11:55h Que país é hoje do Primeiro Mundo?


Organismos econômicos já questionam a fronteira entre nações ricas e emergentes

02 de julho de 2012

JAMIL CHADE, CORRESPONDENTE / GENEBRA – O Estado de S.Paulo

Numa recente edição dedicada à alimentação, a revista The Economist foi clara: “Quando o mundo era simples, rico era gordo e pobre era magro”. Hoje, a complexidade da cadeia alimentar transformou essa fronteira, com milhares de países ditos pobres vivendo o problema da obesidade, enquanto é justamente nos países ricos que a alimentação saudável ganha força.

Mas não é apenas no mundo da alimentação que as fronteiras entre países ricos e países em desenvolvimento começam a ser questionadas. Um levantamento feito pela reportagem do Estado nos principais organismos econômicos revela uma verdadeira transformação na posição de países emergentes no mapa econômico nos últimos 20 anos, obrigando multinacionais, bancos e governos a redefinirem suas prioridades, além do equilíbrio de poder.

Nem a ONU, nem entidades assistenciais deixam de alertar: o crescimento das economias emergentes ainda não significa o fim da miséria. Ao contrário. Em muitos desses países, a diferença entre a camada mais rica e a mais pobre nunca foi tão pronunciada. Em resumo: ser a sétima economia do mundo ajuda. Mas nem em uma miragem resolve décadas de profundos problemas sociais, desigualdades e ineficiências estruturais.

A Espanha pode ter 24% de desemprego e ser hoje um país que pede resgate. Mas conta com educação e saúde públicas para todos, mesmo que muitos já se perguntem quanto tempo isso vai durar. Pelo Índice de Desenvolvimento Humano- indicador apontado como sendo a real medida de bem-estar das sociedades -, as economias ditas “emergentes” nem sequer aparecem perto dos líderes, lugares reservados há anos para países nórdicos e demais europeus.

Um estudo exclusivo da consultoria Roland Berger, obtido com exclusividade pelo Estado, aponta que economias desenvolvidas gastam um terço do Produto Interno Bruto (PIB) em sistemas sociais. Na China, esse segmento recebe apenas 6% do PIB, enquanto na Rússia, 12%.

Ainda assim, os sinais de uma transição para um novo mapa-múndi da economia não podem ser ignorados. Por vários indicadores, os emergentes desbancaram nos últimos anos tradicionais potências, causando mal-estar em poderes consolidados e obrigando um repensar de certas fronteiras.

Hoje, Europa, Japão e Estados Unidos representam o menor peso na economia mundial nos últimos 50 anos, segundo dados da OCDE. O pico, no caso americano, foi em 1960. O mundo ainda não havia totalmente superado as sequelas da Segunda Guerra Mundial e a economia dos Estados Unidos representava 38,6% do PIB do planeta. Em 2011, essa taxa cairia para 21%, seu ponto mais baixo desde então.

No caso europeu, a queda foi de um pico de 34% em 1980 para atuais 25%. A Alemanha, que em 1969 representava 8,9% da economia mundial, hoje tem uma parcela de apenas 5,8%. A economia japonesa representava 17% do PIB mundial em 1994. Em 2011, era apenas 8%. Em 2010 e 2011, França, Reino Unido e Itália registraram a menor fatia no PIB mundial em sua história contemporânea.

Alguns países emergentes seguiram uma tendência contrária. Em 1987, a China representava apenas 1,6% da economia mundial. Hoje, tem quase 10% e o segundo PIB do planeta. Já a Coreia do Sul, que tinha apenas 0,1% do PIB mundial em 1965, hoje representa 2%. Em 1969, a economia brasileira tinha 1,5% do PIB mundial. Hoje, se aproxima de 3%, ameaçando desbancar a França na sexta posição.

“75% do crescimento mundial nos últimos cinco anos ocorreu graças aos países emergentes”, confirmou Jaime Caruana, diretor-gerente do Banco de Compensações Internacionais, o BC dos BCs.

Indicadores. O peso na economia mundial não seria o único indicador da necessidade de redesenhar o mapa-múndi. Segundo dados da Organização Mundial do Comércio, metade do fluxo de exportações hoje é realizado por países emergentes. A China, que em 1990 não estava nem entre os dez maiores exportadores, é hoje o maior vendedor do planeta e dona da maior produção industrial.

Na lista dos dez primeiros produtores industriais, quatro são emergentes. Em termos de reservas externas, países hoje como o Brasil acumulam mais reservas que toda a zona do euro. Já a China tem um terço das reservas mundiais -US$ 3,1 trilhões.

22/05/2012 - 09:15h Scotiabank eleva proyección: Perú crecería 6.3% este año

GESTIÓN

Lunes, 21 de mayo del 2012

Los sectores no primarios vinculados a la demanda interna, como Construcción, Servicios y Comercio, seguirán liderando la expansión del PBI en los próximos meses, estimó el banco.

La construcción seguirá liderando el crecimiento del PBI, según el Scotiabank. (Foto: Carolina Urra)

La construcción seguirá liderando el crecimiento del PBI, según el Scotiabank. (Foto: Carolina Urra)

Lima (Andina).- El banco Scotiabank elevó su proyección de crecimiento del Producto Bruto Interno (BPI) para el 2012 de Perú de 5.5%, previsto anteriormente, a 6.3 por ciento por ser consistente con el crecimiento de 6% durante el primer trimestre del año.

Agregó que durante el segundo trimestre Perú podría obtener un crecimiento similar al de los primeros tres meses del presente año.

“Con nuestra proyección para el segundo trimestre, y las perspectivas de la demanda interna y las exportaciones, elevamos nuestro estimado de crecimiento del PBI para el año 2012 de 5.5 a 6.3 por ciento”, dijo el analista de Departamento de Estudios Económicos del Scotiabank, Pablo Nano.

Señaló que a nivel desagregado los sectores no primarios vinculados a la demanda interna, como Construcción, Servicios y Comercio, continuarán liderando la expansión del PBI, y registrarán en conjunto un crecimiento que bordearía el 7%.

Por su parte, los sectores primarios mostrarían de forma agregada una expansión de 2.5%, no obstante, la evolución no sería uniforme. “Así, prevemos que continúe el dinamismo del sector Agropecuario, en especial la producción avícola ante el aumento del consumo, pero proyectamos una caída de la Pesca ante la menor cuota de captura de anchoveta producto de las condiciones oceanográficas anormales”, anotó.

Por último, señaló que el sector Minería e Hidrocarburos mostraría un crecimiento marginal ante la ausencia de proyectos importantes que ingresen en operación durante el 2012.

18/05/2012 - 09:01h Trajetória das commodities pode fragilizar o país

Por Roberta Costa | VALOR

De São Paulo

Não é mais um tabu considerar a saída da Grécia da zona do euro. Essa afirmação foi ouvida por vários analistas e consta em editoriais de jornais globais nos últimos dias. Depois de meses de tentativas de colocar o país em rota de recuperação da confiança após a reestruturação da dívida, líderes políticos, organismos internacionais e o mercado financeiro começam a falar abertamente dessa possibilidade.

A Grécia, isoladamente, tem uma economia diminuta, que representa apenas 2% do Produto Interno Bruto (PIB) da região. Em um cenário cada vez mais provável, de que o país seja impelido a sair da união monetária, certamente haveria um conjunto de variáveis que o levariam a uma recessão profunda, uma disparada da inflação e da dívida em nova moeda e uma situação grave de desemprego e perda de renda.

Analistas veem basicamente duas possibilidades de desfecho para a tragédia grega: uma saída ordenada, que se traduz em acordos prévios com o Banco Central Europeu (BCE), FMI e credores – algo bem menos provável – ou uma ruptura inevitável precipitada por corrida bancária e incapacidade de solvência. O mercado vem reduzindo sua exposição à Grécia há vários meses, houve tempo para se antever o pior. Espera-se, no limite, ações coordenadas dos bancos centrais (como em 2008), intervenções pesadas do BCE, entre outras saídas.

Mas, ainda assim, um contágio pela via financeira que atingisse mais duramente os países periféricos europeus como Espanha e Portugal, além da Itália, precipitaria uma interrupção dos fluxos de crédito e de liquidez em toda a Europa, como de resto no mundo, aumentando sobremaneira a aversão ao risco. Importante lembrar que os bancos europeus são os mais importantes provedores de crédito ao comércio exterior no mundo e muitos deles, os menos preparados, poderiam quebrar em um cenário extremo.

Criar modelos para captar o impacto desses acontecimentos sobre os ativos mundo afora é tarefa quase impossível neste momento, atestam vários analistas consultados pelo Valor. Mas o que se pode prever, com base em eventos passados, é que o impacto sobre a economia mundial seria considerável, amplificando os sinais já vistos de fraqueza da atividade em motores como a China, altamente importante para o Brasil em termos de trocas comerciais. Esse seria um forte canal de transmissão da crise para a economia brasileira, mas não o único.

Os indicadores chineses vêm surpreendendo negativamente os analistas nos últimos meses, ainda que o governo tenha anunciado uma meta de crescimento de apenas 7,5% para 2012. Ocorre que, ano após ano, as metas oficiais foram batidas e a expectativa era de que este cenário se repetisse.

O crescimento de apenas 0,3% nas importações e de 4,9% das exportações registrado no mês de abril foi prova inequívoca da inversão de trajetória da economia do país. A corrente de comércio chinesa neste mês subiu apenas 2,7%, de 7,1% em março. Outros indicadores como o PMI (índices de gerentes de compras) já vinham antecipando esse quadro, levando a revisões mais contundentes de projeções para o PIB deste ano.

O menor ritmo da economia reflete uma estratégia do próprio governo chinês. Na crise de 2008, a injeção de liquidez via política fiscal e monetária foi tamanha que criou bolhas, como a imobiliária. O Brasil, inclusive, se beneficiou muito da demanda por minério de ferro nesse período, o que ajudou a amenizar o impacto da crise americana no país. De lá para cá, o governo chinês tomou diversas medidas restritivas para equilibrar o perfil do crescimento, buscando uma economia menos focada no setor externo e mais voltada ao consumo.

Mesmo as ações recentemente tomadas pelo banco central chinês, como as reduções de depósitos compulsórios, não têm sido suficientes para dar novo impulso à atividade, porque a demanda externa vem se retraindo e não parece ser objetivo das autoridades reverter todas as restrições que foram impostas à economia. A participação da União Europeia na pauta de exportações da China caiu de 20% para 18%, uma queda que foi só marginalmente compensada por um aumento da demanda americana. O Japão, por sua vez, mostra melhor performance (uma exceção na Ásia), porém advinda de estímulos governamentais que têm prazo para acabar.

Como em 2008, a crise na zona do euro já vem enfraquecendo os preços de commodities, o que representa um risco elevado para o balanço de pagamentos brasileiro. O índice CRB (Commodities Research Bureau, que exclui preços de energia) teve recuo de 12% em média no primeiro trimestre deste ano em relação ao mesmo período do ano passado. Do fundo do poço atingindo em fevereiro de 2009, após queda de 54% no auge da crise nos Estados Unidos, o índice recuperou-se até abril do ano passado e desde então desabou 22%. Todos os subgrupos do indicador caíram, mas o destaque foram as matérias primas, especialmente o minério de ferro, que perdeu 20% de seu valor nesse período. Já as commodities agrícolas, apesar de desenharem a mesma tendência, sofrem menos por serem mais inelásticas ao crescimento.

Os termos de troca brasileiros caíram 7,7% do auge recente visto em setembro do ano passado, justamente espelhando o comportamento dessas variáveis, e já aponta uma perspectiva mais cautelosa nas contas externas.

A trajetória dos preços das commodities é o grande ponto de dúvida sobre a demanda mundial depois de um eventual recrudescimento da crise na zona do euro. É consenso entre analistas que, por mais que haja injeções maciças de liquidez, é o crescimento (ou a falta dele) que determinará até que ponto elas podem cair, levando junto a robustez dos países emergentes exportadores, como o Brasil.

15/05/2012 - 08:15h Dados sugerem pouso mais brusco do que o esperado para a China

Por Jamil Anderlini | Financial Times – VALOR

Num momento de descuido em 2007, o homem ungido para assumir no ano seguinte como o timoneiro da segunda maior economia mundial expôs suas dúvidas sobre as estatísticas relativas ao crescimento da economia da China.

Os dados oficiais do Produto Interno Bruto (PIB) do país são “produzidos pelo homem” e, portanto, pouco confiáveis, disse Li Keqiang ao embaixador dos Estados Unidos na época. Acrescentou, sorrindo, que os encarava como sendo “apenas para fins de referência”.

Ao avaliar o crescimento da economia, Li, que deverá formalmente substituir Wen Jiabao como o premiê chinês em março, disse que ele se concentra, em vez disso, em três conjuntos de dados – o consumo de energia elétrica, os volumes de carga ferroviária e a concessão de empréstimos bancários. Se sua avaliação estiver correta, a economia chinesa está com muito mais problemas do que os dados oficiais do PIB indicaram até agora.

Dados econômicos não observados tão atentamente e divulgados nos últimos dias, como os números do consumo de energia elétrica, o volume da carga ferroviária e os empréstimos bancários, mostraram uma queda vertical do nível de atividade da economia, que parece ter pegado as autoridades de surpresa.

Os números do PIB da China são divulgados apenas a cada três meses e, no primeiro trimestre deste ano, pareciam mostrar uma continuidade da queda gradual que já ocorria nos 12 meses anteriores.

A expansão de 8,1% computada nos três primeiros meses, em relação ao mesmo período do ano passado, representou uma nítida desaceleração em relação ao crescimento de 8,9% contabilizado no quarto trimestre do ano passado, mas dificilmente pode ser considerada um “pouso forçado” para os altos voos da economia chinesa.

Depois desse indicador relativamente sólido, a maioria dos analistas e autoridades do governo declarou que o crescimento alcançou seu patamar mais baixo no primeiro trimestre e que a recuperação começaria em abril.

“Analistas ’sell-side’ e autoridades chinesas quiseram crer na história de que aquela foi apenas um pequeno mergulho e de que a economia voltaria a disparar”, diz Patrick Chovanec, professor de administração de empresas da Universidade Tsinghua, de Pequim. “Mas essas projeções representaram, acima de tudo, a vitória da esperança sobre a razão.”

O consumo de energia elétrica de abril ainda não foi divulgado, mas a produção aumentou apenas 0,7% em relação ao mesmo mês de 2011, bem abaixo do crescimento ano a ano de 7,2% computado em março e do de 11,7% registrado em abril de 2011.

O aumento dos volumes de carga ferroviária nos primeiros meses do ano correspondeu a cerca de metade do ritmo de expansão observado na mesma época do ano passado, e os bancos concederam muito menos novos empréstimos do que o previsto.

“A China viveu, nos últimos três anos, um boom de investimentos que todo mundo reconhecia como sendo insustentável, e agora estamos vendo o que é a insustentabilidade”, diz Chovanec. “A dissolução desse boom de investimentos está acontecendo sem nada que o substitua, e isso significa que a China deverá ter um crescimento do PIB muito menor que o que nos acostumamos a ver.”

Boa parte da desaceleração proveio do mercado imobiliário, área em que os esforços do governo para coibir uma bolha alimentada pelo crédito estão começando a parecer um pouco exagerados.

Os investimentos em imóveis, que respondem diretamente por cerca de 13% do PIB, caíram verticalmente nos últimos tempos, com o recuo de 4,2% na construção de imóveis residenciais observado nesse período de três meses, em relação ao mesmo período do ano passado. Esse percentual deve ser comparado com o crescimento de 5,1% contabilizado nos dois primeiros meses.

Mas essa desaceleração transcende a mera desaceleração do mercado imobiliário. As exportações e importações chinesas de abril revelaram-se bem mais fracas que o previsto. As importações cresceram apenas 0,3% na comparação ano a ano, bem abaixo da média das previsões dos analistas, de uma expansão de cerca de 11%.

As importações das principais commodities desaceleraram significativamente, enquanto as compras externas de maquinário caíram, indicando um “desaquecimento alarmante do investimento industrial”, segundo o economista Stephen Green, do banco Standard Chartered.

“Na ausência de um novo afrouxamento da política econômica, prevemos que o crescimento continuará a desacelerar no restante do segundo trimestre”, diz ele.

Muitos analistas acham que a China esperou demais para estimular a economia em desaceleração. O expurgo do mês passado do dirigente chinês Bo Xilai e a resultante turbulência política foram um dos motivos pelos quais Pequim não agiu antes, mas alguns economistas dizem que suas alternativas para impulsionar o crescimento estão mais limitadas.

Em resposta aos recentes dados decepcionantes, o Banco Central chinês reduziu no sábado o depósito compulsório dos bancos, a fim de estimular o fluxo do crédito.

Mas a enorme enxurrada de crédito fácil e de investimentos apoiados pelo governo, desencadeada após a crise financeira, deixou Pequim com pouco poder de fogo desta vez, em meio ao temor de ressurgimento da inflação e da alta da inadimplência de empréstimos junto aos bancos estatais.

Enquanto se prepara para assumir no ano que vem, Li deve estar fazendo votos de que suas suposições estejam erradas e de que os dados do PIB sejam o indicador mais preciso. Caso contrário, ele poderá se defrontar com uma situação em deterioração, e terá um poder relativamente pequeno para solucioná-la.

04/05/2012 - 10:21h Emergentes puxam expansão global

Por Assis Moreira | VALOR

De Genebra

O crescimento econômico da China chegará a 70% em termos acumulados entre 2007 e 2013, comparado a zero na União Europeia e 6,6% nos Estados Unidos, refletindo como a crise financeira empurrou os rumos da economia mundial para a Ásia.

Estudo do Deutsche Bank, um dos maiores bancos do mundo, mostra que, na média, os emergentes terão crescimento acumulado de 37% no período. No caso dos países da América Latina, incluindo o Brasil, a expansão econômica acumulada ficará em 22%; no Leste Europeu, em 15%.

A fatia dos emergentes na economia mundial cresce cada vez mais. Era de 39,5% em 1995 e deve passar para 56,5% no ano que vem. No caso da China, triplica de 5,6% para 15,6%, em termos de paridade de poder de compra (PPP).

Pelos cálculos do banco alemão, ainda mais importante é a contribuição significativa dos emergentes para o crescimento mundial. Com os países ricos em crise, o bloco dos emergentee foi responsável por 92% da expansão econômica em 2012, e a cifra deve ser similar neste ano. É quase o dobro dos 52% de 2000.

Para a economista Maria Laura Lanzeni, chefe de pesquisa de mercados emergentes do banco, os emergentes vão se consolidando como nova locomotiva da economia mundial, com expansão interna impulsionada por uma nova classe média de dezenas de milhões de pessoas.

Na sua avaliação, os emergentes continuarão a superar as economias desenvolvidas. Devem crescer 5,5% neste ano, comparado a 1,7% dos países ricos e 3,5% da economia mundial. Ao mesmo tempo, as bolsas de valores do grupo emergente continuarão sensíveis a choques globais.

Enquanto a dívida pública dos ricos continuará a crescer neste ano, para quase 120% do PIB, a média dos emergentes fica abaixo de 40%. O risco país, no caso do Brasil, é menor do que o da França e boa parte dos outros europeus.

Mais multinacionais dos emergentes estão entre as maiores do mundo em capitalização, como PetroChina, número 2 em 2011. A Petrobras ficou na quinta posição.

Sobre a questão de por que os emergentes ainda não são países industrializados, a resposta é a baixa qualidade das instituições em vários países. Basta ver a percepção sobre corrupção e dificuldades para fazer negócios por causa da burocracia.

07/03/2012 - 09:02h Consumo deve se manter como motor da economia em 2012

Por Tainara Machado e Arícia Martins | VALOR

De São Paulo

A retomada do consumo das famílias no último trimestre de 2011 foi importante para impedir nova estagnação do Produto Interno Bruto (PIB) no período e deve continuar a puxar a economia nos primeiros trimestres deste ano. Os economistas esperam alta entre 0,7% e 1% para o PIB do primeiro trimestre deste ano em relação ao último trimestre do ano passado.

Para uma parte dos economistas, o consumo será, de novo, o principal vetor de crescimento no início e ao longo de 2012, o que pode exigir mais atenção da política monetária. No entanto, outros analistas consultados pelo Valor avaliam que, se a intenção é ter atividade mais robusta neste ano, não é possível depender apenas da demanda das famílias e do dia a dia das empresas – é necessário que o investimento entre na conta.

No terceiro trimestre, o consumo das famílias caiu 0,1% em relação aos três meses imediatamente anteriores, feitos os ajustes sazonais, como resultado do aperto de crédito promovido pelo Banco Central (BC) com a implementação de medidas macroprudenciais no fim de 2010 e alta da taxa básica de juros no início de 2011.

Com a reversão de parte dessas medidas e estímulos adicionais como a desoneração tributária de itens da linha branca, no quarto trimestre este componente voltou a registrar forte alta de 1,1%. Para Fernanda Consorte, economista do Santander, no primeiro trimestre do ano continuará a ser visível a liderança do serviços e do consumo no crescimento da economia, período para o qual ela espera alta de 0,8% do PIB em relação aos últimos três meses de 2011.

José Francisco de Lima Gonçalves, economista-chefe do Banco Fator, enxerga uma dinâmica diferente ao longo do ano. Para ele, o crescimento será sustentado pelo consumo nos primeiros meses do ano, mas não vai se acelerar para uma alta superior a 5% porque o incentivo à demanda por parte das famílias esbarra em alguns limites, como a expectativa de menor crescimento da massa salarial, já que a taxa de desemprego está em níveis muito baixos, e o aumento do endividamento, por exemplo.

Além disso, sustenta ele, o crescimento de 4,1% do consumo das famílias no ano passado deixa evidente que uma parte considerável da demanda não foi atendida pela produção doméstica. O PIB industrial subiu 1,6% em 2011 e a indústria de transformação quase não cresceu, com alta de apenas 0,1%.

Por isso, argumenta Lima Gonçalves, estímulos adicionais ao consumo não devem ser considerados uma saída alternativa para adicionar dinamismo à economia doméstica em 2012. “Não acho possível crescer 1% por trimestre com base em serviços e consumo. Diante do câmbio atual, com o real valorizado, as importações vão aumentar, mas não haverá acréscimo dos pedidos por bens produzidos internamente”, afirma.

O economista-chefe do Banco J. Safra, Carlos Kawall, considera que a retomada da economia será lenta ao longo de 2012 e também sugere que a capacidade de consumo adicional por parte das famílias está próxima de um esgotamento. “As medidas macroprudenciais foram importantes para conter a demanda no ano passado, mas estamos em um momento em que o endividamento encostou no teto e o comprometimento da renda está aumentando. É uma ressaca do crédito à pessoa física que se expandiu com vigor nos últimos anos”, afirmou.

Para ele, a qualidade do crescimento preocupa. Apesar do aumento da demanda, bens comercializáveis têm sido substituídos por importados, o que provoca a estagnação da produção industrial. No caso do setor de serviços, em que não há essa possibilidade, o crescimento é menos volátil e contribui para sustentar o produto pela ótica da oferta.

Em 2011, o consumo das famílias cresceu 4,1% frente a 2010, acima da alta de 2,7% do PIB. Segundo o coordenador de contas nacionais do IBGE, Roberto Olinto, o que sustentou a alta na demanda das famílias foram as elevações na massa salarial real e no saldo de operações de crédito do sistema financeiro com recursos livres para pessoas físicas. (Com Juliana Ennes e Diogo Martins, do Rio)

07/03/2012 - 08:55h “PIB forte no fim do ano já está contratado”, diz ex-ministro

Mendonça de Barros: “Olhar para a desaceleração do PIB no 2º semestre é estar com o relógio atrasado em seis meses”


Por Sergio Lamucci | VALOR

De São Paulo

A recuperação da atividade econômica já está contratada e o Produto Interno Bruto (PIB) vai registrar um crescimento expressivo no fim deste ano, na casa de 5% a 6%, diz o ex-ministro das Comunicações Luiz Carlos Mendonça de Barros, mostrando pouca preocupação com o resultado fraco do segundo semestre de 2011, revelado ontem pelo IBGE. Segundo ele, o PIB avançará com força ao longo do ano, estimulado pelo maior fôlego da renda real, num cenário de queda da inflação, favorecida pelo alívio das commodities, e pelos cortes de juros e do relaxamento de algumas medidas macroprudenciais (de controle do crédito) promovidos pelo Banco Central.

“Olhar para a desaceleração do PIB no segundo semestre é estar com o relógio atrasado em seis meses. O relógio atualizado mostra que o PIB estará crescendo 5% a 6% no fim do ano, um ritmo até superior ao que a economia aguenta”, diz Mendonça de Barros, sócio da Quest Investimentos. Para ele, o consumo vai liderar a recuperação, mas o investimento seguirá atrás em seguida. O BC tem espaço para reduzir mais um pouco os juros, dos atuais 10,5% para 9,5% ao ano, mas não deve avançar muito mais no ciclo de corte da Selic, para não aquecer demais a atividade econômica, diz Mendonça de Barros.

Para o ex-ministro do governo Fernando Henrique Cardoso, a desaceleração do PIB no segundo semestre de 2011 foi fruto do cenário que prevaleceu no começo do ano passado. O PIB virou o ano crescendo muito, houve um choque de commodities que comeu a renda real e o BC elevou os juros e adotou medidas de restrição ao crédito. O resultado foi um segundo semestre fraco, mas que já é passado, segundo ele, que projeta um crescimento médio de 3,5% em 2012. No fim do ano, porém, o ritmo de expansão será bem mais forte, insiste ele.

Valor: Como o sr. analisa o resultado do PIB de 2011?

Luiz Carlos Mendonça de Barros: É preciso tomar cuidado porque o resultado do PIB no segundo semestre é fruto do que ocorreu lá atrás. Na virada de 2010 para 2011, ocorreram três coisas importantes. A primeira é que a economia entrou o ano crescendo a taxas ainda muito elevadas. Para usar uma linguagem simples, a economia estava bombando nessa época. O segundo fato é que houve um choque monstruoso de commodities na virada do ano, que chegaram a crescer 30% ao ano. Isso é importante porque chegou na inflação, comendo renda real. Como o consumo é quase dois terços do PIB, essa queda de renda real levou à redução do consumo para frente, batendo principalmente no terceiro trimestre. O terceiro evento é que, assustado com a inflação, o BC estava subindo os juros e tomando medidas macroprudenciais, que desaceleraram o crédito. Então o PIB do segundo semestre é resultado desses três fatores.

Valor: E o que o momento atual diz sobre o PIB de 2012?

Mendonça de Barros: Agora há um movimento na direção contrária do que ocorreu na virada de 2010 para 2011. As commodities caíram, o que desacelera a inflação. Como os salários nominais continuam a crescer a uma taxa de 8% a 9%, haverá aumento da renda real. A queda da inflação libera renda. Além disso, o BC está reduzindo os juros e relaxando algumas das medidas macroprudenciais. No fim de 2012, a economia estará crescendo 5% a 6%. Isso já está contratado.

Valor: Que desafios essa composição do PIB traz para a política monetária?

Mendonça de Barros: A política monetária age com defasagem. O que for feito agora vai influenciar o fim de 2012. Tem que tomar cuidado porque no fim do ano a economia estará crescendo 5% a 6%, e estímulos demais podem acender um sinal amarelo.

Valor: O BC indicou que vai baixar os juros para a casa de um dígito. Ele deve fazer isso?

Mendonça de Barros: Ainda há um certo espaço para cortar a Selic. Pode reduzir até 9,5%, já que essa coisa de um dígito ficou tão importante. Mas eu não iria mais longe do que isso. É comprar um problema mais à frente. O BC precisa começar a olhar para a demanda no fim deste ano, que deverá estar forte. Para o PIB avançar os 3,5% que eu estimo, terá que estar crescendo 5% a 6% no fim do ano.

Valor: O consumo já mostrou uma recuperação no quarto trimestre. A retomada do crescimento será liderada pelo consumo?

Mendonça de Barros: No Brasil é sempre assim. Depois o investimento vai atrás. A inflação voltou para um nível razoável com a queda das commodities. Com a inflação mais baixa, sobra mais dinheiro para o consumidor. Há também o efeito do aumento do salário mínimo. O crédito deverá voltar a crescer mais, e haverá o impacto defasado da queda dos juros. Projetamos crescimento de 4,5% do consumo das famílias, com uma alta de 6% a 6,5% no fim do ano.

Valor: O investimento teve um desempenho decepcionante em 2011 e mostrou um resultado muito fraco no segundo semestre. Ele vai se recuperar em 2012?

Mendonça de Barros: O investimento é sempre defasado em relação ao consumo. Nós entramos 2010 para 2011 com o investimento forte, reagindo ao aumento de demanda gerada em 2010. Quando se percebeu a desaceleração do consumo por causa do efeito da inflação mais alta sobre a renda e da ação do BC, houve uma desaceleração do investimento. No ciclo de curto prazo, é assim que as coisas funcionam. Da mesma forma, os empresários voltarão a investir quando ficar mais claro que o consumo voltou a crescer. Ninguém vai querer perder mercado.

Valor: O sr. então está convicto da recuperação do PIB em 2012.

Mendonça de Barros: Olhar para a desaceleração do PIB no segundo semestre é estar com o relógio atrasado em seis meses. O relógio atualizado mostra que o PIB estará crescendo 5,5% a 6% no fim do ano, um ritmo até superior ao que a economia aguenta. E é importante entender que o PIB de 2,7% do ano passado é irmão gêmeo dos 7,5% de 2010. O governo não preciso fazer mais nada. Eu fiz uma conta do crescimento médio do PIB de 2005 a 2012, considerando a nossa projeção de 3,5% para este ano. Dá uma média de 4%. É um número bastante razoável. Há quanto tempo o Brasil não consegue crescer 4% em média por oito anos? Há fatores importantes que dão solidez para a economia, ainda que haja problemas estruturais, como a falta de competitividade da indústria. Há um mercado de consumo muito grande, a renda está preservada, o crédito funciona e há os ganhos de termos de troca proporcionados pela China, que elevaram o nível dos preços de commodities. Isso garante um saldo comercial razoável, que ajuda a financiar a importação.

Valor: O cenário externo pode colocar em risco a recuperação?

Mendonça de Barros: O cenário externo assustava mais quando havia o risco de um colapso na Europa, uma crise financeira. Mas esse risco parece não existir mais. Os governos passaram sete ou oito meses batendo cabeça, mas agora tem um plano de voo. E houve a ação importante do Banco Central Europeu.

Valor: E a indústria de transformação? O resultado foi muito ruim, com crescimento de 0,1% em 2011

Mendonça de Barros: A questão é de falta de competitividade. O câmbio é um problema, mas há questões de custo mais importantes. O gás natural e a energia elétrica estão muito caros. A mão de obra também. O editorial do Valor de hoje [ontem] diz que é preciso transformar o aumento de arrecadação em desonerações tributárias. Para melhorar a competitividade, é preciso um programa para melhorar as condições de oferta.

Valor: O investimento na industria de transformação vai sofrer?

Mendonça de Barros: O investimento deve se concentrar em atividades ligadas a commodities, infraestrutura, serviços e a segmentos ligados ao consumo doméstico. O investimento na indústria de transformação vive hoje uma dinamica diferente da dos outros setores, em função dos custos crescentes de produção e da concorrência dos produtos importados, que chegam hoje aos mais remotos cantos do país depois que o comércio decidiu distribuí-los com eficiência.

07/03/2012 - 08:49h ‘Potencial do PIB está mais para 4% do que 4,5%’


Para economista, governo precisa agir para melhorar a eficiência do País e, com isso, abrir espaço para uma expansão mais forte

07 de março de 2012

LEANDRO MODÉ – O Estado de S.Paulo

O desempenho modesto da economia brasileira no primeiro ano de Dilma Rousseff na presidência deve servir de alerta ao governo, segundo o ex-presidente do Banco Central (BC) Affonso Celso Pastore. Para ele, a ausência de reformas econômicas nos últimos anos reduziu o chamado Produto Interno Bruto (PIB) potencial do País.

Ainda que não seja aceita por todos os economistas, essa medida revela quanto um país pode crescer com inflação controlada. “Notamos que o PIB potencial, que estava andando na faixa dos 4,5%, passou para algo como 4,1% no último trimestre (de 2011)”, afirmou. “Não digo que já esteja em 4%, mas, se o governo não induzir um pouco de melhoria na eficiência da economia, chegará por aí.”

Por melhora da eficiência, entenda-se, em resumo, reformas – as “velhas reformas macroeconômicas”, como diz Pastore. Para ele, se nada for feito, a média de crescimento dos anos Dilma deverá ser inferior à dos anos Lula (4,1% ao ano). A seguir, os principais trechos da entrevista.

O crescimento em 2011 foi relativamente fraco. Mas a taxa de desemprego está em níveis historicamente baixos. Como explicar essa aparente contradição?

Em primeiro lugar, é preciso esclarecer que não estamos falando em recessão, mas de desaceleração do crescimento econômico. Saímos de 7,5% para 2,7%. Mas continuamos absorvendo mão de obra, só que numa velocidade inferior. Além disso, temos visto um ganho real dos salários nos últimos anos. Ainda que se tenha tido um crescimento de apenas 2,7%, a sensação na sociedade não é proporcional a essa desaceleração. (A sensação) é de uma economia que ainda provoca grande satisfação para os consumidores (vide a expansão do consumo nos últimos anos) e para as pessoas empregadas.

A indústria cresceu só 1,6%. O desempenho do setor é conjuntural ou estrutural?

Não é algo pontual, é mais complicado. O PIB do setor de serviços, incluindo o governo, é 67,5% do PIB do País. O da indústria representa algo entre 27% e 28%. O setor de serviços praticamente não exporta e importa muito pouco. A indústria, de outro lado, é muito aberta. Em 2009, as importações líquidas equivaliam a 1% do PIB. Em 2011, fomos para 6,5%. Esse crescimento se deu basicamente na indústria. A agricultura se livrou porque é exportadora líquida. A indústria sofre dois fenômenos: a valorização do câmbio, que resulta da conjuntura internacional, e os preços dos produtos manufaturados em queda no mundo, em decorrência da crise nos países desenvolvidos. Ou seja, enfrenta preços de exportações e importações estáveis, ao mesmo tempo em que o câmbio se valoriza. Isso impede que os aumentos de custos sejam repassados para os preços. Além disso, o custo unitário da mão de obra vem crescendo exponencialmente. O resumo é que a indústria está sofrendo uma redução de margem. Não acho que esse quadro mudará tão cedo. O crescimento da indústria tende, portanto, a ser um pouco mais lento. O que nos salva é que temos um mercado interno muito grande. Nos próximos trimestres, vamos ver a produção industrial reagir um pouco, graças à demanda interna em expansão. Não é um quadro de estagnação sem solução. Mas impõe uma dificuldade para o crescimento do setor.

O cenário de crescimento menor da indústria e maior participação dos serviços no PIB é ruim para a economia brasileira?

Não há país que cresça que mantenha a indústria constante no PIB. Há diversificações ao longo do caminho. A demanda por produtos do setor de serviços é mais elástica do que na indústria. Ou seja, a tendência natural é cair a participação da indústria no PIB. Portanto, um pedaço desse ajuste teria de acontecer de qualquer forma. Mas vem ocorrendo um fenômeno de redução do incentivo para a indústria, algo que, diga-se, pode mudar a qualquer momento. Parte se explica pela valorização do real nos últimos anos, em razão da política fiscal mais séria. O Brasil já deveria ter se adaptado a uma economia com moeda um pouco mais forte, como a Alemanha se adaptou. Deveríamos ter feito reformas nas áreas trabalhista, tributária…. O problema é que não fizemos. Uma forma de sobreviver à conjuntura é intervir no mercado de câmbio até colocar a cotação onde o governo achar que é justo. O problema é que, se isso for feito, a desinflação que temos hoje, que permite a queda dos juros, vai virar inflação. Ou seja, há um dilema. Quanto mais o governo olhar para a produção industrial em queda e tentar segurar no câmbio, menos espaço terá para reduzir o juro. É uma opção dura que a presidente Dilma Rousseff terá de tomar. São dilemas de política econômica complexos.

O que o sr. prevê para o PIB de 2012?

Estamos mais para 3,5% de crescimento. Tenho dúvida sobre a indústria. Embora, como já disse, acredite que vá crescer. Mas, no geral, acho difícil passar de 3,5%. A presidente Dilma teve um crescimento de 2,7% no primeiro ano de governo, deve ter 3,5% no segundo e algo como 4% ou 4,5% no terceiro. De qualquer forma, é preciso ficar claro que 4,5% é sonho.

Isso significa que o crescimento potencial do Brasil está abaixo de 4,5%?

Muitos economistas criticam esse conceito, mas não é porque é difícil medir que se deva jogá-lo fora. Olhando os números da economia, vemos que a produtividade tem crescimento cadente. Tivemos uma pequena redução da taxa de investimentos (Formação Bruta de Capital Fixo) no último trimestre. Com tudo isso, notamos que o PIB potencial, que estava andando na faixa dos 4,5%, passou para algo como 4,1% no último trimestre. Infelizmente, está ocorrendo uma redução dessa medida. Nosso crescimento potencial está chegando mais perto dos 4% do que dos 4,5%. Não digo que já esteja em 4%, mas, se o governo não induzir um pouco de melhoria na eficiência da economia, chegará por aí. Por exemplo, melhorar a qualidade da política fiscal, para poder reduzir a tributação, tirar distorções do mercado de mão de obra, enfim, fazer as velhas reformas macroeconômicas. Essas reformas são importantes e prova disso é que conseguimos levar o PIB potencial para a casa dos 4,5%. Tivemos no governo um (Antonio) Palocci e um Marcos Lisboa (ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda) que resolveram meter a mão nas reformas microeconômicas. Além disso, aquele governo foi precedido por outro que também fez reformas. A soma dos dois produziu avanços que permitiram elevar o PIB potencial. De lá para cá, voltamos ao marasmo: ‘Somos todos keynesianos, fazemos política fiscal contracíclica, a taxa de juros neutra caiu…’ Entramos em uma fase na qual passamos a olhar só para uma coisa: o equilíbrio macroeconômico de oferta e procura. Esquecemos aquilo que, no fundo, gera eficiência e crescimento maior de produtividade. O quadro, hoje, é meio chato.

Com base nesse diagnóstico, e considerando tudo o mais constante, o crescimento médio nos anos Dilma será inferior à média dos anos Lula?

Não gostaria de fazer essa aposta. Mas, se fizesse, acho que teria grandes chances de ganhar.

07/03/2012 - 08:38h Seu Beto, pedreiro, dobra renda mensal e tem fila de fregueses

Por Rodrigo Pedroso | VALOR

De São Paulo

SÃO PAULO – O crescimento modesto de 2,7% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro em 2011 embute variações mais positivas em alguns setores. Para quem esteve diretamente ligado ao consumo e à construção civil – setores em que a atividade teve alta superior a 3,5% no ano passado -, não houve motivo para reclamar.

Há 15 anos sem trabalhar com carteira assinada, o pedreiro José Miranda Campos não viu nenhum sinal de desaceleração em 2011 em relação ao ano anterior. Autônomo por opção, dobrou a renda mensal nos últimos 12 meses por dois fatores principais: a forte demanda por seus serviços e o crescimento da procura de reformas mais elaboradas por parte dos clientes.

“Foi um ano ótimo. Se antes eu tirava uma média de R$ 2 mil por mês, no ano passado ganhei por volta de R$ 4 mil, às vezes até mais”, diz. Segundo ele, é mais rentável trabalhar por conta própria. “Se quisesse, poderia trabalhar para alguma construtora, não falta emprego nessa área. Mas ganharia R$ 1,5 mil e ainda teria patrão.”

A situação de Seu Beto, como Campos é mais conhecido, foi registrada pelo Índice Nacional da Construção Civil (INCC), da Fundação Getulio Vargas (FGV), em 2011. Puxado pelo aumento no custo da mão de obra e forte demanda no setor, o indicador fechou o ano com alta de 7,48%. No resultado do PIB divulgado pelo IBGE, a indústria da construção civil cresceu 3,6%.

A dificuldade em encontrar mão de obra, uma das maiores reclamações dos empresários do setor, também foi sentida pelo pedreiro, que trabalha geralmente com mais três ajudantes. “Eu pagava R$ 40 por dia para cada um, mas no ano passado tive que aumentar para R$ 70, por causa da concorrência”, afirma.

O ritmo menor de crescimento da economia também passou longe, ao que parece, dos clientes, que tiveram que pagar o aumento no serviço contratado. De um ano para o outro, o preço cobrado por Seu Beto para fazer uma reforma dobrou. Ainda assim, ele tem uma fila de espera de quatro obras para tocar, depois que acabar aquela em que está trabalhando no momento, na zona norte de São Paulo.

Não bastasse isso, conta que foi obrigado a dispensar mais dois orçamentos nos últimos meses. “Até terminar os serviços que estão na fila e começar mais essas reformas iria demorar muito. Antigamente, eu fazia um serviço e ficava esperando o telefone tocar. Hoje, estou com dificuldade até em achar gente para me ajudar. A maioria quer trabalhar por conta própria.”

A prosperidade alcançada durante o ano foi revertida em consumo, o que também aparece no quadro geral. O componente teve o segundo maior crescimento dentro do PIB, com aumento de 4,1% em relação a 2010. Geladeira, televisão, máquina de lavar, computador e celular para o filho adolescente, além de uma reforma na casa, foram as principais compras do pedreiro, que traça planos para este ano.

“Dei entrada em tudo e pago em prestações, mas o principal foi a reforma. Minha casa ficou uma belezinha. Agora vou ver se compro uma televisão de LCD para a sala e um carro”, diz Seu Beto.

A previsão do Banco Central para este ano é de crescimento da atividade econômica em 3,5%, uma perspectiva que já foi incorporada pelo pedreiro. “A tendência é aumentar a procura pelos meus serviços, o quanto ganho e o quanto cobro. E do jeito que começou este ano, isso deve acontecer.”

Para economistas consultados pelo Valor, existe um problema nessa dinâmica: o aumento do consumo não tem como contrapartida a alta da produção de bens industriais.

(Rodrigo Pedroso | Valor)



Mantega promete mais medidas para incentivar a retomada do crescimento


Guido Mantega:. “Não há nenhum risco de o real se desvalorizar, prejudicando as exportações brasileiras”


Por Edna Simão e João Villaverde | VALOR

De Brasília

Depois do fraco crescimento econômico de 2,7% registrado no ano passado, o governo promete adotar novas medidas de incentivo fiscal e cambiais para alavancar a indústria de transformação, que cresceu apenas 0,1% entre 2010 e 2011. O objetivo do ministro da Fazenda, Guido Mantega, é cumprir a meta de 4,5% para o avanço do Produto Interno Bruto (PIB) neste ano, como deseja a presidente Dilma Rousseff.

Ele explicou ontem, em entrevista coletiva na sede do ministério, que mesmo fraco o desempenho do PIB em 2011 foi satisfatório, considerando a deterioração da economia internacional. Não fosse o agravamento da crise mundial, o avanço do PIB teria sido mais próximo a 4% do que dos 3%, avalia Mantega.

Segundo ele, a adoção de medidas de incentivos fiscais será necessária para estimular a indústria, que deu no ano passado a menor contribuição para o crescimento do PIB. Nos meses de novembro e dezembro, o ministro disse que já foi identificada uma ligeira retomada da economia, porém, uma aceleração maior se dará apenas no segundo semestre. Além dos estímulos, o governo aposta no fortalecimento dos investimentos públicos, represados em 2011, para reanimar a economia neste ano.

“Outras medidas não estão prontas para serem anunciadas, mas a tendência é que ao longo do ano nós vamos fazendo medidas que forem necessárias para estimular investimento e o setor industrial. O setor industrial como um todo precisa de alguns estímulos e eles serão dados”, destacou.

Além disso, o governo poderá ainda utilizar um “arsenal infinito” de medidas cambiais. “Não há nenhum risco de o real se desvalorizar, prejudicando as exportações brasileiras. Esse é um dos campos de sua atuação mais importante do governo. Vamos manter um real menos desvalorizado que é o que interessa para economia brasileira”, disse o ministro.

Sem mencionar as possíveis medidas, Mantega reforçou que não permitirá que haja um grande ingresso de capitais que vêm em busca de especulação e arbitragem – investidores que tomam crédito em um país de juro baixo para aplicar em outro que paga uma taxa mais elevada para ampliar a rentabilidade. “Nós vamos coibir essas operações. Vamos enfrentar esse excesso de liquidez e nós vamos manter o real desvalorizado com um arsenal de medidas que nós temos pela frente”, explicou.

O ministro contou, por exemplo, que pode ampliar a atuação do governo tanto no mercado futuro quanto no à vista. “Temos atuado nesses mercados e podemos ampliar nossa atuação em larga escala. Não há nenhum risco de o real se desvalorizar prejudicando as exportações brasileiras.”

A forte entrada de dólares no país, por conta das elevadas taxas de juros, e a solidez da economia, fazem com que o real se valorize com relação ao dólar prejudicando, principalmente, a indústria. Mantega afirmou que, no que diz respeito à política monetária, o país está na “direção correta”.

Desde agosto, o BC vem cortando a taxa básica de juros (Selic) para estimular a economia brasileira e a tendência é de que um novo corte – 0,5 ou 0,75 pontos percentuais – seja feito hoje na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom). Mas o ministro não quis especular sobre novos cortes. Disse, no entanto, que os preços no país estão comportados. “Se confirmada a desaceleração da economia internacional e da China, nós poderemos ter uma redução dos preços das commodities. O risco hoje não é tanto de inflação, mas de deflação dos preços de commodities. Do ponto de vista inflacionário não há maiores desafios. A inflação está sob controle e pode tender a cair mais no âmbito internacional”, ponderou o ministro, acrescentando que o aumento dos preços do petróleo afetam o país, porém em intensidade menor que em outras economias.

Sobre a possibilidade de mudança na rentabilidade da caderneta de poupança por conta da redução gradual da Selic no país, Mantega afirmou que, pelo menos por enquanto, não há motivos para isso. A queda dos juros faz com que as aplicações na caderneta se torne um investimento mais rentável que os fundos de renda fixa.

29/02/2012 - 10:38h ‘Economia brasileira cresce abaixo do potencial desde o 3º tri’

Tombini: Ao crescer abaixo do potencial, atividade pode ser estimulada sem gerar aumento de preços


Por Murilo Rodrigues Alves e João Villaverde | VALOR

De Brasília

A uma semana da reunião em que o Banco Central (BC) definirá a nova Selic, o presidente da instituição, Alexandre Tombini, deu ontem ao mercado a mais clara sinalização do que baliza as últimas decisões da diretoria do BC. Em depoimento no Senado, Tombini afirmou que a economia está crescendo abaixo do seu potencial desde o terceiro trimestre de 2011. Em seguida, arrematou: “Não é por outra razão que o BC vem ajustando a Selic”, afirmou.

De acordo com Tombini, a atividade está se recuperando do crescimento zero registrado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) no terceiro trimestre do ano passado, sem, no entanto, acelerar a inflação. Pelo contrário – o Brasil vive desde outubro do ano passado um “processo de desinflação forte”, disse, levando em consideração o IPCA acumulado nos últimos 12 meses.

Desde 31 de agosto, quando o BC iniciou o afrouxamento, que já reduziu em Selic em dois pontos percentuais, o presidente do BC tem reiterado que a inflação iria convergir para o centro da meta de 4,5%. Ontem, no entanto, Tombini deixou claro que o manejo da política monetária leva em conta também o ritmo da economia. Ao crescer abaixo do potencial, portanto, a atividade pode ser estimulada sem gerar aumento de preços.

Os economistas divergem quanto ao Produto Interno Bruto (PIB) potencial do Brasil – ou seja, aquele crescimento econômico que é possível obter sem inflação. Para parte relevante do mercado, um avanço do PIB entre 3,5% e 4% seria o potencial da economia hoje, isto é, o máximo que a atividade pode crescer sem pressão sobre os preços. Outros acham que há possibilidade de crescer até 4,5%. Tombini não informou qual seria o PIB potencial estimado pelo BC, mas por dois momentos repetiu que desde o terceiro trimestre a economia cresce abaixo do seu potencial.

O dado oficial do PIB para o quarto trimestre será divulgado pelo IBGE nos próximos dias. O Índice da Atividade Econômica (IBC-Br) calculado mensalmente pelo BC, aponta para um avanço de 0,5%, feito o ajuste sazonal, entre o terceiro e o quarto trimestre. No terceiro, o IBGE já divulgou que o crescimento foi nulo na comparação com o segundo trimestre.

Para Tombini, a economia brasileira está acelerando e o segundo semestre ano vai registrar um ritmo mais forte que o primeiro. Isso ocorrerá especialmente devido ao incremento nos investimentos, algo que, como disse Tombini no Senado, “tem tido muita ênfase no governo em 2012″. O avanço da economia, no entanto, não vai inviabilizar a convergência do IPCA para a meta, afirmou.

“Nossa perspectiva é de que a economia cresça mais no segundo semestre, ao mesmo tempo em que a inflação continua em sua trajetória de convergência à meta”, disse Tombini na audiência realizada pela Comissão de Assuntos Econômicos (CAE). “O Brasil vai crescer mais em 2012 do que cresceu em 2011, sem dúvida.”

A próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) será na semana que vem. A maioria dos analistas do mercado entende que o Copom deve voltar a cortar a Selic, atualmente em 10,5% ao ano, em 0,5 ponto percentual. Na ata da última reunião do Copom, em janeiro, o BC deixou claro que há condições para a Selic atingir o patamar de um dígito neste ano.

14/02/2012 - 08:22h Consumo voltou a puxar economia, dizem analistas

Aurélio Bicalho: recuo mais rápido dos juros de mercado teve efeito importante sobre os índices de confiança


Por Tainara Machado | VALOR

De São Paulo

A expectativa para a indústria é que 2012 seja melhor do que foi o ano passado, quando o setor amargou crescimento de apenas 0,3%. Ainda assim, é novamente o consumo que vai levar a atividade econômica a ganhar ritmo em 2012, segundo economistas consultados pelo Valor. Esse efeito, dizem, já poderá ser percebido no resultado do Produto Interno Bruto (PIB) do quarto trimestre de 2011 e mais ainda ao longo deste ano.

Para Aurélio Bicalho, economista do Itaú Unibanco, um impulso relevante ao consumo virá de três frentes. O mais importante é o aumento real de 7,5% do salário mínimo, mas a desoneração de produtos da linha branca, que deve vigorar até o fim de março, combinada à redução da Selic pelo Banco Central dá “condições positivas para o consumo no primeiro trimestre”, afirmou Bicalho. O economista ressalta ainda o recuo mais rápido dos juros de mercado, com efeito importante sobre os índices de confiança, que deram sinais de retomada neste início de ano.

Essa combinação deve trazer a inadimplência, que alcançou 7,3% em dezembro do ano passado, para baixo, abrindo caminho para que o consumidor continue a ser o motor da economia.

A expectativa dos analistas consultados pelo Valor é que o PIB pela ótica da demanda já seja mais positivo no quarto trimestre do que foi no terceiro trimestre do ano passado, quando a economia ficou estagnada. Naquele período, o setor externo deu a principal contribuição para que a atividade não fosse negativa. Na comparação com o segundo trimestre, na série com ajuste sazonal, o consumo das famílias, do governo e os investimentos recuaram 0,1%, 0,7% e 0,2%, respectivamente.

O consumo das famílias deve ser ponto importante dessa inversão. O economista-chefe do HSBC, André Loes, estima que a redução da inadimplência aliada às medidas de estímulo do governo, como o desmanche de parte das medidas macroprudenciais pelo BC, terá efeito considerável sobre o consumo, com expectativa de alta de 0,5% no último trimestre do ano passado, na comparação com o período imediatamente anterior, sempre com ajuste sazonal. Em 2012, diz Loes, esse efeito será potencializado, o que explica em parte sua projeção mais otimista do que a média do mercado para o crescimento deste ano, de 3,7%.

Para o Santander, o consumo das famílias deve ter crescido 0,8% no quarto trimestre de 2011. Fernanda Consorte, economista do banco, projeta que a alta do rendimento médio real nos últimos dois meses do ano passado deve ter turbinado esse resultado. Fernanda ainda projeta que o consumo do governo e o setor externo devem ter dado contribuições positivas, com expectativa de que o PIB no período tenha avançado 0,4%. A exceção, pelo lado da demanda, será o investimento, que deve continuar negativo, segundo a economista do Santander. Para ela, a Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF, a medida das contas nacionais do que se investe em máquinas e na construção civil) deve até piorar na passagem trimestral, passando de queda de 0,2% para menos 0,4%.

Bicalho, do Itaú, também ressalta que o investimento não deve ter reagido no quarto trimestre do ano passado e um dos indícios é a atividade industrial, que teve queda mais forte em outubro, na comparação com setembro. O segmento de bens de capital, por exemplo, registrou baixa de 1,8% na produção naquele mês. Assim, apesar do resultado positivo nos dois meses subsequentes, o PIB industrial no trimestre deve ter sido negativo, segundo o Itaú, e a estimativa é que o país tenha crescido apenas 0,2% no último trimestre de 2011, mesma taxa esperada pelo HSBC.

Luis Otávio Leal, economista-chefe do banco ABC Brasil, tem expectativa um pouco menos otimista para o comportamento da demanda. Apesar de também esperar um crescimento do PIB próximo a 0,4% no quarto trimestre, sempre na comparação com o terceiro trimestre, na série com ajuste sazonal, o economista avalia que o consumo será “levemente positivo”, mas pouco surpreendente. O endividamento das famílias, afirma, deve ter impedido atividade mais robusta, apesar da injeção de renda com o pagamento do 13º salário e a redução da inflação acumulada em 12 meses.

A partir do primeiro trimestre deste ano, no entanto, as medidas de estímulo devem ganhar potência e a atividade começará a reacelerar, estimam os economistas. O crescimento entre janeiro e março deve ser de 0,8%, na comparação com o último trimestre de 2011 para o Itaú Unibanco e para o Santander. Para Aurélio Bicalho, mais uma vez o consumo deve crescer acima da variação do PIB, enquanto a indústria seguirá com avanço inferior à taxa de expansão da economia brasileira.

Para Bicalho, a indústria entrou em 2012 em primeira marcha por causa dos estoques ainda em patamares elevados. “Vamos ver o mesmo padrão observado nos últimos dois anos, em que um pedaço importante da demanda é atendida pelas importações”, segundo Luis Otávio Leal, do ABC Brasil.

Investimento vai superar 20% do PIB, prevê Fazenda

Por João Villaverde e Thiago Resende | VALOR
De Brasília

Os investimentos vão saltar quase 11% neste ano, levando a formação bruta de capital fixo (FBCF, que contabiliza os investimentos em máquinas e equipamentos e em construção civil) a atingir 20,8% do Produto Interno Bruto (PIB), prevê o Ministério da Fazenda.

Apesar disso, o ministério reduziu ontem a estimativa para o avanço do PIB no ano – de 5% para 4,5%, de acordo com o documento “Economia Brasileira em Perspectiva”, estudo realizado pela Secretaria de Política Econômica (SPE) que divulga as previsões mais recentes para o ano.

A taxa de investimento vai superar, segundo a equipe econômica, pela primeira vez em dez anos, o patamar de 20% do PIB. De acordo com a SPE, a formação bruta de capital fixo será equivalente a 20,8% do PIB ao fim deste ano – em 2011, segundo a Fazenda, foi de 19,6% do PIB. A taxa de investimento passará por um avanço de 10,8% neste ano, mais que o dobro da alta de 5,3% verificada entre os três primeiros trimestres de 2011 com igual período do ano anterior. Se a projeção se confirmar, a taxa de investimento terá saltado 4,4 pontos percentuais, como proporção do PIB, de 2002 (16,4%) para cá.

A estimativa da Fazenda também serviu para comprovar o ritmo lento que os investimentos tiveram no ano passado. A FBCF cresceu apenas 0,1 ponto percentual entre 2010 e 2011, mesmo em cenário de avanço mais fraco da atividade, que, segundo o ministério, cresceu apenas 3,2% em 2011 – em 2010, o PIB saltou 7,5%.

O avanço dos investimentos será impulsionado, dentre outros canais, pela redução do custo de crédito para as empresas. Os cortes contínuos na taxa básica de juros, a Selic, produzidos pelo Banco Central (BC) desde agosto do ano passado, terão efeito concentrado, estimam os economistas do governo, a partir do segundo semestre deste ano.

Parte deste recuo, avaliam os economistas, deve também forçar novas reduções nos juros cobrados pelos bancos das companhias que tomam dinheiro emprestado para investimentos e capital de giro. A diferença entre o custo de captação de recursos dos bancos (taxa Selic) e os juros cobrados das empresas – o spread bancário – deve cair.

Atualmente, o spread embutido nas taxas de juros cobradas das empresas pelos bancos é de 18 pontos percentuais sobre o custo de captação. Segundo dados do Banco Central, compilados no documento do Ministério da Fazenda, a taxa de operação passiva é de 10,28% ao ano, mas a taxa média cobrada pelos bancos (taxa de operação ativa) é de 28,23% ao ano.

“Houve em 2010 uma redução [no spread] de 0,2 ponto percentual e em 2011 uma redução de 0,4 ponto percentual. O spread incentiva a realização de captações externas por empresas brasileiras que possuem acesso ao mercado internacional”, diz o documento divulgado pelo ministério.

A Fazenda também aproveitou para fazer um “exercício estatístico” com a inflação, ao estimar o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 2011 com a nova estrutura de ponderação do índice, válida a partir de janeiro. O IPCA seria de 6,1% e não de 6,5%, caso fosse aplicada a nova Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF 2008/2009).

29/12/2011 - 17:04h Brasil cresce com realismo

29 de dezembro de 2011

ALBERTO TAMER – O Estado de S.Paulo

Apesar do recuo nos últimos meses, a economia brasileira encerra o ano bem, muito bem mesmo. Cresceu menos, vai ficar só em torno de 3%, porque tinha crescido muito em 2010, mas termina o ano inteira, como registram os indicadores econômicos divulgados ontem pelo Banco Central. São todos positivos, mesmo com a inflação batendo no teto da meta, mas sob controle.É a sexta no mundo. O PIB brasileiro passou o do Reino Unido e pode alcançar a França, não porque cresceu muito, mas porque eles estagnaram a caminho de uma recessão que todos os institutos de pesquisa e até o Fundo Monetário Internacional (FMI) admitem como inevitável. O Brasil avança 3%, eles recuam 0,6%. Deve passar a França em 2012, deixando para trás os dois países mais desenvolvidos da Europa, depois da Alemanha. Esse fato é importante e não pode ser subestimado. Não é apenas simbólico. É a constatação de uma nova realidade, reconhecida pelo FMI, que deve se confirmar em 2012 porque as medidas de incentivo à demanda já estão sendo aplicadas há mais de um ano no Brasil – que decidiu crescer por dentro. Está explorando e fortalecendo o próprio mercado. As medidas deram certo – em 2008, o consumidor reagiu rapidamente, e não há razão para não acreditar que não darão certo agora. A verdade é que nós acertamos, e eles erraram. Não só isso, continuam errando. Isso já havia ocorrido em 2008 e repete-se agora, agravado pelo peso de uma dívida soberana média na Europa de 100% em contraste com a nossa de 36,6%. A deles, incluindo a dos Estados Unidos, aumenta e a nossa recua. Era de 42% em 2009.Ajuda e muito. Não é um resultado apenas simbólico. Isso melhora ainda mais a imagem do Brasil, no cenário internacional, facilita a atração de capital externo, que foge dos países em crise e estão vindo para o Brasil. No ano que termina foram US$ 62 bilhões só de investimentos diretos. Mais significativo ainda é que a tendência na Europa, no Japão, nas chamadas economias centrais, é de que a economia continue desacelerando em 2012, enquanto no Brasil, na pior das hipóteses, voltará a crescer 3%. Se as medidas de incentivos forem ampliadas e intensificadas, como o governo anuncia agora, pode chegar a 4%. O próprio FMI admite que a União Europeia não terá um ano, mais uma década perdida. Vamos subir mais algumas escalas na lista das maiores economias mundiais, atrás dos Estados Unidos, China, Japão, Alemanha e França, que gatinha. É isso. É um fato.Sem festa. O governo e os economistas brasileiros receberam o resultado com realismo, sem festa nem oba-oba. Ninguém saiu em Brasília dizendo “Isto sim é que é país”. Ou dizendo que o Brasil não é mais o país do carnaval. E ao que se saiba, não há ainda em formação, no Rio, nenhum bloco do “Somos o Sexto”a desfilar ao lado do bloco do Lula. O ministro Guido Mantega foi sóbrio. Louvou o avanço, disse que subimos também porque eles desceram, é inevitável que passemos a França – a diferença agora é de US$ 300 milhões – porque o país está se retraindo e caminhando para a recessão. Mas, com extremo realismo, Mantega afirmou que as diferenças econômicas e sociais entre eles e o Brasil são enormes. O Reino Unido tem um PIB per capita de US$ 39,6 mil e o Brasil apenas US$ 13 mil; o nosso cresceu mais, 3,8%, o deles apenas 1,1%. Mas “necessitamos ainda de fortes investimentos sociais e econômicos para consolidar um padrão de vida próximo dos europeus”. E com ainda mais realismo: “Isso deve acontecer em 10 ou 20 anos”. Temos a obrigação de continuar crescendo mais do que os outros para criar emprego e aumentar a renda da população. A boa notícia é que o governo admite que há sérios desafios. Vai subir na escala da economia mundial, mas é preciso mais. Não é porque eles estão mal que sozinhos estaremos melhor.

Feliz 2012! Aos leitores que me acompanharam neste ano e aos que acompanham a coluna nos 18 anos de existência que completará em 2012, um ano-novo em que os sonhos e as esperanças se realizem. Temos de confiar.

28/12/2011 - 16:54h Um país quase sério

Rolf Kuntz – O Estado de S.Paulo

A notícia é melhor do que muitos avaliam. Segundo uma opinião corrente, o Brasil ganha posições entre as maiores economias em parte por mérito próprio e em parte por causa da crise na Europa e nos Estados Unidos. Esse julgamento despreza um fato muito importante: haver enfrentado a crise com menos danos que outros grandes países talvez seja o maior de todos os méritos. Erros políticos em série levaram o mundo desenvolvido à catástrofe iniciada em 2007, com o estouro da bolha financeira, e agravada a partir do ano passado, com o risco de calote soberano. Até os maiores defensores da política brasileira esquecem com frequência outro detalhe. Em 2008-2009, muitos governos arrebentaram suas contas para impedir uma quebradeira maior de bancos e de grandes indústrias. Grupos importantes foram praticamente estatizados. Até o governo do presidente George W. Bush engavetou por algum tempo a cartilha republicana para envolver o Tesouro nas operações de socorro. No Brasil, a política anticrise foi bem mais limitada e, apesar de algum desarranjo no Orçamento, as consequências fiscais foram muito menos graves.

A crise foi mais que uma simples marola, mas a recuperação foi rápida e as sequelas foram muito menos graves que no mundo rico. Três fatores beneficiaram o Brasil. O primeiro foi a solidez da maior parte do sistema financeiro. As condições de segurança haviam sido reforçadas a partir de algumas grandes quebras no começo dos anos 90. O País adotou padrões mais severos que as normas de Basileia. Em vários países do mundo rico, essas normas nem eram aplicadas integralmente em 2007. Além disso, todos os segmentos do mercado são há muito tempo cobertos, no Brasil, pelos esquemas de supervisão.

O segundo fator foi a razoável condição das contas públicas. Mesmo sem austeridade, o governo pôde agir sem comprometer gravemente as finanças federais. O endividamento aumentou, mas de forma administrável, e o rápido crescimento da receita pública, a partir de 2010, deu ao Tesouro maior segurança. Mas o crescimento dependerá, nos próximos anos, de uma gestão melhor do dinheiro público.

O terceiro fator foi a combinação das políticas de câmbio, de acumulação de reservas e de metas de inflação. O Banco Central pôde agir com rapidez, ampliando a oferta de dólares e ao mesmo tempo facilitando o crédito.

Sem esses fatores, o País teria menos fôlego para crescer durante a crise mundial. Talvez tivesse crescido, mas ao custo de um sério desarranjo nas contas públicas, de pressões inflacionárias muito maiores e de um desequilíbrio muito mais perigoso no balanço de pagamentos (hoje em situação nada brilhante, mas administrável). A seriedade, embora incompleta, foi premiada.

Outros sul-americanos, com destaque para Chile, Colômbia e Peru, também passaram pela crise com desempenho econômico bem satisfatório e isso foi possível, em primeiro lugar, graças à adoção de políticas macroeconômicas mais sérias a partir dos anos 80 e 90. A experiência dos últimos quatro mais uma vez desmentiu os defensores das políticas voluntaristas e irresponsáveis.

Na última década a economia brasileira pôde crescer sem atolar nas crises fiscais e cambiais tão comuns na maior parte do segundo pós-guerra. A indústria havia começado o esforço de modernização e de expansão da capacidade instalada na fase da abertura econômica, há 20 anos. No agronegócio a transformação havia começado bem antes. A economia brasileira, enfim, alcançou um tamanho compatível com as dimensões e com a riqueza natural do País. Mas falta fazer muito para garantir a continuação do crescimento e a manutenção das posições alcançadas.O Brasil continua diplomando uns 30 mil engenheiros por ano, enquanto a China forma entre 400 mil e 500 mil. A Índia, cerca de 200 mil. Indústrias têm dificuldade para treinar mão de obra porque faltam qualificações mínimas ao pessoal disponível no mercado. Só 26,3% dos adolescentes diplomados no ensino fundamental em 2009 aprenderam o suficiente de português e apenas 14,8% mostraram conhecimento adequado de matemática, segundo um teste oficial. Além disso, cerca de 20% dos brasileiros com idade igual ou superior a 15 anos são analfabetos funcionais.Dificilmente haverá melhora nessas proporções, se o ensino continuar tão ruim quanto é hoje. O padrão “os menino pega os peixe” pode ser aceitável para o Ministério da Educação do Brasil, mas certamente não é para as autoridades educacionais da China, da Coreia, da Indonésia e de outros emergentes em rápido crescimento – incluídos alguns latinos, como a Colômbia. O emprego dos brasileiros dependerá cada vez mais de sua capacidade de competir com os trabalhadores desses países. O sexto lugar entre as maiores economias é uma boa conquista, mas falta executar uma pauta enorme. Ao festejar a notícia com moderação, o ministro da Fazenda mostrou realismo.

27/12/2011 - 15:22h Brasil vai ser a 5° economia do mundo antes de 2015, dize Guido Mantega

Ricardo Leopoldo, da Agência Estado

SÃO PAULO – O ministro da Fazenda, Guido Mantega, afirmou nesta terça-feira, 27, que em menos de quatro anos o Brasil será a quinta maior economia do mundo, em termos de Produto Interno Bruto (PIB), superando a França. “O FMI prevê que o Brasil será a quinta economia em 2015, mas acredito que isso ocorrerá antes”, disse.

29/11/2011 - 09:51h PIB peruano cresce 6,5% no 3º trimestre

Por Dow Jones Newswires, de Lima – VALOR

O Produto Interno Bruto (PIB) do Peru cresceu 6,5% no terceiro trimestre, em relação a igual período de 2010. A economia do país andino completa assim oito trimestres seguidos de expansão, mas vem desacelerando.

O atividade do setor de pesca cresceu 64,1% no terceiro trimestre. No setor financeiro, houve uma expansão da atividade de 11,5% ao ano, enquanto transportes e comunicações cresceram 10,6% ao ano e a atividade no setor de varejo cresceu 8,6% ao ano.

O setor industrial cresceu apenas 3,6%, enquanto o consumo aumentou 1,8%. A atividade no setor de mineração e hidrocarbonetos, o mais importante na economia peruano, cresceu anêmicos 0,7%.

“Este resultado aponta para um forte crescimento apoiado pela demanda doméstica, porém abaixo da recente tendência”, disse o UBS.

Roberto Flores, economista da corretora Inteligo, afirmou que o crescimento mostra que a economia do Peru se estabilizou, depois de uma período de desaceleração no início deste ano, em virtude das incertezas em relação à eleição presidencial.

O presidente do Banco Central do Peru, Julio Velarde, e o ministro das Finanças, Luis Miguel Castilla, disseram recentemente que a economia peruana pode crescer até 7% este ano. Em 2010, o PIB do país teve crescimento de 8,8%.

27/11/2011 - 07:59h Governo cria pacote para ter PIB de 5%


Concessões de rodovias, leilões de aeroportos, investimentos da Petrobrás, programa Minha Casa e plano de banda larga vão estimular expansão

27 de novembro de 2011

LU AIKO OTTA / BRASÍLIA – O Estado de S.Paulo

O governo montou um pacote de investimentos para colocar na rua em 2012, dentro de sua estratégia para alcançar uma taxa de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de 5%, apesar da crise internacional. Novas concessões de rodovias, os leilões dos aeroportos, investimentos da Petrobrás, a segunda etapa do programa Minha Casa Minha Vida e o Plano Nacional de Banda Larga (PNBL) fazem parte do cardápio.

Enquanto em 2011 o crescimento econômico foi puxado pelo consumo, no próximo ano o motor deverá ser o investimento. Esse é o plano de voo que está sobre a mesa da presidente Dilma Rousseff.

A ordem é que o governo dê um sinal positivo ao setor privado. Assustadas com a crise econômica e com o baixo nível de atividade no País neste fim de ano, as empresas estão suspendendo e adiando planos de expansão.

Assim, estão no forno mais duas medidas de desoneração tributária. Uma vai cortar tributos de investimentos em equipamentos de infraestrutura de telecomunicações, como a instalação de cabos e fibras ópticas.

A estimativa divulgada pelo Ministério das Comunicações é que a desoneração prevista aumentará os investimentos em R$ 20 bilhões no período que começa no ano que vem e vai até 2016. Nesse período, o governo abrirá mão de arrecadar R$ 4 bilhões.

O outro corte tributário em preparação beneficiará a cadeia do etanol. Nesse caso, a medida tem também um impacto sobre as perspectivas de inflação, uma vez que o álcool foi um dos vilões dos preços este ano .

Concessões. O governo aposta suas fichas também nas novas concessões que deverão ocorrer no ano que vem. A expectativa é que os aeroportos de Cumbica, em Guarulhos, Viracopos, em Campinas, e Juscelino Kubitschek, em Brasília, sejam leiloados no primeiro trimestre do ano que vem – embora a data oficial ainda esteja mantida em 22 de dezembro próximo. Nesse caso, os investimentos deverão começar no segundo semestre do ano.

O mesmo é esperado em relação às novas rodovias que deverão ser concedidas à iniciativa privada no início de 2012. São elas: o trecho da BR 101 no Espírito Santo e os trechos mineiros das BRs 116 e 040.

Juntas, elas exigirão investimentos de R$ 8,06 bilhões. Também nesse caso, as empresas vencedoras da licitação começarão a executar melhorias na segunda metade do ano que vem.

Investimentos. A Petrobrás, com seu plano de investimentos de R$ 365 bilhões entre 2011 e 2015, também dará uma contribuição para manter a economia girando.

É esperado, além disso, que a segunda etapa do Minha Casa, Minha Vida deslanche em 2012. A avaliação no governo é que a execução foi baixa este ano porque o programa passou por ajustes nos projetos.

É com a ajuda dos investimentos privados que o governo espera alcançar a taxa de crescimento de 5% em 2012.

O secretário executivo do Ministério da Fazenda, Nelson Barbosa, tem afirmado que as medidas já adotadas pelo governo, como o reajuste do salário mínimo, a elevação dos limites do Supersimples e os efeitos defasados dos cortes na taxa de juros promovidos pelo Banco Central já garantem uma taxa de pelo menos 4% de expansão no ano que vem.

Inflação. A manutenção dos investimentos é necessária para expandir a capacidade produtiva do País e assim manter a inflação sob controle.

O governo da presidente Dilma espera uma taxa abaixo de 5% no ano que vem. Isso porque a tendência é que os preços das commodities não tenham no próximo ano a mesma alta de2011, uma vez que a economia internacional está em retração e, portanto, a demanda tende a cair.

Além disso, os preços administrados, como tarifas de ônibus e energia elétrica, terão reajustes menores. Da mesma forma, o etanol não deverá exercer a mesma pressão altista de preços que a ocorrida este ano.

23/11/2011 - 09:56h Novo mínimo eleva renda em 3% com reflexo no PIB

Por Arícia Martins, Carlos Giffoni e Marcos de Moura e Souza | VALOR

De São Paulo e Belo Horizonte

O já contratado reajuste de 14% do salário mínimo em janeiro de 2012 terá um impacto adicional de cerca de três pontos percentuais na massa de rendimentos do trabalho, que exclui os ganhos com a Previdência. A estimativa do Banco Central, publicada ontem no Boletim Regional, foi feita com base em dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, do IBGE, cuja amostragem é maior que a da Pesquisa Mensal de Emprego (PME), do mesmo instituto.

Em um box dentro do boletim, o BC calcula diferentes impactos do aumento do mínimo, dependendo da indexação do reajuste sobre faixas salariais que vão até dois mínimos. Caso ele alcançasse todos os trabalhadores com rendimentos até dois salários mínimos, a massa de rendimentos poderia crescer até 4,5% em 2012, somente como efeito do reajuste. Mas o estudo do BC, com base no que aconteceu em outros anos, conclui que o impacto deve ser de 3%.

O diretor de política econômica do BC, Carlos Hamilton Araújo, avalia que o reajuste deve provocar um aquecimento da demanda no ano que vem. “Certamente o aumento do salário mínimo, na medida que aumenta a massa de rendimentos, terá um impacto sobre a demanda agregada. Mas em termos de inflação, esse impacto já está contemplado no nosso cenário [de evolução dos preços]“, disse durante apresentação do Boletim Regional em Belo Horizonte.

Economistas ouvidos pelo Valor consideram forte o efeito do mínimo na massa de rendimentos projetado pelo BC e, consequentemente, na atividade econômica em 2012. A estimativa da autoridade monetária, no entanto, não provocou alteração das projeções feitas para o ano que vem, já que o fôlego extra dado pelo mínimo à economia já estava quantificado.

Em um momento de recrudescimento do cenário global, o aumento do mínimo ajudará a mitigar uma desaceleração forte da renda dos trabalhadores e também dos aposentados cujos rendimentos são reajustados pelo mínimo, jogando a favor da economia junto com o ciclo de afrouxamento monetário e com a reversão das medidas macroprudenciais. E o impacto não é apenas para os empregos privados. Há categorias no setor público cujos salários são calculados em múltiplos do mínimo.

“A impressão que se tinha é que o impacto do salário mínimo era apenas fiscal, mas esse aumento de 3% na massa projetado pelo BC mostra sua relevância no mercado de trabalho”, avalia o economista-chefe da corretora Convenção Tullett Prebon, Fernando Montero. “Se considerarmos um ano com crescimento da economia em torno de 3,5%, esse impacto é muito grande”, diz.

Segundo os cálculos de Fernanda Consorte, economista do Santander, esse impacto na massa de rendimentos do trabalho deve representar 0,5 ponto percentual do crescimento de 3,5% do Produto Interno Bruto (PIB) projetado pelo Santander para 2012. “Cerca de 40% do PIB é referente aos salários. Considerando os reajustes para o próximo ano e os dissídios, chegamos a 0,5 ponto, o que é bem alto”, afirma.

O economista Fabio Romão, da LCA Consultores, também considera o impacto no PIB, mas calcula que ele será um pouco menor. A consultoria estima que a economia crescerá 3,1% em 2012, apresentando ligeira aceleração em relação a 2011, quando a expansão deve ser de 2,8%. “Sem o mínimo, o PIB também iria crescer 2,8% no ano que vem”, calcula.

Romão afirma que não projetaria um aumento da renda real dos trabalhadores parecido com o deste ano para 2012 sem o impulso extra do mínimo. Com base em dados da PNAD, o economista espera que, descontada a inflação, o crescimento médio real da renda será de 3% em 2012, diante de 2,6% em 2011. Ele lembra que o cálculo do BC não leva em conta a renda dos aposentados, que representam nada menos do que 21,4% da massa total de rendimentos do país. “Dois terços dos aposentados ganham um salário mínimo e terão seu benefício reajustado em 14%. É mais um impulso de renda e consumo”, diz.

Segundo Rafael Bacciotti, da Tendências Consultoria, o reajuste do mínimo terá importante influência no consumo das famílias, que crescerá mais em 2012 do que em 2011. Para um PIB de 3,7% no ano que vem, Bacciotti projeta que a demanda das famílias crescerá 4,4%, frente a um avanço de 4,2% neste ano, com PIB de 3,3%. “Ainda que o investimento sofra com o cenário global, a renda e o consumo domésticos parecem estar contratados”, diz Montero.

Fernanda, do Santander, também considera uma pressão inflacionária. “Considerando esse impulso adicional sobre a renda para o ano que vem, acredito que a inflação fique em torno de 6,0%, acima do centro da meta.” Na contramão, o economista da LCA diz que seus cálculos já previam o impacto do mínimo. “Já era sabido que o aumento real do mínimo no ano que vem seria de 7,5%. Essa nova conta do BC só vem confirmar nossas estimativas. Minha projeção de inflação está em 5,2% para 2012, já quantificando o efeito do aumento de 14% do salário mínimo”, diz Romão.

20/11/2011 - 11:51h Emergentes superam países ricos


Com a crise na Europa, PIB dos países em desenvolvimento deve passar o das nações desenvolvidas antes do previsto, já em 2012

20 de novembro de 2011

LUIZ GUILHERME GERBELLI – O Estado de S.Paulo

O agravamento da crise na Europa nas últimas semanas deve fazer com que as economias emergentes concentrem a maior parcela do PIB mundial já em 2012. Pela previsão inicial do Fundo Monetário Internacional (FMI), essa virada inédita na Paridade do Poder de Compra (PPP, na sigla em inglês) só iria acontecer em 2013. Mas a piora na avaliação das economias europeias pode antecipar essa tendência.

Para o ano que vem, segundo o estudo de setembro do Fundo, está prevista uma grande proximidade entre os dois grupos: 50,1% do PIB mundial para os desenvolvidos e 49,9% para os emergentes. Em números absolutos, a diferença será de algo em torno de US$ 24 bilhões. Este ano, o resultado esperado para desenvolvidos e emergentes é de 51% a 49%, respectivamente. A previsão do FMI para 2012 é de que as economias avançadas cresçam 1,9%, enquanto o PIB dos países emergentes aumente 6,1%. Para a zona do euro, a expectativa do Fundo é de um crescimento de 1,1%, mas a própria Comissão Europeia, em recente relatório, prevê que o PIB da área aumente 0,5% no ano que vem.

“Os países desenvolvidos estão levando muito tempo para se recuperar. E os emergentes já vinham ganhando espaço”, afirma Raphael Martello, economista da Tendências Consultoria.

A distância entre os dois grupos vem diminuindo desde 1980. Naquela época, a participação no PIB mundial das economias desenvolvidas era de quase 40 pontos porcentuais maior do que a dos países desenvolvidos. A China é a principal responsável por grande parte dos avanços do blocos dos países emergentes. No início da década, por exemplo, a economia chinesa era responsável por cerca de 7% do PIB mundial. Este ano deve chegar a 14% e até 2016 vai pular para 18%, ultrapassando os Estados Unidos.

De acordo com o FMI, a distância em favor dos emergentes deve aumentar até 2016, quando a vantagem será de pouco mais de 7 pontos porcentuais. “Em um cenário onde todo mundo está com um crescimento próximo de zero, a China vai estar com um crescimento entre 7% e 8% e deve puxar o carro dos emergentes”, diz André Roncaglia, mestre em economia e professor da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (Fecap).

A economia chinesa também deve sofrer com a desaceleração da Europa e o baixo crescimento dos Estados Unidos. O FMI prevê uma alta de 9,5% do PIB chinês este ano e de 9% em 2012. “Se ao longo dos anos 2000 a China cresceu muito baseada na sua plataforma de exportação, agora ganha um peso maior o consumo interno, dado que os seus parceiros comerciais vão crescer menos”, afirmou Martello – a Tendências prevê um crescimento de 8,7% para o país em 2012.

Além de estarem fora do centro da crise, a maior participação das economias em desenvolvimento no PIB mundial se deve basicamente às necessidades maiores de infraestrutura desse grupo. “Um país cuja economia é mais madura não tem muito para ser feito. Mas em países em desenvolvimento há muito para ser feito”, afirma o economista Miguel Daoud.

Brasil. Os maiores índices da participação do Brasil no PIB mundial em PPP foram registrados na década de 80, quando chegaram a 3,9%.

Até 2016, a participação do Brasil no PIB mundial deve se manter estável, próximo de 2,9%.

A expectativa da LCA Consultores, por exemplo, é que a economia brasileira cresça em média 4% entre 2012 e 2021. Para o mesmo período, a média do crescimento mundial será de 4,2%, segundo a consultoria.

“Outros países vão passar o Brasil. Mas é importante lembrar que o crescimento da nossa população está caindo e o crescimento médio de 4% é bom, se a gente comparar em termos históricos”, afirmou Francisco Pessoa, economista da LCA Consultores.

28/06/2011 - 08:37h Entre Brics, Brasil lidera crescimento renda-PIB

Francine De Lorenzo | VALOR

De São Paulo

A evolução da renda per capita em comparação com o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) no Brasil é a melhor entre os Brics (grupo que ainda inclui Rússia, Índia, China e África do Sul), disse ontem o economista Marcelo Neri, do Centro de Políticas Sociais da FGV. Para ele, o país foi o único entre a elite dos emergentes a crescer reduzindo a desigualdade social.

Segundo os números apresentados durante o 1º Fórum BID para o Desenvolvimento da Base da Pirâmide na América Latina e Caribe, em São Paulo, os rendimentos medidos pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) tiveram um crescimento anual de cerca de 1,8 ponto porcentual acima do PIB entre 2003 e 2009, enquanto na China o avanço veio dois pontos abaixo da expansão da economia durante o intervalo. Segundo Neri, a renda real entre os brasileiros mais pobres cresceu 68% de 2001 a 2011, enquanto a dos ricos avançou 10% em igual período.

O estudo mostra que a taxa de crescimento da renda dos 20% mais ricos no Brasil é inferior à registrada nos demais Brics, ao mesmo tempo em que a taxa de crescimento da renda dos 20% mais pobres só é menor que a contabilizada pela China.

Desde 2003, o país ganhou quase 50 milhões de consumidores, o equivalente a uma Espanha. Somente nos 21 meses encerrados em maio passado, 13,3 milhões de brasileiros foram incorporados às classes A, B e C, somados aos 36 milhões que migraram entre 2003 e 2009. “Isso é reflexo do crescimento econômico com redução da desigualdade social durante muitos anos. O que está por trás é o aumento da educação e do trabalho formal, a redução da natalidade e o ciclo eleitoral”, explicou Neri. “Todo ano de eleição a renda média do brasileiro sobe muito.”

Simultaneamente, a base da pirâmide social vem diminuindo com rapidez. Apenas no último ano a redução foi de quase 12%. “O grande passaporte para a saída da pobreza é a educação”, disse o economista da FGV, lembrando que programas do governo federal como o Bolsa Família também contribuem para essas mudanças no cenário.

O levantamento mostra ainda que a probabilidade de se migrar da classe E (renda familiar até R$ 751,00) para níveis mais altos da pirâmide social é de 27% para quem tem até um ano de estudo, enquanto que para aqueles que permanecem na escola por 12 anos ou mais esse percentual chega a 53%.

Já a chance de permanecer nas classes ABC no período mais recente é 2,8 vezes maior que a apresentada no início da série da pesquisa. Nas capitais, a chance de permanência no alto da pirâmide é 25% maior que nas áreas periféricas do país, embora esse índice venha caindo.

O estudo apresentado pelo economista da FGV ainda destaca que a cidade considerada “mais rica” do Brasil é Niterói, no Rio de Janeiro, onde 30,7% da população faz parte da classe A. Na sequência aparecem no ranking da pesquisa as cidades de Florianópolis (27,7%), Vitória (26,9%), São Caetano (26,5%), Porto Alegre (25,3%), Brasília (24,3%) e Santos (24,1%). “A região Sul é a que apresenta a menor desigualdade social no Brasil”, afirmou Marcelo Neri.

20/04/2011 - 10:28h PIB nordestino deve crescer 5% este ano e ficar acima da média nacional

Murillo Camarotto | VALOR

Do Recife

Puxada por uma onda de investimentos, a economia da região Nordeste deve continuar crescendo acima da média nacional nos próximos anos. Estimativas divulgadas ontem pela consultoria pernambucana Datamétrica, especializada em economia nordestina, apontam para expansão de 5,06% no Produto Interno Bruto (PIB) da região em 2011, contra 4% esperados para o Brasil como um todo. Para 2012, a projeção é de alta de 5,03% no Nordeste, ante uma média nacional de 4,3%.

O crescimento da renda e do consumo das famílias, ao lado de pesados investimentos, sobretudo na construção civil, continuam sendo os principais combustíveis para a expansão maior da região neste ano. Porém, a contínua valorização do real ante o dólar surge como novo personagem. Sócio da Datamétrica, o economista Alexandre Rands explica que o câmbio valorizado tem incentivado, e muito, as importações de máquinas e equipamentos, indústria que está quase toda concentrada no Sudeste.

“Em tempos de investimento elevado, o Sudeste sempre teve o diferencial de abrigar a indústria de máquinas e equipamentos. Quando se começa a importar no volume em que está sendo feito, esse diferencial já não é tão sentido”, afirmou Rands. Segundo ele, o Nordeste também sofre menos com a queda no valor das exportações, já que a região vende majoritariamente commodities para o exterior.

Segundo a Datamétrica, o crescimento do Nordeste neste ano continuará sendo puxado por Pernambuco (6,14%), Ceará (5,26%)e Bahia (5,22%), Estados mais populosos e com a economia mais desenvolvida da região. “É normal que essa onda de investimentos que chega ao Nordeste traga empresas interessadas em se instalarem nos maiores mercados consumidores”, avalia.

No caso de Pernambuco, a expansão será puxada pelos investimentos no Complexo Portuário de Suape, que recebe simultaneamente obras para a construção de refinaria, petroquímica, estaleiros e, em breve, siderúrgica e montadora de automóveis.

O Estado da Bahia tem novos projetos na área de energia e a promessa de uma boa safra agrícola, assim como o Ceará, que também deve continuar crescendo nos setores de vestuário e alimentos. “Além disso, os três Estados tiveram os governadores reeleitos. Essa continuidade costuma ser positiva para a economia”, lembrou Rands.

Para 2012, no entanto, a expectativa é de queda na diferença entre o crescimento do Nordeste e a média nacional. De acordo com a Datamétrica, é esperado para o ano que vem um afrouxamento da política monetária, que deve resultar em expansão do consumo de bens duráveis. Quando isso ocorre, avaliou Rands, o Sudeste tende a demonstrar sua força.

04/03/2011 - 09:42h Crescimento: Desempenho só perde para China e Índia

VALOR

Depois de 30 anos, o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro voltou a figurar entre os maiores do mundo. Numa lista de 16 países, o avanço de 7,5%, observado no ano passado, só foi inferior ao alcançado por chineses e indianos – 10,3% e 8,6%, respectivamente.

O desempenho da economia brasileira em 2010 difere muito dos números registrados pelos países desenvolvidos, cujos resultados econômicos no período foram cerca da metade do avanço obtido pelo Brasil.

Enquanto a maior economia do mundo, os Estados Unidos, registrou avanço de apenas 2,9% no ano passado, os países da União Europeia tiveram um desempenho ainda pior: a alta do PIB da região foi de 1,7% em 2010. Se a Alemanha, a maior economia do continente europeu, cresceu 3,6%, a Grécia registrou forte depressão no período (-4,5%) e na Itália e Espanha, os resultados atingidos foram próximos de zero.

Entre as economias dos Bric – grupo formado pelos quatro principais países emergentes, Brasil, Rússia, Índia e China -, o resultado russo foi o mais fraco em 2010: alta de 3,8%, metade do resultado brasileiro. (JV)

04/03/2011 - 09:37h Em 2011, investimento pode crescer mais 9%

VALOR

Principal indicador de crescimento econômico futuro, o investimento saltou 21,8% entre 2009 e 2010, atingindo 18,4% do Produto Interno Bruto (PIB) no ano passado. O avanço representa uma alta de 1,5 ponto percentual em relação à taxa de 2009, mas ainda está abaixo do pico mais recente, registrado em 2008, de 19,1% do PIB. Considerado somente o quarto trimestre, a taxa foi de 17,9%.

A confirmação da terceira etapa do Programa de Sustentação do Investimento (PSI), com mais R$ 75 bilhões, e a perspectiva dos projetos relacionados à Copa de 2014 e a Olimpíada de 2016, vão fazer o investimento crescer, em 2011, cerca de 9%, projetam vários economistas. Se confirmada a alta, a taxa de investimento poderá chegar perto de 20% do PIB este ano.

Para Fernando Rocha, economista da JGP Gestão de Recursos, o resultado do último trimestre foi “decepcionante”, porque o salto de 2,5%, feito o ajuste sazonal, do consumo das famílias entre o terceiro e o quarto trimestre, não foi acompanhado pelos investimentos, que cresceram apenas 0,7%. “Não fosse pela recuperação da crise, o mix de 2010 seria claramente insustentável”, diz. O economista, porém, avalia que os investimentos terão em 2011 um resultado melhor que o último trimestre de 2010.

“Enquanto o PIB desacelera para taxas inferiores a 4,5%, o investimento deve aumentar em 9% neste ano, justamente porque o consumo das famílias continua muito forte”, diz Rocha, para quem as condições estruturais por trás da demanda interna – mercado de trabalho aquecido e incremento de salários – continuam no radar de 2011. Para Rocha, os investimentos serão cada vez mais sustentados pela importação de máquinas e equipamentos, incentivados pelo câmbio valorizado.

Rocha construiu uma série trimestral da produção e do consumo aparente (o resultado da soma da produção e do importado subtraída a parcela exportada) de máquinas e equipamentos. Entre o início da série, em setembro de 2006, e a queda provocada pela crise mundial, o ritmo é similar.

“A distância começa a ficar maior no ano passado, especialmente depois que os incentivos fiscais do governo venceram, em março. Pelo consumo aparente fica muito evidente que é o importado sustentando o aumento dos investimentos”, diz Rocha.

O economista-chefe da MB Associados, Sérgio Vale, acredita numa alta de 9% do investimento, mas ressaltando que as inversões deverão ocorrer principalmente nos setores ligados à infraestrutura, como com as obras ligadas à usina de Belo Monte, à Copa do Mundo de 2014 e à Olimpíada de 2016. “A indústria que vai investir é aquela relacionada à mineração, petróleo e agribusiness”, avalia. “O investimento deverá acontecer, mas não me parece que será num ritmo muito intenso por parte do setor privado. Ela dependerá cada vez mais da vontade do governo para acontecer.”

De acordo com os economistas, no entanto, é preciso elevar a taxa de investimentos acima de 22% do PIB de forma a sustentar avanços consistentes da economia, isto é, um crescimento anual em torno de 5%, sem aumento da inflação.

Para o economista-chefe da corretora Ativa, Henrique Santos, com a Copa do Mundo de 2014, a Olimpíada de 2016 e os projetos do pré-sal à vista, o investimento c deve crescer pelo menos 9% em 2011. “O Brasil está muito atrasado em infraestrutura. Por isso, mesmo com consumo menor, os investimentos devem continuar fortes.”

Para a LCA Consultores, o investimento crescerá a um ritmo um pouco mais modesto, de 6,2%. Segundo relatório da consultoria, a capitalização recém-anunciada do BNDES “não necessariamente terá um impacto expansionista sobre a demanda agregada”. Com a operação, o banco fez desembolsos de R$ 145 bilhões em 2011, queda nominal de quase 14% em relação a 2010. “Uma queda anual dos desembolso do BNDES não acontece desde 2003, quando caiu 10%”, anotou a consultoria. (JV, SL e FL)

04/03/2011 - 08:29h Taxa de investimento de 2010 foi 2ª maior da década

ALESSANDRA SARAIVA E MÔNICA CIARELLI – Agencia Estado

RIO – A taxa de investimento (relação entre Formação Bruta de Capital Fixo e Produto Interno Bruto) de 2010, de 18,4%, foi a segunda maior da década, segundo informou hoje o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Durante a divulgação das contas nacionais, o instituto divulgou uma lista das taxas anuais de investimento de 2000 a 2010. No período, a taxa de investimento do ano passado só não foi maior do que a de 2008, quando atingiu 19,1%. Em 2009, a taxa de investimento foi de 16,9%.

A variação recorde de 21,8% na Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) em 2010 ante 2009 refletiu forte interesse dos produtores de elevar sua capacidade produtiva, direcionando seus gastos na compra de máquinas e equipamentos, nas palavras do coordenador de Contas Nacionais do IBGE, Roberto Luis Olinto Ramos. Ele comentou que, dentro da FBCF de 2010, 55,2% foram originados de máquinas e equipamentos.

“O que podemos perceber aí é um gasto relacionado a investimentos, e também relacionado a gastos habitacionais. Mas, pelo que podemos observar, é possível dizer que os produtores estão aumentando sua capacidade produtiva, ou aproveitando para renovar estoques de bens de capital”, afirmou ele, comentando que, pelo menos em 2010, é possível perceber este interesse por parte dos produtores.

Ele admitiu que o Programa de Sustentação de Investimento (PSI) do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), que oferece financiamento para compra de máquinas e equipamentos, pode ter ajudado a compor este bom cenário na FBCF em 2010, além de programas de financiamento voltados para a construção civil. Mas preferiu não tecer comentários sobre a sustentabilidade deste movimento em 2011, lembrando que o IBGE não faz previsões.