31/01/2009 - 13:00h Prefeitura apaga grafite em parede de imóvel particular

Obra havia sido feita a pedido do ‘Estado’ para comemorar os 455 anos de SP

Vitor Hugo Brandalise – O Estado SP

Mais um grafite da dupla de artistas osgemeos, os irmãos Otavio e Gustavo Pandolfo, foi apagado pela Prefeitura. Desta vez, a obra destruída ficava no Brás, na parede de uma loja de ferramentas, e foi criada a pedido do Estado para homenagear a cidade no dia de seu aniversário. “Autorizei o grafite porque acho que o trabalho embeleza minha loja e a protege dos pichadores”, diz um dos proprietários do estabelecimento, Márcio Moreira – que lança questionamento: “Quer dizer que não há liberdade para fazer arte nem na própria parede?”

Os jatos de tinta cinza que cobriram o desenho da dupla na terça-feira – uma representação estilizada de um grafiteiro, disposto a “colorir o cinza da cidade”- fazem parte de outro capítulo da luta dos artistas contra a empresa contratada pela administração municipal para apagar seus trabalhos. Nesse caso específico, ninguém ficou feliz. “Atiraram tinta cinza na parede, mesmo que minha fachada seja azul. Aí fica essa cor horrível, cinza com azul, algo que não autorizei. Ninguém pode dizer que isso fica mais bonito assim”, diz Moreira. A loja de ferramentas fica na esquina da Rua Mem de Sá com a Avenida Radial Leste. “O grafite dava um ar moderno. Agora, vou ter de pintar de azul novamente”, lamenta.

A Secretaria de Coordenação das Subprefeituras admite que a equipe responsável pela recuperação de fachadas da região da Mooca e do Brás apagou a obra por engano. O secretário de Coordenação das Subprefeituras, Andrea Matarazzo, segundo informou sua Assessoria de Imprensa, diz que vai “entrar em contato pessoalmente” com o proprietário da loja onde estava o grafite para “ver como isso pode ser reparado”. A Subprefeitura da Mooca ainda informou que, entre as equipes que percorrem as ruas em busca de pichações, há sempre um “agente especializado em pintura”, para “tentar evitar enganos”.

Os grafiteiros osgemeos já não se surpreendem ao ver suas obras cobertas de tinta cinza – somente na região do Brás e da Mooca, um dos primeiros redutos do grafite na cidade, já tiveram mais de 20 trabalhos apagados por agentes da Prefeitura. Em toda a cidade, eles contabilizam cerca de cem grafites apagados – nem todos, porém, tinham autorização para serem pintados.

O amparo legal para a Prefeitura disparar tinta cinza em edificações privadas é concedido pela Lei nº 14.451, de 2007, que institui o programa antipichação do Município. O texto da lei, porém, prevê que estão “excluídos do programa os grafites efetuados em imóveis particulares ou próprios municipais, autorizados pelo proprietário ou autoridade municipal competente”. Para evitar novos erros e “afinar os critérios entre o que é grafite e o que é pichação”, o secretário Andrea Matarazzo “já fez diversas reuniões com os grafiteiros, e vai continuar fazendo”, segundo sua assessoria.

O caso mais famoso de “engano” envolvendo o trabalho dos grafiteiros osgemeos aconteceu em junho do ano passado, quando foi apagado um mural de 680 metros no acesso da Avenida 23 de Maio ao Elevado Costa e Silva, o Minhocão. “Nos dois casos, estávamos autorizados: um pelo poder público, outro pelo dono da parede, e apagaram assim mesmo”, disse Otavio. “Achamos que essa situação vai se resolver, mas vai demorar quanto?”

13/12/2008 - 13:28h Presa no vazio

Artistas de diversas áreas criticam a prisão da jovem Caroline Pivetta da Mota, que pichou o pavilhão da Bienal de São Paulo

Choque – 26.out.08/Folha Imagem

Caroline Sustos, 24, presa durante invasão de pichadores na abertura da Bienal

LUCAS NEVES e SILAS MARTÍ – FOLHA SP

Embora tenha fechado as portas há uma semana, continua sem desfecho a 28ª Bienal de São Paulo. Caroline Pivetta da Mota, 24, presa em flagrante quando participou da invasão dos pichadores ao pavilhão do Ibirapuera, no dia de abertura da mostra, completava ontem 49 dias encarcerada.
Uma decisão da Justiça [após o fechamento desta edição] poderia soltar a pichadora, conhecida como Caroline Sustos, mas, mesmo que ela venha a responder em liberdade, o episódio já desencadeou uma onda de debates e ações de protesto que abalou o meio artístico.
O diretor de teatro José Celso Martinez Corrêa chegou a classificar o caso como “coisa de AI-5″. A maioria dos artistas, críticos e curadores ouvidos pela Folha também critica a Fundação Bienal e os curadores Ivo Mesquita e Ana Paula Cohen pelo que classifica de silêncio, omissão e a perda de uma oportunidade para um debate mais amplo sobre o caso.
Dirigentes de instituições culturais e representantes do poder público também se manifestaram sobre o fato. O ministro da Cultura, Juca Ferreira, vê exagero na prisão. O governador José Serra diz que não pode intervir.
Está marcada para amanhã em São Paulo uma reunião de artistas para discutir a natureza da ação dos pichadores. Também circula na internet um abaixo-assinado a favor da liberdade de Mota. Até o início da tarde de ontem, reunia 233 nomes. Entre eles, os dos artistas Laura Lima, Renata Lucas, Angelo Venosa, Carlito Carvalhosa e Thiago Rocha Pitta; e os dos curadores Luiz Camillo Osorio, Cauê Alves, Marcelo Rezende e Lisette Lagnado.
Mota, que fez aniversário ontem dentro de uma cela, participou de “ataques” coordenados à galeria Choque Cultural, em Pinheiros, e ao Centro Universitário Belas Artes. Enquadrada no artigo 62 da Lei do Meio Ambiente, por destruição de patrimônio cultural, pode pegar até três anos de prisão.

“É uma tática terrorista”, diz Ivo Mesquita

DA REPORTAGEM LOCAL

O curador da 28ª Bienal Ivo Mesquita rebate as acusações de silêncio e omissão, dizendo que já se manifestou sobre o ocorrido, mas reafirma que não cabe à curadoria realizar qualquer intervenção a favor da pichadora.
“A curadoria não pode fazer nada, nem deve fazer nada”, diz Mesquita. “A curadoria é um serviço terceirizado, que a Bienal contrata apenas para fazer um projeto.”
Mesquita classifica a ação dos pichadores como “arrastão”. “Uma coisa é grafiteiro, pichação; outra coisa é uma tática terrorista de arrastão, 40 a 50 pessoas, com um histórico nada bom, que invadem lugares como a Belas Artes e a Choque Cultural e destroem obras de arte.”
Sobre uma possível intervenção a favor do relaxamento da prisão de Caroline Pivetta da Mota, Mesquita concorda com boa parte dos artistas e curadores ao dizer que “a pena é pesada”, mas descarta a possibilidade de tomar qualquer tipo de ação. “Eu não sei o que a curadoria tem a ver com isso.”
Procurada pela reportagem, que ligou diversas vezes para seu telefone celular e deixou recados a dois de seus assistentes, que afirmaram que ela estava ciente dos pedidos de entrevista, Ana Paula Cohen não se manifestou.
O presidente da Fundação Bienal de São Paulo, Manoel Francisco Pires da Costa, que concordou em dar entrevista por e-mail, ignorou boa parte das questões enviadas pela reportagem, limitando-se a uma resposta de um parágrafo, em que voltou a lamentar “profundamente” o ocorrido, “bem como a situação por que passa a jovem”.
“No entanto, nosso corpo jurídico está à disposição da advogada da jovem para contato”, diz Pires da Costa. “Entendo que, se de fato trata-se de ré primária, o caso poderia ter tratamento diferenciado”, afirma.
Pires da Costa também ressaltou, no entanto, que “não há como intervir diretamente”. “A jovem cometeu crime contra o patrimônio público tombado e em flagrante delito.” (LN e SM)