02/11/2008 - 10:42h Em crise, esquerda busca rumo no Chile

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Primeira derrota nacional em 18 anos traz ascensão da nova direita

João Paulo Charleaux - O Estado SP

Ao contrário de quase todos os outros países da América - incluindo os EUA -, a direita foi quem mais cresceu com as eleições municipais do dia 26 no Chile. E isso aconteceu justamente em um dos poucos países onde a clássica divisão direita-esquerda dispensa eufemismos como cocaleiros, indígenas, peronistas e bolivarianos.

A Concertação, aliança da atual presidente socialista, Michelle Bachelet, perdeu sua primeira eleição em 18 anos para a direita. O prejuízo da esquerda foi de 56 das 203 prefeituras, enquanto a Aliança, coligação de partidos de direita, elegeu 36 novos prefeitos, além dos 104 que detinha anteriormente. A dança das cadeiras representa um salto de 25% para a direita e um tombo de 27% para a esquerda.

Desde o fim da ditadura do general Augusto Pinochet, em 1990, a Concertação, coalização de socialistas, social-democratas e democratas-cristãos, vinha se mantendo e se expandindo no poder, em um claro sinal de que o legado de 17 anos de governo militar (1973-1990) tinha sido suficiente para a maioria dos chilenos.

Entretanto, as eleições da semana passada mostraram mais do que uma revanche da direita - revelam que talvez já não haja no país aquela mesma direita das décadas de 70 e 80, ou que, pelo menos, mostraram que ela está em vias de extinção.

Prova disso foi que Lucía Pinochet Hiriart, filha do ex-ditador, foi a segunda vereadora em número de votos na comuna (bairro) de Vitacura, com 15,75% dos votos. No entanto, ela saiu como candidata independente, em vez de usar o guarda-chuva da direita.

“Aqui, todos querem distância daquela direita da ditadura Pinochet”, disse ao Estado o cientista político da Universidade do Chile, Guillermo Holzmann. “A coligação de direita (Aliança) é agora uma mescla daquela direita antiga, do Pinochet, representada pela União Democrática Independente (UDI), juntamente com uma nova direita chilena, que se apresenta como moderna e neoliberal, chamada Renovação Nacional.”

É essa nova direita que mais ameaça a hegemonia da Concertação nas eleições presidenciais de 2009. No cenário mais provável, o candidato da Aliança seria o milionário Sebastían Piñera, dono da empresa aérea Lan Chile, que tem hoje 37% das intenções de voto.

OPÇÕES

Do lado da Concertação, o nome mais cotado era o de Soledad Alvear, até as eleições presidente da Democracia Cristã. Mas o desempenho do partido foi tão fraco que forçou os caciques da Concertação a reverem seus planos. O partido de Soledad perdeu 41 prefeituras, deixando de ser o maior do país.

Depois do duro golpe da semana passada, a Concertação teve de buscar candidatos no passado, como o ex-presidente chileno Eduardo Frei, que governou o país de 1994 a 2000, e Ricardo Lagos, que antecedeu Bachelet.

Outra alternativa seria o secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), José Miguel Insulza, mas a média de intenção de votos de qualquer um desses candidatos não passa de 5%.

“Pela esquerda ou pela direita, as eleições puseram uma pedra pesada no caminho da hegemonia da Concertação”, disse Holzmann.

09/08/2008 - 18:44h A tragédia argentina vista por um adolescente

Com História do Pranto, Alan Pauls faz seu exercício estilístico mais radical, cruzando o íntimo e o político numa só dimensão

Antonio Gonçalves Filho - O Estado de São Paulo

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Mais Nietzsche do que Schopenhauer. A teoria do escritor argentino Alan Pauls sobre o problema da dor aponta para o primeiro filósofo não tanto por identificação com os ideais pagãos de uma Europa pré-cristã, que fizeram da filosofia de Nietzsche um manual de sobrevivência na selva das cidades. A uma certa altura de seu novo livro, A História do Pranto, Pauls diz que a dor que o protagonista sente “é sua educação e sua fé”. A dor, continua o autor, “o torna crente”. Como em Nietzsche, ela obriga o sofredor a se tornar mais forte. E, no caso, o sofredor é um adolescente de 13 anos, filho de pais divorciados, que acompanha a tragédia política da América Latina nos anos 1970, tentando inutilmente derramar uma lágrima pelas vítimas de ditaduras.

Dito assim, o livro de Alan Pauls pode parecer uma novela política lacrimosa. Não é lacrimosa e nem mesmo uma novela. A despeito de sugerir um gênero, ao incorporar o subtítulo Um Testemunho à História do Pranto, o talentoso autor de O Passado guia seus leitores por uma trilha enganosa, recheando esse “testemunho” de aforismos, à maneira de Nietzsche, e criando com esses o desejo de interpretar, não de conhecer, a história desse adolescente introspectivo e fixado na imagem do Super-Homem - outra pista que conduz o leitor à estrada principal, ou seja, ao sentido moral da crítica de Nietzsche à metafísica. Nada de platonismo pós-moderno. Pauls dá nome às ditaduras e faz da memória do menino sem nome um registro da história tenebrosa de uma Argentina afogada em sangue.

É bem verdade que o elogio do Super-Homem e a teoria da vontade de potência de Nietzsche acabaram servindo ao nacional-socialismo alemão - não por sua culpa, evidentemente, ele que considerava o nacionalismo uma neurose. Porém, no caso da admiração que o adolescente de Pauls sente pelo Super-Homem dos quadrinhos, trata-se inversamente de investigar a posição de fragilidade, de vulnerabilidade desse ser, acossado por um dilema moral e desgarrado da comunidade que pretende proteger. Mais uma vez recorrendo - deliberadamente ou não - a Nietzsche, Pauls adota uma narrativa marcada pelo tempo cíclico e pela alternância entre criação e destruição. Quando o leitor pensa que localizou no adolescente traços autobiográficos do autor, plasmado no narrador, ele desaparece como desapareceram milhares de crianças durante a ditadura argentina.

Críticos ciosos de uma revisão política do período ou de um ensaio antropológico sobre o modelo neoliberal que engendrou seres incapazes de se emocionar, como o garoto de Alan Pauls, vão se decepcionar com História do Pranto, mas não o leitor que anda atrás de um autor capaz de renovar a linguagem literária com uma escritura mais digressiva que a do chileno Bolaño, para citar um nome caro ao argentino.

As palavras surgem em cascata na narrativa desse garoto prodígio “que considera as lágrimas uma espécie de moeda, um instrumento de troca com o qual compra ou paga coisas”, um desses monstros que assombram as platéias de televisão respondendo a perguntas impossíveis em programas de auditório. Isso explica a sintaxe ornamental e a sofisticação barthesiana de Pauls, às voltas com a consciência de si, que se desdobra no outro e rememora a história coletiva por meio de lembranças pessoais. Esse exercício proustiano, intimista, que se choca com a tumultuada história argentina, é menos uma biografia - ou autobiografia - que um projeto mais ambicioso de atar numa única história todos os seus títulos anteriores (especialmente O Passado), a história da nostalgia da tragédia que têm os argentinos e deu origem ao tango.

O adolescente de História do Pranto não consegue evitar a lembrança da cena que comoveu seu pai até as lágrimas, a do show “mítico” de um cantor de protesto que reencontra os fãs após seis anos de exílio, chamado ironicamente de “Bondade Humana” pelo autor dessas memórias que a ninguém e a todos pertencem. Em outra ocasião, mais histórica, a da derrubada de Allende, vista pela TV, o protagonista tenta até chorar, ao ver seu amigo revolucionário desabar diante da invasão do Palácio de La Moneda pelos brucutus do general Pinochet, em 1973. Tempo perdido: não consegue verter uma só lágrima.

Numa entrevista, Pauls argumentou que, na origem do livro, está esse desejo de fundir o político e o íntimo num único registro em que ambas dimensões sejam indistinguíveis. Encontrou a saída nas memórias de um adolescente, um ser ainda em formação, um arauto além do bem e do mal que anuncia a urgência de ultrapassar os valores argentinos, dos quais o choro parece o mais evidente.

13/04/2008 - 06:53h Reparação

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VERISSIMO - O Globo

Há pouco, na França, discutia-se a idéia de incluir nos currículos escolares, como matéria obrigatória, os anos da ocupação nazista do país e a cumplicidade do Estado francês na perseguição aos judeus, no período.

Não sei no que deu. Não parecia uma idéia muito boa submeter a garotada aos horrores de outra época. Ainda mais uma época que, se não é mais contemporânea, ainda não foi totalmente desarmada pela distância histórica. Mas o objetivo era não esquecer, para não repetir, e passar para as novas gerações uma memória nacional inteira, sem rasuras. Embutida na idéia estava a questão do que um Estado culpado deve fazer com sua culpa. Como reconhecer o que fez com a nação e os seus cidadãos num tempo de exceção, e como reparar o que fez.

A questão da reparação foi tratada de formas diferentes quando acabou o último ciclo dos governos militares na América do Sul. No Chile, Pinochet foi ameaçado até morrer com processos, para que pagasse pelo menos judicialmente pelos anos de repressão e terror que comandou. Na Argentina, a responsabilização criminal de torturadores e seus mandantes dos tempos da ditadura se repete. No Brasil, preferiram a anistia. Nem os mais notórios criminosos do regime nem seus mais radicais opositores precisaram se preocupar em pagar à nação pelo que fizeram. Mas para não dizerem que ninguém pagou por nada, que o Estado brasileiro não reconheceu sua culpa e a memória nacional simplesmente deletou esta parte da nossa História, estão havendo reparações, sim. Em reais, para quem se sentiu prejudicado pelo Estado desvairado. Indenizações por carreiras interrompidas, vidas alteradas, saúde abalada, dinheiro perdido ou vexame sofrido.

Justiça em espécie em vez de justiça bíblica.Os critérios e as quantias das reparações são para outra discussão, mas é curioso que, em meio a toda essa furiosa indignação com o que o Jaguar e o Ziraldo vão receber, ninguém apreciou a troca pacífica que isso representa — a indenização deles e de outros pelo Estado substituindo formas de retribuição mais violentas, e menos brasileiras. Há até uma justeza poética no fato de Jaguar e Ziraldo, dois dos maiores exemplos da criatividade e da excepcionalidade brasileiras, estarem no centro dessa tempestade de opiniões.

Pois somos excepcionais e criativos até nos nossos acertos de contas com a História.

(Há quem prefira o velho olho por olho a qualquer outra forma de justiça, claro. Mas isso também é assunto para outro dia.)

07/01/2008 - 09:00h Condor, o mercosul das ditaduras

Vitor Hugo Soares

Wikimedia/Gentileza

Cooperação - O ditador argentino Jorge Rafael Videla cumprimenta o ditador chileno Augusto Pinochet , em 19 de janeiro de 1978.

Foi em Montevidéu, no fim dos anos 70, que vi de perto, pela primeira vez, o rastro e o rosto da “Operação Condor” na América Latina. Então, o continente era uma colcha de ditaduras cujos organismos de repressão atuavam em estreita colaboração - sem freios nem fronteiras. Antes, apenas vislumbrara a ferida em cenas fugazes de “Estado de Sítio” e “Missing”, filmes de Costa-Gavras, que denunciavam o regime de Pinochet e a presença de agentes brasileiro no Chile, dando aulas de como operar instrumentos de tortura. Conversava com exilados brasileiros no Uruguai, em um Café no centro da capital. Um deles (não estou certo se o coronel Dagoberto Rodrigues ou o jornalista Paulo Cavalcante Valente) me bateu no ombro e perguntou: “Você sabe que a menos de 40 metros daqui fica a farmácia dos pais de Lílian Celiberti, seqüestrada no Rio Grande do Sul por agentes brasileiros e uruguaios, e entregue à ditadura daqui junto com o marido e dois filhos?”

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25/09/2007 - 09:06h Protestos tentam acelerar distribuição de renda no Chile

The Economist, de Santiago

Jornal Valor

Apesar de uma transição para a democracia e do rápido crescimento econômico, os chilenos queixaram-se muito ao longo dos últimos 20 anos - mas discretamente. Muitos sentiram-se decepcionados pelos termos segundo os quais o general Augusto Pinochet deixou o poder, em 1990: o ditador permaneceu no comando do Exército por oito anos; mas as queixas foram emudecidas pelo alívio com a volta da democracia. Muitos também ficaram desapontados com o fato de a coalizão de centro-esquerda, chamada Concertación, que está no poder desde 1990, ter mantido as políticas de livre mercado da ditadura; mas esse desapontamento foi moderado pela prosperidade e melhorias nos serviços resultantes dessas políticas.

As queixas contidas, começaram, de repente, a ser verbalizadas ruidosamente. No ano passado, animados pela promessa de Michelle Bachelet, presidente do Chile desde março de 2006, de praticar um governo democrático mais “participativo”, alunos de escolas secundárias foram às ruas para exigir melhor ensino, no maior dos protestos desde a década de 80. Com o preço do cobre - principal produto exportado pelo país - em níveis recordes, e a economia crescendo 6% neste ano, também os trabalhadores estão protestando.
Até recentemente, greves eram relativamente raras no Chile. No ano passado, porém, mineiros de Escondida, a maior mina de cobre do mundo, conquistaram um aumento substancial de salários, após greve de um mês. Neste ano, houve paralisações no setor de reflorestamento e uma greve de 36 dias por trabalhadores subcontratados pela Codelco, a empresa estatal produtora de cobre.
“Os trabalhadores vêm um país que está crescendo e companhias que estão indo bem, e ficam cansados de esperar”, explica Arturo Martínez, presidente da Central Unitária de Trabajadores (CUT), a principal confederação sindical chilena. Os sindicatos criticam a distribuição desigual de renda no país. Uma pesquisa governamental, no ano passado, descobriu que quase 1 milhão de trabalhadores, ou 15% do total, estava ganhando menos do que o salário mínimo estipulado na legislação - pouco mais de US$ 200 por mês.
Em vista da forte queda do desemprego, as exigências salariais não são de surpreender. Elas são também estimuladas pelo Partido Comunista. A essas cobranças somam-se críticas ao descumprimento, pelo governo, de uma promessa de campanha, a de promover uma reforma num sistema eleitoral deixado intacto pela ditadura, que torna quase impossível aos partidos pequenos (como o próprio PC) conquistar assentos no Congresso.

Líderes sindicais dizem que o país está à beira de uma conflagração social. Sem dúvida, as recentes greves e manifestações foram incomumente violentas, assim como um dia nacional de protesto convocado, entre outros, pela CUT e pelo Partido Comunista, em 29 de agosto.
Essa iniciativa ganhou o apoio de alguns políticos da Concertación, que passaram a protestar contra o “neoliberalismo” de seu próprio governo. Eles são contrários a uma rígida política fiscal segundo a qual grande parte do ganho extraordinário resultante do preço do cobre está sendo poupado para o futuro. Isso permitirá que o governo disponha dos recursos para safar-se de uma eventual recessão futura.
Mais que uma grande inflexão ideológica, o descontentamento reflete uma mudança nas relações trabalhistas. Os trabalhadores estão mais conscientes de seus direitos e querem que estes sejam respeitados, diz um administrador sênior na Codelco.
Uma questão contestada é a subcontratação de trabalhadores. Isso contribuiu para manter as exportações competitivas, mas em alguns setores têm sido usadas como um meio de formar um contingente de mão-de-obra remunerado com baixos salários sob contratos de curto prazo.
Uma nova lei procura coibir o uso indevido da subcontratação. No mês passado, o governo constituiu uma comissão para analisar mudanças mais abrangentes nas legislação trabalhista. “Não fomos condenados a ver pobreza e desigualdade e simplesmente ficar esperando que o crescimento e uma gradual propagação da riqueza se encarregue de acabar com os problemas”, afirmou Bachelet recentemente. O governo também quer constituir tribunais especiais para julgar queixas de trabalhadores e pretende fortalecer o seguro-desemprego.
A estabilidade econômica, política e social desde 1990 foi crucial para atrair os investimentos, tanto nacionais como estrangeiros, que asseguraram rápido crescimento econômico. Em conseqüência, o Chile é um país muito mais rico: a renda per capita é de quase US$ 9 mil, contra apenas US$ 2,4 mil em 1990. Neste estágio de seu desenvolvimento, mais investimento de capital e melhor ensino fariam crescer a produtividade e, portanto, os salários, num círculo virtuoso.
Há grande margem para melhorias de produtividade. A atividade de reflorestamento é cinco vezes mais intensiva em mão-de-obra do que, por exemplo, na Escandinávia. Mas melhorias no ensino levam tempo. E, como alternativa a investimentos de capital, as empresas chilenas podem importar mão-de-obra barata de vizinhos mais pobres, como o Peru e a Bolívia, assinala Rosanna Costa, do Libertad y Desarrollo, um instituto de estudos conservador. Isso está acontecendo em atividades mal remuneradas em setores como a construção civil e a agricultura.
Os chilenos estão rompendo os grilhões mentais impostos pela ditadura. O processo foi acelerado pela morte de Pinochet, em dezembro passado. Mas a liberdade política gerou impaciência nas demandas por uma participação mais justa na divisão dos frutos do crescimento. Bachelet revelou-se menos inclinada do que seus predecessores em praticar a bem-sucedida receita do Concertación - liberalismo econômico combinado com políticas sociais redistributivas.

Apesar disso, parece improvável que o Chile dê uma guinada rumo ao populismo. Com a crescente prosperidade vieram os financiamentos de casas próprias e dívidas no cartão de crédito. Esses são “os novos grilhões dos trabalhadores”, queixa-se Martínez. São também um sinal de que a maioria dos chilenos hoje têm interesse na estabilidade.

11/09/2007 - 19:39h Queda de Salvador Allende

Como se vê na reportagem A tragédia do 11 de setembro a historia da metralhadora foi uma montagem dos militares.

11/09/2007 - 19:17h As imagens do 11 de setembro que poucos lembram

Bombardeio a La Moneda, Palácio da Presidencial de Chile

Veja o filme aqui

11/09/2007 - 18:54h A tragédia do 11 de setembro

Por CAMILO TAUFIC / La NaciónLIBRO DE PINOCHET DESTRUYE VERSIÓN DE GENERAL PALACIOS

A ningún director de cine fantástico se le ocurriría juntar en una misma película, singlando para el mismo lado, al general Augusto Pinochet Ugarte, a Joan Garcés, el abogado que lo metió a la cárcel en Londres, en 1998; al amiguísimo de Allende, Víctor Pey, dueño de “El Clarín”, expropiado por la Junta Militar, y a dos cineastas de la ex Alemania comunista, que filmaron el golpe en septiembre de 1973.

Todos ellos, sin embargo, aportan pruebas y testimonios que destruyen definitivamente el mito o embuste de que el Presidente de la República Salvador Allende Gossens combatió en defensa de su investidura y luego se disparó bajo el mentón, utilizando un fusil ametralladora que le había regalado Fidel Castro, con su dedicatoria. Fue otra el arma que usó; probablemente muy similar.

Sostener la prueba es duro. Durante 34 años, cualquier chileno medianamente informado ha visto centenares de veces los videos de TV 13, el canal de los golpistas en septiembre del 73, y luego los difundidos por TVN, CNN, y “ene” cantidad de documentales cinematográficos, fotografías y grabaciones, donde aparece el general Javier Palacios Ruhmann, a la sazón jefe de Inteligencia del Ejército, mostrando al mundo una metralleta AK-47 de metal negro, con su correa portafusil negra, que tendría una lámina del mismo color pegada al arma (que no se exhibe), donde se podría leer: “A Salvador, de su compañero de armas, Fidel Castro”.

Se puede ver todo lo anterior en Internet en el video de Canal 13 titulado “El cuerpo de Allende sin vida es retirado de La Moneda”, en el siguiente link:

http://teletrece.canal13.cl/html/11chile/bombardeo/128444.html

En el video, filmado el 11-S-73 al atardecer, frente a Morandé 80 primero, cuando ya ha partido la ambulancia que lleva los restos del Presidente de la República, y luego al interior de La Moneda, se aprecia al general Palacios recibir de pie junto a la muralla algo que parece un bastón en un primer momento, pero que luego se transforma en un “fierro”, es decir, un arma. La recibe de un ayudante, que ha venido caminando desde la semipenumbra, sin casco, a diferencia de los restantes soldados que participaron en el combate y que se alinean junto al general.

La escena no es clara y las miradas a la cámara del alto oficial y del recién llegado revelan molestia y una cierta confusión en ese instante, al ser enfocados. Segundos después (en el video), el arma -de estructura completamente metálica y de color negro- es exhibida a los periodistas preconvocados, en medio del Patio de los Naranjos. El alto oficial afirma que se trataría del arma suicida utilizada por Salvador Allende.

Se produce entonces el siguiente diálogo, registrado nítidamente en la grabación de Canal 13:

General Palacios: “Esta subametralladora aparece regalada por Fidel Castro directamente al Presidente… Ignoro cuándo… Con la que, al parecer, se suicidó… Dice textualmente… Perdón (aclara la voz)… “A Salvador, de su compañero de armas, Fidel Castro”.

Pregunta en off de un periodista: -¿En qué lugar exacto apareció?

General Palacios: “En manos del señor Allende, en los momentos en que entramos a su oficina, cuando ya estaba muerto”.

MADERA Y CORREA BLANCA

Aparte de las dudas sobre la forma misma en que murió el Presidente Allende en La Moneda (¿asesinato o suicidio?), que duraron más de una década entre la opinión pública, y las que aún subsisten hasta ahora, nadie ha osado probar -salvo el autor de esta crónica, en La Nación Domingo, 10 septiembre 2006- que el AK utilizado por el líder de la Unidad Popular en el combate de La Moneda, era distinta a la que le había regalado en 1971, durante su visita a Chile, el comandante Fidel Castro Ruz. Incluso, éste todavía sostiene la primitiva versión, por evidentes razones políticas (ver más adelante).

Pero sucede que la auténtica arma obsequiada por Castro (según los testimonios recogidos por este autor de boca de los íntimos de Allende, Víctor Pey y Joan Garcés), estaba montada sobre una estructura y culata de fina madera, como corresponde a un obsequio entre jefes de Estado. Tenía una correa portafusil blanca, y estaba expuesta como un trofeo, permanentemente, en una pared del living de la mansión que Allende compartía con la Payita en El Cañaveral. La dedicatoria de Fidel no estaba estampada ni en la culata ni en la empuñadura -dijeron ambos, en nuestras conversaciones del 2003 y el 2006-, pero sí la habían leído, no recordaban en qué parte del arma.

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Primer plano de la verdadera dedicatoria de Fidel Castro estampada en la correa portafusil, exhibida en la Escuela Militar.

Sólo a mediados de 2007 descubriríamos que la dedicatoria de Fidel Castro estaba manuscrita con un plumón de punta fina (!) sobre la correa del AK-47. Pero tanto Víctor Pey como Joan Garcés fueron enfáticos en señalar entonces que “sólo esa” era la mítica metralleta donada en forma personal a Salvador Allende, y ninguna otra, y que “esa misma” permaneció como pieza de exhibición, adosada al muro, durante todo el 11-S-73. Desapareció luego del golpe militar, confiscada por las FFAA, al igual que la “otra”, usada presumiblemente por el Presidente Allende en La Moneda, en defensa de su mandato, el 11-S-73. (Los asaltantes eficientes no dejan evidencias).

PINOCHET Y LOS ALEMANES

Una prueba irredargüible llegó a mis manos en mayo pasado, cuando el escritor Eduardo Labarca, actualmente funcionario de las Naciones Unidas destacado en Viena, me remitió un singular hallazgo: la edición militar para uso interno, del libro “El Día Decisivo: 11 de Septiembre de 1973″ de Augusto Pinochet Ugarte -cito textualmente-, Capitán General, Comandante en Jefe del Ejército, Presidente de la República, Edición del Estado Mayor del Ejército, Departamento de Relaciones Internas, Memorial del Ejército de Chile, Biblioteca del Oficial, Volumen LXVII, 1982.

Y, ¡oh, sorpresa!, a todo lo alto de la página 142 figura el “Fusil Ruso AK del Ex-Pdte. S. Allende G.”, de culata de madera, correa blanca dispuesta en exhibición, donde con lupa y mucha paciencia se pueden ver algunos trazos manuscritos: la verdadera dedicatoria de Fidel Castro.

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La verdadera metralleta regalada por Fidel Castro a Allende, que figura en el libro de Pinochet .

Más aún, la misma foto, que corresponde a una exhibición en la Escuela Militar posterior al golpe de 1973 de armamento supuestamente confiscado a los allendistas en Tomás Moro y El Cañaveral, puede encontrarla cualquiera en la edición comercial del mismo libro, también de 1982, editorial Andrés Bello. El autor de esta crónica adquirió un ejemplar en una feria de libros usados de Valparaíso por dos lucas. ¡Cómo se nos puede haber escapado por tantos años un desmentido tan abrumador al “cuento” del general Javier Palacios, hecho polvo por su propio comandante en jefe, en años en que nos preocupaban otras cosas!

Para los que aún conserven dudas sobre cuál era la verdadera metralleta obsequiada por Fidel Castro a Salvador Allende, hay una segunda prueba que pesa una tonelada. La filmación en los jardines de la Escuela Militar de los cineastas alemanes de la RDA (que se hicieron pasar por occidentales), Peter Hellmich y Manfred Berger, del mismo “arsenal” confiscado por los golpistas en El Cañaveral y Tomás Moro estampado en la foto de Pinochet.

En su documental “Más fuerte que el fuego”, que dura 76,17 minutos, editado en 1978 y actualmente exhibido en Internet, se ve exactamente la misma metralleta “blanca” difundida mundialmente por el Estado Mayor del Ejército de Chile en el libro citado, pero en movimiento. Exhibida a la prensa internacional por un soldado en tenida de combate, primero en toda su extensión, con la culata de madera y la correa alba, y luego un primer plano del portafusil, en que incluso se puede hasta distinguir (con alguna dificultad) la palabra “Allende” -ignorada en la plaquita del general Palacios- y la firma (rúbrica) del propio Fidel Castro, no su nombre, integrando su dedicatoria manuscrita.

Interesados pueden obtener gratuitamente una copia del documental alemán, solicitándola por email a: comunicación@arcoiris.tv, o ver en directo la versión completa de la película, de 1 hora 16 minutos, en el siguiente link:

http://es.arcoiris.tv/modules.php?name=Unique&id=1159

LA VERSIÓN DE FIDEL CASTRO

Quizás las pruebas que se aportan en este reportaje tarden en ser aceptadas en Cuba, donde el Presidente Fidel Castro se vanaglorió desde el primer momento, tras el golpe militar en Chile, de que el AK-47 utilizado por Salvador Allende en la defensa de La Moneda era el mismo que él le había regalado. Es lo que repiten millones de personas en el mundo, hasta el día de hoy, incluso los niños pequeños en Cuba. Castro tenía sus razones para hacerlo, aunque objetivamente cohonestó la historia urdida sobre la falsa metralleta puesta en La Moneda por los astutos hombres del Servicio de Inteligencia Militar golpista. La tesis sobre un supuesto complot al respecto la formula Robinson Rojas, periodista chileno residente en Londres, en su polémico libro “Estos mataron a Allende”, que se puede encontrar en su sitio de Internet www.rrojasdatabank.org, en inglés y en español.

En el homenaje póstumo a su amigo Salvador Allende, efectuado en la Plaza de la Revolución José Martí de la capital cubana, el 28 de septiembre de 1973, ante un millón de personas y junto a Tati Allende, la hija mayor del Presidente chileno, Fidel Castro aprovechó para “pasar su aviso”, sobre el arma de la discordia. Dijo en su discurso fúnebre, que escasamente se conoce en Chile: “Incluso los fascistas han sacado a relucir el fusil con que combatió Allende, el fusil automático que nosotros le obsequiamos, tratando de hacer propaganda burda y ridícula con eso. ¡Pero los hechos han demostrado que ningún obsequio mejor al Presidente Allende que ese fusil automático para defender al gobierno de la Unidad Popular! “Fue mucha la razón y la premonición que tuvimos al obsequiarle ese fusil al Presidente. ¡Nunca un fusil fue empuñado por manos tan heroicas de un Presidente constitucional y legítimo de su pueblo! ¡Nunca un fusil defendió mejor la causa de los humildes, la causa de los trabajadores y los campesinos chilenos! Y si cada trabajador y cada campesino hubiesen tenido un fusil como ese en sus manos, no habría habido golpe fascista en Chile”.

¿ERAN 3.000?

Desde otro plano, nunca se sabrá cuántas metralletas rusas AK-47 llegaron desde Cuba al territorio nacional durante los años de la Unidad Popular, pero evidentemente la dedicada a Salvador Allende por Fidel Castro era la punta de un iceberg de grandes dimensiones. Todos los miembros del GAP, el grupo de protección y seguridad del Presidente, para empezar, tenían una cada uno, donadas por el gobierno de La Habana “para defensa personal”, como lo ha reconocido hace pocas semanas el líder socialista de la época Carlos Altamirano, en entrevista a “La Tercera”.

El escritor disidente cubano Norberto Fuentes, residente en EEUU, publica en su blog que a Chile se trajo numeroso armamento mediante cargamentos “hormiga”, que viajaban ocultos dentro de la valija diplomática, hasta sumar unos 3.000 (!) fusiles ametralladoras AK-47. Dentro de ese cuadro, el hecho de que Allende pudiera tener dos o más metralletas de origen cubano a su disposición parecería no tener mayor importancia. Pero que se haya engañado con una de ellas a todo el mundo, por más de treinta años, es un hecho de la mayor gravedad.

Incluso la revista “El Periodista” publicó en 2003 el testimonio de un conscripto del Regimiento Tacna, que penetró hasta el mismo Salón Independencia, donde yacía el Presidente de la República muerto, y recogió con sus manos una ametralladora alemana Rheinmetall, que estaba apoyada en un muro, a poca distancia del cuerpo sin vida del líder de la Unidad Popular.

Será el objeto de nuevas investigaciones, después de ésta, determinar hasta qué punto se realizó un montaje post mortem en relación al arma mortal que terminó con los días de Salvador Allende Gossens. LN

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Croquis oficial que incluye metralleta metálica muy diferente a la de Fidel.

DEDICATORIA