04/03/2008 - 09:28h In memoriam do grande “Pippo” Di Stefano

Giuseppe di Stefano “Tu che m’ahi preso il cuor”, de Il paese del sorriso, Lehar

Morre na Itália o tenor Giuseppe Di Stefano, parceiro de Callas

Cantor, que estava em coma desde 2004 em um hospital de Milão, deixa lista de gravações históricas com a soprano

João Luiz Sampaio - O Estado de São Paulo

Nem sempre é possível fazer julgamentos assim, mas neste caso não se corre risco algum em afirmar que Giuseppe Di Stefano foi uma das mais belas vozes do século 20. O tenor italiano foi o grande parceiro da soprano Maria Callas - e ajudou a fazer da série de gravações que deixaram juntos documentos históricos. Estava aposentado desde o final dos anos 70 e morava no Quênia onde, em 2004, foi agredido durante um assalto. Desde então, encontrava-se em coma em um hospital de Milão, onde morreu ontem, aos 87 anos.

Di Stefano absorveu o que de melhor havia na escola italiana de canto e inspirou uma série de artistas das gerações seguintes, entre eles o tenor Luciano Pavarotti. Sua dicção, o timbre muito especial, a paixão latente nas suas interpretações, a passagem delicada para pianíssimos - são todos elementos que explicam o sucesso de sua carreira. Nascido na Sicília, ele havia decidido entrar para o seminário. Mas o canto falou mais forte e, aos 25 anos, fez sua estréia como De Grieux, na Manon, de Massenet, em Reggio Emilia, mesmo papel que o levou à sua estréia triunfal no Scala de Milão anos depois.

Os anos 50 foram os melhores de sua carreira. Em especial pela colaboração com Maria Callas. Para a EMI Classics, eles fizeram uma série de gravações hoje tidas como históricas - Lucia, I Puritani, Cavalleria & Pagliacci, Trovatore, La Bohème, Manon Lescaut. Em sua autobiografia, o barítono Tito Gobbi fala com carinho dos anos de colaboração com a dupla - Callas, diz, tinha um temperamento difícil, não era fácil conviver com ela, mas, entre os três, havia um companheirismo especial. Com certeza - basta ouvir o trio nas gravações da Lucia (a primeira colaboração dos três), de Rigoletto, Un Ballo in Maschera e, o melhor ficou para o fim, Tosca. De novo, pode-se afirmar com todas as letras que, desde então, não houve gravação mais genial da ópera de Puccini.

Após se aposentar, Di Stefano voltou aos palcos uma outra vez apenas, nos anos 70, para acompanhar Callas em sua melancólica turnê de despedida. Radicou-se mais tarde no Quênia com sua mulher. Em comunicado oficial divulgado ontem pela manhã, a Ópera Estatal de Viena relembrou sua estréia no teatro como Des Grieux e afirmou que uma homenagem ao tenor será feita ao longo desta semana, sempre antes das apresentações programadas.