29/03/2009 - 15:51h Estudo sugere forma de controlar aversão à perda

Tendência de humano a ser mau perdedor é inata, mas pode ser mudada, diz grupo

Experimento conduzido por grupo da Universidade de Nova York reproduz reação de operadores da Bolsa para mudar percepção

RICARDO BONALUME NETO – FOLHA SP

DA REPORTAGEM LOCAL

O ser humano é um mau perdedor nato, que tende a dar mais peso a uma derrota do que a uma vitória. Mas uma pesquisa combinando psicologia com economia comportamental mostrou que é possível regular essa “aversão à perda”. O truque é tentar agir como se você fosse um operador da Bolsa ou um jogador profissional.

O conceito de “aversão à perda” foi proposto em 1979 pelos psicólogos Amos Tversky e Daniel Kahneman. Trata-se da preferência das pessoas a evitar perdas do que obter ganhos. O israelense Kahneman ganhou o Nobel de Economia de 2002 pelos seus trabalhos na área.

A aversão à perda é uma questão de percepção. Por exemplo, uma decisão poderá levar à perda de R$ 300,00. Há duas escolhas de investimento para diminuir o prejuízo. No primeiro caso, você perde R$ 150,00; no segundo, você não perde nada com 1/3 de probabilidade ou perde tudo com 2/3 de probabilidade. A maioria das pessoas escolhe a segunda opção, pois a certeza de perder R$ 150,00 é considerada pior do que a chance provável de perder todo o dinheiro.

“Nós podemos mudar a maneira como decidimos, e embora ainda possamos ser sensíveis a perdas, nós podemos nos tornar menos sensíveis”, concluíram os autores do novo estudo, liderado pela psicóloga Elizabeth A. Phelps, da Universidade de Nova York, e publicado na revista “PNAS”.
Phelps e colegas lembram que a emoção desempenha um papel no processo de tomada de decisões. Por exemplo, um estudo sobe consumo de bebidas mostrou que a apresentação subliminar de carinhas sorridentes alterou a avaliação das pessoas sobre as bebidas, mas também a quantidade que elas ingeriam e mesmo o total de dinheiro que elas estavam dispostas a pagar pelo drinque.

O grupo de Phelps usou voluntários num experimento no qual os participantes tinham que fazer escolhas monetárias entre uma aposta binária -com chance de ganho ou perda- e um valor garantido. Eles recebiam no começo US$ 30,00 e tinham que tomar decisões de investimento que poderiam ou fazê-los perder todo o dinheiro, ou chegar a ganhar até US$ 572,00. Em parte dos experimentos eles tiveram a condutividade elétrica da pele medida, indicando atividade do sistema nervoso como prova de excitação emotiva.

Os voluntários foram instruídos a usar duas estratégias. Eles deviam enfatizar cada escolha “como se fosse a única”; e depois foram instruídos a usar uma estratégia de regulação, enfatizando as escolhas como parte de um contexto maior.

No primeiro caso, entre 30 participantes, 14 demonstraram aversão à perda, 9 procuravam ganhos, e 7 tiveram um comportamento neutro. A condutividade da pele era maior no caso das perdas.

Mas, ao começarem a agir como investidores reais, colocando as perdas em um contexto de um portfólio de investimentos, a aversão à perda diminuiu em 26 dos 30 participantes.

A “aversão a perdas” não seria um mero fenômeno cultural, mas teria uma base neurobiológica. Um estudo em 2005 demonstrou que não só os macacos-prego entendiam o conceito de comércio como demonstravam a aversão.

“Nós demonstramos que a teoria-padrão dos preços faz um bom trabalho em descrever o comportamento de compra dos macacos-prego”, escreveram então os pesquisadores liderados por M. Keith Chen, da Universidade Yale. Mas os macacos foram ainda mais “humanos” quando tinham de enfrentar uma situação de aposta. Reagiram demonstrando aversão a perder. “Esses resultados sugerem que a aversão à perda se estende além do ser humano e pode ser inata”, dizem eles.

24/02/2009 - 13:16h Aquecimento já causa dano

MENOS É MAIS

AQUECIMENTO MENOR JÁ CAUSA DANO, DIZ ESTUDO
A Terra não precisará esquentar tanto quanto se imaginava para que algumas das piores consequências do aquecimento global se façam sentir. O alerta é de um estudo publicado hoje no periódico “PNAS”. Segundo os seus autores, coordenados por Joel Smith, da Stratus Consulting, “aumentos no risco de secas, ondas de calor e enchentes são projetados para várias regiões (…) riscos de enchentes começam com menos de 1 C de aquecimento acima dos níveis de 1990″. As temperaturas globais hoje já estão 0,76 C acima das da era pré-industrial e podem chegar aos 3 C ou mais até o fim do século. (DA REUTERS)

15/04/2008 - 12:19h Crise nas bolsas: falta ou sobra testosterona?

Hormônios influenciam ganho na bolsa de valores

Estudo com operadores de Londres relaciona alto nível de testosterona a lucro

Cortisol, hormônio ligado ao controle do estresse, subiu com a variação do resultado do operador e em resposta à volatilidade do mercado

RICARDO BONALUME NETO

DA REPORTAGEM LOCAL – FOLHA DE S.P.

26stox600.jpg

Hormônios não afetam apenas humores; aumentam a chance de fazer fortuna ou cometer bobagens em uma bolsa de valores. Uma pesquisa mostrou que operadores do mercado financeiro que começam a trabalhar com altos níveis de testosterona no sangue tiveram lucros acima da média.

A pesquisa, feita com operadores em Londres, mostrou ainda que o hormônio cortisol, ligado ao controle do estresse, aumenta de acordo tanto com a variação dos resultados do operador quanto em resposta à volatilidade do mercado.”Eu costumava trabalhar em Wall Street e observava alguns operadores tomarem atitudes não-racionais, e a pesquisa foi uma tentativa de explicar isso”, disse à Folha por telefone o líder do estudo, John Coates, professor do Departamento de Fisiologia, Desenvolvimento e Neurociência da Universidade de Cambridge, Reino Unido, e também da sua escola de administração de empresas.

Coates e o colega Joe Herbert, do departamento de fisiologia da mesma universidade, fizeram medidas de hormônios no local de trabalho de 17 operadores -homens de 18 a 38 anos com rendas anuais que variavam de 12 mil a mais de 5 milhões de libras.

As medidas eram feitas a partir de amostras de saliva às 11h e às 16h. Nenhum dos operadores tomou medicação ou comeu algo que pudesse interferir no sistema endócrino, nem recebeu notícia de caráter pessoal que pudesse afetar o humor (e os hormônios).

A testosterona é produzida em parte nos testículos, em parte no córtex adrenal (a região mais externa das glândulas supra-renais). Ela medeia o comportamento sexual e comportamentos competitivos.”O papel da testosterona já foi notado antes em atletas”, diz Coates. Ela aumenta em esportistas se preparando para uma competição, ainda mais se eles ganham, além de diminuir nos que perdem. O efeito aumenta a confiança e a propensão a correr riscos e eleva as chances de ganhar de novo.”

Como a testosterona provou estar associada a ganhar e perder, e o cortisol tem um papel na resposta ao estresse e à incerteza, desenvolvemos a hipótese de que esses esteróides responderiam à tomada de risco financeiro”, escreveram os dois autores em artigo na edição de hoje da revista “PNAS” (www.pnas.org), da Academia de Ciências dos EUA.

Eles previram que a testosterona aumentaria em dias lucrativos e o cortisol aumentaria pelo estresse das perdas acima da média. Os resultados confirmaram a primeira previsão, mas sugerem que o cortisol está mais vinculado à incerteza do que à perda de dinheiro.

Eles alertam, porém, que testosterona em excesso pode ser algo negativo: o operador fica muito ousado e assume riscos perigosos. Segundo Herbert, isso pode influenciar outras pessoas que trabalham sobre grande pressão e têm de tomar decisões rápidas -como controladores de tráfego aéreo-, podendo alterar seu desempenho.

02/04/2008 - 05:17h Conflito sexual explica menopausa

Para britânicos, interrupção da fertilidade evoluiu em humanos para reduzir competição entre fêmeas

Dupla de biólogos agora vai usar dados de estudo para pesquisar genes ligados à menopausa precoce e outras falhas de fertilidade

Reuters – 7.out.2005
 

Shirley MacLaine (dir.), que interpreta a avó de Cameron Diaz (esq.) no filme “Em Seu Lugar’

RICARDO BONALUME NETO
DA REPORTAGEM LOCAL  – Folha de São Paulo

Dois pesquisadores no Reino Unido propuseram uma nova hipótese para explicar um dos maiores mistérios da vida sexual do ser humano: por que as mulheres entram em menopausa e perdem sua capacidade reprodutiva? A resposta estaria no “conflito reprodutivo” entre fêmeas de idades diferentes.
Faz meio século que o biólogo George C. Williams propôs a “hipótese da avó” para explicar a sobrevivência das mulheres além da sua idade reprodutiva -algo que não acontece entre outros animais vertebrados de vida longa (há baleias que continuam férteis aos 90 anos).
Apesar de não terem mais filhos, as avós ajudariam suas filhas a sobreviver e a se reproduzir, melhorando assim a sua própria aptidão em deixar descendentes -pré-requisito da evolução darwinista.
“Mas, se as hipóteses atuais podem explicar a sobrevivência continuada de fêmeas pós-reprodutivas, elas têm dificuldade em explicar porque elas pararam de se reproduzir em primeiro lugar”, escreveram os biólogos Michael Cant, da Universidade de Exeter, e Rufus Johnstone, da Universidade de Cambridge, na revista científica “PNAS”, publicada pela Academia de Ciências dos EUA.
Os dados disponíveis mostram que a vantagem para as avós nem é tão grande assim, comparada com a possibilidade de continuar tendo filhos.
Os dois pesquisadores foram então analisar se haveria potenciais custos sociais em caso da reprodução continuada.
“Nós colocamos o foco no conflito entre fêmeas porque ele é onipresente em outros vertebrados que cooperam na reprodução, mas tem sido ignorado na teoria da evolução da história da vida humana até agora”, disse Cant à Folha.
Para Cant e seu colega, a menopausa é uma adaptação que minimiza a competição reprodutiva entre as gerações de fêmeas de uma mesma família.
Mesmo em tribos de caçadores-coletores sem acesso à moderna medicina, as mulheres param de se reproduzir em torno da meia idade -apesar de poderem viver além dos 60 anos. Em média, nessas sociedades, o primeiro filho vem aos 19 anos de idade e o último aos 38 -ou seja, a avó pára de se reproduzir na época em que sua filha lhe dá o primeiro neto.
Segundo os pesquisadores, o ser humano mostra um índice “extraordinariamente baixo” de coincidência entre as fases reprodutivas das gerações, ao contrário do que acontece com os primatas próximos, como chimpanzés e orangotangos.
Cant e Johnstone ressaltam que a hipótese do “conflito reprodutivo” não veio substituir, mas sim complementar, a “hipótese da avó”.
A “competição reprodutiva” em outras espécies favorece as fêmeas mais velhas, dominantes, que retêm status reprodutivo e procuram suprimir a reprodução das mais novas. No homem o padrão foi revertido.

Genes da fertilidade
Isso também ajuda a explicar porque na escolha do parceiro é comum ver homens mais velhos com mulheres mais novas. “Eu acho que é mais fácil entender a preferência dos machos por fêmeas mais novas como uma conseqüência da menopausa, em vez de ser a sua causa”, declara Cant.
Como os machos permanecem férteis após 50 anos mas as fêmeas não, “isso leva a uma intensa competição pelas fêmeas, e nessa competição o sucesso do macho é muitas vezes dependente de recursos -isto é, riqueza-, que geralmente é acumulada por machos mais velhos”, diz o pesquisador.
Agora, a dupla começa a usar seu modelo para pesquisar quais genes afetariam o precoce término da fertilidade e por isso tenderiam a se acumular no genoma. “Isso poderá no futuro ajudar a dar pista sobre as bases genéticas da falha prematura ovariana e outras doenças da baixa fertilidade”, diz Cant.