22/11/2009 - 18:26h Na praia

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Tradução
Salvador Pane Baruja
- Luis Favre

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Tradução
Salvador Pane Baruja

*
adoro sentir calor
no inverno
fome na ceia
água na toalha
gelo no café
adoro sentir
que tudo é possível
na medida
do improvável.
onde
quero uma casa em Belo Horizonte,
c/ vista para Sabará,
1 corredor que dê em São Paulo
e porta dos fundos
para o mar.

caldo de mandioca
beba, coma, morda
a sopa no seu prato.
vou abrir pra você
a sardinha na lata.
”quero caldo de bar”
eu disse
”quero você”.
me beija que não amolo
nem a faca, nem a palavra.
branco no branco,
língua lambendo língua.
a narina no seu rosto,
superfície suave e áspera.
seus pêlos calados…
um, dois, 3, quatro,
cinco.
sua pele faz sentido(s)
quando me toca.
me cala a boba
e fabrique uma casa amarela
debaixo de nossas solas.
pro seu baile à fantasia
subo escadas pra cuspir do alto
do mais alto que puder
e não sou homem,
e não masco tabaco
escavo a descida escarrando alturas
até doer
até ser delícia
amarro meu pé em minhas meias
passo boca no meu batom
pra cair na sua piscina
de terra seca e azul
Detrás do traço
Quando começam, estou perdida. Quando acabam, já se perderam. Talvez seja o tempo ou as idéias. Ou a respeito dos dois, numa dimensão qualquer. Talvez seja sobre nada e eu não saiba o que digo. Corro o risco e assumo o fardo — ainda que fadado. O novo já envelheceu. Eu também. E é incrível quanta coisa cabe em um parágrafo. E como aspas podem ser tão mal fechadas. E como poesia pode virar prosa. E quanta coisa se perde entre o ponto e o traço. Inclusive o tempo. Até a graça. Voam aviões, traçam em vão. Que me diz dos riscos no céu? Digo que as coisas e eu somos um. E os riscos também. Nunca e a todo tempo. Agora já não sei onde foram parar. No fim? Ou no tempo. Quem sabe no ponto — frágil, único e mal traçado.
Paulo e o lago
À esquerda de Hilda, havia a água. Seus pés já tinham se libertado das sandálias e arriscavam mergulhos. O vento batia em seu vestido largo e a empurrava pra frente e pra trás, como se ela fosse um barco. Já à sua direita, havia gente, muita gente – rostos que tentava guardar, mas que escapavam tão rápidos quanto vinham. Dentre eles, apenas um era fixo: o de Paulo. Fixo até demais. Não sorria, não falava e, principalmente, não tirava os olhos de H.. Tanto que, diante dum pequeno tremor de queixo:
— Vamos sair daqui, essa água gelada…
— Quero ficar mais — respondeu, sublinhando o ponto final:
P. compreendeu que não deveria insistir, que não devia fazer nada além de olhar. Porém, se quando se equilibrava numa perna só, segurava o corpo inteiro fixando a vista num ponto, sabia que mirar H. era muito mais que um gesto à distância.
Sentindo a nuca arrepiada, H. se voltou para P. e se espantou com o despudor com que era observada. Conferiu, aliviada, que ao redor ninguém mais dava atenção à cena. Pouco depois, se achou uma boba. Não fazia nada de errado e não devia se importar com o que pensavam os rostos voláteis. Abaixando a cabeça, se viu refletida e envergonhada naquela poça enorme. Afinal, o lago não passava disso, como ela não passava de uma menina grande. Tinha a impressão de que, se o vento viesse mais forte, todo o seu disfarce de moça voaria. Pelos ares iria a postura, o vestido, as sandálias. Restaria, então, apenas ela e aquilo de que mais gostava.
neste lago, H.
hoje em dia não existe mais isso de lugar longe, H. e não sei porque sinto sua falta. você deveria estar sempre perto de mim, sua mão sempre ao meu alcance. mas é possível a distância, desde que se queira — e eu quis, jurando que a vontade não era minha. logo eu, que há poucos dias fui tão alegre e genuinamente feliz; logo eu, que aprendi que te olhar (como eu te olho) não é um gesto sem efeito. verdade que nosso afastamento é produto do meu desejo teimoso e da sua sonsice, des’seu jeito de barco de sem leme, e nada mais. e essa é toda a verdade que tenho debaixo das mangas, faltando apenas o que nenhum de nós pode esquecer: quero estar sempre ao seu lado.
A aranha
, de 78 patas, arranha 1900 vezes a minha jarra. Com suas agulhas, risca também o disco de vinil. Sombras tristes dançam sob o lustre de duas décadas. Tudo é esquecimento. Vestidos azuis tornaram-se peça de luto; peles douradas, grafite; olhos de ciúme, negros. O batom vermelho-vivo que borrava a boca de Roberta também não escapou — não passa agora de tinta escura.
Só das teias eu me lembro, sem perder detalhe, pois são as mesmas e sempre vão ser. Então perguntei à aranha: era isso que pretendia me mostrar? que vocês resistem? Não tive resposta. Claro, era uma aranha. Que podia fazer? Transformar-se em moça e me beijar pra dizer que sim? Bebi o último gole e brindei de taça vazia. Quis esmagar o bicho, mas correu às minhas mãos e me olhou com cara dócil: me diz o que faço, por onde começo. Devia ser digitadora. Tem muitas mãos e é capaz de ouvir indefinidamente sem entender. Estou brincando, sei que me compreende, só é tímida. Já é hora de ir. Grato pela companhia.
Não há de quê — respondeu-me, para meu espanto; mas a voz era de Roberta, que ouvia a conversa como se fosse com ela. De sobressalto, pediu que esperasse um segundo — o que já estava fazendo só de susto. Correu, pegou minha mão e disse: começa assim. E, antes que me desse conta, Roberta me dizia, 1987 vezes, que sim.
Arranha-céu
Quando estou brava, pinto minhas unhas de vermelho. Hoje não é o caso: estou à francesa, indisposta para despedidas. Infelizmente, lá vem a caçamba e tenho de dizer adeus à cidade miúda onde moro: mil ruas se desdobram nos cômodos de meu apartamento e cada porta é uma esquina. Toda manhã, no trânsito voraz da copa, minhas cadeiras colidem com a mesa. Em protesto, os sapatos organizam-se em passeata. Desesperado, o chuveiro chora sem cessar. Já a cama faz o que sempre fez: dorme com qualquer um, a qualquer hora. E eu, pelo espelho de meu esmalte, observo-os todos.
Quando escutei os pés do senhorio, no corredor do 20º andar, a chave já estava com os dentes cravados em minha mão. Sem nada a dizer, a entreguei. O homem também não mexeu os lábios. Em silêncio, desci as muitas escadas, fui até a porta giratória e a empurrei. Finalmente, dei de cara com a grande cidade, que há muito eu evitava encontrar. Pelas unhas, vi carros e meretrizes se juntarem a mim. Depois, homens de barba, velhos descalços, crianças de mochila, uma pessoa e mais outra e mais outra e mais outra. E o mundo, a partir de então imenso, não coube mais na ponta dos meus dedos.
Meu prato cheio
O que me atormenta é o não dito. Torturo o meu eu para depois escrever em primeira pessoa. A fuga é o mergulho. A água é azul, mas só enxergo o cinza. Não adianta praguejar contra as memórias em preto e branco. Não vejo cores agora. Maldito Almodóvar. Maldita atenção que presto, imprestável. Uma formiga cinza parece feliz com o suco cinza derramado. Uma formiga aparece morta. Ainda cinza. Inveja abastada. Persistência da daltonia psicológica, contudo. Com tudo pronto. Nem todos os feitos. Fiz o dito, mas não disse o ditado. Mas que importa tudo, todos, eu? Que importa a formiga, o cinza, o Almodóvar? Benditos sejam. Mas que sejam ditos.
(imagem ©tomooka)
Valquíria Rabelo (Belo Horizonte/MG). Editora do Jornal A Parada, ao lado de Daniel Bilac. Tem poemas publicados no jornal Dezfaces, na Revista Ato e no folheto Barkaça. Estuda Comunicação na UFMG e Design Gráfico na UEMG. Edita o blogue Formalguma. Fonte germina


DELICATESSEN
preciso de um doce
que me dê prazer
e me preencha a boca
com furtivas de anis
prefiro saborear
provar sal nas costas
derreter chocolate na tarde
pra esquecer do frio da vida
dá-me muitos e faz-me pouca
a avalanche de abraços apertados,
cura-me esses choros suspirados
de quem ama e nunca diz.
ENCONTRO DE POESIA
ele era poeta
escrevia como se pudesse tê-la
sentindo a vontade no seu olho ao lê-lo
como se ela ousasse ser a única.
ela era poeta
escrevia arrebatada, incompleta
e lia, e mais avidamente o lia
como se ainda pudesse
despir a vida
entender o silêncio
pesar sussurro.
TANGO
ainda guarda distâncias
a boca ainda se reserva
como se houvesse algo a desvendar
ela é involuntária, hesitante, arisca
a desconfiança a deixa arredia
apesar de tanto carinho
a despeito de tanto cuidado
ela come na mão dele
mas não sem rodeios.
QUASE
o sorriso dela foi largo
cheio de certezas
dessas que voam leves no vento
sentiu o aconchego na distância de seu abraço
a ansiedade apertada de um beijo
sempre soube agradar com poesia
não, não era amor
mas era quase.
CATECISMO
inferno é perder a vida por medo.
o paraíso é presente.
te convido para o fogo.
(imagem @czek)

Paula Cajaty. Carioca, nascida em 1975, iniciou a carreira no Direito, mas encontrou na literatura o caminho para alcançar os próprios sonhos e prazeres. Em 2008, lançou o primeiro livro, Afrodite in verso, que tem como principais componentes a sensualidade, o romantismo e a poesia. O livro ganhou orelha do poeta Fabrício Carpinejar, e elogios de diversos escritores já consagrados por crítica e público. Outras informações em seu site (clique aqui).
Fonte germina literatura
A página a seguir pode apresentar conteúdo erótico impróprio para menores de 18 anos e outras determinadas audiências.
Caso você seja maior de idade, prossiga. Se for pudibundo, melhor não…
Le meilleur moment
C’est quand elle monte l’escalier
Qu’on devine ce qui va bientôt se passer
C’est à ce moment-là
Quand je la voyais majestueuse
Comme une arche
Que j’ai trouvé le moyen de louper une marche
JEAN-LUC FORNELLI
Il y a une expression: “tomber amoureux(se)” que l’on retrouve en Anglais (fall in love) et en Japonais (koi ni ochiru) mais qui n’a rien à voir avec l’idée de chute morale ou spirituelle. A ceux et celles qui se demandent vers où on tombe, et de quelle hauteur, voici une réponse…
Depuis le XVIe siècle le verbe tomber peut signifier “devenir”. Il est utilisé pour indiquer que l’on passe très vite d’un état à un autre. L’image de la chute souligne que l’événement est rapide. Tomber malade. Tomber en disgrâce. Tomber dans l’erreur. Tomber dans l’excès. Tomber dans le désespoir. Tomber en pâmoison. Tomber en enfance… Rien à voir avec la chute des anges maudits, ni avec l’image péjorative d’une déchéance. L’expression “tomber en” ou “tomber dans” montre que l’on entre dans un état d’une manière accélérée. Le verbe “tomber” peut aussi signifier “rencontrer quelqu’un par surprise, rapidement” : “tomber sur quelqu’un”. Le coup de cœur n’est pas loin: quand l’amour s’empare brutalement de vous, c’est comme si la foudre vous tombait dessus. Le comique n’est pas très loin non plus: la chute fait partie des gags les plus faciles du répertoire burlesque.
Brodant sur l’idée du trébuchement, l’artiste Jean-Luc Fornelli s’amuse à dépeindre l’amour comme une succession de faux-pas. Il réalise des collages à partir de photos érotiques des années 20 ou 30, accompagnées de titre loufoques. Son collage intitulé “Accident de tournage sur le film X La Cousine du forgeron” montre un homme et une femme nus qui s’embrassent délicatement… tandis qu’une enclume bascule au-dessus d’eux. Jean-Luc Fornelli accompagne ces images ironiques de petits poèmes (récemment publiés sous le titre Voluptés à la mante) qui parlent des mille et un ratages dont notre vie intime semble être faite. Rappelez-vous la fois où vous avez oublié de tirer la chasse d’eau. Et cette fois où vous avez troublé le silence harmonieux de vos cœurs en laissant échapper une bévue… Tenez, moi, rien qu’hier soir, j’ai envoyé un plug dans l’œil de mon amant. “Regarde, chouchou, tu vois comme mon anus est musclé?“. Contractant le sphincter, j’ai malencontreusement expulsé le plug. Comme une fusée.

Heureusement, alleluia, il y a des gens comme Jean-Luc Fornelli pour vous faire sentir moins seul(e). Les accidents honteux, il en a commis tout plein: “pépins d’amour, couacs du désir, hics de l’éros…”. Bévues, gaffes et prolapsus en tous genres, bienvenue. Jean-Luc Fornelli épingle le vécu amoureux avec un sens de la piqure acéré. Ça sent la vérité. Dans des poèmes courts aux allures de petites pierres philosophales, il montre que les amants n’arrêtent pas de rater leurs coups et de glisser sur des peaux de banane. Et que c’est peut-être ça qui rend l’amour si fort. Parce que, survivre à une honte pareille, si ça ne vous tue pas… ça vous rend plus fort, non, chouchou?
Fonte les 400 culs
Exposition de collages de Jean-Luc Fornelli, du 15 novembre au 24 décembre 2009 à la Galerie Humus : 18 bis rue des terreaux, Lausanne, Suisse. Tél. : 00 41 21 323 2170.
Publication des collages et des poèmes de Jean-Luc Fornelli : Voluptés à la mante, éditions Humus

(tem uma versão com música de Heitor Villa-Lobos e de Francisco Mignone).
A noite caiu na minh’alma
Fiquei triste sem querer
Uma sombra veio vindo
Veio vindo, me abraçou
Era a sombra de meu bem
Que morreu há tanto tempo
Me abraçou com tanto amor
Me apertou com tanto fogo
Me beijou, me consolou
Depois riu devagarinho
Me disse adeus com a cabeça e saiu
Fechou a porta
Ouvi seus passos na escada
Depois mais nada, acabou
(Acabou, acabou)


Eu canto do Soriano o singular mangalho!
Empresa colossal! Ciclópico trabalho!
Para o cantar inteiro e para o cantar bem
precisava viver como Matusalém.
Dez séculos!
Enfim, nesta pobreza métrica
cantemos essa porra, porra quilométrica,
donde pendem colhões que idéia vaga
das nádegas brutais do Arcebispo de Braga.
Sim, cantemos a porra, o caralho iracundo
que, antes de nervo cru, já foi eixo do Mundo!
Mastro de Leviathan! Iminência revel!
Estando murcho foi a Torre de Babel
Caralho singular! É contemplá-lo
É vê-lo teso!
Atravessaria o quê?
O sete estrelo!
Em Tebas, em Paris, em Lagos, em Gomorra
juro que ninguém viu tão formidável porra
É uma porra, arquiporra!
É um caralhão atroz
que se lhe podem dar trinta ou quarenta nós
e, ainda assim, fica o caralho preciso
para foder a Terra, Eva no Paraíso!
É uma porra infinita, é um caralho insone
que nas roscas outrora estrangulou Laoccoonte.
Oh, caralho imortal! Oh glória destes lusos!
Tu podias suprir todos os parafusos
que espremem com vigor os cachos do Alto Douro!
Onde é que há um abismo, onde há um sorvedouro
que assim possa conter esta porra do diabo??!
O Marquês de Valadas em vão mostra o rabo,
em vão mostra o fundo o pavoroso Oceano!
- Nada, nada contém a porra do Soriano!
Quando morrer, Senhor, que extraordinária cova,
que bainha, meu Deus, para esta porra nova,
esta porra infeliz, esta porra precita,
judia errante atrás duma crica infinita?
- Uma fenda do globo, um sorvedouro ignoto
que lhe dá de abrir talvez um dia um terramoto
para que deságüe, esta porra medonha,
em grossos borbotões de clerical langolha!
A porra do Soriano, é um infinito assunto!
Se ela está em Lisboa ou em Coimbra, pergunto?
Onde é que ela começa?
Onde é que ela termina
essa porra, que estando em Braga, está na China,
porra que corre mais que o próprio pensamento
que porra de pardal e porra de jumento?
Porra!
Mil vezes porra!
Porra de bruto
que é capaz de foder o Cosmo num minuto!

Fonte Germina literatura
Un jour je t’avais vue à l’heure du goûter
Embrasser ton amie aussi nue que toi
Et poser sur ses seins tes pointes érigées
Tandis qu’elle frottait sur ta fauve toison
Son pubis épilé Et vous restiez ainsi
Tendrement enlacées vos vêtements épars
Au soleil de la chambre et les rideaux ouverts
Aux cris des hirondelles C’est ma sœur disais-tu
Attends-moi là Je suis à toi dans un instant
Et le jardin touffu était seul à entendrecourbant
De vos souffles mêlés la bienheureuse attente
De vos cris éperdus l’amoureuse cantate
Amar, amar, amar, amar sempre, com todo
O ser e com a terra e com o céu,
Com o claro do sol e o escuro do lodo;
Amar por toda ciência e amar, por todo desejo.
E quando a montanha da vida
Nos seja dura e longa e alta e cheia de abismos,
Amar a imensidade que é de amor acesa
E arder na fusão de nossos peitos mesmos!
(Tradução de Maria Teresa Almeida Pina)
Amo, amas
Amar, amar, amar, amar siempre, con todo
el ser y con la tierra y con el cielo,
con lo claro del sol y lo oscuro del lodo;
amar por toda ciencia y amar por todo anhelo.
Y cuando la montaña de la vida
nos sea dura y larga y alta y llena de abismos,
amar la inmensidad que es de amor encendida
¡y arder en la fusión de nuestros pechos mismos!



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(imagens ©rita monteiro | anouska fisz | le borne)
Cesar Cardoso é escritor, roteirista e fotógrafo. Formado em Letras pela UFRJ, escreve para a TV Globo — atualmente, o seriado Toma lá dá cá — e para a revista Caros Amigos. Participou, dentre outras, da exposição coletiva No Ventre do Azul e Branco — Tempo de Iemanjá, realizada no Centro Cultural Justiça Federal em 2007, com curadoria de Walter Firmo. E também do projeto de vídeo coletivo Oçapse – Oproc – Zul, com curadoria de Marcos Bonisson. Publicou A Serra do Sobe-Sobe, Fim da picada começo de estrada, Manu,Ela (Editorial Nórdica) e O lápis Ladislau (Editora Miguilim), de literatura infantil; A nossa moranguíssima paixão (Editora da UERJ – Universidade Estadual do Rio de Janeiro), de poesia; O pai dos burros (Editora Salamandra) e, com o grupo Obrigado Esparro: Confusões de aborrecente e Garotas são demais, garotos são de menos (Editora Frente); Como educar seus pais e Zoando na América (Editora Objetiva), de humor; Humor na TV, ensaio escrito com Emanuel Jacobina e Mauro Wilson, e publicado desde a quinta edição do livro Da criação ao roteiro, de Doc Comparato, em 2000.
Quase sem querer nascí
Quase sem querer crescí
Quase sem querer
te conheci.
Gostei de tua risada fresca,
criança crescida
e tua maneira de olhar.
Foi dificil respirar,
comecei a tremer
e quase sem querer
te bejei.
Quase sem querer
me rio
Quase sem querer
sinto a tua falta.
Quase sem querer
me apaixonei
Deste urso carinhoso,
criança crescida
que sem querer também
me amou.
E me enche de carícias
sem a obrigação
de prometer-me
eterno amor.
Quase sem querer
se esquece.
Quase sem querer
se perde.
Quase sem querer
se vai o amor.
Por isso te estou querendo
quase sem querer.
Jurar-te eterno amor, não sei.
Talvez
algum dia
nos surpreenda a velhice
muito juntos,
quase sem querer.
(Tradução de Maria Teresa Almeida Pina)
Casi sin querer
Casi sin querer nací
Casi sin querer crecí
Casi sin querer
te conocí.
Me gustó tu risa fresca,
niño grandulón
y tu manera de mirar.
Fue dificil respirar,
empecé a temblar
y casi sin querer
te besé.
Casi sin querer
me rio.
Casi sin querer
te extraño.
Casi sin querer
me enamoré.
De este oso cariñoso,
niño grandulón
que sin querer tambien
me amó.
Y me llena de caricias
sin la obligación
de prometerme
eterno amor.
Casi sin querer
se olvida.
Casi sin querer
se pierde.
Casi sin querer
se va el amor.
Por eso te estoy queriendo
casi sin querer.
Jurarte eterno amor, no sé.
Tal vez
algún día
nos sorprenda la vejez
muy juntos,
casi sin querer.
Entre as tuas pernas
o mar revela-me estranhos recifes
rochas erguidas corais altaneiros
contra a minha gruta de búzios concha nácar
o teu molusco de sal persegue a corrente
a pequena água inventa-me barbatanas
mar da noite com luas submersas
tua ondulação brusca de polvo congestionado
acelera nas minhas guelras um latejar de esponja
e os cavalos minúsculos flutuam entre gemidos
enredados em longos pistilos de medusa.
Amor entre golfinhos
aos altos lança-te sobre o meu flanco leve
recebo-te sem ruído olho-te entre bolhas
cerco o teu riso com a minha boca espuma
ligeireza da água oxigênio de tua vegetação de clorofila
a coroa de lua abre espaço ao oceano.
Dos olhos prateados
flui longo olhar final
e erguemo-nos do corpo aquático
somos carne outra vez
uma mulher e um homem
entre as rochas.
(Tradução de José Agostinho Baptista)
Eros es el água
Entre tus piernas
el mar me muestra extraños arrecifes
rocas erguidas corales altaneros
contra mi gruta de caracolas concha nácar
tu molusco de sal persigue la corriente
el agua corta me inventa aletas
mar de la noche con lunas sumergidas
tu oleaje brusco de pulpo enardecido
acelera mis branquias los latidos de esponja
los caballos minúsculos flotando entre gemidos
enredados en largos pistilos de medusa.
Amor entre delfines
dando saltos te lanzas sobre mi flanco leve
te recibo sin ruido te miro entre burbujas
tu risa cerco con mi boca espuma
ligereza del agua oxigeno de tu vegetación de clorofila
la corona de luna abre espacio al océano
De océano los ojos plateados
fluye larga mirada final
y nos alzamos desde el cuerpo acuático
somos carne otra vez
una mujer y un hombre
entre las rocas.




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(imagens ©Wondrous Vulva Puppet)
Braulio Tavares (1950, Campina Grande, PB). Escritor, compositor. Publicou, entre outros, A espinha dorsal da memória. Contos (Lisboa/Rio de Janeiro: Caminho/Rocco, 1989/1996); Mundo fantasmo. Contos (Rio de Janeiro/Lisboa: Rocco/Caminho, 1996/1997); Como enlouquecer um homem: as mulheres contra-atacam. Humor (Rio de Janeiro/São Paulo: Editora 34/Círculo do Livro, 1994/1997) e A máquina voadora. Romance (Rio de Janeiro/Lisboa: Rocco/Caminho, 1994/1997). Escreve sobre Cultura, todo dia, no Jornal da Paraíba.
Se haviam
encontrado faz pouco
e logo
se haviam separado,
levando
cada um consigo
seu nunca ou seu jamais
sua afirmação de esquecimento
sua golpeadora dor.
Porém o último beijo
que voara de suas bocas,
era um planeta azul.
Girando
em torno a sua ausência
e eles
viviam de sua luz
igual que de sua recordação.
(Tradução de Maria Teresa Almeida Pina)
Los amantes
Se habían
encontrado hace poco.
Y hace pronto
se habían separado,
llevándose
cada uno consigo
su nunca o su jamás
su afirmación de olvido,
su golpeador dolor.
Pero el último beso
que volara de sus bocas,
era un planeta azul.
Girando
en torno a su ausencia.
Y ellos
vivían de su luz
igual que de su recuerdo.


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©antónio sta.clara
the língua
pelo dedo
primeiro
do teu pé,
em curva
senoidal
de sobe e desce,
tocando
um a um
que se umedece,
falanges,
cinco unhas,
vante e ré,
solado,
metatarso,
calcanhar,
telúrico sabor,
salivo o pêlo
do contorno
de todo o
tornozelo
alternando
entre o
beijo e o
respirar…
lambuzo a
panturrilha
ondulada,
e encosto a
pele áspera
do rosto,
misturo
assim o
meu com o
teu gosto,
de boca e
de pele
já suada…
avanço
no joelho,
alcanço a
coxa,
mordidas
de mentira
em toda
parte,
o beijo a
pintar
obra-de-arte:
às vezes
nuvem
rubra,
às vezes
roxa…
(e as mãos e os
pés dos dois
rasgando a
colcha…)
subindo
pelo “S”
do quadril,
no rastro
salivar
chego ao
umbigo,
(de tão
pesados os
olhos,
só lobrigo…)
te ouço
sussurrar
um “não”
sem til…
na reta que
inicia-se
no ventre,
deslizo à
divisa
dos teus
seios,
no ritmo
pendular,
paro no
meio, e o
terno beijo
alterno
calmamente…
em todo o
teu pescoço
faço um giro,
molhando a
superfície
perfumada,
e após uma
descida
demorada,
eu cravo a
jugular,
feito vampiro…
adentro
umedecendo o
teu ouvido,
volteio,
vou e volto,
saio e entro,
penetro,
molho tudo,
fora e dentro,
(teus olhos,
como os meus,
calam franzidos…)
em torno
dos teus olhos
faço um 8
nariz,
maçã do rosto,
tudo beijo,
de tão extasiado,
não mais vejo,
e suga
minha boca
um beijo afoito…
encontram-se,
duelam-se,
se enroscam…
procuram-se,
encontram-se,
se tocam…
descansam,
brigam,
chupam-se,
se trocam…
de súbito
desço ao
vértice do “V”
que formam
tuas coxas
levantadas
e sorvo
e absorvo
em golfadas
o néctar que
me inunda
de você…
Antoniel Campos (1967, Pau dos Ferros, RN). Poeta, engenheiro civil, vive em Natal. Publicou Crepes e cendais (Ed. do autor, 1998), De cada poro um poema (Editora Sebo Vermelho, 2003) e A esfera (Plena Editora, 2005). Escreve o blogue Poros e Cendais. Mais aqui.
Fonte Germina Literatura

A DEUSA
Comeu-o com muito gosto, estalando a língua e gemendo de prazer. Mas não o fez de maneira selvagem. Ao contrário, foi bastante cortês.
Comeu-o aos poucos, com requinte e sabedoria. Dispôs igualmente de todas as partes, sem rejeitar nenhum ossinho, por miúdo que fosse. Aproveitou tudo tudo, inclusive os dedos dos pés.
Sugou primeiro os lábios carnudos, suspirando delicado.
Quando mordiscava o lombo, gemeu alto. Ao chupar a coxa, quase perdeu a compostura.
Perdeu a compostura ao lamber as partes tenras. Sacrificou-o em grande estilo, arrancando-lhe as vísceras sem sombra de culpa ou tardio remorso. Mas o momento de gozo ela viveu ao devorar-lhe a cabeça.
Ele perdeu a pele, as carnes, ficou nu por fora e por dentro. Mas ela não teve dó. Arrebatara seu coração. Enfim.
DUAS MANEIRAS DE SER FELIZ
Esquizofrenizou-se às seis horas da tarde ao som da Ave-Maria, quando uns anjos lhe disseram que largasse tudo e fosse pro convento seduzir a pequena Flor-de-Liz, enquanto outros aconselharam que ela se dirigisse imediatamente ao shopping mais próximo e comprasse lingerie de cor vermelha — aquela com abertura coincidente com as aberturas de nascimento — e subisse lá pros altos da Avenida Afonso Pena que aí sim, ela estaria perto do céu.
Então Marilene deu dois passos pra frente, dois pra trás e ficou paralisada, ouvindo as vozes cada vez mais perto.
Belo Horizonte, 15/08/02
O SALVADOR
Então ele me tocou e eu fiquei curada.
O véu da cegueira se rasgou e eu vi: o tisnado da pele, o veludo dos olhos. A saturação do melado: rapadura batida e rebatida, em calor absoluto. Os lábios exatos — café claro e duas pitadas de chocolate.
Lembro antílopes e tigres e esquilos.
Meu sorriso rompe o gelo, já não dói.
Meus membros vencem a crosta de gesso, já não sou uma estátua.
Abro as vidraças.
Ensaio passos de uma nova dança, ouvindo uma música que nem mesmo sei se existe.
Porque ele me assiste.
Fevereiro, 2003

GOLPE DE NAJA
Eu nem perguntaria o nome dele.
Iria para um canto qualquer, um vão de escada e, na pressa, talvez fizesse em pedaços a camisa azul.
Minhas mãos aflitas procurariam o caminho e abririam o zíper enquanto eu esfregaria minhas tetas no corpo trêmulo e meteria a perna atrevida entre as pernas do homem, revolucionando os quadris.
Era o que eu pensava naquele carnaval, sentada com os outros em torno da imensa távola redonda, enquanto o macho ao lado, um perfeito estranho, corria a mão pela minha coxa e me lambia a cara com sua língua fogosa.
Não quis ver-lhe o rosto, não me virei, nada fiz. Apenas imaginava a cena e seus desdobramentos. O golpe de naja, o salto primitivo.
Então, num sobressalto, acordei.
Fevereiro ou março, 2003
LABORES
Ele, um touro de forte. Ela, mignonne, franzina, uma pluma. Criatura mínima, mas disposta, cheia de calores, um vulcão prestes a expelir salsa-ardente.
E assim foi: ele abre caminho na terra revolta e tenra.
Cavouca fundo, com precisão.
Cavouca calmo, mantendo o ritmo certo.
Vai quebrando resistências em meio aos ais, explora a mina, conquista reentrâncias.
Vai umedecendo o túnel estreito, enquanto o fogaréu pouco a pouco se alastra, do centro para outras glebas.
Eventualmente, ele desbloqueia a saída e respira a paisagem. Com volúpia, saboreia os arredores.
Até plantar a semente em jatos tensos, na justa hora.
O gozo germina e ela nunca mais esquece.
Belo Horizonte, 2003
[Do original "Visões do Paraíso"]
(imagens ©pedro paulo domingues)

Branca Maria de Paula (Aimorés-MG). Escritora, fotógrafa e roteirista. Premiada no 3º Concurso Nacional de Contos Eróticos da Revista Status, em 1978, teve o texto censurado na íntegra. Publicou seu primeiro livro — A Mulher Proibida — em 1980. Depois de várias obras direcionadas ao público infanto-juvenil, em 2005, lança Fundo Infinito — contos eróticos. Participa de diversas antologias. Entre elas, Intimidades (Dez contos eróticos de escritoras portuguesas e brasileiras). Vive em Belo Horizonte, Minas Gerais.


O texto é o mesmo
repetição
um beijo pousa
uma saudade decola
o amor sugere
a incerteza se instala
indiferente
o vento passa
o olhar procura
na fresta da roupa
a pele oculta da mulher.
PONTO DE FUGA
Que indagação faz
o umbigo feminino
quando aparece entre
uma peça e outra
da veste?
Intimidade
sensualidade.
Nem mesmo
a musicalidade dos pêlos
é maior que o apelo
da cicatriz do nascimento.

ENCONTRO
O olho caça
na mata
abaixo do umbigo
um abrigo
secreta pátria
a língua avista
bem no centro
do jardim de pêlos
o lugar
caverna
doce e úmida.
*
Na falta de um cigarro,
O beijo toma conta
dos lábios.
Da boca, renasce o desejo.
Na língua, a umidade
lubrifica o amor.
Começo de tarde, curto,
sem gosto de chocolate,
mas molhado
de chuva e volúpia.
*
Quando o rasgo da roupa
deixa florescer
uma essência oculta
sublime é a pele
que se mostra
gentil é a natureza
com a mulher
que passa
livre e solitária
provocando quem a olha.

O MODELO
Uma discreta marca de sol
repousa na pele clara
da mulher sem roupa
parada no atelier
do pintor que trabalha
fareja a beleza
desenha o que a luz
faz ver e sonhar.
…
Rebelde modelo
possuída pelo calor do sexo
foge e deixa a tela vazia
habitada por fantasmas.
A MULHER
Uma geografia
sempre a ser descoberta
obscura e secreta
como a solidão.
…
Em silêncio
a intimidade feminina
acende o mistério
que faz lembrar
o aroma dos devaneios
que transporta
o fim da tarde.
Almandrade (Antônio Luiz M. Andrade), artista plástico, arquiteto, mestre em desenho urbano e poeta. Participou de várias mostras coletivas, entre elas: XII, XIII e XVI Bienal de São Paulo; “Em Busca da Essência” — mostra especial da XIX Bienal de São Paulo; IV Salão Nacional; Universo do Futebol (MAM/Rio); Feira Nacional (S.Paulo); II Salão Paulista, I Exposição Internacional de Escultura Efêmeras (Fortaleza); I Salão Baiano; II Salão Nacional; Menção honrosa no I Salão Estudantil em 1972. Integrou coletivas de poemas visuais, multimeios e projetos de instalações no Brasil e exterior. Um dos criadores do Grupo de Estudos de Linguagem da Bahia que editou a revista “Semiótica” em 1974. Tem poemas publicados em revistas especializadas. Publicou Poemas (Ed. do autor, 1988), Suor Noturno (Ed. Fator, 1993), Arquitetura de Algodão (Ed. Letras da Bahia, 2000), Textos Sobre Arte (Ed. Museu de Arte Moderna da Bahia, 2000). Mais na Germina, no Expoart e no Prova de Artista.
(imagens ©jerry c.)
Tu me deixas aqui ou partes comigo?
Estou dentro de ti ou é que me chamas?
Vives única em mim ou encontro o mundo em ti,
contigo?
A ordem das coisas em que te amo,
onde começa ou acaba?
Agora está o silêncio aposentado
na rosa do ar
e uma árvore perto trina entre os pássaros
para sombrear teu sonho ou é meu sonho?
É esta uma prisão ou acaso o vasto céu
começa aqui onde teus pés
tocam juntos a terra, ou é a lua?
De pronto entro na luz que já habito
e meus olhos se encontram com tua testa.
Busco sair de ti e te levo dentro
de mim, sem encontrar-te.
Sem como, onde ou quando.
Cego na luz com meu olhar aberto
a tanta multidão de ti que ando
extraviado na noite na metade do dia.
(Tradução de Maria Teresa Almeida Pina)
Poema VI
¿Tú me dejas aquí o partes conmigo?
¿Estoy dentro de ti o es que me llamas?
¿Vives única en mí o encuentro el mundo en ti,
contigo?
El orden de las cosas en que te amo,
¿dónde empieza o acaba?
Ahora está el silencio aposentado
en la rosa del aire
y un árbol cerca trina entre los pájaros
para sombrar tu sueño, ¿ o es mi sueño?
¿Es esta una prisión o acaso el vasto cielo
empieza aquí donde tus pies
tocan juntos la tierra, o es la luna?
De pronto entro en la luz que ya habito
y mis ojos se encuentran con tu frente.
Busco salir de ti y te llevo dentro
de mí, sin encontrarte.
Sin cómo, dónde o cuándo
Ciego en la luz con mi mirada abierta
a tanta multitud de ti que ando
extraviado en la noche en la mitad del día.
Saberás que não te amo e que te amo
posto que de dois modos é a vida,
a palavra é uma asa do silêncio,
o fogo tem uma metade de frio.
Eu te amo para começar a amar-te,
para recomeçar o infinito
e para não deixar de amar-te nunca:
por isso não te amo ainda.
Te amo e não te amo como se tivesse
em minhas mãos as chaves da fortuna
e um incerto destino desafortunado.
Meu amor tem duas vidas para amar-te.
Por isso te amo quando não te amo e por isso te amo quando te amo.
(Tradução de Maria Teresa Almeida Pina)
Soneto XLIV
Sabrás que no te amo y que te amo
puesto que de dos modos es la vida,
la palabra es un ala del silencio,
el fuego tiene una mitad de frío.
Yo te amo para comenzar a amarte,
para recomenzar el infinito
y para no dejar de amarte nunca:
por eso no te amo todavía.
Te amo y no te amo como si tuviera
en mis manos las llaves de la dicha
y un incierto destino desdichado.
Mi amor tiene dos vidas para armarte.
Por eso te amo cuando no te amo
y por eso te amo cuando te amo.
No amor, e no boxe,
tudo é questão de distância.
Se te aproximas demasiado me excito
me assusto.
me ofusco digo bobagens
me ponho a tremer.
Porém se estás longe
sofro entristecido
me desvelo
e escrevo poemas.
(Tradução de Maria Teresa Almeida Pina)
Distancia justa
En el amor, y en el boxeo
todo es cuestión de distancia
Si te acercas demasiado me excito
me asusto
me obnubilo digo tonterías
me echo a temblar
pero si estás lejos
sufro entristezco
me desvelo
y escribo poemas.
Toma-me agora que ainda é cedo
e que levo dálias novas na mão.
Toma-me agora que ainda é sombria
esta taciturna cabeleira minha.
Agora que tenho a carne cheirosa
e os olhos limpos e a pele de rosa.
Agora que calça minha planta ligeira
a sandália viva da primavera.
Agora que em meus lábios repica o sorriso
como um sino sacudido às pressas.
Depois…oh, eu sei
que já nada disto mais tarde terei!
Que então inútil será teu desejo,
como oferenda posta sobre um mausoléu.
Toma-me agora que ainda é cedo
e que tenho rica de nardos a mão!
Hoje, e não mais tarde. Antes que anoiteça
e se torne murcha a corola fresca.
Hoje, e não amanhã. Oh amante! Não vês
que a trepadeira crescerá cipreste?
(Tradução de Maria Teresa Almeida Pina)
La hora
Tómame ahora que aún es temprano
y que llevo dalias nuevas en la mano.
Tómame ahora que aún es sombría
esta taciturna cabellera mía.
Ahora , que tengo la carne olorosa,
y los ojos limpios y la piel de rosa.
Ahora que calza mi planta ligera
la sandalia viva de la primavera
Ahora que en mis labios repica la risa
como una campana sacudida a prisa.
Después… !oh, yo sé
que nada de eso más tarde tendré!
Que entonces inútil será tu deseo
como ofrenda puesta sobre un mausoleo.
¡Tómame ahora que aún es temprano
y que tengo rica de nardos la mano!
Hoy, y no más tarde. Antes que anochezca
y se vuelva mustia la corola fresca.
hoy, y no mañana. Oh amante, ¿no ves
que la enredadera crecerá ciprés?
Quase sem querer nascí
Quase sem querer crescí
Quase sem querer
te conheci.
Gostei de tua risada fresca,
criança crescida
e tua maneira de olhar.
Foi dificil respirar,
comecei a tremer
e quase sem querer
te bejei.
Quase sem querer
me rio
Quase sem querer
sinto a tua falta.
Quase sem querer
me apaixonei
Deste urso carinhoso,
criança crescida
que sem querer também
me amou.
E me enche de carícias
sem a obrigação
de prometer-me
eterno amor.
Quase sem querer
se esquece.
Quase sem querer
se perde.
Quase sem querer
se vai o amor.
Por isso te estou querendo
quase sem querer.
Jurar-te eterno amor, não sei.
Talvez
algum dia
nos surpreenda a velhice
muito juntos,
quase sem querer.
(Tradução de Maria Teresa Almeida Pina)
Casi sin querer
Casi sin querer nací
Casi sin querer crecí
Casi sin querer
te conocí.
Me gustó tu risa fresca,
niño grandulón
y tu manera de mirar.
Fue dificil respirar,
empecé a temblar
y casi sin querer
te besé.
Casi sin querer
me rio.
Casi sin querer
te extraño.
Casi sin querer
me enamoré.
De este oso cariñoso,
niño grandulón
que sin querer tambien
me amó.
Y me llena de caricias
sin la obligación
de prometerme
eterno amor.
Casi sin querer
se olvida.
Casi sin querer
se pierde.
Casi sin querer
se va el amor.
Por eso te estoy queriendo
casi sin querer.
Jurarte eterno amor, no sé.
Tal vez
algún día
nos sorprenda la vejez
muy juntos,
casi sin querer.
Tenho uma solidão
tão concorrida
tão cheia de nostalgias
e de rostos teus
de adeuses faz tempo
e beijos bem vindos
de primeiras de troca
e de último vagão.
Tenho uma solidão
tão concorrida
que posso organizá-la
como uma procissão
por cores
tamanhos
e promessas
por época
por tato e sabor.
Sem um tremer de mais
me abraço a tuas ausências
que assistem e me assistem
com meu rosto de ti.
Estou cheio de sombras
de noites e desejos
de risos e de alguma maldição
Meus hóspedes concorrem
concorrem como sonhos
com seus rancores novos
sua falta de candura
eu lhe ponho uma vassoura
atrás da porta
porque quero estar só
com meu rosto de ti.
Porém o rosto de ti
olha a outra parte
com seus olhos de amor
que já não amam
como vives
que buscam a sua fome
olham e olham
e apagar a jornada.
As paredes se vão
fica a noite
as nostalgias se vão
não fica nada.
Já meu rosto de ti
fecha os olhos.
E é uma solidão
tão desolada.
(Tradução de Maria Teresa Almeida Pina)
Rostro de vos
Tengo una soledad
tan concurrida
tan llena de nostalgias
y de rostros de vos
de adioses hace tiempo
y besos bienvenidos
de primeras de cambio
y de último vagón.
Tengo una soledad
tan concurrida
que puedo organizarla
como una procesión
por colores
tamaños
y promesas
por época
por tacto y por sabor.
Sin un temblor de más,
me abrazo a tus ausencias
que asisten y me asisten
con mi rostro de vos.
Estoy lleno de sombras
de noches y deseos
de risas y de alguna maldición.
Mis huéspedes concurren,
concurren como sueños
con sus rencores nuevos
su falta de candor.
Yo les pongo una escoba
tras la puerta
porque quiero estar solo
con mi rostro de vos.
Pero el rostro de vos
mira a otra parte
con sus ojos de amor
que ya no aman
como víveres
que buscan a su hambre
miran y miran
y apagan la jornada.
Las paredes se van
queda la noche
las nostalgias se van
no queda nada.
Ya mi rostro de vos
cierra los ojos.
Y es una soledad
tan desolada.
O sol nos esqueceu ontem sobre a areia,
nos envolveu o rumor suave do mar,
teu corpo me deu calor,
tinha frio,
e ali na areia,
entre os dois nasceu este poema,
este pobre poema de amor
para ti
Meu fruto, minha flor,
minha história de amor,
minhas carícias
Meu humilde candeeiro,
minha chuva de abril,
minha avareza
Meu pedaço de pão,
meu velho refrão,
meu poeta
A fé que perdi,
meu caminho
e minha carreta
Meu doce prazer,
meu sonho de ontem,
minha bagagem
Meu morno canto,
Minha melhor canção,
minha paisagem
Meu manancial,
meu canavial,
minha riqueza
Minha lenha, minha lareira,
meu teto, meu lar,
minha nobreza
Minha fonte, minha sede,
meu barco, minha rede
e a areia
Onde te senti
onde te escrevi
meu poema
(Tradução de Maria Teresa Almeida Pina)
Poema de amor
El sol nos olvidó ayer sobre la arena,
nos envolvió el rumor suave del mar,
tu cuerpo me dio calor,
tenía frío
y, allí, en la arena, entre los dos nació este poema,
este pobre poema de amor
para ti
Mi fruto, mi flor,
mi historia de amor,
mi caricias.
Mi humilde candil,
mi lluvia de abril,
mi avaricia.
Mi trozo de pan,
mi viejo refrán,
mi poeta.
La fe que perdí,
mi camino
y mi carreta.
Mi dulce placer,
mi sueño de ayer,
mi equipaje.
Mi tibio rincón,
mi mejor canción,
mi paisaje.
Mi manantial,
mi cañaveral,
mi riqueza.
Mi leña, mi hogar,
mi techo, mi lar,
mi nobleza.
Mi fuente, mi sed,
mi barco, mi red
y la arena.
Donde te sentí,
donde te escribí
mi poema…