03/07/2012 - 17:00h Lições de Adonis, canções para a morte

Um dos grandes inovadores da poesia árabe, o sírio de 82 anos é destaque da Flip, festa literária que começa amanhã
03 de julho de 2012

UBIRATAN BRASIL, ENVIADO ESPECIAL / RIO – O Estado de S.Paulo

Vestido com elegância discreta, o poeta sírio Adonis, de 82 anos, chega exibindo um cabelo grisalho ligeiramente desgrenhado, sorriso aberto, voz baixa e tranquila. Mas os olhos parecem sempre estar buscando o seu alvo e, quando começa a falar, o senhor de gestos cavalheiros revela sua força. “Quero sempre questionar, não buscar respostas”, diz ele, um dos principais nomes da Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip, cuja 10ª edição começa amanhã, na cidade fluminense.

Adonis, cujo verdadeiro nome é Ali Ahmad Said Esber, é um dos principais críticos dos atuais acontecimentos políticos que chacoalham diversos países árabes, a começar pelo seu. Inicialmente empolgado com a eclosão da Primavera Árabe no ano passado (chegou a compor pequenos poemas para exprimir sua satisfação), ele logo retomou seu ceticismo. “Quando as revoluções começaram, eram lideradas por jovens e revelavam algo inédito: pela primeira vez, nós, muçulmanos, não estávamos copiando algo do Ocidente”, disse o poeta, que conversou com o Estado ontem pela manhã, em um hotel de luxo do Rio. “Logo, porém, os islamitas, os comerciantes e, especialmente, os americanos mostraram que estávamos apenas trocando de ditaduras.”

Autoexilado em Paris desde 1985, depois de uma passagem pelo Líbano, Adonis realmente veio para confundir, não para explicar. Autor de uma poesia estranha, “que evoca ao mesmo tempo a origem da própria poesia e o que nela há de mais moderno”, no entender do escritor Milton Hatoum (ele assina o prefácio do livro Poemas, lançado agora pela Companhia das Letras, com cuidadosa tradução de Michel Sleiman), ele se destaca como uma das vozes fundamentais da cultura árabe, na qual ecoa sua insubmissão à dominância religiosa.

“A poesia não pode mudar a sociedade”, argumenta, “mas só pode alterar a noção de relações entre as coisas. A cultura não pode ser melhorada sem uma mudança nas instituições. A poesia é como o amor, que constantemente renova os sentimentos do povo, revigora e abre horizontes para a beleza da vida. E isso não acontece apenas no nível individual, pois um poema torna-se essencial quando a ciência ou a filosofia não oferece respostas para o mistério da vida.”

Fiel a esse pensamento, Adonis surpreendeu no ano passado quando declarou que a cultura árabe tinha se extinguido. Na verdade, depois do impacto provocado pela afirmação, ele foi mais sucinto, dizendo que ainda havia talentos em diversas áreas criativas, mas eram figuras isoladas. “A civilização árabe como um todo tornou-se consumidora dos outros e deixou de ser criadora – desapareceu nossa presença criativa. Isso é extremamente alarmante.”

Falando especificamente de sua área, Adonis defende que a poesia criada hoje entre seus pares é essencialmente superficial. “A poesia requer um esforço real porque exige que o leitor se transforme, como o poeta, em um criador.”

Apesar de criticado, seu discurso não foi contestado. Afinal, Adonis é um dos principais renovadores da poesia árabe atual, promovendo uma revolução poética que, no Ocidente, só aconteceu depois de uma sucessão de trabalhos de autores de diversas procedências.

Adepto do multiculturalismo, Adonis não apenas cultivou suas raízes como estabeleceu íntima relação com a poesia ocidental, especialmente com Baudelaire, Mallarmé, Rimbaud, Nerval e Breton. “Adonis assimilou as vozes desses e outros poetas até encontrar um modo próprio e inovador para expressar seu lirismo”, afirma Hatoum, ainda no prefácio do livro. O brasileiro, aliás, almoça hoje com o colega sírio, no Rio de Janeiro.

A pluralidade explica a adoção do pseudônimo: um deus pagão no qual a presença da cultura pré-islâmica e pan-mediterrânea é muito forte. Trata-se, portanto, não apenas de uma postura poética mas principalmente política, sem que isso implique em uma ligação com o partidarismo. Adonis observa, por exemplo, uma forte tendência, entre os artistas árabes, de serem politicamente engajados.

“Não sou contra esse engajamento, ou mesmo contra os artistas – mas não sou como eles”, acredita. “Um criador precisa sempre estar próximo do que é revolucionário, mas nunca agir como um revolucionário. Ele não pode falar a mesma língua e tampouco trabalhar no mesmo ambiente político.”

Pouco conhecedor da poesia brasileira (”Lamento dizer que li apenas alguns versos de Haroldo de Campos e, mesmo assim, traduzidos para o francês, o que tira sua essência”), Adonis é figura constante na lista de apostas quando se aproxima o anúncio do vencedor do Nobel de literatura. E, se a cada ano acaba preterido, a vitória do sueco Tomas Tranströmer no ano passado praticamente jogou sua chance para um futuro incerto – não se acredita que a Academia Sueca vá premiar dois poetas seguidamente.

Isso parece sinceramente não o importunar. Adonis não avalia o próprio trabalho, preferindo que isso seja tarefa de seu interlocutor, seja com quem esteja conversando naquele momento, seja um leitor distante. Essa troca é seu combustível vital. “Vivo em eterna criação”, conta. “Enquanto converso com você, algo vai acontecendo no lado criativo da minha mente, que não para, trabalha incessantemente. O mesmo aconteceu enquanto tomava meu café da manhã e deverá se repetir quando encontrar meus leitores em Paraty. A vida é uma constante troca de ideias.”

“A morte quando passa por mim é como se

o silêncio a abafasse…

…é como se dormisse quando eu dormisse.

Ó mãos da morte, alonguem meu caminho

meu coração é presa do desconhecido,

alonguem meu caminho

quem sabe descubro a essência do impossível

e vejo o mundo ao meu redor”

04/05/2012 - 17:56h O poeta armado

DRUMMOND E O TRABALHO POÉTICO


“Entendo que poesia é negócio de grande responsabilidade, e não considero honesto rotular-se de poeta quem apenas verseje por dor-de-cotovelo, falta de dinheiro ou momentânea tomada de contato com as forças líricas do mundo, sem se entregar aos trabalhos cotidianos e secretos da técnica, da leitura, da contemplação e mesmo da ação. Até os poetas se armam, e um poeta desarmado é, mesmo, um ser à mercê de inspirações fáceis, dócil às modas e compromissos. Infelizmente, exige-se pouco do nosso poeta; menos do que se reclama ao pintor, ao músico, ao romancista…”

Carlos Drummond de Andrade
em “Autobiografia para uma revista”,
no livro Confissões de Minas (1944).
In Prosa Seleta, Nova Aguilar, 2003.


02/05/2012 - 19:58h El interés y El plebeyo

Vals

Autoría: David A. Suárez

Es el oro el que ablanda corazones,
es el oro el que ablanda corazones
¿Por qué soy pobre y humilde como soy?
En este mundo todo se avalora
y los sentimientos nada valen hoy;
en este mundo todo se avalora
y los sentimientos nada valen hoy.

Si te hablo de mi amor no me haces caso
porque soy pobre y humilde como soy;
espera pues que yo me vuelva rico,
entonces sí, me brindarás tu amor;
espera pues que yo me vuelva rico,
entonces sí, me brindarás tu amor.

La propuesta del pobre no es propuesta,
la propuesta del pobre no es propuesta,
la del rico dichosa ha de ser;
“no hay derecho de amar en la pobreza”
fue lo que llorando me dijo una mujer;
“no hay derecho de amar en la pobreza”
fue lo que llorando me dijo una mujer.


El Interes – Panchito Jimenez y Jesus Vasquez – Vals de la autoria de David Suarez, grabado en el LP “Dos Glorias del Perú” en la decada de los 80′ en el acompañamiento musical la Primera Guitarra Negra del Perú, don Linder Gongora.


EL PLEBEYO (VALS PERUANO)

Letra de Felipe Pinglo Alva
Interprete Jesùs Vasquez

El verdadero nombre de este vals peruano lleno de contenido social es “Luis Enrique, el Plebeyo” su contenido poetico y sus ricos matices armonicos lo hacen muy popular en la decada de los cuarenta hasta nuestros dias, pasando a ser junto con la “Flor de la Canela” de la inolvidable Chabuca Granda los valses peruanos de mayor difusion en el mundo. Su autor y compositor lo crea en 1930, y fallece en 1936 a la edad de 35 años sin llegar a conocer la importancia de su obra, y su difusion mundial que empezo despues de su muerte…entre sus obras musicales se cuentan “El Espejo de mi vida”, “El huerto de mi amada”, “Bouquet”, “La Oracion del Labriego”, “Pasion y Odio” entre otros de su copiosa produccion, hechas en el genero de vals peruano. Aqui le presentamos la letra completa con su segunda parte muy poco difundida porque en los inicios de las grabaciones en discos de 78 rpm se mutilaban las letras por los tres minutos de grabacion, en la acualidad y con los discos compactos recien muchos cantanes y conjuntos graban sus obras completas. En el Peru María de Jesus Vasquez fue la interprete pinglista mas reconocida con el trio Los Morochucos, en la argentina existen grabaciones importantes de Héctor Stamponi y su orquesta, Miguel Calo y su orquesta, Argentino Ledesma y recientemente Ana Medrano…En Mexico el idolo de multitudes Pedro Infante lo tiene en su discografia con el Trio Argentino…una
Joya!…Las Hermanas Lago de Cuba, Palmenia Pizarro de Chile, Julio Jaramillo de Ecuador,Carmita Jimenez y Daniel Santos de Puerto Rico, Luis Alberto Posada y Elenita Vargas de Colombia, Luis Alberto del Parana de Paraguay son los que han homenajeado a este poeta musical del Peru…Felipe Pinglo Alva es considerado el Maestro de los Autores y compositores del Peru con con toda justicia.

Letra:

La noche cubre ya con su negro crepón
de la ciudad las calles que cruzan las gentes
con pausada acción.
La luz artificial con débil proyección
propicia la penumbra que escondde en su sombra
venganza y traición.

Después de laborar vuelve a su humilde hogar
Luis Enrique, el plebeyo,el hijo del pueblo,
el hombre que supo amar
y que sufriendo está esa infamante ley
de amar a una aristócrata, siendo plebeyo él.

Trémulo de emoción dice así en su canción:
El amor siendo humano tiene algo de divino,
amar no es un delito porque hasta Dios amó
y si el cariño es puro y el deseo sincero
Por qué robarme quieren la fe del corazón?
Mi sangre aunque plebeya también tiñe de rojo
el alma en que se anida mi incomparable amor;
ella de noble cuna y yo humilde plebeyo,
no es distinta la sangre ni es otro el corazón
Señor, por qué los seres no son de igual valor?

Así en duelo mortal, abolengo y pasión
en silenciosa lucha, condenarnos suelen
a cruento dolor,
al ver que un querer porque plebeyo es,
delinque si pretende la enguantada mano
de fina mujer.
El corazón que ve dhestruído su ideal
reacciona y se refleja en franca rebeldía
cambiando su humilde faz;
el plebeyo de ayer es el rebelde de hoy
que por doquier pregona la igualdad en el amor.


EL PLEBEYO (VALS PERUANO)
Letra de Felipe Pinglo Alva
Interprete Jesús Vasquez


El Plebeyo (Los Morochucos) – Composición de Felipe Pinglo Alva interpretada por Óscar Avilés, Alejandro Cortez y Augusto Ego-Aguirre

08/02/2012 - 17:00h Poesía y cocina

Por: Abelardo Sánchez – El Comercio

Miércoles 8 de Febrero del 2012

La poesía y la cocina peruana tienen un feliz vínculo: la creatividad, la absoluta falta de nacionalismo y la inmensa capacidad para absorber lo mejor del mundo. En gran medida, ambas son producto de la cultura criolla que tuvo que inventarse, desde un inicio, cuando se ubicó en un territorio completamente nuevo. Su desubicación le proporcionó olfato. El tacto necesario para desenvolverse con sigilo. Para pronunciar y buscar cada palabra y sazón con sumo cuidado. La finura, la sutileza, el color y el sabor son sus rasgos principales.

La poesía peruana no tiene una formación filosófica como podría ser, en buena medida, la anglosajona. No es una poesía racional. Quizá César Vallejo y Martín Adán sean los más próximos a esta tendencia, pero lo que brilla en ellos es la música, sea áspera o barroca. Nuestra poesía viene de una tradición que la vincula más a la cocina. Por más intimista o hermética que nos parezca, es una poesía que invita a la fiesta y a compartir la hora mágica de preparar los potajes. Hasta un poeta tan austero como Carlos Germán Belli le rinde honores al bolo alimenticio. Claro, poetas como Cisneros o Hinostroza han hecho del paladar toda una poesía. Y José Watanabe llama al perro para que se acerque al fogón y comparta esa intimidad alrededor de la comida.

La comida nos define en toda nuestra variedad. Imposible encontrar al peruano único. La división regional, cultural, étnica nos brinda todo tipo de comida. La identidad de las personas –dime lo que comes y te diré quién eres– pasa por la cocina, sea en Francia, Italia, Brasil, India, China, el Perú. Uno puede comer a la volada, sentado, por placer, usando solo la cuchara y el táper o acompañado de un vaso de vino. La comida chatarra nos envicia, nos engorda, nos enferma. Pertenece a las grandes cadenas internacionales y busca un paladar globalizado. Está dirigida a los niños, a los muchachos y a la gente solitaria de las grandes urbes. En cambio, la comida peruana se encuentra arriba y abajo. Se adapta a cualquier lugar, puede ser de mar, de diversos piqueos, con carne o pato y arroz. Quien gusta comer, gusta de la amistad, del amor, de la risa, de los brindis. Lo que engorda es la chela, el pan, el chancay y la galleta. Lo otro es felicidad pura. Grandes almuerzos y excelente poesía.

10/10/2011 - 18:08h Marylin

Marylin

♥ ♥ ♥

weeping willow
I stood beneath your limbs
and you flowered and finally clung to me
and when the wind struck….the earth
and sand–you clung to me.

Salgueiro que chora
Fico sob seus braços
Você floriu e finalmente me abraçou
E quando o vento açoitou… a terra
E a areia–você me abraçou de verdade

♥ ♥ ♥

O, Time
Be Kind
Help this weary being
To forget what is sad to remember
Lose my loneliness,
Ease my mind,
While you eat my flesh.

Ah, tempo
Seja gentil
Ajude este ser cansado
A esquecer do que é triste
Afrouxe minha solidão
Acalme minha mente
Enquanto devora minha carne.

♥ ♥ ♥

I could have loved you once
and even said it
But you went away,
When you came back it was too late
And love was a forgotten word.
Remember?

Poderia ter te amado então
Sempre disse isto
Mas você foi embora
Quando você voltou era tarde demais
E amor se tornou palavra vencida
Lembra-se?

Poemas: Marylin Monroe
Tradução: Beto Palaio

Fonte Academia Pósmoderna de Letras

28/05/2011 - 17:00h Alquimia poética e utopia

Silviano Santiago – O Estado de S.Paulo

São admiráveis estes quatro versos de Fernando Pessoa: “O poeta é um fingidor, / finge tão completamente / que chega a fingir que é dor / a dor que deveras sente”. O paradoxo desconfia da lógica da razão e diz que, ao mascarar a dor autenticamente sentida com o fingimento poético, a voz do poeta se cola à verdade. Esta não tem o percurso pavimentado pela espontaneidade do sujeito e, sim, pela sua predisposição salutar ao fingimento retórico, que escreve a boa poesia. Ao divergir do senso comum, o poeta distorce a emoção da dor sentida para guardá-la no coração e fingi-la com letras na página em branco. Ali a sente mais realisticamente, revela-a e a transmite ao leitor. Alquimia da arte.

O escritor modernista brasileiro também tem o fingimento como alicerce da poesia. No entanto, de Fernando Pessoa se distancia por colocar como epicentro da escrita poética não a distorção da dor sentida, mas a desconfiança em relação ao nível de exigência formal requerido do adulto no uso da língua nacional e da linguagem poética. Em rebeldia contra o saber escolar que o constituiu como cidadão e contra a tradição literária eurocêntrica que o constituía como artista da palavra, o modernista finge observar o mundo com olhos de criança e finge imitá-la na redação. Contraditória e autenticamente, estaria escrevendo poesia de e para cidadão adulto brasileiro. Leia-se o livro Primeiro Caderno do Alumno de Poesia Oswald de Andrade (1927), ou entenda-se a docência às avessas no poema 3 de Maio: “Aprendi com meu filho de dez anos / Que a poesia é a descoberta / Das coisas que nunca vi”.

Ao distorcer o saber proporcionado pela formação educacional em vigor e ao rejeitar o ouvido poético afinado pela métrica e a rima, ao fingir-se de criança e escrever como ela, o poema modernista se cola ao autenticamente pensado e vivido. O fingimento evita que a escrita poética caia em outro e nefasto sistema de fingimento – o do artista comprometido com o artesanato de ourives e o da retórica, com a estética parnasiana.

O caderno do aluno Oswald não se assemelha ao carnê em que o viajante europeu anotou observações e pensamentos à espera da versão apurada e definitiva. Tampouco é metáfora para versos que traduzem a experiência subjetiva da desigualdade negra sentida pelo martinicano Aimé Césaire em terras metropolitanas (Cahier d”Un Retour au Pays Natal, 1939). O caderno escolar de Oswald tem em comum com os dois exemplos o trato com o desconhecido, que se expressa pelo desejo de “ver com olhos livres” e de sentir a “alegria dos que não sabem e descobrem” (como está no Manifesto da poesia pau-brasil). Bem acabada, a linguagem poética do caderno de Oswald é, no entanto, mal torneada por ser fingidamente inocente e ingênua, decidida a desconcertar o leitor pela varinha de condão do humor e da surpresa. O poeta não está onde você acredita que ele deveria estar.

O poema se arrisca quando acopla ao artista da palavra a voz crítica do intelectual. Unidos, escancaram em escrita o jogo político-social e econômico dominante na jovem nação. O povo brasileiro abre alas na poesia e pede passagem. Pelo seu tosco e autêntico modo de sentir e de pensar e pelo seu linguajar precário, é semelhante à criança. Um denominador comum sela o encontro – “a contribuição milionária de todos os erros”. O dado e tido como certo para o Brasil é errado. O dado e tido como errado é certo. O adulto poeta finge ser criança e o intelectual maduro finge ser povo. Ao apadrinhar (to patronise, em inglês) criança e povo, o poema se quer força de resgate da nova geração e da nova cidadania. Desenha utopias verde-amarelas. O paradoxo poético de Pessoa se expressa pelo erro correto, moeda que, desvalorizada pelo senso comum europeizado, financia a futura e boa cidadania brasileira. Leia-se Pronominais: “Dê-me um cigarro / Diz a gramática / Do professor e do aluno / E do mulato sabido / Mas o bom negro e o bom branco / Da Nação Brasileira / Dizem todos os dias / Deixa disso camarada / Me dá um cigarro”.

No cenário poético da infância, Manuel Bandeira sobrepõe ao erro correto o sabor e o saber da experiência proporcionada ao cidadão brasileiro pelo linguajar do povo. Lê-se na Evocação do Recife: “A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros / Vinha da boca do povo na língua errada do povo / Língua certa do povo / Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil”. Na mesma cena infantil do sabor/saber popular, Carlos Drummond afina pelo afeto a voz da empregada doméstica e, acertada e contraditoriamente, a situa em etnia e classe diferentes. Leiamos trecho do poema intitulado Infância: “No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu / A ninar nos longes da senzala – e nunca se esquece / Chamava para o café. / Café preto que nem a preta velha / Café gostoso / Café bom”.

Em todos os poemas citados a (quase total) ausência de pontuação reitera a necessidade de a sintaxe modernista ser fonética. Em Pontuação e Poesia, Drummond observa: “A pontuação regular, iluminando igualmente todos os ângulos da superfície poética, impede que se destaque algum de seus acidentes mais característicos”. Em outro texto da época, Drummond afirma que “o preconceituoso procura o acessório, que não interessa e foi removido”.

A alquimia poética do Modernismo é nitidamente pós-colonial, fingida e realisticamente utópica. Deveria ter sido relegada à década de 1920 em virtude das várias etapas de modernização política, social e econômica por que passou a nação brasileira depois dos anos 1930. A polêmica em torno do livro Por Uma Vida Melhor, de Heloísa Ramos, demonstra que, no Brasil, a educação das massas ainda é uma utopia verde-amarela. Diz o mundo e lamenta o projeto do pré-sal.

04/04/2011 - 17:00h Teu corpo/meu espaço

Manuela Amaral

Teu corpo é raiz
rasgando a terra nua
do meu sexo

Teu corpo é vertical
onde os meus dedos tocam as distâncias

Teu corpo é diálogo sem palavras
O grito em ressonância
no meu espaço

Amor no feminino, Fora do Texto, 1997 – Coimbra, Portugal


24/02/2011 - 17:44h O imprevisto que se mostra

«Aquilo a que chamam amor é bem pequeno, bem restrito, e bem fraco, comparado à inefável orgia, à santa prostituição da alma que se dá toda inteira, em poesia e caridade, ao imprevisto que se mostra, ao desconhecido que passa.
É bom ensinar por vezes aos felizes deste mundo, nem que seja só para os humilhar um instante no seu estúpido orgulho, que há felicidades superiores às deles, mais vastas e mais delicadas. Os fundadores das colónias, os pastores de povos, os padres missionários exilados no fim do mundo, conhecem sem dúvida qualquer coisa destas misteriosas ebriedades; e, no seio da vasta família que o seu génio constituiu, devem rir-se algumas vezes daqueles que os lamentam pela sina tão revolta e pela vida tão casta.»


Charles Baudelaire. O Spleen de Paris. Pequenos poemas em prosa. Tradução de António Pinheiro Guimarães. Relógio D’Água, Lisboa, 1991.,p.36

24/01/2011 - 18:52h Poesia

BOHDAN ZADURA

A vida erótica da cidade
concentra-se nas suas zonas
erógenas

Este é o principio dado pelos deuses
gratuitamente Uma fila da cidade
e uma fila do corpo Desde as pontas
dos dedos desde o interior das mãos
até aos túneis de metro os arcos dos viadutos

e as pedras arrancadas com as unhas
das ruas empedradas

Antigamente – diz-me uma voz – o mistério
vivia nos templos Agora
só nos restam
estações e aeroportos

Nos cruzamentos
acendem-se semáforos
vermelhos

Um amigo
com uma covinha encantadora
no queixo
repara
cada situação
interpessoal
pode converter-se numa situação
erótica

A rua afoga-se
e morre de enfarte

10/12/2010 - 17:00h A poesia para o papel de Régis Bonvicino

Evelson de Freitas/AE

Até Agora reúne os dez livros que o escritor publicou ao longo de 35 anos de carreira


Raquel Cozer – O Estado de S.Paulo

Em meados dos anos 70, Régis Bonvicino, então um estudante de direito de 20 e poucos anos envolvido com a poesia, sentia-se fora de contexto. Respeitava os concretos, mas não tinha intenção de fazer poemas visuais ou multimídia. Não queria ser letrista, algo que, como lembra, era “quase imposição” naqueles anos de tropicália – e uma intenção de seu grande amigo Paulo Leminski, que procurava lugar entre a vanguarda e o desbunde.

“Queria fazer poesia para o papel. Não buscava o racionalismo concretista nem a irracionalidade que vinha do zen”, lembra Bonvicino, hoje com 55 anos, cujos interesses àquela época incluíam, além dos citados acima, a música de Bob Dylan e Rolling Stones e os poemas de Carlos Drummond de Andrade (1902- 1987) e do norte-americano Wallace Stevens (1879-1955). Os resultados das incertezas que durariam até o início da década de 80 podem voltar a ser conferidos em Até Agora, reunião dos volumes publicados ao longo de 35 anos pelo autor, que tem lançamento hoje, pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo.

Os primeiros poemas saíram originalmente nos livros Bicho Papel (1975), Régis Hotel (1978) e Sósia da Cópia (1983). Embora não renegue nada do que escreveu e inclusive goste da “energia” que ainda percebe naqueles poemas, foi dali para a frente que o paulistano reconheceu o caminho que gostaria de seguir. “Minha poesia foi um trabalho de concentração, de diálogo, de observação. De estar ligado a todas as coisas da cidade, das paisagens às artes plásticas. Sou um anti-Rimbaud. Não me sentia bem e fui construindo uma poesia própria, aprendendo com todos aqueles com os quais não me identificava totalmente”, conta.

Esse segundo momento começa com Más Companhias, livro que reuniu trabalhos escritos de 1983 a 1986, e segue numa produção intensa que culmina, até o momento, com Página Órfã, de 2007 – atualmente, Bonvicino trabalha num novo livro. No volume que sai pela Imprensa Oficial, o leitor ainda pouco íntimo com a obra de Bonvicino será apresentado a ela a partir deste Página Órfã, retrocedendo então até aqueles três títulos iniciais, num exercício curioso de conhecer antes o poeta maduro. Nenhuma espécie de interesse fora do comum aí, afirma o autor – admirador de João Cabral de Melo Neto (1920-1999), com quem chegou a manter um relacionamento próximo, Bonvicino apenas sentiu-se compelido a seguir o modelo usado pelo mestre nas Poesias Completas, de 1968.

Bonvicino hoje mantém uma relação intensa com os meios virtuais. “Para mim, a coisa mais impressionante da vida não foi a chegada do homem à Lua, foi o surgimento da internet”, diz. Envolvido desde 2001 com a edição da revista Sibila – hoje exclusivamente on-line, no endereço www.sibila.com.br -, trabalho que desenvolve em parceria com o poeta norte-americano Charles Bernstein, ele sente-se mais próximo da poesia feita em francês e em inglês. “Agora estou trabalhando temas diferentes. Eu fujo da literatura, acho que poesia não tem nada a ver com literatura. Não adianta ler João Cabral de Melo Neto e deduzir um poema igual ao dele. Procuro me afastar de tudo isso”, diz.

POEMAS

“O lobo-guará é manso

foge diante de

qualquer ameaça

é solitário

avesso ao dia, tímido

detesta as cidades

para fugir do ataque

cada vez mais inevitável

dos cachorros

atravessa estradas

onde quase sempre é

atropelado

onívoro, com mandíbulas

fracas

come pássaros, ratos, ovos,

frutas

às vezes, quando está perdido,

vasculha latas de lixo nas ruas

engasga ao mastigar garrafas

de plástico ou isopores

se corta e ou morre ao morder

lâmpadas fluorescentes

ou engolir fios elétricos

morre ao lamber inseticidas

ou restos de tinta

ou ao engolir remédios

vencidos

ou seringas e agulhas

descartáveis

dócil, sem astúcia,

é facilmente capturado e morto

por traficantes de pele

quando então uiva

(Extinção. Página Órfã, 2007)

“O que matou com disparos

na cabeça

O que eletrocutou o

estuprador

- fio puxado do bico de luz

da cela -

e pediu perdão a Deus

O que decepou um dos seus

O que trocava de nome & de sexo

a cada morte

O que ouvia vozes

O que estuprou a filha

(meses)

O que atraía garotos

com revistas de mulheres nuas

“Papillon” traficava cocaína

e crack

Narque espancou o cara

até abrir sua carne

(O Que. Outros Poemas, 1993)

“Me

transformo,

outra janela–

outro

que se afasta e não se

reaproxima

nas desobjetivações e

reativações,

nas linhas e realinhamentos

outros

me atravessam

morto de ser

coisas perdem sentido

expressões figuradas como

ossos de borboleta

me transformo

na observação

de uma pétala

*

Me destransformo

a mesma janela –

outro

que não se afasta

Nas objetivações,

alinhamentos

e linhas inexistentes

iguais me repassam

Retrato desativado,

taxidermista de mim mesmo

(Me Transformo. Ossos de Borboleta, 1999)

“Quantas vezes

esfregou

os dedos nas unhas

o sol caindo atrás

das paredes

quantas vezes revezou-se

consigo mesmo em silêncio

quantas vezes esteve

no justo oriente de qualquer limo

quantas vezes quis

ser Rimbaud e traficou

aspirina

os dias passaram, severos,

como o vazio

hoje?, ontem?, quantas vezes

as grimpas não giraram

o amor era das palavras, entre elas

fria estrela que irrompe

(Canção 4. De Remorso do Cosmos, 2003)

ATÉ AGORA
Autor: Régis Bonvicino. Editora: Imprensa Oficial (564 págs., R$ 40). Local: Livraria Cultura. Avenida Paulista, 2.073, telefone 3170-4033, Hoje, às 18h30.

26/11/2010 - 19:00h Poesia

Luís Felício

I

por caminhos de lavanda e urze: raso,
o sangue sob a plaina dos dedos,

enquanto a mão aprende
toda a beatitude do mundo

a mão alçada sobre a lua dos olhos,
o gesto é conciso
como uma imagem impossível

II

depois, ameias entre os venenos,
os versos:

carótida, laringe, fuligem, falange

os versos: um secreto combate, os versos

tantas vezes não mais que sombras

entre a luz nocturna da lâmina
e a doçura da pálpebra

III

em verdade falo apenas do que há
dentro dos nomes

o que há dentro de um nome?

em verdade falo apenas de um imóvel caminho

um lentíssimo modo de rumar
ao silêncio

Fonte Clepsidra

11/11/2010 - 19:00h Os amantes aparecem no verão, quando os amigos partiram…

Maria do Rosário Pedreira

para J.G.

Os amantes aparecem no verão, quando os amigos partiram
para o sul à sua procura, deixando um lugar vago
à mesa, um bilhete entalado na porta, as plantas,
o canário, um beijo e um livro emprestado: a memória
das suas biografias incompletas. Os amigos

desaparecem em agosto. Consomem-nos as labaredas do sol
e os amantes que chegam ao fim da tarde
jantam e de manhã ajudam a regar as raízes das avencas
que os amigos confiaram até setembro, quando regressam

trazem saudades e um romance novo debaixo da língua.
Levam um beijo, os vasos, as gaiolas e os amantes
deixam um lugar vago na memória, cabelos na almofada,
uma carta, desculpas, e um livro de cabeceira que os
amigos lêem, pacientes, ocupando o seu lugar à mesa.

28/10/2010 - 17:56h AS SEM-RAZÕES DO AMOR

Carlos Drummond de Andrade

Eu te amo porque te amo,
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.

16/09/2010 - 18:09h Mas há a vida

Clarice Lispector

Mas há a vida
que é para ser
intensamente vivida, há o amor.

Que tem que ser vivido
até a última gota.
Sem nenhum medo.
Não mata.

03/09/2010 - 18:29h Colhendo nos céus


Magritte – La corde sensible, 1960


Colhe nos céus este sabor bizarro,
tão único. Apenas um deus sabe. E diz:
pertence a deuses só de ser tão raro.


António de Almeida Mattos (1944-)

In: Conjuntivo presente. Porto: Afrontamento, 1990, p. 27

27/08/2010 - 18:18h Bem-vinda. Bocas

Mario Benedetti

Ocorre-me que vais chegar distinta
não exactamente mais linda
nem mais forte
nem mais dócil
nem mais cauta
somente que vais chegar distinta
como se esta temporada de não me veres
te tivesse surpreendido a ti também
talvez porque sabes
como te penso e te enumero

depois de tudo a nostalgia existe
ainda que não choremos nos corredores fantasmáticos
nem sobre as almofadas de candor
nem por baixo do céu opaco

eu nostalgio
tu nostalgias
e que me interessa que ele nostalgie

o teu rosto é vanguarda
talvez chegue primeiro
porque o pinto nas paredes
com traços invisíveis e seguros

não esqueças que o teu rosto
me olha como povo
sorri e enfurece-se e canta
como povo
e isso dá-te uma luz
inapagável

agora não tenho dúvidas
vais chegar distinta e com sinais
com novas
com profundidade
com franqueza

sei que vou querer-te sem perguntas
sei que vais querer-me sem respostas

Bocas

Dónde empieza la boca?

en el beso?
en el insulto?
en el mordisco?
en el grito?
en el bostezo?
en la sonrisa?
en el silbo?
en la amenaza?
en el gemido?

que te quede bien claro
donde acaba tu boca
ahí empieza la mia

Mario Benedetti

16/08/2010 - 18:23h Solidão

Solidão – Blog Barulho da alma


Rodney Smith



“Minha alma tem o imaterial peso da solidão
no meio dos outros.
E ninguém é eu.
E ninguém é você…
Esta é a solidão.”

Clarice Lispector


Abandono, de David Mourão-Ferreira

“Por teu livre pensamento
Foram-te longe encerrar
Tão longe que o meu lamento
Não te consegue alcançar
E apenas ouves o vento
E apenas ouves o mar.

Levaram-te no meio da noite
A treva tudo cobria
Foi de noite, numa noite
De todas a mais sombria.
Foi de noite, foi de noite
E nunca mais se fez dia.

Ai dessa noite o veneno
Persiste em me envenenar
Oiço apenas o silêncio
Que ficou em teu lugar
E ao menos ouves o vento
E ao menos ouves o mar…”

12/08/2010 - 18:25h Soneto

Violante do Céu

Que suspensão, que enleio, que cuidado
É este meu, tirano Cupido?
Pois tirando-me enfim todo o sentido
Me deixa o sentimento duplicado.

Absorta no rigor de um duro fado,
Tanto de meus sentidos me divido,
Que tenho só de vida o bem sentido
E tenho já de morte o mal logrado.

Enlevo-me no dano que me ofende,
Suspendo-me na causa de meu pranto
Mas meu mal (ai de mim!) não se suspende.

Ó cesse, cesse, amor, tão raro encanto
Que para que de ti não se defende
Basta menos rigor, não rigor tanto.

Antologia da Poesia do Período Barroco, Moraes Editores, 1982 – Lisboa, Portugal.

10/08/2010 - 18:27h Chove

Ana Cristina Cesar

A chuva cai.
Os telhados estão molhados,
Os pingos escorrem pelas vidraças.
O céu está branco,
O tempo está novo.
A cidade lavada.
A tarde entardece,
Sem o ciciar das cigarras,
Sem o jubilar dos pássaros,
Sem o sol, sem o céu.
Chove.
A chuva chove molhada,
No teto dos guarda-chuvas.
Chove.
A chuva chove ligeira,
Nos nossos olhos e molha.
O vento venta ventado,
Nos vidros que se embalançam,
Nas plantas que se desdobram.
Chove nas praias desertas,
Chove no mar que está cinza,
Chove no asfalto negro,
Chove nos corações.
Chove em cada alma,
Em cada refúgio chove;
E quando me olhaste em mim,
Com os olhos que me seguiam,
Enquanto a chuva caía
No meu coração chovia
A chuva do teu olhar.

Novembro 65. Do livro Inéditos e Dispersos.

05/08/2010 - 18:29h Epistola para Dédalo viver na beira-mar

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Ícaro e Dédalo

Epístola para Dédalo

Fiama Hasse Pais Brandão

Porque deste a teu filho asas de plumagem e cera
se o sol todo-poderoso no alto as desfaria?
Não me ouviu, de tão longe, porém pensei que disse:
todos os filhos são Ícaros que vão morrer no mar.
Depois regressam, pródigos, ao amor entre o sangue
dos que eram e dos que são agora, filhos dos filhos.

Fiama Hasse Pais Brandão, in Epístolas e Memorandos, 1996

VIVER NA BEIRA-MAR

Fiama Hasse Pais Brandão

Nunca o mar foi tão ávido
quanto a minha boca. Era eu
quem o bebia. Quando o mar
no horizonte desaparecia e a areia férvida
não tinha fim sob as passadas,
e o caos se harmonizava enfim
com a ordem, eu
havia convulsamente
e tão serena bebido o mar.

In: Obra breve. Lisboa: Assírio & Alvim, 2006, p. 510

26/07/2010 - 18:00h CIGARRAS NO APOCALIPSE

Bárbara Lia – portal Cronópios


Quando o poema emerge,
Estridente,
Emudece o verão
Escurece a primavera
Incendeia o outono

Poetas são cigarras
No apocalipse
Sempiterno som
Canto que incomoda

Sacode as esfinges
As filosofias vãs
Permeia a triste Ingrid
Na serra colombiana

Canto ecoa
Em muralhas pagãs
Invade corredores
Cola ao som o hortelã
Das festas de antes
Arranca lágrimas cinzas
No silêncio laranja
De Guantánamo

O som ardido trinca o sol
Escorre gema zelosa
Na chaga das crianças
Da África inteira
Canta a primavera afogada
Da vida ceifada.

A cigarra segue
No apocalipse sem volta
Anoitece areias de Fallujah
Todas as ruas da Faixa de Gaza

Cigarras no apocalipse
São poetas em desalinho
Gestados no ventre escuro

Ninfas subterrâneas
Emergem em canto e vôo
Ao som da trombeta
De um anjo sem olhos.

18/07/2010 - 16:31h Viagem comigo no INTERMEZZO

Prestem atenção ao INTERMEZZO desta semana (a direita na barra vermelha, na parte superior). Quando começam seus primeiros acordes, quase como um reflexo as lágrimas espiam meu coração, pelo canto do olho. Gostaria que esse sentimento, essa alegria misturada com tristeza e introspecção, pudesse ser compartilhado com vocês.

A versão que escolhi é marcante, com a voz de Ian Bostridge e Julius Drake, ao piano. Existem outras versões, como a de Fischer-Diskau, para mim um dos melhores,  se não o melhor interprete dos lieders de Schubert, que me deu de assistir precisamente no recital da viagem de inverno. (ver no final do post).

O texto a seguir, do blog A Rendição da Luz, permite de situar a obra de Schubert e os poemas de Müller que compõem os cantos. LF

Winterreise

Publicado em Outubro 15, 2009 por António

Winter - Caspar David Friedrich

Es ist eine alte Geschichte,
Doch bleibt sie immer neu;
Und wem sie just passieret,
Dem bricht das Herz entzwei.

É uma história antiga
Que permanece uma novidade;
E o coração da pessoa a quem
sucede parte-se em dois.

Heinrich Heine - Ein Jüngling liebt ein Mädchen

Naquele quarto a meia-luz, Gerald Moore está ao piano e Hans Hotter aproxima-se silenciosamente para nos cantar a viagem de Inverno. Durante esse tempo, Hotter vestirá os andrajos do oprimido Viajante, tropeçando pela neve com a penúria e gravidade de uma voz que se afunda com o desgosto de cada verso. Meu amor, o começo de um verso é como um pequeno tesouro. Escuta como o Viajante deixa as notas pairar na condensação do ar invernil, incapaz de terminar o pensamento, a rima. A voz fraqueja, os joelhos tremem-lhe. O final do verso encontra-o enfim derrotado, lúgubre, afogado na imensidão de um corpo mais vasto.

A história começa antes do primeiro verso. O Viajante abandona a casa da sua amada, impelido por um rasgo de emoção  mais teatral e sofredor do que dignamente poético. Com olhos húmidos e dedos trementes, inscreve as palavras “Boa Noite” no portão da sua amada, caminhando pelos corredores da casa de forma a “não perturbar a sua paz“. Lança-se então ao Inverno, um rasto de pegadas a desvanecer-se atrás de si.

O mote está dado. Os 24 poemas de Wilhelm Müller têm o simples nome de Winterreise, ou a Viagem de Inverno, e enformam, a passos incertos e dolorosos, um percurso de exaltação em que um homúnculo de insustentáveis mágoas transitórias supera a pequenez do seu sofrimento. O seu Viajante é um amoroso, partindo da mais cruel das volatilidades humanas para atingir uma iluminação de serenidade. Não significa isso que o desfecho seja feliz. Raramente, de resto, estas coisas o são. Ele, que ama sem ser amado, faz parte daqueles que têm o infortúnio adicional de serem veículos de toda a mágoa glacial da humanidade. Que sentido para uma vida!

Mais tarde, durante a composição deste ciclo de fantasmagóricas melodias, os consortes de Schubert notaram a extraordinária mudança na aparência do seu querido amigo, alimentando a crença – desde então reconfirmada através das eras – de que seria impossível tocar na Winterreise sem pelo menos sofrer fisicamente alguns dos seus sentimentos. Se parece razoável assumir que Müller jamais teria conseguido criar um trabalho de beleza tão singela sem ter atravessado algumas das sensações do seu viajante, já a melancolia Schubertiana parece ser, como um seu companheiro certeiramente colocou a questão, um caso de desespero feliz ou exaltação funesta do artista que toma as rédeas de uma melancolia destruídora para urdir um lied de insustentável beleza.

Globalmente considerada, a Winterreise não contém qualquer defesa laudatória do seu constante negrume e opressão. Cada poema é um memorial do Inverno, do amor, e da solidão, ideias repetidas vinte e três vezes ao longo do ciclo e que à primeira vista poderiam afigurar-se como exageradas, barrocas, e indiscutivelmente germânicas. Será esta língua adequada aos leves sentimentos do espírito? Müller demonstra que sê-lo-á pelo menos quanto às consequências da passagem de um sentimento de graça numa alma sensível. A demonstração disto reside nas imagens simples e duradoiras que o poeta debrua em cada estrofe - parcas em metáfora, ricas em simbolismo - até um dos corações envolvidos no recital de mágoas – pianista, cantor, ouvinte ou leitor – se condoer com uma materialidade muito inquietante. Mergulhados no ciclo de lieder, não há escapatória possível que não contenha estilhaços de gelo; a canção não é sobre o amor mas sobre as suas sequelas, o que a aproxima de uma reflexão universal de uma dor comungada a várias causas.

O irreversível huis-clos porventura atinge o seu expoente mais expressivo com o lindíssimo Der Lindenbaum (A Tília):

Und seine Zweige rauschten,                        E os seus galhos sussuraram
Als riefen sie mir zu: Como se me chamassem:
Komm her zu mir, Geselle, Amigo, vem até mim,
Hier find’st du deine Ruh’! Aqui encontrarás a tua paz!

Die kalten Winde bliesen Gélidos ventos sopraram
Mir grad’ ins Angesicht; então contra o meu rosto;
Der Hut flog mir vom Kopfe, O chapéu voou da minha cabeça,
Ich wendete mich nicht. E eu não olhei para trás.

Em que até a mais bela recordação de idílios passados (a tília onde o Viajante tantas vezes descansara e “gravara muitas palavras de amor“) se torna num suave convite ao suícídio e sono eterno — por seu turno um espelho dos “numerosos sonhos doces” que à sua sombra tinham outrora sido sonhados. Este poema é reluzente e traiçoeiro como uma escultura de cristal num límpido dia de Inverno, e retribui ao Viajante, numa capa de desespero silencioso e subversivo, tudo aquilo que ele lhe tinha entregue em alegria.

Mas a Winterreise é também um ciclo profundamente masculino. Insultuosamente masculino. É um universo de um homem que não foi amado e que se isola no decurso de uma viagem espiritual. O Viajante é – evidentemente — um cavalheiro afável que teve mesmo o cuidado de abandonar a sua amada com o maior dos silêncios e delicadeza. Mas a premissa está lá, alimentada por tudo aquilo que no-lo torna tão querido: é que ele deveria ter sido amado. É indispensável ter pena dele: que injustiça a sua amada não lhe desferiu! E toda a compaixão que por ele sentimos é por conseguinte uma censura implícita à Mädchen que o rejeitou. Trata-se de um egoísmo inaceitável, e odeio o Viajante por ter escrito as educadas palavras de amor no portão da casa, privando a sua amada de razões para o ressentir. Deseja ele que ela se sinta culpada por não o amar? Sim, é isso mesmo, deseja. Que odioso, por não ter sabido partir em coragem e rotura completa com a pequena vida imaginara partilhar.

Mas, claro, se tivesse feito isso, não haveria poesia.

Ainda assim, repito: detesto-o. Porque aquele egoísmo é demasiado parecido ao meu, mesquinho e natural, instintivo. É o porquê que dilacera o Viajante, é o porque não que o arruína.  Tanta desilusão, somente porque persistimos no erro de nos arrogarmos o direito de ser amados?

É mais fácil aceitar e superar o perene desgosto que trespassa o Viajante a cada verso. A Winterreise não é exagerada ou supérflua, não é sequer ridícula, e nem se lhe pode opor uma medição de mágoas que descure o profundo estado de ascese espiritual do seu réprobo protagonista. A revelação final é portanto esta: a viagem é um catalisador de si mesma, desempenhando o papel de um instrumento de interpretação e elevação pessoal num mundo hostil, vasto, infindável. Paisagem e espírito, florestas e alma, neve e mágoa unem-se para exprimir aquilo que isoladamente lhes estaria vedado, no canto dessa alte geschichte que para sempre acompanhará a humanidade como uma sombra ao luar. Acredito mesmo que, a dada altura durante a Winterreise, a sua amada deixe de ser a causa e símbolo completo da sua tristeza.

Então o Viajante encontra-se apenas sozinho, no meio do Inverno, e a neve apaga-o como o faria às notas de um violino numa tempestade.


Dietrich Fischer Dieskau Der Lindenbaum, Die Winterreise

05/07/2010 - 18:46h O rasurado azul de Paris – poemas para Arthur Rimbaud

Por Bárbara Lia – Cronópios


Flor escandalosa

Meu pai sonhava o deserto
E viveu ao lado do amor
Rimbaud sonhava as areias
Também reinventar o amor
Rimbaud viveu no deserto
Meu pai morreu de amor

Meu pai surfava o mar de estrelas
Com um teodolito da cor da destemperança
- verde oliva que tende ao amarelo –
Quando eu dormia ele soprava
Sementes de poesia
Por cima das minhas cobertas

Rimbaud passava noites inteiras
Regando com um regador de nuvens
Minha alma de fogo e a semente

Nasceu esta flor escandalosa
Misto de estrela e rosa
Da cor dos olhos do amor
E do deserto sonhado
Por meu pai e Rimbaud

Meu pai viveu em poesia
Nunca escreveu um verso
Rimbaud desistiu bem cedo
Meu pai sabia; sabia Rimbaud
O vento que atravessa a cortina
Traz a voz de ambos, mixada:

Ilumine o verbo!
Incendeie a alma!
Faça de corações desertos
Cactos em flor
Sangue em ebulição

*

quando ele corria
pelos telhados de ardósia
as pombas arrulhavam
em ventania
seu casaco – vela sacudida
estremecia
a maré da monotonia


Dans l’air

Tínhamos a mesma idade
Quando vimos o mar
Este mistério de impaciência
Tínhamos a mesma impaciência
– Rimbaud e eu –

Por isto
Pisamos telhados
Ao invés do chão

Por isto
Machucamos nossos amores
Com nossas próprias mãos

Por isto
As velas acabam na madrugada
Antes que o poema acabe

- Por isto, tão pouca a vida para tanta voracidade.

Mar/absinto

Nossos olhos de dezoito anos
acomodaram o mar
Sobrou a maré em torno
um sussurro de conchas
a nos acordar nas noites brancas

Nossos olhos de dezoito anos
beberem do mar/absinto
como ao vinho santo.

Nossos olhos embriagados.
Nossos olhos negros e azulados.
Uma sereia recolhendo a rede
os corações de dois poetas ali
enredados

Nossos olhos de dezoito anos.
Nossas almas milenares.
Nossos amores fracos à soleira da incerteza.
Tanta beleza em ti, Rimbaud!
Tanta ausência em mim!

E nas marquises
bêbados ainda caminham
buscando o sol
que você guardou prá mim

Bárbara Lia é poeta e escritora. Vive em Curitiba. Livros publicados: O sorriso de Leonardo (Kafka ed. – 2.004), Noir (ed. do autor – 2.006), O sal das rosas (Lumme editor – 2.007), A última chuva (ME – ed. alternativas – MG – 2.007). No prelo, lançamento para agosto, o romance Solidão Calcinada (Secretaria da Cultura / Imprensa Oficial do Paraná, romance finalista do Prêmio Nacional do Sesc 2.005 – Site www.chaparaasborboletas.blogspot.
E-mail: barbaralia@gmail.com

04/07/2010 - 18:53h Escrito para a noite

Um vento novo sucedeu rompendo
por dentro a procurar-nos um do outro.

Alberto Soares, Escrito para a noite, INCM, p.31.

http://imagecache6.allposters.com/LRG/15/1576/AOMDD00Z.jpg
Brent Lynch

28/06/2010 - 22:00h Boa noite


A Lullaby On My Shoulder, de Federica Nightingale. Música “My Immortal”, de Evanescence (Instrumental) e voz de Mia Feigelson. (edição Mia Feigelson)

A Lullaby On My Shoulder

de Federica Nightingale

“Where has our lullaby gone
still, my thin finger pierces the air

Who turned a couple of wings

into a marble heart to polish

Who drowned a black tongue

into violets – arsenic

(where no sips can be saved)

Rest on my shoulder
breadcrumb and maggot is my skin

Purple coverings scent in hands
flushing

Where has our lightness gone
a beauty of a ring of mercy

keeping tenderness upside down
and a rare bloom of orquids
within.”