07/01/2009 - 17:56h Paz


Pomba da Paz
(Picasso)

Se eu te pedisse a paz, o que me darias
pequeno insecto da memória de quem sou
ninho e alimento? Se eu te pedisse a paz,
a pedra do silêncio cobrindo-me de pó,
a voz limpa dos frutos, o que me darias
respiração pausada de outro corpo
sob o meu corpo?

Perdoa-me ser tão só, e falar-te ainda
do meu exílio. Perdoa-me se não te peço
a paz. Apenas pergunto: o que me darias
em troca se ta pedisse? O sol? A sabedoria?
Um cavalo de olhos verdes? Um campo de batalha
para nele gravar o teu nome junto ao meu?
Ou apenas uma faca de fogo, intranquila,
no centro do coração?

Nada te peço, nada. Visito, simplesmente,
o teu corpo de cinza. Falo de mim,
entrego-te o meu destino. E a morte vivo
só de perguntar-te : o que me darias
se te pedisse a paz
e soubesses de como a quero construída
com as matérias vivas da liberdade?

Casimiro de Brito

Fonte Blog Encosta do mar

06/01/2009 - 20:03h Carta de Anaïs Nin

“Prezado coleccionador:

Detestamo-lo. O sexo perde todo o seu poder, toda a sua magia, quando se torna explícito, abusivo, quando se torna mecanicamente obcecante. Passa a ser enfadonho.

Nunca conheci pessoa que melhor provasse o erro que é não se lhe juntar a emoção, a fome, o desejo, a luxúria, os caprichos, as manias, os laços pessoais, relações mais profundas, que lhe mudam a cor, o perfume, os ritmos, a intensidade.

Nem o senhor sabe o quanto perde com esse seu exame microscópico da actividade sexual e a exclusão dos outros aspectos, que são o combustível que a faz atear. Intelectual, imaginativo, romântico, emocional. Eis o que dá ao sexo as suas surpreendentes texturas, as mudanças subtis, os elementos afrodisíacos. O senhor restringe o seu mundo de sensações. Disseca-o, definha-o, tira-lhe o sangue.

Se o senhor alimentasse a sua vida sexual com todas as aventuras e excitações que o amor instila a sensualidade, seria o homem mais poderoso do mundo. A fonte da potência sexual é a curiosidade, é a paixão. O que o senhor vê é sua débil chama a morrer de asfixia. O sexo não pode medrar na monotonia. Sem invenções, humores, sentimentos, não há surpresa na cama. O sexo deve ter à mistura lágrimas, riso, palavras, promessas, cenas, ciúme, inveja, todos os condimentos do medo, viagens ao estrangeiro, novas caras, romances, historias, sonhos, fantasias, musica, dança, ópio, vinho. O que o senhor perde com esse periscópio na ponta do sexo, quando podia gozar de um harém de maravilhas várias e jamais repetidas! Não há dois cabelos iguais; mas o senhor não quer que desperdicemos palavras a descrever uns cabelos. Não há dois cheiros iguais; porém, se nós nos detemos com isso, o senhor exclama: “Suprimam a poesia.” Não há duas peles de igual textura; nunca é a mesma luz, a mesma temperatura, as mesmas sombras, nunca são os mesmos gestos; porque um amante, quando animado do verdadeiro amor, é capaz de vencer séculos e séculos de ciência amorosa. Quantas mudanças de tempo, quantas variações de maturidade e de inocência, de arte e de perversidade…

Discutimos até à exaustão para saber como seria o senhor. Se fechou os sentidos à seda, à luz, à cor, ao cheiro, ao carácter, ao temperamento, deve estar nesta altura totalmente empedernido. Há tantos sentidos menores que se lançam como afluentes no rio do sexo!

Só o bater em uníssono do sexo e do coração pode provocar o êxtase.»

Anaïs Nin, 1941

Anaïs Nin

Anaïs Nin nasceu em 1903 em Neully-sur-Seine, filha do pianista espanhol nascido em Cuba, Joaquín Nin y Castellanos e da cantora dinamarquesa Rosa Culmell. Desde os onze anos que escreveu continuamente o seu diário até 1977.
Em 1932 conhece Henry Miller, em Paris. Desse encontro nascerá uma célebre relação amorosa (parcialmente descrita em Henry e June) e intelectual. Anaïs Nin redige o prefácio para o livro de Miller Trópico de Câncer e ambos escrevem Contos Eróticos. Alguns aspectos da intensa vida da escritora acabam por ser revelados em 1992, através da edição do volumoso Diário Inexpurgado referente a 1932-1934 e editado sob o título Incesto. De facto, os textos anteriormente publicados, os do Diário de 1966, haviam sido expurgados de nomes de personagens vivos e de certas intimidades, privilegiando a estética literária.
Além dos referidos volumes diarísticos, a escritora publicou Debaixo de Uma Redoma (1944), Os Espelhos o Jardim (1946), Uma Espia na Casa do Amor (1954) e Sedução do Minotauro (1961).
Anaïs Nin morreu em Los Angeles, no ano de 1977.

DELTA DE VENUS: HISTORIAS EROTICASEm Delta de Venus, Histórias eróticas, Anaïs Nin adentra na vida de prostitutas que satisfazem os mais estranhos desejos de seus clientes. Mulheres que se aventuram com desconhecidos para descobrir sua própria sexualidade. Triângulos amorosos e orgias. Modelos e artistas que se envolvem num misto de culto ao sexo e à beleza. Aristocratas excêntricos e homens que enlouquecem as mulheres. Estes são alguns dos personagens que habitam os contos – eróticos – de Delta de Vênus, de Anaïs Nin. Escritas no início da década de 40 sob a encomenda de um cliente misterioso, estas histórias se passam num mundo europeu-aristocrático decadente, no qual as crenças de alguns personagens são corrompidas por novas experiências sexuais e emocionais. Discípula das descobertas freudianas, Anaïs Nin aplicou nestes textos a delicadeza de estilo que lhe era característica e a pungência sexual que experimentou na sua própria vida. Mais do que contos eróticos, Delta de Vênus oferece ao leitor histórias de libertação e superação. (Fonte Travessa.com).

Anaïs Nin - Prefácio de Delta de Vénus
(tradução do original: Paulo J. Lourenço)
Abril, 1940

Um coleccionador de livros ofereceu cem dólares por mês a Henry Miller para que ele escrevesse histórias eróticas. Pareceu-me um castigo dantesco condenar Henry a escrever erótica a um dólar por página. Ele revoltou-se porque o seu sentimento era o oposto de um Rabelais. Escrever por encomenda era uma ocupação castrante e escrever com um voyeur a espreitar pelo buraco da fechadura tirava toda a espontaneidade e prazer das suas aventuras.

Dezembro, 1940

Henry contou-me acerca do coleccionador. Por vezes almoçavam juntos. O coleccionador comprou um manuscrito a Henry e sugeriu-lhe que escrevesse para um dos seus antigos e abastados clientes. Ele não podia dizer muito acerca do seu cliente excepto que estava interessado em erótica.

Henry começou a escrever alegremente, na brincadeira. Inventou histórias malucas que o faziam rir. Encarou a tarefa como uma experiência e, de início, parecia fácil mas ao fim de algum tempo a experiência abateu-se sobre ele. Não desejava tocar em nenhum do material que tinha reservado para o seu trabalho sério e assim ficou condenado a forçar as suas invenções e a sua disposição.

Nunca recebeu uma palavra de reconhecimento do seu estranho patrono. Podia ser natural que não desejasse revelar a sua identidade mas Henry começou a provocar o coleccionador. Este patrono existia de facto? Estas páginas eram para o próprio coleccionador para temperar a sua própria vida melancólica? Seriam o coleccionador e o patrono uma e a mesma pessoa? Henry e eu discutimos isto longamente, simultaneamente confusos e divertidos.

por esta altura, o coleccionador anúncio que o seu cliente viria a Nova Iorque e que Henry se encontraria com ele. Mas, de alguma forma, este encontro acabou por nunca se concretizar. O coleccionador era generoso em descrições sobre como enviava os manuscritos por correio aéreo, quanto custavam os envios, pequenos detalhes com a intenção de acrescentar realismo às pretensões que ele fazia acerca da existência do seu cliente.

Um dia ele quis uma cópia de «Black Spring» com uma dedicatória. Henry disse-lhe:
- “Mas eu pensava que me tinha dito que ele já possuía edições assinadas de todos os meus livros”.
- “Ele perdeu a cópia de «Black Spring».”
- “A quem devo dedicá-la?” - perguntou Henry inocentemente.
- “Escreva apenas «a um bom amigo» e assine o seu nome”.

Algumas semanas depois Henry precisou de uma cópia de «Black Spring» e não encontrou nenhuma. Decidiu pedir emprestada a cópia do coleccionador e dirigiu-se ao seu escritório. O secretário pediu-lhe para esperar. Começou a passar os olhos pelos livros que estavam nas prateleiras. Viu uma cópia de «Black Spring». Retirou-a. Era aquela que ele havia dedicado “a um bom amigo”.

Quando o coleccionador apareceu, Henry mencionou este facto, rindo-se. Igualmente de bom humor o coleccionador explicou:
- “Oh, sim! O velhote ficou tão impaciente que lhe mandei a minha cópia enquanto esperava que assinasse esta. Tenho a intenção de trocar as cópias quando ele voltar a Nova Iorque”.

Henry disse-me quando nos encontrámos:
- “Estou mais estupefacto que nunca”.

Quando Henry perguntou qual estava a ser a reacção do seu patrono à sua escrita a resposta foi:
- “Oh, ele gosta de tudo. É tudo maravilhoso mas ele prefere a narrativa, apenas o contar da história. Nada de análises, nada de filosofia”.

Quando Henry precisou de dinheiro para as suas despesas de viagem sugeriu-me que eu escrevesse. Senti que não queria dar nada de genuíno e decidi criar uma mistura de histórias que tinha ouvido e invenções, fazendo de conta que eram do diário de uma mulher. Nunca cheguei a conhecer o coleccionador. Ele deveria ler as minhas páginas e dizer-me o que pensava. Hoje recebi um telefonema. Uma voz disse:
- “Está bom mas deixe de lado as descrições e as poesias de tudo o que não seja sexo. Concentre-se no sexo”.

Assim, comecei a escrever de forma falaciosa, tornei-me mais grotesca, inventiva e tão exagerada que pensei que ele percebesse que estava a caricaturizar a sexualidade. Mas não houve nenhum protesto. Passei dias na biblioteca a estudar o “Kama Sutra” e ouvi as aventuras mais extremas de amigos.

- “Menos poesia” - disse a voz pelo telefone. “Seja específica”.

Mas alguma vez alguém tirou prazer de ler uma descrição clínica? O velhote não saberia como as palavras carregam consigo as cores e os sons para a carne?

Todas as manhãs, depois do pequeno-almoço me sentava e escrevia a minha porção de erótica. Uma manhã escrevi “Havia um aventureiro húngaro…” e dei-lhe muitas vantagens: beleza, elegância, graça, charme, os talentos de um actor, conhecimentos de muitas línguas, um dom para a intriga e para sair de dificuldades e um dom para evitar a permanência e a responsabilidade.

Outra chamada telefónica:
- “O velhote está satisfeito. Concentre-se no sexo. deixe de lado a poesia”.

Isto foi o início de uma epidemia de “diários” eróticos. Toda a gente escrevia as suas experiências sexuais. Inventadas, ouvidas, investigadas no Krafft-Ebing e livros clínicos. Tínhamos conversas cómicas. Contávamos uma história e os restantes de nós tinham que decidir se era verdadeira ou não. Ou plausível. Seria isto plausível? Robert Duncan ofereceria-se para experimentar, para testar as nossas invenções, confirmar ou negar as nossas fantasias. Todos nós precisávamos de dinheiro e assim juntámos as nossas histórias.

Eu tinha a certeza de que o velhote não sabia nada sobre as beatitudes, os êxtases, as fantásticas reverberações dos encontros sexuais. Deixe de lado a poesia era sua mensagem. Sexo clínico, despido de todo o calor do amor - a orquestração de todos os sentidos, toque, audição, olhar, palato; todos os acompanhamentos eufóricos, a música de fundo, os estados de alma, atmosfera, variações - forçavam-no a recorrer a afrodisíacos literários.

Poderíamos ter forjado melhores segredos para lhe contar, mas ele seria surdo a tais segredos. Porém, um dia, quando ele se saturasse dir-lhe-ia como ele quase nos fez perder o interesse na paixão, devido à sua obsessão com gestos esvaziados das suas emoções e como o tínhamos vituperado porque ele quase nos tinha feito tomar votos de castidade porque aquilo que ele tinha desejado que exluíssemos era o nosso próprio afrodisíaco-poesia.

Recebi cem dólares pela minha erótica. Gonzalo precisava de dinheiro para o dentista, Helba de um espelho para a sua dança e Henry dinheiro para a sua viagem. Gonzalo contou-me a história do Basco e Bijou e eu escrevia-a para o coleccionador.

Fevereiro, 1941

A conta telefónica estava por pagar. A teia das dificuldades económicas estava a fechar-se sobre mim. Toda a gente à minha volta irresponsável, insconsciente do afundar do barco. Escrevi trinta páginas de erótica.

Novamente acordei para a consciência de estar sem um cêntimo e telefonei ao coleccionador. O seu cliente rico tinha-lhe dito alguma coisa acerca do último manuscrito que lhe tinha enviado? Não, ele não tinha, mas ele ficaria com o último que havia escrito e pagar-me-ia por ele. Henry precisava de ir ao médico. Gonzalo precisava de óculos. Robert apareceu com B. e pediu-me dinheiro para ir ao cinema. Os restos da janela cairam sobre o papel e o meu trabalho. Robert apareceu e levou a minha caixa de papel de escrita. O velhote não estaria já cansado de pornografia? Não se daria um milagre? Comecei a imaginá-lo a dizer “Dêem-me tudo o que ela escreve, quero tudo, gosto de tudo. Vou mandar-lhe um grande presente, um grande cheque por todo o trabalho que ela teve”.

A minha máquina de escrever estava estragada. Com cem dólares no meu bolso recuperei o meu optismo. Disse a Henry:
- “O coleccionador diz que gosta de mulheres simples e não intelectuais, mas convidou-me para jantar”.

Tinha um pressentimento que a caixa de Pandora continha os mistérios da sensualidade feminina, tão diferente da do homem e para a qual a linguagem do homem era inadequada. A linguagem do sexo ainda teria que ser inventada. A linguagem dos sentidos ainda tinha que ser explorada. D. H. Lawrence começou a dar uma linguagem ao instinto, ele tentou escapar ao clínico, ao científico, que apenas capturam o que o corpo sente.

Outubro, 1941

Quando Henry regressou fez uma série de afirmações contraditórias. Que ele conseguia viver de nada, que se sentia tão bem que até podia arranjar um emprego, que a sua integridade o impedia de escrever cenários em Hollywood, até que, por fim, eu disse:
- “E que tal sobre a integridade de escrever erótica a troco de dinheiro?”

Henry riu, admitiu o paradoxo, as contradições. Riu e deixou o assunto.

A França teve uma tradição de escrita erótica num estilo fino e elegante. Quando comecei a escrever para o coleccionador pensei que haveria uma tradição semelhante aqui mas não encontrei mesmo nenhuma. Tudo o que vi era inferior, escrito por escritores de segunda. Nenhum bom escritor havia sequer tentado erótica.

Disse a George Barker como Caresse Crosby, Robert, Virginia Admiral e outros estavam a escrever. Apelou ao seu sentido de humor a ideia de eu ser a “madame” desta snob casa de prostituição literária, da qual a vulgaridade era excluída. Rindo, disse-lhe:
- “Eu forneço o papel e o quimico, entrego o manuscrito anonimamente, protejo o anonimato de toda a gente”.
George Barker achou que isto era muito mais humorado e inspirador que mendigar, pedir emprestado ou pedinchar refeições aos amigos. Juntei poetas à minha volta e todos nós escrevemos erótica linda. Como estávamos condenados a concentrarmo-nos apenas na sensualidade tínhamos violentas explosições de poesia. Escrever erótica passou a ser um caminho para a santidade em vez de ser um caminho para o deboche. Harvey Breit, Robert Duncan, George Barker, Caresse Crosby, todos concentrámos de tal forma os nossos esforços num tour de force (em francês no original), fornecendo ao velhote uma abundância de momentos de felicidade perversos, que agora ela suplicava por mais.

Os homossexuais escreviam como se fossem mulheres. Os tímidos escreviam acerca de orgias. As frígidas sobre satisfações alucinadas. Os mais poéticos condescendiam em bestialidade pura e os mais puros em perversões. Estávamos assombrados pelos maravilhosos contos que não conseguíamos contar. Sentávamo-nos, imaginávamos como sria o velhote, falávamos de como o odiávamos por ele não nos permitir uma fusão entre sexualidade e sentimento, sensualidade e emoção.

Dezembro, 1941

George Barker era muito pobre. Ele queria escrever mais erótica. Escreveu oitenta e cinco páginas. O coleccionador achou-as demasiado surreais. Eu adorei-as. As suas cenas de amor eram loucas e fantásticas. Amor entre trapézios.
Gastou o seu primeiro dinheiro em bebida e eu não lhe podia emprestar mais nada para além de mais papel e mais papel-quimico. George Barker, o excelente poeta inglês, escrevendo erótica para beber, tal como Utrillo pintou quadros em troca de garrafas de vinho. Comecei a pensar no velho que todos detestávamos. Decidi escrever-lhe, dirigir-me a ele directamente, contar-lhe sobre o que sentíamos.

“Caro coleccionador, odiamo-lo. O sexo perde todo o seu poder e magia quando se torna explícito, mecânico, repetitivo, quando se torna numa obsessão mecânica. Torna-se uma seca. Ensinou-nos mais do que qualquer outra pessoa que conheça, como é errado não o misturar com emoção, fome, desejo, luxúria, tiques, caprichos, personalidades, relações mais fundas que mudam a sua cor, sabor, ritmos e intensidades.
Você não sabe o que perde por causa do seu exame microscópico da actividade sexual excluída dos aspectos que são o combustível que produzem a ignição. Intelectual, imaginativo, romântico, emocional. É isto que dá ao sexo as suas texturas surpreendentes, as suas transformações subtis, os seus elementos afrodisíacos. Você está a limitar o seu mundo de sensações. Está a destruí-lo, a matá-lo à fome, a drenar o seu sangue.
Se você alimentar a sua vida sexual com todas as excitações e aventuras que o amor injecta na sensualidade, você seria o homem mais potente do mundo. A fonte da potência sexual é a curiosidade, a paixão. Você está a ver a sua pequena chama morrer de asfixia. O sexo não se alimenta de monotonia. Sem sentimento, invenções, estados de alma, sem surpresas na cama. O sexo deve andar misturado com lágrimas, gargalhadas, palavras, promessas, cenas, ciúme, inveja, , todas as especiarias do medo, de uma viagem ao estrangeiro, novas faces, romances, histórias, sonhos, fantasias, música, dança, ópio, vinho.
Quanto você perde por causa desse periscópio na ponta do seu sexo, quando podia ter um harém de maravilhas diferentes, nunca repetidas! Não existem dois fios de cabelo iguais, mas você não nos deixa gastar palavras para descrever o cabelo. Não há dois odores iguais, mas se nos expandimos nisso você grita-nos “Cortem a poesia!” Não há duas peles com a mesma textura e nunca a mesma luz, temperatura, sombras, nunca o mesmo gesto. Um amante, quando é excitado por amor verdadeiro, pode percorrer toda a gama de séculos de conhecimento sobre o amor. Que extensão, que mudanças de idade, que variações de maturidade e inocência, perversidade e arte…
Sentámo-nos durante horas perguntando-nos como seria o seu aspecto. Se você fechou os seus sentidos à seda, luz, cores, odores, carácter, temperamento, por esta altura já deve ter mirrado por completo. Há tantos sentidos menores, todos correndo, como tributários do curso principal do sexo, alimentando-o. Apenas o batimento em uníssono do sexo e do coração pode criar extâse”.

POST-SCRIPTUM

Na altura em que escrevíamos erótica a um dólar por página apercebi-me que, durante séculos, só havíamos tido um modelo para este género literário: a escrita dos homens. Já estava consciente de uma diferença entre o tratamento masculino e feminino da experiência sexual. Sabia que havia uma grande disparidade entre a explicitude de Henry Miller e as minhas ambiguidades entre os seus humores e a visão Rabelaisiana do sexo e as minhas descrições poéticas do sexo nas porções não publicadas do diário. Como escrevi no “Volume III” do “Diário”, tinham um pressentimento que a caixa de Pandora continha os mistérios da sensualidade feminina, tão diferente do homem e para a qual a linguagem do homem era inadequada.

As mulheres, pensava eu, estavam mais aptas a fundir sexo com emoção, com o amor, e a preferirem um homem em vez de serem promíscuas. Isto tornou-se aparente para mim á medida que escrevia os contos e o “Diário”, e vi-o mais claramente ainda depois de começar a leccionar. Mas, apesar de a atitude das mulheres em relação ao sexo fosse bastante distinta da dos homens, ainda não tínhamos aprendido a escrever sobre ela.

No género erótico escrevia para entreter, sob pressão de um cliente que desejava que eu “deixasse de lado a poesia”. Eu acreditei que o meu estilo derivava da leitura de obras escritas por homens. Por esta razão durante muito tempo senti que havia comprometido o meu eu feminino. Pus o género erótico de lado. Relendo-o após todos estes anos vejo que a minha própria voz não fôra totalmente suprimida. Em numerosas passagens estava intuitivamente a usar uma linguagem feminina, a ver a experiência sexual a partir de um ponto de vista feminino. Finalmente decidi enviar a minha escrita erótica para publicação porque mostra os primeiros esforços de uma mulher num mundo que havia sido o domínio dos homens.

Se a versão integral do “Diário” fôr algum dia publicada, este ponto de vista feminino será estabelecido de forma mais clara. Mostrará que as mulheres (e eu, no “Diário”) nunca separaram sexo do sentimento, do amor do Homem completo.

Anais Nin

Los Angeles

Setembro, 1976″

Fonte Adlocutio

29/12/2008 - 19:25h A poesia de Bárbara Lia

Renée Magritte

http://keynes.scuole.bo.it/ipertesti/arte_cinema/opera3magritte.jpg

PROFANA

A cor do amor é branca,

e o amor tem uma covinha do lado direito do rosto

e o amor me olha como alguém

que jamais vai tirar a minha calcinha

e gozar o céu dentro de mim.

O amor sempre vai me olhar

como se eu estivesse num altar de papel.

Para o amor, eu sou uma rima

e rima não tem vagina.

Para o amor, eu sou uma ode

com uma ode ninguém fode.

Eu sou um verso alexandrino

jamais tocado pelo herdeiro deste nome.

Eu sou a palavra, e a palavra, a palavra é Deus

Deus ninguém come, mas

será que beber

pode?

Fico equilibrando a vida, como seus dedos ontem — Equilibrando-se, brancos nas cordas, na mais bela dança. Foram eles que me puxaram para perto naquela noite no palco do Hermes. Foi brancura de luz que é só beleza. Eu sei que muito tempo vai passar, sem que eu veja algo mais belo que suas mãos e sem que eu deseje ser outra pessoa, que não ela, que te tirou o cabaço, baby… Pois soa no final com uma certeza lúdica, que você a amou.

Não só o corpo entende? Como se eu quisesse um fiapo da eternidade que ela teve. Que ela queria apenas como aconchego, e que eu quero como amor…

Estas luzes que são teus dedos, como um manto de mariposas, que eu fosse um mundo inteiro para elas valsarem quando você pousasse no corpo antigo, judiado, esquecido e triste, que te alisa em um travesseiro branco, teus dedos brancos, a primavera inteira.

BEIJA SUAVE A MINHA NUCA

…”demorei a entender que és mulher

e carregas outonos na nuca”

Luiz Felipe Leprevost, em Ode Mundana

Uma pinta de beleza

brotou sob o seio esquerdo,

para o menino

devorador de sinais de beleza.

Rito de oferta,

olhando este corpo mascavo com digitais

impressas,

buscando um poro virgem para plantar

a pétala,

e te oferecer depois

— rosa a ser desvirginada —

Um dia, li os versos epifânicos,

do amigo solar — profeta

sem saber —

que há em mim apenas outonos

para esfriar verões de acordes…

e o amigo do amigo solar

nem sabe,

do mantra que eu repeti meses a fio,

a caminhar por ruas e corredores e

antes de adormecer, recitando suave

como prece:

beija suave a minha nuca!

beija suave a minha nuca!

beija suave a minha nuca!…

de outonos adornada… e a pinta recém-nata,

gota de meu coração que vazou sobre a pele,

ou um prêmio extra que trouxe destas noites

em que adentro oceanos estranhos

e te procuro entre as estrelas naufragadas.

Bárbara Lia é professora de História e escritora. Vive em Curitiba-PR. Publicou os livros de poesia O sorriso de Leonardo (Curitiba: Kafka Edições Baratas, 2004); Noir (Curitiba: Ed. independente, 2006) e O sal das rosas (São Paulo, Lumme Editor, 2007). Fonte Germina.

28/12/2008 - 19:06h Lira do amor romântico

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Carlos Drummond de Andrade

Atirei um limão n’água
e fiquei vendo na margem.
Os peixinhos responderam:
Quem tem amor tem coragem.

Atirei um limão n’água
e caiu enviesado.
Ouvi um peixe dizer:
Melhor é o beijo roubado.

Atirei um limão n’água,
como faço todo ano.
Senti que os peixes diziam:
Todo amor vive de engano.

Atirei um limão n’água,
como um vidro de perfume.
Em coro os peixes disseram:
Joga fora teu ciúme.

Atirei um limão n’água
mas perdi a direção
Os peixes, rindo, notaram:
Quanto dói uma paixão!

Atirei um limão n’água,
ele afundou um barquinho.
Não se espantaram os peixes:
faltava-me o teu carinho.

Atirei um limão n’água,
o rio logo amargou.
Os peixinhos repetiram:
é dor de quem muito amou.

Atirei um limão n’água,
o rio ficou vermelho
e cada peixinho viu
meu coração num espelho.

Atirei um limão n’água
mas depois me arrependi.
Cada peixinho assustado
me lembra o que já sofri.

Atirei um limão n’água,
antes não tivesse feito.
Os peixinhos me acusaram
de amar com falta de jeito.

Atirei um limão n’água,
fez-se logo um burburinho.
Nenhum peixe me avisou
da pedra no meu caminho.

Atirei um limão n’água,
de tão baixo ele boiou.
Comenta o peixe mais velho:
Infeliz quem não amou.

Atirei um limão n’água,
antes atirasse a vida.
Iria viver com os peixes
a minh’alma dolorida.

Atirei um limão n’água,
pedindo à água que o arraste.
Até os peixes choraram
porque tu me abandonaste.

Atirei um limão n’água.
Foi tamanho o rebuliço
que os peixinhos protestaram:
Se é amor, deixa disso.

Atirei um limão n’água,
não fez o menor ruído.
Se os peixes nada disseram,
tu me terás esquecido?

Atirei um limão n’água,
caiu certeiro: zás-trás.
Bem me avisou um peixinho:
Fui passado para trás.

Atirei um limão n’água,
de clara ficou escura.
Até os peixes já sabem:
Você não ama: tortura.

Atirei um limão n’água
e caí n’água também
pois os peixes me avisaram,
que lá estava meu bem.

Atirei um limão n’água,
foi levado na corrente.
Senti que os peixes diziam:
Hás de amar eternamente.

25/12/2008 - 20:30h Morre Prêmio Nobel de Literatura Harold Pinter

O Prêmio Nobel de Literatura britânico Harold Pinter morreu aos 78 anos, no Reino Unido, nesta quarta-feira (24)

Carl de Souza/AP
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O dramaturgo Harold Pinter, Nobel de Literatura de 2005, morreu aos 78 anos

Harold Pinter morreu de câncer aos 78 anos.

Pinter sofria de câncer no fígado há vários anos. “Era um grande homem e foi um privilégio viver com ele durante 33 anos”, disse sua mulher, Lady Antonia Fraser, ao jornal “The Guardian”.

Laureado com o Nobel em 2005, o prêmio recompensou um autor que, “em suas obras revela o precipício que se esconde sob a conversa fiada diária e força sua entrada no âmbito fechado da opressão”, afirmou o júri da Academia Sueca na ocasião.

“Nascido em 1930 em Londres, Pinter geralmente é considerado o maior expoente do teatro dramático inglês da segunda metade do século 20″, acrescentou a Academia.

Aos nove anos, foi retirado de Londres durante a Segunda Guerra Mundial e só retornou à cidade três anos mais tarde. A experiência dos bombardeios permaneceu indelével em sua memória, como admitiu muitas vezes.

Em 1957 estreou como dramaturgo com “The Room”. Uma de suas primeiras obras “The Birthday Party” (’A festa de aniversário’, 1957), inicialmente um fracasso, com o passar dos anos se tornou uma de suas peças mais encenadas.

Sua posição enquanto clássico moderno está ilustrada pela criação, a partir de seu nome, de um adjetivo que descreve uma forma de atmosfera e de um entorno particular nas peças de teatro: ‘pinteresque’.

Segundo o comunicado da Academia Sueca há três anos, “no cenário típico de Pinter estão seres que se defendem contra intrusões forâneas ou contra os próprios impulsos, entrincheirando-se em uma existência reduzida e controlada”.

“Outro tema principal é o caráter fugitivo e inalcançável do passado”, prosseguia a nota de anúncio do vencedor da Academia.

Desde 1973, Pinter também era conhecido como um fervoroso defensor dos direitos humanos.

Além disso, também escreveu novelas radiofônicas e roteiros para cinema e televisão. Entre seus trabalhos mais conhecidos nesta área estão ‘The Tailor of Panama’ (’O alfaite do Panamá’, 2001),’ The Handmaid’s Tale’ (1990), ‘Accident’ (1967), ‘The French Lieutenant’s Woman’ (’A mulher do tenente francês’,1981) ou ‘Breaking the Code’ (1996). (Fonte France Presse e Folha Online)

Harold Pinter abraçou causas e foi contra invasão do Iraque

PEDRO ALONSO da Efe, em Londres - Folha Online

O célebre dramaturgo britânico e eterno rebelde Harold Pinter, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura em 2005, morreu em Londres aos 78 anos após uma longa batalha contra o câncer.

A voz de Pinter, um dos escritores do Reino Unido mais influentes da segunda metade do século 20, se apagou para sempre nesta quarta-feira, segundo informou hoje sua segunda mulher, a também escritora Antonia Fraser.

Max Nash/AP
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Dramaturgo inglês Harold Pinter, ganhador do Nobel, morreu nesta quarta-feira

“Ele foi grande”, disse ela em uma breve declaração, na qual ressaltou que foi “um privilégio viver com ele durante 33 anos” e que Pinter “nunca será esquecido”.

A doença já impediu o dramaturgo este mês de ir a sua posse como doutor honoris causa na Central School of Speech and Drama de Londres.

O escritor ganhou vários prêmios, como a Legião de Honra da França, mas destacou-se acima de tudo pela conquista do Prêmio Nobel de Literatura em 2005.

Iraque

“Estou muito comovido. É algo que não esperava”, comentou um Pinter já com a saúde frágil na porta de sua casa em Londres, após saber de sua conquista do Nobel.

Por recomendação médica, Pinter não pôde assistir à cerimônia de entrega do prestigioso prêmio em Estocolmo, mas gravou seu discurso de aceitação, no qual, como vinha fazendo nos últimos anos, dedicou suas críticas políticas mais ácidas à Guerra do Iraque, na qual o Reino Unido foi fiel seguidor dos Estados Unidos.

“A invasão do Iraque foi um ato de bandidos, um ato de flagrante terrorismo de Estado que demonstrou um desprezo absoluto do conceito de normativa internacional”, afirmou Pinter, visivelmente débil e utilizando uma cadeira de rodas.

Sem papas na língua e mais rebelde do que nunca, o dramaturgo aproveitou o Nobel para pedir o processo do presidente dos EUA, George W. Bush, e do ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair por crimes de guerra.

Durante sua vida, o autor, que se sentia obrigado a assumir uma posição política como “cidadão do mundo”, abraçou outras causas como o desarmamento nuclear, a defesa de Cuba frente ao embargo americano e a rejeição ao bombardeio da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) na Sérvia em 1999.

Vida de prazer

Filho de um alfaiate judeu imigrante da Europa Oriental, Pinter nasceu em 10 de outubro de 1930 em Hackney, bairro popular do leste de Londres.

O gênio teatral teve um filho, Daniel, fruto de seu casamento com a atriz Vivien Merchant, de quem se divorciou em 1980 para casar-se com Antonia Fraser.

Pouco amigo dos eruditos tendentes ao excesso interpretativo de suas obras, Pinter dizia que sua vida literária era “uma vida de prazer, desafio e entusiasmo”.

Figura única

Após o anúncio da morte do artista, que descrevia a si próprio como “dramaturgo, diretor, ator, poeta e ativista político”, o mundo da cultura britânica chorou sua perda e exaltou seus talentos e méritos profissionais.

“Foi uma figura única no teatro britânico. Dominou a cena teatral desde os anos 50″, afirmou Alan Yentob, diretor da “BBC”.

Na opinião de Tim Walker, crítico do jornal “Sunday Telegraph”, Pinter “forneceu realismo” às artes cênicas mediante obras “com prolongados silêncios, nos quais os personagens nem sempre iam a algum lugar, como na própria vida real”.

Por sua vez, o amigo e autor de uma biografia sobre Pinter, Michael Billington, declarou-se “devastado” pela morte do dramaturgo, a quem descreveu como um “lutador” no terreno artístico e político.

Após publicar em 1957 sua primeira obra, “O Quarto”, Pinter iniciou uma carreira na qual escreveu 29 peças teatrais, mais de 20 roteiros para cinema (entre eles para o diretor americano Joseph Losey), uma infinidade de trabalhos radiofônicos e televisivos, poesia, ensaios, um romance e curtos relatos de ficção.

Entre títulos inesquecíveis de Pinter, pertencente à geração dos Jovens Irados britânicos, destacam-se peças teatrais como “The Birthday Party”, “The Caretaker” e “Old Times”.

Seu estilo peculiar, cheio de silêncios em dramas marcados por uma linguagem ambígua e, às vezes, cômica, mas que gera um ambiente de ameaça e alienação, se cunhou como “pinteresco”, adjetivo admitido pelo dicionário de inglês da Universidade de Oxford.

25/12/2008 - 16:56h Papai Noel

http://santaschristmaspics.com/images/sexy_girl/2nw1ys7%5B1%5D.gifhttp://i133.photobucket.com/albums/q66/cdstone57/christmas_animated_gifs_10.gif


 Verissimo - O Estado de São Paulo e O Globo

A luta de classes - lembra dela? - voltou. Dizem que quem compra em lojas de grife na Quinta Avenida de Nova York está pedindo para botarem as compras em sacolas de supermercado, para evitar olhares raivosos na rua. A revolta com os “fat cats”, gatos gordos, cuja desonestidade e incompetência estão pondo abaixo a economia americana, foi atiçada quando os executivos das três maiores montadoras de carro do país chegaram a Washington para pedir dinheiro ao governo, cada um no seu jato particular. A desculpa era que teriam ido de carro se seus carros fossem de confiança. Revelou-se que muitas das financeiras subsidiadas para não falirem estão usando parte da ajuda para dar as regalias e os milionários abonos de sempre aos seus executivos. O socorro ao capital financeiro mundial lembra aqueles programas adotados em países que em vez de combater o comércio de drogas dão dinheiro para o usuário manter seu vício sem precisar recorrer ao crime. As financeiras estão sendo pagas com dinheiro público para manter seus maus hábitos. Acho que foi o Paul Krugman quem escreveu, estes dias, que a única diferença entre o esquema do megavigarista Bernard Madoff e o que, em essência, faz todo o setor foi que o Madoff se autodenunciou. Senão, ele também acabaria recebendo dinheiro para sustentar seu vício.

RESPOSTA

http://www.funmunch.com/events/christmas/christmas_graphics/animated_gifs/christmas_myspace_animated8.gif

Espero que não tenha acontecido com você o que aconteceu comigo. Papai Noel respondeu ao e-mail que mandei com meus pedidos de Natal, mas num tom irritado que em nada lembrava o jovial velhinho. Sarcástico, perguntou se eu tinha alguma idéia do que significaria, em termos de negociações, propostas e contrapropostas, inclusive com o marido - para não falar na logística da adequação dos seus contratos profissionais e, ainda por cima, a dificuldade para embrulhá-la adequadamente e colocá-la embaixo da árvore - ele me dar a Catherine Zeta-Jones de presente. Argumentou que meu pedido estava completamente fora da realidade e que eu aparentemente não lia os jornais, senão saberia do seu total engajamento numa missão que exige toda a sua energia e todo o seu tempo: nada mais nada menos do que a salvar o sistema capitalista mundial. Contou que tinha sido recrutado para distribuir sacos e sacos de dinheiro a grandes empresas ameaçadas de falência e não tinha condições para atender aos pedidos sequer de bonecas de pano, o que diria de presentes mais caros como o meu, neste Natal. Estava convencido de que sua ajuda seria importante, talvez decisiva, mas temia que ela o debilitasse, financeiramente de maneira irreversível. “No próximo Natal estarei falido - e quem será o meu Papai Noel?”, perguntou, antes de me xingar de novo.

CONSOLO

(Da série Poesia numa Hora Dessas?!) Console-se, é evidente: um dia ainda vamos rir de tudo isto histericamente.

20/12/2008 - 20:04h Pornografia e Erotismo

Fonte Germina Literatura — Revista virtual de literatura e arte editada por Lucia Farias, Silvana Guimarães e Mariza Lourenço. Publica ensaios, resenhas e tem excelentes antologias de poesia e contos em seções como Uns, Outros, Poucos, Raros. Estes textos a seguir são da seção eróticos&pornográficos

por Dirceu Villa

Introdução

Tendo em vista evitar uma distinção de valor absolutamente ridícula, que vários teóricos e artistas propuseram (Boris Vian e José Paulo Paes, por exemplo) entre pornográfico e erótico, em que o pornográfico se destinaria pura e simplesmente ao estímulo sexual e o erotismo abocanharia a parte “nobre“, refinada e artística¹, entendamo-nos: erótico é um texto de poses, calculados subterfúgios que representam a sexualidade, e pornográfico é aquele que fala francamente, com todas as tão temidas palavras. Ambos igualmente artísticos, ambos podem igualmente ser bons ou maus, como o gentil leitor e a não menos gentil leitora poderão julgar adiante.

(more…)

19/12/2008 - 15:16h Gotas

Folha Furada

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/images/cp08122008.jpgA Folha está encontrando algum problema para cavar informações, ou publicá-las, quando são negativas para o governo estadual ou a prefeitura de São Paulo. O Estadão está publicando, antes que seu concorrente, artigos sobre o caso Siemens com denúncias de corrupção nos trens e metrô, ambos de responsabilidade do governo estadual. Isto já tinha acontecido com o caso Alstom (publicado primeiro no Wall Street Jornal e depois no Valor e O Globo, só depois na Folha). No caso da Máfia dos Fiscais da Mooca, mesmo com o SPTV e a CBN cobrindo ontem, hoje a Folha não publicou uma linha, diferentemente do JT, Diário SP, O Globo.

 

 

Crise 

brasil_olho.jpgAs previsões sobre a duração da crise econômica mundial, sua intensidade e seu impacto no Brasil variam em cada opinião emitida.

As divergências se explicam, em parte, pela postura política dos veículos de comunicação. Mas também, em certa medida, pelo fator expectativa, como componente de peso da força do descalabro atual dos mercados.

Tanto os otimistas, como os pessimistas, ignoram a força que este fator imprimirá aos acontecimentos. Na ignorância, chutam nos prognósticos e pesam, mesmo sem saber-sabendo , na evolução dos acontecimentos. Aquela história da profecia que se auto-realiza.

Passados alguns meses de intenso pessimismo da mídia e de esforços otimistas do governo, a situação da famosa expectativa, continua equilibrada. Mas nos dois lados não apareceu ninguém para questionar os fundamentos sólidos da situação do Brasil e o acerto das medidas tomadas pelo governo Lula. Salvo na retórica ou na margem.

Um bom ponto para construir consensos.

 

 

Dinheiro na mão

http://tribunadonorte.com.br/fotos/29454.jpg

Coluna Mónica Bergamo - Folha SP
O ministro do Turismo, Luiz Barretto, se reúne hoje com o secretário estadual Claury Alves da Silva e com Caio de Carvalho, da SP Turis, para discutir a adesão de São Paulo a uma linha de crédito do Programa de Desenvolvimento do Turismo (Prodetur). O Estado pode pleitear até US$ 100 milhões do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) para projetos nessa área, mas não apresentou nenhum pedido. Dos 27 Estados, 19 estão no programa. (Foto ministro Luiz Barretto)

 

 

Taj Mahal

http://cache02.stormap.sapo.pt/fotostore02/fotos//4b/ae/8f/14632_0001qwqh.jpg

As árvores perderam as folhas no outono.
Coração de pedra, vento frio, amor eterno.
Toma-me tudo que se espalha pelo chão.
Deito-me de lado, pendo a cabeça,


aguardo


o toque dos seus lábios no branco lírio desse mármore

 

***

 

Pela janela

Essa noite

Você

http://www.masterworksfineart.com/inventory/rouault/original/rouault1150.jpg

calor do vento
entrou pela janela e
soprou seu hálito
quente
em mim.

Umedeci.

 

***

Ele faz com os olhos.
Aqui, de longe,
Tremo inteira quando pisca.

Adriana Versiani
(Ouro Preto-MG, 1963).
Co-editora das publicações Dazibao.
Foi co-editora da coleção Poesia Orbital e do Jornal Inferno.
Pertence ao conselho editorial da revista Ato.
Publicou O barquinho pelo mar, A física dos Beatles e Dentro passa

 

 

Gotas, por Luis Favre

18/12/2008 - 21:17h Solidão

Guilherme Bergamini

 

Tonico Mercador

 

 

Tratado
oblíquo
da
solidão

 

 

 

 

   1   
(solidão)
sol sem luz
quando se está só e
(avassaladoramente)  
mal acompanhado.

  (solidão)
dia sem sol  
quando se está só  
sem o próprio corpo  
(sua bengala).
 

(solidão)
sombra do sol quando se está só
e são  (no mundo)
mudo e morto.

2
comparada à minha, a solidão dos outros
é cortina opaca de banheiro
rosa murcha entre seios lembrança
apagada em lençóis
de gelo.

minha solidão é como um deus
sem cara sem sexo sem tamanho
em um pequeno mundo efêmero.

3

minha solidão é maior do que a (solidão) da minha mulher
do que a (solidão) dos meus filhos do que a (solidão)
dos que ainda não nasceram
 

minha solidão é maior do que
a (solidão) dos amigos que deixei de beijar
(enquanto eram amigos) maior do que a (solidão) dos inimigos
que deixei de matar
(enquanto eram vivos)

minha solidão é a
(solidão) dos que estão suspensos
entre a lembrança e o esquecimento
sem pontes tapetes arames fios de navalha (nem isso).

6

solidão apavora (ou inspira?)
solidão devora e vomita

solidão enregela (ou dinamita?)
solidão é escuro e ausência

solidão é silêncio (ou abismo?)
solidão é desejo e desolação

solidão é espera (ou suicídio?)
solidão é avesso e abandono

solidão é pergunta (ou escolha?)
solidão é falta e disfarce

solidão é leito seco
de um rio seco rio sem leito
ou leito sem rio
sem corpos úmidos deitados nele?

11
dizem que a solidão
é fumaça de cigarro
numa sala muda

mulher nua
e seu batom
abandonados no tapete  

         luz de abajur 
tão distante que a
mão não alcança

homem e seu destino
na escuridão
da página em branco.

 

23

                            meus filhos longe
         dos meus abraços
         (longe)
         dos meus olhos
         envelhecendo longe
         de mim
         dos meus rios
         florestas
         mares ladeiras
         bares
         cafés da manhã 

                            eu tão longe de mim
         dos meus sonhos
         da lua (imóvel)
         na moldura da janela
         da sirene da polícia
         do motor da cidade 

                            eu só
         (tão longe)
         a música esculpindo (cenários)
         memórias

         (totens) para a saudade longínqua.


Tonico Mercador, poeta e jornalista, autor de diversos
livros, entre eles Perversos. tmercador@mac.com

Fonte revista electronica Tanto

17/12/2008 - 17:29h Poema didático

José P. di Cavalcanti Jr

Explicar-te como te amo?…
Bom, comecemos pela cor do vento…

 

 

foto de Kevin Temple

 

 

 

Mas há a vida

Clarice Lispector

Mas há a vida
que é para ser
intensamente vivida, há o amor.

Que tem que ser vivido
até a última gota.
Sem nenhum medo.
Não mata.

http://www.voxnr.com/c_images/icono/0708/tetes_nus.jpg

24/11/2008 - 18:23h Reparação poética

Blog do Além - Carta Capital

A coluna Blogs do Além, criada pelo publicitário Vitor Knijnik e que estreou na edição 500 de CartaCapital, procura imaginar como seriam as páginas pessoais de personalidades do passado.

Chega a vez de um dos mais importantes poetas portugueses inaugurar seu diário virtual. Bem-humorado, Fernando Pessoa se apresenta: “uma espécie de Cristiano Ronaldo da poesia portuguesa, só que sem essa coisa de metrossexual, porque de frescura já basta a poesia”.

No seu primeiro post, intitulado “Reparação Poética”, Pessoa afirma não haver mais espaço para a poesia neste mundo. “Não enquanto existirem advogados e o politicamente correto. Depois de longas batalhas judiciais, o Supremo Tribunal Federal deu ganho de causa a uma associação de poetas que me acusou de difamar os que têm por ofício fazer versos”.

Sobre mim

Reparação poética

Não há mais lugar para a poesia neste mundo. Não enquanto existirem advogados e o politicamente correto. Depois de longas batalhas judiciais, o Supremo Tribunal Federal deu ganho de causa a uma associação de poetas que me acusou de difamar os que têm por ofício fazer versos.
Vocês devem se lembrar do poema que serviu para a acusação:

Autopsicografia

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

Esse episódio vem me causando muito desassossego. Realmente, é desafiador fazer poemas dentro desses novos requisitos sociais. Mas não me resta outra escolha. Até porque a sentença me obrigou a reescrever o primeiro verso, que causou tanta celeuma.

Alguns poetas, no intuito de transmitir certos sentimentos, podem, de certa maneira, simular algum desconforto ou dor que eles realmente não estão sentindo. Às vezes nem é por mal. É inconscientemente, mesmo. Só que essa simulação – repito que isso pode acontecer com alguns poetas, e não com a maioria – pode ser tão perfeita, mas tão perfeita, que esse desconforto ou dor passam a ser sentidos de verdade verdadeira por quem fabricou aqueles sentimentos não fabricáveis. Essa dor, inclusive, se persistir, deve ser examinada por um médico especializado. Pois bem: aquilo que tinha começado como uma dor de mentirinha e que depois virou uma dor de verdade, no fundo dos fundilhos era uma dor que já existia como dor, sendo que em nenhum momento o tal poeta dolorido sequer pensou em provocar dor em mais alguém a não ser nele mesmo. Coitado.

Reconheço que perdeu um pouco da graça, mas ficou mais popular, pode até ser adaptado para uma mini-série da Record.

17/11/2008 - 21:05h TODA NUDEZ SERÁ MARMORIZADA

Blog Dentes Surrealistas


por Roberto Bessa

A noite debandava úmida
A luz golpeava meus olhos com lentura
Luz decepada em meu corpo
Luz na ponta do piano fantasmaTudo era gravitante no palácio das tetas
No pequeno jardim dos disfarces
A luz corria solta pela rua

Sugava estrelas da manhã
Manhã de inexistente outono
E velhinhas aparoquiadas

Sentia-me contraste com minha armadura
Sondava o mármore que vestia
Um corpo imprevisto e esgotado
Que se mostrava aos poucos.

collage: A FLAGELAÇÃO DA NOVIÇA

16/11/2008 - 19:49h O último

por Damsi Figueroa

EL ÚLTIMO

Ando buscando un árbol
que de sombra
entre cuyas raíces repose un cuerpo
que ya no lo sea tanto

Ando buscando un árbol
que de una sombra larga
pero profunda

Ando buscando una humedad
que se hunda como un túnel
en la tierra negra

Ando buscando una humedad
olorosa
con olor a sombra y árbol

Ando buscando un libro, seguramente
no un libro abierto sobre dos rodillas

Ando buscando un libro
para no humedecerme las nalgas
cuando me siente bajo la sombra
del árbol que ando buscando.

O ÚLTIMO

Ando à procura de uma árvore
que dê sombra
entre cujas raízes repouse um corpo
que já o não seja muito.

Ando à procura de uma árvore
que dê uma sombra comprida
e profunda

Ando à procura de uma humidade
que se afunde como um túnel
na terra negra

Ando à procura de uma humidade
aromante
com cheiro a sombra e árvore

Ando à procura de um livro, certamente
não um livro aberto sobre dois joelhos

Ando à procura de um livro
para não me humedecerem as nádegas
quando me sentar à sombra
da árvore de que ando à procura.


Damsi Figueroa

Fonte meninas vamos ao vira

13/11/2008 - 19:22h Joyce Mansour

http://farm1.static.flickr.com/131/391555170_3be35969d5.jpg

Joyce Mansour

Invitez-moi à passer la nuit dans votre bouche
Racontez-moi la jeunesse des rivières
Pressez ma langue contre votre œil de verre
Donnez-moi votre jambe comme nourrice
Et puis dormons frère de mon frère
Car nos baisers meurent plus vite que la nuit

Tradução

Convide-me a passar a noite na sua boca
Conte-me a juventude dos rios
Pressione a minha língua contra o seu olho de vidro
Dê-me a sua perna como alimento
E depois durmamos irmão do meu irmão
Porque os nossos beijos morrem mais depressa que a noite.

Joyce Mansour

Les machinations aveugles de tes mains
Sur mes seins frissonnants
Les mouvements lents de ta langue paralysée
Dans mes oreilles pathétiques
Toute ma beauté noyée dans tes yeux sans prunelle
La mort dans ton ventre qui mange ma cervelle
Tout ceci fait de moi une étrange demoiselle

Tradução

As maquinações cegas das tuas mãos
Nos meus seios frementes
Os movimentos lentos da tua língua paralisada
Nas minhas orelhas patéticas
Toda a minha beleza afogada nos teus olhos sem pupila
A morte no teu ventre que come o meu cérebro
Tudo isto faz de mim uma estranha menina.

Fonte Meninas vamos ao vira [trad: aam]

05/11/2008 - 19:30h Já era

Site Releituras

Vivi Fernandes de Lima

Era pra ser um poema de despedida,
mas cadê vontade?
Era pra ter sido uma noite sem bebida,
mas cadê coragem?
Era pra eu esquecer o teu cheiro,
mas ele é tão bom…
Era pra eu não reconhecer a tua voz,
mas eu ainda me arrepio!
Era pra eu ficar em paz,
mas você é muito atento.
Era pra eu não querer te ver nunca mais,
mas nunca mais é muito tempo.

Vivi Fernandes de Lima nasceu em Belford Roxo (RJ). É jornalista e mãe do João. Escreve poesia desde criança, crônicas desde a adolescência e contos desde os 20 e poucos. Em 2002, venceu o Prêmio Carioquinha de Literatura Infantil, promovido pela prefeitura do Rio, com o livro “Cinzão, o gato fujão”. No mesmo ano, teve poemas musicados por Ivan Lins, Leandro Braga e Edmundo Souto. De lá pra cá, vem se preparando para tirar livros da gaveta e pagar contas.
E-mail: vivif7@gmail.com