28/12/2008 - 19:06h Lira do amor romântico

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Carlos Drummond de Andrade

Atirei um limão n’água
e fiquei vendo na margem.
Os peixinhos responderam:
Quem tem amor tem coragem.

Atirei um limão n’água
e caiu enviesado.
Ouvi um peixe dizer:
Melhor é o beijo roubado.

Atirei um limão n’água,
como faço todo ano.
Senti que os peixes diziam:
Todo amor vive de engano.

Atirei um limão n’água,
como um vidro de perfume.
Em coro os peixes disseram:
Joga fora teu ciúme.

Atirei um limão n’água
mas perdi a direção
Os peixes, rindo, notaram:
Quanto dói uma paixão!

Atirei um limão n’água,
ele afundou um barquinho.
Não se espantaram os peixes:
faltava-me o teu carinho.

Atirei um limão n’água,
o rio logo amargou.
Os peixinhos repetiram:
é dor de quem muito amou.

Atirei um limão n’água,
o rio ficou vermelho
e cada peixinho viu
meu coração num espelho.

Atirei um limão n’água
mas depois me arrependi.
Cada peixinho assustado
me lembra o que já sofri.

Atirei um limão n’água,
antes não tivesse feito.
Os peixinhos me acusaram
de amar com falta de jeito.

Atirei um limão n’água,
fez-se logo um burburinho.
Nenhum peixe me avisou
da pedra no meu caminho.

Atirei um limão n’água,
de tão baixo ele boiou.
Comenta o peixe mais velho:
Infeliz quem não amou.

Atirei um limão n’água,
antes atirasse a vida.
Iria viver com os peixes
a minh’alma dolorida.

Atirei um limão n’água,
pedindo à água que o arraste.
Até os peixes choraram
porque tu me abandonaste.

Atirei um limão n’água.
Foi tamanho o rebuliço
que os peixinhos protestaram:
Se é amor, deixa disso.

Atirei um limão n’água,
não fez o menor ruído.
Se os peixes nada disseram,
tu me terás esquecido?

Atirei um limão n’água,
caiu certeiro: zás-trás.
Bem me avisou um peixinho:
Fui passado para trás.

Atirei um limão n’água,
de clara ficou escura.
Até os peixes já sabem:
Você não ama: tortura.

Atirei um limão n’água
e caí n’água também
pois os peixes me avisaram,
que lá estava meu bem.

Atirei um limão n’água,
foi levado na corrente.
Senti que os peixes diziam:
Hás de amar eternamente.

25/12/2008 - 20:30h Morre Prêmio Nobel de Literatura Harold Pinter

O Prêmio Nobel de Literatura britânico Harold Pinter morreu aos 78 anos, no Reino Unido, nesta quarta-feira (24)

Carl de Souza/AP
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O dramaturgo Harold Pinter, Nobel de Literatura de 2005, morreu aos 78 anos

Harold Pinter morreu de câncer aos 78 anos.

Pinter sofria de câncer no fígado há vários anos. “Era um grande homem e foi um privilégio viver com ele durante 33 anos”, disse sua mulher, Lady Antonia Fraser, ao jornal “The Guardian”.

Laureado com o Nobel em 2005, o prêmio recompensou um autor que, “em suas obras revela o precipício que se esconde sob a conversa fiada diária e força sua entrada no âmbito fechado da opressão”, afirmou o júri da Academia Sueca na ocasião.

“Nascido em 1930 em Londres, Pinter geralmente é considerado o maior expoente do teatro dramático inglês da segunda metade do século 20″, acrescentou a Academia.

Aos nove anos, foi retirado de Londres durante a Segunda Guerra Mundial e só retornou à cidade três anos mais tarde. A experiência dos bombardeios permaneceu indelével em sua memória, como admitiu muitas vezes.

Em 1957 estreou como dramaturgo com “The Room”. Uma de suas primeiras obras “The Birthday Party” (’A festa de aniversário’, 1957), inicialmente um fracasso, com o passar dos anos se tornou uma de suas peças mais encenadas.

Sua posição enquanto clássico moderno está ilustrada pela criação, a partir de seu nome, de um adjetivo que descreve uma forma de atmosfera e de um entorno particular nas peças de teatro: ‘pinteresque’.

Segundo o comunicado da Academia Sueca há três anos, “no cenário típico de Pinter estão seres que se defendem contra intrusões forâneas ou contra os próprios impulsos, entrincheirando-se em uma existência reduzida e controlada”.

“Outro tema principal é o caráter fugitivo e inalcançável do passado”, prosseguia a nota de anúncio do vencedor da Academia.

Desde 1973, Pinter também era conhecido como um fervoroso defensor dos direitos humanos.

Além disso, também escreveu novelas radiofônicas e roteiros para cinema e televisão. Entre seus trabalhos mais conhecidos nesta área estão ‘The Tailor of Panama’ (’O alfaite do Panamá’, 2001),’ The Handmaid’s Tale’ (1990), ‘Accident’ (1967), ‘The French Lieutenant’s Woman’ (’A mulher do tenente francês’,1981) ou ‘Breaking the Code’ (1996). (Fonte France Presse e Folha Online)

Harold Pinter abraçou causas e foi contra invasão do Iraque

PEDRO ALONSO da Efe, em Londres - Folha Online

O célebre dramaturgo britânico e eterno rebelde Harold Pinter, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura em 2005, morreu em Londres aos 78 anos após uma longa batalha contra o câncer.

A voz de Pinter, um dos escritores do Reino Unido mais influentes da segunda metade do século 20, se apagou para sempre nesta quarta-feira, segundo informou hoje sua segunda mulher, a também escritora Antonia Fraser.

Max Nash/AP
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Dramaturgo inglês Harold Pinter, ganhador do Nobel, morreu nesta quarta-feira

“Ele foi grande”, disse ela em uma breve declaração, na qual ressaltou que foi “um privilégio viver com ele durante 33 anos” e que Pinter “nunca será esquecido”.

A doença já impediu o dramaturgo este mês de ir a sua posse como doutor honoris causa na Central School of Speech and Drama de Londres.

O escritor ganhou vários prêmios, como a Legião de Honra da França, mas destacou-se acima de tudo pela conquista do Prêmio Nobel de Literatura em 2005.

Iraque

“Estou muito comovido. É algo que não esperava”, comentou um Pinter já com a saúde frágil na porta de sua casa em Londres, após saber de sua conquista do Nobel.

Por recomendação médica, Pinter não pôde assistir à cerimônia de entrega do prestigioso prêmio em Estocolmo, mas gravou seu discurso de aceitação, no qual, como vinha fazendo nos últimos anos, dedicou suas críticas políticas mais ácidas à Guerra do Iraque, na qual o Reino Unido foi fiel seguidor dos Estados Unidos.

“A invasão do Iraque foi um ato de bandidos, um ato de flagrante terrorismo de Estado que demonstrou um desprezo absoluto do conceito de normativa internacional”, afirmou Pinter, visivelmente débil e utilizando uma cadeira de rodas.

Sem papas na língua e mais rebelde do que nunca, o dramaturgo aproveitou o Nobel para pedir o processo do presidente dos EUA, George W. Bush, e do ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair por crimes de guerra.

Durante sua vida, o autor, que se sentia obrigado a assumir uma posição política como “cidadão do mundo”, abraçou outras causas como o desarmamento nuclear, a defesa de Cuba frente ao embargo americano e a rejeição ao bombardeio da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) na Sérvia em 1999.

Vida de prazer

Filho de um alfaiate judeu imigrante da Europa Oriental, Pinter nasceu em 10 de outubro de 1930 em Hackney, bairro popular do leste de Londres.

O gênio teatral teve um filho, Daniel, fruto de seu casamento com a atriz Vivien Merchant, de quem se divorciou em 1980 para casar-se com Antonia Fraser.

Pouco amigo dos eruditos tendentes ao excesso interpretativo de suas obras, Pinter dizia que sua vida literária era “uma vida de prazer, desafio e entusiasmo”.

Figura única

Após o anúncio da morte do artista, que descrevia a si próprio como “dramaturgo, diretor, ator, poeta e ativista político”, o mundo da cultura britânica chorou sua perda e exaltou seus talentos e méritos profissionais.

“Foi uma figura única no teatro britânico. Dominou a cena teatral desde os anos 50″, afirmou Alan Yentob, diretor da “BBC”.

Na opinião de Tim Walker, crítico do jornal “Sunday Telegraph”, Pinter “forneceu realismo” às artes cênicas mediante obras “com prolongados silêncios, nos quais os personagens nem sempre iam a algum lugar, como na própria vida real”.

Por sua vez, o amigo e autor de uma biografia sobre Pinter, Michael Billington, declarou-se “devastado” pela morte do dramaturgo, a quem descreveu como um “lutador” no terreno artístico e político.

Após publicar em 1957 sua primeira obra, “O Quarto”, Pinter iniciou uma carreira na qual escreveu 29 peças teatrais, mais de 20 roteiros para cinema (entre eles para o diretor americano Joseph Losey), uma infinidade de trabalhos radiofônicos e televisivos, poesia, ensaios, um romance e curtos relatos de ficção.

Entre títulos inesquecíveis de Pinter, pertencente à geração dos Jovens Irados britânicos, destacam-se peças teatrais como “The Birthday Party”, “The Caretaker” e “Old Times”.

Seu estilo peculiar, cheio de silêncios em dramas marcados por uma linguagem ambígua e, às vezes, cômica, mas que gera um ambiente de ameaça e alienação, se cunhou como “pinteresco”, adjetivo admitido pelo dicionário de inglês da Universidade de Oxford.

22/12/2008 - 18:02h Natureza Íntima

Sou pedra plantada.
Quando pedra, sou dura,
implacável com as palavras.

Sou água a correr.
Quando água, sou como um riacho sereno
a deslizar em silêncio.

Sou vulcão em constante erupção.
Quando vulcão, sou imaginação.
Trago na pele, no rosto e,
na alma a cor da paixão.

Sou cigana livre de preconceitos.
Sou nômade, vivo as margens dos rios
minh’ alma tem asas brancas e vermelhas,
p’ros vôos desta vida incerta.

Tenho os olhos tristes e a voz embargada,
em simultâneo a alegria duma criança.
No peito trago contudo, a inabalável certeza
de amar-te eternamente.

Andréa Motta

Fonte Germinal

21/12/2008 - 09:46h O mundo à semelhança de seu autor


Obras de Puccini, com suas melodias líricas e dramaticidade apaixonada, são a tradução de sua visão das relações humanas

http://www.schubertiademusic.com/images/catalog-2/pucciniSP1896DETAIL.jpghttp://imagecache2.allposters.com/images/pic/PF/PF_916002~Puccini-Turandot-Posters.jpg

Lauro Machado Coelho - O Estado de São Paulo

Houve um tempo em que o ocaso da obra de Puccini era decretado por musicólogos respeitados. Em 1912, em seu livro Giacomo Puccini e l’Opera Internazionale, o crítico Fausto Torrefranca dizia que a grande contribuição da Itália para a história da música não estava na ópera e, sim, na música instrumental dos séculos 17 e 18. Parece aberrante ouvir isso hoje mas, para Torrefranca, a ópera era uma “criação bastarda”. Puccini seria, assim, o exemplo acabado de “toda a decadência da música italiana atual” e representava “o cínico comercialismo, a impotência, a triunfante voga internacionalista”. Também o americano Joseph Kerman profetizou, em Ópera e Drama, o esquecimento de Puccini. Por que, então, passados 100 anos do nascimento desse compositor, não só parece improvável que ele seja esquecido, como há ainda, entre os músicos contemporâneos, quem o tome por modelo?

“Um dos sinais do talento do artista”, escreveu Mosco Carner em Puccini: a Critical Biography, “é saber criar, com a sua fantasia, um mundo que somos forçados a reconhecer como particularmente seu”. “Isso não é, necessariamente, um sinônimo de grandeza, mas exige um alto grau de personalidade, um dos dons criativos mais preciosos.” Puccini é, sem dúvida alguma, um desses artistas: o mundo que criou tem um clima emotivo e dramático, além de um estilo musical, tipicamente seus, a tal ponto que se pode falar de uma concepção pucciniana da ópera. Comparada ao universo de Mozart, Verdi, Wagner, Janácek, Strauss ou Britten, a órbita pucciniana é limitada na escolha dos argumentos, na caracterização das personagens e na profundidade musical. Mas ele é insuperável no nível com o qual sente afinidade: o da paixão erótica, da sensualidade, da ternura, das emoções dominadoras e desesperadas.

Puccini é o poeta das pequenas coisas, capaz de perceber o que há por trás do banal, do lugar-comum e de expressar o que ele mesmo chamou de “a pulsação do espírito sob as palavras, o non so che que pede a música, essa arte divina que começa exatamente onde as palavras terminam”. Puccini tem um senso teatral como poucos operistas jamais tiveram. Mas esse enorme talento é limitado por algumas contradições de sua índole: ele possuía mais ardor de sentimento do que profundidade espiritual. Possuía a capacidade de identificar-se totalmente com as suas personagens, mas não a de fazer delas seres humanos exemplares, que transcendessem suas características circunstanciais para assumir uma dimensão mais ampla - como acontece com o Verdi da maturidade.

O instinto teatral de Puccini era enorme, e sua técnica dramática estupenda. Mas, mesmo no fim da vida, produziu óperas que, no conjunto, são dramaticamente frágeis - como La Fanciulla del West ou Sor Angelica - em que pesem bons momentos isolados. “Puccini nunca é aborrecido ou prolixo, mas nunca consegue ser realmente sublime”, afirma Carner - e basta comparar a Tosca ao Otello, ou Madama Butterfly ao Cavaleiro da Rosa, em termos de profundidade na prospecção das paixões, para se certificar de que este não é um julgamento demasiado severo. “Sua arte o situa na fronteira entre o gênio e o talento”, conclui, com uma fórmula bastante apropriada.

A ópera pucciniana tem sido criticada pela insistência no erotismo e na sensualidade; pelo ataque sistemático à sensibilidade do espectador; por uma certa tendência à vulgaridade e à pieguice; pela sua falta de preocupação com questões éticas elevadas. Mas, na verdade, é um preconceito julgar uma obra por aquilo que ela não tem, condenando-a por não corresponder a determinados padrões de gosto, por não se preocupar com a afirmação ou a discussão de valores filosóficos ou espirituais, ou por apresentar uma visão da vida que parece superficial. O que realmente importa é saber se essa obra consegue traduzir a visão que o artista tem do mundo - seja ela qual for - com intensidade e força de persuasão. Ou seja, se esse artista consegue levar seus espectadores a se identificarem com suas personagens, a experimentarem por elas a sym-pathia no sentido etimológico de “sentir com”, de saber como a personagem se sente, de compreender por que ela se sente assim e age da maneira como o faz. E isso Puccini obtém de seu público, não só em relação a personagens “positivas” e dignas de compaixão (Mimì, Butterfly, Angelica, Liù), mas também às “negativas”, que inspiram antipatia (Scarpia, a Zia Principessa, Pinkerton ou Turandot).

Segundo Carner, Puccini ilustra perfeitamente a máxima de Henry James de que “um artista tem sorte quando suas realizações coincidem exatamente com as suas limitações”. E o faz pelo fato de nunca sair dos limites do que lhe é afim, de nunca se aventurar fora do terreno em que sabe poder dispor da plena medida de seu talento. Nesse sentido, não se pode dizer que Chopin, Bellini ou Hugo Wolf tenham sido “artistas menores” porque tenham preferido ficar dentro de um campo em que tinham a certeza de explorar ao máximo suas melhores potencialidades criativas. E Puccini tinha a plena consciência desses limites. Numa carta a Giuseppe Adami afirma não poder trabalhar em outra coisa, senão numa ópera: “Tenho o grande defeito de só saber escrever música quando os meus fantoches se movem no palco. Se pudesse ser um sinfonista puro, enganaria o meu tempo e o meu público. Mas quando nasci, tantos e tantos anos atrás… Deus santo tocou-me com o dedo mindinho e disse-me: ?Escreve para o teatro. Mas presta atenção: só para o teatro!? - e eu segui seu supremo conselho.”

Mas é absurda, por outro lado, a crítica que lhe foi feita de só saber fazer “musiquinha barata”. Seja para o intimismo da Bohème ou a grandiosidade da Turandot, a violência de filme policial da Tosca ou a profunda ironia do Gianni Schicchi, Puccini sempre soube encontrar a perfeita correspondência entre meios e fins. Descendente de quatro gerações de compositores de Lucca, tinha alto grau de profissionalismo e, além disso, possuía dotes pessoais que lhe dão um estilo inimitável: facilidade para compor melodias concisas, extremamente líricas e de uma dramaticidade apaixonada; refinamento harmônico e enorme talento para a orquestração; e um modo extremamente pessoal de escrever para a orquestra, que lhe permite assimilar procedimentos técnicos que estão sendo desenvolvidos por seus contemporâneos (por exemplo, o influxo de Stravinski ou dos impressionistas franceses) sem com isso alterar a personalidade própria de seu estilo.

Todas essas qualidades fizeram com que Puccini se tornasse o único compositor italiano, depois de Verdi, a conseguir que a maior parte de sua obra ficasse permanentemente no repertório. Numa fase em que muitos autores sobreviveram com apenas uma ou duas óperas, quando não foram sumariamente relegados ao esquecimento, dele apenas Le Villi e Edgar ficaram como curiosidades de especialista. De Manon Lescaut em diante, todos os títulos pertencem à lista das óperas prediletas do público.

20/12/2008 - 20:04h Pornografia e Erotismo

Fonte Germina Literatura — Revista virtual de literatura e arte editada por Lucia Farias, Silvana Guimarães e Mariza Lourenço. Publica ensaios, resenhas e tem excelentes antologias de poesia e contos em seções como Uns, Outros, Poucos, Raros. Estes textos a seguir são da seção eróticos&pornográficos

por Dirceu Villa

Introdução

Tendo em vista evitar uma distinção de valor absolutamente ridícula, que vários teóricos e artistas propuseram (Boris Vian e José Paulo Paes, por exemplo) entre pornográfico e erótico, em que o pornográfico se destinaria pura e simplesmente ao estímulo sexual e o erotismo abocanharia a parte “nobre“, refinada e artística¹, entendamo-nos: erótico é um texto de poses, calculados subterfúgios que representam a sexualidade, e pornográfico é aquele que fala francamente, com todas as tão temidas palavras. Ambos igualmente artísticos, ambos podem igualmente ser bons ou maus, como o gentil leitor e a não menos gentil leitora poderão julgar adiante.

(more…)

17/12/2008 - 17:29h Poema didático

José P. di Cavalcanti Jr

Explicar-te como te amo?…
Bom, comecemos pela cor do vento…

 

 

foto de Kevin Temple

 

 

 

Mas há a vida

Clarice Lispector

Mas há a vida
que é para ser
intensamente vivida, há o amor.

Que tem que ser vivido
até a última gota.
Sem nenhum medo.
Não mata.

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16/12/2008 - 16:20h Piqueniques

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© Foto de Lee Miller. O poeta Paul Eluard e sua mulher Nusch namoram em companhia do pintor inglês Roland Penrose, do fotógrafo Man Ray e da dançarina Ady Fidelin, num piquenique de verão na Île Sainte-Marguerite, Cannes, França, 1937.

Ficheiro:Manet, Edouard - Le Déjeuner sur l'Herbe (The Picnic) (1).jpg

Le déjeuner sur l’herbe ou O Almoço sobre a erva, ou ainda O piquenique no bosque é um um grande óleo sobre tela da autoria de Édouard Manet, pintado entre 1862 e 1863, com as medidas de 208 por 264.5 centímetros. A sensual e provocatória posição da modelo nua, perante dois homens completamente vestidos, provocou o escândalo da sociedade mais conservadora , aquando da sua exibição no Salon des Refusés, no ano de 1863. Actualmente, o quadro está exposto nas paredes do Museu de Orsay, em Paris.

 

 Pablo Picasso,Le déjeuner sur l'herbe d'après Manet,© Succession Picasso, 2008

Pablo Picasso (1881-1973) Le déjeuner sur l’herbe d’après Manet
27 février 1960
Huile sur toile
Londres, Nahmad Gallery

 

12/12/2008 - 15:10h Gotas

Tartaruga

trem_45_tucano.gif“Os trens foram comprados da Alstom em 2007, na gestão de Serra, com um contrato que havia sido assinado em 1992. Pela Lei das Licitações, o contrato de 1992 caducou em 1997. Segundo o voto do conselheiro Citadini, o Metrô deveria ter feito uma nova licitação. Na semana passada, em um caso muito parecido com o dos 16 trens comprados sem uma nova licitação pelo Metrô, o Tribunal de Contas considerou irregular uma compra feita pela CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos). A CPTM usou um contrato de 1995 para fazer compras em 2005, no governo de Geraldo Alckmin (PSDB). De acordo com auditores do tribunal, a CPTM gastou R$ 34,6 milhões a mais por não ter feito uma nova concorrência. O julgamento do tribunal sobre a CPTM é definitivo.” (Folha SP - 12/12/2008)

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“No caso da CPTM, o contrato já estava esgotado e os novos trens foram destinados a uma linha diferente da que constava no contrato original. Em relação aos trens do Metrô, o contrato não estava encerrado e os trens comprados serão utilizados na linha planejada”.

O argumento de defesa invocado para justificar a legalidade do contrato de compra dos trens da Alstom (argumento que pode até ser válido) põe em evidencia a grande capacidade dos tucanos em realizar obras e quanto é prioritário para eles o transporte público. Os trens comprados agora “serão utilizados na linha planejada”, ou seja em uma linha em construção desde 1992, há 16 anos!

Sorria

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“Uma creche da Prefeitura de São Paulo em construção na zona leste foi abandonada após o segundo turno da eleição, e, desde então, foi saqueada várias vezes e parcialmente incendiada no último domingo.(…). Segundo moradores de Sapopemba, a obra enfrenta problemas desde o início de sua construção, em 2007. O último abandono, dizem, ocorreu entre o final de outubro e o início de novembro. Os operários haviam retomado os trabalhos após o primeiro turno eleitoral.” (Folha SP - 12/12/2008).

Não é necessário ser do PT ou ter votado na Marta, para entender que a construção da creche foi retomada com o intuito de enganar a população durante a campanha eleitoral. Pelo último levantamento existente sobre a falta de vagas em creche, são 110 mil crianças a procura de um lugar.

 

Do mal

http://www.midiaindependente.org/icon/2008/06/421576.jpgNão é curiosa a situação do governador Serra?

Conhecido pela sua mão de ferro no controle da bancada tucana na Câmara Municipal e na Assembléia legislativa de São Paulo, José Serra nunca consegue arrancar da bancada federal do PSDB os apoios que publicamente proclama em favor do PT ou do governo Lula.

Quando se trata de seu próprio interesse , o governador sabe chegar ao coração da bancada federal do seu partido. Já quando se trata de arrumar apoios que servem para fazer passar uma imagem conciliatória na opinião pública e no PT, a bancada tucana fica irredutível.

Serra é o favorito para 2010, a Folha o proclama regularmente. Elegeu Kassab contra Alckmin, repite o jornal. Mata no ovo qualquer tentativa de CPI que aparecer contra ele. Mas não conseguiu que a bancada o acompanhe na prorrogação da CPMF e agora parece que não vai conseguir que os senadores do PSDB votem em favor do petista Tião Viana.

Para alguns isto é a demonstração da fraqueza do governador fora do Estado de São Paulo. Para outros, a utilização inescrupulosa da dupla linguagem. De público promete e fica bem na foto, por baixo incentiva o contrário. Vende a imagem do bem e dissimula o mal.

Tião Viana poderá sofrer o destino de César no Senado (metaforicamente falando) e poderá sempre exclamar: “Até tu, Serra”.

Maracutaias?

http://www.oquintopoder.com.br/segpublica/image/jpg/ed_75_02.jpgO jornal Estado de São Paulo revelou que, de 2002 a março de 2008, o gabinete da secretaria de segurança estadual gastou mais com operações policiais reservadas do que departamentos operacionais da Polícia Civil, como o de Homicídio e Proteção à Pessoa (DHPP) e de Investigações sobre Narcóticos (Denarc). Setores burocráticos, como a Academia de Polícia, também usaram a verba. Na gestão de Saulo, teriam sido comprados equipamentos e armas sem licitação e até CDs para gravar dados criminais distribuídos à imprensa.

Durante seis anos, não houve registro no Sistema de Gerenciamento e Execução Orçamentária (Sigeo) de sobras do dinheiro sacado depois da emissão de ordens bancárias. É como se todo gasto tivesse valor redondo, como R$ 35 mil. A situação mudou em abril, após a posse de João Cláudio Valério como chefe de gabinete. O gasto mensal do gabinete com operações caiu em até 80%, e o Sigeo passou a registrar sobras.

O Procurador-geral de justiça vai arquivar ou apurar? A mídia vai apoiar uma eventual CPI para investigar? O Estadão deu o furo e tratou do tema em várias notas. O resto nada diz.

 

 A Madonna e o cardeal

madonna.jpgreligioso_sombra.jpgAnteontem, o cardeal emérito de Santiago, Jorge Medina, acusou Madonna de provocar um “entusiasmo louco”, um “entusiasmo de luxúria”, condenando a pecaminosa agitação que a cantora provoca. Medina (que fez o pronunciamento durante uma missa em homenagem ao general Pinochet, de triste memória) deve se referir ao sexo casual que Madonna simula com sua guitarra (fumando um cigarro imaginário depois), ou à masturbação de mentirinha que ela encena, com a mão por dentro do shorts, ou a cópula de brinquedo que faz no chão com um bailarino. Fonte O Estado de São Paulo.

 

 

 Fariseus

brokeback.gifA RAI, a TV pública de Itália governada por Berlusconi cortou as cenas do beijo e da primeira relação do filme, várias vezes premiado, Brokeback Mountain, de Ang Lee. O filme foi transmitido após meia-noite e mesmo assim censurado.

As organizações de defesa dos homossexuais protestaram. A RAI diz que não sabe como aconteceu.

Em Paris, a ARP, sociedade de autores, realizadores et produtores de filmes, denunciou “o puritanismo da Rai e dos poderes públicos italianos”.

Para o jornal francês Le Monde “Este acesso de pudor á um sinal dos tempos. Enquanto qualquer programa de jogo ou de variedades em horário nobre comporta um desfile de “paquitas” siliconadas e quase sem roupas, um beijo homossexual depois de meia-noite provoca um debate bem datado”.

 

 

 

Amante

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EM MEIO À MULTIDÃO

Em meio à multidão de homens e mulheres
percebo alguém a chamar-me através de sinais secretos e
divinos,
ninguém mais reconhecendo, pai, esposa ou esposo, irmão ou
ninguém mais próximo do que estou;
alguns se confundem, mas esse não – esse alguém me conhece.

Ah amante e igual sem falha,
sabia eu que me havias de descobrir com tão débeis disfarces
e quando te encontrei soube que te descobria pela mesma
coisa em ti.

Walt Whitman

Folhas de Relva

 

 

Gotas, por Luis Favre

11/12/2008 - 19:56h Tristeza da lua

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Tristeza da lua
de Charles Baudelaire

Divaga em meio à noite a lua preguiçosa;
Como uma bela, entre coxins e devaneios,
Que afaga com a mão discreta e vaporosa,
Antes de adormecer, o contorno dos seios.

No dorso de cetim das tenras avalanchas,
Morrendo, ela se entrega a longos estertores,
E os olhos vai pousando sobre as níveas manchas
Que no azul desabrocham como estranhas flores.

Se às vezes neste globo, ébria de ócio e prazer,
Deixa ela uma furtiva lágrima escorrer
Um poeta caridoso, ao sono pouco afeito,

No côncavo das mãos torna essa gota rala,
De irisados reflexos como um grão de opala,
E bem longe do sol a acolhe no peito.

 

 

 

Tristesse de la lune

Ce soir, la lune rêve avec plus de paresse;
Ainsi qu’une beauté, sur de nombreux coussins,
Qui d’une main distraite et légère caresse
Avant de s’endormir le contour de ses seins,

Sur le dos satiné des molles avalanches,
Mourante, elle se livre aux longues pâmoisons,
Et promène ses yeux sur les visions blanches
Qui montent dans l’azur comme des floraisons.

Quand parfois sur ce globe, en sa langueur oisive,
Elle laisse filer une larme furtive,
Un poète pieux, ennemi du sommeil,

Dans le creux de sa main prend cette larme pâle,
Aux reflets irisés comme un fragment d’opale,
Et la met dans son coeur loin des yeux du soleil.

Charles Baudelaire

09/12/2008 - 16:11h Amores e mistérios em um casarão inglês do século 19

http://www.allenandunwin.com/_uploads/Images/Authors/0_MortonKate1.jpgbook cover of   The House at Riverton   (The Shifting Fog)   by  Kate Morton

A australiana Kate Morton fala de A Casa das Lembranças Perdidas, grande sucesso na Inglaterra que chega ao Brasil

Suzana Uchôa Itiberê - O Estado SP

Na Inglaterra de 1924, o jovem poeta Robbie Hunter morre à beira de um lago durante uma festa na mansão Riverton. As irmãs Hannah e Emmeline Hartford, herdeiras da propriedade e testemunhas da tragédia, nunca mais se falam. Após 75 anos, a diretora de um filme sobre os Hartfords procura Grace, antiga empregada da família, para consultá-la sobre a autenticidade da história que quer contar. Essa cutucada no passado faz com que a senhora de 98 anos relembre seus dias naquele palacete cheio de segredos e sua influência no destino de duas irmãs que lhe eram mais próximas do que imaginava.

Essa trama intrincada transformou a australiana Kate Morton na atual sensação do mercado editorial inglês. A Casa das Lembranças Perdidas (Rocco, 536 págs., R$ 64,50) é seu romance de estréia e o título mais bem-sucedido do país desde O Código Da Vinci: 600 mil exemplares vendidos na Inglaterra e direitos de tradução negociados para 29 países. Aos 32 anos, a nova milionária das letras vive em Brisbane, numa casa do século 19 com o marido e dois filhos. A paixão por casas antigas a inspirou na criação de Riverton, e a trajetória de seus habitantes, os Hartfords, serve como espelho das transformações sociais, políticas e econômicas que sacudiram a sociedade britânica no início do século 20. Grace, a narradora, lança um olhar arguto sobre os traumas de 1ª Guerra, a emancipação feminina e a crise na aristocracia diante da ascensão de uma nova classe, cujo status vinha do dinheiro e não de títulos de nobreza.

O retrato da época é minucioso, mas não se trata de romance histórico. Interessa à autora não só o passado, mas suas marcas no presente, certos fantasmas que fazem a obra flertar com o gótico. Kate transita com desenvoltura por diferentes tempos e desenha um complexo hall de personagens, que se fundem de forma inventiva. Uma estréia triunfal para a aspirante a atriz que virou escritora por acaso. Kate conversou com o Estado por telefone.

Como descobriu que seria escritora?

Minha melhor amiga é escritora e um dia fez um comentário sobre o tipo de pessoa que termina livros, pois grande parte desiste. Disse que eu seria uma *autora que iria até o fim. Nunca havia pensado nisso, mas sempre adorei o ato de contar histórias, daí a paixão por atuar. No instante em que sentei para escrever, descobri que era aquilo que tinha de fazer.

O livro tem enredo cheio de surpresas, histórias paralelas e tempos que se alternam. Tinha a trama pronta na cabeça antes de escrever?

A Casa das Lembranças Perdidas foi meu terceiro manuscrito. Os outros foram rejeitados por editoras, mas me ajudaram a ganhar prática no processo criativo. Estava grávida e não me saía da cabeça a imagem de um jovem poeta morto à beira de um lago e a existência dessa senhora que sabia a verdade sobre a tragédia. A obra teve longo período de gestação e só fui para o computador quando defini o caminho a seguir.

Por que situou a narrativa na Inglaterra do início do século 20?

Todos escrevem por diferentes razões. Como havia tido dois livros negados, e já não acreditava na publicação, decidi escrever para mim. Fiz por prazer. A Inglaterra dos anos 20 era um lugar em que adorava me imaginar. Sou fascinada por casarões antigos, meio decadentes, que exalam história por todos os cantos. Aquela foi uma época de fantástica transição. O mundo antes e depois da 1ª Guerra é completamente diferente e há muita tensão narrativa quando se retrata períodos como esse.

O apuro descritivo é fruto da imaginação ou de profunda pesquisa?

Um pouco dos dois. Como disse, adoro grandes casas velhas, aquelas como Riverton, em que as marcas dos dias áureos começam a se apagar, o papel de parede está opaco e o piso gasto. A locação é tão importante quanto os personagens e acho delicioso inventar um lugar, em todos os pormenores. Quando soube que o livro seria publicado, fiquei aliviada por ter pesquisado bastante.

Seu estilo foi comparado ao de Jane Austen. O que as obras femininas têm que mantêm público tão fiel?

Sei que meu maior público é o feminino, mas minha intenção não é escrever só para mulheres. Quero contar histórias que arrebatem a atenção. Eu lia muito quando criança e havia aqueles livros que me faziam desaparecer após a primeira página e não respirar até terminar. Como adulta, tinha dificuldade em achar uma obra que me fizesse sentir daquela forma. Então, me foquei em criar algo envolvente, que transportasse o leitor para outro mundo. Acredito que quanto mais vívida é a descrição, maior a facilidade de o leitor mergulhar naquela realidade, de se ver em Riverton, de andar por seus corredores, sentir o aroma dos quartos, a temperatura…

Um grande mistério envolve a trama. Kate Morton é uma mistura de Jane Austen com Agatha Christie?

Sim, sempre adorei histórias de mistério e tenho necessidade de inserir suspense na narrativa.

Não é um romance tipicamente gótico, mas há fantasmas de sobra.

Não queria seguir o estilo gótico, mas sou interessada por marcas do gênero, como a presença de segredos ocultos e fantasmas metafóricos. Grace é assombrada por eventos de um passado distante, do qual não consegue se libertar.

Quais as suas fontes de inspiração?

Ela vem de todos os lugares. São coisas que as pessoas contam, outras que leio nos jornais. Às vezes é algo que alguém me falou anos atrás e é resgatado de repente. Costumo sentar em um café e fazer anotações no caderno. Fiz isso por meses antes de começar a escrever. Idéias guardadas no inconsciente vêm à superfície e, durante a pesquisa, informações inesperadas pulam na nossa frente. É incrível quando esse material se transforma na trilha que você reconhece como o caminho para a criação.

Sentiu a pressão do sucesso ao escrever seu segundo romance, The Forgotten Garden?

Sim, em especial no início. Era estranha a sensação de ter um contrato e uma expectativa a cumprir. Porque o primeiro fiz para mim, sem cobranças. Quando senti dificuldade, parei tudo e tomei a mesma postura: escrever algo que adoraria ler. Assim, se ninguém gostasse, pelo menos eu teria me divertido. Parece que deu certo (a obra vendeu 75 mil cópias nas três primeiras semanas).

03/12/2008 - 18:52h Não vou pôr-te flores de laranjeira no cabelo

Image:Au Musée de l'érotisme.jpg

Não vou pôr-te flores de laranjeira no cabelo
nem fazer explodir a madrugada nos teus olhos.

Eu quero apenas amar-te lentamente
como se todo o tempo fosse nosso
como se todo o tempo fosse pouco
como se nem sequer houvesse tempo.

Soltar os teus seios.
Despir as tuas ancas.
Apunhalar de amor o teu ventre.

Joaquim Pessoa

24/11/2008 - 18:23h Reparação poética

Blog do Além - Carta Capital

A coluna Blogs do Além, criada pelo publicitário Vitor Knijnik e que estreou na edição 500 de CartaCapital, procura imaginar como seriam as páginas pessoais de personalidades do passado.

Chega a vez de um dos mais importantes poetas portugueses inaugurar seu diário virtual. Bem-humorado, Fernando Pessoa se apresenta: “uma espécie de Cristiano Ronaldo da poesia portuguesa, só que sem essa coisa de metrossexual, porque de frescura já basta a poesia”.

No seu primeiro post, intitulado “Reparação Poética”, Pessoa afirma não haver mais espaço para a poesia neste mundo. “Não enquanto existirem advogados e o politicamente correto. Depois de longas batalhas judiciais, o Supremo Tribunal Federal deu ganho de causa a uma associação de poetas que me acusou de difamar os que têm por ofício fazer versos”.

Sobre mim

Reparação poética

Não há mais lugar para a poesia neste mundo. Não enquanto existirem advogados e o politicamente correto. Depois de longas batalhas judiciais, o Supremo Tribunal Federal deu ganho de causa a uma associação de poetas que me acusou de difamar os que têm por ofício fazer versos.
Vocês devem se lembrar do poema que serviu para a acusação:

Autopsicografia

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

Esse episódio vem me causando muito desassossego. Realmente, é desafiador fazer poemas dentro desses novos requisitos sociais. Mas não me resta outra escolha. Até porque a sentença me obrigou a reescrever o primeiro verso, que causou tanta celeuma.

Alguns poetas, no intuito de transmitir certos sentimentos, podem, de certa maneira, simular algum desconforto ou dor que eles realmente não estão sentindo. Às vezes nem é por mal. É inconscientemente, mesmo. Só que essa simulação – repito que isso pode acontecer com alguns poetas, e não com a maioria – pode ser tão perfeita, mas tão perfeita, que esse desconforto ou dor passam a ser sentidos de verdade verdadeira por quem fabricou aqueles sentimentos não fabricáveis. Essa dor, inclusive, se persistir, deve ser examinada por um médico especializado. Pois bem: aquilo que tinha começado como uma dor de mentirinha e que depois virou uma dor de verdade, no fundo dos fundilhos era uma dor que já existia como dor, sendo que em nenhum momento o tal poeta dolorido sequer pensou em provocar dor em mais alguém a não ser nele mesmo. Coitado.

Reconheço que perdeu um pouco da graça, mas ficou mais popular, pode até ser adaptado para uma mini-série da Record.

17/11/2008 - 21:05h TODA NUDEZ SERÁ MARMORIZADA

Blog Dentes Surrealistas


por Roberto Bessa

A noite debandava úmida
A luz golpeava meus olhos com lentura
Luz decepada em meu corpo
Luz na ponta do piano fantasmaTudo era gravitante no palácio das tetas
No pequeno jardim dos disfarces
A luz corria solta pela rua

Sugava estrelas da manhã
Manhã de inexistente outono
E velhinhas aparoquiadas

Sentia-me contraste com minha armadura
Sondava o mármore que vestia
Um corpo imprevisto e esgotado
Que se mostrava aos poucos.

collage: A FLAGELAÇÃO DA NOVIÇA

16/11/2008 - 19:49h O último

por Damsi Figueroa

EL ÚLTIMO

Ando buscando un árbol
que de sombra
entre cuyas raíces repose un cuerpo
que ya no lo sea tanto

Ando buscando un árbol
que de una sombra larga
pero profunda

Ando buscando una humedad
que se hunda como un túnel
en la tierra negra

Ando buscando una humedad
olorosa
con olor a sombra y árbol

Ando buscando un libro, seguramente
no un libro abierto sobre dos rodillas

Ando buscando un libro
para no humedecerme las nalgas
cuando me siente bajo la sombra
del árbol que ando buscando.

O ÚLTIMO

Ando à procura de uma árvore
que dê sombra
entre cujas raízes repouse um corpo
que já o não seja muito.

Ando à procura de uma árvore
que dê uma sombra comprida
e profunda

Ando à procura de uma humidade
que se afunde como um túnel
na terra negra

Ando à procura de uma humidade
aromante
com cheiro a sombra e árvore

Ando à procura de um livro, certamente
não um livro aberto sobre dois joelhos

Ando à procura de um livro
para não me humedecerem as nádegas
quando me sentar à sombra
da árvore de que ando à procura.


Damsi Figueroa

Fonte meninas vamos ao vira

13/11/2008 - 19:22h Joyce Mansour

http://farm1.static.flickr.com/131/391555170_3be35969d5.jpg

Joyce Mansour

Invitez-moi à passer la nuit dans votre bouche
Racontez-moi la jeunesse des rivières
Pressez ma langue contre votre œil de verre
Donnez-moi votre jambe comme nourrice
Et puis dormons frère de mon frère
Car nos baisers meurent plus vite que la nuit

Tradução

Convide-me a passar a noite na sua boca
Conte-me a juventude dos rios
Pressione a minha língua contra o seu olho de vidro
Dê-me a sua perna como alimento
E depois durmamos irmão do meu irmão
Porque os nossos beijos morrem mais depressa que a noite.

Joyce Mansour

Les machinations aveugles de tes mains
Sur mes seins frissonnants
Les mouvements lents de ta langue paralysée
Dans mes oreilles pathétiques
Toute ma beauté noyée dans tes yeux sans prunelle
La mort dans ton ventre qui mange ma cervelle
Tout ceci fait de moi une étrange demoiselle

Tradução

As maquinações cegas das tuas mãos
Nos meus seios frementes
Os movimentos lentos da tua língua paralisada
Nas minhas orelhas patéticas
Toda a minha beleza afogada nos teus olhos sem pupila
A morte no teu ventre que come o meu cérebro
Tudo isto faz de mim uma estranha menina.

Fonte Meninas vamos ao vira [trad: aam]