11/03/2011 - 10:33h BC indica que elevará menos os juros

Governo deve adotar mais medidas de contenção de crédito, segundo a ata do Copom

Fabio Graner e Adriana Fernandes – O Estado de S.Paulo

O Comitê de Política Monetária (Copom) abriu a porta para lançar mão de novas medidas complementares à alta dos juros no esforço de combate à inflação, consolidando a nova abordagem “híbrida” do Banco Central, sob o comando de Alexandre Tombini.

Na ata da última reunião, o BC apresentou pela primeira vez um cenário alternativo aos que normalmente coloca no documento, mostrando que, se o dólar seguir no nível recente e os juros subirem como espera o mercado, a inflação em 2012 já cairia abaixo da meta de 4,5%.

Além disso, no mesmo contexto, o órgão sugeriu que “eventuais” novas medidas macroprudenciais (como o aperto no crédito e o aumento do compulsório dos bancos, de dezembro) poderiam levá-lo a reavaliar a estratégia de juros. Boa parte do mercado leu esse novo parágrafo da ata como indicação de que o ciclo de aperto está próximo do fim e a Selic só subirá mais uma vez, em 0,5 ponto porcentual.

De acordo com a ata, o quadro inflacionário continuou complicado desde a reunião de janeiro. Na visão do Copom, apesar dos choques de alimentos e de tarifas de ônibus urbanos, a inflação também reflete a continuidade do chamado “descompasso entre oferta e demanda”. Isto é, a incapacidade da economia de produzir bens e serviços no volume que os consumidores têm procurado ainda pressionaria preços, embora a perspectiva seja de que esse descompasso diminua, refletindo os ajustes nos juros, no crédito e o aperto fiscal promovido pelo governo, que foi elogiado no documento do BC.

“Importantes decisões foram tomadas e executadas, as quais apoiam a visão de que, no início deste ano, teve início um processo de consolidação fiscal”, destacou a ata, em referência ao corte de R$ 50 bilhões no Orçamento.

Essa declaração sobre o esforço fiscal e a política de atuar não só com juros, mas também com outros instrumentos para combater a inflação, mostram que o BC se alinha cada vez mais ao Ministério da Fazenda de Guido Mantega, com quem a autoridade monetária vivia às turras na gestão Henrique Meirelles.

De acordo com o BC, a inflação terá dois comportamentos distintos. O primeiro, que deve durar até por volta de setembro, é de índices elevados no acumulado de 12 meses, até maiores que os atuais (ao redor de 6% para o IPCA). A partir do fim do ano, contudo, a diretoria enxerga desaceleração do IPCA e convergência para a meta.

“A diretoria do BC parece estar buscando uma forma de inserir novas ideias nos participantes do mercado sobre as perspectivas de inflação, já que seus pensamentos não estão ajudando-o a cumprir seu dever nesse sentido”, disse o economista-chefe do BES Investimento, Jankiel Santos, em relatório. “A nosso ver, soa como uma tentativa para acalmar as mentes preocupadas e para sinalizar que um processo de aperto monetário agressivo não está no radar”, acrescentou Santos, para quem o BC confia em sua estratégia.

11/03/2011 - 10:08h Copom surpreende com ata suculenta e intrigante

Claudia Safatle – VALOR

Há um novo Banco Central em busca de uma nova política monetária, como pode-se depreender da ata do Copom, divulgada ontem, referente à reunião da semana passada. A ata deixa claro que o BC, nesse momento, está levando em conta dois fatores relevantes: as medidas prudenciais existem para ser usadas; e o intervalo de tolerância de dois pontos para cima ou para baixo do centro da meta, de 4,5%, também é para ser ocupado em momentos de choque de oferta (como é o caso da elevação dos preços das commodities e seus desdobramentos sobre os preços dos alimentos no país).

A reação dos bancos ao item 31 da ata, que sintetiza o pensamento do Copom, foi instantânea. “Surpreendentemente ‘dovish’ “, disse o J.P. Morgan. “Mais dovish”, comentou o Bank of America, no que foi seguido pelo Goldman Sachs e diversos outros bancos estrangeiros.

As instituições nacionais também foram tomadas pelo inesperado, mas não usaram explicitamente a expressão “dovish”, denominação atribuída a uma autoridade monetária dócil como um pombo, em oposição a “hawkish”, dura como um falcão.

O BC, com grande confiança, assume mais riscos

Todos, porém, entenderam que o ciclo de aperto monetário patrocinado pelo Banco Central desde janeiro deve ser mais curto e menos intenso do que imaginavam; e consideraram que o BC está assumindo riscos que não condizem com o natural conservadorismo esperado da instituição quando se trata de combater a inflação. Um ex-dirigente do BC chegou a ironizar: ” O BC, agora, tem meta de juros e a expectativa de inflação é flutuante”.

O item 31 da ata refere-se a um cenário alternativo, que conta com taxa de câmbio de R$ 1,65 por dólar e Selic de 12,5% no fim do ano. Neste, a projeção de inflação para 2011 encontra-se acima da meta, mas ligeiramente abaixo da meta em 2012. Tendo em vista esse cenário, associado à desaceleração do nível de atividade internamente e às incertezas no mundo, ” a eventual introdução de ações macroprudenciais pode ensejar oportunidades para que a estratégia de política monetária seja reavaliada”.

Isto é, a partir do cenário alternativo, um aumento de 0,75 ponto percentual na taxa básica de juros já seria suficiente para fazer o IPCA convergir para a meta de 4,5% ao ano no próximo exercício. Se novas medidas prudenciais, dirigidas para a contenção do crescimento da oferta de crédito, forem adotadas, talvez nem seja preciso toda essa dose de elevação dos juros.

A expansão do crédito nos bancos públicos é um elemento de preocupação e o novo aporte de R$ 55 bilhões do Tesouro Nacional ao BNDES, anunciado na semana passada pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, só fez aumentar a apreensão.

É bom lembrar, porém, que no passado o BC fez intervenções draconianas no aumento do crédito. Em 1994, no auge da explosão da demanda pós-Plano Real, o Banco Central elevou todos os recolhimentos compulsórios dos bancos. Em seguida, criou um compulsório diretamente sobre as operações de crédito – que era pequeno como proporção do PIB – e, com isso, derrubou a economia.

Hoje, algumas áreas do governo já trabalham com um crescimento de 3,5% para o Produto Interno Bruto (PIB) deste ano, uma queda substancial em relação aos 7,5% do ano passado. Diante desse desaquecimento – que o mercado não vislumbra – seria possível a convergência da inflação para algo próximo ao centro da meta ainda em 2012. A se confirmar tal expectativa, a taxa Selic poderia ter mais um único aumento de 0,5 ponto percentual na reunião de abril.

Os operadores de mercado não aprovam o uso de medidas macro prudenciais, sob a alegação de que seus efeitos são desconhecidos e podem ser até mais severos para a atividade econômica do que o aumento dos juros. O Banco Central contra-argumenta que não cabe a ele ensinar o mercado a fazer contas.

Outro agravante para a política de controle da inflação é a taxa de câmbio. A contribuição da apreciação do real, nos últimos anos, para manter o IPCA no intervalo da meta foi importantíssima. Aliás, a influência da taxa de câmbio pode ter sido até maior do que o próprio manejo da taxa básica de juros no combate à inflação. Com o câmbio rondando R$ 1,65, essa contribuição se esgotou.

Preocupado com os prejuízos que a valorização do real traz para as contas externas, Mantega tem inclusive emitido sinais de que novas medidas virão muito em breve para conter a apreciação da moeda local frente ao dólar, processo esse que não se restringe ao Brasil.

Dentre essas medidas, especula-se sobre a elevação do IOF para investimentos estrangeiros em títulos de renda fixa, basicamente em papéis da dívida pública. Embora essa seja uma medida de estrita alçada do Ministério da Fazenda, através da Receita Federal, há uma interação na discussão entre o ministério e o Banco Central. Ocorre, porém, que o ingresso de dólares para aplicações em renda fixa tem sido praticamente nulo, razão pela qual um aumento da tributação seria uma providência ociosa. Há, no entanto, uma suspeita de ingressos de recursos para aplicações financeiras travestidos de investimentos estrangeiros diretos.

No cronograma do Copom, este ano presenciará dois momentos distintos para a inflação. Nos primeiros três trimestres, a variação acumulada do IPCA pode subir e furar o teto da meta, de 6,5%. No quarto trimestre, o índice acumulado em 12 meses cai, deslocando-se para o centro da meta.

Sem a ajuda da valorização cambial, com poucos indicadores sobre o efetivo desaquecimento da economia, um quadro de pleno emprego e aumento real de salários, salário mínimo superindexado e incertezas sobre a execução fiscal, há o receio de que o Banco Central esteja assumindo riscos demais.

Claudia Safatle é diretora adjunta de Redação e escreve às sextas-feiras

E-mail claudia.safatle@valor.com.br

26/11/2010 - 12:33h Novo aperto monetário está próximo

Claudia Safatle | VALOR

A deterioração da inflação e a forte retomada do nível de atividade econômica de outubro para cá indicam que a reação do Banco Central terá que ser rápida. O início de um novo ciclo de aperto monetário, com elevação da taxa básica de juros (Selic), pode estar bem próximo. No mais tardar, viria em janeiro, com sinais explícitos na ata da próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), dias 7 e 8 de dezembro. Essa será a última sob o comando do presidente do BC, Henrique Meirelles, e a decisão que for tomada dirá respeito a gestão do presidente indicado, Alexandre Tombini.

A variação do IPCA este ano caminha para 6%, ou 1,5 ponto percentual acima da meta de 4,5%. Para 2011, as expectativas também estão nessa mesma linha. A taxa de inflação implícita nos juros dos títulos do Tesouro Nacional, as NTN-B de um ano, superam 6%. O nivel de atividade começou a se reaquecer em setembro, depois de uma sensível desaceleração no terceiro trimestre. Emprego, renda e crédito crescem e a previsão é que o crescimento do PIB do último trimestre seja superior a 1%, comparado a algo entre 0,2% e 0,5% no terceiro trimestre.

No Ministério da Fazenda, a avaliação é que os aumentos de preços ainda estão muito concentrados em alimentos, e esses, em geral, sobem, mas depois caem, devolvendo a inflação gerada. Porém, além do aumento dos grãos, que agora se reflete nas carnes, há pressões sazonais vindas do setor de vestuário e o aumento do preço do etanol, que contamina os dos derivados de petróleo. Adiciona-se a isso o esperado reajuste de 7% das tarifas de ônibus em São Paulo.

Parte do mercado vê BC atrasado no controle da inflação

Segundo os técnicos da Fazenda, ainda não está claro se a economia crescerá forte nos três últimos meses do ano ou se o que houve em outubro foi um fato isolado, um ajuste depois do freio de arrumação do terceiro trimestre. Eles não acreditam, no entanto, que o crescimento do fim de ano seja intenso o suficiente para superar os 5,5% de variação do PIB anual estimados para 2011. E esse percentual de crescimento, afirmam os técnicos, é sustentável.

Outras informações recentes, contudo, elevaram o grau de preocupação dos economistas encarregados de gerir a meta de inflação. Embora os alimentos tenham sido responsáveis pelo aumento dos preços, há nitidamente um movimento de segunda ordem de propagação sobre os demais preços da economia.

O índice de difusão do IPCA-15 para os preços livres, divulgado esta semana, mostra um universo cada vez maior de produtos com aumento de preços. Em outubro, era de 61,78% e, em novembro, subiu para 68,44%.

As medidas de núcleos de inflação também corroboram com essa visão. A média dos núcleos, que passou de 0,50% em outubro para 0,59% em novembro, aponta para um aumento acumulado de 5,39% em 12 meses. A inflação de serviços continua forte, 7,38% em 12 meses. Para os técnicos do Ministério da Fazenda, porém, parte desse aumento não é inflação, mas reflexo de uma mudança de preços relativos inerente ao processo de desenvolvimento do país.

Tudo isso ocorre num momento delicado de transição do governo Lula, de forte expansão do gasto público, para o governo de Dilma Rousseff, que deu sinais de compromisso com uma política fiscal restritiva.

Embora seja responsabilidade do Banco Central administrar a taxa básica de juros para fazer a inflação convergir para o centro da meta, que é de 4,5% até 2012, a intensidade e duração do ciclo de aperto dependerá da ajuda que o restante do governo der no controle do gasto público. Quanto maior for o superávit primário das contas públicas e mais moderado o crescimento da oferta de crédito, menor terá que ser a elevação da taxa Selic, hoje de 10,75% ao ano. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, adiantou que, da parte do BNDES, não haverá uma expansão do crédito como a dos dois últimos anos.

A decisão do Copom em julho, de reduzir de 0,75 ponto para 0,5 ponto o aumento da Selic e estabilizá-la em 10,75%, foi considerada precipitada por uma ala importante do mercado. De lá para cá, o BC não conseguiu coordenar as expectativas. Essa mesma parte do mercado acha, agora, que o Banco Central já está atrasado no controle da inflação.

Se o manual básico da política monetária for inspirado em Nicolau Maquiavel, o Copom será rápido e contundente.

Claudia Safatle é diretora adjunta de Redação e escreve às sextas-feiras

E-mail claudia.safatle@valor.com.br

15/03/2008 - 10:21h O fantasma de 1929 assombra os Estados-Unidos

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Apostando o banco

*Paul Krugman – NYT – O ESTADO DE SÃO PAULO

criseusa.jpgQuatro anos atrás, um economista acadêmico chamado Ben Bernanke foi co-autor de um estudo técnico que poderia se intitular “Coisas que o Federal Reserve deve tentar se ficar desesperado” – embora isso possa não ficar evidente em seu título verdadeiro, “Monetary Policy Alternatives at the Zero Bound: An Empirical Investigation” (Alternativas de política monetária no limite zero: uma investigação empírica).

Hoje o Fed (banco central americano) está de fato desesperado, e Bernanke, na condição de seu presidente, está pondo em prática algumas sugestões do estudo. Infelizmente, porém, as ações do Fed de Bernanke – apesar de seu objetivo sem precedente – provavelmente não serão suficientes para conter a espiral descendente da economia.

E, se eu estiver certo sobre isso, há uma implicação adicional: a temível economia da crise financeira logo criará também algumas políticas temíveis.

Para compreender o que está acontecendo, é preciso saber um pouco como a política monetária normalmente opera.

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