27/04/2009 - 13:24h Especialistas divergem sobre impactos do aquecimento global

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Alguns cientistas preferem não fazer previsões catastróficas demais

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Por ANDREW C. REVKIN

A linguagem foi apocalíptica. Um importante cientista climático advertiu que o aumento das temperaturas na Terra provocaria desastres irreversíveis se não fossem tomadas medidas urgentes para conter o aquecimento global.
“O clima se aproxima de seus pontos de desequilíbrio”, escreveu o cientista climático da Nasa James Hansen no jornal “The Observer” de Londres em fevereiro. As calamidades resultantes, advertiram Hansen e outros cientistas de pensamento semelhante, poderão ser amplas e avassaladoras: a perda de inúmeras espécies quando os recifes dos oceanos e as florestas forem perturbados; a transformação da Amazônia em um campo seco; o aumento do nível do mar resultante do derretimento de camadas de gelo na Antártida e na Groenlândia; e o aquecimento da tundra ártica, que liberaria o gás metano na atmosfera.
Mas a ideia de que o planeta está se aproximando do ponto de desequilíbrio -limite em que a mudança se torna incontível- causou uma divisão entre cientistas que de outro modo compartilham profundas preocupações sobre o aquecimento climático.
Ambientalistas e alguns especialistas advertem cada vez mais sobre esses pontos de desequilíbrio em seus esforços para mobilizar o público. O termo confere uma sensação de imediatez às potenciais ameaças do aquecimento climático-perigos que de outro modo poderiam parecer irrelevantes.
Mas outros cientistas dizem que há poucas evidências sólidas que apoiem as previsões de catástrofe. Eles temem que o uso do termo “pontos de desequilíbrio” possa ser enganoso e cause um retrocesso, alimentando as críticas de alarmismo e ameaçando o apoio público à redução das emissões de gases do efeito estufa.
“Acho que grande parte dessa conversa é perigosa”, disse Kenneth Caldeira, cientista da Universidade Stanford, na Califórnia, e do Instituto Carnegie, organização para pesquisas científicas, e defensor da ação rápida para reduzir as emissões de dióxido de carbono. “Se dissermos que já passamos dos limites e pontos de desequilíbrio, será uma desculpa para a inação.”
Enquanto os estudos dos padrões climáticos no passado distante mostram o potencial para mudanças drásticas, dizem esses cientistas, há uma enorme incerteza ao fazer previsões específicas sobre o futuro. Em alguns casos, há grandes questões sobre se os desastres causados pelo clima -como a perda da Amazônia ou o aumento no nível do mar em vários metros- sequer são plausíveis. E, mesmo nos casos em que a maioria dos cientistas concorda que o aumento da temperatura poderia causar uma mudança incontível, ninguém sabe onde está o limite que detonaria as mudanças.
Hansen defende o uso do termo ponto de desequilíbrio e disse que ele representa acuradamente algumas consequências prováveis do aquecimento global irrestrito. Existe abundante evidência, diz, de que o aumento das temperaturas pode ter um efeito abrupto, calamitoso e “não linear” sobre as geleiras e os ecossistemas.
Mas outros veem poucas evidências de um distúrbio desenfreado. Por exemplo, a ideia de que o recente recuo acentuado do gelo de verão no mar do pólo norte adquiriu um momento próprio foi contestada recentemente em trabalhos dos cientistas John S. Wettlaufer, da Universidade Yale, e Ian Eisenman, do Instituto de Tecnologia da Califórnia. Eles afirmam que os bancos de gelo finos têm a capacidade de se reconstituir rapidamente no final do verão, equilibrando o derretimento que ocorre enquanto a luz do sol atinge e aquece a água escura.
De modo mais geral, Wettlaufer salientou a importância de ser “totalmente honestos sobre o que sabemos e o que não sabemos”.

11/03/2009 - 17:39h Nível dos oceanos pode subir o dobro do previsto

Previsão mais otimista é de alta de pelo menos meio metro até o final deste século; IPCC não teria levado em consideração variáveis cruciais

 

Efe, COPENHAGUE – O Estado SP

 


Estudos recentes indicam que o nível do mar poderá subir um metro até 2100 – o dobro do estimado no último informe mundial da Organização das Nações Unidas. A advertência foi feita por pesquisadores de várias universidades durante o Congresso Científico Internacional sobre Mudança Climática de Copenhague, Dinamarca.

O motivo da formulação desse cenário mais pessimista é a observação de que geleiras, assim como as massas de gelo da Groenlândia e da Antártida, estão derretendo a um ritmo mais forte do que o esperado, ao lado da crescente temperatura dos oceanos, o que resulta em sua expansão, afirmou o professor John Church, do Centro Australiano para a Pesquisa do Clima e do Tempo. “As observações por satélite e terrestres mais recentes mostram que o nível do mar segue subindo 3 milímetros ao ano, uma cifra bem acima da média do século 20″, disse o pesquisador, que presidiu uma mesa redonda com outros especialistas.

A previsão mais otimista feita no congresso é a de que o nível do mar subirá pelo menos 50 centímetros até 2100. Os cientistas afirmam que se as emissões de gases causadores do efeito estufa não forem reduzidas rápida e substancialmente, o aumento do nível do mar afetará, ainda no melhor dos casos, 10% da população mundial.

O último informe do Painel Intergovernamental sobre a Mudança Climática (IPCC) da ONU, divulgado em 2007, estimou que os oceanos aumentariam entre 18 e 50 centímetros – mas esse estudo não havia incluído todos os fatores nos cálculos, como a reação das massas de gelo da Groenlândia e da Antártida às alterações climáticas.

VARIAÇÕES REGIONAIS

Konrad Steffen, diretor do Instituto Cooperativo para a Pesquisa em Ciências Ambientais da Universidade do Colorado (Estados Unidos), ressaltou que haverá grandes diferenças regionais causadas pelo aumento do nível do mar, dependendo da localização e da origem do derretimento das geleiras.

O congresso de Copenhague, resultado de uma colaboração entre a Universidade de Copenhague e outras nove instituições, reúne até amanhã mais de 2 mil participantes, com 1.600 trabalhos científicos de pesquisadores de 70 países. As conclusões preliminares do congresso farão parte de um documento que será publicado em junho deste ano e entregue a todos os participantes da reunião climática mundial que ocorrerá em Copenhague em dezembro.

É nesse evento que, espera-se, pode surgir um consenso sobre um novo acordo climático que substitua o Protocolo de Kyoto quando ele expirar, em 2012.

11/03/2009 - 17:19h Calor absorvido quadruplica no Ártico

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Fenômeno alimenta o ciclo vicioso em que o aquecimento global faz mais gelo derreter durante o verão, e vice-versa

Medições via satélite feitas pela Nasa no Alasca indicam que retração da superfície congelada é 26% maior que a normal em meses quentes

GUSTAVO FALEIROS
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA EM COPENHAGUE

A quantidade de calor do Sol absorvido pelo Ártico quadruplicou nos últimos 30 anos, o que aumenta o risco de o sistema climático do planeta cruzar uma fronteira sem volta. O número, apresentado ontem encontro de especialistas do clima que ocorre até quinta em Copenhague (Dinamarca), saiu de levantamento feito pela Nasa com imagens de satélite.
A maior absorção de calor decorre da perda de superfície branca de gelo (veja quadro à esq.). Ela gera um ciclo vicioso no qual a própria perda da superfície congelada acelera o processo de derretimento.
Os números da Nasa saíram de observações entre 1973 e 2007 em regiões próximas ao Alasca que perderam muito gelo. Ao contrário das placas congeladas, que refletem quase toda a luz, o mar absorve o calor e passa a contribuir diretamente para derreter a calota polar.
De acordo com Son Nghiem, pesquisador do Laboratório de Propulsão a Jato da Nasa que apresentou os dados na conferência, o processo pode explicar as grandes perdas de áreas congeladas nos anos recentes.
Entre 1998 e 2008, a redução da superfície de gelo no Ártico durante o verão foi 26% superior ao normal. A média nas duas décadas anteriores, embora já indicasse uma diminuição anormal, havia sido de 4%.
O processo observado no Ártico revela que, devido ao aquecimento global, a região pode estar próxima ao chamado “ponto de virada” -momento em que o processo não pode mais ser revertido. A partir dessa marca o sistema climático seguiria em “resposta positiva”, com sua deterioração se retroalimentando, acelerando um eventual colapso.
No polo Norte, o colapso significaria a perda total de gelo durante o verão. A redução total da camada de gelo na região nos meses mais quentes, medida desde os anos 70, já é de 40%. “Ainda não podemos dizer com certeza se o gelo no oceano Ártico deixará de existir no verão. Mas dizemos que os impactos deste fenômeno seriam grandes”, diz Nghiem.
Pesquisas recentes da Universidade de Colorado indicam que as calotas da região poderiam deixar de existir em duas décadas. Mas, para Nghiem, o leve aumento da extensão da área congelada no último verão indica que o sistema tem maior capacidade de se recuperar.
A discussão sobre os polos do planeta está ganhando corpo no encontro científico em Copenhague. Alguns cientistas voltaram a alertar que permitir que uma elevação na temperatura de 3C poderia causar o derretimento completo da cobertura de gelo da Groelândia.
Outros cientistas, porém, são um pouco menos pessimistas. “Adotando as atuais medidas de estabilização do clima -como a redução de 80% das emissões em 2050 proposta pelo G8- há uma chance de 55% de a Groelândia não atingir o “ponto virada” “, diz Jason Lowe, do Centro Hadley, da Inglaterra.

26/02/2009 - 10:30h Ano Polar confirma degelo no Ártico e na Antártida


Cientistas dizem que aquecimento afeta região antártica de maneira “insuspeitada”

Oceano austral aqueceu mais que a média dos mares do mundo; América do Sul sentirá efeitos de mudança no continente austral

Efe

Navio na região da plataforma Wilkins, afetada por aquecimento

DA REDAÇÃO FOLHA SP

Agora é oficial: o Ártico e a Antártida estão esquentando mais rápido do que se imaginava e seus mantos de gelo, especialmente o da Groenlândia, estão derretendo sob influência do aquecimento global. As conclusões são do maior esforço de pesquisa já feito sobre as regiões polares, que envolveu mais de 10 mil cientistas de 60 países, incluindo o Brasil.
Um relatório preliminar divulgado ontem em Genebra, que encerrou esse esforço de pesquisa, o 4º Ano Polar Internacional, afirma que “parece certo agora que tanto o manto de gelo da Groenlândia quanto o da Antártida estão perdendo massa e portanto aumentando o nível do mar, e que a taxa de perda de gelo na Groenlândia está crescendo”.
O degelo acelerado dos polos é uma das maiores incertezas nos modelos do aquecimento global. Se derretidos, o oeste da Antártida e a Groenlândia elevariam o nível do mar em vários metros, o que seria desastroso para a humanidade.
No entanto, como o comportamento das geleiras antárticas e árticas é muito complexo, até agora tem sido impossível estimar a contribuição total do degelo polar para o nível do mar no futuro (no leste da Antártida, por exemplo, o gelo parece estar aumentando).
Essa questão ficou sem resposta no último relatório do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática), o comitê de climatologistas da ONU, que previu uma elevação de “modestos” 59 cm no nível global dos oceanos até o fim deste século.
Responder se os polos estão ou não perdendo gelo era um dos principais objetivos do Ano Polar Internacional, que começou em 2007 e termina em março. Num esforço de cooperação internacional sem precedentes e com US$ 1,5 bilhão de financiamento, cientistas usaram técnicas como medições por satélite de mudanças na elevação e nos campos gravitacionais dos mantos de gelo.
O resultado não é a última palavra sobre o assunto, mas as pesquisas feitas durante o Ano Polar indicam um balanço de massa negativo, ou seja, mais gelo é perdido do que o que se acumula por precipitação de neve. “Acho que os especialistas discordariam de um cenário de derretimento repentino, instantâneo ou catastrófico”, disse à Folha David Carlson, coordenador científico do Ano Polar Internacional.
“Mas acredito que eles dirão que observam uma aceleração do degelo, de forma que poderíamos observar efeitos substantivos no nível do mar em várias décadas ou um século, em vez de vários séculos.”
Dados obtidos por navios oceanográficos na Antártida, boias equipadas com termômetros e até mesmo elefantes-marinhos com instrumentos amarrados na cabeça mostram que o oceano Austral está esquentando mais depressa que o restante dos oceanos do planeta. Segundo o relatório divulgado ontem, há sinais de que o aquecimento global está afetando a Antártida de maneiras “insuspeitada”. Ian Allison, um dos coordenadores do Ano Polar Internacional, disse que a primeira região a sentir o efeito das mudanças na Antártida será a América do Sul.