14/05/2008 - 20:06h As Livrarias Mais Belas do Mundo

O jornal inglês The Guardian publicou uma matéria com a relação das dez livrarias mais belas do mundo. Atualmente as livrarias independentes parecem não ter a menor chance contra as vendas na Internet, ou mesmo em “Mega Stores” locais, mas ainda existe espaço para a criatividade neste ramo, como podemos constatar através das três primeiras colocadas na relação do Guardian:

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Selexyz Dominicanen

(1) Selexyz Dominicanen - Holanda. A igreja dominicana de 800 anos localizada na cidade medieval de Maastricht na Holanda, que era utilizada como um depósito de bicicletas há pouco tempo atrás, foi convertida em uma livraria pelos arquitetos de Amsterdam Merkx + Girod. O espaço, que foi inaugurado pouco antes do último natal, manteve as características e o charme de uma antiga igreja, juntamente com uma moderna decoração minimalista. O projeto conseguiu ampliar a área de piso original de 750 m2 para 1200 m2 através de uma estrutura de aço escura, comportando as prateleiras, escadas e elevadores. A iluminação foi o toque final para manter o equilíbrio neste templo de livros. É o que podemos chamar de uma livraria celestial (ver mais fotos no flickr).

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El Ateneo

(2) El Ateneo - Argentina. Em fevereiro de 2000, o edifício do antigo cine-teatro Gran Splendid de Buenos Aires foi arrendado por dez anos para ser transformado em uma livraria (ver fotomontagem no flickr). A essência do trabalho consistiu em respeitar, conservar e restaurar a construção original, de 1903, adaptando-a às necessidades da nova função. A reforma exigiu o reforço das estruturas, principalmente nas áreas para os novos elevadores e escadas rolantes. Foram realizadas grandes escavações sob a platéia e o palco, para criar a sala de livros infantis e os depósitos do subsolo. Isso resultou no acréscimo de mais de 1000 m2 de construção. O café - também utilizado para a realização de palestras - foi instalado no palco, cujo teto recebeu vidro transparente para permitir a entrada de luz natural.

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Livraria Lello

(3) - Portugal. A livraria Lello Fundada em 1906 e situada na Rua das Carmelitas, cidade do Porto, estende-se por dois andares. O edifício, projetado por Xavier Esteves, foi construído em estilo neogótico e as enormes estantes iluminadas guardam cerca de 120 mil títulos diferentes em várias línguas. No interior da livraria, o visitante sente-se envolvido por um ambiente acolhedor. Uma vasta sala, com uma galeria que dá acesso a uma escada ornamental, onde correm algumas mesas que servem para exposição dos livros. Bancos em madeira e revestidos de couro e estantes em toda a sala perfazem o espaço interior próprio de uma livraria atual, mas que guarda a memória do passado (ver fotos no flickr e também uma fantástica vista da livraria em 360º).

Por Kovacs - Mundo de K.

12/04/2008 - 06:26h Síndrome de Paris

Relação de amor e ódio com a França pautou Brasil pós D. João

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Marília Martins - O Globo

Era uma vez uma fuga em massa em que os fugitivos chegaram ao seu refúgio e…
reencontram seus perseguidores na forma de um delírio de poder. Este é o enredo de um livro surpreendente sobre um conhecido episódio da História do Brasil.

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“Versalhes Tropical”, da historiadora americana Kristen Schultz, reconta a fuga, em 1807, do príncipe regente, da família real e de mais de 10 mil membros da Corte portuguesa, uma multidão de nobres que se lançou mar a dentro para escapar das tropas de Napoleão. E reinterpreta os 13 anos de D. João no Brasil a partir deste ponto de vista: a Corte lusa fugia de um imperador (Napoleão) que sonhava restaurar a grandeza dos tempos do Rei-Sol (Luis XIV), mas também admirava a opulência de Versalhes.

Mais do que isso: os portugueses imaginavam fazer do Rio uma Versalhes tropical.

Como foi possível que a Corte portuguesa elegesse como modelo exatamente a França, o país do qual tentava escapar, quando historicamente a monarquia inglesa havia sido sempre muito mais próxima dos interesses portugueses? — A transferência da Corte para o Rio foi simultaneamente resposta a um tempo de revolução e solução original para a crise do modelo da monarquia no século XIX — explica Kristen, cujo livro será publicado em português pela Record no fim de junho. — De um lado, a Corte fugia de uma Europa convulsionada pela Revolução Francesa e pelas guerras napoleônicas.

E, do outro, partia na direção de um continente que havia abrigado a Revolução Americana, a violenta revolta no Haiti e vários movimentos de independência nas colônias espanholas.

Delírio mais forte que a realidade

Segundo ela, esses movimentos desafiavam, no continente americano, não só os princípios e as práticas da hereditariedade como hierarquias de status, raça, cultura e valores que regiam as relações entre a Europa e as terras do além mar.

Os ingleses estavam mais próximos dos portugueses, mas a monarquia inglesa não poderia servir de modelo porque eles buscavam um ideal absolutista que os ingleses não ofereciam.

Noutras palavras: em pânico diante das cabeças coroadas cortadas pela Revolução Francesa, os portugueses sonhavam ter um refúgio, em busca de um final feliz para o poder imperial. Assim teve origem, segundo Kristen, o fascínio pelo estilo de vida de Versalhes e pela cultura francesa de modo geral.

d_joao_carlota.jpgUm fascínio que perdurou não só nos 13 anos em que a Corte portuguesa permaneceu no Brasil, como deixou marcas nas missões de artistas franceses, na arquitetura do Rio e também na visão que os brasileiros que lutaram pela Independência tinham da pátria que sonhavam construir.

— Esse fascínio pelos maneirismos franceses, que depois da volta da Corte a Portugal ampliou-se, adotando a cultura francesa como um modelo, teve profundas consequências no Brasil do século XIX e em especial no Rio. É verdade que politicamente os portugueses eram aliados dos ingleses, mas apesar disso, a influência francesa foi muito maior, mais efetiva e duradoura. Neste caso, o imaginário teve um peso importante — acredita Kristen.

Professora de história latinoamericana, especializada em Brasil, na Faculdade de Ciências Sociais da Cooper Union, em Nova York, Kristen passou um tempo pesquisando no Brasil. A trama de manuscritos, documentos e estudos que serve de base para sua hipótese sobre os 13 anos da Corte portuguesa no Rio, de 1808 e 1821, dá uma nova pista sobre como os defensores da Independência acabaram por entronizar o próprio herdeiro português, entregando a coroa brasileira para o filho do monarca que combatiam.

Fantasmas de uma monarquia

A curiosa e contraditória combinação entre os ideais da Independência e os da monarquia levou o Brasil a construir uma organização políticosocial inteiramente diversa da do restante do continente, que tem origens, ainda não completamente compreendidas, nestes 13 anos que transformaram o Rio de Janeiro e o Brasil.

— O que me atraiu na história da fuga da Corte portuguesa para o Brasil foi perceber como, num período de só 13 anos, se tornaram evidentes contradições e fantasmas que mais tarde estiveram na base da monarquia brasileira — diz Kristen.

Ela investiga a forma como o sistema colonial foi combinado com o cotidiano da sociedade escravocrata do século XIX, desafiando a política antiescravocrata da monarquia inglesa, que condenava o tráfico negreiro.

Das gravuras de Jean-Baptiste Debret aos manuscritos de época, Kristen desvenda como senhores e escravos se relacionavam com base num singular paternalismo autoritário que ganhou força nos anos de invenção delirante da Versalhes tropical.

— O sistema escravocrata brasileiro pagou tributo a esta passagem da Corte portuguesa pelo Rio.

E os escravos da capital também exploraram as contradições no projeto real de transformar o país.

Um projeto que procurou reafirmar o poder monárquico por meio de uma vassalagem típica do Novo Mundo — avalia Kristen.

Entre desqualificar a colônia e torná-la o centro do império, por força das circunstâncias, os portugueses no Brasil deixaram bem mais do que a fonte quase inesgotável de anedotas e descrições grotescas dos costumes lusos de então, que até hoje são muito populares quando se fala sobre os anos brasileiros de D.João. Como revela o passeio pelo Rio do começo do século XIX feito por Kristen Schultz, ficou um legado de imagens e contradições que sobreviveu aos 13 anos da aventura lusitana em terras do além-mar.

21/08/2007 - 12:51h Com nova lei, Portugal faz 15 abortos por dia

Uma brasileira já se submeteu à operação no país

Ricardo Westin O Estado de São Paulo

Ao longo das últimas cinco semanas, o sistema público de saúde de Portugal realizou uma média de 15 abortos por dia. No total, entre 16 de julho e ontem, 526 mulheres abortaram em hospitais portugueses. Em julho, a interrupção da gravidez deixou de ser ilegal no país. Portugal tem pouco mais de 10 milhões de habitantes - a mesma população da cidade de São Paulo.

A Direção Geral da Saúde, do Ministério da Saúde, informou ao Estado que uma das mulheres que abortaram nesse período era brasileira. Não se sabe, porém, se ela vive em Portugal ou havia viajado ao país por causa do aborto.

Essas são as primeiras estatísticas sobre o aborto em Portugal desde a legalização. Em fevereiro, os portugueses decidiram em referendo que as mulheres passariam a ter a liberdade de interromper a gravidez até a décima semana de gestação.

A lei começou a valer em meados de julho. Até então, o aborto só era permitido nos casos de estupro e de risco à saúde e à vida da mãe ou do bebê. Ná há estimativas oficiais sobre abortos clandestinos até então nem sobre as mortes decorrentes desses procedimentos. Muitas mulheres tinham a opção de viajar para países próximos, como a Espanha, para interromper a gravidez legalmente.

O número do primeiro mês é considerado baixo. O governo previa 20 mil abortos por ano - média de 1,7 mil por mês. “Agosto é mês de férias na Europa. Provavelmente por isso há um atraso nas notificações”, explica o coordenador nacional do Programa de Saúde Reprodutiva, Jorge Branco. “Precisamos esperar pelo menos mais um mês para termos uma idéia clara.”

Mesmo que chegue aos 1,7 mil abortos mensais, o número ainda será baixo diante da demanda, na avaliação de Yolanda Hernández Domínguez, responsável pela Clínica dos Arcos, em Lisboa. “Aqui chegam muitas mulheres querendo interromper a gravidez quando já se passaram mais de dez semanas. Não podemos fazer o aborto nesses casos”, diz. “Seria mais prático se a lei estipulasse um período de 12 semanas.”

O aborto pode ser realizado em duas clínicas privadas - incluindo a Clínica dos Arcos - e em 38 hospitais públicos. O governo paga cerca de 400 (R$ 1.100) por cada cirurgia.

Os médicos portugueses não estão obrigados a fazer aborto. Para isso, precisam alegar “objeção de consciência”. A grávida é então transferida para outro médico ou hospital. Entre o pedido e a realização da operação, a mulher deve esperar ao menos três dias - tempo para refletir se realmente quer deixar de ter o bebê.

Qualquer mulher pode ser atendida em Portugal, mesmo não sendo residente do país. Das 526 que fizeram aborto desde a nova lei, 79 eram estrangeiras.

EM DISCUSSÃO NO BRASIL

No Brasil, a legalização do aborto freqüentemente entra na pauta das discussões públicas. No final de junho houve um acalorado debate entre defensores e críticos numa audiência pública na Câmara dos Deputados.

Um dos principais defensores da legalização é o ministro da Saúde, José Gomes Temporão. “Aborto é questão de saúde pública. A legislação precisa ser mudada”, disse ele recentemente. “Até ali, em torno da 12ª semana, não há (no feto) consciência, sofrimento, dor. Vários especialistas dizem isso.”

Um estudo realizado pela ONG Ipas e pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) revelou que 1,04 milhão de abortos clandestinos são feitos no Brasil por ano, o que representa uma interrupção a cada quatro gestações. Segundo o Ministério da Saúde, pelo menos 200 mulheres morrem por ano em decorrência de abortos.

Os principais críticos da legalização são ligados à Igreja Católica. Segundo eles, a interrupção da gravidez é sempre uma forma de homicídio.

O coordenador do Programa de Saúde Reprodutiva do governo português diz que a permissão dos abortos foi um avanço. “O aborto é uma situação que existe em qualquer país. Portanto, mais vale que seja em situações de segurança para a mulher e sem perseguição da Justiça”, diz Jorge Branco. “Eu conheço a realidade brasileira e acho que, mais tarde ou mais cedo, o Brasil também vai acabar por permitir (o aborto).”