16/11/2008 - 12:11h G-20 abre ciclo de negociações

http://img.rian.ru/images/11796/93/117969347.jpghttp://www.reuters.com/resources/r/?m=02&d=20081115&t=2&i=6826787&w=450&r=2008-11-15T195516Z_01_BTRE4AE1D5T00_RTROPTP_0_FINANCIAL-SUMMIT

Paulo Sotero * - O Estado SP

O mais difícil começa agora. Nos próximos quatro meses, as burocracias terão a árdua tarefa de trocar em miúdos os princípios acordados na primeira reunião de chefes de governo do G-20, realizada ontem em Washington. O encontro não produziu resultados conclusivos, mas foi uma boa notícia pelo simples fato de ter acontecido. Em meio ao tsunami financeiro causado pela falta de regulação adequada do sistema financeiro global, principalmente nos países ricos que até agora ditavam as regras, os líderes, que representam 90% do PIB mundial, mostraram-se unidos e tomaram a decisão histórica de elevar politicamente um foro para incluir os países emergentes como participantes iguais na elaboração e implementação de um novo conjunto de normas e procedimentos globais capaz de impedir ou conter crises sistêmicas como a que o mundo vive hoje.

A reunião de Washington abriu um ciclo de negociações que testará tanto os países avançados quanto os novos atores, como o Brasil. Os governos das nações industralizadas, congregadas até agora no obsoleto G-7, terão que resistir a seu velho hábito de se reunir com os emergentes para fazer-lhes preleções. Como lembrou o ex-presidente do Banco Mundial James Wolfensohn na última sexta-feira, os ricos não têm mais credibilidade para agir dessa forma. Em lugar disso, eles devem “ouvir os conselhos e as preocupações dos líderes dos países em desenvolvimento e tratá- los como parceiros plenos e iguais, não como afortunados por serem convidados”, disse Wolfensohn.

O outro lado da moeda é que os emergentes serão chamados a comportar-se como iguais. Isso significa ter claro que sua capacidade de influência no novo foro dependerá menos do talento de seus líderes de fazer discursos do que do cacife econômico, do capital intelectual e da disposição política de seus respectivos governos para formular propostas bem fundamentadas e contribuir efetivamente para a construção da nova arquitetura do sistema financeiro.

O Brasil demonstrou ter esse tipo de capacidade no outro G-20, que ajudou a criar em setembro de 2003, juntamente com a Índia e o apoio de outras nações emergentes no contexto das negociações da Rodada de Doha na Organização Mundial de Comércio. A iniciativa foi uma importante vitória tática e resultou na mudança do formato da mesa de negociações de acordos de liberalização do comércio global, que antes só tinha lugar para os ricos. Não vem ao caso se o País deveria ou não ter apostado todas as fichas na conclusão da rodada. Ela permanece no limbo, travada pela resistência dos EUA de reduzir seus subsídios à agricultura e, em menor proporção, pelo choque de interesses que surgiu entre os emergentes - de um lado o Brasil, uma potência agrícola que defende mercados abertos, de outro a Índia e a China, que têm milhões de camponeses na agricultura familiar de subsistência e, compreensivelmente, resistem a abrir seus mercados.

No G-20 financeiro, o cacife brasileiro é menor do que no G-20 comercial. Mas não é desprezível. O País seguiu a receita da racionalidade econômica pregada pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) e conquistou a estabilidade. Graças a isso, ganhou credibilidade. Mais: é hoje um dos emergentes que crescem num mundo em que as economias ricas estão em contração. Ainda que em escala menor do que a China, o Brasil dá uma contribuição positiva e aparece como parte da solução e não da crise profunda que aflige a economia mundial. Isso dá peso ao País no novo G-20, cuja criação Brasília apoiou, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso. Trata-se de saber, agora, como o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva usará a cadeira permanente que tem no G-20 para influir no processo de construção de uma governança global do sistema financeiro que atenda os interesses nacionais.

Uma das propostas adotadas pelos chefes de governo foi o fortalecimento do FMI. Em 1990, quando o estoque de investimentos globais em bolsas somava U$ 170 bilhões, o FMI tinha U$ 36 bilhões para emprestar a países em crise. Hoje tem US$ 200 bilhões, ou seis vezes mais. Ocorre que o estoque de investimentos aumentou 18 vezes em 18 anos e está agora em U$ 3 trilhões. Esse cálculo, feito por Sebastião Malaby, do Washington Post, torna evidente a necessidade de aumento do capital do Fundo.

O antagonismo ao FMI é, porém, parte da própria identidade ideológica do partido do presidente da República e de seus aliados da base governista. Sabe-se, também, que a ojeriza ao Fundo é compartilhada por vários integrantes da equipe econômica do governo, que vêem na crise atual a legitimação de suas posições e previsões sobre o inexorável colapso do capitalismo. Ocorre que integrantes do G-20, entre eles a China, um país nominalmente comunista com U$2 trilhões em reservas cambiais no cofre, decidiram em Washington que é do interesse de seus povos salvar o sistema, ou, como disse o presidente francês Nicholas Sarkozy, “refundar o capitalismo”. Turbinar o FMI é parte da refundação. No que diz respeito ao Brasil, trata-se de saber agora que propostas o governo Lula desenvolverá e levará à próxima reunião, marcada em princípio para fins de março. Está o Brasil disposto a respaldar a retórica oficial de redistribuição do poder do FMI em favor dos emergentes e aumentar sua contribuição ao capital da instituição? Como atuará o País no novo “colégio” global de agência reguladora do sistema financeiro que pode emergir das discussões à frente?

Somem-se à complexidade das negociações que começam agora as dificuldades imediatas que a transição política nos EUA apresenta para a decolagem do G-20. Antes mesmo do encontro, o presidente George W. Bush e seu sucessor eleito, o oposicionista Barack Hussein Obama, sinalizaram de maneiras diferentes que nenhum deles assumiria compromissos em relação a propostas de reforma demasiadamente ambiciosas.

Prestes a receber de Bush uma pesada herança - esta sim, maldita - Obama ficou longe da reunião e mandou como representantes a ex-secretária de Estado, Madeleine Albright, e o ex-deputado republicano Jim Leach - ambos políticos aposentados que não pertencem à equipe econômica do presidente eleito e não ocuparão postos de primeira grandeza em sua administração.

Entusiasta do processo de criação do G-20, o diretor do Munk Center for International Relations, da Universidade de Toronto, John Kirton, minimizou a ausência de emissários mais substantivos do futuro presidente, como o ex-secretário do Tesouro, Larry Summers, que é forte candidato a retornar ao cargo.

“A proposta de campanha de Obama para lidar com o aquecimento global segue o padrão de inclusão do G-20, pois envolve a participação de 16 países revelantes e torna claro que ele retomará o caminho do multilateralismo na busca da solução para os grandes problemas globais”, disse Kirton. “Não tenho dúvidas de que, um vez empossado, Obama e sua equipe econômica, que certamente será mais internacionalista e qualificada do que a do atual governo, injetará dinamismo no G-20.” É possível e até provável. Antes, porém, de mapear o curso que seguirá no que seu conselheiro econômico Paul Volcker (ex-presidente do Fed) chamou de “reconstrução do sistema financeiro a partir do alicerce”, o sucessor de Bush precisa saber o tamanho e a profundidade do buraco do qual terá que tirar a economia dos EUA. E isso ainda não está claro.

*Jornalista, é diretor do Brazil Institute do Woodrow Wilson International Center for Scholars

14/11/2008 - 10:42h Seqüência do Bretton Woods fracassará

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Gideon Rachman - Financial Times - VALOR

Atribuo toda a culpa a Dean Acheson. O estadista americano, há muito falecido, foi uma grande figura na conferência original de Bretton Woods, em 1944, e posteriormente ajudou a inventar a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).

Acheson deu a suas memórias o modesto título de “Present at the Creation” (presente à criação, em inglês) e, ao fazê-lo, inadvertidamente alimentou as fantasias de grandiosidade dos líderes do grupo dos 20 (G-20) países com maior economia, que se reúnem em Washington no fim de semana. Por que eles não poderiam também chegar ao status de quase deuses, reordenando as instituições do mundo?

Alguns dos líderes que se dirigem a Washington são surpreendentemente francos sobre o prazer que estão tendo. Nicolas Sarkozy, o dinâmico presidente da França, congratulou-se por sua “sorte” em ter a chance de refazer o sistema financeiro mundial. Gordon Brown, primeiro-ministro britânico, visivelmente deleita-se com a idéia de ser um líder intelectual mundial.

Como a maioria das seqüências, no entanto, o Bretton Woods II não chegará nem perto do original. A primeira conferência criou o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional (FMI). Seu substituto será mais maçante e gerará menos conseqüências significativas.

O primeiro motivo é que a crise financeira mundial - mesmo tão grave como é - está longe de ser a Segunda Guerra Mundial. A guerra destruiu a ordem estabelecida e, portanto, os estadistas que desenharam as instituições do pós-guerra tinham um papel em branco para rabiscar.

O segundo é que não há tempo suficiente. A conferência original de Bretton Woods teve os benefícios de dois anos de preparação, não duas semanas.

O terceiro - especialmente importante - é que os países que se reunirão em Washington neste fim de semana divergem. Os europeus, que adoram todas as formas de governança internacional, pressionam por novos reguladores mundiais para o sistema de finanças internacionais. Os americanos e chineses - mais zelosos de sua soberania nacional - estão mais cautelosos.

Por fim, ao contrário do ocorrido no Bretton Woods original, os Estados Unidos não têm o poder nem a inclinação para impor um novo conjunto de planos para o resto do mundo.

Este último ponto é algo que os europeus, em particular, mostram dificuldade em compreender. Sua visão geral é a de que há duas formas opostas de arrumar o mundo. A primeira - associada com o temido presidente George W. Bush - era baseada no poder e “unilateralismo”. A segunda - que esperam ser adotada pelo santificado Barack Obama - é baseada em um EUA repreendido, que trabalha com os outros para construir uma nova ordem multilateral. Parte da excitação européia em relação ao Bretton Woods II é baseada na idéia de que a era da primazia dos EUA acabou - e que amanhece uma nova era multilateral.

Em 1944-45, entretanto, instituições multilaterais como o FMI, Banco Mundial e Organização das Nações Unidas (ONU) nasceram da força dos EUA e não de sua fraqueza. Um dos motivos para o Bretton Woods ter funcionado é que os EUA eram claramente o país mais poderoso na mesa de negociação e, portanto, no fim das contas tinha capacidade para impor sua vontade aos outros, incluindo uma Grã-Bretanha freqüentemente consternada. Na ocasião, uma alta autoridade do Banco da Inglaterra descreveu o acordo alcançado como “o maior golpe desferido contra a Grã-Bretanha depois da guerra”, em grande parte porque ressaltava a forma como o poder financeiro havia passado do Reino Unido para os EUA.

O encontro do próximo fim de semana também reconhece mudanças no poder global. Os entusiastas do G-20 gostam que o grupo não seja o cansado e velho G-8, que vêem como sendo composto principalmente de países europeus exauridos destinados a entrar no matadouro da história. O G-20 inclui novas potências emergentes, como China, Índia, Brasil e África do Sul.

Isso é importante. Um sistema internacional que não acomode a China, Índia e outros novos emergentes claramente não pode funcionar no longo prazo. Contudo, trazê-los ao sistema não é garantia de sucesso. Quanto mais vozes ao redor da mesa do Bretton Woods II - e mais igualdade houver entre eles -, mais difícil será chegar a um acordo.

De fato, o mundo emergente multilateral e multipolar - há muito defendido por aqueles desconfortáveis com o poder americano - mostra todos os sinais de ser altamente inepto.

A ONU está cada vez mais paralisada - assolada por uma liderança fraca e um conselho de segurança bloqueado. Nos últimos 12 meses, a Rodada de Doha da Organização Mundial do Comércio (OMC) fracassou. E se as negociações da OMC não conseguiram produzir resultados, que chance haverá de sucesso em uma tarefa muito mais difícil, como a de negociar um acordo mundial de mudanças climáticas no próximo ano?

As rodadas comerciais anteriores foram concluídas com êxito, em parte, porque foram costuradas por Europa, América e Japão. Porém, na rodada mais recente, os países em desenvolvimento - em particular a Índia - ficaram poderosos demais para serem ignorados. Este é certamente um avanço para a justiça e equidade mundiais, mas torna muito mais difícil atingir um acordo. O mesmo problema provavelmente afligirá as negociações sobre mudanças climáticas no próximo ano, nas quais a China desempenhará papel central.

Ter montes de países na mesa de negociação não é por si só um fator destruidor de consensos. Havia 44 países no Bretton Woods original. Porém, o que se precisa é de liderança. Em 2008, como em 1944, o líder mais plausível é os EUA. Isso torna duplamente infeliz o fato de que o presidente americano anfitrião em Washington será Bush e não Obama.

Sob o comando do presidente Bush, os EUA descobriram que não podem liderar o mundo por meio do exercício da força bruta. A tarefa do presidente eleito Obama será ver se os EUA agora podem liderar por meio da persuasão. Infelizmente, ele não estará presente à recriação neste fim de semana.

14/11/2008 - 10:15h Pouco a esperar

Celso Ming, O Estado SP

celso.ming@grupoestado.com.br

celso_ming.jpgO presidente da França, Nicolas Sarkozy, é, no mínimo, um forçador de barra. Ou não tem lá muito compromisso com os fatos.

Ao embarcar ontem em Paris para Washington, onde participará da reunião dos chefes de Estado do Grupo dos 20 (G-20) que se realizará neste fim de semana, declarou aos jornalistas que vai demonstrar que 2008 não é 1945 e que o dólar deixou de ser a principal moeda do mundo. E não era o Berlusconi falando; era mesmo Sarkozy.

Ele não vai passar da primeira parte do objetivo declarado à imprensa. Nem precisa insistir; ninguém acha que 2008 repete 1945. Mas está errado no principal. O dólar continua, sim, reconhecidamente a principal moeda do mundo.

O país mais encrencado pela crise são os Estados Unidos. E, no entanto, na pior hora e apesar de tudo, quando é preciso encontrar um porto seguro, todos correm para o dólar e para os títulos do Tesouro americano (T-Bonds). Como negar isso, presidente Sarkozy?

Declarações assim parecem sugerir que a reunião de cúpula, que se imaginava destinada a traçar as diretrizes para a reformatação do sistema financeiro global, não vai passar de um congraçamento, se chegar a tanto.

Três obstáculos hoje aparentemente intransponíveis impedem que se espere mais do que isso desse encontro. O primeiro deles é que não há muito o que negociar com o presidente George Bush, que ainda representa a maior potência econômica da atualidade.

Bush não tem mais o que dizer. Não está em condições de decidir nada com quem quer que seja, porque o balcão atrás do qual está hoje terá outra administração em questão de semanas. A hora é mais de uma festa de adeus do que de reformatação das pilastras da economia. E Barack Obama, o novo chefe, não quer se meter antes da hora.

O segundo obstáculo é que o momento não é de confronto, por maior que sejam as divergências entre Estados Unidos e Europa. Os mercados estão especialmente vulneráveis a cabos-de-guerra entre os senhores do mundo. Se virem meia dúzia de chefes de Estado apontando para direções opostas, o risco é que se desmanchem.

E, finalmente, com Bush e depois de Bush, os Estados Unidos não querem mudanças. Ao contrário do que vai trombeteando Sarkozy, o mundo adora o dólar, confia nele muito mais do que se imaginava até agora e confia muito mais do que no euro ou na libra esterlina. E confia no título mais cobiçado, que ainda são as promissórias emitidas pelo Tesouro americano. Além disso, quem controla as máquinas que emitem os ativos mais cobiçados do planeta não quer mudar nada.

Para não decepcionar as platéias, os mais ansiosos líderes do G-20 provavelmente encaminharão alguns temas para análise de comissões de trabalho encarregadas de examinar as bases para a reestruturação dos fundamentos do capitalismo.

Se isso se confirmar, vai ser difícil obter dessas comissões mais do que estratagemas para ganhar tempo, sabe-se lá até quando e com que objetivo.

Enfim, não dá para esperar demais desse encontro. O que precisa ser perguntado é até quando a crise espera.

Confira

Disparada - O dólar deu ontem mais um salto, de 3,8%, fechando nos R$ 2,38. A volatilidade ainda é enorme. Basta dizer que, há apenas 43 dias, o dólar estava abaixo de R$ 2.

O Banco Central decididamente não quer esses níveis porque sabe o impacto que provocam na inflação, a partir da alta dos produtos importados.

Mas as intervenções que tem feito, por meio de leilões de dólares e de leilões de títulos amarrados à correção cambial, não estão nem segurando as cotações nem revertendo a tendência de alta. O Banco Central parece sem estratégia na sua política cambial.

09/11/2008 - 11:30h ‘Estamos assistindo ao começo do fim do G-7′

Para ex-assessor de Bill Clinton, solução para crise passa pela inclusão de emergentes nas decisões

ENTREVISTA David Rothkopf

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A vitória do democrata Barack Obama inaugura uma nova fase na relação dos EUA com o mundo, para o americano David Rothkopf.

Ex-subsecretário adjunto do Departamento de Comércio para questões internacionais na gestão de Bill Clinton e atual pesquisador da Carnergie Endowment for International Peace, ele avalia que Obama colocará o país no caminho do multilateralismo.

Neste contexto, a cúpula do G-20 em Washington, na próxima semana, representa “o começo do fim do G-7”, diz. É o reconhecimento por EUA e Europa de que a única forma de lidar com a crise global é o fortalecimento de um grupo mais inclusivo que aquele limitado aos sete mais ricos do mundo.

Danielle Nogueira - O Globo

O GLOBO: Barack Obama vai assumir a Casa Branca em um momento de forte pressão para revisão do sistema financeiro internacional.

O senhor acredita que ele apoiará a criação de um novo Bretton Woods, como sugerem o primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, e o presidente francês, Nicolas Sarkozy?

DAVID ROTHKOPF: É prematuro dizer. No entanto, acredito que a provável equipe de Obama terá percebido que o atual sistema era e é inadequado para os desafios desta crise. Logo, não ficarei surpreso se os EUA tiverem um papel de liderança no processo de remodelagem do sistema econômico internacional, que terá início em 15 de novembro (quando líderes do G-20 vão se reunir em Washington).

O que podemos esperar da cúpula do G-20 ?

ROTHKOPF: O mais importante sobre o G-20 já está acontecendo…e é muito significativo para o Brasil. É o reconhecimento pelos EUA e pelos europeus de que a única forma de lidar com a crise é por meio de um grupo maior e mais inclusivo que o G-7. Para mim, estamos assistindo ao começo do fim do G-7. Devemos esperar que o o G-7 se reúna com menos freqüência e, então, seja substituído na sua função de “chefe” do sistema econômico internacional por um grupo que incluirá de forma permanente Brasil, Índia, China, Rússia e, talvez, outros dois países. Esse divisor de águas tem implicações políticas significativas. É um reconhecimento de mudanças no poder global na nossa era, e, para o Brasil, vai significar um papel maior do que apenas a mais importante potência da América Latina. Resultado do trabalho do presidente Lula e do ministro (Celso) Amorim (Relações Exteriores).

Obama foi apontado como a nova cara dos EUA. Mas o que isso significa para o mundo? Podemos esperar uma maior colaboração com parceiros políticos e econômicos?

ROTHKOPF: Obama é definitivamente uma nova face, representando uma nova experiência. Mas o que é extraordinário é que ele foi eleito por ser mais esperto, mais competente e por oferecer uma visão mais próxima aos americanos do que a oferecida por seus antecessores. No fim das contas, é visto pelo mundo como um símbolo de sistemas de governo mais inclusivos, que vão trabalhar por benefícios não só para os EUA, e sim para todos.

Essa onda Obama vai levar o mundo a um projeto multilateral, revertendo o unilateralismo de Bush? ROTHKOPF: Tenho certeza de que, com a administração Obama, o unilateralismo e o descaso de Bush em relação às leis internacionais serão coisas do passado. É muito provável que ele forme novas alianças, fortaleça as antigas e trabalhe para construir um sistema internacional mais eficaz.

Nesse novo cenário, a Rodada de Doha é viável?

ROTHKOPF: Doha vai acontecer. Será menos abrangente que a proposta original, mas a integração econômica global é uma tendência histórica. No entanto, grandes questões ainda têm de ser resolvidas, como os subsídios à agricultura nos EUA e na Europa.

Alguns acreditam que a hegemonia americana está em declínio. Ainda há espaço para potências hegemônicas? ROTHKOPF: Sempre há espaço para potências maiores que outras. Os EUA vão permanecer, de muitas maneiras, a mais poderosa nação na Terra por muitos, muitos anos. A questão é se esse poder é percebido como sendo usado de forma responsável, com os EUA assumindo o papel de líder na comunidade das nações, ou se ele é percebido como um membro à parte. Obama indicou várias vezes que sua intenção é restaurar essa virtude, a liderança americana.

Obama nomeou ex-conselheiros de Clinton para sua equipe. Teremos um terceiro mandato? Como podem contribuir para o novo governo?

ROTHKOPF: Como ex-colaborador de Clinton, tenho uma visão parcial. Na administração Clinton, os EUA viveram seu mais longo período de expansão. E foi a última grande oportunidade para os coordenadores de políticas democratas.

Onde você vai encontrar pessoas com a experiência de que precisamos em tempos de crise? O senhor foi sondado para integrar a nova equipe?

ROTHKOPF: Sem comentários.

O novo secretário do Tesouro terá poderes sem precedentes para escolher quais outros setores além dos bancos serão beneficiados com o pacote de US$ 850 bilhões. O que esperar dele?

ROTHKOPF:Espero que o novo secretário fique com atenção nos EUA e na recuperação internacional. Trabalhará com o Congresso em um novo pacote de estímulo, e com o mundo para a revitalização de mecanismos desenhados para fiscalizar e apoiar a economia internacional.

Espero um equilíbrio entre políticas orientadas para o mercado que reconheçam a importância das conseqüências sociais da atual crise econômica e a busca de soluções robustas e justas.

05/11/2008 - 10:49h “Bretton Woods II”: vital e dificílimo

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Martin Wolf - VALOR

Chegamos ao ponto de uma crise em que líderes ambiciosos pedem um “novo Bretton Woods”. É fácil ironizar tal discurso. Mas é também fácil ver porque esta crise faria tais pessoas pensarem em termos tão heróicos.

Em primeiro lugar, a economia mundial está de volta à condição que motivou o acordo original de Bretton Woods - uma gigantesca crise financeira proveniente dos EUA -, então, e ainda hoje, a potência financeira dominante no mundo. A Grande Depressão da década de 30 foi acompanhada - e agravada - por malogros de cooperação econômica, desintegração da economia mundial e ressurgimento de nacionalismo. Mas também produziu uma revolução no pensamento econômico. “Nunca mais” foi o objetivo dos negociadores em Bretton Woods, no Estado de New Hampshire. Atolados na pior crise financeira desde os anos 30, temos boas razões para dizer o mesmo.

Em segundo lugar, é desnecessário aguardar momentos mais calmos para repensar o sistema econômico. A conferência de Bretton Woods culminou em julho de 1944, enquanto a Segunda Guerra Mundial estava longe de terminar. Se então puderam combater uma guerra e reestruturar uma economia mundial simultaneamente, também podemos combater uma crise e, ao mesmo tempo, reestruturar as instituições mundiais.

Terceiro, o sistema financeiro mundial atual é disfuncional. O que está em jogo para uma reforma é a manutenção da economia mundial aberta que oferece oportunidades a tantos. Está também em jogo a cooperação sustentada entre países. Nada é menos provável do que cooperação efetiva entre governos “ensimesmados” administrando sociedades atemorizadas, ou mesmo xenofóbicas.

Finalmente, o que está acontecendo está na intersecção entre macroeconomia mundial - dinheiro, câmbio e balança de pagamentos - e o sistema financeiro mundial: fluxos de capital, fragilidade financeira e contágio. O imperativo de cooperação permanece. Mas como disse Robert Zoellick, presidente do Banco Mundial, em 6 de outubro: “precisamos modernizar o multilateralismo e os mercados para uma economia mundial em mutação”.

Então, como fazê-lo? Precisamos partir dos desafios fundamentais.

O primeiro é a impossibilidade de influenciar as políticas de países que registram enormes e persistentes superávits em conta corrente. Essa foi uma preocupação dominante de John Maynard Keynes em 1944. Ironicamente, o problema naquele momento eram os superávits americanos. Hoje, o problema é o colapso da capacidade das famílias americanas e em um punhado de outros países de alta renda de contrabalançar os enormes superávits em conta corrente gerados pela China, Alemanha, Japão e pelos países exportadores de petróleo. Os países superavitários adoram criticar aqueles que gastam o que os primeiros desejam conceder como empréstimos. Aqueles logo descobrirão que não podem dispensar a prodigalidade destes.

O segundo é o financiamento a países sujeitos a “paralizações repentinas” dos afluxos de capital, do tipo que estamos testemunhando, à medida que bancos e outros emprestadores de moeda estrangeira sustam o financiamento a um amplo leque de tomadores de empréstimos, especialmente a países emergentes. Muitos destes fizeram um imenso e oneroso esforço para reduzir a vulnerabilidade acumulando reservas em moeda estrangeira. Em agosto deste ano, o total de reservas em moeda estrangeira dos países emergentes tinha chegado a US$ 5,5 trilhões, muitíssimo maior do que os US$ 260 bilhões disponíveis ao Fundo Monetário Internacional (FMI). Entretanto, auto-seguro é algo ineficiente e também, conforme comprovado, distribuído desigualmente.

O terceiro desafio é o de tornar o sistema financeiro menos instável e, acima de tudo, menos vulnerável a tais enormes oscilações no apetite por riscos - de financiar qualquer coisa, por mais ridícula, a financiar nada, por mais meritória. Além disso, neste momento, como enfatizou Stephen King, do HSBC, no fórum dos economistas do FT, os esforços dos governos no sentido de obrigar os bancos socorridos a financiar tomadores de empréstimos domésticos tendem a sacrificar seus empréstimos a países emergentes.

O último desafio da lista é o de tornar a arquitetura institucional mundial menos ilegítima do que hoje. As instituições criadas por Bretton Woods - o FMI e o Banco Mundial - são dominadas pelas potências ocidentais: no caso do Fundo, os EUA ainda detêm 17,1 % das quotas (que em larga medida determinam os votos) e a União Européia outros 32,4% (em maio de 2007). Por seu turno, a China tinha apenas 3,7% e a Índia 1,9%. Trata-se, simplesmente, de uma anomalia. Também é anômala a persistência do G-7 como grupo coordenador da economia mundial, especialmente na medida em que três deles - Alemanha, França e Itália - não têm moedas independentes. O Grupo dos 20, cuja cúpula acontecerá em Washington em 15 de novembro, parece grande demais. Zoellick sugere um G-14, com Brasil, China, Índia, México, Rússia, Arábia Saudita e África do Sul.

O interessante sobre essa agenda é em que medida grande parte dela poderia parecer familiar aos olhos dos participantes de Bretton Woods, com uma exceção. Keynes ficaria horrorizado com o fato de o mundo ter deixado escapar da lâmpada o gênio dos livres fluxos de capital. É por isso, assinalaria ele, que mais financiamento externo é necessário do que em qualquer momento anterior, porque enormes reservas em moeda estrangeira foram acumuladas e porque crises financeiras são novamente mundiais, em vez de locais. Ele acrescentaria que “um banqueiro sensato, infelizmente, não é aquele que antevê o perigo e o evita, mas aquele que, quando está arruinado, fica arruinado de uma maneira convencional e ortodoxa juntamente com seus semelhantes, de modo que ninguém pode realmente culpá-lo”. Temos um número excessivo desses banqueiros. Keynes certamente acrescentaria que essas instituições subcapitalizadas e ilíqüidas são praticamente bombas-relógios financeiras.

Mas, poderá algo de proveitoso ser feito para enfrentar tais desafios? É, certamente, possível - e, em verdade, necessário - mudar a arquitetura mundial, particularmente em resposta a mudanças nos pesos econômicos. É igualmente necessário prover o FMI de mais recursos financeiros para sustentar sua nova linha de financiamento de curto prazo. Mas é, sem dúvida, otimismo excessivo acreditar que o Fundo possa emitir advertências confiáveis de ameaças de crises. Mesmo se o fizesse, é ainda menos provável que os países relevantes viriam a fazer algo em resposta.

Também não sou otimista quanto a que possamos romper os vínculos que conectam a atividade bancária como burocracia monótona que presta serviços essenciais à economia à atividade bancária como cassino que cria a possibilidade de fazer apostas enormes. Os banqueiros receberam autorização para jogar com o dinheiro dos contribuintes. Para quem está por dentro do negócio, é maravilhoso. É também uma atividade que parecemos incapazes de conter.

Mas eu gostaria que os fatos me provassem errado. Espero que a cúpula do G-20 defina a agenda para uma reforma séria, mediante a criação de grupos de trabalho que comprovem sua capacidade para produzir propostas radicais e eficazes. Pois o que está acontecendo agora pode ser a última oportunidade para uma economia mundial aberta e dinâmica. Em primeiro lugar, temos de atravessar a crise atual. Depois, precisaremos tornar esses catastróficos colapsos financeiros tremendamente menos prováveis. Se não nós, quem? E se não agora, quando?

23/09/2008 - 16:10h Lula defende “regulação” na economia mundial, no seu discurso na ONU

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Agencia Estado

 

SÃO PAULO - Na abertura da 63ª Assembléia Geral das Organizações das Nações Unidas (ONU), em Nova York, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse nesta terça-feira, 23, citando o economista Celso Furtado, que a privatização dos lucros e a socialização das perdas é uma atitude “inadmissível”. Lula centrou seu discurso na crise financeira global. “A crise financeira é dura realidade. A euforia dos especuladores transformou-se em angústia dos povos, após a sucessão de naufrágios financeiros que ameaçam a economia mundial”, acrescentou.Em clara referência ao pacote de socorro implementado pelo governo norte-americano, o presidente observou que as “indispensáveis intervenções” realizadas pelo Estado mostram que “é chegada hora da política”. “Somente ação determinada dos governantes, em especial de países que estão no centro da crise, será capaz de combater a desordem que se instalou nas finanças internacionais, com efeitos perversos na vida cotidiana de milhões de pessoas”.

Leia abaixo a íntegra do discurso:

Discurso do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, na abertura do debate geral da 63ª Assembléia Geral das Nações Unidas, Nova Iorque-EUA, 23 de setembro de 2008

Senhores e senhoras chefes de Estado e de Governo,

Senhor Miguel d’Escoto, presidente da Assembléia Geral das Nações Unidas,

Senhor Ban Ki-moon, secretário-geral das Nações Unidas,

Senhoras e senhores chefes de Delegação,

Saúdo, com alegria, o presidente da Assembléia Geral, meu ilustre amigo Miguel d’Escoto. Desejo-lhe pleno êxito em sua missão.

Esta Assembléia realiza-se em um momento particularmente grave. A crise financeira, cujos presságios vinham se avolumando, é hoje uma dura realidade. A euforia dos especuladores transformou-se em angústia dos povos após a sucessão de naufrágios financeiros que ameaçam a economia mundial.

As indispensáveis intervenções do Estado, contrariando os fundamentalistas do mercado, mostram que é chegada a hora da política. Somente a ação determinada dos governantes, em especial naqueles países que estão no centro da crise, será capaz de combater a desordem que se instalou nas finanças internacionais, com efeitos perversos na vida cotidiana de milhões de pessoas.

A ausência de regras favorece os aventureiros e oportunistas, em prejuízo das verdadeiras empresas e dos trabalhadores. É inadmissível, dizia o grande economista brasileiro Celso Furtado, que os lucros dos especuladores sejam sempre privatizados e suas perdas, invariavelmente socializadas.

O ônus da cobiça desenfreada de alguns não pode recair impunemente sobre os ombros de todos. A economia é séria demais para ficar nas mãos dos especuladores. A ética deve valer também na economia. Uma crise de tais proporções não será superada com medidas paliativas. São necessários mecanismos de prevenção e controle, e total transparência das atividades financeiras.

Os organismos econômicos supranacionais carecem de autoridade e de instrumentos práticos para coibir a anarquia especulativa. Devemos reconstruí-los em bases completamente novas. Dado o caráter global da crise, as soluções que venham a ser adotadas deverão ser também globais, tomadas em espaços multilaterais legítimos e confiáveis, sem imposições. Das Nações Unidas, máximo cenário multilateral, deve partir a convocação para uma resposta vigorosa às ameaças que pesam sobre nós.

Há outras questões igualmente graves no mundo de hoje. É o caso da crise alimentar, que ameaça mais de um bilhão de seres humanos; da crise energética, que se aprofunda a cada dia; dos riscos para o comércio mundial, se não chegarmos a um acordo na Rodada de Doha; e da avassaladora degradação ambiental, que está na origem de tantas calamidades naturais, golpeando sobretudo os mais pobres.

Senhor Presidente,

Senhoras e senhores,

O Muro de Berlim caiu. Sua queda foi entendida como a possibilidade de construir um mundo de paz, livre dos estigmas da Guerra Fria. Mas é triste constatar que outros muros foram se construindo, e com enorme velocidade. Muitos dos que pregam a livre circulação de mercadorias e capitais são os mesmos que impedem a livre circulação de homens e mulheres, com argumentos nacionalistas, e até fascistas, que nos fazem evocar, temerosos, tempos que pensávamos superados.

Um suposto “nacionalismo populista”, que alguns pretendem identificar e criticar no Sul do mundo, é praticado sem constrangimento em países ricos. As crises financeira, alimentar, energética, ambiental e migratória, para não falar das ameaças à paz em tantas regiões, demonstram que o sistema multilateral deve se adequar aos desafios do século XXI. Aos poucos vai sendo descartado o velho alinhamento conformista dos países do Sul aos centros tradicionais.

Essa nova atitude não conduz, no entanto, a uma postura de confrontação. Simplesmente pelo diálogo direto, sem intermediação das grandes potências, os países em desenvolvimento têm-se credenciado a cumprir um novo papel no desenho de um mundo multipolar. Basta citar iniciativas como o IBAS, o G-20, as cúpulas América do Sul-África ou América do Sul-Países Árabes e a articulação dos BRICs.

Está em curso a construção de uma nova geografia política, econômica e comercial no mundo. No passado, os navegantes miravam a estrela polar para “encontrar o Norte”, como se dizia. Hoje estamos procurando as soluções de nossos problemas contemplando as múltiplas dimensões de nosso Planeta. Nosso “norte” às vezes está no Sul.

Em meu continente, a Unasul, criada em maio deste ano, é o primeiro tratado - em 200 anos de vida independente - que congrega todos os países sul-americanos. Com essa nova união política vamos articular os países da região em termos de infra-estrutura, energia, políticas sociais, complementaridade produtiva, finanças e defesa.

Reunidos em Santiago do Chile há pouco mais de uma semana os presidentes da América do Sul, comprovamos a capacidade de resposta rápida e eficaz da Unasul frente a situações complexas, como a que vive a nação-irmã boliviana. Respaldamos seu governo legitimamente eleito, suas instituições democráticas e sua integridade territorial e fizemos um apelo ao diálogo como caminho para a paz e a prosperidade do povo boliviano.

Em dezembro, o Brasil irá sediar, na Bahia, uma inédita cúpula de toda a América Latina e do Caribe sobre integração e desenvolvimento. Será uma reunião de alto nível, sem qualquer tutela, assentada em uma perspectiva própria latino-americana e caribenha.

Todos esses esforços no plano multilateral são complementados por meio de ações de solidariedade de meu país para com nações mais pobres, especialmente na África. Quero também enfatizar nosso compromisso com o Haiti, país em que exercemos o comando das tropas da Minustah e ajudamos a restabelecer a paz. Renovo meu chamamento à solidariedade dos países desenvolvidos com o Haiti, muito prometida e pouco cumprida.

Senhor Presidente,

A força dos valores deve prevalecer sobre o valor da força. É preciso que haja instrumentos legítimos e eficazes de garantia da segurança coletiva.

As Nações Unidas discutem há quinze anos a reforma do Conselho de Segurança. A estrutura vigente, congelada há seis décadas, responde cada vez menos aos desafios do mundo contemporâneo. Sua representação distorcida é um obstáculo ao mundo multilateral que todos nós almejamos. Considero, nesse sentido, muito auspiciosa a decisão da Assembléia Geral de iniciar prontamente negociações relativas à reforma do Conselho de Segurança.

O multilateralismo deve guiar-nos também na solução dos complexos problemas ligados ao aquecimento global, com base no princípio de responsabilidades comuns, porém diferenciadas. O Brasil não tem fugido a suas responsabilidades. Nossa matriz energética é crescentemente limpa.

As crises alimentar e energética estão profundamente entrelaçadas. Na inflação dos alimentos estão presentes - ao lado de fatores climáticos e da especulação com as commodities agrícolas - os aumentos consideráveis do petróleo, que incidem pesadamente sobre o custo de fertilizantes e transporte.

A tentativa de associar a alta dos alimentos à difusão dos biocombustíveis não resiste à análise objetiva da realidade. A experiência brasileira comprova - o que poderá valer também para outros países com características semelhantes - que o etanol de cana-de-açúcar e a produção de biodiesel diminuem a dependência de combustíveis fósseis, criam empregos, regeneram terras deterioradas e são plenamente compatíveis com a expansão da produção de alimentos. Queremos aprofundar esse debate, em todos os seus aspectos, na Conferência Mundial sobre biocombustíveis que convocamos para novembro, na cidade de São Paulo.

Minha obsessão com o problema da fome explica o empenho que tenho tido, junto a outros líderes mundiais, para chegar a uma conclusão positiva da Rodada de Doha. Continuamos insistindo em um acordo que reduza os escandalosos subsídios agrícolas dos países ricos. O êxito da Rodada de Doha terá impacto muito positivo na produção de alimentos, sobretudo nos países pobres e em desenvolvimento.

Senhor Presidente,

Há quatro anos, junto com vários líderes mundiais, lancei aqui em Nova Iorque a Ação contra a Fome e a Pobreza. Nossa proposta era, e continua sendo, a de adotar mecanismos inovadores de financiamento. A Unitaid, Central de Compra de Medicamentos, é um primeiro resultado dessa iniciativa, ajudando a combater Aids, tuberculose e malária em vários países da África. Mas não basta. Precisamos avançar, e muito, se queremos que a Humanidade cumpra efetivamente as Metas do Milênio.

Em dezembro serão comemorados os 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, que não pode ser objeto de uma homenagem meramente protocolar. Ela traduz compromissos inalienáveis, que nos interpelam a todos. Como governantes, mais do que a defesa retórica da Declaração, somos chamados a lutar para que os valores proclamados há seis décadas se transformem em realidade em cada país e em todo o mundo.

Senhor Presidente,

O Brasil de hoje é muito distinto daquele de 2003, ano em que assumi a Presidência do meu país e em que, pela primeira vez, compareci a esta Assembléia Geral. Governo e sociedade deram passos decisivos para transformar a vida dos brasileiros. Criamos quase 10 milhões de empregos formais. Distribuímos renda e riqueza. Melhoramos os serviços públicos. Tiramos 9 milhões de pessoas da miséria e outras 20 milhões ascenderam à classe média. Tudo isso em um ambiente de forte crescimento, estabilidade econômica, redução da vulnerabilidade externa e, o que é mais importante, fortalecimento da democracia, com intensa participação popular.

No ano em que celebramos o centenário do grande brasileiro Josué de Castro, o primeiro diretor-geral da FAO e um dos pioneiros da reflexão sobre o problema da fome no mundo, vale a pena recordar sua advertência: “Não é mais possível deixar-se impunemente uma região sofrendo de fome, sem que o mundo inteiro venha a sofrer as suas conseqüências.” Tenho orgulho de dizer que o Brasil está vencendo a fome e a pobreza.

Senhor Presidente,

Reitero o otimismo que expressei aqui há cinco anos. Somos muito maiores do que as crises que nos ameaçam. Dispomos de sentimento, razão e vontade para vencer qualquer adversidade. Esse, mais do que nunca, é o espírito dos brasileiros.

Muito obrigado.

09/09/2008 - 09:23h A experiência do século

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Começa a funcionar o acelerador de partículas que recriará condições do Big Bang

Antônio Marinho* - O Globo

Será dada a partida amanhã à maior experiência científica do século e numa nova era na física. A Organização Européia de Pesquisa Nuclear (CERN, na sigla em inglês), em Genebra, acionará o mais potente acelerador de partículas já construído, o Large Hadron Collider (LHC). Ele está localizado cem metros sob a superfície, num túnel subterrâneo de 27 quilômetros de circunferência, na fronteira da Suíça com a França. O objetivo é encontrar a origem das massas das partículas e decifrar a origem do Universo.
O projeto é ambicioso. A construção do acelerador começou em 1996, custou 3,76 bilhões de euros e envolveu dez mil cientistas e engenheiros de 580 universidades, incluindo brasileiros (com apoio do CNPq/MCT). Segundo Robert Aymar, diretor da CERN, o LHC proporcionará “descobertas que mudarão nossa visão do mundo, em particular sobre a sua criação”: — Há partículas muito mais pesadas do que as que conhecemos.
É o que chamamos de matéria negra.
Com o LHC vamos identificar e compreender esta matéria, que compõe 23% do Universo.
Um dos principais objetivos é detectar o bóson de Higgs, cuja existência é inferida, mas nunca foi comprovada.
Os físicos acreditam que o bóson seria o responsável por dotar de massa tudo o que existe no Universo.

A comprovação de sua existência ajudaria a explicar por que as massas são tão diversas.

— O principal objetivo é encontrar o Higgs — diz o brasileiro Alberto Santoro, coordenador do grupo da Uerj que participa da experiência.

Milhões de colisões por segundo

Amanhã será a primeira vez que os prótons começam a circular no LHC. Este será um período de observação da máquina.

— Haverá dados para analisar nesta rodada, mas ainda não veremos sinal do Higgs porque precisamos aumentar bastante o número de eventos. Um acelerador funciona com campos eletromagnéticos para acelerar as , e magnetos supercondutores para mantêlas em órbita. Na máquina estão os detectores que vão registrar os acontecimentos do choque dos prótons — explica Santoro.
Dados mais consistentes devem ser obtidos até o fim do ano. Além do Higgs, cientistas querem estudar outras partículas, como as chamadas supersimétricas ou glúons.
Santoro acredita que o LHC poderá recriar as condições que ocorreram logo após o Big Bang: — Logo após sim, mas ainda distante.
Porém estamos dando mais um passo importante no caminho de aproximação de algumas das condições naquele momento.
O anel de 27 quilômetros de circunferência foi resfriado durante dois anos até chegar à temperatura de 271,3oCelsius negativos, ou seja, mais que o zero absoluto. Ao seu redor foram instalados quatro grandes detectores, em cujo núcleo serão produzidas as grandes colisões de prótons.
s prótons viajarão a uma velocidade bem similar à da luz (de cerca de 300 mil quilômetros por segundo).
Em potência máxima, 600 milhões de colisões por segundo devem produzir partículas, algumas nunca antes observadas. Para selecionar os 15 milhões de gigaoctetos de dados que serão recolhidos anualmente, 11 centros distribuirão a informação bruta para 200 instituições no mundo.
Entre os detectores, o Atlas e o CMS serão usados no estudo do Higgs. O LHCb tentará mostrar o que aconteceu com a antimatéria (matéria que apresenta carga elétrica inversa), no momento do Big Bang. O Alice analisará as colisões de íons de chumbo com o objetivo de recriar num lapso relâmpago o “caldo” de quarks e glúons que formavam a matéria nos primeiros microssegundos do Universo.
Quanto a afirmação de cientistas de que o LHC poderia gerar “buracos negros com risco de engolir a Terra”, o físico Rolf-Dieter Heuer, futuro diretor do CERN, diz que não há o menor perigo.

— O próprio Universo realiza milhares de experiências iguais às que serão iniciadas no CERN. Por exemplo, raios cósmicos de uma energia muito mais potente que o do LHC chocam-se com os astros e a Terra sem criar vorazes buracos negros. E o Universo existe há milhões de anos.

* Com agências internacionais

23/08/2008 - 09:37h “Estamos impressionados com os progressos do governo Lula no combate a pobreza”

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A declaração entusiasta do primeiro-ministro da Noruega aos jornalistas brasileiros incluiu a defesa do modelo estatal para exploração do petróleo, que preserva a concorrência e o papel da iniciativa privada. A seguir o artigo do jornal Estado.

 

Líder norueguês defende modelo

Competição e presença estatal não são incompatíveis, diz Stoltenberg

Sérgio Gobetti - O Estado de São Paulo

O primeiro-ministro da Noruega, Jens Stoltenberg, defendeu ontem o modelo norueguês de concorrência com intervenção estatal no setor do petróleo, que se tornou uma espécie de paradigma para o governo brasileiro. No país escandinavo, um dos mais ricos em petróleo, multinacionais do setor privado convivem em relativa harmonia com o governo e seus braços estatais - Statoil e Petoro -, gerando uma renda de mais de US$ 60 bilhões por ano aos cofres públicos. “Acreditamos em competição, em um sistema aberto e transparente. Mas isso não está em contradição em ter uma grande presença estatal no setor”, disse Stoltenberg, durante entrevista à imprensa brasileira, em Oslo.

Líder do Partido Trabalhista e de uma coalizão de centro-esquerda, o primeiro-ministro não explicitou quais elementos do modelo norueguês acha que o governo brasileiro poderia copiar, mas enumerou os princípios que, segundo ele, são fundamentais para o sucesso do sistema: “Abertura, previsibilidade e transparência”.

Ou seja, Stoltenberg sugeriu que o sistema de exploração deve ser aberto a empresas privadas e internacionais, como ocorre na Noruega desde os anos 60, mesmo depois da criação de uma estatal. Do mesmo modo, as regras de concessão devem ser estáveis, para garantir ao setor privado a possibilidade de prever seus investimentos, e a definição da fatia de exploração que cabe a cada ator público ou privado seja transparente.

Na Noruega, ao contrário do Brasil, é o governo quem decide quais empresas poderão explorar cada campo e quanto cabe a cada uma no rateio. Atualmente, 37,5% da produção de petróleo da Noruega está nas mãos de grupos exclusivamente privados. A Statoil, estatal com 62,5% de ações do governo, responde por 35%, e a Petoro (estatal encarregada de apenas administrar a fatia puramente do governo), outros 27,5%.

“Acho que (o sistema) tem de ser muito transparente, previsível. Em muitos países os sistemas não são previsíveis, não são transparentes, tratam as companhias em diferentes formas”, disse Stoltenberg.

Segundo um dos diretores do Ministério de Petróleo e Energia, Odd Haraldsen, o fato de a Noruega não fazer leilões para definir as empresas privadas que receberão as concessões dos campos (ao contrário do que ocorre no Brasil) não significa menos transparência. “As empresas apresentam suas condições e compromissos e nós avaliamos tecnicamente.”

Apesar dos conflitos de interesse, o modelo norueguês de intervenção estatal por meio de empresa comercial e de controle do governo sobre as reservas tem dado certo. Nos últimos 40 anos, entretanto, ele tem passado por transformações, como a abertura de capital da Statoil em 2001, quando se decidiu criar outra estatal pura, a Petoro, apenas para administrar a parcela do governo nos campos de petróleo.

Na prática, a separação entre a atividade comercial da Statoil e a coordenação política e financeira das reservas também teve como objetivo reduzir o crescente poder da Statoil. A grande burocracia estatal na empresa foi um dos fatores de preocupação que levaram o trabalhismo a aceitar a divisão de suas atribuições e semiprivatização.

IDENTIDADES

De malas prontas para viajar ao Brasil em setembro, o primeiro-ministro norueguês elogiou o desempenho econômico e social do País, que se tornou uma “potência global”, e destacou as identidades entre os dois governos, que devem aumentar se o presidente Lula adotar o modelo norueguês no setor do petróleo. “Somos de dois partidos de sindicatos de trabalhadores, de centro-esquerda, e estamos alinhados em vários debates nacionais e internacionais.”

De acordo com o primeiro-ministro, a fase de crescimento e desenvolvimento econômico do Brasil tem “impressionado”, principalmente pelos “progressos do governo Lula no combate à pobreza”. “Estamos realmente impressionados com o desenvolvimento, com as conquistas que estamos vendo no Brasil nos últimos anos.”

09/08/2008 - 13:58h Brasil lidera expansão econômica, diz OCDE

O Estado de São Paulo

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O Brasil lidera a expansão do ciclo de atividade econômica entre as principais economias do mundo, acompanhado apenas pela China: as únicas grandes economias em crescimento. Segundo um estudo da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o crescimento dos países do G-7 (mais desenvolvidos) deve sofrer uma desaceleração ainda maior nos próximos meses. Índia e Rússia também devem perder potência na expansão. Os indicadores da OCDE servem para dar sinais antecipados de “picos e de retração num ciclo de crescimento das atividades econômicas”.

04/08/2008 - 10:06h Deu no New York Times, por Matthew Shirts

Matthew Shirts escreve crônicas regularmente no jornal O Estado de São Paulo. Reproduzo um extrato de seu artigo que você poderá ler na integra no jornal. O título ecoa afirmação recente do presidente Lula constatando que o crescimento de 6,5% da indústria no primeiro semestre quase passou desapercebido na mídia brasileira. Já no exterior é outra coisa. Por isso Matthew Shirts escolheu esse título e diz que ele não sabia o que acabou sabendo pelo… New York Times. LF

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(…)Voltava de uma apresentação dessas na livraria Saraiva do MorumbiShopping, noite dessas, de táxi, pela Marginal do Pinheiros. Falara da história da revista National Geographic, um assunto que domino, para um público de umas 10 pessoas, 12 talvez, se contar as crianças. Mas não importa muito o tamanho da platéia, nem o tema, as emoções são as mesmas.

Do banco de trás curtia o novo cartão-postal da cidade, a ponte Otávio Frias de Oliveira, que ainda não vira iluminada, e comentei o crescimento modernoso do bairro de Brooklin, ali do lado direito.

- É por isso - respondeu o motorista, um rapaz jovem, na casa dos 20 - que não entendo como podem chamar isto aqui de Terceiro Mundo.

- O Brasil?, indaguei.

- É. O Brasil. Você vê um bairro desses e pensa: não faz sentido chamar de Terceiro Mundo.

Talvez fosse um resquício de adrenalina da palestra, não sei, mas desandei a falar. Em tom professoral, expliquei que até 17 anos atrás o mundo era dividido em dois blocos. Ele talvez não se lembrasse. Era muito novo na época. Por um lado, havia os países capitalistas e desenvolvidos, englobados no termo Primeiro Mundo. Do outro, as nações comunistas, que integravam o chamado Segundo Mundo. O termo Terceiro Mundo surgiu para descrever os países mais pobres, pós-coloniais, muitos deles que não se alinhavam, necessariamente, nem com um lado, nem com o outro. Tentei fazê-lo ver que o termo traz, embutidas, reivindicações políticas e econômicas, progressistas.

- Mesmo assim - replicou -, não faz sentido.

Insisti na aula. Reconheci que hoje o conceito mais utilizado para o Brasil era o de “país em desenvolvimento”. Faz parte do grupo Bric - Brasil, Rússia, Índia e China. Mas ele não se convenceu. Entrou na Rebouças em silêncio e não falou mais comigo. Para ele, imaginei, o País deveria fazer parte do G-4, tal como seu time de futebol, e não da terceira divisão.

Lembrei dessa conversa na quinta-feira passada, ao me deparar com uma reportagem do New York Times. O título é Economia forte leva o Brasil ao palco mundial, numa tradução meio literal de Strong economy propels Brazil to world stage. Afirma que nosso país está prestes a se tornar uma potência. Aqui tem minérios, petróleo, agronegócios, indústria diversificada e uma forte ascensão social. O Brasil, veja só, diminuiu a distância entre ricos e pobres mais do qualquer outro país na América do Sul na última década. Não sabia disso. (…)”

16/07/2008 - 14:41h Escopeta não é chocalho

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VALOR

“Pode-se perguntar por que um Estado mais forte desejaria atacar um mais fraco, mas certamente esse não é o ponto. O fato decisivo é que, no nível interestatal, a unidade maior pode atacar os grupos mais fracos. Como não há quem possa impedir esses ataques, os grupos humanos mais fracos vivem em contínuo e inevitável estado de insegurança.” - Norbert Elias, em “Envolvimento e Alienação, Editora Bertrand”, Rio de Janeiro, 1990, p: 214

A reativação da IV Frota Naval dos Estados Unidos, na zona do Atlântico Sul, provocará uma mudança radical e permanente nas relações militares dos EUA com a América Latina. Foi por isto que surpreenderam tanto as primeiras explicações americanas a respeito da reativação da sua Frota - criada em 1943 e desmantelada em 1950 -, que teria sido uma simples decisão “administrativa”, tomada com objetivos “pacíficos, humanitários e ecológicos”.

Já está em curso uma nova “corrida imperialista”, entre as grandes potências, que lutam por sua segurança energética e alimentar

A mentira não é um pecado grave no campo das relações internacionais. Pelo contrário, mentir ou dizer meias verdades com competência foi sempre uma arte e uma virtude essencial da diplomacia entre as nações. Portanto, não foi isto que chamou atenção na declaração das autoridades americanas, mas sim o seu desrespeito pela inteligência dos interlocutores e o seu deboche com relação à impotência dos governos afetados pela sua decisão. Mesmo quando se falasse também da necessidade de “combater a pirataria, o tráfico de drogas, de pessoas e de armas”, sem explicar, ao mesmo tempo, porque que a IV Frota não foi reativada durante a Guerra Fria, ou mesmo depois da Revolução Cubana e da Crise dos Foguetes, de 1962, quando o “fluxo ilegal de armas e pessoas” e o “tráfico de drogas” era igual ou maior do que hoje. Por isto, tiveram grande repercussão as declarações “corretivas”, das autoridades navais dos EUA, feitas na Base Naval Mayport, na Flórida, no dia 11 de julho de 2008. Em particular, o discurso inaugural do almirante Gary Roughead, chefe de Operações Navais da Marinha Americana, quem redefiniu o objetivo principal da nova frota, destinada a “proteger os mares da região daqueles que ameaçam o fluxo livre do comércio internacional”, ao mesmo tempo em que advertia, aos desavisados, que “ninguém deve se enganar: porque esta frota estará pronta para qualquer operação, a qualquer hora e em qualquer lugar, num máximo de 24 a 48 horas”.

Com respeito à proteção do comércio marítimo, todos os especialistas sabem que só tem capacidade de proteger o “livre fluxo do comércio mundial” quem também tem a capacidade de interrompê-lo. Ou seja, quem tem poder para proteger, também tem o poder de excluir concorrentes, se for o caso, quando se acirra a competição entre os Estados e os capitais privados, como está acontecendo neste início do Século XXI. Depois de quase uma década de crescimento contínuo e acelerado, a economia mundial enfrenta, neste momento, uma disparada dos preços, da especulação e da escassez de algumas commodities fundamentais, como é o caso do petróleo, dos alimentos e dos minerais estratégicos. E neste momento, já está em curso uma nova “corrida imperialista” entre as grandes potências, que lutam por sua segurança energética e alimentar, exatamente como aconteceu no final do Século XIX e início do Século XX. Uma competição que já chegou à África e deverá atingir a América Latina de forma ainda mais intensa, graças aos seus recursos energéticos, às suas grandes reservas minerais e hídricos e à sua imensa capacidade de produção alimentar, muito superior à da África. Em particular o Brasil, que deverá ser - em breve - o maior exportador mundial de alimentos e um dos grandes exportadores de petróleo, além de ser o principal “proprietário” das águas e da biodiversidade amazônica. Existindo um agravante, no caso brasileiro, do ponto de vista das autoridades norte-americanas: o fato de ser o país que está liderando os processos de criação da Unasul e do Conselho Sul-Americano de Defesa, organizações que excluem os Estados Unidos e esvaziam o Tratado Interamericano de Assistência Recíproca e a Junta Interamericana de Defesa, que são controlados pelos norte-americanos.

Esta história, entretanto, traz uma lição importante para o futuro da América Latina, e do Brasil em particular. Faz um século, mais ou menos, o almirante e geopolítico Alfred Mahan se notabilizou pela sua defesa militante da idéia que os EUA jamais seriam uma “grande potência”, apoiando-se apenas no seu desenvolvimento econômico. Para ter estatuto internacional, precisariam de uma esquadra naval capaz de projetar o poder americano ao redor do mundo, como havia feito a Inglaterra no Século XIX . O almirante Mahan exerceu grande influência pessoal sobre o presidente Theodore Roosevelt logo no início do Século XX e depois se transformou no maior símbolo do poder naval americano de todos os tempos. Com razão, porque menos de meio século depois da sua morte os EUA já eram o maior poder naval da história da humanidade, controlando todos os mares e oceanos do mundo com suas sete frotas navais.

Neste momento, os EUA acabam de reativar a sua IV Frota, mas poderão criar muitas outras, se quiserem, sem ferir o Direito Internacional, sem precisar utilizar as águas soberanas de outros Estados e sem precisar dar explicações a ninguém. Obedecendo apenas aos seus cálculos estratégicos e ao seu poder de construir e distribuir navios militares ao redor do mundo, como havia proposto Alfred Mahan. Segundo o sociólogo alemão Norbert Elias, a dura verdade é que, “se algum Estado for mais forte ou se acreditar mais forte que seus vizinhos, sempre haverá a possibilidade de que tente obter vantagens, o que pode ocorrer de diversas formas, hostilizando-os, fazendo exigências ou invadindo-os e anexando-os [..] e só existe uma possibilidade de um Estado com maior potencial de violência ser impedido de explorar ao máximo sua porção de poder relativo: ele só pode ser reprimido por outro Estado equivalentemente forte ou por um grupo de Estados que consigam controlar as rivalidades entre si em grau suficiente para favorecer seu potencial combinado de poder”.

José Luís Fiori é professor titular do Instituto de Economia da UFRJ e autor do livro “O Poder Global e a Nova Geopolítica das Nações” (Editora Boitempo, 2007). Escreve mensalmente às quartas-feiras.

15/06/2008 - 22:03h 2008, o ano em que tudo mudou

A política macroeconômica tem o desafio de sustentar as oportunidades

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ANTÔNIO PALOCCI - O GLOBO

O ano em curso deve ficar na História. São tão grandes os desafios, as surpresas e as oportunidades que já é quase impossível termos um ano “normal”. A economia mais importante do planeta tenta lidar com seus enormes desarranjos acumulados, que tem levado o dólar a se enfraquecer frente às principais moedas do mundo. Nesses mesmos Estados Unidos — e talvez por causa da própria economia — ocorre o furacão Obama, com o slogan, quem diria, “CHANGE”. Se ele ganhar, é bem capaz de alguém sair com uma frase meio conhecida entre nós: A Esperança Venceu o Medo.O petróleo ultrapassa 130 dólares.Achávamos caro aos 50 ou 60.Achávamos caríssimo aos 100. Agora, já achamos melhor não achar nada e tratar de encontrar alternativas.O etanol poderia ajudar muito, mas os americanos resolveram produzilo com seu milho, o que ajudou a encarecer as commodities agrícolas, gerando uma grita geral contra ele. O Brasil tenta explicar que o nosso etanol é de cana-de-açúcar e não pressiona preços agrícolas, dada sua alta produtividade energética, fruto de mais de três décadas de avanço sem tecnologia agrícola e industrial.Mas aí surgem novos ataques, sempre partindo dos países mais ricos e mais protecionistas, muitas vezes puxados também por petroleiras dos mais diversos matizes.Responder aos grandes desafios postos na atualidade com mais protecionismo comercial é o pior dos caminhos. Fechar mercados, principalmente agrícolas, é condenar as nações pobres ao mais absoluto isolamento.Os grandes países emergentes até agora vão salvando a lavoura, mostrando o poder da industrialização e do progresso tecnológico, inclusive no campo. Há uma grande mobilidade de forças produtivas em curso. O PIB dos países emergentes, em termos de paridade de poder de compra, já é igual ao do chamado mundo desenvolvido e a renda disponível dos asiáticos continua a crescer.Como milhões de famílias subitamente passaram a consumir mais, os preços dominam a cena; é aquilo que os economistas chamam de choque de oferta. Há inflação pipocando no mundo todo. Os bancos centrais, que durante anos surfaram na desinflação produzida pela indústria barata na China, agora correm atrás do prejuízo.Afinal, se a inflação está em todo lugar, todos terão de combatê-la.A curto prazo tudo indica que este será o maior dos desafios.No Brasil, a alta do petróleo veio junto com a revelação dos campos do pré-sal, que representam reservas de bilhões de barris de petróleo e gás. Somada ao etanol e às hidrelétricas, a descoberta faz com que o Brasil comece a ser visto como potência energética em ascensão. O que já estimula um amplo e saudável debate sobre o que deve ser feito com todo este potencial petrolífero: gastar no presente ou investir no futuro das novas gerações? (vamos ter que reler “O Valor do Amanhã”, o belo livro do Eduardo Giannetti da Fonseca).Neste ano turbulento, o país também cresce nos minérios e na siderurgia; lidera os mercados mundiais de cítricos, carnes vermelhas e brancas, café, açúcar e soja. Principalmente, em uma economia saudável e livre, o Brasil vai reafirmando a diversidade da sua base produtiva, ganhando força nos mercados da moda, marcas, desenho, aeronáutica, software, petroquímica e mesmo no da mecânica, ajudado por uma política industrial responsável, com ênfase na inovação. As oportunidades são muitas e a política macroeconômica tem o desafio de sustentá-las, sem deixar a euforia criar armadilhas para mais adiante.Se cuidarmos bem das nossas coisas e da nossa gente, é provável que 2008 seja visto, daqui a quarenta anos, como o ano em que, em meio a grandes mudanças ao redor do mundo, o Brasil mostrou que uma sociedade aberta, inclusiva e diversificada como a nossa pode crescer e aproveitar as oportunidades com democracia e competência. Seria o melhor presente que daríamos às novas gerações.ANTÔNIO PALOCCI é deputado federal (PT-SP) e foi ministro da Fazenda

23/05/2008 - 16:07h “Wall Street Journal”: nova descoberta pode elevar Brasil a potência petrolífera

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BBC - Portal O Globo

LONDRES - O jornal americano ‘Wall Street Journal’ diz na edição desta sexta-feira que a nova descoberta de petróleo na Bacia de Santos, anunciada na quarta-feira, “esquenta especulações” sobre a ascensão do Brasil ao grupo dos grandes exportadores globais e de que o país tem reservas suficientes para “aliviar a pressão sobre os crescentes preços do petróleo”.Segundo a reportagem, “a descoberta é a última em uma série de ações bem sucedidas da empresa, aumentando as esperanças de que o Brasil será a nova grande novidade em petróleo global”.”Com o preço do petróleo batendo novos recordes, grandes descobertas no Brasil iriam aumentar o otimismo da indústria energética de que o país poderia suprir petróleo suficiente para manter o ritmo da crescente demanda”, diz o jornal.” Nas negociações na quinta-feira, na Bolsa de Nova York, o preço do barril caiu US$ 2,36, ou 1,8%, para US$ 130,81 o barril, em parte diante da perspectiva de maior suprimento vindo do Brasil”, afirma o Wall Street Journal.Segundo o jornal, as descobertas seriam especialmente bem-vindas nos Estados Unidos, garantindo uma nova fonte de petróleo em seu hemisfério.”O foco de atenção é a Bacia de Santos, uma série de campos de petróleo potenciais enterrados sob milhas de águas ocêanicas, terra e uma teimosa camada de sal. A perfuração exploratória em diferentes campos produziu petróleo bastante similar, alimentando uma excitante nova teoria: de que a bacia pode ser um contínuo mega-depósito de petróleo.”O jornal afirma, no entanto, que apesar do otimismo, observadores dizem que há boas razões para ceticismo.”A exploração e a extração de petróleo em águas super-profundas são uma empreitada cara e arriscada. O sal que fica sobre os potenciais campos soma desafios técnicos porque muda de lugar e é propenso a mudanças bruscas de pressão. E apesar dos avanços na tecnologia de imagens geológicas, é impossível saber a quantidade e a qualidade do petróleo escondido em um depósito até que ele comece a jorrar - um processo que leva anos.”Mas, segundo o WSJ, os investidores não estão esperando para apostar neste potencial.”A fatia da Petrobras negociada publicamente aumentou tanto este ano que o valor de mercado da companhia ultrapassou o de empresas de nomes conhecidos, como a General Electric e a Microsoft “, afirma o jornal.Segundo a reportagem, só com as reservas já encontradas o Brasil, provavelmente, chegaria ao topo dos exportadores latino-americanos.”Para um país que começa a abandonar seu passado como país em desenvolvimento volátil, tanta bonança pode ser bom ou ruim. O dinheiro do petróleo vai encher os cofres do governo, mas também pode deixar o Brasil tentado a adotar hábitos esbanjadores de outros grandes exportadores de petróleo”, conclui o WSJ.

05/05/2008 - 10:30h Fome, etanol e mentiras

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Correio braziliense - João Tenório - Senador (PSDB/AL), presidente da Subcomissão de Biocombustíveis do Senado Federal

http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/7/77/Jo%C3%A3o_Ten%C3%B3rio.JPG/240px-Jo%C3%A3o_Ten%C3%B3rio.JPGJá era mais do que tempo. Os países desenvolvidos, que durante séculos acumularam riquezas à custa da exploração predatória de suas colônias e que hoje abusam de subsídios agrícolas para proteger o próprio mercado, parecem finalmente despertar para uma das maiores tragédias do planeta: a fome. Uma tragédia que atinge hoje 854 milhões de pessoas e mata uma criança a cada cinco segundos, pelos cálculos das Nações Unidas.

O fantasma do desequilíbrio ambiental — que traça cenário de seca e miséria para o final do século — foi o primeiro a assombrar as grandes potências. Agora, é a explosão no preço das commodities agrícolas que parece tornar cada vez mais remota a meta de reduzir a fome no mundo pela metade até 2015 — um dos objetivos do milênio pactuado por 191 países oito anos atrás.

Se é um avanço o fato de a escassez de alimentos ser foco das atenções dos principais organismos e centros de decisão política e econômica, jogar a culpa do problema no avanço dos biocombustíveis é não querer colocar o dedo na ferida: a injusta distribuição de renda e riqueza e o absoluto descaso com as nações mais pobres. Autoridades internacionais que vêm atacando os biocombustíveis também minimizam o fato de que o petróleo, com o barril beirando os US$ 120, tem sobrecarregado cada vez mais o custo final dos alimentos.

O preço da comida subiu porque, além de condições climáticas desfavoráveis e do encarecimento significativo do frete e dos fertilizantes, o consumo de países emergentes, como China e Índia, aumentou. O que é positivo. Equilibrar demanda e oferta — com políticas públicas que garantam melhor uso da terra e incentivos à agricultura familiar, por exemplo — é desafio de cada governo. Mas também deve ser compromisso do mercado internacional, hoje distorcido por políticas protecionistas injustificáveis. É preciso questionar, ainda, até que ponto as nações mais ricas e os organismos financeiros internacionais têm se empenhado na tarefa de reduzir a pobreza mundial.

Mais do que falta de alimentos, o nó da questão nos países mais pobres é a total falta de condições econômicas para o acesso a esses alimentos. Vale lembrar que, pelos dados da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), o mundo produz comida para alimentar 12 bilhões de pessoas, o dobro da população do planeta.

O crescimento econômico que tanto festejamos no Brasil certamente tem pressionado a demanda — e os preços. Precisamos, sim, assegurar uma política agrícola mais eficaz, garantir o equilíbrio fiscal e econômico, menores impostos e taxas de juros. Mas os biocombustíveis, no nosso caso, só somam. Temos terras agricultáveis de sobra — para alimento e energia. O álcool produzido a partir da cana não ocupa mais que 3,5 milhões dos 400 milhões de hectares de terras agricultáveis e tende a avançar em áreas de pastagens degradadas — cerca de 60 milhões de hectares. Mesmo com o avanço invejável na produção de etanol, nossa safra de grãos bateu novo recorde em 2007: 133 milhões de toneladas. Este ano, a previsão é de uma safra de 139,3 milhões de toneladas.

O álcool de cana é, sem dúvida, a alternativa hoje mais viável — do ponto de vista tecnológico e econômico — aos combustíveis fósseis. E a liderança brasileira na produção de etanol assusta os europeus, aferrados à própria política protecionista. Por isso mesmo, a disseminação de mitos absurdos, como a potencial ameaça à Amazônia. A floresta é totalmente inadequada para o cultivo da cana, que, avançando sobre áreas de pastagens, também não corre o risco de empurrar outras culturas para a região.

Esclarecer a comunidade internacional e vencer as resistências do mercado europeu é um desafio enorme, que exige postura firme por parte do governo brasileiro. É nossa única chance de transformar o etanol em commodity mundial e afirmar nossa liderança no novo cenário energético.

A Frente Pró-Etanol anunciada pelo presidente Lula só terá resultado se congregar todos os envolvidos com a produção de biocombustíveis — no Executivo, no Legislativo, na iniciativa privada, na área de pesquisa e meio ambiente. Divergências políticas devem ficar de lado neste momento: o etanol é estratégico; é fonte de energia limpa e renovável, capaz de gerar emprego e renda em regiões hoje absolutamente carentes, como a África. Não é só o Brasil, mas o mundo todo que vai sair ganhando.

18/04/2008 - 08:19h Brasil é superpotência, agora com petróleo, diz “Economist”

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da BBC Brasil - Folha Online

A revista semanal britânica “The Economist” afirmou em artigo publicado nesta quinta-feira que o Brasil é uma “superpotência econômica” e que possivelmente o país pode virar uma potência de petróleo.

No editorial intitulado “Uma superpotência econômica, e agora com petróleo também”, a revista afirma que “há motivos para se acreditar que a potência econômica da América do Sul de 190 milhões de habitantes está começando a fazer a diferença no mundo”.

A revista diz que a comparação do crescimento do Brasil com a forte expansão chinesa é “enganosa”, já que a China é um país mais pobre. “É muito mais difícil para um país de média renda, como o Brasil, crescer neste ritmo”, diz a revista.

Além do editorial, o Brasil também é destaque em outros dois artigos da edição desta semana da revista. No texto “Os prazeres do tédio”, a revista diz que o Brasil cuidou dos três maiores problemas que causaram a crise dos anos 1980: inflação, dívida e democracia.

Já no artigo intitulado “Mais recompensa”, a revista diz que as informações de que o Brasil teria descoberto mais petróleo devem gerar grande alegria no governo.

No entanto, a revista alerta que a possível “receita extra [do petróleo] pode acentuar ainda mais as fraquezas da economia brasileira –que inclui um real forte e um setor público superestimado”.

Na segunda-feira, no Rio, o diretor-geral da ANP (Agência Nacional do Petróleo), Haroldo Lima, afirmou que o bloco Carioca (BM-S-9), localizado na Bacia de Santos, seria cinco vezes maior que o megacampo de Tupi, com reservas em torno de 33 bilhões de boe (barris de óleo equivalente). Isso tornaria o Carioca o terceiro maior campo de petróleo do mundo.

Em janeiro, a Petrobras comunicou a descoberta do campo de Júpiter, próximo à área de Tupi, na Bacia de Santos. À época, o diretor de Exploração e Produção da Petrobras, Guilherme Estrella, sinalizou que ele poderia tornar o Brasil auto-suficiente na produção de gás natural. A diretora de Gás e Energia da Petrobras, Maria da Graça Foster, afirmou que o Brasil poderia até mesmo se tornar um exportador.