07/01/2009 - 10:08h Famílias americanas começam a poupar, agravando a recessão

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Kelly Evans, The Wall Street Journal, de Boise, EUA - VALOR

Rick e Noreen Capp reduziram recentemente sua dívida no cartão de crédito, abriram uma conta de poupança e pararam de levar seus dois filhos a restaurantes.

Agora que Boise, capital do Estado americano de Idaho, sofre com as demissões e fechamento de lojas, os Capp esperam que essa nova mentalidade frugal os ajude a passar pela recessão. No entanto, esse mesmo espírito de parcimônia, adotado por famílias de todos os Estados Unidos, é também uma grande razão pela qual a recessão talvez não acabe logo. Os americanos, recém-saídos de uma fase de décadas de alto consumo, estão finalmente gastando menos - bem agora que a economia do país precisa tanto do seu dinheiro.

De modo geral, a frugalidade é boa para as pessoas e também para a economia. A poupança serve como um reservatório de capital que pode ser usado para financiar investimentos, ajudando assim a elevar o padrão de vida do país. Mas em uma recessão, o aumento da poupança - ou o outro lado da moeda, a redução dos gastos - pode exacerbar os problemas econômicos. É o que os economistas chamam de “paradoxo da frugalidade”.

O nível de endividamento das famílias americanas, que vem crescendo constantemente desde 1952, quando o Federal Reserve, o banco central americano, começou a acompanhar esse índice, caiu pela primeira vez no terceiro trimestre de 2008. Nesse mesmo trimestre o consumo das famílias também caiu no país, a primeira queda em 17 anos.

Isso resultou em um aumento no índice de poupança pessoal, que o governo calcula como a diferença entre rendas e despesas. Em 2009, o índice de poupança pessoal, que caiu abaixo de zero nos últimos anos, deve subir para uma faixa de 3% a 5%, segundo os economistas, o que seria uma das mais drásticas reviravoltas desde a Segunda Guerra Mundial. Em um relatório de fim de ano, a Goldman Sachs projetou que em 2009 o índice de poupança pode atingir a faixa de 6% a 10%.

Com o aumento da poupança, dizem os economistas, o consumo deve se contrair ainda mais. Eles esperam que o PIB tenha uma queda anualizada de pelo menos 5% no quarto trimestre de 2008, o maior em um quarto de século.

“A idéia de que os gastos da família americana vão rapidamente nos tirar desta recessão é uma fantasia. Não acontecerá”, diz Elizabeth Warren, uma professora de direito da Universidade Harvard que no mês passado foi escolhida para presidir o comitê de supervisão do Congresso encarregado de verificar a distribuição dos recursos do pacote de socorro financeiro do governo.

Em Boise, famílias como a Capp fazem parte do paradoxo. Nessa área metropolitana ao pé das Montanhas Rochosas residem meio milhão de pessoas e estão instaladas muitas indústrias eletrônicas, como a Micron Technology Inc., fabricante de chips de computador. A área conseguiu suportar bem as baixas econômicas do início dos anos 90 e de 2001, com um índice de desemprego bem inferior à média nacional. Agora, porém, os moradores estão guardando ciosamente o dinheiro que antes gastariam, contribuindo assim, em parte, para as lojas vazias, os restaurantes fechados e o maior desemprego.

Em 2003, Rick e Noreen Capp se mudaram para Boise vindos de Swisswater, Pensilvânia, quando Capp recebeu uma oferta para trabalhar como engenheiro de campo na Electroglas Inc., que produz equipamentos para a fabricação de semicondutores. O salário inicial era de US$ 65.000 por ano (uns US$ 4.900 mensais), e o custo de vida em Boise era menor que na Pensilvânia. Os Capp e seus dois filhos - Noah, agora com 13 anos, e Ellen, de 16 - ficaram animados com a perspectiva de esquiar nas Montanhas Rochosas, e não mais nas Montanhas Poconos, na Pensilvânia.

Os Capp venderam sua casa na Pensilvânia por US$ 164.000 e compraram outra um pouco maior, com 200 metros quadrados, em uma rua sem saída no bairro de Meridian, no subúrbio de Boise, por US$ 175.000. Financiaram a nova residência com uma hipoteca de 30 anos, a uma taxa de juro fixa de 5,8% ao ano.

Os filhos se adaptaram bem: Ellen canta no coral da Meridian High School enquanto Noah freqüenta uma escola pública e participa do clube de xadrez. Em 2006, Noreen, de 45 anos, formou-se em psicologia pela Universidade Estadual de Boise e começou a trabalhar meio período em uma clínica de saúde mental, ganhando cerca de US$ 10.000 por ano. Rick, de 44, também teve aulas na universidade.

Há quatro anos, os Capp conseguiram uma linha de crédito de US$ 25.000 dando a casa como garantia, e utilizaram esse dinheiro para comprar um grande sofá para a sala e um Toyota 4-Runner usado, para fazer companhia ao Toyota Corolla 1995 que já tinham. Ao longo dos anos, também acumularam cerca de US$ 11.000 em dívidas de cartão e US$ 40.000 em créditos estudantis.

Mas como a residência e as opções de ações de Rick estavam subindo de valor, a dívida familiar não parecia alarmante, explicam eles. Em 2006, quando o valor da casa chegou a quase US$ 300.000, a família fez viagens à Disneylândia, pagou US$ 900 por temporadas de esqui e matriculou Ellen em aulas de violino.

Tudo isso mudou bem rápido.

No fim de 2006, o mercado imobiliário de Boise começou a cair, seguido pelas bolsas e pela economia em geral. No fim de 2007, o patrão de Rick começou a despedir técnicos de campo, pois os clientes estavam adiando os pedidos de manutenção de equipamentos. “Foi uma coisa atrás da outra”, diz Noreen.

Assim, a família passou a reduzir os gastos. Por volta de maio, os Capp começaram a cortar o consumo e pagaram cerca de metade da dívida de US$ 11.000 de cartões de crédito. Meses depois, usaram US$ 1.000 do cheque de estímulo econômico enviado pelo governo para abrir uma poupança com uma atraente taxa de 5%.

“Nunca mais vamos ao centro da cidade”, diz Noreen. “Estamos tentando consumir menos gasolina, menos eletricidade, menos alimentos. É um corte geral em todas as frentes.” O impacto de decisões desse tipo é visível em toda a cidade. No Home Federal Bancorp, um banco com US$ 725 milhõe em ativos e 15 agências na área, a base de depósitos vem aumentando há vários meses, diz Steve Eyre, diretor de serviços bancários de varejo.

Ele acrescenta que o número de novas contas de poupança cresceu cerca de 15% em comparação com o ano passado.

Enquanto isso, muitos restaurantes do centro da cidade fecharam este ano. Também são tantas as lojas de varejo que já fecharam que uma das sobreviventes, a Dick’s Stereo, exibe um cartaz na vitrine anunciando “AINDA ESTAMOS AQUI”.

O índice de desemprego da área continua abaixo da média nacional de 6,7%, mas subiu rapidamente para 6% em novembro, comparado com apenas 2,7% em novembro de 2007. Já se espera que esse índice aumente para pelo menos 8% em 2010, segundo a Moody’s Economy.com - mais ou menos o mesmo índice previstopara o país como um todo.

Em outubro, Rick também ficou sem trabalho. Com uma rescisão de cerca de US$ 10.000, os Capp dizem que pagaram os US$ 6.000 restantes da dívida de cartão de crédito e têm vivido com o que resta do dinheiro. A frugalidade que a família já abraçara se tornou ainda mais necessária.

07/01/2009 - 09:51h 2009 moldará o destino do mundo

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*Martin Wolf - VALOR

Bem-vindos a 2009. Este é um ano que determinará o destino da economia mundial, talvez por gerações. Alguns observadores acalentam esperanças de que poderemos restaurar o crescimento econômico mundialmente desequilibrado em meados desta década. Eles estão errados. Nossa escolha é somente sobre o que o substituirá. É entre uma economia mundial mais bem equilibrada e desintegração. Essa escolha não pode ser adiada. Tem de ser feita neste ano.

Estamos aprisionados na mais grave crise financeira mundial em sete décadas. Em conseqüência, o mundo não dispõe de agentes privados dispostos a tomar empréstimos em larga escala. A alternativa - depender de enormes déficits fiscais americanos e expansão do crédito concedido por bancos centrais - é um expediente temporário, embora necessário. Mas isso não proporcionará um retorno duradouro ao crescimento. Mudanças fundamentais são necessárias.

Já deve ter ficado claro - até mesmo para obtusos e complacentes - que esta crise se iguala em gravidade às piores que já impactaram os países avançados na Era do Pós-Guerra. Em recente atualização de um estudo seminal publicado 12 meses atrás, Carmen Reinhart, da Universidade Maryland e Kenneth Rogoff, de Harvard, detalham o que isso significa. Assinalam as similaridades entre grandes crises financeiras em países avançados e emergentes e, ao combinar alguns casos graves, chegam a conclusões perturbadoras.

Crises bancárias são agudas, apontam eles, e a produção declina, em média, durante dois anos. Colapsos nos mercados de ativos são profundos, com quedas nos preços reais das moradias, também em média de 35% num prazo de seis anos, e queda de 55% nos preços das ações ao longo de 3,5 anos. A taxa de desemprego cresce em média 7 pontos percentuais em quatro anos, ao passo que a produção cai 9%.

Não menos importante, o valor real da dívida governamental salta, em média, 86%. Isso se deve apenas em pequena medida ao custo de recapitalização dos bancos. Deve-se bem mais ao colapso nas receitas tributárias.

Até que ponto a atual crise igualará a gravidade da pior registrada no passado? A continuada disposição do mundo em financiar pelo menos os EUA - embora não necessariamente países deficitários menores e mais periféricos, como o Reino Unido - é uma razão para otimismo. Isso efetivamente permite que o governo americano articule um vasto programa de socorro fiscal e monetário.

Mas, como os professores Reinhart e Rogoff apontam em outro estudo, esta é uma crise mundial, não regional. O estudo nos recorda que os EUA são ainda, para bem ou para mal, o pivô da economia mundial. Nas grandes crises em décadas recentes, a demanda americana salvou o mundo. Isso foi verdade durante os anos 90, depois da crise asiática, e novamente depois do colapso nas bolsas, em 2000. Mas quem, com exceção de seu próprio governo, socorrerá os EUA? E em que escala precisará agir?

Essa questão é abordada em outro estudo seminal, o mais recente na série de autoria de Wynne Godley e dois colegas para o “Levy Economics Institute” do “Bard College”. O argumento que fundamenta a análise deve, nesta altura dos acontecimentos, ser bastante familiar aos leitores desta coluna.

O que torna o socorro tão difícil é a força que motivou a crise: a interação entre persistentes desequilíbrios externo e interno nos EUA e no restante do mundo. Os EUA e alguns outros países deficitários crônicos têm, atualmente, uma capacidade estruturalmente deficiente para produzir bens e serviços comerciáveis. O restante do mundo, ou, mais precisamente, um número limitado de países com grande superávit - especialmente a China -, têm o oposto. De modo que a demanda vaza sistematicamente dos países deficitários para os superavitários.

Em épocas de demanda aquecida, isso não é problema. Em períodos de colapso nos gastos privados, como agora, trata-se de um problema enorme. Isso significa que os esforços de socorro americanos precisam ser suficientemente grandes não apenas para aumentar a demanda por produção americana, mas também para ampliar a demanda pelo excedente produtivo de grande parte do restante do mundo. Esse foi um ônus com que o Japão, quando afetado por sua crise, não teve de arcar.

O que aconteceu com os gastos privados americanos decorre do colapso na tomada de empréstimos: entre o terceiro trimestre de 2007 e terceiro trimestre de 2008, a concessão líquida de empréstimos ao setor privado americano caiu aproximadamente o equivalente a 13% do PIB - de longe a mais aguda queda na história da série. Com a tomada de empréstimos fora do cenário, a poupança privada líquida - diferença entre receitas e despesas - provavelmente permanecerá positiva durante anos, enquanto as famílias irão pagando suas dívidas, querendo ou não.

Em vista do persistente déficit estrutural em conta corrente, qual deve ser a ordem de grandeza do déficit fiscal para equilibrar a economia em algum ponto próximo do pleno emprego? Considerando, inicialmente, que o setor privado incorra em um superávit financeiro de 6% do PIB e que o déficit estrutural em conta corrente seja de 4% do PIB, o déficit fiscal precisa ser de 10% do PIB, indefinidamente.

E para chegar a esse ponto, o estímulo fiscal precisa ser enorme. Uma injeção arbitrária de US$ 760 bilhões, ou 5,3% do PIB, não é suficiente. Os autores argumentam que “mesmo com a aplicação de estímulos fiscais quase inacreditavelmente grandes, a produção não crescerá o suficiente para impedir que o desemprego continue a crescer no decorrer dos próximos dois anos”.

Agora consideremos o que acontecerá se, após dois ou mais anos de monstruosos déficits fiscais, os EUA continuarem atolados em desemprego e crescimento lento. As pessoas começarão a perguntar por que o país está exportando tanto de sua demanda para sustentar empregos no exterior. Eles irão querer sua demanda de volta. A última vez em que esse tipo de coisa aconteceu - na década de 1930 - o desfecho foi uma rodada devastadora de desvalorizações em que cada país tenta beneficiar-se em detrimento dos outros, e protecionismo. Poderemos ficar confiantes de que conseguiremos evitar tais riscos? Ao contrário, o perigo é extremo. Depois que tiver início uma reversão da integração da economia mundial e o desemprego disparar, os demônios de nosso passado - o nacionalismo, acima de tudo - retornarão. Os avanço de décadas poderão desmoronar quase do dia para a noite.

No entanto, temos uma oportunidade de ouro para nos desviarmos desse curso. Hoje, sabemos mais. Os EUA têm, em Barack Obama, um presidente com enorme capital político. Seu governo estará determinado a fazer tudo o que puder. Mas os EUA não são suficientemente fortes para socorrerem, sozinhos, a economia mundial. Os EUA necessitam colaboração, especialmente dos países superavitários. Os EUA e um punhado de outros países avançados já não têm condições de absorver os superávits mundiais de poupança e mercadorias. A crise é prova disso. O mundo mudou, e por isso devem mudar suas políticas. Isso precisa ser feito já.

Martin Wolf é colunista do “Financial Times”.

27/12/2008 - 14:48h Uma idéia estranha em Paris

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Gilles Lapouge * - O Estado SP

Comerciantes franceses esperavam o Natal com angústia. Temiam um naufrágio. Após seis meses de crise, donos de mercearias, butiques de luxo ou hipermercados estavam com a pulga atrás da orelha. Mas foi o contrário. Os franceses gastaram muito. Eles se entregaram às compras “descontroladas”, segundo observadores especializados. No total, os gastos na festas de 2008 deverão ser iguais ou um pouco superiores aos de 2007.

Não demorou para aparecer o tradicional exército de sociólogos, psicanalistas, filósofos para explicar o paradoxo. Eles foram rapidamente convocados às estações de rádio e televisão para despejar os habituais oceanos de banalidades. Dois pontos de vista se destacam. Para uns, a França tem uma poupança enorme. Sendo assim, as famílias esbanjaram as reservas por estar convencidas de que a crise não será longa.

Para outros, é o contrário. Os franceses esperam um ano de 2009 execrável: falências, desemprego, suicídios. E resolveram gozar uma última vez antes do desastre, escolheram “morrer sorrindo”. É a síndrome do Titanic.

Uma idéia estranha circula por Paris: a presente crise não existe. Os políticos a inventaram, por razões obscuras, e os meios de comunicação, encantados, seguiram atrás. Tudo isso é uma mentira, um embotamento dos espíritos. A verdade é que tudo vai muito bem. Uma sondagem de opinião espantosa foi publicada: 50% dos franceses acham que “tudo vai muito bem”.

Nada parecido com isso na Inglaterra. Lá, as pessoas estão apertando o cinto. As grandes lojas, atoladas em encalhes, lançam liquidações com oito dias de antecedência, na célebre Knighstbridge, na Harvey Nichols, na Selfridges.

Woolworths, MFI e Zavvi (ex-Virgin Megastores) estão sob administração judicial. Espera-se a bancarrota de dez cadeias comerciais em janeiro.

Para o Natal, as lojas baixaram seus preços de 20% a 50%, mas os porta-moedas ficaram hermeticamente fechados.

A explicação seria a seguinte: a economia inglesa está sendo puxada cada vez mais pelos serviços e, sobretudo, os serviços financeiros. O parque produtivo inglês é reduzido e de baixa qualidade.

Assim, a crise, que é financeira, atingiu com toda força a Inglaterra, mais que qualquer outro país, e, singularmente, as altas finanças da City, o distrito financeiro de Londres.

Há semanas se recolhem os operadores arruinados com pás nas calçadas da City, como se fossem as folhas mortas de outono. Ora, esses traders, jovens luxuosos, esnobes, dândis, aristocráticos e vulgares tinham o hábito de esbanjar as enormes gratificações, suas gratificações imorais, no Natal.

Nada de gratificações neste ano. Em lugar das gratificações, chutes no traseiro! Nessas condições, com o traseiro dolorido e os bolsos vazios, quem iria despejar fortunas na Harrods, na Woolworths ou na Knightsbridge?

É essa a desgraça da Inglaterra. Já se explicou amiúde aos países subdesenvolvidos que é perigoso basear toda uma economia numa “monocultura”, de trigo, milho, cacau ou canela. Isso também vale para os países superdesenvolvidos, como a Inglaterra, que se entregou cegamente a uma “monocultura”, a monocultura do dinheiro.

*Gilles Lapouge é correspondente em Paris

19/12/2008 - 08:45h Governo prepara novo pacote de desoneração fiscal

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Segundo Dilma, ‘crescimento de 4% em 2009 não é fantasia, mas o que buscamos atingir’

Renée Pereira - O Estado de São Paulo

O governo federal prepara um novo pacote de desoneração fiscal para estimular os investimentos no País, afirmou a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff. Em almoço promovido ontem pela Associação Brasileira da Infra-Estrutura e Indústrias de Base (Abdib) e Confederação Nacional da Indústria (CNI), que reuniu cerca de 500 empresários na capital paulista, ela comentou que essa é uma das questões centrais estudadas pelo ministro da Fazenda Guido Mantega para manter o crescimento econômico. “Temos todas as condições para minimizar os efeitos da desaceleração da atividade provocada pela crise financeira.”

Dilma destacou que, com as medidas adotadas pelo governo desde o início da crise, é possível perseguir a meta de crescimento de 4% no ano que vem. “Não é necessariamente o que vai ocorrer; é o que buscamos fazer para ocorrer. Este objetivo não é ?fantasista?, mas é necessário porque um governo sem metas não tem perspectivas e não unifica os agentes.”

A evolução do Produto Interno Bruto (PIB) estará ancorada especialmente na retomada e garantia dos investimentos. Para isso, o governo baseia-se em quatro pilares. Um deles é o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), que será turbinado com mais R$ 200 bilhões em obras. Dilma comentou que a carteira com os novos projetos será apresentada hoje para aprovação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Entre os empreendimentos estão trem-bala, concessões rodoviárias, projetos portuários e expansão ferroviária.

Os outros pilares do crescimento são o programa de mobilidade urbana, que prevê a construção de trens leves sobre trilhos e metrôs; o programa de habitação popular, com investimentos da ordem de R$ 300 bilhões; e as obras referente ao pré-sal. Dilma também confirmou os investimentos de R$ 140 bilhões da Petrobrás em atividades extras pré-sal. “Tudo isso sustenta emprego e renda, já que mantém elevada a demanda na iniciativa privada, indústria da construção naval, bens e serviços, engenharia e construção civil”, avaliou a ministra, durante um discurso de mais de meia hora. Em tom otimista e bem humorada, a ministra convocou a platéia de empresários para um esforço conjunto para manter o nível de emprego no País.

Dilma disse que os programas sociais também serão mantidos e que as oportunidades criadas por essa taxa de câmbio pode trazer bons frutos para vários setores como o agronegócio. Ela reforçou também que o governo tem trabalhado na questão de evitar a disseminação do medo e do pânico e garantiu que todas as medidas possíveis de curto prazo já foram tomadas.

O presidente da Abdib, Paulo Godoy, acredita que o grande desafio hoje é restabelecer a confiança do mercado, possibilitando o crédito entre os agentes. “Hoje está havendo uma corrida para os provedores de financiamento de longo prazo. Ou se fortalece a fonte (no caso, o BNDES) ou criamos outras formas de captação de poupança. Se não tivermos crédito, não conseguimos manter investimentos. A construção civil e a infra-estrutura devem e podem fazer papel de políticas anticíclicas.”

18/12/2008 - 10:43h BC americano vai mal, o nosso vai bem

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Alberto Tamer * - O Estado SP

Juro praticamente zero nos Estados Unidos. O Federal Reserve (Fed, obanco central americano) está nu, segurando tangas esfarrapadas que não encobrem nada.Acabou a munição monetária para animar a economia entorpecida.

Ao contrário do nosso Banco Central, que tem muita bala, mas ainda hesita em se despir, só lhe resta agora criar e inundar o mercado com uma enxurrada de dólares e garantir dívidas de retorno duvidoso. Corre o risco de afogar-se lá na frente, quando a economia retomar o rumo e a inflação voltar. Mas esse é um problema que vai surgir no futuro. Não incomoda nem um pouco agora. Primeiro, é preciso não se afogar no mar turbulento.Depois, navegar.

DÓLARES E DÓLARES TAMBÉM

E é isso o que o Federal Reserve já vem fazendo: mais de US$ 1 trilhão, desde setembro. E sabe que terá de dobrar. É o gesto heróico do dinheiro fácil para situações dramáticas. O último tiro que, mesmo assim, corre o risco de errar, pois o alvo está nublado.

Vai inflacionar? Por enquanto, não. Agora, é evitar a depressão. A inflaçao está recuando, menos 1,7% agora, com a desacelaração da demanda e a queda das commodities agrícolas e o petróleo.Grandes lojas de departamentos tradicionais estão oferecendo 50% de desconto para compras acima de US$ 250. Ou seja, a metade do preço e nem assim as vendas reagiram na véspera das festas de fim de ano.

O consumidor está cauteloso, teme perder o emprego ou ver reduzido o seu salário. O que ele ganha com a queda dos preços não afasta a insegurança no trabalho. Afinal, milhares já estão sendo despedidos e tentando encontrar um novo emprego.

Pela primeira vez que se tem memória, o índice de poupança dos americanos, que era zero, está registrando alguns pontos acima de traço.

O JOGO DO ESPERA

Está todo mundo esperando Barack Obama - o presidente eleito dos Estados Unidos -, que espera Henry Paulson - o secretário americano do Tesouro-, que espera Obama… que sonha em tirar férias nas praias do Havaí.

O resultado é soma zero. E ninguém faz nada. Todo mundo espera o dia 20 de janeiro, tão próximo, mas ainda tão distante. E, enquanto isso, a economia americana afunda à espera de um Obama, aflito e desencantado com o fim do governo de George W. Bush.

O Congresso tem um novo pacote pronto de US$ 600 bilhões, mas Bush nem quer falar dele.Também deve estar sonhando com as maravilhosas praias havaianas.

BRASIL ATÉ ESNOBA

Aqui, mesmo num cenário mais ameno, o governo já está adotando as medidas que os Estados Unidos e a Europa adiam, mesmo estando em recessão.

O governo já aprovou medidas que reduzem os impostos dos bens de consumo, dos bens duráveis e não-duráveis, injetam vultosas quantias de recursos nos bancos para levá-los a financiar as empresas e a emprestar mais. Além disso, o BNDES, o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal entraram ativamente no mercado, municiados por recursos do Estado. Uma boa parte das exportações estão sendo financiadas pelas instituições do governo.

Nós nos antecipamos a eles, prevendo o que já está vindo.

Por que essa diferença de reação? Primeiro, deve-se à agilidade do BC de prever e preparar-se para absorver os efeitos da falta de crédito externo. Henrique Meirelles e seus técnicos mostraram grande competência e maturidade. Segundo, foi mais fácil para o BC e o governo brasileiro reagirem porque não tínhamos os terríveis desafios dos bancos europeus e americanos. Direta (EUA) e indiretamente (Europa), eles sofreram os efeitos da imprudência e ganância, do subprime imobiliário. Aqui, se houver, quando muito, pode ser subprime no financiamento de carros e motos. Não há como comparar.

Outro fator positivo, já conhecido do leitor desta coluna, crescíamos ainda, com os demais emergentes, enquanto eles afundavam. Demoraram para agir por incompetência (zona do euro) ou imprudência das autoridades monetárias. Isso foi agravado pelo vendaval destruidor da desvalorização dos ativos imobiliários, que ainda persiste.

MAS CUIDADO

A nossa situação mais favorável tem bases frágeis, um mercado interno suscetível e forte retração, principalmente, em caso de desemprego. Eles têm vários pilares de sustentação, nós apenas um. Eles têm economias maduras de US$ 28 trilhões somados, 50% do PIB, e um mercado interno e externo bem formado. Nós, com US$ 1,3 trilhão, representamos apenas 2,3%. Mais ainda, daquele valor, mais de 60% são representados pelo mercado interno. Dependemos pouco do comércio exterior.

No entanto, o que é às vezes apontado com uma vantagem, menos dependência externa, torna-se uma desvantagem considerado o relativamente baixo poder aquisitivo dos brasileiros e a fragilidade de um mercado interno ainda incipiente. Ele está sendo sustentado mais pelo crédito do que pela renda.

Essa é a nossa fragilidade em relação aos outros.

Os Estados Unidos podem renascer com um empurrão fiscal porque partem de uma base sólida. Nós vamos precisar muito mais empurrões, de um governo que tem recursos limitados.

Estamos até bem em relação a eles, mas não tanto em relação a nós mesmos e aos nossos desafios.

*E- mail: at@attglobal.net

11/12/2008 - 10:26h Pacote quer incentivar consumo da classe média

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Claudia Safatle e Paulo de Tarso Lyra, de Brasília - VALOR

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, anuncia hoje um conjunto de medidas para incentivar o consumo de bens e serviços na economia. O pacote ainda será submetido ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva pela manhã, mas nele deverá constar a criação de novas alíquotas na tabela do Imposto de Renda Retido na Fonte; a redução do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) para operações de crédito ao consumo, cuja alíquota, elevada em janeiro, é de 3,38%; e redução do IPI para automóveis. Conforme sugestão de sindicalistas que estiveram ontem com o ministro, a redução do IPI, que é temporária, seria condicionada à manutenção dos empregos.

A proposta da Fazenda para o IR é criar duas novas alíquotas, uma inferior à mínima de hoje, de 15%, algo em torno de 10%, e a outra intermediária entre os 15% e a alíquota superior, de 27,5%, que pode ser de 22% ou um pouco maior, uns 25%. A definição exata das novas alíquotas será tomada hoje pelo presidente Lula, e dependerá do tamanho da perda de arrecadação que o governo considerar razoável para 2009, quando entrará em vigor a nova tabela. O mesmo ocorre com a redução do IPI sobre carros. Hoje os veículos populares (motor 1.0) a gasolina pagam 7% de IPI; os carros médios (motor até 2.0) pagam 13% e os de luxo (motor 2.1 para cima), 25%. Há impostos diferentes para veículos movidos à álcool, diesel ou flex.

A redução do IPI é um incentivo para o setor automobilístico, um dos que mais sofre com a crise econômico-financeira, que resultou numa contração forte da oferta de crédito.

Não deverá sair hoje a nova rodada de liberação de recursos dos depósitos compulsórios dos bancos no Banco Central. Há dúvidas sofre a eficácia dessa medida já que até agora o BC liberou mais de R$ 90 bilhões em compulsórios que poderiam ativar as operações de crédito, mas isso não está acontecendo. Também não é líquido e certo que os recursos que o contribuinte receber de alívio no imposto de renda sejam dirigidos ao consumo. Há o risco desse dinheiro se transformar em poupança.

Hoje o presidente Lula terá reunião com um seleto grupo de empresários e só após esse encontro as medidas serão anunciadas por Mantega como “um presente de Natal” do governo, sobretudo para a classe média.

Lula quer evitar que o medo de recessão e desemprego leve o consumidor a um comportamento extremamente conservador em 2009, restringindo as compras aos bens de primeira necessidade. Se isso ocorrer, a recessão pode se transformar numa profecia auto-realizável. Se o consumidor não comprar, a indústria não vai produzir, o trabalhador ficará sem emprego, e a economia, que vinha de um crescimento vigoroso até setembro, pode capotar.

Os empresários devem reproduzir, ao presidente da República, o tom da reunião feita na Fiesp com Mantega e o vice-presidente, José Alencar, na última sexta-feira, em São Paulo. Dirão que a crise internacional é grave e que não há meios de impedir que ela atinja o dia-a-dia dos brasileiros, inclusive os seus empregos. “Os setores que dependem de crédito para produzir, inevitavelmente, sofrerão cortes ou terão que adotar férias coletivas”, afirmou o diretor do departamento de competitividade e tecnologia da Fiesp, José Ricardo Roriz Coelho.

Estarão no Palácio da Alvorada dirigentes dos setores de alimentos, petroquímica, siderúrgico, mineração, aviação, embalagens, construção civil, comércio, agricultura e automobilístico.

Em todas as áreas, em menor ou maior grau, a avaliação é a mesma. O ano no país será dividido entre pré-outubro e pós-outubro. “O PIB do quarto trimestre deve ser zero, o que é péssimo”, completou José Ricardo, que faz parte de um gabinete de crise criado pela FIESP. O governo vem tentando fazer a sua parte, mas a estrutura oficial é muito lenta, o que impede que as soluções cheguem à ponta com a mesma velocidade dos efeitos da crise, alegam os empresários.

Exemplo disso é o crédito. O governo liberou parcela importante dos compulsórios para que os bancos voltassem a emprestar, e orientou Banco do Brasil e Caixa Econômica a saírem na frente. Não foi exatamente o que aconteceu. O crédito ficou caro e a disputa pelo acesso, mais acirrada. Os empresários também estão muito preocupados com a volatilidade da taxa de câmbio. Para os exportadores, a desvalorização do real é benéfica. Para os importadores, a volatilidade dificulta a fixação de preços.

08/12/2008 - 10:01h Cenário nos Estados-Unidos é pior do que parece ser

http://www.agoravox.fr/IMG/Dollar_Crash_2006.jpg

David Leonhardt * e Catherine Rampell *, The New York Times - O Estado SP

Por piores que tenham sido os números do relatório sobre emprego na sexta-feira, eles ainda fizeram o mercado de trabalho parecer melhor do que realmente está.

A taxa de desemprego atingiu seu ponto mais alto desde 1993, e o emprego em geral perdeu mais de meio milhão de postos de trabalho. Isso, porém, foi apenas o começo. Graças à maneira errática como as estatísticas de emprego mais conhecidas do governo são calculadas, elas ignoraram muitos trabalhadores profundamente atingidos pela atual recessão.

O número de pessoas fora da força de trabalho - que não estavam nem trabalhando, nem procurando trabalho, e que o governo não considerou desempregadas - cresceu 637 mil no mês passado, segundo o Departamento do Trabalho. O número de trabalhadores em tempo parcial que disse que queria trabalhar em tempo integral - todos contados como plenamente empregados - cresceu 621 mil.

Levando em conta essas pessoas, o mercado de trabalho está na pior condição desde o início dos anos 1980 e se deteriorando rapidamente. A parte dos homens com mais de 20 anos empregados já estava, no mês passado, no ponto mais baixo desde 1983, e próxima do ponto mais baixo dos últimos 60 anos. A parte das mulheres empregadas é mais baixa do que há oito anos, o que nunca ocorreu em décadas anteriores.

Liz Perkins, de 24 anos e mãe de quatro filhos em Colorado Springs, Colorado, começou a procurar trabalho em outubro após saber que o marido, James, estava prestes a perder o emprego. Mas os empregos que encontrou, ou não pagavam o suficiente para cobrir a creche, ou requeriam que ela trabalhasse de noite. Perkins disse que a menos que seu marido encontre emprego nos próximos três meses, temia que ficar sem teto. “Esgotaremos a poupança rapidamente.”

Mesmo economistas de Wall Street, cujas análises são em geral atenuadas, pareceram surpresos com o relatório. O Goldman Sacks chamou os novos números de “horrendos”. Economistas do Morgan Stanley escreveram, “Simplesmente não há nada de bom nesse relatório.” Analistas do HSBC agora esperam que o Federal Reserve (Fed, banco central americano) reduza sua taxa de juros benchmark (de referência) a zero.

Essa linguagem pode parecer em descompasso com uma taxa de desemprego que, apesar de aumento recente, continua em 6,7%. A taxa superou 10% no início dos anos 1980. Mas, nas últimas décadas, a taxa de desemprego se tornou uma medida menos útil da saúde econômica do país.

Isso porque hoje muito mais pessoas caem na zona cinzenta do mercado de trabalho - sem emprego e sem estar procurando por um, mas interessadas em trabalhar. Esse grupo inclui muitos ex-trabalhadores fabris que não conseguiram encontrar um novo trabalho que pague bem e não estão dispostos a aceitar um emprego que pague muito menos que o anterior.

Durante a maior parte do ano passado, as fileiras desses egressos da força de trabalho não estavam mudando rapidamente, disse Thomas Nardone, um economista do Departamento do Trabalho que supervisiona a coleta de dados sobre desemprego. As pessoas que haviam perdido seus empregos em geral começavam a procurar um novo trabalho. Mas isso mudou em novembro.

Os que procuravam empregos pareceram ficar profundamente pessimistas com a economia americana em novembro. A menos que os números se revelem um solavanco de um mês, muitas pessoas parecem ter decidido que é inútil buscar emprego agora.

“Não é só que não existe nada por aí”, disse Lorena Garcia, organizadora em Denver da 9to5, National Association Working Women, associação que ajuda mulheres mal remuneradas que buscam trabalho. “Procurar emprego também custa dinheiro.” Qual é a gravidade da situação do mercado de trabalho? Chegar a uma medida que seja comparável ao longo das décadas não é fácil.

A taxa de desemprego se tornou menos significativa pelo aumento no longo prazo dos egressos do mercado de trabalho. A simples porcentagem de pessoas sem emprego também pode ser enganosa, porém. Ela caiu nas últimas décadas principalmente por causa da entrada de mulheres na força de trabalho e não porque o mercado de trabalho esteja mais saudável do que estava.

O Departamento do Trabalho publica uma medida alternativa para o desemprego, que conta trabalhadores em tempo parcial que querem trabalhar em tempo integral, bem como qualquer um que tenha procurado emprego no último ano. Essa medida cresceu 12,5% em novembro - nível mais alto desde 1994 quando o governo começou a calcular a taxa.

Talvez a melhor medida histórica do mercado de emprego seja a criada pelo mercado, o salário. Durante a expansão econômica que durou de 2001 a dezembro de 2007, as rendas da maioria das famílias mal superaram o crescimento da inflação. Foi o crescimento da renda mais fraco de qualquer expansão desde a 2ª Guerra Mundial.

A única boa notícia do relatório, segundo economistas, foi que o salário ainda não começou a cair acentuadamente. Os salários semanais médios para operários subiram 2,8 % em relação ao ano passado, pouca coisa menos que a inflação. Mas os avanços podem encolher no próximo ano, se não nas próximas semanas, dada a queda na demanda por trabalhadores.

* David Leonhardt e Catherine Rampell são articulistas

08/12/2008 - 08:34h Esse redemoinho trouxe um saci-pererê…

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Marco Antonio Rocha* - O Estado SP

A bruxa está solta - dizem os tripulantes de aeronaves quando o tempo se mostra ameaçador. A vantagem deles é que a bruxa, quando se solta, não é por muito tempo. E com a ajuda dos meteorologistas é sempre possível fazer alguma previsão dos seus movimentos e evitá-los.

Já para os tripulantes e comandantes das finanças mundiais não é a bruxa que está solta, é o saci-pererê - coisa muito pior, endiabrada e imprevisível. Eles não têm noção realmente do que está acontecendo nem sabem o que fazer, ao contrário dos pilotos, e não dispõem de meteorologistas para assuntos econômico-financeiros, já que eles mesmos deveriam ter previsto o mau tempo, e foram incapazes. Só conseguem pensar na mais inútil das medidas: despejar mais dinheiro no mercado.

A entrevista do co-presidente do Goldman Sachs, Gary Cohn, no Estado de sexta-feira, corrobora o que dissemos acima sobre o desnorteado e desconcertante estado de espírito dos homens do colarinho-branco. Esse senhor, que recebeu, no final do ano passado, US$ 68 milhões (sic!) em bônus do banco em que trabalha, como prêmio por seu atilado tirocínio e exímia corporate guidance, confessa candidamente que “todos, inclusive eu, calculamos mal a extensão do problema do crédito”. E mais adiante: “… vimos o problema do subprime (…), mas não vimos, assim como ninguém viu, a total evaporação do crédito corporativo (…), vimos grandes empresas e oferecemos crédito a essas grandes empresas, mas por causa do desaparecimento do crédito ninguém quer comprar ativos, ao preço que for.”

O interessante é que depois dessa confissão de falta de visão e de erros de cálculo, os entrevistadores, Ricardo Grinbaum e Leandro Modé - certamente com boa dose de ironia não confessada -, perguntaram: “E agora, o que o senhor acha que vai acontecer com a economia?”

O entrevistado não se constrange em responder que teremos, no ano que vem, “dois trimestres (muito difíceis) para digerir o que aconteceu neste fim de ano” e “começaremos a ver melhoras e entraremos numa seqüência de ciclos de melhoras” (na segunda metade de 2009).

Quem quiser, pode acreditar. Seria mais instrutivo saber o que ele fez com os US$ 68 milhões (ele diz que abriu mão dos bônus de 2009… bom homem!).

É engraçado rever o que alguns senhores da mesma estirpe, classe social e acurado grau de instrução de Mr. Cohn diziam em seus boletins e informes tempos atrás. O jornal El País deu-se a este trabalho e Clovis Rossi, da Folha de S.Paulo, aproveitou alguns dados na sua coluna de sexta-feira: há um ano, 15 corretoras espanholas palpitavam que a Bolsa de Madri estaria, neste mês de dezembro, em 17,3 mil pontos - está em 9 mil pontos. Um grupo de famosas corretoras internacionais davam, no último mês de junho, conselhos sobre ações de empresas - só 13% dos seus conselhos eram para vender ações. O FMI previa que a economia americana cresceria 3% em 2008 - a última estimativa é de 1,4% e, provavelmente, os dados retificados darão muito menos.

Infelizmente, não estamos com tempo suficiente, antes da entrega deste artigo, para pesquisar o que os gurus brasileiros diziam há seis meses ou há um ano. Basta lembrar que o governo brasileiro vaticinava crescimento de 5% do nosso PIB no ano que vem. Se conseguirmos 2% já será lucro, mas não se inquietem, este prognóstico é tão fútil e pode ser tão equivocado quanto os acima mencionados.

O fundamental, a nosso ver, é tentarmos captar alguns possíveis ensinamentos, ancorados na crença de que se aprende com crises, desde que elas não matem os aprendizes!

Um desses ensinamentos é que as sondagens de expectativas deveriam ser abandonadas. A razão é que são viciosas, no sentido de que se auto-alimentam. Quando os negócios marcham favoravelmente, elas se tornam também favoráveis e positivas. E, quanto melhor e mais estimulante é a marcha dos negócios, mais otimistas e positivas são as expectativas. O bêbado ao volante de uma Ferrari alimenta uma expectativa extremamente favorável sobre a capacidade do carro de obedecer ao comando do seu pé no acelerador, não é mesmo?

Outro ensinamento é que não existem gurus desinteressados. Nem desinteressados, nem isentos. Todos os palpiteiros que você lê ou ouve têm o rabo preso, seja num interesse financeiro, material mesmo, como acionista, empregado ou consultor de algum grande grupo ou empresa, seja num propósito político ou ideológico; é o caso dos palpiteiros que se consideram puros do ponto de vista ético. De qualquer forma, são interessados.

Um terceiro, é que esta dinheirama que está sendo despejada pelos governos no pântano da incerteza não evitará que empresas fechem, empregos desapareçam, patrimônios juntados ao longo da vida se esfumacem, pois o que falta não é dinheiro nem crédito. O que falta é confiança: investidores não investem, bancos não emprestam, consumidores não se endividam, a economia empaca.

Mas a crise de confiança tem um efeito mais perverso do que a própria crise financeira e pouco mencionado: ela rouba o futuro das pessoas. Contribuição importante trazida pelo capitalismo moderno foi a dos mecanismos para assegurar o futuro. Planos de aposentadoria, seguros contra desemprego, planos educacionais, poupança para casa própria, planos de saúde, fundos de previdência, fundos de ações - uma parafernália de meios, inexistentes no mundo antigo, permitem que boa parcela da humanidade, infelizmente ainda a menor parcela, exorcize o sobressalto quanto ao futuro que sempre a atormentou e possa planejar com critério a vida familiar. A crise é uma ameaça ominosa à paz de espírito de milhões de chefes de famílias no mundo inteiro e entreabre a porta de um mundo indesejável: o do salve-se quem puder!

*Marco Antonio Rocha é jornalista.
E-mail: marcoantonio.rocha@grupoestado.com.br

01/12/2008 - 11:47h ”Chave do crescimento é a indústria”

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Economista do Banco Mundial defende política industrial como melhor alternativa para assegurar o crescimento

Fernando Dantas - O Estado SP

As políticas industriais são fundamentais para o desenvolvimento econômico, mas não as que foram adotadas na América Latina a partir dos anos 50. A análise é do chinês Justin Lin, economista-chefe do Banco Mundial. Participante do encontro conjunto da seção latino-americana da Sociedade Econométrica e da Associação Latino-americana e Caribenha de Economia (Lames-Lacea), no Rio, no fim de semana passado, Lin fez uma palestra sobre a sua original visão das premissas do desenvolvimento, que se afastam tanto das recomendações liberais do Consenso de Washington quanto da visão tradicional na América Latina a favor do intervencionismo estatal.

“Muitos países fizeram reformas a partir dos anos 80, mas quase só a China atingiu taxas miraculosas de crescimento por um longo período; acho que todos os países em desenvolvimento podem ter essas taxas, desde que suas políticas econômicas levem em conta que a principal força motriz do desenvolvimento é a melhoria contínua da estrutura industrial e tecnológica”, disse Lin, ao Estado, em entrevista durante o encontro Lames-Lacea.

No seu trabalho acadêmico, Lin distingue dois tipos de política industrial: as que confrontam as vantagens comparativas (CAD, em inglês) e as que seguem as vantagens comparativas (CAF).

A América Latina, os países do bloco socialista, a Índia e a própria China, numa primeira fase, praticaram políticas industriais do tipo CAD a partir dos anos 50, todas com resultados muito ruins, segundo Lin. Depois de rápidos surtos iniciais de crescimento, aqueles países acabaram atolados em longos períodos de crise e estagnação. Em vários deles a distribuição de renda piorou - tudo por conta, na visão do economista chinês, da escolha equivocada de política industrial.

Basicamente, Lin defende que os países busquem desenvolver inicialmente os setores nos quais têm vantagens comparativas, o que para ele foi seguido por países como China e, mais recentemente, Vietnã. Aquela estratégia geralmente significa, para países não ricos, investir em indústrias intensivas em mão-de-obra e menos exigentes em termos de capital, como manufaturas leves (calçados, tecidos, brinquedos). Com essa escolha, as indústrias tornam-se competitivas nos mercados nacionais e internacionais e demandam níveis muito pequenos de proteção ou subsídio. A alta lucratividade nesses setores maximiza a rentabilidade do capital e incentiva o crescimento da poupança.

Num segundo momento, à medida que o país vai melhorando as indústrias e a tecnologia, a economia vai transitando gradativamente dos setores intensivos em mão de obra para os intensivos em capital. O fato de vir de trás significa que o país pode adotar e adaptar soluções tecnológicas desenvolvidas nos países ricos, que dependem do custoso e lento processo de invenção para avançar. É por isso que os países emergentes podem se desenvolver muito mais rapidamente do que os ricos.

O governo tem uma série de funções nesta estratégia, na visão de Lin: coletar, processar e distribuir informações sobre indústrias, produtos e tecnologia; coordenar empresas em diferentes setores para o processo de melhoria industrial e tecnológica, garantindo que a arquitetura institucional de sistema financeiro, arranjos comerciais, sistemas de distribuição, marketing e proteção à propriedade intelectual seja a mais adequada possível; e proteger de forma passageira as empresas que primeiro “testam” a política industrial estabelecida.

A opção pela política do tipo CAD basicamente procurava introduzir indústrias pesadas e altamente intensivas em capital, em países subdesenvolvidos. Numa interessante conferência em 2007, na Universidade de Pequim, Lin mostrou como diversos grandes líderes socialistas e nacionalistas do século 20, como o soviético Lenin, o chinês Mao Tsé-tung e o indiano Jawaharlal Nehru, pregaram a necessidade de desenvolver a indústria pesada.

O problema, porém, é que esses setores não tinham condição de se tornar competitivos em países com escassez de capital. Além do custo fiscal e das distorções provocadas pela necessidade de subsidiar e proteger aqueles setores, a indústria pesada absorvia uma parte desproporcional dos recursos de investimento da economia, numa tentativa vã de manter-se na corrida tecnológica com os países ricos. Assim, os setores intensivos em trabalho, que poderiam ser competitivos e deslanchar o desenvolvimento sustentável, ficavam à míngua de capital e não de desenvolviam adequadamente.

“Na minha experiência, o governo inteligente parece ser sempre um governo pragmático, que entende quais são as restrições e quais são as oportunidades e também tem a habilidade de construir um consenso social sobre como atingir aquela meta de política”, diz Lin. Para ele, este tipo de governo pode existir tanto em países democráticos como ditatoriais.

24/11/2008 - 08:19h Governo planeja corte de impostos e até campanha publicitária anticrise

Última reunião ministerial do ano também discute manutenção de investimentos e crédito para a compra de máquinas

 

 

Renata Veríssimo, Vera Rosa e Lu Aiko Otta, BRASÍLIA - O Estado SP

 


Redução do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) para setores produtivos em crise, como agricultura, automobilístico e da construção civil, manutenção do ritmo crescente dos investimentos em grandes obras, linhas de crédito para a compra de máquinas e equipamentos destinados à exploração e produção de petróleo e campanhas publicitárias para que as pessoas não deixem de comprar bens de consumo são as principais medidas que o governo estuda tomar para amenizar os efeitos da crise econômica no ano que vem.

As formas de o País enfrentar a crise serão o tema da última reunião ministerial do ano, marcada para hoje. Nela, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva pedirá empenho de todos os auxiliares para tentar evitar que a crise venha a atrapalhar seus dois últimos anos de governo. Uma das formas de vencer a crise, na opinião do presidente, é manter os investimentos nas obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) - cerca de R$ 200 bilhões até o fim de 2010 -, irrigar o crédito e convencer as pessoas de que devem continuar comprando.

Pelos cálculos do governo, a perda de arrecadação estimada para o ano que vem será de no mínimo R$ 8 bilhões. Mas Lula quer que o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) fique em 4%. Portanto, os ministros terão de oferecer ao presidente soluções que conciliem os ajustes necessários ao enfrentamento da crise e a oferta de dinheiro para os investimentos.

“O presidente acha que o governo precisa entender o que está acontecendo com essa crise e se preparar para agir, de maneira unificada, tendo em vista as medidas que vamos tomar”, afirmou o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo. “Não vamos liberar mais recursos em 2009 para gastos correntes, mas manteremos os investimentos e queremos fomentar a produção. Não se trata de favor nem de dar dinheiro: é fazer a roda girar.” O ministro da Fazenda, Guido Mantega, e o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, farão uma exposição sobre o cenário econômico e as providências tomadas até agora pelo governo para combater os efeitos da crise. “Estamos conseguindo superar os problemas e acreditamos que dá para manter uma taxa positiva de PIB com políticas anticíclicas”, disse Mantega, numa referência à poupança feita em anos de crescimento para ser usada nos tempos de vacas magras.

Para injetar mais recursos na economia, a equipe econômica estuda cortar tributos, como novas reduções nas alíquotas do IOF. A equipe econômica avalia que há margem para novos cortes caso seja necessário.

Mas as medidas devem continuar sendo pontuais, para setores com dificuldades, como a decisão tomada na semana passada de reduzir o IOF para as operações de financiamento de motos para pessoa física. O setor havia registrado uma queda forte nas vendas.

O governo também fará todos os esforços para garantir os investimentos para os projetos incluídos no PAC. Na semana passada, o presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDES), Luciano Coutinho, disse que o desafio do governo será manter a taxa de crescimento dos investimentos em pelo menos de 10% em 2009, contra o ritmo de expansão deste ano, que está em 16%.

Além dos recursos do Orçamento e os esforços para capitalizar o BNDES, o governo espera contar com os R$ 14 bilhões anunciados para criar o Fundo Soberano do Brasil (FSB). Caso seja aprovado pelo Congresso, o Fundo servirá para reforçar os investimentos em momento de baixa expansão da economia. Mas se o FSB não for aprovado até o final do ano, o governo já estuda a possibilidade de “carimbar” esses recursos para projetos de infra-estrutura de forma a garantir que serão gastos em 2009. A equipe econômica quer evitar que o dinheiro vire superávit primário e seja usado no pagamento dos juros da dívida pública.

DILMA E A CRISE

A pedido de Lula, a chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, falará sobre investimentos. Favorita do presidente para concorrer à sua própria sucessão, em 2010, Dilma não se concentrará apenas no PAC, que hoje enfrenta dificuldades para sair do papel em vários Estados. Fará ainda um balanço das principais ações do governo.

“É uma reunião para que possamos trocar informações sobre o momento econômico e afinar o discurso”, comentou o ministro das Relações Institucionais, José Múcio Monteiro. Articulador político do governo, Múcio conseguiu a duras penas, na semana passada, que Lula ordenasse à equipe econômica o empenho (reserva para pagamento) de R$ 1,2 bilhão em emendas parlamentares individuais. Na prática, o governo temia que a base aliada, movida a cargos e emendas, ficasse ainda mais rebelde se nada fosse autorizado.

Lula também pediu que os ministros da Agricultura, Reinhold Stephanes, e do Desenvolvimento, Miguel Jorge, apresentem um diagnóstico dos problemas em suas pastas no cenário pós-tormenta global. Para fechar a exposição, o chanceler Celso Amorim abordará as conclusões da reunião do G-20 - grupo de países que representa 85% do PIB mundial -, em Washington, no último dia 15.

Naquele encontro, o Brasil insistiu na tese de que os países emergentes devem ter mais peso nas discussões sobre uma solução coordenada para a crise e defendeu a reforma de organismos multilaterais como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial.

AS METAS PARA 2009

Crescimento da economia: 4%

Taxa de crescimento dos investimentos: 10%

Reduções pontuais do IOF para setores produtivos em dificuldades

Linha de crédito para fornecedores de equipamentos para exploração e produção de petróleo

Fundo Soberano do Brasil: R$ 14 bilhões

17/11/2008 - 10:45h EUA: Aposentados ficam mais pobres

Clifford Krauss * - O Estado SP

Depois que o mercado acionário começou a cair, amigos têm procurado Barbara Goldsmith para falar sobre sua depressão, perda de apetite e insônia. “As pessoas estão sofrendo”, disse Goldsmith, uma terapeuta semi-aposentada que aconselha colegas residentes no Gleneagles Country Club, um condomínio fechado daqui. “Houve uma morte. O dinheiro deles morreu.” Em comunidades como Gleneagles e nas casas de aposentados, estes são dias de medo e incerteza.

Em teoria, os aposentados não deveriam investir muito no mercado acionário; na realidade, muitos milhões o fazem. Com a economia em queda livre e as ações registrando perdas de 40% neste ano, legiões de pessoas das classes média e média alta estão subitamente preocupadas sobre se terão o suficiente para continuar vivendo.

Evidentemente, não estão se formando filas para o pão em lugares como Gleneagles. Os aposentados jogam golfe, tênis e cartas. Mas sustentar essa vida confortável por mais duas ou três décadas, como muitos aposentados esperam fazer, requer dinheiro. Pessoas com investimentos que valiam US$ 1 milhão ou US$ 2 milhões, alguns meses atrás, estão subitamente cancelando cruzeiros, recortando cupons de supermercados, comendo em casa e não em restaurantes e reduzindo contribuições para a formação universitária dos netos.

Como os aposentados de toda parte, os moradores daqui jogaram deliberadamente com o que viam com riscos competitivos. Eles todos ouviram o conselho padrão para retirarem seus ativos de ações para investimentos mais seguros quando se aproximavam da aposentadoria. Mas, com as taxas de juros muito baixas, os retornos sobre investimentos seguros como os títulos do governo eram magros, e muitos deles viam um risco em não manter algum dinheiro em ações. Para financiar uma longa aposentadoria, eles acharam que precisariam dos ganhos do mercado acionário.

Manter o dinheiro em ações os deixou expostos ao risco de um derretimento do mercado que ocorre uma vez na vida. Agora, esse dia está próximo. “Cada monitor de TV da sala de jogos e do vestiário está sintonizado na CNBC para ficarmos apreensivos o dia todo”, disse Jerry Rivkin, de 75 anos, dono de loja de eletrodomésticos aposentado. “Nós ficamos jogando por moedas e centavos enquanto nos assistimos perdendo dezenas de milhares.”

Para enfrentar a situação, algumas pessoas estão vendendo suas casas no Norte, para garantirem sua permanência aqui. Um punhado de condôminos em Gleneagles teve sua hipoteca executada. Durante anos, consultores de aposentadoria disseram que os idosos deviam investir pouco em ações, colocando a maioria de seus ativos em bônus, certificados de depósito e outros investimentos conservadores. Mas mesmo alguns dos especialistas reconhecem que essa estratégia nem sempre funciona para pessoas aposentadas com boa saúde que podem viver até os 90 anos ou mais.

“Com as expectativas de vida do jeito que estão, e a medicina melhorando a cada ano”, disse Joseph La Scala, um consultor financeiro sênior da GunnAllen Financial, “alguém que esteja entrando na aposentadoria agora precisa ser um investidor de longo prazo, e isso significa que precisa haver mais alocação de investimentos em ativos de crescimento como ações.”

Segundo estatísticas do governo, um terço dos aposentados quase não tem exposição em ações. Mas estes são principalmente pessoas pobres ou de baixa classe média cuja renda depende da Previdência Social. Outras estão blindadas por benefícios de pensões, embora estes estejam encolhendo nos últimos anos, especialmente para aposentados mais jovens.

Especialistas em aposentadoria dizem que uma maioria das pessoas das classes média e média alta tem portfólios bem mais carregados de ações e correm mais risco do que o normalmente recomendado. Segundo estudo da Universidade de Michigan patrocinado pelo National Institute of Ageing, dos 40% mais ricos da população com 75 anos ou mais, mais da metade tinha pelo menos um terço de suas poupanças em ações.

“As pessoas idosas de classe média fizeram planos baseados num conjunto de suposições de como o mundo funciona, e o mundo endoidou”, disse Alicia H. Munnell, diretora do Centro de Pesquisas sobre Aposentadoria do Boston College. Essas suposições já incluíram as noções de que contas bancárias e bônus corporativos eram seguros, e as ações de primeira linha eram os melhores investimentos de longo prazo.

“Se ligar para minha mãe”, disse Jason J. Fichtner, vice-comissário em exercício do departamento de Previdência Social, “sua meta era US$ 1 milhão em ações para se aposentar. Ela teve isso por um fim de semana, e agora seu valor caiu para US$ 600 mil.”

Em Gleneagles, as pessoas ainda jogam cartas, golfe e tomam aulas de pintura. Mas a apreensão da comunidade é palpável e crescente. “Eu me sinto horrível”, disse Harry Pure, 80 anos, diretor de atletismo aposentado da Universidade de Filadélfia, que perdeu 25% de suas poupanças. Num intervalo de sua aula de pintura, ele disse: “Era ótimo colocar a cabeça no travesseiro de noite e saber que estava seguro. Agora eu coloco a cabeça no travesseiro e as células cinzentas não conseguem dormir. Todos os diferentes cenários ficam ocupando minha mente agora: O que fazer?”.

“Isso ameaça nosso estilo de vida”, disse Sid Freedman, 74 anos, um antigo dono de uma empresa têxtil. Com mais de US$ 2 milhões em ativos, ele achava que ele e a esposa estavam preparados para uma aposentadoria longa e segura.


* Escreve para The New York Times, de Delray Beach, Flórida

13/11/2008 - 10:42h Os impactos diferenciados da crise

Antônio Palocci - O Estado SP

http://www.estadao.com.br/fotos/apalocci.jpgNo debate sobre as ações dos governos ante a crise financeira atual vale a pena observar uma questão de fundo: o impacto da crise nos países não ocorre de maneira idêntica e simultânea. Ele é diferenciado, atingindo economias de diferentes maneiras e exigindo, assim, múltiplas e adequadas respostas. A simples transferência de medidas de um país para outro não é boa conselheira nessa situação.

É verdade que há efeitos comuns e globais na turbulência e o principal deles é um extraordinário aumento da aversão ao risco, com redução da liquidez e um quase congelamento do crédito.

Fora essa questão geral, porque sistêmica, que tem sido tratada pela garantia às instituições bancárias onde ela se apresentou de forma mais intensa, a situação em cada país varia bastante, em função dos fundamentos de suas economias. Uma estratégia para evitar o pior da crise exige, portanto, ações específicas, diferenciadas e adequadas no espaço, na forma e no tempo.

Um exemplo das distinções fundamentais entre países é a evolução do consumo do varejo nos EUA e no Brasil. Lá, o consumo está em queda generalizada e consistente, porque se reconhece a inevitabilidade do ajuste macroeconômico, postergado por anos de política monetária folgada e expansão fiscal. O consumidor, ao pensar no futuro, não reagiu sequer ao pacote de devolução de impostos iniciado em abril. Na crise das torres gêmeas, o governo Bush já havia utilizado o expediente da devolução de impostos, obtendo algum efeito no aumento do consumo de bens duráveis, já que a percepção na época era de um choque de curto prazo. Agora, o cidadão americano resolveu guardar o dinheiro ou utilizá-lo para saldar dívidas, porque vê dias difíceis pela frente.

No Brasil, o consumo no varejo ainda segue forte porque, apesar do aumento do crédito nos anos recentes, as famílias não estão endividadas e o País não tem grandes gargalos no balanço externo que pudessem precipitar uma crise. Há sinais, claro, de queda no caso de bens duráveis, mas pela falta aguda de crédito. Nos serviços e bens não-duráveis, no entanto, o consumo se mantém a taxas elevadas.

Um indicador dos motivos da diferença de tendências aqui e nos EUA é a evolução recente do emprego nas duas economias. Enquanto o Brasil gerou mais de 2 milhões de empregos formais neste ano, nos EUA houve queda de 1,2 milhão de empregos no mesmo período.

Outra diferença está nas conseqüências das variações cambiais sobre a dívida externa. Na Europa do Leste, o impacto do câmbio tem levado a um forte aumento da dívida líquida, como ocorreu no Brasil em crises passadas. Aqui, no entanto, houve uma diminuição líquida, dada a posição atual do País de credor em moeda estrangeira. Talvez por isso é que eles tiveram de buscar apoio do Fundo Monetário Internacional (FMI) e nós não precisamos fazê-lo.

No Brasil, o primeiro impacto importante da crise também se deu sob a forma de drástica redução das linhas de financiamento. As respostas do governo a esse problema têm sido enérgicas e diretas, aliviando muito a situação, embora o crédito ainda não se tenha restabelecido plenamente.

Mas o stress financeiro é apenas a primeira onda. Mesmo que ele arrefeça, inclusive nos países desenvolvidos, deverá haver marcada desaceleração da economia real, afetando a vida das empresas, os empregos e os salários por algum tempo. Isso acontecerá nos países desenvolvidos, ainda que eles adotem políticas de estímulo fiscal.

Também é certo que o crescimento no Brasil vai desacelerar. É realmente lamentável que isso ocorra, mas lamentar de nada adianta. É preciso cuidar para que o impacto seja, tanto quanto possível, suavizado no tamanho e no tempo. É natural, por exemplo, que haja alguma queda nas vendas de bens duráveis. Mas não é natural que as vendas sejam paralisadas abruptamente por absoluta falta de crédito. No curto prazo, portanto, o crédito público tem um papel importante, que vai além das medidas de política monetária já tomadas.

Sua expansão pode ser necessária até que a situação de obstrução das artérias do crédito seja superada nos planos mundial e nacional. A extensão do prazo de recolhimento de impostos e contribuições é uma resposta positiva e que vai direto ao ponto. Mas o fornecimento de novas linhas de crédito continuará sendo uma necessidade para se evitarem contrações traumáticas no curto prazo.

Mas para que as empresas realmente planejem sua produção e suas vendas, acomodem seus procedimentos e se preparem para um período mais difícil é indispensável que o governo faça alguma sinalização que vá além de medidas de apoio emergencial, por maiores que elas sejam.

Medidas de melhoria do funcionamento da economia continuam necessárias e terão papel fundamental para vencermos a crise. Na medida em que o mundo nos vai ajudar muito menos nos próximos anos, temos de nos ajudar muito mais, continuando o trabalho das reformas estruturais e microeconômicas. Melhorar o ambiente de negócios e fortalecer as instituições reguladoras é um trabalho que deve ser permanentemente valorizado.

Igualmente importante é evitar, neste momento, a eclosão de problemas internos que impactem negativamente a estabilidade econômica. Temas em tramitação no Poder Judiciário, como os relativos aos planos econômicos do passado ou a legislação de capitalização de juros de poupança e empréstimos, precisam do melhor tratamento, seja no próprio Judiciário ou no aperfeiçoamento da legislação no Congresso. Qualquer legislação que traga riscos à Previdência Social também deve ser evitada.

Encarar com tranqüilidade e sabedoria um processo de desaceleração é a melhor maneira de encurtar o tempo para o início de uma retomada vigorosa do crescimento.

Antônio Palocci, deputado federal (PT-SP), foi ministro da Fazenda

11/11/2008 - 13:00h Stiglitz prevê “futuro sombrio”

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Altamiro Silva Júnior, VALOR

O economista Joseph Stiglitz, que ganhou o Prêmio Nobel de Economia em 2001, está pessimista com os rumos da economia mundial. Defende a criação de uma nova instituição para cuidar do sistema financeiro global e diz que os bancos centrais já perderam muito a capacidade e a eficácia para restaurar a economia e o crédito. Na melhor das hipóteses, se tudo for feito corretamente, a desaceleração da economia americana pode durar até 18 meses.

O problema é que Stiglitz acha que as coisas não estão sendo feitas corretamente, pelo menos nos Estados Unidos. Crítico ferrenho do governo Bush e do pacote de ajuda do governo americano, de US$ 700 bilhões, ele prevê que mesmo que o presidente eleito Barack Obama faça um governo “correto”, a recuperação da economia americana não vai ser tão simples, após “anos de erros” na política econômica do presidente George W. Bush. O pacote de ajuda, diz o economista, vai contribuir para ajudar um sistema bancário “fracassado”.

Stiglitz, que tem sido um dos conselheiros de Obama, afirma que os bancos centrais de vários países tem tentado prevenir um “desastre” ou um completo “derretimento” dos sistemas financeiros. O problema é que as autoridades monetárias já não conseguem mais estimular a economia, mesmo com pesados cortes de juros como ocorreram na semana passada, quando o Banco da Inglaterra reduziu o juro básico em 1,5 ponto percentual, para 3% ao ano. Foi o maior corte em uma única reunião desde 1981 e a segunda redução em menos de um mês. O Banco Central Europeu também baixou as taxas pela segunda vez na semana passada em menos de 30 dias.

O economista inglês John Maynard Keynes já previa este tipo de situação há 75 anos, lembra Stiglitz. Na época, Keynes argumentou que, em momentos de recessão e incerteza, a política monetária perde a eficácia para estimular a economia. Em resumo, ele dizia que, com os sucessivos cortes, os juros ficam tão baixos que os agentes econômicos só podem acreditar que as taxas não vão cair mais e só poderão subir no futuro. Por isso, resolvem aplicar seus recursos. Foi o cenário que marcou a economia japonesa nos anos 90, caracterizado por recessão e aumento da poupança e um cenário de juros reais negativos.

Para Stiglitz, a crise atual só serviu para confirmar anos de políticas econômicas equivocadas, que apenas contribuíram para minar a estabilidade das economias. Na avaliação do prêmio Nobel, o Federal Reserve (Fed, o banco central americanos) e seu ex-presidente Alan Greenspan “tiveram grande parte da responsabilidade” pelo que aconteceu no mundo.

Stiglitz veio ao Brasil ontem para fazer a palestra de abertura da ExpoManagement 2008, evento organizado pela HSM. No encontro, ele disse que a “tempestade está apenas começando”, ao analisar o momento atual da economia. “O futuro é sombrio”, concluiu. Em seguida, ele falou com jornalistas em uma disputada entrevista.

No final de semana, o G-20, que reúne os países mais industrializados do mundo e a União Européia, se encontrou em São Paulo e o Brasil apresentou a proposta para que os mercados emergentes tenham mais voz nas decisões globais no atual cenário. Para Stiglitz, o fato de que vai ocorrer em Washington no próximo final de semana uma reunião do G-20, e não do G-8 ou G-7 (que reúnem apenas os países desenvolvidos e a Rússia) já é sintomático. Segundo ele, no passado, países emergentes como o Brasil eram “convidados para almoçar com o G-7″, mas “as decisões eram tomadas sempre antes do almoço”, o que mostrava “total falta de vontade de ouvir os emergentes”.

Para o economista, o mundo passa por um momento singular, onde boa parte da liquidez global está em países da Ásia e Oriente Médio, com pouca voz nos organismos multilaterais, como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial. Stiglitz avalia que este é o momento dos emergentes aparecerem e reivindicarem maior espaço.

Ele defende a criação de uma nova instituição global para lidar com a crise, com representantes dos bancos centrais do mundo todo. O governo americano, ao contrário, defende o fortalecimento de instituições existentes, como o FMI, como argumentou anteontem o sub-secretário do Tesouro americano para assuntos internacionais, David H. McCormick logo após a reunião do G-20.

10/11/2008 - 10:40h Ações para ampliar crédito para a safra dão resultado

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VALOR

As medidas adotadas pelo governo para garantir liquidez ao sistema de crédito rural brasileiro começam a surtir efeito. Foram até agora meia dúzia de ações pontuais, que garantiram cerca de R$ 20 bilhões em antecipação e financiamentos adicionais para suprir a saída dos tradicionais financiadores como as tradings, agroindústrias e fornecedores de insumos, notadamente na região Centro-Oeste.

A elevação dos percentuais sobre os depósitos à vista e de caderneta de poupança com aplicação obrigatória no setor, as chamadas exigibilidades bancárias, ampliaram em R$ 8 bilhões a oferta de dinheiro ao setor. A redução “carimbada” dos depósitos compulsórios e a antecipação da equalização de recursos para o Banco do Brasil agregaram outros R$ 9 bilhões ao crédito disponível. Para suprir parte da demanda por linhas de auxílio à exportação, o Conselho Monetário Nacional (CMN) abriu espaço para crédito de até R$ 2,5 bilhões para financiar capital de giro de agroindústrias com lastro em Cédulas de Produto Rural (CPRs), emitidas por produtores para antecipar recursos de custeio das lavouras.

A reação do mercado tem sido positiva. Um exemplo do efeito é o próprio Banco do Brasil, maior operador de financiamentos ao campo, que estima chegar ao fim da primeira metade desta nova safra, cujo plantio começou em outubro, com um volume de empréstimos de custeio próximo de R$ 14 bilhões. Em quatro meses do atual ano-safra, iniciado em julho, o banco emprestou R$ 9,4 bilhões. Se confirmadas a projeções, o desempenho do BB no custeio da safra em 2008 será 32,5% superior ao mesmo período de 2007.

Mesmo assim, a taxa média de juros ficou maior porque aumentou a demanda e o riscos associados ao setor, já que vários dos tradicionais financiadores do campo recuaram em razão de problemas de caixa provocados pela forte instabilidade dos preços na safra passada. A raiz da falta de crédito para o plantio da próxima safra antecede, assim, o agravamento da crise financeira global. De fato, a escassez de crédito começou com o pacote de R$ 75 bilhões de renegociação de dívidas rurais, que limitou a concessão de empréstimos aos produtores que optaram pela rolagem. E, também, porque os bancos ficaram mais seletivos, se esquivando de conceder empréstimos a quem repactuasse seus débitos.

O governo precisa agora garantir renda ao setor através da sustentação de preços e aquisições diretas para formação de estoques públicos durante a comercialização da safra. O orçamento para 2009 prevê apenas R$ 3,8 bilhões para isso. Produtores, bancos e setores do próprio governo estimam a necessidade de até R$ 10 bilhões para honrar a Política de Garantia de Preços Mínimos, prevista em lei e poucas vezes cumprida integralmente.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ministro da Fazenda, Guido Mantega, garantiram, há poucos dias, que o governo cumprirá seu papel de evitar que as cotações agrícolas fiquem abaixo dos preços mínimos.

Da ação do governo também dependerá o plantio no próximo ano-safra 2009/2010 em condições adequadas de crédito para atender ao volume da produção e garantir a produtividade das principais lavouras. Para isso, é preciso modernizar as regras do crédito rural e ampliar as fontes de financiamento para além dos escassos recursos oficiais subsidiados pelo Tesouro. Só com produção, produtividade e renda é que será possível evitar novos acúmulos de dívidas e os intermináveis calotes de parcela minoritária, porém barulhenta, dos agricultores.

Um passo importante na modernização da política agrícola seria, por exemplo, a ampliação do alcance do seguro rural, hoje pouco difundido e caro. Outra iniciativa poderia ser a redução do risco de crédito dos produtores por mecanismos de incentivo à proteção de preços nos mercados futuros.

Cabe ao governo estar alerta para impedir que eventuais desarranjos no setor rural produzam efeitos perversos sobre o abastecimento, a inflação e as exportações. Como se viu no primeiro semestre, a baixa oferta de produtos básicos como feijão, arroz, trigo e milho, pode ter efeito devastador sobre os preços. O pior que pode acontecer é um repique inflacionário em 2009, provocado por redução da oferta de alimentos.

04/11/2008 - 14:03h Agroindústrias terão linha de até R$ 2,5 bi

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Mauro Zanatta, de Brasília - Valor

O pacote de medidas do governo para auxiliar o setor rural será reforçado nesta semana com ações para irrigar o caixa de tradings, agroindústrias e fornecedores de insumos aos produtores. O Banco do Brasil deve anunciar uma nova linha de crédito de até R$ 2,5 bilhões para financiar o capital de giro dessas empresas com recursos da poupança rural, apurou o Valor.

A preocupação do governo é suprir com crédito adicional a demanda por Adiantamento sobre Contrato de Câmbio (ACC), cujo principal objetivo é incentivar as exportações. O crédito para ACC, usado no pré-embarque das mercadorias, está bastante restrito desde o aprofundamento da crise financeira global, iniciada nos Estados Unidos. Por isso, as tradings e agroindústrias têm reclamado por uma medida específica do governo de auxílio ao segmento.

A nova linha deve ter um custo mais baixo do que os empréstimos contratados a juros livres. Para manter o estímulo ao exportador, a linha de crédito deverá ter alíquota de IOF reduzida, à semelhança do crédito para ACC.

Os empréstimos do BB, que também poderiam ser operados pelos demais bancos federais (BNB e Basa), além das instituições financeiras ligadas a cooperativas, devem ter os juros reduzidos, já que a fonte de recursos será a poupança rural. Estima-se uma taxa final semelhante à Selic - hoje em 13,75% ao ano.

O desenho da nova linha de crédito prevê o repasse, com o compromisso de recompra, de parte das carteiras de recebíveis de tradings e agroindústrias, como as Cédulas de Produto Rural (CPR), em garantia das operações. As CPRs são um título emitido pelos produtores como forma de antecipar os recursos necessários ao custeio ou comercialização da safra.

Os empréstimos dessa linha estarão lastreados nesses papéis e as empresas continuarão com os riscos das operações. Ao fim do contratado, que pode ter prazo de seis a 12 meses, as empresas serão obrigadas a recomprar os papéis. As tradings e agroindústrias precisam desses papéis para resgatar a produção física em mãos do produto rural.

A criação da nova linha foi permitida pela elevação da parcela de aplicação obrigatória em crédito rural pelos bancos (exigibilidades) sobre os depósitos da caderneta de poupança. Na semana passada, o Conselho Monetário Nacional (CMN) aumentou de 65% para 70% as exigibilidades da “poupança rural” e permitiu o financiamento de tradings, agroindústrias e fornecedores de insumos com até 40% desses recursos. Até então, apenas cooperativas podiam ser financiadas, e até o limite de 5% dessas exigibilidades.

As tradings vinham sofrendo um estrangulamento na concessão de crédito de suas matrizes desde antes do início do atual ano-safra. Na safra passada, elas tiveram que usar boa parte de seu caixa para cobrir as chamadas “margens” na Bolsa de Chicago. Como as cotações das commodities dispararam por causa de uma corrida dos fundos e especuladores, as empresas precisaram cobrir a diferença entre o preço contratado (”hedge”) e as cotações efetivas de produtos como soja, milho e trigo.

O reforço no pacote rural soma-se à prévia autorização da antecipação de R$ 5 bilhões em recursos operados pelo BB para o plantio da atual safra. Também potencializa os efeitos da elevação de 25% para 30% das exigibilidades sobre os depósitos à vista e da redução, de 45% para 42%, nos depósitos compulsórios, que devem antecipar outros R$ 9,1 bilhões para a safra.

O governo federal ainda estuda a adoção de novas medidas, como a criação de uma linha de R$ 1 bilhão para a capitalização das cooperativas e a realização de leilões específicos de US$ 1 bilhão em recursos para a contratação de ACCs ao campo.