20/08/2009 - 13:46h Coragem rara. Parabéns Marcelo Coelho!

bola fora

Pela quantidade de comentários negativos, acho que errei feio no meu post sobre Dilma Rousseff e Lina Vieira. Peço desculpas pelo machismo da ideia toda, em especial no último parágrafo. Uma boa coisa dos blogs é a possibilidade de receber críticas, e não pretendo estar certo o tempo todo. Acontece que encaro o blog mais como exercício de subjetividade do que como missão jornalística. Minha subjetividade, em todo caso, foi clara demais naquele post, e terminou ferindo a subjetividade alheia… Paciência.

Escrito por Marcelo Coelho

23/03/2009 - 08:57h O Eu diário

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Nicholas D. Kristof – The New York Times – O Estado SP

Alguns obituários hoje em dia não estão nos jornais, mas são de jornais. O Seattle Post-Intelligencer é o falecido mais recente, exceto por um remanescente que existirá apenas no ciberespaço. E o público está buscando cada vez mais suas notícias, não nas redes de televisão abertas ou na imprensa escrita, mas garimpando online.

Quando vamos para a internet, cada um de nós se torna seu próprio editor, seu próprio vigia. Nós selecionamos o tipo de notícia e de opiniões que mais nos interessam.

Nicholas Negroponte, do Massachussets Institute of Technology (MIT), chamou esse produto noticioso emergente de The Daily Me (O Eu Diário, em tradução literal). E, se essa é a tendência, que Deus nos proteja de nós mesmos.

É por isso que há excelentes evidências de que nós geralmente não queremos de fato boa informação ? mas, antes, informação que confirme nossos preconceitos. Podemos acreditar intelectualmente no choque de opiniões, mas, na prática, gostamos de nos abrigar no útero reconfortante de uma câmara de eco.

Um estudo clássico enviou mailings a republicanos e democratas oferecendo-lhes vários tipos de pesquisa política, ostensivamente de uma fonte neutra. Ambos os grupos se mostraram mais propensos a receber argumentos inteligentes que corroborassem fortemente suas visões preexistentes.

Houve também um modesto interesse em receber argumentos manifestamente tolos das visões do outro partido (nos sentimos bem quando podemos caricaturar os outros caras como estúpidos). Mas houve pouco interesse para encontrar argumentos sólidos que pudessem minar nossa própria posição.

Essa descoberta geral foi reproduzida repetidamente, como observou o ensaísta e escritor Farhad Manjoo em seu livro sensacional no ano passado: “True Enough: Learning to Live in a Post-Fact Society” (Verdade em termos: aprendendo a viver numa sociedade pós-fato, em tradução livre).

Permitam-me tirar uma coisa do caminho: eu mesmo às vezes sou culpado de uma busca da verdade seletiva na internet. O blog a que recorro para insights sobre o noticiário do Oriente Médio é, com frequência, o do professor Juan Cole, porque ele é inteligente, bem informado e sensato ? em outras palavras, eu frequentemente concordo com ele. Sou menos propenso a ver o blog de Daniel Pipes, outro especialista em Oriente Médio que é inteligente e bem informado ? mas que me parece menos sensato, em parte porque em geral discordo dele.

O efeito do The Daily Me seria nos isolar ainda mais em nossas próprias câmaras políticas hermeticamente fechadas. Um dos livros mais fascinantes do ano passado foi “The Big Sort: Why the Clustering of Like-Minded America is Tearing Us Apart” (A grande seleção: por que o agrupamento dos EUA que pensam igual está nos esfacelando, em tradução livre), de Bill Bishop. Ele argumenta que os americanos estão se segregando cada vez mais em comunidades, clubes e igrejas em que estão rodeados por pessoas que pensam como eles.

Quase metade dos americanos vive hoje em condados que votam esmagadoramente ou em democratas ou em republicanos, diz ele. Nos anos 1960 e 1970, em eleições nacionais igualmente disputadas, somente cerca de um terço vivia em condados com essa característica.

“A nação se torna mais politicamente segregada ? e o benefício que deveria advir de uma diversidade de opiniões é perdido para a correção que é a prerrogativa especial de grupos homogêneos”, escreve Bishop.

Um estudo envolvendo 12 nações revelou que os americanos são os menos propensos a discutir política com pessoas de visões diferentes, e isso foi particularmente verdade para os bem educados. Os alunos que abandonaram o segundo grau tiveram o grupo mais diversificado de colegas de discussão, enquanto os egressos de universidades trataram de se proteger de perspectivas desconfortáveis.

O resultado disso é polarização e intolerância. Cass Sunstein, um professor de Direito de Harvard que agora trabalha para o presidente Barack Obama, realizou uma pesquisa mostrando que quando liberais ou conservadores discutem questões como ação afirmativa ou mudança climática com pessoas que pensam da mesma maneira, suas visões se tornam rapidamente mais homogêneas e mais extremadas do que antes da discussão.

Por exemplo, alguns liberais, em um estudo, inicialmente se preocupavam com a possibilidade de que ações sobre a mudança climática pudessem prejudicar os pobres, enquanto alguns conservadores foram simpáticos a uma ação afirmativa. Mas, após discutirem a questão com pessoas de pensamentos parecidos por apenas 15 minutos, os liberais ficaram mais liberais e os conservadores mais conservadores.

O declínio da mídia noticiosa tradicional acelerará a ascensão de The Daily Me, e nós ficaremos menos irritados com o que lemos e teremos a nossa sabedoria confirmada com mais frequência. O perigo é que essas “notícias” selecionadas por nós mesmos atuam como narcóticos, nos embalando num estupor autoconfiante pelo qual percebemos em pretos e brancos um mundo que tipicamente se desenrola em cinzentos.

Então, qual é a solução? Deduções fiscais para liberais que assistirem a Bill O?Reilly ou conservadores que assistirem a Keith Olbermann? Não, até que Obama nos dê um serviço de saúde universal, não podemos nos arriscar a um forte aumento nos ataques cardíacos.

Então, a única maneira de avançar talvez seja cada um de nós se esforçar para elaborar intelectualmente com parceiros adversários cujas visões deplora. Pense nisso como um exercício mental diário análogo a uma ida à academia; se você não malhar até suar, não conta.

Agora me deem licença que vou ler a página editorial do Wall Street Journal.

*Nicholas D. Kristof é colunista do The New York Times

10/03/2009 - 20:24h Bat-mulher sai do armário

Detective Comics #854, Pages 2 and 3
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A DC Comics divulgou desenhos com a personagem Bat-Mulher em ação.

 

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Referência a um personagem do período pré-crise, a mulher-morcego tem chamado atenção da mídia pela sua opção sexual. Ela é lésbica e já teve um caso com a policial René Montoya. Alguns sites e fóruns deixaram de lembrar o quanto os quadrinhos eram pouco abertos a esse tipo de abordagem há não muito tempo.Estrela Polar da Marvel demorou anos até assumir sua homossexualidade de vez nos quadrinhos e mesmo na DC Comics os gays eram sempre coadjuvantes e nunca protagonistas de uma história.Aparentemente, a DC Comics tem seguido firme nesse caminho ao retratar outros de seus personagens de etnias diferentes da norte-americana, como é o caso dos novos Besouro Azul (de etnia latina) e Eléktron (de etnia asiática). Nada mais que a obrigação de um meio que nasceu para ser um espelho de seu tempo e não reservatório de idéias conservadoras e ultrapassadas. Vale lembrar que o preconceito se estendeu não apenas a preferências sexuais, mas também de etnia, gênero e religião (que ainda hoje não foi superado, com religiões desenvolvendo seus próprios personagens pela falta de representatividade nos comics).

Blogman já foi o “Batboy”, mas caiu fora no dia de conhecer a batcaverna. Fala sério…

Fonte Melhoresdomundo.net

Una de las viñetas de la nueva entrega de Batwoman

Batwoman sale del armario

La superheroína del cómic renacerá en julio bajo su nueva condición de lesbiana

TONI GARCÍA – Barcelona – El País

Kathy Kane declaró públicamente su homosexualidad en 2006, al conocerse que fue amante de la detective Renee Montoya. La noticia provocó un alud de comentarios (a favor y en contra) y en pocos días más de medio millón de entradas en la Red se ocupaban del tema. No tendría mayor importancia si no fuera porque Kathy Kane es en realidad el álter ego de Batwoman; Renee Montoya trabajaba en la comisaría de Gotham, y todo lo anterior es cierto únicamente en las páginas de sus respectivos cómics.

El lesbianismo de la superheroína llegó a ocupar espacio en periódicos como The New York Times o Washington Post y cadenas televisivas como la NBC o la CNN, e hizo comprender a la veterana editorial DC Comics el potencial que tenía el personaje, y por qué no decirlo, su identidad sexual.

Tres años después, la editorial estadounidense se dispone a resucitar a la chica murciélago otorgándole los galones hasta ahora reservados para las estrellas de la compañía: una serie de 12 números, con presentación de lujo días pasados en el Comic Con de Nueva York (una reu-nión de fans del género que se considera la más importante del mundo después de la de San Diego) y donde la sexualidad de Kane se explotará sin tapujos, lo cual ha provocado el entusiasmo de los grupos que luchan a favor de los homosexuales y la ira de los no menos poderosos lobbies conservadores. Al mando del proyecto, el guionista Greg Rucka, que en su blog http://ruckawriter.livejournal.com desveló recientemente las cinco primeras páginas del proyecto (cuyo primer número verá la luz en julio), en el que ha trabajado casi dos años junto al dibujante JH Williams III y a Dave Stewart, que se ha ocupado de colorear las “explosivas” aventuras de Kane.

Rucka asegura al rotativo británico The Guardian que “Batwoman debería ser juzgada por sus méritos y no por si es lesbiana o pelirroja, eso sólo son elementos de su personaje”. La heroína nació en 1957 pero murió en 1979, y su resurrección (o el anuncio de la misma) coincide con la supuesta muerte de Batman, su homólogo masculino, quien en el último número de su serie regular publicado en Estados Unidos es arrojado al vacío desde un avión, sin traje ni máscara.

Naturalmente, el superhéroe resucitará cuando sea preciso, pero su “desaparición” es una ocasión magnífica para que DC (responsable también de un personaje tan icónico como Superman) otorgue a la némesis femenina de su superhéroe más popular la oportunidad de ser la primera lesbiana declarada en disponer de su propio arco argumental, acompañada del que se prevé que se convierta en uno de los lanzamientos más publicitados de la compañía en los últimos años. En palabras del propio Rucka, “entusiasmado” con el proyecto “creo que la gente se va a caer de la silla cuando lea el primer número”.

do blog Krônicas

Lesbianismo na DC comics: liberal ou reacionário?

Já que estou escrevendo sobre estereótipos e clichês, gostaria de discorrer um pouco sobre o que me parece ser uma onda de personagens femininas lésbicas ou bissexuais na DC comics e no que isso vem me incomodando.
Antes de começar, duas coisas tem de ser esclarecidas:

Primeiro, não tenho nada contra homossexuais masculinos ou femininas. Tenho amigos gays, incluindo o padrinho de minha filha, e amigas lésbicas e bissexuais.
Segundo, leio pouco histórias em quadrinhos atualmente, questões de grana e tempo. Posso estar desatualizado ou avaliando dentro de um universo muito restrito.
Dito isso, vamos lá.

A primeira personagem lésbica que saiu do armário em tempos recentes foi a policial de Gotham City Renée Montoya. Me pegou de surpresa, mas não me incomodou. Já gostava da personagem e continuei gostando. Ela nunca tinha tido namorados masculinos, logo a questão estava aberta. O drama da família que não aceitava a opção sexual dela foi bem conduzido numa história bem legal.
Daí chegamos as novas mulher-gato e batmulher que são lésbicas. A nova bat-mulher é personagem nova, sem passado. A nova mulher-gato era amiga da antiga, mas, como Montoya, sua vida sexual não fôra abordada anteriormente, logo tudo bem. Até aí, tudo legal.

Na nova série do “Sexteto Secreto”, as personagens Escândalo e Nocaute tem um namoro. Escândalo foi apresentada na série, mas Nocaute tinha um histórico de vilã e havia tido um caso com Superboy (Conner Kent), logo se revelou bissexual na série.
Na série “Renegados”, as personagens Grace e Tormenta (filha do Raio Negro) começaram a namorar. A sexualidade de Tormenta não tinha sido abordada antes, mas Grace tinha tido um caso com Roy Harper (Arsenal) e era promíscua.

Agora chegamos ao que me incomodou. Até então estava aplaudindo a DC comics por mostrar personagens interessantes com diferentes opções sexuais. Vamos lá:

Quanto às personagens: Nocaute é uma vilã e Grace era promíscua, o que numa visão conservadora é uma perversão ou falha de caráter. O fato de ambas se revelarem bissexuais não poderia trazer implicitamente um discurso de que a homossexualidade ou a bissexualidade são “coisas de quem tem um desvio de caráter” (vilania e promiscuidade) ?
Além disso, Montoya, Batmulher, Mulher-gato, Grace, Nocaute, Escândalo e Tormenta são mulheres fortes, decididas, guerreiras. A bissexualidade aí não traria implícito que tais traços são “masculinos” logo levam a uma “sexualidade masculina”? Ambos os discurso são reacionários.

Quanto ao universo DC: não tenho visto personagens masculinas se revelarem homossexuais ou bissexuais. Os homens pelo visto continuam no armário, se é que lá estão. Será que isso não quer dizer que as personagens lésbicas na verdade não estão lá em prol da diversidade e sim para agradarem aos leitores homens heterossexuais que ficam excitados com cenas de lesbianismo? As personagens ficam então reduzidas à condição de objetos sexuais. Reacionarismo novamente.
Vejam bem, não há nada de errado em ser objeto de desejo, gosto quando mulheres olham para mim com libido, ser reduzido a isso é que é o problema.

Com exceção da batmulher e da nova mulher-gato que conheço pouco, gosto de todas as personagens acima e não gostaria de vê-las reduzidas a objeto sexual ou portadoras de um discurso reacionário que elas não merecem.

06/03/2009 - 17:16h Rappers exigem a realização da Semana do Hip Hop em São Paulo

O Fórum de Hip Hop Municipal de São Paulo lança na internet um documento exigindo que a administração da cidade e a Coordenadoria de Juventude realizem a Semana de Hip Hop de 2009.

Colem no fórum hip hop municipal de são paulo!

Venham! Fazer o hip hop ser respeitado, seja você mc, dj, grafiteiro(a), break, produtor, estudante, simpatizante e ou somente ouvinte de rap. A parada é nossa.
(abertura do manifesto divulgado pelo Fórum de Hip Hop Municipal de São Paulo)

A semana do Hip Hop é uma conquista do movimento organizado do hip hop e acontece desde 2006. Realizada anualmente na segunda quinzena de março, gira em torno de 21 de março, o Dia Internacional de Luta Contra a Discriminação Racial.

Durante sete dias, breakers, grafiteiros, DJs e Bboys juntam-se a ativistas de organizações não-governamentais para denunciar o preconceito, divulgando o hip hop e discutindo o papel da juventude afro-brasileira e da periferia na sociedade.

Devido à pressão política do Movimento Hip Hop, a Semana passou a figurar no calendário oficial da capital paulista (Lei Ordinária de São Paulo-SP, nº 14485, de 19/07/2007) e ganhou dotação orçamentária de 100 mil reais para 2009 (empenho 1944).

- A gente fez pressão na votação do orçamento deste ano e conseguimos incluir o recurso para a realização da semana do Hip Hop. Agora eles vêem dizer que não tem dinheiro? – diz André Luiz, o Rapper Pirata, uma das vozes mais atuantes do Fórum de Hip Hop.

Rapper Pirata: “Cobramos como cidadãos”

O rapper lembra que é dever de quem está na administração municipal cumprir com os compromissos assumidos: “Parecem desinformados referente às políticas públicas geradas por eles mesmos”.

Leia a seguir a entrevista feita com o Rapper Pirata, 34, na qual ele fala da realização da Semana do Hip Hop e das negociações do movimento com o poder público:

Desde quando existe o Fórum Hip Hop? Quem participa dele?

Seu início foi no ano 2005, já fazem 3 e meio. Um Fórum é um espaço público então não existe um número de membros. Em todas reuniões temos uma frequencia de 15 a 30 pessoas, mas temos uma lista de 500 pessoas.

Existe uma lei prevendo a realização da Semana do Hip Hop?

Sim, foi uma conquista do movimento hip hop paulistano, e elaborada pela ex vereadora do PT Claudete Alves e sancionada em 2004 pela ex-prefeita Marta Suplicy (Lei nº 13.924/04). Agora tem uma nova, lei municipal 14.485/2007.

“A Semana do Hip Hop é uma conquista da Sociedade”

Quais os sinais de resistência do poder público municipal ao cumprimento dessa lei?

Eles dizem que vão fazer a semana, mas falam sempre que existem dificuldades. Esse ano é o papo de crise, algo que na administração pública é balela, porque eles deixam de arrecadar um determinado volume grana em impostos, não é que eles ficam sem caixa, porque não são empresas.

Não existe conversa do poder público com a sociedade jovem da periferia, eles ficam na disputa partidária, algo que não nos interessa.

Chegaram a um acordo?

O Fórum está com conversa na Câmara de Vereadores junto a Comissão de Juventude, e a Secretaria de Participação e Parceria, nas Coordenadoria do Negro e Juventude, mas não temos resposta positiva. Não sabemos ainda se estão só enrolando.

Parecem desinformados referente às políticas públicas geradas por eles mesmos.

Caso a prefeitura não queira realizar a Semana, o que vocês pretendem fazer?

Estamos fazendo um carta de moção para entregar aos vereadores e secretárias da prefeitura. Temos um lance de panfletagem e depois entregaremos um abaixo-assinado para Ministério Público contra a administração.

Pirata: “Parecem desinformados referente às políticas públicas geradas por eles mesmos”

Como o fórum hip hop municipal vê as ações dos três poderes públicos em relação a esse gênero artístico?

Então temos a discussão que cultura não é valorizada no país, tanto que os recursos dos orçamentos nunca chegam a 1%.

Vemos como bons olhos a ação do governo federal, mas como a dita direita administra o estado e prefeitura, eles investem pouco porque disputam como partidos.

Mas o Fórum é apartidário. Cobramos como cidadãos. Os caras tão na administração e tem o dever que cumprir isso aí, de fazer os projetos. Se a gente não estiver ali, cobrando, eles vão fazer tudo sozinhos.

Veja, tem 80 milhões para se investir no primeiro emprego aqui em São Paulo. Não se investiu um centavo.

Eles fazem cursos para as pessoas serem empregadas como garçom, ajudante de cozinha, engraxate… Não desvalorizo essas profissões, mas querem que sejamos empregados o resto de nossas vidas.

14/02/2009 - 15:41h É intolerável!

Jogo simula estupro e aborto de mulher e filhas

Blog Page not found de  Fernando Moreira

 

Rapelay

Os criadores garantem que é apenas diversão. Para mim, um terrível equívoco. A produtora japonesa Illusion lançou um jogo em que o objetivo é estuprar uma mulher e suas duas jovens filhas em uma estação de metrô. E não fica só nisso. Depois do ataque sexual, o jogador tem que fazer com que as suas vítimas abortem. O nome do game bizarro é “Rapelay”.

Se o jogador não conseguir que as suas vítimas abortem ele perde e o seu personagem é jogado na linha do metrô. O game permite que vários jogadores “brinquem” ao mesmo tempo contra apenas uma mulher.

Inicialmente restrito ao mercado japonês, onde foi lançado em 2006, o jogo começou a chegar ao Ocidente em versões piratas ou por sites de venda. A Amazon, que chegou a vender o “Rapelay”, tirou o game das suas prateleiras.

Estupro e aborto viraram brincadeira?

08/02/2009 - 10:10h Homossexualidade é pecado para 58%, aponta pesquisa

Estudo mostra que 28% dos brasileiros admitem ter preconceito contra homossexuais

Para Gustavo Venturi, um dos coordenadores da pesquisa, religiões e a cultura machista no Brasil favorecem a discriminação

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MÁRCIO PINHO – FOLHA SP

DA REPORTAGEM LOCAL

Uma pesquisa sobre sexualidade e homofobia -aversão a homossexuais- mostrou que 58% dos brasileiros consideram a homossexualidade um pecado contra as leis de Deus e que 29% a apontam como uma doença a ser tratada.
O estudo foi conduzido pela Fundação Perseu Abramo e pela fundação alemã Rosa Luxemburgo Stiftung, que entrevistaram 2.014 adultos nas cinco regiões do país, escancarando o preconceito direto ou velado contra os homossexuais.
Machismo, falta de leis e discriminação na mídia são apontados como favorecedores dos números, recebidos com apreensão pela comunidade LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais).
Segundo os organizadores, o “primeiro estudo a mapear de forma tão ampla” a homofobia deixou claro a facilidade de o brasileiro confessá-la. Isso porque 28% disseram “admitir” ter preconceito contra LGBT, enquanto outra pesquisa também da Fundação Perseu Abramo, de 2003, mostrou que o preconceito assumido contra negros -problema histórico no país- era de 4%.
“Há a contribuição das religiões na nossa população de maioria católica e evangélica. Muitas igrejas continuam fechadas para comportamentos que fogem da “heteronormatividade”. Além disso, a cultura machista no Brasil facilita que o preconceito seja admitido com mais facilidade. Diferentemente da questão racial, não houve até agora uma legislação criminalizando a homofobia”, afirma Gustavo Venturi, um dos coordenadores do estudo e professor de sociologia da USP.
Um projeto que pretende mudar esse quadro -transformando a homofobia em crime- tramita no Senado, após ter sido aprovado na Câmara.

Preconceito
A pesquisa mostra manifestações de preconceito em diferentes situações. A maioria não gostaria de ter um filho gay, mas procuraria aceitar. Houve um número razoável (23%) de defensores da tese de que mulher “vira” lésbica porque não conheceu homem de verdade. Os maiores níveis de aversão foram no Norte e no Nordeste.
Para Venturi, o grande problema é que, mais do que nas relações pessoais, a discriminação tem participação institucional. Nas empresas, por exemplo. Contudo, reconhece que, nesse quesito, aparece um dos itens em que o brasileiro se mostra mais aberto à diversidade -70% dizem que não se importariam de ter colega de trabalho gay ou lésbica.
Mas isso é pouco na visão de Cezar Xavier, coordenador de comunicação da APOGLBT -associação que coordena a Parada Gay em São Paulo. Para ele, a pesquisa mostrou que a luta contra o preconceito é um desafio maior do que se intuía.
“Vivemos um estado homofóbico. A televisão tem personagens fixos para fazer chacota da homossexualidade. Para o movimento homossexual isso é algo perverso. Afeta desde a criança na escola até o adulto”, afirma. Ele lamenta existir preconceito entre os próprios homossexuais, em relação a si mesmos ou entre grupos.
Para Xavier, existe também uma matriz religiosa forte por detrás da homofobia, que reforça uma visão já existente de que a homossexualidade é uma opção. Ele afirma que essa matriz influi inclusive na falta de leis.
“Temos um lobby religioso no Congresso que dificulta a aprovação da lei do crime de homofobia. Ela é essencial. Vivemos num país de grande violência contra homossexuais.”

Religião
Além da ideia de pecado, o estudo revelou que 84% dos brasileiros concordam completamente com a ideia de homem e mulher foram criados por Deus para cumprirem a função de ter filhos, o que é considerado um preconceito velado.
Frei Antonio Moser, professor de teologia moral, diz que a Igreja Católica tem suas convicções de relação entre homem e mulher criados por Deus, mas busca acolher os homossexuais. “A homossexualidade não existe. O que existem são pessoas. Não podemos padronizar, colocar todos em uma mesma bacia de heterossexuais ou homossexuais. Nossa grande preocupação é a acolhida, a orientação. Nós [a Igreja] respeitamos e pedimos que a pessoa busque sua identidade. Mas também não nos peçam a bênção para imitar o casamento.”

49% se disseram contra união entre mesmo sexo

DA REPORTAGEM LOCAL

Tema controverso, a legalização da união civil entre pessoas do mesmo sexo teve 49% dos entrevistados pela Fundação Perseu Abramo com opinião contrária (40% “totalmente contra” e 9% “em parte contra”) e 32% favoráveis (25% “totalmente a favor” e 17% “em parte favor”) (veja quadro).
A prevalência da opinião contrária já tinha sido verificada pelo Datafolha, em pesquisa divulgada em abril de 2008: 45% das pessoas disseram ser contra a união civil. Foi o primeiro levantamento do tipo feito pelo órgão. Os dados mostraram que 39% eram favoráveis e 14% se disseram indiferentes.
A opinião foi mais dividida entre as mulheres: 42% foram a favor da união e 41% contra. Já os homens tiveram posição mais claramente contrária: 49% ante 36%.

28/01/2009 - 12:53h Dia Internacional em memória das vitimas do Holocausto

Discurso do Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante solenidade do Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto
São Paulo-SP, 27 de janeiro de 2009

 Foto Ricardo Stuckert / PR
Presidente Lula participa de cerimônia do Dia Internacional de Lembrança das Vítimas do Holocausto _(São Paulo, SP, 27/01/2009) _Foto: Ricardo Stuckert/PR

Meus amigos e minhas amigas,

Agradeço o convite para participar, pelo quarto ano consecutivo, do Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto. Eu posso dizer que me sinto pessoalmente envolvido com a instituição desta data. Em agosto de 2004, recebi de uma comitiva do Congresso Judaico Mundial e de líderes comunitários brasileiros – certamente alguns deles estão aqui presentes – uma petição à ONU solicitando medidas mais concretas na luta contra o anti-semitismo. Assinei de imediato o documento, afinal, o Estado brasileiro foi co-patrocinador de diversas resoluções da ONU afirmando a importância de rememorar aquela tragédia. Mais tarde, eu soube que o Brasil foi o primeiro país a subscrever aquela petição. Soube também que ela serviu de base para consagrar 27 de janeiro como o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto.
Hoje, como em todos os dias, devemos nos empenhar na luta da memória contra o esquecimento. É preciso manter viva a lembrança, para que nunca mais se repita o assassinato em massa, o genocídio como ideologia e a limpeza étnica como razão de Estado.
O regime nazista promoveu a mutilação espiritual, a humilhação moral, a ruína material e a eliminação física de milhões de homens, mulheres e crianças. Vitimou judeus, comunistas, homossexuais, negros, ciganos, testemunhas de Jeová e todos que considerou inferiores na raça, no credo e na cor. O holocausto marcou o auge da crueldade humana e configurou o maior episódio de violência e covardia de nossa história, um episódio que não deveria ter ocorrido e que não pode nunca mais voltar a ocorrer.
É certo que a intolerância e a xenofobia ainda não foram totalmente extintas. No entanto, em todo o mundo a sociedade vem dando importantes passos na superação dos preconceitos. Um grande exemplo acaba de se concretizar nos Estados Unidos. Lá, há poucas décadas, negros e brancos não tinham os mesmos direitos. E hoje, pela primeira vez, um negro é presidente dos Estados Unidos. O combate ao ódio e à discriminação já não é um grito isolado, mas integra o ideário das sociedades dos mais diferentes países.
Minhas amigas e meus amigos,
Ao participar deste evento, ano após ano, busco demonstrar o profundo respeito que eu e todo o governo nutrimos pelas comunidades que compõem a grande nação brasileira. Eu me orgulho de ser presidente de um país marcado pela diversidade, onde a tolerância garante o respeito mútuo a todos. Temos uma legislação clara e rigorosa no que se refere a todas as formas de intolerância. Somos uma das poucas democracias do mundo, talvez a única, em que a Constituição garante que para crime de racismo não deve existir nem fiança, nem prescrição.
O Brasil não aceita discriminação. Judeus e árabes, sejam religiosos ou não, convivem pacífica e harmoniosamente em nossas cidades, dividem espaços e compartilham a construção e o desenvolvimento do Brasil. Por isso, o conflito entre Israel e Palestina, no Oriente Médio, atinge os corações e as mentes de todos, e nos obriga a evitar que o ódio contamine o nosso país. Mais do que tudo, o Brasil pode se valer dessa convivência pacífica para colaborar para a construção da paz.
Minhas amigas e meus amigos,
A diplomacia brasileira tem uma larga tradição de atuar de forma conciliatória na solução de conflitos, e no que se refere aos povos israelense e palestino, nosso Estado vem ao longo de seis décadas ratificando as resoluções internacionais que têm por objetivo garantir a coexistência pacífica e segura de dois Estados soberanos. Esse tem sido o sentido de todas as nossas manifestações, pois só assim alcançaremos a paz naquela região. Eu tenho me esforçado pessoalmente para impedir que o ódio mútuo, acumulado ao longo de décadas, acabe sufocando ainda mais as alternativas de paz.
Como vocês sabem, recentemente determinei ao chanceler Celso Amorim que viajasse à região com o objetivo de apoiar os esforços para o cessar-fogo, o alívio da situação humanitária e o estabelecimento de uma paz reguladora. Na ocasião, a diplomacia brasileira reiterou às autoridades sírias, israelenses, palestinas, jordanianas e egípcias, a necessidade de se evitar mais mortes e sofrimento na população civil de ambos os lados.
Lembramos às partes envolvidas que há outros atores interessados em agir a favor de um entendimento, e a paz só tem a ganhar com a participação de países como o Brasil. Todos sabem que o Brasil não está interessado nos resultados políticos e nos dividendos econômicos que podem ser obtidos na região. Nosso interesse exclusivo é o de contribuir para a paz duradoura e definitiva na região.
O Brasil tem condições e credenciais para participar, junto com outros países, de iniciativas que conduzam a um consenso para superar a violência e a irracionalidade. Por isso mesmo, apoiamos a realização de uma conferência internacional em seguimento à reunião de Annapolis, ocorrida em novembro de 2007, como um passo importante para o restabelecimento da paz na região, com base no reconhecimento do direito de constituição do Estado palestino viável, e da existência de Israel em condições de segurança e de soberania. O Brasil não aceita a escalada da violência como solução para os conflitos.
Lamentamos profundamente a morte de civis, mulheres e crianças. Conclamamos o pronto estabelecimento das condições que permitam a plena retomada da assistência humanitária à população de Gaza e a tranquilidade para a população de Israel. Guardo uma profunda esperança na construção do diálogo e continuarei empenhado para que, o mais rápido possível, aquela região viva uma trégua consistente que seja prenúncio de uma paz duradoura.
Minhas amigas e meus amigos,
Que este Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto ajude a todos os homens e mulheres a se recordarem das iniquidades que tanto macularam a trajetória da Humanidade. Que ele fale à consciência coletiva sobre a necessidade de se reparar os danos sofridos no passado, de se interromper as injustiças do presente e de se evitar tragédias no futuro.
Espero, sobretudo, que este dia nos convide a olhar para as novas gerações, que não podem ser hostilizadas pelos erros cometidos por seus antepassados. Devemos garantir que as crianças e jovens se desenvolvam em um ambiente onde a desconfiança mútua seja substituída pelo preceito bíblico, quando diz: “Ama teu próximo como a ti mesmo”.
Shalom. Muito obrigado.

20/01/2009 - 16:39h Obama é presidente dos Estados-Unidos

Caio Gomes/Esp. CB/D.A Press

Blog Images & Visons

Fotos que fizeram a história da segregação racial nos EUA
© National Photo Company Collection. Ativistas da organização racista Ku Klux Klan. Virginia, Columbia. EUA. 1922.
© Foto de Elliott Erwitt, bebedouros separados para brancos e negros no estado da Carolina do Norte. EUA. 1950
© Foto de Ernest C. Withers. Martin Luther King na primeira viagem de um ônibus não segregado em Montgomery. Alabama 1956.
© Foto de Douglas Martin. A jovem Dorothy Count, uma das primeiras estudantes “negras” em colégio de brancos, é vitima de preconceito racial. 1957.© Foto de A.Y. Owen / Time Life Pictures / Getty . Soldados da Guarda nacional protegem estudantes negros que se matricularam em colégios segregados. 1957.
© Foto de Charles Moore. Martin Luther King é conduzido preso na entrada do tribunal Montgomery. 1958.

© Foto de Eve Arnold / Magnum. Nazistas americanos, defensores da supremacia branca, protestam contra o movimento dos direitos civis nos EUA. 1962.

© Foto Hulton /Getty. Martin Luther King. “Marcha para Washington por Emprego e Liberdade”, em 28 de Agosto de 1963.© Civil Rights. Distúrbios raciais provocaram a morte de 34 pessoas, 1.032 feridos e 3.952 prisões. Los Angeles 1965.
© Foto de Jack Thornell. Ativista e advogado negro leva um tiro durante um protesto, Mississipi . 1966.

11/01/2009 - 13:51h A foto da intolêrancia

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Clique na imagem para ampliar © Foto de Douglas Martin. A jovem Dorothy Count, uma das primeiras estudantes “negras” em colégio de brancos, é vitima de preconceito racial. EUA. 1957.

A foto vencedora do “World Press Photo” de 1957, de autoria de Douglas Martin foi feita no estado da Carolina do Norte, EUA. A jovem Dorothy Count, de 15 anos, foi uma das primeiras estudantes “negras” a ser admitida no recém-desagregado colégio “Harry Harding High School”. Repórteres e fotógrafos testemunharam e registraram a violência que eclodiu quando Dorothy Counts apareceu para seu primeiro dia no colégio onde estudavam somente alunos brancos. As pessoas atiraram pedras e gritaram “Volte de onde veio”. Dorothy caminhou sem reagir, diante da multidão que a acompanhava com gestos obscenos e gritando palavras de ordem. Após uma série de ameaças telefônicas e depois de 4 dias de intensiva hostilidade, seu pai decidiu tirá-la da escola.

Fonte Images&Visions

14/12/2008 - 17:19h A nova onda feminista

Ele já foi chamado de movimento das “mal-amadas” e associado a mulheres homossexuais. Recebeu mais ataques do que elogios, mas foi o motor de conquistas inegáveis para as mulheres. Gostem ou não, o feminismo, termo usado pela primeira vez nos anos 30 do século 19, continua a todo vapor

Edma Cristina de Góis Revista do Correio Braziliense

Monique Renne/CB/D.A Press

Mãe solteira e independente, Eliane acredita que sua maior conquista foi a autonomia

Eliane Maria de Carvalho, 38 anos, é solteira, tem um filho de 12 anos, trabalha dois expedientes e faz faculdade de administração à noite. Diariamente, caminha três quadras até sua casa para almoçar com o filho Leonardo. Ele já não precisa da mãe para ir à escola e desde os 8 anos fica sozinho em casa quando ela sai para trabalhar. Mesmo sem se declarar feminista, Eliane acumula em sua trajetória conquistas e desafios desse movimento: o direito à educação, a inserção no mercado de trabalho, a opção pela maternidade solteira e a autonomia, uma vez que é a chefe de um lar. “Eu fugi da linhagem da minha família, na qual as mulheres ficavam casadas ou, quando separadas, voltavam para a casa dos pais. Sou feliz porque sou dona da minha vida e tomo minhas próprias decisões”, explica.

Como Eliane, a maioria das mulheres, pelo menos as ocidentais, vive uma realidade que hoje só é possível graças a feministas que, na contramão do preconceito de suas épocas, arregaçaram as mangas por um ideal coletivo. Estigmatizado e, na maior parte das vezes, mal interpretado, o movimento se reconfigurou mais uma vez na primeira década do século 21. Hoje, ele é marcado como um movimento mais plural, bem diferente daquele da época em que Betty Friedan lançou A mística feminina (1963), que retratou a realidade das mulheres americanas, brancas e de classe média — período conhecido como a segunda onda do feminismo e que permaneceu no imaginário mundial graças ao ato em praça pública da queima de sutiãs.

A complexidade do feminismo hoje deve-se à conciliação de bandeiras de lutas de muitas mulheres: brancas, negras, de classe média e baixa, indígenas, homossexuais, heterossexuais etc. Nesse contexto, estão temas como o direito à educação de qualidade, ainda um entrave sobretudo para as mulheres negras, e a violência doméstica. Além disso, é preciso levar as conquistas adquiridas no mercado de trabalho para dentro de casa. Nesse ponto, houve pouco avanço e algumas correntes acusam o próprio movimento de sobrecarregar as mulheres e de ser preconceituoso com aquelas que optam por serem donas-de-casa ou priorizam a maternidade.

Feministas e pesquisadoras de gênero de diversas áreas — história, sociologia e literatura — afirmam que nunca houve nem há um movimento feminista homogêneo. O movimento de mulheres, no Brasil e no mundo, é marcado pelas diferentes vozes. Na prática, elas desejam transformar a realidade do espaço público e privado marcado por um modelo sexista. “Toda mulher é um pouco feminista, mesmo quem não assume”, afirma a pedagoga Marta de Paula, 48, uma das nove mulheres com quem a Revista do Correio conversou sobre o assunto.

Por que se luta hoje

*Pelo combate a todas as formas de discriminação no mercado de trabalho, no sistema educacional, na saúde, na representação política etc.)
*Pela aceitação da pluralidade de mulheres (negras, indígenas, jovens, idosas, lésbicas, mulheres do campo, da floresta etc.)
*Pela discussão sobre os direitos sexuais e reprodutivos, incluindo a descriminalização do aborto, a ética nas pesquisas científicas e o acesso ao atendimento para garantir a saúde da mulher.
*Pelo combate à violência contra as mulheres.
*Pela reorganização dos papéis dentro de casa, de modo a evitar a sobrecarga de trabalho.
*Para que a mídia não reproduza padrões sexistas, como a exploração do corpo feminino.

O que já foi conquistado

Voto
Em 1932, as mulheres passam a ter direito ao voto no Brasil.Trabalho fora de casa
Nos anos 1950, as mulheres vivem a dicotomia do trabalho em casa e fora. Ainda assim são poucas as que conseguem se lançar no mercado de trabalho e conciliar as duas jornadas. A partir dos anos 1970, percebe-se maior participação delas no mercado de trabalho.
As diferenças salariais, no entanto, perduram até hoje.

Representação política
30% das candidaturas a cargos eletivos devem ser de mulheres desde 1990.

Costumes e sexualidade
O Brasil também participou da revolução sexual e de comportamento dos anos 1960. Um dos símbolos nacionais dessa fase foi a atriz Leila Diniz, cuja imagem dela, grávida na praia, marcou época.

Serviços de saúde
No Brasil, os primeiros programas de atendimento à saúde da mulher são dos anos 1980.

Combate à violência
As primeiras manifestações são dos anos 1970. Na década seguinte são criados serviços de atendimento à mulher vítima de violência. Também é fundada a primeira delegacia da mulher. No primeiro governo Lula, é criada uma secretaria especial para as mulheres e, em 2006, é promulgada a Lei Maria da Penha.

Sem conceitos

O movimento feminista é dividido por etapas de acordo com a inclusão de novas bandeiras ou pelo reforço de alguns desafios. Sobre esse assunto, não há consenso entre especialistas. Alguns acreditam que haja apenas duas fases: a primeira onda, no início do século passado, com a luta pelo acesso à educação como principal slogan, e a segunda onda, marcada pelo lançamento da obra A mística feminina, da norte-americana Betty Friedan, uma das mais importantes feministas do século 20.
No entanto, há quem defina a terceira onda feminista no Brasil como sendo a fase de luta das mulheres contra a ditadura e pela redemocratização. A quarta seria a fase atual, em que se discutem temas como violência contra a mulher, democratização da vivência da sexualidade, a laicidade do Estado e a igualdade racial.

War Production/Reprodução
 

 

NA GUERRA

O cartaz Rose the Riveter acima, com a inscrição “We can do it”, virou um dos símbolos do movimento feminista nos Estados Unidos. Durante a 2ª Guerra Mundial, a publicidade foi usada para convocar as mulheres a trabalharem em fábricas, porque muitos homens estavam no front de combate. Elas acataram o pedido e muitas foram trabalhar nas fábricas dos aviões B-29. Foram esses aviões que soltaram as bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki. É por essa razão que parte do movimento feminista vê o cartaz de modo negativo e não o reconhece como referência à luta das mulheres.

AUTONOMIA, A GRANDE CONQUISTA

Quando a assessora administrativa Eliane Maria de Carvalho, 38 anos, terminou o segundo grau, começou logo a trabalhar. Tentou vestibular na época, mas como não foi aprovada acabou adiando o sonho de se formar. Depois veio a gravidez inesperada e a mudança radical da vida. A família não recebeu bem a notícia, mas apoiou a decisão de Eliane de ter o filho mesmo sem o apoio do pai. Leonardo nasceu quando ela tinha 26 anos. Há cinco anos em Brasília e há dois estudando administração, Eliane faz um balanço positivo de suas conquistas. A maior delas, sua autonomia.

A independência de Eliane tornou-se real graças à soma de educação e trabalho. As primeiras defensoras dos direitos da mulher no Brasil apostavam na educação como corredor de acesso para a emancipação feminina e a melhoria de status. A justificativa era óbvia: com formação superior, as mulheres poderiam ter uma profissão e conquistar sua independência. A educação superior virou realidade para as mulheres brasileiras com a lei da reforma educacional de 1879, embora a primeira legislação em relação à educação feminina date de 1827. Com isso, elas reivindicavam o direito ao voto, o que foi debatido e negado pelo Congresso Constituinte de 1891.

Mais de um século depois, a presença das mulheres no mercado de trabalho, nos mais diversos cargos, nas universidades e nas esferas de poderes, dão a impressão de que tudo foi ganho, logo o feminismo perderia sua razão de existir. A historiadora Céli Pinto, autora de Uma história do feminismo no Brasil, rebate essa tese. “O movimento mudou com o tempo. No Brasil, a onda do feminismo dos anos 1960 chega com atraso devido à ditadura militar, no entanto as lutas feministas florescem junto com a campanha pela redemocratização”, explica. Por essa razão, os movimentos de mulheres brasileiras surgem próximos às Comunidades Eclesiais de Base (CEB) e aos movimentos populares.

O feminismo no Brasil e no mundo

1832
Nísia Floresta publica Direitos das mulheres e Injustiça dos homens

1873
O jornal O sexo feminino é lançado. No mesmo ano, surge o Jornal das Senhoras, primeira publicação editada exclusivamente por mulheres no Brasil, por Joana Paula M. Noronha

1915 a 1932
A luta pelo sufrágio universal mobiliza as mulheres no país e no mundo

1921
É fundada a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino

1929
Criada a Aliança Nacional de Mulheres

1948
Surge a Federação de Mulheres do Brasil

1949
Simone de Beauvoir publica O Segundo Sexo, influência para gerações de feministas.

1963
Betty Friedan publica
A mística feminina, marco do feminismo de segunda onda

1969
Helieth Saffioti publica
A mulher na sociedade de classes

1972
Aparecem no Brasil os primeiros grupos da segunda onda feminista

1975
É declarado pela ONU o Ano Internacional da Mulher e a Década da Mulher. É realizada a I Conferência Mundial sobre a Mulher (México)

1975
Terezinha Zerbini cria o Movimento Feminino pela Anistia

1976
O assassinato de Ângela Diniz por Doca Street coloca a questão da violência contra as mulheres na agenda política brasileira

1979
Convenção sobre a Eliminação de todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres

1980
Criação dos serviços de atendimento às mulheres vítimas de violência no Brasil

1983
Instituído o PAISM, Programa de Assistência Integral à Saúde da Mulher

1984
Criação do Conselho Nacional de Direitos da Mulher (CNDM)

1985
É realizada a III Conferência Mundial sobre a Mulher (Nairóbi)

1995
IV Conferência Mundial sobre a Mulher (Beijin)

1985
É fundada a I Delegacia Especializada em Atendimento à Mulher (DEAM), em São Paulo

1990
É realizado o I Encontro Nacional de Mulheres Negras, no Rio de Janeiro

1994
Aprovada a primeira lei de cotas. Ela estabelece que 20% de candidaturas nas listas partidárias para as eleições de 1996 devem ser ocupadas por mulheres. Esse número é ampliado para 30%
em 1997

1994
É realizada em Belém a Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher. No mesmo ano, foi criado o movimento Ciranda da Articulação da Mulher Brasileira

2006
Criação da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, primeiro órgão institucional com a missão de articular políticas públicas para as mulheres, vinculada à Presidência da República. No mesmo ano, é promulgada a Lei Maria da Penha para coibir a violência doméstica contra as mulheres no país

Monique Renne/CB/D.A Press
Marcela Addario não largou o emprego, mas não quer cargos de chefia para se dedicar à maternidade: decisão difícil


TODA MULHER É MEIO FEMINISTA

A feminista Camile Paglia costuma causar polêmica e suscitar reações inflamadas quando sugere, como fez recentemente no Brasil, que o feminismo pode ter pavimentado o caminho que tornou o sexo feminino sujeito a um regime estressante de tripla jornada e negação da maternidade. Alguns a classificam como pós-feminista, outros como uma dissidente cujo pensamento pode comprometer a imagem de um movimento que trouxe conquistas importantes. “Não há equívoco no feminismo. A opção pela maternidade é que é uma novidade, porque ser mãe era função. Nesse momento, as mulheres optam por serem ou não mães, essa é a diferença”, esclarece a historiadora Céli Pinto, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

A diferença, na prática, vai um pouco mais além. Mesmo longe dos movimentos organizados, algumas mulheres exercem um papel transgressor, embora não pareça. Tão naturalmente como Leila Diniz exibiu seu barrigão de grávida na praia em 1971, a economista Marcela Addario, 37 anos, contrariou sua vocação de executiva, abrindo mão de cargos de chefia no emprego para exercer a maternidade de forma mais plena — o que nos dias de hoje não deixa de ter um viés revolucionário, ainda que ele esteja circunscrito às quatro paredes de um lar.

Depois de morar quase uma década na Alemanha, ocupando cargos executivos na área financeira da empresa em que trabalhava, voltou ao Brasil, casou-se pela segunda vez e teve um filho, Matheus, hoje com 1 ano. Ela acredita que fez suas escolhas na hora certa, vivendo intensamente a profissão e agora priorizando a maternidade. “Fiz tudo o que quis na minha carreira e ainda desejo voltar a ter cargo de chefia, mas hoje o mais importante é meu papel de mãe. Foi uma decisão muito difícil e demorada”, afirma.

Embora consciente de suas escolhas, Marcela admite que, mesmo abrindo mão das responsabilidades de executiva, há uma sobrecarga ao se dividir entre o trabalho atual e as obrigações de casa. “A mulher só consegue conciliar o público e o privado se tiver uma estrutura de apoio, porque em casa continua tudo igual, por mais que os maridos de hoje ajudem mais do que os de antigamente.”

É exatamente por isso que as feministas recusam-se a aceitar a idéia de um novo feminismo, pois acreditam que o acúmulo de funções das mulheres que decidem ser mães e continuam trabalhando é uma bandeira renovada quando se trata de inserção no mercado de trabalho e das idéias de igualdade. “O termo pós-feminismo é um equívoco porque muitos temas não foram superados no Brasil. Além disso, não há igualdade de posições”, comenta a socióloga Fernanda Bittencourt, da Secretaria Especial das Mulheres.

Monique Renne/CB/D.A Press
Marta fez curso superior e pós-graduação, realidade distante para negras, mas ainda luta contra o racismo e a tripla jornada


A COR DO PLURALISMO

Marta de Paula, 48 anos, acorda às 6h, passa o dia inteiro no trabalho e, à noite, cuida da casa, faz o almoço do dia seguinte e ainda dá atenção às filhas e ao marido. A rotina de dedicação ao lar de certa forma a aproxima das donas-de-casa retratadas no livro A mística feminina, escrito por Betty Friedan há 45 anos e que se tornou uma espécie de bíblia do movimento feminista. Naquela época, a publicação causou comoção, pois refletiu as insatisfações das mulheres com aquela vidinha aparentemente feliz. Mas a semelhança de Marta e de outras mulheres desse tempo com as do livro pára por aí. “Era um problema no singular, da mulher branca e de classe média. Nesses mais de 40 anos, o feminismo vê o plural”, define a socióloga Fernanda Bittencourt, da Secretaria Especial das Mulheres.

Nesse sentido, Marta encarna os novos rumos do movimento, que procura incluir os diferentes tipos de mulheres e suas reivindicações. O combate ao racismo é um exemplo. Desde os anos 1980, as negras se associaram para reivindicar suas lutas, pois não se sentiam representadas nem no movimento feminista nem no movimento negro. Hoje, elas combatem a violência doméstica e batalham pelo acesso ao serviço de saúde, uma vez que há doenças específicas dos negros que precisam ser tratadas com garantias do Estado. Apesar de haver um programa nacional para atender a população negra, muitos gestores de municípios e cidades não o incorporaram. “Há um racismo institucional, por isso em muitas cidades o programa só existe no papel”, alerta Eliana Maria Custódio, coordenadora-executiva do Geledés — Instituto da Mulher Negra, criado há 20 anos no Brasil.

Marta de Paula lembra: “Já fui discriminada na faculdade por conta da minha cor”. Da família de seis irmãos, apenas Marta e uma irmã conseguiram entrar na universidade. Ela se formou pedagoga e cursou pós-graduação em secretariado executivo. Mas ainda é exceção. Por isso, a educação permanece como um dos principais temas para os movimentos de mulheres negras no país.

De acordo com Eliana Custódio, a educação é um fator fundamental para a mobilidade social e a inserção no mercado de trabalho. “A maior parte dos alunos do ensino médio e fundamental públicos é de negros e sabemos sobre a qualidade desse ensino”, diz. A feminista acrescenta que, mesmo com acesso à educação, a mulher negra sofre preconceito de raça no mercado de trabalho, o que faz com que as demandas dessas mulheres sejam um pouco diferentes das mulheres brancas.

 
Maura descende de uma linhagem de mulheres autônomas e conseguiu conciliar emprego e maternidade

 

NOVAS MULHERES, NOVOS TEMAS

A avó, viúva aos 21 anos, foi tentar a vida no Rio de Janeiro com os dois filhos a tiracolo. Casou-se de novo quando e com quem quis. A mãe entrou na faculdade de direito depois dos 40 anos. A empresária Maura Alvim, 46, casou-se aos 22, foi mãe aos 24, hoje tem duas filhas, de 19 e 22, que moram em São Paulo. A relação aberta com as filhas é resultado das experiências das mulheres que a antecederam. “Me beneficiei porque minha mãe era antenada. Vim de uma família de mulheres especiais”, avalia.

A empresária conta que sempre trabalhou, mas optou por fazer intervalos para ser mãe. Na vida pública, ela acredita que a mulher ainda é colocada à prova. Para Maura, a violência contra a mulher é o tema mais importante dessa geração. “O homem jovem já percebeu os direitos das mulheres e quanto mais escolarizado, mais respeita a parceira”, compara.

“Ser alheio a essa discussão é dito como politicamente incorreto hoje”, afirma uma das coordenadoras do Católicas pelo Direito de Decidir, Regina Jurkewicz. Depois da promulgação da Lei Maria da Penha, ela acredita que o desafio das mulheres é pelo cumprimento da legislação. Além da questão da violência, Regina aponta outras bandeiras de luta, como a discussão em torno da laicidade do Estado, do avanço das tecnologias reprodutivas e da democracia na prática da sexualidade.

“O espartilho mental”
A socióloga Fernanda Bittencourt, da Secretaria Especial das Mulheres, aponta o racismo e a diversidade sexual como alguns dos temas mais debatidos. Mas, além deles, são importantes a violência contra a mulher, não só física, e os direitos reprodutivos. “Em outros países, a discussão sobre o aborto foi garantida. O Brasil não superou isso.”

A pesquisadora de gênero na literatura Lélia Almeida lembra que as reivindicações das mulheres são crescentes porque elas inserem novas bandeiras de luta com o passar dos anos. Enquanto a ética nas pesquisas científicas é um tema relativamente novo, a sexualidade é um assunto que não saiu do cardápio feminista. “Muito pouco mudou em relação aos direitos reprodutivos. Continuamos vivendo um ‘espartilho mental’, um manual de como ser legitimado pelos diversos saberes”, afirma.

Regina Jurkewicz acredita que houve avanços, inclusive a institucionalização das lutas feministas. Um exemplo disso é a criação da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, no primeiro governo Lula. “É um reconhecimento de que não se trata de questões sobre as mulheres, mas de políticas públicas para todo o país”, explica Regina. Outra vitória foi a Lei Maria da Penha (11.340/06), que alterou o Código Penal, coibindo a violência doméstica e familiar contra a mulher. Os agressores podem ser presos em flagrante ou ter a prisão preventiva decretada (detenção por três anos).

Apesar do reconhecimento unânime sobre a ação do governo na defesa de direitos das mulheres, Lélia Almeida, que coordena o projeto Mulheres da Paz, lançado semana passada pelo Ministério da Justiça, alerta que o movimento feminista pode perder com essa aproximação com o Estado caso deixe tudo por conta do governo. “Ganhou-se por um lado e se perdeu por outro. O movimento feminista sempre brigou por sua autonomia.”

Produção: Bianca Assunção \\ Cabelo e Maquiagem: Rose Paz, do Espaço Rose Paz, com produtos Mary Key

14/12/2008 - 16:35h Lugares estranhos

Verissimo

verissimo1.jpgO comunismo pegou onde menos se esperava – na Rússia, terra de camponeses e místicos, e na exótica China. Não deve surpreender que o socialismo triunfe em outros lugares estranhos: a GM, o Citibank…

NA COXA

Me pediram para comentar o “Vicky Cristina Barcelona”. Gostei pela Vicky, pela Cristina, por Barcelona e principalmente pela Penelope, mas me pareceu um filme meio relaxado. Dá para imaginar o Woody Allen escrevendo o roteiro em cima da coxa, no quarto do hotel, louco para voltar pra casa. Há personagens que aparecem e desaparecem sem função ou explicação, e o Woody Allen poderia ter nos poupado, e ao seu currículo, o pai pintor do Javier Bardem, que não pinta mais porque há pouco amor no mundo. E para o Bardem o filme veio muito em cima do seu papel anterior, como o bandido do cabelo armado dos irmãos Coen. Passei todo o filme esperando que ele estrangulasse alguém.

SUJOU?

Falando em cabelo… O governador de Illinois merece ser banido da política duas vezes, pela corrupção e pelo penteado. A direita americana já caiu em cima do Barack Obama por causa da sua ligação com o governador Blagojevich, acusado de $leiloar a cadeira do senado que o Baraca desocupou. Os investigadores disseram que o presidente eleito não tem nada a ver com as manobras, ou com o penteado, do governador, que é pela lei é quem nomeia o novo senador, mas o Baraca fez sua carreira na notoriamente corrupta política do estado, que agora ganha um incômodo destaque com as acusações a Blagojevich – dando razão, implicitamente, a tudo que os republicanos diziam durante a campanha sobre as origens obscuras do candidato democrata. Chicago foi a capital do crime organizado americano e tem uma tradição paralela de política suja, como a dos tempos do prefeito Dailey que dominou o partido democrata lo$durante anos, era um populista a serviço do grande capital e fez a carreira de muita gente – inclusive a do seu filho, que hoje é o prefeito. Obama se criou, polticamente, neste meio de caciques e aproveitadores. Para a direita, ele não pode não ter se sujado.

PERPLEXIDADE

Fico pensando no trabalho que terão os historiadores do futuro para entender o governo Lula. Nunca um presidente foi tão odiado e ridicularizado, nunca um presidente foi tão aprovado.

Nem a raiva nem o amor são muito racionais, existem num plano subjetivo a prova de fatos. A raiva parece visceral, feita em grande parte de preconceito e ressentimento. O amor persiste contra todas as notícias de escândalos e desmandos. Talvez com a perspectiva histórica o fenômeno não pareça tão raro. Getúlio Vargas também foi amado e execrado em proporção parecida. Juscelino também dividiu. Mas até daqui a uns 50 anos, quando a perspectiva histórica nos dirá o que houve, a perplexidade com o Lula permanecerá.

Fonte O Globo e Blog de Noblat

06/12/2008 - 15:48h A fase libertadora da mulher começa aos 40?

Maria Vianna – O Globo

DivulgaçãoRIO – Para a escritora Andrea Franco, a chegada dos ‘enta’ não precisa ser sinônimo de crise. Autora do recém-lançado “40, sim, e daí?”, um manual de bem-estar para mulheres nesta faixa etária, ela garante que a chegada da maturidade pode ser o início de uma fase libertadora. O importante é adquirir conhecimento e equilíbrio emocional, diz Andrea, para saber tirar proveito do que o momento tem de melhor. Em entrevista ao site do Globo, ela revela algumas dicas que colheu com especialistas e mulheres que aprenderam a encarar a vida de outra forma depois que apagaram quarenta velinhas.

Por que escrever um livro para mulheres de 40?

Porque acho importante que as pessoas vejam que a maturidade pode fazer bem para uma mulher. Infelizmente, a nossa cultura, a sociedade, vê a mulher a partir dos 40 anos como uma velha, como alguém que ‘já deu o que tinha que dar’. A mulher sempre foi e ainda é, mais cobrada do que o homem em vários aspectos e, entre eles, sem dúvida, está a questão da idade. Há uma gradativa mudança nesse quadro, mas ainda há preconceito e essas coisas me incomodam muito! Então, eu quis mostrar que essa é uma etapa da vida que pode ser enriquecedora e feliz. Que a mulher pode ser, sim, bonita e desejada também a partir dos 40 anos. E que a chegada dos ‘enta’ não é nenhum bicho-de-sete-cabeças. A mulher pode fazer dessa a melhor fase da vida! E eu também quis entender o que a maturidade nos proporciona. Achei importante falar de uma idade emblemática, que chega para a maioria das mulheres como um divisor de águas, marcada por muitas mudanças e que costuma vir acompanhada de alguma crise.

A mulher sempre foi e ainda é, mais cobrada do que o homem em vários aspectos e, entre eles, sem dúvida, está a questão da idade


Quais as principais angústias das entrevistadas?Como disse uma das psicólogas que eu entrevistei, pode ser angustiante perguntar “e agora?”. Como é uma fase de rever e avaliar as realizações, de constatar que metade da vida já passou, o balanço da própria existência pode desencadear uma angústia ou uma crise. Os questionamentos nessa fase da vida costumam ser : “será que eu fiz tudo o que eu queria?”, “o que esperar daqui para a frente?”, “o que eu quero realmente da vida?”, “o que é melhor para mim?” , “vou conseguir emprego?” e “vou continuar sendo atraente para os homens?”.

Eu percebi com as minhas entrevistadas que essa fase pode não ser um mar-de-rosas, mas está longe de ser algo dramático, pesado ou terrível. Algumas se sentem muito melhor do que aos 30 e até do que aos 20. Todas são unânimes quanto ao fato de que o melhor em ter 40 anos é a maturidade, há uma auto-estima grande. Ela sabe o que quer, do que é capaz, já sabe quem ela é.

Hollywood tem valorizado a mulher de40. Os homens mais jovens também. Como vê esta tendência?Talvez seja porque eles já perceberam que essa mulher “vende”. Ou seja, vários setores de consumo estão se rendendo às mulheres que chegaram à maturidade, as quais, além de buscarem qualidade de vida, têm alto poder aquisitivo. Elas são bem-informadas, independentes e podem pagar caro pelos seus luxos. Elas se tornaram público-alvo da mídia e dos segmentos de cosméticos, editorial e moda. É a new age woman, a mulher que se conserva bonita e não aparenta a idade que tem. A mulher madura está se tornando mais interessante física e economicamente. E para reforçar ainda mais esta tendência, as marcas de cosméticos têm como garotas propagandas quarentonas como Sarah Jessica Parker, Demi Moore, Linda Evangelista, Julianne Moore, Andie McDowell, entre outras. Em relação ao sucesso com os homens mais jovens, deve ser porque a experiência dessas mulheres as deixam mais sexy aos olhos deles.

Há mudanças na forma como percebem o amor?

Há uma pesquisa em que diz que a mulher nessa fase está disposta a deixar bem claro do que gosta num relacionamento. Uma de minhas entrevistadas disse que a mulher de 40 é mais sexy, mais voraz e que funciona melhor na cama porque sabe o que fazer com o corpo. Se a saúde física e emocional estiverem em dia, a mulher de 40 estará vivendo a plenitude de sua sexualidade, especialmente se estiver realizada profissionalmente e tiver desenvolvido uma relação de intimidade, cumplicidade e confiança com seu companheiro.

A idéia do vínculo afetivo e sem erotismo entra em discussão. O casamento deixa de ser “até que a morte os separe” e passa a ser encarado como construção diária, um aprendizado. Aumenta o número de mulheres chefes de família que encaram o divórcio sem trauma em prol de uma felicidade sexual mais rica e criativa. A atração nessa faixa etária é um requisito essencial para manter um relacionamento duradouro e novos vínculos ampliam a possibilidade do compromisso sem o caráter ou modelo definitivo.

Como superar o fantasma da idade?

Percebo que para muitas mulheres isto ainda é sim um problema, porque muitas ainda mentem a idade, mas isso é devido a cobrança da sociedade machista. Muitas são vulneráveis à sociedade de culto ao corpo e se influenciam pela idéia de que só se pode ser bonita aos 20 anos, só se é feliz jovem. Isso também se deve ao fato de vivermos numa cultura ocidental, que prioriza a aparência em detrimento do conteúdo, da sabedoria. O ocidental não convive muito bem com a idéia do envelhecimento. Envelhecer parece algo que deve ser empurrado cada vez mais para a frente, um castigo contra o qual se deve lutar a todo custo.

As marcas de cosméticos têm como garotas propagandas quarentonas como Sarah Jessica Parker, Demi Moore, Linda Evangelista, Julianne Moore e Andie McDowell


Como superar? Compreendendo que a vida também tem suas estações, e que o chamado “outono da vida” pode ter o mesmo prazer e alegria do verão e da primavera. Ter interesse pela informação, que não deixa de ser uma forma de poder. Não ficar vulnerável a informações distorcidas e preconceituosas. Com essa ferramenta nas mãos, ela vai notar que pode ser uma fase de maior crescimento. Se a mulher se gostar, se cuidar, a idade cronológica não contará, pois aparentamos a idade com a qual nos sentimos. Assumir a própria idade pode ser uma forma de libertação.

Que conselhos você daria para uma mulheres com medo de envelhecer?

Não sei se seria um conselho, mas acho importante destacar que é fundamental, desde já, cultivar outros valores, como a cultura, o conhecimento, um hobby, a profissão, bons relacionamentos com a família e os amigos e não focar só na aparência física. Se a mulher valoriza somente a beleza e a juventude, estará abrindo as portas para a depressão. Não adianta fugir do inexorável: todos nós envelhecemos. Se a beleza e o físico são os mais importantes para determinadas mulheres, em detrimento do seu conteúdo, do que elas são como pessoas, o envelhecimento vai ficar mais pesado. Se a pessoa não consegue aceitar esse processo, a psicoterapia pode ajudar muito.

03/12/2008 - 12:40h Lições sem preconceitos

 Professora da rede pública do DF ganha prêmio ao ensinar, com livros, músicas e máscaras, a cultura afro a meninos e meninas de 8 anos

Correio Braziliense

Daniel Ferreira/CB/D.A Press
Nádia Rodrigues: “Em nenhuma das escolas em que trabalhei a cultura negra era promovida”

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 A professora Nádia Maria Rodrigues, 40 anos, tinha o hábito de alisar os cabelos negros desde criança. Nesse período, não percebia que os termos ovelha e lista negra diziam respeito à raça e à cor de sua pele. Nem imaginava o quanto existia de preconceito e como era deficiente o ensino da cultura afro nas escolas. Nádia trabalha como professora há 22 anos. Começou a estudar a cultura dos antepassados há pouco mais de um ano. O resultado já deu frutos. Ela recebe hoje, do Ministério da Educação (MEC), o Prêmio Professores do Brasil, dedicado aos educadores que trabalharam temas importantes da cultura brasileira com criatividade e tiveram resultados interessantes com os alunos. É a única professora do Distrito Federal a receber a premiação.

“Nós, negros, não temos uma representação positiva. E isso passa para as crianças. Percebi isso e senti a necessidade de trabalhar a cultura afro na escola”, afirma a professora, que dá aulas para crianças da 3ª série do ensino básico, com idade média de 8 anos. Ela abordou cinco temas diferentes: identidade negra; formação do povo brasileiro; falta de personagens negros na cultura, como heróis, fadas, anjos etc.; expressões preconceituosas utilizadas no cotidiano e a história da relação de poder entre negros e brancos. Para isso, usou livros, atlas, máscaras típicas e música.

O resultado com os alunos surpreendeu a professora. Ela recebeu relatos dos pais dizendo que estavam aprendendo muito com os filhos. As crianças a procuravam para contar como tinham negros nos shows que haviam ido. E, o que a deixou mais contente, foi perceber que muitos estudantes negros, que no início tinham vergonha de assumir a identidade afro, chegaram ao fim do ano orgulhosos da cor da própria pele. De quebra, aprenderam a criar máscaras africanas, que a professora orgulhosamente expôs no local onde os projetos premiados pelo MEC estavam sendo apresentados.

O trabalho de valorização da cultura negra é obrigatório na educação brasileira desde 2003, quando foi publicada a Lei nº 10.639. Mas o que o decreto não previu era que, antes, seria necessária uma preparação dos professores para tratar o tema. “Muitas vezes os próprios professores incorporam o preconceito e não sabem como agir. Ações como as da professora Nádia não deveriam ser isoladas, e sim uma regra na educação”, afirma a professora da UnB Glória Moura, doutora em educação pela Universidade de São Paulo (USP) e especialista em relações étnico- raciais.

De acordo com Glória, atividades que trabalhem o tema da identidade cultura negra são muito importantes. “Muito do preconceito nasce do desconhecimento, e esses alunos desconheciam a cultura afro, o que podia gerar preconceito”, diz. Segundo ela, não há como pensar o povo brasileiro sem levar em conta a cultura africana na formação da nossa identidade nacional. Mas ela lembra que ainda falta muito a avançar. “O negro sempre está numa relação pior. Não há igualdade de oportunidades. O país ainda não aceita a miscigenação.”

Após se envolver com o projeto, a professora Nádia assumiu o cabelo crespo. Percebeu também que existia muito mais preconceito do que imaginava. Sentiu, como nunca, a necessidade de mostrar aos outros professores a importância do estudo da cultura afro. “Em nenhuma das escolas em que trabalhei a cultura negra era trabalhada no currículo escolar”, lembra. Agora, com o prêmio de R$ 5 mil, pretende viajar e conhecer mais o universo com que trabalha. “Quero ir para Angola e aprender mais sobre a África.”

Na apresentação que fez aos outros 30 professores premiados, ela finaliza com um poema de Maria Helena Vargas da Silveira: “As pedras que nos machucam vêm por trás, são atiradas/ Por favor educador!/ Conscientiza teus alunos,/ Que as pedras machucam,/ Não importa a direção./ E não ignore a pedrada,/ Por que ela existe,/ Por que persiste./E precisa,/E necessita,/ Ser trabalhada”.

17/11/2008 - 17:01h Lugar de mulher é na Casa Branca

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Michelle Obama

Lúcia Guimarães – O Estado de São Paulo

Sim, é claro, há muito ainda o que comemorar. Barack Obama será o senhor legítimo da residência construída com trabalho escravo. O mordomo negro da Casa Branca tornou-se uma celebridade, num novo momento extraordinário de seu longo serviço aos presidentes monocromáticos.

O simbolismo está em toda parte e não é abstração para satisfazer culpa liberal. Quando o deputado negro John Lewis, que quase morreu espancado durante um protesto pacífico em 1965, avisa “Não espero controlar as lágrimas no dia da posse”, sabemos que a história de um líder da luta pelos direitos civis como ele resiste a qualquer tentativa de trivialidade.

Mas, deixemos de lado a discussão sobre o controvertido modelito que Narciso Rodriguez criou para Michelle Obama, na noite da eleição. Em discussões com amigas articuladas, o vestido rubro-negro emergiu naturalmente e notei a paixão das opiniões.

Se voltamos atrás alguns meses, lembramos que essa eleição poderia ter colocado a primeira mulher na Presidência dos Estados Unidos. Não importa os sentimentos despertados por Hillary Clinton, será justo esperar que este movimento sísmico, sob o slogan “Mudança”, eleve também as mulheres?

Michelle Obama, que notoriamente não morria de amores pela senadora nova-iorquina, declarou diplomática: “Estou aprendendo muito com Hillary sobre a vida na Casa Branca, sobre como criar filhos sob o olhar atento da mídia.”

Beijinho, beijinho, tchau tchau.

Por que só se fala agora na Primeira Mãe e não na advogada com diplomas de Princeton e Harvard, que era uma profissional bem-sucedida quando foi convocada a treinar o estagiário paquerador Barack? Por que a decisão da Primeira Avó de se mudar para a Avenida Pennsylvania é manchete na CNN com direito ao comentário de um “analista” historiador?

Não basta termos sido contemplados quase diariamente, após a eleição, com a cena de Sarah Palin “surpreendida” em sua cozinha preparando alce diante de cada âncora de TV que se deslocou milhares de quilômetros para nos servir mais doses do seu besteirol?

Por que o telejornalismo mais liberal dá cambalhotas para reforçar a personalidade doméstica de Michelle Obama? A responsabilidade será da própria, por falar tanto de escolha de colégios, aulas de balé, prática de futebol e outras atividades que formam a hiperestimulada infância contemporânea? Assessores democratas repetem, “as duas meninas são a primeira preocupação de Michelle quando ela acorda e a última quando ela vai dormir”. Uau.

Levante a mão aí quem equilibrou maternidade e profissão sem direito a alternativa e não mereceu 30 segundos de horário nobre.

Há um subtexto nada sutil entre os jornalistas que dizem, Michelle Obama está mais mais Laura Bush do que Hillary Clinton. Hillary fez trapalhadas homéricas no começo do primeiro mandato do marido e alguns atribuem à sua desastrosa força tarefa para reformar o seguro saúde a vitória Republicana das tropas de Newt Gingrich, em 1994. Mas o subtexto é equivalente ao reflexo de um motorista que é vítima da barbeiragem de uma mulher ao volante e confirma seu preconceito.

Michelle Obama promete ficar no banco do passageiro e o país celebra sua domesticidade. Ela foi atacada pela franqueza sarcástica no começo da campanha e se suavizou. Sugeriu que vai lutar pelos direitos dos veteranos que voltam do Iraque e se suicidam duas vezes mais do que a população civil (e se isso atrapalhar o recital de piano da adorável Malia?)

Ainda que o gabinete Obama venha a refletir uma cartilha progressista, este súbito romance com a mulher, que faz pouco de seu enorme poder nos próximos quatro anos, é uma desnecessária brisa melancólica sobre o mar de expressões extasiadas que vamos testemunhar na manhã fria de 20 de janeiro de 2009.

Tive hoje o flashback de um momento que havia esquecido porque não coleciono troféus de vitimização. A luz fluorescente da sala no pavilhão pediátrico do Hospital Monte Sinai atrapalhava a visão da tela do laptop no meu colo. À minha volta, enfermeiras entediadas assistiam à TV, mães entravam e saíam em silêncio, o coração pesado era nossa linguagem comum. O ano era 1997 e escrevia minha primeira coluna para este jornal, interrompida várias vezes para conferir se o tubo de soro ligado à veia da minha filha estava em ordem. A coluna saiu – mal escrita -, minha filha saiu do hospital com saúde e sem diagnóstico.

A ordem de viver, como lembra o poeta, é seguida por milhões de mulheres anônimas , sem mistificação e sem voz ampliada numa coluna de jornal.

Michelle Obama, aqui vai uma sugestão. Você usa o seu acesso para melhorar a vida dos veteranos amputados, das mulheres sem seguro saúde, ou para qualquer trabalho à altura da sua inteligência e lhe damos o crédito merecido. Afinal, nem todas temos o privilégio de afetar a vida de milhões de pessoas com um cutucão no sujeito deitado ao lado.

Quando você assar biscoitinhos para a quermesse da quarta série, por favor, celebre o feito na privacidade de um dos 132 cômodos da sua próxima residência.

16/11/2008 - 14:39h Americanas voltam a sonhar com mulher à frente da Casa Branca

 

Obama e Hillary durante comício em outubro

da Folha Online

A vitória de Barack Obama na eleição presidencial deixou em muitas americanas a esperança da eventual chegada de uma mulher pela primeira vez à Casa Branca.

Sem a Presidência, o nome de Hillary Clinton passou a ser considerado o favorito para comandar a diplomacia dos Estados Unidos no próximo governo. Fontes ligadas a Obama afirmaram ao canal CNN que a ex-primeira-dama pode ser designada secretária de Estado.

No início da histórica campanha eleitoral de 2008, a disputa entre Obama e a senadora Hillary Clinton pela candidatura do Partido Democrata foi para muitos uma batalha do destino dadas as opções: um negro e uma mulher. A decisão de apoiar um equivalia a dar as costas ao outro.

No entanto, muitos analistas consideram que o perfil da senadora por Nova York acabou com os preconceitos que poderiam existir sobre a capacidade de uma mulher assumir o comando do país.

“Teto de vidro”

“Sempre que cai uma barreira é sinal de que as demais começarão rapidamente a desabar”, afirmou a estrategista do Partido Democrata Donna Brazile à France Presse.

“Apesar de não poder dizer quando –quem poderia prever este momento–, nem o candidato nem o partido, vejo este dia se aproximar no horizonte. É tempo de ‘apurar a história’ e permitir o acesso de uma nova geração (à Casa Branca). Não há dúvida, uma mulher conseguirá em breve”, acrescentou.

Em um discurso emocionado em junho, ao admitir a derrota nas primárias para o então adversário Barack Obama, Hillary pediu a seus milhões de simpatizantes que apoiassem o senador por Illinois, mas também fez referências às questões de gênero.

“Embora desta vez não tenhamos sido capazes de quebrar este elevado e duro teto de vidro, agradeço porque agora tem 18 milhões de rachaduras”, disse, em referência à quantidade de votos que recebeu na disputa interna.

“As crianças de hoje crescerão com a garantia de que um negro ou uma mulher podem, absolutamente, se tornar presidente dos Estados Unidos”, enfatizou, diante de muitas mulheres que choravam ou a aplaudiam.

“Botão”

Pouco depois, outra barreira caiu com a designação da governadora do Alasca, Sarah Palin, como candidata a vice de John McCain na derrotada chapa presidencial do Partido Republicano.

Parece uma ironia que os Estados Unidos, que sonham em expandir a democracia no mundo, nunca tenham tido uma mulher presidente.

“Acredito que a idéia de singularidade dos Estados Unidos tem sido um enorme fator para determinar a forma como os americanos vêem seu presidente. No final das contas, nos consideramos os líderes do mundo livre”, diz Barbara Palmer, diretora interina do Instituto Mulher e Política na American University.

“Por isso sempre tivemos uma visão muito sexista da função (de presidente), que, além de tudo, é também a de comandante-em-chefe. Definitivamente, uma mulher poderia apertar o botão (que ativa a bomba atômica)?”: para ela este é o questionamento dos eleitores.

Palmer, autora do livro “Quebrando o teto de vidro da política”, concordou que é apenas uma questão de tempo que uma mulher chegue à presidência.

“Não acredito que se deva subestimar o efeito que pode ter sobre uma menina de oito anos ver Hillary Clinton e Sarah Palin disputar as presidenciais. Somos uma sociedade muito visual. Se algo não está na televisão, então não aconteceu”, conclui.

10/11/2008 - 19:01h Duas visões da vitória de Obama

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por Luiz Weis – Verbo Solto

Deu nos jornais. Há poucas semanas, a deputada republicana Michele Bachmann, de Minnesota, disse na televisão que estava “muito preocupada” com a possibilidade de Obama ter “idéias anti-americanas”. No dia seguinte à eleição, ela se declarou “extremamente grata por termos um presidente afro-americano”. A vitória de Obama, exultou, “foi um tremendo sinal que nós mandamos.”

Se fosse mais uma das incontáveis cenas explícitas de adesismo que os políticos se permitem o tempo todo em toda parte (Mangabeira Unger e Eduardo Paes em relação a Lula, por exemplo, guardadas as devidas), o episódio não serviria de gancho para espetar nele um comentário – ou uma provocação – sobre o que parece a este blogueiro um dos aspectos mais interessantes da eleição americana de que a imprensa mundial se ocupou, com pencas de fatos e argumentos, mas, salvo engano, sem parar para discuti-los.

A deputada, a rigor, não aderiu a Obama. O que ela queria, segundo uma interpretação, era “não ficar no lado errado da história”. Isso deve ser verdade também para aqueles americanos que, a julgar por suas manifestações dos últimos dias, sonhavam desde criancinha com a eleição de um negro para a Casa Branca – e com os quais não se devem confundir os milhões de pessoas, dentro e fora dos Estados Unidos, que torciam ardentemente por ele e acham que o mundo ficou melhor depois da maior das terças-feiras da história da América.

Mas não é nem disso que se trata exatamente. O ponto – que remete aos tais fatos e argumentos que inundaram a mídia, sem que ela os tivesse posto em debate – está no fecho da fala da senhora Bachmann.

Repetindo: “Foi um tremendo sinal que nós enviamos”.

Então lá vai: “Nós” quem, cara-pálida?

”Nós”, evidentemente, seriam os Estados Unidos da América – os seus valores de berço com os quais o país, sem distinções, se reencontrou elegendo Obama. Não foi ele próprio quem disse, no discurso de vitória, que a América “é o lugar onde tudo é possível”?

Ou, no título do editorial da edição do último domingo do Observer, de Londres: “A América restaurou a fé mundial nos seus ideais”.

Aceitar esses enunciados pelo seu valor de face implica, primeiro, passar batido pelo fato de que esses ideais – “democracia, liberdade, oportunidade e inabalável esperança”, Obama, no mesmo discurso – conviveram durante 76 anos (de 1787, quando foi promulgada a Consitutição de Filadélfia, a 1863, quando acabou a Guerra Civil) com a escravidão legal e, depois, durante mais de um século com a segregação racial, aberta ou disfarçada, em muitas partes da América.

É fato histórico que, entre abolir a escravidão e garantir a unidade das 13 colônias que viriam a formar os Estados Unidos, os “pais fundadores” escolheram a unidade.

É fato histórico ainda que eles adotaram um sistema político – o do voto majoritário, ou distrital, para a eleição do Congresso, combinado com a escolha em última análise indireta do presidente da República – concebido para barrar a ascensão ao poder das minorias, quaisquer que fossem. E adotaram um sistema eleitoral feito para desestimular os mais pobres a votar [“O voto americano visto do Brasil”, neste blog].

Mas é fato histórico também que, em matéria de liberdades individuais, a começar da mais essencial delas, a de expressão, nenhum país iguala os Estados Unidos.

O país, escreveu na semana passada o historiador holandês Ian Buruma, “representa o que o combalido mundo ocidental tem de melhor e de pior”. Pura verdade.

Em segundo lugar e mais prosaicamente, aceitar o enunciado de que “a América” elegeu Obama faria sentido se ele devesse a sua vitória a uma maioria homogênea, ou quase isso, de eleitores. Não foi assim: quem deu a Obama 65,4 milhões de votos (ante 57,4 milhões para McCain) foi uma determinada América – a coalisão de negros, jovens, mulheres e hispânicos das grandes cidades.

As pesquisas de boca-de-urna (depois da votação) revelaram que votaram em Obama 95% dos negros, 70% dos moradores das metrópoles, 66% dos jovens de 18 a 29 anos – o grande exército mobilizador de recursos e eleitores, via internet –, 66% também dos hispânicos e 56% das mulheres.

A propósito, dos eleitores de primeira viagem, 7 em 10 votaram em Obama.

Se dependesse apenas do voto masculino, não se sabe no que daria a eleição. Foram 49% para Obama, 48% para McCain. Se dependesse apenas do voto branco, daria McCain por 55% a 43%. Embora, proporcionalmente, mais homens brancos votaram em Obama do que em qualquer outro candidato democrata desde Jimmy Carter (1974), Bill Clinton incluído.

Além disso, Obama ganhou no Nordeste, no Meio-Oeste e no Oeste. Perdeu no Sul (Arkansas, Oklahoma, Louisiana, Tennessee, Missisippi, Alabama, Georgia e Carolina do Sul), embora tivesse obtido uma vitória histórica – com perdão pelo adjetivo – na Carolina do Norte.

A coalisão pró-Obama foi também uma coalisão de motivações – o que a ênfase no “voto da América” que percorre a mídia torna mais difícil discernir.

Os negros votaram em Obama, antes de tudo, porque era o primeiro deles escolhido candidato por um dos dois grandes partidos nacionais, portanto o primeiro a ter chances reais de chegar lá.

O mestiço Obama, no Brasil, seria mulato. Nos Estados Unidos de duas cores, negro. E, como tal, os negros o encamparam. Perguntado, depois da vitória, se preferia se referir a Obama como meio-branco e meio-negro, ou simplesmente negro, um barman de Washington respondeu: “Negro. Porque significa mais.”

Não menos revelador – e neste caso também por relativizar a teoria de que “a América” elegeu Obama – foi um comentário recolhido pelo correspondente do Globo em Washington, José Meirelles Passos, em Birmingham, Alabama.

“Sempre houve, no fundo, a sensação de que os negros não podiam ser parte do povo americano, e muito menos do sonho americano”, disse-lhe Jacqueline Wood, diretora-assistente do Programa de Estudos Afro-Americanos da Universidade do Alabama. “Nós estávamos sentados na cozinha. Agora passamos para a sala de visitas.”

Os jovens votaram em Obama principalmente por se identificar com o mais inspirador (“Yes, we can”) dos políticos americanos desde John Kennedy e decerto o mais singular deles: pelas origens, trajetória, personalidade, estampa – e coolness.

Também junto às mulheres funcionaram as suas “armas de atração em massa”. Com uma particularidade que, de novo salvo engano, só foi destacada na imprensa graças a um artigo no New York Times da sexta-feira, 7, pelo sociólogo jamaicano Orlando Patterson, da Universidade Harvard.

”Essa campanha, de maneira notável, foi uma reencenação da inteira e entrelaçada luta de negros e mulheres pela inclusão política”, observou. “A primeira vez que rejeitaram o seu confinamento ao papel de virtuosa maternidade na esfera privada no início da República foi ao liderar o combate muito público pela abolição da escravatura.”

As conquistas negras sempre pressagiaram os avanços femininos, lembra Patterson, “embora não sempre pelos motivos mais nobres”. Ou seja, o movimento pela emancipação das mulheres se nutria da seguinte rationale: afinal, se os negros podem votar, podem encontrar na lei proteção contra a discriminação e disputar cargos eletivos, por que não nós, mulheres?

A partir dos anos 1980, pela primeira vez desde que passaram a ter direito ao voto, as mulheres passaram a votar proporcionalmente mais do que os homens e em candidatos comparativamente mais progressistas.

”Em termos demográficos crus, o mais importante fator da vitória de Obama foi a margem de 13 pontos a seu favor no eleitorado feminino”, assinala o sociólogo.

De fato, a vantagem de Obama foi relativamente maior entre os mais jovens. Mas estes são apenas 18% do eleitorado. Vale para os hispânicos: como os jovens, 2 em cada 3 deles votaram em Obama; mas representam somente 8% do eleitorado. Já as mulheres (56% pró-Obama) pesaram mais porque são 53% do eleitorado.

E os trabalhadores brancos, aqueles a quem, nas prévias do Partido Democrata, e no seu pior momento, Hillary Clinton pediu o voto com uma mensagem que se curvava ao seu preconceito (”Hard-working Americans; White hard-working Americans…”)? O que levou sabe-se lá quantos deles a votar em Obama?

A resposta, numa palavra, parece ter sido a crise. Como se tivessem posto num dos pratos da balança o medo de ter um presidente negro, no outro o medo de ter um presidente branco incapaz de salvá-los do naufrágio econômico.

O New York Times ouviu um deles, no subúrbio de Levittown, Pensilvânia (Estado em que McCain investiu pesadamente, em vão, na reta final da campanha). O técnico em ar-condicionado Joe Sinitski disse ao repórter Michael Sokolove:

”Durante muito tempo eu não podia ignorar o fato de que Obama é negro, se é que me entende. Não me orgulho disso, mas fui criado a pensar que não há negros bons. Eu podia ver que ele é muito inteligente, e isso conta para mim, mas meu instinto ainda era o de fechar com o branco. Mas, quando ele escolheu [a governadora do Alasca] Sandra Palin para vice, com todos os problemas que a gente tem, isso não mostrou inteligência da parte de McCain. Não dizia coisa boa dele em geral.”

O interesse próprio prevaleceu sobre o racismo, em suma.

O que vai acontecer com o racismo americano não se pode prever. O lugar-comum que se encontra numa página dos jornais e na outra também é que o próprio triunfo de Obama – e a sua repercussão mundial sem paralelo – funciona por si só como um breve contra o preconceito.

Tomara. Afinal, o homem tem uma capacidade única de fazer com que as pessoas ponham para fora o que têm de melhor. A euforia dos europeus, por exemplo, é o reverso da medalha da hostilidade européia aos imigrantes, principalmente de pele escura.

Mas, nos Estados Unidos, há apenas quatro meses uma pesquisa nacional mostrou que apenas 30% dos eleitores brancos diziam ter uma opinião favorável de Obama. E mais: cerca de 60% dos entrevistados negros – e não mais de 34% dos brancos – achavam que as relações raciais no país são em geral ruins.

A pesquisa revelou que muitos padrões raciais na sociedade americana permanecem intocados nos anos recentes. Muito pouco mudou no componente racial da vida cotidiana no país desde 2000, quando o New York Times publicou uma série de reportagens intitulada “Como a raça é vivida na América”.

Exemplo: mais de 40% por cento dos negros americanos acham que foram parados pela polícia por causa da cor de sua pele, a mesmo índice de respostas da pesquisa de oito anos atrás.

”Devagar com o andor pós-racial”, escreveu na Folha o correspondente Sérgio Dávila. “Os Estados Unidos mudaram, os novos eleitores e os eleitores novos ajudaram a eleger Barack Obama – mas foi preciso uma crise econômica sem precedentes e o equivalente ao gênio negro na política concorrendo para que isso acontecesse.”

Toda eleição, obviamente, tem a sua circunstância. A desta, nos Estados Unidos, se chamou George W. Bush, atolando americanos em duas guerras, nos maiores índices de pobreza e desigualdade desde os impropriamente chamados Anos Dourados (a década de 1920), e, enfim, no colapso financeiro e na recessão.

Foi o que decidiu a parada em favor de Obama. Antes do derretimento de Wall Street, não custa lembrar, ele e McCain estavam cabeça a cabeça nas pesquisas.

Então, uma coisa é dizer que Obama encarna o que a América tem de melhor ou que a América ficou melhor com a sua vitória. Outra coisa é dizer que o resultado eleitoral comprova a excepcionalidade dos Estados Unidos, o poderio incomparável de seus valores.

A imprensa ficou devendo um debate sobre essas duas visões – um debate, em suma, sobre a democracia na América.

10/11/2008 - 18:10h Rio: Zona Sul, curral

Fernando Gabeira (PV) votou na zona sul do Rio de Janeiro
Gabeira votou na zona sul, onde obteve 70% dos votos


O que o Rio precisa é de um movimento a favor das idéias divergentes

OCTAVIO GUEDES – O GLOBO

A definição é clara: curral eleitoral era um lugar nas cidades onde se mantinham eleitores do campo incomunicáveis até a hora da votação. Dali, guiados pelo chefe político, eles saíam levando a cédula já preenchida para depositar na urna. O resultado não trazia surpresa: o candidato abençoado recebia quase a unanimidade dos votos.

Se existe uma região na cidade do Rio que se aproxima desta descrição, ela se chama Zona Sul.

Quem afirma isso são os números objetivos dos mapas eleitorais. Foi ali que um dos candidatos a prefeito obteve 70% dos votos contra 30% do adversário.

Ou seja, de cada dez pessoas, sete seguiram a mesma orientação política. Em nenhuma outra parte da capital essa mesmice bovina ocorreu em tamanha proporção.

Nos currais, os eleitores tinham hospedagem, alimentação e recreação.

Uma agenda tão movimentada que não havia brecha para se discutir política. O objetivo era este mesmo: ficavam todos incomunicáveis.
O que isso tem a ver com a Zona Sul? Tudo.

O eleitor incomunicável é aquele que se encerra em si mesmo, não é afável, nem sociável quando o assunto é escolha eleitoral. Ele não quer ouvir. Está sempre aberto ao monólogo. Ele vê a eleição como uma disputa entre o bem e o mal; as luzes e as trevas, o progresso e o atraso. Não tem meio-termo, nem argumentos. Está decidido e ponto.

Quem pensa o contrário está errado.

Surge, então, o discurso mais perverso: a batalha eleitoral deve ser travada em outras bandas, sempre acima da linha do equador: na Zona Oeste e no subúrbio. Como se fosse necessária uma cruzada para levar esclarecimento a eleitores que, por puro preconceito, são considerados mais suscetíveis ao abuso do poder econômico, à corrupção e ao jogo sujo da política. Gente com pouca capacidade de reflexão, capaz de se impressionar com panfletos apócrifos de apelo moralista.

Este artigo, acreditem, não é contra a Zona Sul.

Mas a favor da diversidade do pensamento político que, nas últimas eleições, se expressou, principalmente, nas urnas da Zona Oeste (onde um candidato teve 57% dos votos e o outro, 42%) e do subúrbio (onde a divisão do bolo eleitoral ficou em 54% contra 45%). Nessas regiões, o equilíbrio eleitoral, muito distante da diferença de 70% x 30% da Zona Sul, prova que ali houve o debate, o confronto de idéias, o contraditório. Pode-se até não gostar do resultado, mas não dá para negar que a democracia foi exercida em sua plenitude.

E quando isso ocorre, não existem eleitores melhores ou piores. Existem escolhas, que devem ser respeitadas. O sambista Mauro Diniz tem uma tese que ajuda muito a explicar o Brasil: “Crioulo com fome é um país em guerra.” E são justamente esses eleitores com fome de saúde, transporte e educação os que votam com mais consciência. Não porque são melhores, mas por instinto de sobrevivência. Para eles, uma promessa não cumprida significa um filho numa escola que não ensina, um posto de saúde fechado na hora em que mais se precisa ou um transporte que, de tanto atraso, ameaça seu emprego. Durante quatro anos ele vai testar no seu dia-a-dia todas as promessas que ouviu. Mas, curiosamente, no discurso das milícias ideológicas e das passeatas que hoje clamam por revisão do resultado eleitoral esses eleitores são justamente os acusados de se deixarem levar pelo lado negro da política.

E mais: até quando o cidadão escolhe um candidato que oferece serviços públicos em seu centro social, ele está fazendo política. Seu voto é um recado claro do eleitor ao Estado ausente.

Se olharmos pelas lentes de Robin Hood, podemos radicalizar: os centros socais dos ricos são a escola particular, o plano de saúde e seu carro.
Afinal, somos todos crioulos com fome de bons serviços públicos. E cada um busca as alternativas a seu alcance para compensar o vazio do Estado. Se a saída pode ser o contracheque, por que não pode o voto? O que o Rio precisa é de um movimento a favor do respeito à idéia divergente. O resto é puro preconceito. Ou paixão política. Ou curral eleitoral mesmo!

OCTAVIO GUEDES é jornalista

09/11/2008 - 14:17h Universitários das cotas conquistam sucesso no mercado

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Vindos de comunidades pobres, os estudantes negros precisam superar o preconceito na sala de aula

Márcia Vieira – AE

RIO – Jocelene de Assis Ignácio, 37 anos, ainda lembra com tristeza do dia em que, há 13 anos, entrou no banheiro da PUC, universidade de elite da zona sul do Rio, e viu símbolos nazistas desenhados na parede ao lado da frase “os alunos da Baixada vão baixar o coeficiente de notas da PUC”. “Eles, brancos de classe média, eram os filhos da PUC. Nós éramos os filhos bastardos da PUC”, compara. “Mas eles se deram mal. Ninguém ia sair lá do pé da serra de Petrópolis, gastar quatro horas por dia no trem e no ônibus, para tirar cinco na universidade. A gente sempre estudou muito e perseguiu a nota alta.”

Negra, caçula dos sete filhos de uma servente, órfã de pai desde os nove meses de idade e moradora de Mesquita, na Baixada Fluminense, um bolsão de pobreza na periferia do Rio, Jocelene foi da primeira turma de alunos pobres a entrar para PUC, em 1995, num programa que precedeu a discussão sobre cotas nas universidades brasileiras. Foi um acordo entre Frei David Santos, fundador do Pré-Vestibular para Negros e Carentes, e a PUC que garantiu a bolsa para os alunos que passassem no vestibular.A discussão sobre a política de cotas nas universidades brasileiras ainda está longe de acabar. Tramita no Congresso Nacional há nove anos, sem prazo para votação, um projeto que reserva 50% das vagas nas universidades federais para alunos da rede pública. O debate é acalorado. De um lado, fala-se em racismo e justiça social. De outro, argumenta-se com o medo que a reserva de cotas baixe o nível do ensino nas universidades brasileiras. Mesmo nas 35 instituições que já aderiram às cotas para inclusão de alunos pobres, ainda não há estudos suficientes sobre a eficácia do sistema.

Nas duas universidades cariocas, PUC (privada), e UERJ (pública), com sistema de cotas há cinco anos, há alguns sinais do resultado da convivência entre alunos pobres, de classe média e da elite carioca dentro do campus. As taxas de aprovação nas disciplinas e de evasão dos alunos pobres são iguais as dos outros alunos. A convivência dentro da universidade entre bolsistas ou cotistas, de um lado, e professores e alunos tradicionais, de outro, ainda é conflituosa. E não resta dúvida de que a passagem pela universidade transforma a vida, para melhor, dos alunos beneficiados.

Andréia Clapp Salvador, professora de Serviço Social da PUC, acabou de apresentar sua tese de doutorado sobre o assunto. Em “Estudo da Política de Inserção de Alunos Pobres e Negros na PUC-Rio” ela conta como foi a passagem pela universidade e o que aconteceu com os jovens que entraram pelo sistema de bolsas entre 1993 e 2001. “Eles passaram por muitas dificuldades, sobretudo econômicas, e sofreram o que eles chamam de preconceito de nota porque achavam que alguns professores não confiavam na capacidade de aprendizado deles. Mas se formaram no prazo normal e saíram daqui trabalhando nas profissões que escolheram”, diz. “Chama atenção também o fato de eles serem muito politizados e extremamente solidários entre eles.”

Os primeiros alunos bolsistas da PUC, todos da área social ou de humanas, formaram uma espécie de rede de proteção para sobreviver dentro do campus. Quem tinha dinheiro pagava um prato no bandejão, que era dividido com mais dois amigos. Quem era chamado para um estágio levava junto outro bolsista. Um lia o trabalho do outro. Alugavam um quitinete de 30 metros quadrados no edifício Minhocão, ao lado da PUC, onde dormiam até nove alunos que não tinham dinheiro para passagem. Andavam sempre juntos. Juntos organizaram a Semana de Consciência Negra na PUC, despertando manifestações dos alunos tradicionais, que ameaçaram fazer a Semana de Consciência Branca.

Jocelene é uma das lideranças desta rede. Entrou para Serviço Social, assim como a maioria dos alunos do PVNC daquele ano. “Só duas alunas na turma não eram bolsistas”, lembra. Tomou tanto gosto pelo estudo que depois fez especialização na UFRJ, mestrado na UniRio e agora estuda no doutorado da PUC. Com tantos diplomas passou no concurso da prefeitura do Rio para assistente social. Ganha algo em torno de R$ 2,5 mil, um salário inimaginável para todas as suas amigas de infância. Umas são empregadas domésticas. Outras caixas de farmácia. A maioria está desempregada. Jocelene, que agora vive num apartamento alugado na Lapa, centro do Rio, convenceu duas irmãs a fazerem faculdade (uma em biologia e outra em geografia). Sonha ainda em fazer pós-doutorado na França e comprar um apartamento próprio. Mas acha que nunca vai parar de brigar. “Não tenho paz nunca. O tempo todo eu tenho que provar que sou capaz. Foi assim na PUC. É assim no mercado de trabalho.”

A vida não é mais fácil na UERJ. Mariana Ferreira, aluna de direito da primeira turma de cotistas, lembra dos embates em sala. “As aulas eram muito efervescentes. A gente chegou com o pé na porta. Não entramos pedindo licença”, lembra. “Em algumas turmas no curso de direito ainda hoje existe uma divisão. De um lado da sala ficam os cotistas, do outro os não cotistas. É muito triste.” Mesmo assim, continua achando que o sistema é o melhor para promover mudança social. Mas reconhece que a vida fora da universidade é difícil. “O diploma de direito da UERJ abre muitas portas, mas mulher negra, de cabelo trançado como eu não consegue estágio fácil em escritório. Só consegui em setor público.”

A batalha de Johny Fernandes Giffoni, branco, morador da comunidade do Anil, na zona oeste do Rio, é para entrar no mercado de trabalho. Filho de um motorista e de uma dona de casa, entrou para um dos cursos mais disputados da PUC, o de direito. No vestibular de 1999, passou na reclassificação junto com outros oito bolsistas numa turma de 40 alunos. No mesmo ano montou uma chapa de bolsistas e não bolsistas para o DCE (Diretório Central de Estudantes). Ganhou, mas na festa da vitória, sentiu na pele a primeira manifestação contra a sua presença na faculdade. “Uma galera, que tinha sido derrotada, cercou a gente e começou a gritar ‘seu bando de favelados, voltem para o lugar de onde vieram’. Um amigo meu partiu para cima, mas a gente segurou a onda, os seguranças apareceram e não rolou pancadaria.”

Na sala, quase apanhou dos amigos no debate sobre pena de morte. Ele e os outros bolsistas eram contra. Uma grande parcela dos outros alunos a favor. As divergências eram corriqueiras. “Eles queriam discutir leis de debêntures. Eu queria discutir direito do favelado construir na laje”, lembra com bom humor. Tempos difíceis, mas inesquecíveis. “Foi a melhor fase da minha vida. Eu tinha que estudar três vezes mais do que o aluno tradicional, mas cresci intelectualmente, aprendi uma profissão e no meu reboque virão mais uns dez jovens da minha comunidade que antes achavam ser impossível fazer universidade.” O único problema é que a família e os vizinhos esperam que Johny fique rico depois de estudar cinco anos na PUC. “Dizem que se eu não ficar rico, ninguém mais fica no Anil.”

Mais do que ficar rico, seu sonho é ser defensor público. “Não posso colocar terno e gravata e ir trabalhar num escritório. O lugar de onde eu vim continua igual. A milícia e o tráfico dominam, o esgoto não é tratado, falta água, a escola pública é ruim. Ser defensor é um projeto ideológico-político.” Desde 2005 vem tentando um lugar na defensoria estadual. Não passou nas provas do Rio e de São Paulo. Mas insiste. Todo dia estuda pelo menos oito horas uma sala da PUC para o concurso em Mato Grosso do Sul e em Belo Horizonte. Vive com os R$ 400 que ganha dando aulas num curso técnico e no pré-vestibular comunitário. “Se eu passar vou ganhar um ótimo salário (cerca de R$11 mil no Mato Grosso do Sul) e ainda trabalhar no que eu gosto. Não existe um defensor público vindo da pobreza. Temos que abrir mais esse caminho.”

O diploma de geógrafo pela PUC garantiu a Carlos Humberto da Silva, um ex-office boy, morador de Nova Iguaçu, até uma passagem por Harvard, a universidade americana. “Fui o primeiro brasileiro que participou do programa piloto promovido pela Harvard e a PUC.” Passou também seis meses no México trabalhando numa ONG. Agora trabalha no Museu do Índio, no Rio. Só não consegue é explicar para a mãe, dona Léa, cozinheira de um hospital, o que um geógrafo faz. “Ela confunde até hoje. Disse para uma amiga, toda orgulhosa, que eu sou físico”, ri.

09/11/2008 - 10:49h Pivôs

VERISSIMO – O GLOBO

verissimo.jpgO golfe, o tênis e as corridas de Fórmula-1 eram atividades típicas de brancos. Até pouco tempo não se concebia um negro num country club a não ser como carregador de tacos ou, com raras exceções (como Arthur Ashe há alguns anos), numa quadra de tênis a não ser como gandula, ou que nome tenha aquela garotada que junta as bolas. E um negro chegar a campeão de Fórmula-1 era tão inimaginável como um dia um negro chegar a presidente dos Estados Unidos. Hoje, Tiger Woods é o melhor golfista do mundo e, dizem alguns, de todos os tempos, as irmãs Venus e Serena arrasam nas quadras de tênis e Lewis Hamilton acaba de ganhar o campeonato de Fórmula-1 do ano. Quer dizer — estava claro que ia dar Obama.

Já se disse que as eleições presidenciais americanas são tão importantes que todo o mundo deveria votar nelas. Alguns foram mais longe e, depois da reeleição de Bush, disseram que todo o mundo deveria votar nas eleições presidenciais americanas, menos os americanos. Mas a eleição de Obama os redimiu. Ele certamente vai entrar na lista dos presidentes “pivotais” que nos últimos 80 anos redirecionaram a História dos Estados Unidos, nem sempre para o lado certo, pelas suas personalidades ou pelas suas ações. A começar por Franklin Roosevelt, cuja situação, ao tomar posse na Presidência do país mergulhado numa crise econômica cujo epicentro também era Wall Street, mais se parece com a de Obama, hoje, e que também inspirou a nação a mudar para se salvar. Outro “pivô” histórico foi Kennedy, que tem em comum com Obama o fato de se destacar mais pelo impalpável — carisma, fotogenia etc. — do que por competência provada, e por também ter vencido um preconceito supostamente irreversível contra uma minoria, no caso os católicos, para chegar aonde chegou. De Kennedy hoje se diz que teve mais fulgor do que substância, ou que lhe faltou tempo para ser um presidente que correspondesse à sua imagem de juventude e novidade. Mas, durante o pouco tempo que teve, a imagem eletrizou o país. Do mesmo jeito, a importância simbólica da eleição de Obama talvez seja a sua única importância, mas já é o suficiente para fazer história.

Outro “pivotal” foi Ronald Reagan, que se elegeu dizendo que o governo não era a solução, era parte do problema, a frase que inaugurou a era de desregulação e permissividade que deu na crise de agora, e que, com todo o mundo financeiro dependendo da ação de governos para solucionar seus problemas, ganhou uma ironia amarga. Com este pivô o Obama não tem nada a ver

08/11/2008 - 12:27h Elementar, minha querida Carta Capital

Carta Capital é uma revista que faz um jornalismo sério e que por isso merece meu respeito e apoio.

Três semanas atrás um artigo sobre as eleições municipais afirmava, erradamente, que o comercial polêmico da campanha da Marta tinha contado com minha participação.

Enviei uma carta para indicar que a informação era inverídica (ver novamente minha carta embaixo), ressaltando que o autor da matéria não tinha sequer me contatado para checar a informação. Minha carta recebeu como resposta a afirmação que o jornalista “conversou com fontes que têm posição privilegiada na equipe de campanha da ex-prefeita” que teriam informado o repórter sobre minha participação e responsabilidade. Curioso a revista não considerar que, mesmo contando com essas “fontes”, foi um erro não ter checado a “informação” comigo.

O dever da revista é tentar oferecer ao leitor veracidade. Amparado em “fonte anônima” e sem incluir minha própria versão, o jornalista se presta em verdade a ser manipulado por interesses que em princípio não o concernem. Ou sim?

Em todo caso, os membros da coordenação da campanha enviaram conjuntamente uma carta à revista e obtiveram como resposta uma grosseria (vejam aqui embaixo).

No fundo pouco importa se o jornalista inventou o fato a mim atribuído, ou se alguém da própria campanha mentiu para ele. O que sim importa é que a revista errou. Transmitiu uma falsa “informação” e persiste em querer se esconder perante as “fontes” para justificar ter publicado uma informação que não procede.

Fico perguntando para meus botões (não é só Mino que tem botões). Porque a revista não me procurou antes de publicar essa “informação”, para ouvir minha versão?

Evidentemente não estou nem aí sobre quem possa ter transmitido a mentira para o repórter de Carta Capital. A falta de coragem e de ética me parecem duas características muito presentes nos meios políticos e jornalísticos. Pensava que com Carta Capital era um pouco diferente.

A revista tem o direito evidente de preservar uma fonte mentirosa. O que ela não pode é publicar uma mentira e fazer de conta que a responsabilidade não é dela e sim da “fonte” anônima que a enganou. Não fui eu quem fui “traido”, foram a verdade dos fatos nas páginas de Carta Capital e a vítima foram seus leitores.

Luis Favre

http://www.cartacapital.com.br/uploads/destaques/1226066704934.jpg

Carta a Carta Capital publicada na edição de hoje da revista (edição 521 com data 12/11/2008)

Em sua edição de número 519, Carta Capital publicou correspondência de Luis Favre, em que ele negava informação publicada pela revista de que teria sido um dos responsáveis por comercial da campanha de Marta Suplicy. Em nota de resposta, Carta Capital afirmou que “conversou com fontes que têm posição privilegiada na equipe de campanha da ex-prefeita”, que teriam fornecido a “informação”. Somos coordenadores da campanha de Marta Suplicy, responsabilidade que exercemos publicamente e, em face da nota de Carta Capital, escrevemos para afirmar que Luis Favre não teve nenhuma participação na elaboração de programas e comerciais da campanha, tampouco opinou sobre eles. E o fazemos sem nos esconder sob o manto conveniente do anonimato, que encobre propósitos e interesses.

Carlos Zarattini
Rui Falcão

Simão Pedro
Valdemir Garreta
Jilmar Tatto
Antonio Carlos Gambarini
Luciano Barbosa
Tadeu Dias Paes
Glauco Piai

Resposta da Redação
Sugerimos ao Sr. Luis Favre que reúna os acima-assinados para uma partida do famoso Detetive. Talvez ele descubra quem são os “culpados” e se eles o apunhalaram na cozinha ou na sala de estar.

Carta enviada sábado 18/10/2008 para o correio dos leitores da revista “Carta Capital”

“O artigo “É pau, é pedra”, de Rodrigo Martins traz uma menção a minha pessoa, a partir de uma fonte anônima, como um dos responsável pelo comercial da campanha da Marta, objeto do artigo. O anonimato da fonte guarda estreita relação com o calíbre da mentira.

Não fui contatado pelo jornalista para checar a veracidade da suposta “informação”. Os que me conhecem sabem que, diferentemente de aqueles que se escondem no anonimato para apunhalar companheiros pelas costas, não sou dos que escondem suas responsabilidades no que fazem.

Não tenho participado desta campanha eleitoral, não dei nenhuma opinião sobre nenhum programa o comercial; programas e comerciais que vi, como o resto dos paulistanos, quando transmitidos na TV.

Tenho publicamente opinado sobre a campanha no meu blog, Leituras Favre, assim como sobre outros assuntos da política. Rejeito qualquer insinuação de homofobia ou preconceito dirigidos contra Marta e contra minha pessoa, pois sempre identificamos nossa luta com o combate a toda discriminação.

Gostaria de acrescentar que Marta Suplicy não é dos políticos que “transferem” para outros suas próprias responsabilidades. Talvez acostumados a políticos que praticam isto com desinvoltura, alguns se permitem duvidar da palavra dos que sempre agiram com autenticidade e transparência.”

Luis Favre
18/10/2008

07/11/2008 - 15:40h California: dois passos a frente e um atrás

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Blog O biscoito fino e a massa

Em meio à comemoração, uma derrota importante
É chave não perder de vista as derrotas parciais que tivemos na noite histórica do 04 de novembro. Além da emocionante vitória de Obama, as coisas correram razoavelmente bem nas eleições para o Senado e a Câmara dos Representantes. Mas houve pelo menos uma derrota que me doeu muito. Na Califórnia, estado progressista, foi aprovada por 52,5% a 47,5% a odiosa Proposição 8, patrocinada por grupos religiosos, que estabelece que “somente o casamento entre um homem e uma mulher será reconhecido pelo estado”. Na mesma noite em que ajudou a eleger o primeiro presidente negro da história, a Califórnia deu uma banana para gays e lésbicas.

Vamos aos números.

Eu não gostaria de estar dizendo isso, mas é a pura verdade: o comparecimento massivo do eleitorado negro foi decisivo para a aprovação da proposição. Entre os brancos, o “não” ganhou por 51 x 49, mas entre os negros o “sim” goleou por 70 x 30. Entre os latinos, muito numerosos na Califórnia, o “sim” também venceu, por 53 x 47. Entre as mulheres negras, 75% votaram a favor de se retirar o direito dos gays ao casamento. O eleitorado feminino costuma ser muito mais progressista que o masculino nos EUA, mas nesta questão o voto foi praticamente idêntico. Os jovens votaram massivamente contra a proposição discriminatória. A turma com mais de 35 votou massivamente a favor.

John McCain apoiava a proposição e Barack Obama, professor de direito constitucional, se opunha. A histeria contra o casamento gay foi decisiva para a derrota de John Kerry em 2004 e, neste ano, Obama elaborou uma posição com mais nuances sobre o assunto. Ele não defende o “casamento gay”, mas também não defende casamento nenhum como matéria constitucional. Argumenta que o casamento deve ser deixado para que cada igreja resolva como queira, e que a lei do país se limite a garantir a todos os casais direitos idênticos (de adoção, propriedade conjunta, herança etc.) como elementos de uma união civil.

O problema é o raio da palavra, “casamento”.

Se você colocar numa cédula a idéia de restringir o direito de gays e lésbicas à adoção, herança etc. (ou seja, os direitos que costumam acompanhar o “casamento”), ela não passará, mesmo em estados mais conservadores. Basta definir o “casamento” como “a união de um homem e uma mulher” que a proposição passa, mesmo nos lugares mais liberais. É a mesma idéia, mas dependendo de como ela for formulada, o resultado é distinto. Se, amanhã ou depois, algum grupo religioso maluco resolver emendar a constituição proibindo ateus de serem professores nas escolas primárias e secundárias, a proposição passa, mesmo nos lugares mais progressistas. Esta foi uma das chaves das vitórias conservadoras nas chamadas “guerras culturais” nos EUA: mobilizar os medos e preconceitos da maioria silenciosa.

Para que vocês tenham uma idéia do absurdo da coisa: na mesma cédula em que elegeram Obama e aprovaram a proposição 8, os californianos também aprovaram a proposição 2, que exige gaiolas mais confortáveis para as galinhas. Não, não estou brincando. Siga o link. Na mesma noite em que estabeleceu os direitos das galinhas, a Califórnia decidiu que gays e lésbicas são cidadãos de segunda classe. Este blog não tem nada contra galinhas e porcos e se opõe a quaisquer maus-tratos gratuitos de animais. Mas continua firmemente antropocêntrico.

Ainda há esperanças de que numa nova Suprema Corte – com mais um ou dois juízes nomeados pelo Presidente Obama –, proposições como a número 8 sejam definitivamente declaradas inconstitucionais. Afinal de contas, elas são um tapa na cara da décima-quarta emenda à constituição americana.

Mas essa batalha é morro acima, não há dúvidas. O blog manda seu abraço solidário a todos os seus leitores gays e lésbicas, decepcionado com essa importante derrota.

escrito por Idelber Avelar

02/11/2008 - 14:14h A ética ao gosto do cliente

“quando decidiu explorar a vida privada do adversário na TV -acreditando que pudesse despertar o preconceito de parcela da sociedade a partir de uma insinuação velada, mas óbvia, de homossexualismo-, Marta rompeu uma barreira e fez uma aposta de risco -ou baixa, a depender do ângulo.”

É assim que escreve Fernando de Barros, editor da Folha. Atribuindo a Marta não só a responsabilidade genérica pelo comercial da campanha eleitoral, mas a intencionalidade própria para “despertar o preconceito”. O “jornalista” precisa atribuir a Marta a responsabilidade, não em geral, mas especifica e individual para poder atingi-la politicamente. Por isso o “jornalista” ignora as explicações dadas no próprio jornal pelo marqueteiro Joào Santana e ignora também as declarações de Marta sobre o fato que só viu o dito comercial depois que a polêmica fora lançada.

A manipulação do “jornalista” visa a atingir a figura da Marta, pouco importa os fatos. Por isso ele não escreve sobre a “intenção” do marqueteiro, ou dos petistas, ou da campanha e sim de Marta Suplicy.

A falta de escrúpulos do “jornalista” mal esconde seu objetivo. Faz anos que ele senta em cima dos “métodos válidos e os limites éticos de uma campanha eleitoral”, como prova o fato que nada diz, nem seu jornal, sobre os ataques à vida privada de Marta nas eleições de 2004, por exemplo.

Vale lembrar que foi a Folha SP a que em 2001 publicou o ataque mais vil e violento contra Marta e minha pessoa, lançando assim a campanha de ataques pessoais sobre a vida afetiva da Marta. Como eu tenho vergonha na cara, jamais me permitiria escrever que quando “Fernando de Barros decidiu explorar a vida privada da Marta no seu jornal, o fez para levantar o preconceito contra ela”. Mesmo que Fernando de Barros esteja longe de desempenhar um papel marginal na repetição destes ataques (ele é o autor recente de uma crônica falando a vontade do meu casamento, por exemplo), seria injusto atribuir a ele o que foi uma decisão do próprio jornal. A verdade exige respeito.

O objetivo de seu artigo hoje é evitar que os petistas possam utilizar os argumentos do ombudsman da Folha condenando a parcialidade do jornal. O argumento já tinha sido invocado quando o predecessor do atual ombudsman se demitiu, pois os donos do jornal não queriam que sua crônica diária na internet pudesse ser utilizada por membros do governo federal para criticar a Folha.

Fernando de Barros considera a opinião do ombudsman respeitável, já a dos petistas não. Mesmo quando a dos petistas coincide com a emitida pelo próprio ombudsman, ou seja que a Folha favoreceu Kassab contra Marta não permitindo nenhum equilibro no segundo turno no tratamento dispensado a cada candidato.

Vindo de petistas ou do ombudsman da Folha, os fatos são os mesmos: a Folha pegou gancho no comercial, atribuiu a ele um conteúdo homofóbico, depois fez uma campanha em defesa de Kassab e contra o preconceito da Marta e completou sua campanha publicando na capa declarações de Kassab sobre assédio das mulheres e negando homossexualidade. Não respeitou qualquer equilibro no tratamento e as explicações de Marta ou do seu marqueteiro cumpriram só o papel de registro. Foram publicadas para justificar um suposto equilibro que o ombudsman mostrou inexistente.

Luis Favre

31/10/2008 - 10:50h Preconceituoso? Quem, eu?

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Nicholas Kristof – O Globo

No último ano e meio, uma equipe de professores de psicologia conduziu experimentos sobre como os americanos vêem Barack Obama sob o prisma da raça. Eles usaram uma técnica comum, o teste de associação implícita, para medir se as pessoas viam Obama e outros candidatos como mais estrangeiros ou mais americanos. Descobriram que os entrevistados — particularmente ao serem levados a pensar em Obama como um candidato negro — subconscientemente o consideraram menos americano do que Hillary Clinton ou John McCain.

A pesquisa indica que o alvo do estudo — estudantes de ensino superior da Califórnia, muitos dos quais apóiam Obama — inconscientemente o percebe menos americano do que o expremier britânico Tony Blair.

Não é que algum deles realmente acredite que Obama seja estrangeiro. Mas o teste mede a forma como a mente trabalha, e, ao seguir instruções para classificar imagens rapidamente, o cérebro se recusa a aceitar um candidato negro como completamente americano.

O resultado é importante: quanto mais dificuldade a pessoa tem em classificar Obama como americano, menos provável que vote nele.

É fácil ser cético sobre esse estudo, então teste seus preconceitos inconscientes em https://implicit.harvard.edu/implicit/demo ou em http://backhand.uchicago.edu/Center/ShooterEffect.

Raça é um tema controvertido nos EUA, particularmente no contexto desta campanha.

Muitos eleitores de Obama acreditam que seu candidato estaria muito à frente se não fosse pelo racismo, enquanto eleitores de John McCain acreditam que se Obama fosse branco nem teria sido considerado para a Presidência.

Alguns pesquisadores relacionam atitudes raciais a um benefício na época da evolução.

Devia haver uma vantagem evolutiva em reconhecer instantaneamente se um estranho era da própria tribo ou um inimigo. Há evidências de que a amígdala, centro no cérebro para emoções, emite um sinal de alerta ao perceber pessoas “diferentes”.

Apesar disso, nossos preconceitos são em sua maior parte culturais. Uma razão para achar isso é que muitos negros inconscientemente têm preconceitos pró-brancos. Evidências sugerem que, embora a maioria dos americanos aspire a oportunidades iguais para todos, nossas mentes não são tão igualitárias assim.

“O estudo revela a brecha entre nossas mentes e nossos ideais”, disse Thierry Devos, professor da Universidade Estadual de San Diego que conduziu a pesquisa junto com Debbie Ma, da Universidade de Chicago.

Pesquisas mostraram que a maioria dos americanos, incluindo latinos e de origem asiática, associam a idéia de americano com a pele branca.

Alguém pode argumentar que Obama é registrado como forasteiro em nossas mentes devido ao pai queniano. Mas experimentos chegaram ao mesmo resultado com esportistas negros. Além disso, Devos descobriu que quando se pediu aos participantes para se concentrarem na idade dos candidatos ou no partido, Obama e McCain foram percebidos como igualmente americanos.

Foi apenas quando as pessoas foram estimuladas a se concentrar na cor da pele que perceberam Obama como um estrangeiro.

Esta eleição cria a oportunidade para uma conversa adulta sobre as turvas complexidades sobre raça, em parte porque, quando as pessoas são despertadas para preconceitos inconscientes, têm a oportunidade de superá-los.

20/10/2008 - 15:31h “Às vezes um charuto é só um charuto”

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Mesmo após o apito do ombudsman da Folha, que mostrou a verdadeira campanha eleitoral contra Marta realizada no jornal na última semana, o editorialista Fernando de Barros decidiu aportar seu toque pessoal, na sua coluna de hoje.

Sendo um dos responsáveis do apedrejamento público da Marta e particularmente da campanha vil de exploração da vida privada feita contra nós pela Folha, o homem não se dá por aludido e  sem pestanejar atribui a outros “a carga pesada de truculência sexista contra a candidata”.

Vou repetir, foi a Folha de São Paulo quem incentivou permanentemente uma campanha de exploração da vida privada da Marta, a começar pela ação conjunta realizada pela Folha e Claudio Humberto nas páginas do jornal onde trabalha Fernando de Barros. (ver A Folha e a nossa vida privada).

A carga de hoje

Fernando de Barros age como aqueles machistas que atribui à saia curta da mulher, ao jeito de se maquiar, ao horário em que estava na rua, às “razões” pela qual foi estuprada. Até recentemente juízes assim discursavam e julgavam, considerando que o criminoso encontrava circunstâncias atenuantes no comportamento da vítima.

Vejam só, para Fernando de Barros, (Marta) “Se diz vítima das invasões bárbaras da mídia em sua vida pessoal, mas, prefeita, não hesitou em fazer de seu casamento um circo espalhafatoso para consumo das revistas de celebridades.”

O editorialista diz que ela se diz vítima, mas a culpa é dela mesma.

Quem é você para emitir um julgamento sobre nosso casamento? Se ser casado e ter filhos não é algo que diga respeito a vida pública de ninguém, porque as páginas do seu jornal dedicam e dedicaram tanto espaço para nosso casamento, apresentado como um circo, ao nosso relacionamento, a separação da Marta etc.?

Na época de nosso casamento Fernando de Barros já tinha escrito algo semelhante, porque recusamos os insistentes pedidos da Folha para “cobrir” nossa festa, da qual a mídia foi excluída. O desejo da Folha em tratar de nossa vida privada era tão forte, que até tentou infiltrar um repórter disfarçado de motorista, que, descoberto, foi posto para fora.

O circo foi montado pelos Fernandos de Barros que permanentemente expõem a vida privada de alguns e reivindicam para eles este direito, com o pretexto da transparência supostamente devida pelas figuras públicas aos cidadãos. Os mesmos que nada disseram ou escreveram sobre a vida pessoal de Fernando Henrique Cardoso e de outros, nunca mostraram o mesmo “pudor” com a vida pessoal da Marta. Nós fomos vítimas da invasão permanente de nossa privacidade e o “estuprador” foi a Folha. O “pretexto” -a nossa “saia curta”-, foi a separação da Marta e nosso relacionamento. (Contardo Calligaris interpretou na época o significado psicoanalitico desse apedrejamento, falando dos comentários na cidade, mas era a Folha a que dava uma expressão mídiatica e política a eles) (2)

Dias antes do nosso casamento a Folha chegou a publicar um editorial, sob o título “O show da Marta” em que dizia “O próximo ato do show promete ser a festa de casamento com Luis Favre, tendo como padrinhos o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ministro da Fazenda, Antonio Palocci Filho.” (Editorial Folha SP 15/9/2003).

Até hoje Fernando de Barros não engoliu nossa recusa em dar a Folha entrevistas sobre nosso casamento e fotos exclusivas da cerimônia, como eles queriam. Nossa recusa tinha uma motivação central: de todos os jornais e revistas do Brasil, a Folha foi a que mais explorou politicamente contra nós, nossa vida pessoal. Dezenas de artigos, notas, coberturas, destaques, encontraram na Folha o eco generoso para espalhar e explorar nossa vida privada. (teve até a publicação de uma carta no Painel de Leitor da Folha propondo que Marta fosse excomungada) (1)

Por isso, aceitamos a solicitação do Diário de São Paulo e da revista Caras para publicamente falar de nosso casamento, sem dar margem a sacanagem do jornalismo marrom e obter um mínimo de decência na abordagem inevitável que a mídia faria de nosso casamento. Com Caras tínhamos a certeza que a cobertura seria estilo Caras; com a Folha a certeza do tratamento estilo Claudio Humberto.

O comercial com o “significado” da Folha

A má fé de Fernando de Barros é escancarada quando diz, falando do comercial “Diferentemente do “relaxa e goza”, um deslize verbal desastroso, aqui se tratou de uma ação deliberada.”

A frase infeliz da Marta, amplamente difundida, usada e reprisada, foi dela própria e meia-hora após pronunciada, as desculpas da própria Marta deveriam ter posto um ponto final ao episódio. A mídia viu uma oportunidade de destruir a vida política de Marta e usou e abusou da propagação da frase, não das desculpas. (basta ver como foi o tratamento dado pela mesma mídia ao truculento ataque de Kassab a um munícipe, ao grito de “vagabundo”).

O comercial de João Santana visava, segundo ele diz na entrevista à Folha, a mexer com o fato que as pessoas não sabem quem é Gilberto Kassab. Antes do primeiro turno, comercial de Alckmin tentou fazer o mesmo dizendo que Kassab era “dissimulado” e tinha “duas caras” e depois se apresentando com sua esposa e filhos. Porque a Folha não viu nisto uma incursão inaceitável com insinuações sobre a vida pessoal de Kassab e da Marta e não fez a mesma campanha?

A mídia não atribuiu nenhum significado particular, nem qualquer insinuação na campanha de Alckmin. Já com o comercial da campanha do PT a mídia diz que procurava explorar a suposta homossexualidade do prefeito. Este significado, foi a mídia que incorporou ao comercial, propagando-o como tal.

Perante essa interpretação e tendo a mídia incorporado esse significado ao comercial, Marta, que não tinha visto o comercial e que seria a última pessoa neste país a explorar a orientação sexual de alguém, declarou que lamentava que esta tivesse sido a leitura do comercial e ele foi retirado.

O charuto da Folha

Sigmumd Freud, o pai da psicanálise, diz que “as vezes um charuto é só um charuto”. Para a Folha, parafraseando Freud, quando se trata do PT “um charuto nunca é um charuto”. Já com os que a Folha protege: “um charuto sempre é um charuto”. Esse duplo tratamento, essa dupla moral e esse duplo linguagem é o da Folha e seus escribas. Talvez por isso a projetem nos outros.

A Folha, que permanentemente incursionou ou deu eco a questionamentos sobre a vida sexual, afetiva, a separação, o divórcio e o casamento da Marta vem posar de vestal?

Nossa vida privada permanentemente exposta nas páginas da Folha forneceu os temas amplamente explorados pelos demo-tucanos na ação política (paródia de nosso casamento com dois travestis na porta da Câmara Municipal, afirmação que a lei que autorizava a contratar estrangeiros no serviço público municipal visava a assegurar um emprego para o conjugue da Marta, sabe… a lei 69; Documento do site da Direção Nacional do PSDB “Dona Marta e seus dois maridos”, insinuações caluniosas sobre minha participação no governo da minha esposa etc.).

Em todos estes episódios de explicita, aberta e ativa utilização da nossa vida pessoal com objetivo político, Fernando de Barros, os outros vestais da Folha nada enxergavam que os incomodasse.

A hipocrisia é tamanha que basta constatar: se a questão da orientação sexual do prefeito não interessa ninguém, como eu penso e a Folha pretende, porque a Folha faz questão de por na capa a afirmação de Kassab que tem muita mulher querendo casar com ele? Porque encaminhar dentre tantas perguntas justamente aquela que questiona kassab sobre se é ou não homossexual, e dar destaque no jornal para sua negação?

Luis Favre

(1) Casamento da prefeita
“O divórcio, após quase 40 anos de matrimônio, do senador Eduardo Suplicy e o casamento com Luis Favre poderão acarretar à prefeita de São Paulo, Marta Suplicy, a excomunhão pela Igreja Católica. O comportamento da prefeita, que se define como católica, em relação a valores fundamentais para o catolicismo (como aborto e união de homossexuais) sempre bateu de frente com o magistério da igreja. O novo casamento constitui escândalo enquadrado por norma (cânon 1.364) do Código de Direito Canônico, que estabelece a excomunhão. Lembro que toda sanção tem, na igreja, a função de remédio e não visa afastar do amor de Deus o católico que errou. É uma tentativa de trazer seus filhos de volta à casa do Pai, onde se encontram a verdadeira felicidade e a vida sem fim.”
Francesco Scavolini, especialista em direito canônico e conselheiro do Comitê dos Italianos no Exterior em São Paulo (Itu, SP) (Painel do Leitor – Folha SP 22/8/2003)

(2) CONTARDO CALLIGARIS

Marta Suplicy e Luis Favre: por que tanta zombaria?

Desde o começo do namoro de Marta Suplicy e Luis Favre, em 2001, é fácil ouvir comentários zombadores. O casamento, no sábado passado, reavivou a produção.
Espírito partidário à parte, qual é a origem dessa reprovação, engraçada ou raivosa que seja?
1) Em 2001, Marta tinha mais de 50 anos, era ex-deputada federal, prefeita, casada com um senador da República. Por seu trabalho passado, ela representava também um certo ideal de sabedoria nas coisas do amor.
Ora, quem é mais velho, nos governa e parece mais sábio que a gente é automaticamente colocado, por nossa imaginação, na categoria dos “adultos”, inaugurada pelos pais que tivemos ou teríamos gostado de ter. E, banalmente, as crianças não gostam que os pais se separem. Por exemplo, temem ser abandonadas: se eles pensam em seus amores, como é que vão se ocupar direito da gente?
Tradução dessa preocupação infantil, desde 2001 vozes nos bares e nos jantares paulistanos perguntavam: enfim, Marta vai governar ou namorar?
2) A idéia de que governar e namorar sejam alternativas excludentes se apóia também na convicção de que o poder deve ter um preço. Quer governar? Tudo bem, mas esqueça amores e paixões, deixe para depois, sacrifique-se.
É uma convicção que nos consola. Pois confirma que há uma razão pela qual não somos prefeitos, presidentes, governadores ou mesmo vereadores; é porque preferimos cuidar da vida: namorar, por exemplo.
O governante infeliz apazigua nossa culpa cívica. E o governante que não pretende desprezar seus sentimentos está querendo demais.
Marta, porta-voz há tempos do direito à busca da felicidade privada, não tinha como namorar de fininho. Declarou que uma prefeita feliz governa melhor. Muitos teriam preferido ouvir que governar custa caro e implica a renúncia aos prazeres do amor.
3) Os compromissos, a distância geográfica, o momento inoportuno, tudo conjurava, na história de Marta e Luis Favre, para que fosse sensato desistir. Eles escolheram um caminho árduo.
As histórias de amor dificílimas, a gente adora no “Aguenta Coração”, do Faustão, em que elas valem como fragmentos de novela, ficções com as quais sonhar. Muito mais difícil é apreciá-las na realidade.
Em geral, em matéria de amor, somos ousados apenas nos devaneios literários. Consequência: a história real de Marta e Luis suscita nostalgias de paixões renunciadas, levanta a inveja de quem não sabe ou não soube ousar.
4) Em 2001, ouvi dizer: “Se ela não fosse prefeita, o cara nem a cumprimentaria”. Favre seria um caçador de dote político, interessado no cargo de “príncipe consorte”. No domingo passado, um taxista comentou: “Se Marta não se reelege, o homem cai fora”.
De fato, o futuro político de Marta não depende de sua reeleição. Mas o que importa aqui é a idéia de que Favre estaria gostando da prefeita, e não da Marta.
É uma velha história: imaginamos que deveríamos ser amados por alguma essência de nosso ser. E amar “de verdade” seria gostar do outro, mesmo que ele não tivesse a profissão, o lugar social e a história que o tornaram quem ele é.
Como Favre amaria uma Marta “essencial”, que não é prefeita, não foi deputada, não foi sexóloga e não fez uma escolha política na contramão de seus privilégios de nascença? Quem seria essa pessoa? Reciprocamente, como Marta amaria um Favre “essencial”, que não seria franco-argentino e ex-trotskista?
Não somos essências, mas pacotes complexos. Amamos e somos amados com as mãos cheias das tralhas que acumulamos em nossas vidas prévias.
5) O comentário segundo o qual Favre desejaria não Marta, mas a prefeita, também subentende que Marta não seria desejável. O que é curioso: afinal, talvez Favre seja um “gato”, mas Marta é uma mulher bonita.
Claro, vale o preconceito trivial sobre sexo depois dos 50, que não é muito diferente da expectativa de que a mãe (ainda mais a avó), não podendo ser virgem, seja casta.
Mas não é só isso. A idéia de que a prefeita não seria amável como mulher está a serviço de outro preconceito, segundo o qual a feminilidade não condiz com a autoridade de quem governa.
Acontece assim que, quando Marta escolhe uma roupa, uma maquiagem ou um corte de cabelo, chega o deboche: a prefeita é uma perua.
Perua seria a mulher que só pensa em agradar ao desejo masculino. A denominação satisfaz a boa consciência machista, pois parece inspirada por um feminismo militante: olhe só, debochamos da feminilidade “alienada” das mulheres que se enfeitam.
Nota: uma parte relevante do movimento feminista (as “pro-sex feminists”) reivindica os apetrechos tradicionais da feminilidade. É um jeito de afirmar que a mulher liberada não precisa ser passiva e recatada nem vergonhosa de seu desejo ou de sua vontade de ser desejada. Ou seja, nem sempre a cinta-liga é marca de domínio.
Em suma, se Marta escolhe uma roupa sexy de Nina Ricci para seu casamento, é peruagem? Ou é possível que uma mulher seja prefeita sem deixar de ser feminina?
Enfim, a Marta Suplicy e a Luis Favre, sem ironia, desejo um casamento feliz. (Folha Sp 25/8/2003)

ccalligari@uol.com.br

18/10/2008 - 08:39h Padres ligados a pastorais lançam manifesto pró-Marta

O Estado SP

Texto que será distribuído em missas faz ataques ao prefeito, sem citá-lo, e fala em ‘resquícios da ditadura’

Com fortes críticas ao governador José Serra (PSDB) e ao prefeito Gilberto Kassab (DEM), cerca de 100 padres da Igreja Católica vinculados a pastorais sociais divulgaram ontem um manifesto de apoio à candidata do PT, Marta Suplicy, que será distribuído em missas a partir de hoje. O confronto entre policiais civis e militares pontuou o encontro: antes da leitura da carta aos cristãos, religiosos e petistas associaram Kassab ao projeto de Serra, definido ali como “excludente”.

Mesmo sem citar Kassab, o manifesto, assinado pelo “Fórum de Católicos pela Justiça, em favor dos mais pobres”, contém estocadas no prefeito e candidato à reeleição e diz que é dever de todo cristão dar um “basta definitivo aos resquícios da ditadura”. A mensagem pede respeito a moradores de rua, “tratados como lixo”, e até à classe média, “constantemente ludibriada por propagandas enganosas que constroem personagens políticos inexistentes, demonizando uns e tornando anjos outros”, para concluir que os cristãos não podem se omitir no segundo turno.

“Vocês estão fazendo a escolha dos mais fracos, dos pobres”, disse o chefe de gabinete do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Gilberto Carvalho, diante de religiosos reunidos na Região Episcopal Belém.”Não vale a gente dizer que defende o povo e apoiar projetos que afastam o povo da rua nem dar cheque de R$ 5 mil, o cheque-despejo”, insistiu, numa referência a programa do governo Kassab.

Ex-seminarista e homem forte da gestão Lula, Carvalho foi um dos ideólogos do manifesto com o slogan “A esperança vai vencer de novo”, que embala a campanha de Marta.

Com tiragem de 500 mil exemplares, a carta foi redigida por três padres e tem o objetivo de combater “preconceitos e intrigas” divulgados contra a candidata do PT, defensora incansável do aborto e da união civil entre homossexuais.

Ao contrário da estratégia anterior da campanha de Marta, que procurava desvincular Kassab de Serra – por causa da boa avaliação do tucano -, todos os que ontem ocuparam o microfone fizeram a associação entre os dois, num sinal de que a má repercussão do confronto entre policiais será cada vez mais explorada.

“Espanta-nos que o governador queira debitar esse conflito na conta dos movimentos sindicais e de partidos”, argumentou o padre Júlio Lancellotti, ao dizer que Kassab e Serra têm o mesmo projeto político, que privilegia a “limpeza social”.

“Não escolhemos candidatos pela cor do cabelo, não queremos saber se usam botox ou não nem estamos discutindo opções sexuais”, afirmou o padre Tarcísio Marques Mesquita. “O que estamos discutindo aqui são os interesses da cidade de São Paulo.”