20/07/2008 - 10:53h Antonio Candido, o mestre (III)

Foto: ALAN RODRIGUES

As lembranças, os marcos e as principais obras do professor

Um olhar sobre a carreira, das leituras da adolescência à redefinição da crítica literária no Brasil

O Estado de São Paulo

Frases

“Eu diria que depois da minha família e da USP, a terceira grande coisa na minha formação foram meus amigos do grupo de Clima. Nós temos plena consciência de nos termos formado uns aos outros.”

“Vendo as coisas de hoje, percebo que desde logo tive o pendor crítico, não apenas porque sempre gostei de ler os críticos, mas porque assumi instintivamente a atitude crítica. Dos 12 aos 14 anos eu fazia antologias próprias, em cadernos escolares: copiava trechos e depois compilava dados biográficos e apreciações sobre os autores.”

“Nunca tive um método de trabalho. Sou intermitente em matéria de escrita e flutuante em matéria de leitura. Há estações em que trabalho intensamente, outras em que fico na maior inércia. Acho que algumas das coisas que me ajudaram na vida intelectual foram justamente a flutuação, a dispersão, a leitura onívora.”

“Eu não desgostava das ciências sociais e a certa altura passei a gostar mais de antropologia que de sociologia, mas gostava muito mais de literatura. Mas a sociologia foi fundamental na minha formação, na medida em que condicionou a minha visão da sociedade e a minha reflexão política.”

Cronologia

1918
Antonio Candido de Mello e Souza nasce no Rio, mas passa a maior parte da infância em Santa Rita de Cássia, Minas Gerais

1928
Faz sua primeira viagem à Europa, onde permanece por dois anos

1939
Ingressa na Faculdade de Direito da USP. Cursa, ao mesmo tempo, Filosofia

1941
Lança, ao lado de Decio de Almeida Prado, Lourival Gomes Machado, Paulo Emilio Salles Gomes, Ruy Coelho e Gilda de Moraes Rocha, com quem se casaria, a revista Clima

1945
Publica críticas literárias nos jornais Folha da Manhã e Diário de São Paulo

1956
Circula o primeiro número do Suplemento Literário do Estado, caderno idealizado por Antonio Candido

1957
Torna-se professor de literatura brasileira em Assis, no interior de São Paulo, onde fica dois anos

1959
Publica Formação da Literatura Brasileira

1961
Inaugura a cadeira de Teoria Literária na Universidade de São Paulo

1980
Participa, ao lado de intelectuais como Sergio Buarque de Holanda, da fundação do Partido dos Trabalhadores

1998
Recebe, dias antes de completar 80 anos, o Prêmio Camões, o mais importante da língua portuguesa, concedido anualmente
pelo governo de Portugal

2003
Recebe o prêmio Professor Emérito - Troféu Guerreiro da Educação, entregue pelo Centro de Integração Empresa-Escola (Ciee) e o Estado a professores que se destacam no exercício
do magistério

Os livros

FORMAÇÃO DA LITERATURA BRASILEIRA: Estudo do Arcadismo e do Romantismo, considerados pelo autor decisivos para a formação do que denomina “sistema literário”, a articulação de autores, obras e públicos de maneira a estabelecer uma tradição.

PARCEIROS DO RIO BONITO: Reconstrução histórica da sociedade caipira, abrange desde as relações sociais básicas até os meios elementares de subsistência, com intuito de analisar como a expansão da economia capitalista descaracteriza a vida rústica tradicional.

LITERATURA E SOCIEDADE: Aqui, o autor defende que a obra literária deve sempre ser estudada como objeto estético e analisa como as possíveis relações entre a literatura e a sociedade em que se insere podem interferir na definição do papel do crítico literário.

INICIAÇÃO À LITERATURA BRASILEIRA: Repassando desde o século 16 a produção brasileira, o autor mostra como a literatura foi-se formando como atividade regular e instituição de cultura, dada a articulação progressiva de elementos que a tornaram atividade configurada.

TESE E ANTÍTESE: No livro, são analisadas as “personalidades divididas” e contraditórias na obra de romancistas que pertencem a diferentes literaturas, como o francês Alexandre Dumas, o polonês Joseph Conrad e os brasileiros Graciliano Ramos e Guimarães Rosa.

Entre coletâneas e edições originais, a maior parte da obra do professor Antonio Candido continua em catálogo. Abaixo, uma lista de títulos, publicados pela editora Ouro Sobre Azul, com apenas algumas exceções:

Um Funcionário da Monarquia
O Método Crítico de S. Romero
O Observador Literário
Teresina Etc.
O Albatroz e o Chinês
Brigada Ligeira
O Discurso e a Cidade
A Educação pela Noite
Ficção e Confissão
Na Sala de Aula (Ática)
Florestan Fernandes (Fundação Perseu Abramo)
A Personagem de Ficção (Editora Perspectiva)
Recortes
Vários Escritos
O Estudo Analítico do Poema (Editora Humanitas)

17/07/2008 - 23:09h Prix Pictet: o prémio de fotografia focado na sustentabilidade

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Edward Burtynksky, Nickel Tailings #36, da série Tailings, Sudbury, Ontario
(
© Edward Burtynksky)

O banco suíço Pictet & Cie e o diário Financial Times lançaram um prémio de fotografia que dará ao vencedor uma soma considerável: cem mil francos suíços (cerca de 60 mil euros), talvez a maior recompensa do mundo no campo da fotografia.
O Prix Pictet apresenta-se como o “o primeiro prémio de fotografia mundial centrado no tema da sustentabilidade”, onde a temática ligada à água será protagonista. No último fim-de-semana foi revelada uma shortlist de 18 fotógrafos, entre mais de 200 candidatos. A selecção foi feita por um painel global de 49 pessoas, entre as quais Jorge Molder, fotógrafo e director do Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian.

Os nomes escolhidos para a fase final foram estes:
Benoit Aquin, Edward Burtynksky, Jesus Abad Colorado, Thomas Joshua Cooper, Sebastian Copeland, Christian Cravo, Lynn Davis, Reza Deghati, Susan Derges, Malcolm Hutcheson, Chris Jordan, Carl De Keyzer, David Maisel, Mary Mattingly, Robert Polidori, Roman Signer, Jules Spinatsch, Munem Wasif.

Deste grupo sairá um grande vencedor e um segundo premiado com uma bolsa de 40 mil francos suíços (cerca de 25 mil euros) para o aprofundamento de um trabalho relacionado com o tema água. O anúncio será feito no dia 30 de Outubro, no Palais de Tokyo, em Paris, onde as obras dos finalistas estarão em exposição até 8 de Novembro. O prémio Nobel da Paz e antigo secretário-geral das Nações Unidas Kofi Annan foi escolhido como presidente honorário da primeira edição do Prix Pictet.

O júri de selecção é composto por:

>>Francis Hodgson - presidente, responsável da secção de fotografia da leiloeira Sotheby’s
>>Peter Aspden - jornalista de arte do Financial Times
>>Régis Durand - consultor, crítico de arte, e antigo director do centro de arte Jeu de Paume
>>Leo Johnson - co-fundador da Sustainable Finance
>>Abbas Kiarostami - realizador e fotógrafo
>>Richard Misrach - fotógrafo
>>Loa Haagen Pictet - consultor de arte e curador do Pictet & Cie

(…) we didn’t want to favour journalism over art, and we didn’t really mind whether the authors thought of themselves as documentary photographers, autobiographers, landscape artists or anything else. We wanted powerful messages with the ring of truth.

Francis Hodgson, Financial Times (o texto completo está aqui)

Para ver o trabalho de cada um dos artistas clique aqui.

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Christin Cravo,
da série Waters of Hope, Haiti, Sodo, 2001
(
© Christian Cravo)

15/06/2008 - 10:40h Abc da pátria

+ Livros - FOLHA DE SÃO PAULO

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ENTRE O IÍDICHE E O INGLÊS, O NOBEL DE LITERATURA ISAAC SINGER REAVALIA SEU PASSADO NAS CRÔNICAS DE “NO TRIBUNAL DE MEU PAI”

CRISTOVÃO TEZZA
ESPECIAL PARA A FOLHA

Um traço marcante da obra de Isaac Bashevis Singer (1904-1991), escritor judeu nascido na Polônia, e que em 1935 emigraria para os EUA, é o fato de escrever em iídiche -uma língua da família germânica grafada com caracteres hebraicos que, durante séculos, foi o idioma das comunidades judaicas ashkenazis da Europa Central.
Com o Holocausto, o iídiche praticamente desapareceu. Isaac Singer, entretanto, jamais abandonou a língua materna nos mais de 50 anos em que viveu nos EUA, o que cria a singularidade de um autor com “dois originais” -as traduções de Singer, Prêmio Nobel de Literatura de 1978, são feitas a partir do inglês, que por sua vez estabelece o texto “oficial” de sua literatura.
Esse detalhe ilustra um dos aspectos centrais da história do romance -sua linguagem é a confluência e tradução de muitas línguas que são a um tempo códigos e concepções específicas de mundo.

Consciência plurilíngue
E, do ponto de vista biográfico, a vida de Singer, com a infância mergulhada no tenso encontro de línguas, culturas e religiões, pode ser lida como ilustração cristalina do que o teórico russo Mikhail Bakhtin (1895-1975) chamava de “consciência plurilíngue do mundo”. Os textos de “No Tribunal de Meu Pai” são exemplares nesse sentido. Trata-se de um conjunto de crônicas autobiográficas em que a formação do autor é retomada em episódios apresentados mais ou menos em ordem cronológica e que se encerra nos seus 12 anos (quando conhece “uma garota morena com olhos escuros como carvão e um sorriso indescritível”).
O tribunal a que o título faz referência é a instituição judaica do “Bet Din”, o tribunal rabínico. Filho de um rabino de Varsóvia, o futuro escritor passou a infância impregnado de um senso de justiça religiosa em que se atravessam a pobreza, a onipresença da palavra escrita como fonte de referência da “verdade”, a disputa das várias correntes conflitantes que marcam o judaísmo, a consciência de quem está, do ponto de vista político, em lugar nenhum -e, sobretudo, o peso da idéia de lar se confundindo com a idéia de tribunal.
Se nas mãos de Kafka esse último ingrediente daria a síntese aterrorizante que conhecemos em obras como “O Processo” e “O Castelo”, em Isaac Singer -um escritor de raiz substancialmente popular, imerso na oralidade e no humor vivaz, comunitário, do mundo da aldeia- o resultado é outro.
A diferença central talvez seja esta: no mundo das memórias infantis de Isaac Singer, as coisas ainda não estão estratificadas na forma de Estado, não são regulamentos inalterados por mãos humanas.

Sinais escritos
O juiz é um homem de substância simples que tem de resolver questões miúdas do cotidiano, casos de divórcio ou dúvidas sobre a pureza de gansos abatidos. O senso de justiça é uma insegura escolha humana, a partir de alguns poucos sinais escritos, aos quais devemos dar um sentido.
O sentimento de mudança permanente, muito forte -mudança física e mental, política, social e econômica, ao deus-dará entre poloneses, russos, alemães, austríacos naquele sombrio limiar da Primeira Grande Guerra-, vai marcando cada passo da criança atenta, que pouco a pouco percebe o anacronismo da ortodoxia paterna e absorve a perspectiva transformadora de seu irmão mais velho, depois o poder da literatura, num tempo de utopias.
A força documental das crônicas, ao descreverem o mundo desaparecido, é temperada pela perspectiva literária -a história de Isaac Singer é a percepção de um escritor, não o documento frio de um historiador.
Em nenhum momento se perde a perspectiva da criança e a sensação de um mundo a descobrir e inventar; e, em cada crônica, está presente a afirmação absoluta do valor do indivíduo, princípio e fim de todas as dúvidas: “Como era vasto o mundo, e como abundavam nele todo tipo de pessoas e acontecimentos estranhos! (…) E onde estava Deus, de quem tanto se falava em nossa casa? Eu estava maravilhado, encantado, extasiado. Sentia que precisava solucionar esse enigma, sozinho, com meu próprio discernimento”.


CRISTOVÃO TEZZA é autor do romance “O Filho Eterno” (Record) e de “Entre a Prosa e a Poesia - Bakhtin e o Formalismo Russo” (Rocco).NO TRIBUNAL DE MEU PAI
Autor: Isaac Bashevis Singer
Tradução: Alexandre Hubner
Editora: Companhia das Letras (tel. 0/ xx/11/ 3707-3500)
Quanto: R$ 49 (360 págs.)

13/06/2008 - 16:22h Aniversário

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© Projeto Releituras
Arnaldo Nogueira Jr

Aniversário

Fernando Pessoa
(Álvaro de Campos)

[473]

No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui…
A que distância!…
(Nem o acho…)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes…
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas
lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio…

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos…
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim…
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui…
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado —,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos…

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!…

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!…

15/10/1929

Uma visão breve sobre a vida e a obra do maior poeta da língua portuguesa:

- 1888: 11 de junho Nasce Fernando Antônio Nogueira Pessoa, em Lisboa.

- 1893: Perde o pai.

- 1895: A mãe casa-se com o comandante João Miguel Rosa. Partem para Durban, África do Sul.

- 1904: Recebe o Prêmio Queen Memorial Victoria, pelo ensaio apresentado no exame de admissão à Universidade do Cabo da Boa Esperança.

- 1905: Regressa sozinho a Lisboa.

- 1912: Estréia na Revista Águia.

- 1915: Funda, com alguns amigos, a revista Orpheu.

- 1918/1921: Publicação dos English Poems.

- 1925: Morre a mãe do poeta.

- 1934: Publica Mensagem.

- 1935: Morre de complicações hepáticas em Lisboa.

Os versos acima, escritos com o heterônimo de Álvaro de Campos, foram extraídos do livro “Fernando Pessoa - Obra Poética”, Cia. José Aguilar Editora - Rio de Janeiro, 1972, pág. 379.

© Projeto Releituras
Arnaldo Nogueira Jr

12/06/2008 - 11:50h Novo Consenso de Washington?

Por Dani Rodrik - VALOR

Há dois anos e meio, altos integrantes do Banco Mundial abordaram o prêmio Nobel Michael Spence para pedir-lhe que encabeçasse uma comissão de notáveis sobre a questão do crescimento econômico. A dúvida em questão não poderia ser mais importante. O Consenso de Washington - a infame lista que apontava a autoridades monetárias de países em desenvolvimento o que fazer e o que não fazer - havia se dilapidado em grande parte. Então, o que o substituiria?

Spence não tinha certeza se era a pessoa ideal para o trabalho. Afinal, sua pesquisa era focada em questões teóricas em economias avançadas, havia sido reitor de uma faculdade de administração e não tinha muita experiência em desenvolvimento econômico. No entanto, ficou fascinado com a tarefa. E foi encorajado pela resposta entusiasta e positiva que recebeu dos possíveis membros da comissão. Nascia, então, a Comissão Spence de Crescimento e Desenvolvimento, um grupo de estrategistas políticos recheado de estrelas - incluía outro Nobel - cujo relatório definitivo foi lançado no fim de maio.

O relatório Spence representa um divisor de águas para as políticas de desenvolvimento, tanto pelo que apresenta como pelo que exclui. Ficaram de fora as asseverações confiantes sobre as virtudes da liberalização, desregulamentação, privatização e livres mercados. Também desapareceram as recomendações homogêneas, independente das diferenças de contexto. Em vez disso, o informe de Spence adota uma abordagem que reconhece os limites de nossos conhecimentos, enfatiza o pragmatismo e gradualismo e encoraja os governos a serem experimentais.

Sim, economias bem-sucedidas possuem muitas coisas em comum: todas estão inseridas na economia global, mantêm estabilidade macroeconômica, estimulam a poupança e o investimento, oferecem incentivos voltados ao mercado e são razoavelmente bem governadas. É útil ficar de olho nesses pontos em comum, porque compõem a conduta de políticas econômicas apropriadas. Dizer que o contexto importa não significa que vale tudo. Não há, contudo, um livro de regras universal: países diferentes atingem esses fins de formas diferentes.

O relatório Spence reflete uma mudança intelectual mais ampla entre os que trabalham na questão do desenvolvimento, uma mudança que abrange não apenas as estratégias de crescimento, mas também a saúde, educação e outras políticas sociais. A estrutura política tradicional que o novo raciocínio substitui gradualmente é de suposição, em vez de diagnóstica.

Começa com fortes pressuposições sobre a natureza do problema: regulamentação excessiva (ou insuficiente), governança muito fraca, investimentos públicos baixos demais em saúde e educação e assim por diante. Além disso, suas recomendações assumem a forma de uma lista de lavanderia, enumerando instruções item a item, e enfatizam sua natureza complementar - a necessidade de serem adotadas simultaneamente, sem ordenar e atribuir prioridades. A estrutura também se inclina a receitas universais - o “modelo” de disposição institucional, “boas práticas”, princípios básicos e assim por diante.

Ficaram de fora as afirmações confiantes sobre as virtudes da desregulamentação,
da liberalização, privatização e livres mercados, sem contexto.

Em contraste, a mentalidade da nova política começa com certo agnosticismo sobre o que pode funcionar ou não. Sua hipótese é a de que há grandes doses de “descuido” nos países pobres, portanto mudanças simples podem trazer grande diferença. Como resultado, é explicitamente diagnóstica e foca-se nos gargalos e limitações econômicas mais significativas. Em vez de uma reforma abrangente, enfatiza a experimentação política e iniciativas de alcance relativamente estreito, de forma a descobrir soluções locais. Também prega a monitoração e avaliação para que se aprenda quais experimentos funcionam bem.

A nova abordagem desconfia de antídotos universais. Em vez disso, busca inovações políticas que tragam atalhos contornando a economia local ou complicações políticas. A tática é influenciada fortemente pelo gradualismo experimental da China, em prática desde 1978 - o episódio mais espetacular de crescimento econômico e redução da pobreza já visto pelo mundo.

O relatório Spence é um documento consensual e, portanto, alvo fácil para ataques gratuitos. Não traz “grandes idéias” próprias e, às vezes, tenta demasiadamente agradar a todos e cobrir todos os ângulos possíveis. Mas, como Spence coloca ao comentar a própria questão da reforma econômica, são necessários pequenos passos para fazer uma grande diferença no longo prazo. É um feito e tanto ter alcançado o grau de consenso que ele conseguiu em torno a um conjunto de idéias que se desvia tão marcadamente da abordagem tradicional.

É de creditar-se a Spence o fato de o informe conseguir evitar tanto o fundamentalismo de mercado como o fundamentalismo institucional. Em vez de oferecer respostas fáceis, como “apenas deixe os mercados funcionarem” ou “simplesmente corrija a governança”, destaca acertadamente que cada país precisa elaborar seu próprio conjunto de soluções. Economistas estrangeiros e agências de auxílio financeiro podem fornecer alguns dos ingredientes, mas apenas o próprio país pode dar a receita.

Se há um novo Consenso de Washington, é que o livro de regras precisa ser escrito em casa, não em Washington. E isso é um verdadeiro progresso.

Dani Rodrik é professor de Economia Política da Escola de Governo John F. Kennedy na Universidade Harvard, foi o primeiro agraciado com o Prêmio Albert O. Hirschman do Conselho de Pesquisa de Ciências Sociais. Seu mais recente livro é “One Economics, Many Recipes: Globalization, Institutions, and Economic Growth”. © Project Syndicate/Europe´s World, 2008. www.project-syndicate.org

06/06/2008 - 18:12h A artista que amou demais

Com esculturas, documentos pessoais e desenhos, mostra no Museu Rodin tira Camille Claudel da sombra a que foi confinada por desafiar cânones de sua época

Luiz Carlos Merten - O Estado de São Paulo

Você, se assistiu ao filme de Bruno Nuytten Camille Claudel, de 1989, deve se lembrar da cena em que a enlouquecida Isabelle Adjani destrói as obras em seu ateliê. A cena, fortíssima, deve ter contribuído para a indicação que Isabelle recebeu para o Oscar, mas seria preciso esperar até Marion Cotillard, a Piaf, neste ano, para que uma atriz, representando em francês, bisasse o prêmio da Academia de Hollywood que Simone Signoret havia recebido, falando em inglês, por Almas em Leilão, em 1959. Foi grande a comoção quando Camille Claudel irrompeu nas telas. Críticos irados viram no filme uma mistificação romântica, protofeminista, destinada a confirmar a tese absurda de que a irmã do escritor Paul Claudel, como escultora, teria sido uma artista maior do que o próprio Auguste Rodin, de quem foi amante obsessiva (e, por isso, enlouqueceu de amor, ao ser rejeitada).

Nos anos 50, uma grande exposição havia resgatado Camille Claudel (1864-1943) das sombras a que fora relegada. Outra mostra, que se realiza agora no Museu Rodin, em Paris, e vai até 20 de julho, é a prova de que a tese de Nuytten, ex-fotógrafo (e marido de Isabelle), não era furada como parecia. Frio e chuva, inesperados no verão parisiense, não impediram que extensas filas se formassem em frente do Museu Rodin no começo da semana passada. Não apenas turistas, mas os próprios franceses estão correndo para prestigiar Camille Claudel - Une Femme, Une Artiste, a maior exposição já realizada sobre a escultora. O evento compara-se, pela magnitude, à grande exposição sobre Gustave Courbet que, no começo do ano, resgatou outra glória um tanto subestimada da arte francesa (e que agora corre mundo, provocando reações de entusiasmo em toda parte).Além de suas grandes obras - e dos numerosos estudos em mármore e bronze, a título de preparativos -, a mostra de Camille Claudel reúne documentos pessoais e desenhos que ela fez ao longo de sua tumultuada carreira. Camille foi, sim, maior do que Rodin, o que em absoluto não diminui o escultor de O Pensador, mas recupera o lugar do qual ela havia sido alijada por desafiar os cânones não apenas da Academia. Os da sociedade machista do fim dos anos 1800, também

Obra de Camille Claudel “La Valse”, coleção particular, de 1895

 

 

Camille Claudel (1864-1943), em foto de 1877.
Artista inspira a mostra “Une Femme, Une Artiste”, no Museu Rodin.
Era irmã do poeta Paul Claudel e amante de Auguste Rodin, autor de “O Pensador”.

“Vertumne el Pomone”, de Camille Claudel, mármore de 1905.

 

 

Bronze e pedra para captar a alma

A grande exposição de Camille Claudel em Paris reafirma a força e a técnica superior da artista que foi tratada como louca

Luiz Carlos Merten


Camille Claudel, a mulher, a artista. A mostra no Museu Rodin divide-se em partes - Retratos de Família, O Ateliê de Rodin, La Valse e Clotho, Sakantala, L”Âge Mûr (A Idade Madura) e As Pequenas Coisas Novas. Em cada uma delas, há pelo menos uma obra-prima, e não apenas A Onda, La Vague, peça de pequeno tamanho - ao contrário de outras - que exibe três banhistas, esculpidas em bronze, prestes a serem engolidas por uma onda gigantesca que a artista criou em mármore e a unidade da peça vem justamente da disposição das figuras femininas e do movimento da onda que, em diferentes suportes, expressam o embate do humano com as forças da natureza. A Onda é quase sempre considerada a obra-prima de Camille Claudel, mas você fica em dúvida, face à riqueza descortinada pela exposição. Ela viveu com intensidade. E foi, com certeza, uma artista adiante de sua época. Num momento em que, às mulheres, era vetado o ingresso na Academia de Belas Artes, Camille começou produzindo retratos de família, que desenhava e modelava sozinha, até entrar, como estudante, no ateliê de Auguste Rodin, que já era o maior escultor da França. Ele foi o modelo de diversos desenhos e esculturas de Camille. Foi seu amante. Ela se tornou cada vez mais possessiva. A atração fatal (o desejo incontido de Camille, a repulsa de Rodin, a fratura psicológica da mulher e seu internamento num instituto psiquiátrico pelo próprio irmão e pela mãe, cansados de seus escândalos) fornecem a trama do longa realizado por Bruno Nuytten, mas o tema do filme é a genialidade (incompreendida) da artista.

link Confira galeria de fotos da mostra mais imagens

As fotos que acompanham a exposição dão conta dessa trajetória singular. Vê-se a jovem Camilla, que antecipa um pouco Isabelle Adjani; a artista mergulhada no trabalho, em seu ateliê; e a velhinha que teve apenas uma amiga, devotada e fiel, para assisti-la no longo período em que esteve internada. Camille melhor do que ninguém, numa tradição que remonta a Miguel Ângelo - tão fascinado por seu Moisés que, diante da escultura pronta, teria nela batido com o cinzel, ordenando que sua criação falasse -, conseguiu o prodígio de petrificar aquilo que seus admiradores hoje proclamam como ”os movimentos da alma”. Uma de suas peças mais admiráveis é Sakuntala, a primeira realmente narrativa e simbólica, na qual ela encara (e resolve) os problemas da composição, indo buscar inspiração no mito indiano da mulher que se perde de seu príncipe e eles só se reencontram no Nirvana. Sakuntala virou mito greco-romano e, depois, tornou-se paradigma da noção psicológica do abandono, no sentido amoroso do termo. Camille fez diferentes versões do tema. O Salmo reutiliza o rosto de Sakuntala, Vertumne et Promone introduz pequenas variações no conjunto e O Abandono vira outra de suas obras maiores, cinzeladas em bronze ou em mármore.

Também existem diferentes versões de La Valse, cujo movimento oblíquo é representativo do tipo de composição que ela gostava de criar. A peça foi elaborada em 1890 e apresentada no Salão de 1893. As diferentes versões reafirmam uma tendência da escultora - embora as diferenças sejam mínimas, a mudança de material, ou a ênfase num movimento, modificam a percepção das obras pelo observador. À vertigem do movimento segue-se a representação da dor e da morte na Idade Madura, que atinge o patetismo e, em algumas peças, metaforiza a relação com Rodin, que vira, ele próprio, a morte a arrebatar a donzela. O sommet, o ápice da exibição, pega carona na expressão de Kierkegaard, que em sua correspondência fala das ”pequenas coisas insignificantes, acidentais” que dão sentido à vida. Numa carta ao irmão, Paul, Camille também anuncia que quer experimentar ”les petites choses nouvelles”, as pequenas coisas novas. É a fase de La Vague ou Les Bagnistes, e de Profonde Pensée ou Rêve au Coeur du Feu, que vão além da representação para expressar atitudes metafísicas diante da vida.

É interessante comparar La Profonde Pensée com o Pensador, de Rodin, presente na coleção permanente do mesmo museu. O homem que viaja interiormente, com a cabeça apoiada pela mão em sua perna, vira esta mulher de joelhos, com as mãos em adoração. É a própria Camille, com certeza, imersa em pensamentos profundos, na dor que a consumia. O catálogo da exposição sustenta a tese de que ela não pôde realizar monumentos públicos nem obter, antes de 1906, quando já era tarde demais, a encomenda de um mármore ou de um bronze que permitiria a sua entrada no círculo dos artistas reconhecidos. Mas Camille teve os seus mecenas - os Rothschild e a Condessa de Maigret, para quem ela executou a versão em mármore de Sakuntala. A derradeira obra-prima, Niobide Blessée, é mais uma variação da figura feminina de Sakuntala, que tanto obcecava a escultora. Uma das pérolas da exposição não é nenhuma escultura, mas uma folha escrita pela própria Camille, quando jovem, na qual ela revela suas aspirações e preferências. Qual é a maior virtude do homem? Aprender com a mulher. Qual é a maior virtude da mulher? Ensinar o homem. Personagem masculino preferido? Ricardo III. Personagem feminina? Lady Macbeth. Se não fosse você, o que gostaria de ser? Um cavalo de fiacre. A indomável Camille Claudel queria ser domesticada.

Tão grande personagem encontrou em Isabelle Adjani a intérprete definitiva no cinema. Lançada por François Truffaut na pele de outra heroína obsessiva - Adele H, a filha de Victor Hugo -, Isabelle rapidamente se converteu em mito. Em 1987, com a carreira no auge, ela revelou que se chamava Yasmine, era filha de pai argelino e mãe alemã. A combinação incômoda para a maioria silenciosa francesa desencadeou uma reação imediata. Surgiram rumores de que Isabelle estaria morrendo de aids. Ela precisou ir à TV para provar que não. Como redatora-chefe de uma edição especial de Figaro Magazine, Isabelle, em seguida, entrevistou o então presidente Jacques Chirac, o que a tornou non grata para a esquerda bem pensante da França. Além de aidética, seria ”chiraquista”. Odiada à esquerda e à direita, Isabelle ameaçava ir para o limbo. Salvou-a Camille Claudel. Há quase 20 anos, não foi só com a personagem histórica que a França se reconciliou, mas com uma de suas maiores atrizes.

31/05/2008 - 21:05h Erotic Stories by women

Edited by Richard Glyn Jones and A. Susan Williams
Penguin books

Erotic Stories by women é uma antologia publicada pela Penguin books, organizada por Richard Glyn Jones e A. Susan Williams. Richard G. é escritor e editor, já compilou mais de vinte antologias, incluindo Killer couples - um estudo da loucura a dois. Por dez anos ele dirigiu sua pequena editora onde publicou, por exemplo, Jorge Luis Borges. A. Susan é pesquisadora da Universidade de Londres, o seu foco é a literatura produzida por mulheres, é dela a introdução a esta antologia que abarca trabalhos escritos por mulheres de diferentes países: Japão, Rússia, França, Botswana, Estados Unidos, Canadá, China, etc. O Brasil, infelizmente, não está representado por nenhuma autora.

Os Contos foram organizados de forma cronológica e vão de 1882 aos nossos dias o que reflete, segundo Susan, grande diversidade histórica e cultural. Algumas poucas histórias foram extraídas de trabalhos mais longos, mas os organizadores tomaram o cuidado de publicar textos que fossem completos, mesmo nesse caso. Como afirma a autora da introdução, uma consideração sobre o significado da palavra Erótico não poderia faltar numa antologia que tem este título. Erótico, como é sabido, vem do grego, mas, se pergunta Susan, em que extensão a palavra era usada para descrever a paixão sexual sentida pelas mulheres já que a sociedade ateniense era comandada pelos homens? Sugere que seria, inclusive, mais apropriado chamar essa sociedade de ‘androcracia’ ao invés de democracia já que o poder não emanava realmente do ‘povo’ como sugere a palavra e sim do homem. “Relegar a mulher a um papel puramente biológico era perfeitamente natural”, explica Eva Canterella.

Susan prossegue explicando que, até muito recentemente, trabalhos escritos por mulheres estavam quase ausentes das coleções de ficção erótica. O bestseller Histoire d’O (1954) de Pauline Réage, é uma exceção, foi um dos raros livros de conteúdo erótico escrito por uma mulher, porém, observa Joan Smith, a autora replicou o discurso masculino no qual o homem domina a mulher. É a história de uma moça que se torna, por escolha própria, “escrava sexual de um grupo de homens que a torturam, estupram, batem e humilham até que ela desista de toda liberdade ou vontade.” As autoras representadas nesta antologia rejeitaram estas convenções e encontraram outra forma de escrever sobre desejo, explica Susan.

A primeira história, Violette, é um episódio da novela Le roman de Violette que foi publicado anonimamente em Bruxelas em 1882, hoje sabe-se que foi escrito pela Marquesa de Mannoury D’Ectot. Violette é uma criada de dezesseis anos que foge da casa – e das garras - de seu patrão, vai procurar ajuda na casa do narrador desta história. Este, com muita ternura e respeitando a vontade de Violette, vai lhe mostrando os caminhos do prazer.

Outras escritoras francesas presentes nesta antologia são Colette, com o conto Mitsou, (1919) e Simone de Beauvoir com Marcelle (1942). É preciso entender de forma muito ampla o conceito de erótico para que se inclua nele este conto de Beauvoir que tem, isso sim, muito de engajamento feminista. Marcelle, uma mulher inteligente, procura um ‘homem de gênio’, entrega-se a um poeta que, ela imagina, seria este homem. Sofre, se anula, aceita as condições e os caprichosos do homem criador, a tudo justifica e ao ser rejeitada, descobre que não precisa mais procurar este homem, pois, em meio às lágrimas, percebe que ela sim, era ‘uma mulher de gênio’.

Algumas das autoras desta antologia são mundialmente conhecidas: Kate Chopin, Katherine Mansfield, Gertrude Stein, Isabel Allende…, outras são conhecidas somente no seu país de origem ou regionalmente. Siv Holm, escritora dinamarquesa, tornou-se famosa após a publicação de sua novela autobiográfica (em partes) I, a Woman (1965) que mais tarde foi adaptada para o cinema. É um extrato da novela que encontramos nesta antologia. Trata-se da história de uma mulher que ‘se libera da sua família e da vida numa pequena cidade. O livro chocou a sociedade na época porque mostrava uma mulher que quer – e encontra – sexo fora do casamento e sem compromisso de qualquer relacionamento durável. ’ Nesse extrato escolhido para a antologia percebemos também a reflexão da personagem sobre a escrita, o momento em que toma a decisão de comprar uma máquina de escrever, em que se pergunta sobre o que vai escrever e decide que só pode começar escrevendo sobre si, seus desejos. “É, provavelmente, o caminho mais seguro e mais honesto.”(….) “Deve ser fácil se você escrever do mesmo jeito que pensa.” Conclui.

Alifa Rifaat é uma escritora egípcia que, diz a apresentação, trabalha unicamente dentro da cultura árabe. O título do trabalho apresentado neste livro é My World of the Unknown (1971), um conto fantástico em que a personagem apaixona-se por um djinn, um espírito presente na cultura islâmica, aqui ele aparece na forma de uma serpente. É um conto delicado e impregnado de sensualidade. Outra escritora que preferiu falar de sexo de forma indireta, ou seja, através da ficção científica, foi Joanna Russ. Ela afirma que ‘É impossível escrever sobre sexo de forma direta.’ No seu conto, An Old-fashioned girl, a narradora apresenta às amigas o seu homem-robô.

Bessie Head (1937-1986)é sul africana, filha de uma escocesa e um zulu, nasceu num hospital psiquiátrico (prisão, dizem outros) para onde a sua mãe foi enviada para o resto da vida por causa da união ilícita com um negro. Bessie é a autora do conto, The collector of treasures, onde, como em muitos dos outros trabalhos da autora, o tema é a injustiça de que tantas mulheres africanas são vítimas. Dikeledi, personagem principal do conto, aceita casar-se com um homem insensível e egoísta porque não tinha outra saída, órfã, vivia na casa do tio que queria livrar-se dela. O marido a abandona com três filhos, ela trabalha duro e consegue alimenta-los e educa-los sozinha. Um dia, talvez contrariado por ver a mulher se dando bem sem ele, o marido aparece para reclamar sexo e mordomias. Uma mulher negra não tinha condições de recusar sexo ao marido, reflete Dikeledi e, fingindo aceitá-lo, prepara o seu banho, o jantar, bebidas e uma faca bem afiada com a qual arranca fora o seu membro. Um excelente conto, o erótico, aqui, acho que fica na conversa entre Dikeledi e uma vizinha que narra a sua vida sexual. Ela tem a sorte de ter um marido atencioso e, com pena da amiga que desconhece o prazer na cama, propõe-lhe que sirva-se do seu marido enquanto ela estava grávida. Dikeledi agradece a atenção, mas, sabiamente, recusa a oferta.

A japonesa Amy Yamada é famosa no seu país e relativamente conhecida nos Estados Unidos, viveu em Nova York e muitos dos seus trabalhos são traduzidos para o inglês. O universo de Kneel Down and Lick My Feet, o conto apresentado nesta antologia, é o dos clubes de sadomasoquismo. A narradora trabalha em um destes clubes e vai contando sobre o trabalho, a importância de se amarrar bem as cordas, por exemplo, e, uma das partes mais interessantes, a linguagem usada nestes lugares. “A linguagem é uma das coisas mais críticas neste tipo de jogo.” Avisa. “Você tem que falar de um modo altivo, mas é preciso também mostrar respeito e ser educada.” A narradora é uma ‘rainha’. “Nós, rainhas, somos personagens extremamente importantes, no final das contas. Nós temos que usar palavras que elevam nossas ações. Pense nelas fora de contexto e você não pode se impedir de rir.” “Escravos que exaltam cada ação da rainha chamam meu xixi de água sagrada.” É um dos melhores contos do livro, em minha opinião.

Evelyn Lau deve ser a escritora mais jovem desta antologia, ela é canadense, de família chinesa e nasceu em 1971. Decidiu cedo que queria escrever, mas a família, sobretudo a mãe queria que ela fosse médica. A exigência e pressão eram tão grandes que, com 14 anos, Evelyn deixou a casa dos pais e foi viver na rua, casa de amigos eventualmente ou ainda albergues. Para viver prostituiu-se e, durante todo o tempo manteve um diário que foi publicado com o título de Runaway: Diary of a street kid, traduzido para o português como A fugitiva - diário de uma menina de rua. O livro tornou-se um bestseller no Canadá, depois disso Evelyn já publicou outros livros e recebeu vários prêmios. Nesta antologia podemos ler o conto Fetish Night, retirado de Fresh girls, seu livro de 1993.

A vantagem de uma antologia como esta é a possibilidade de se conhecer escritoras muito diferentes umas das outras. Se, numa livraria, eu desse de cara com um livro de Alifa Rifaat, Amy Yamada etc, o nome não me chamaria a atenção, hoje eu não sairia dali sem eles.
Leila Silva Terlinchamp - Cadernos da Bélgica
Na foto: Colette, Simone de Beauvoir.

Fonte Rosebud - Livros
Quinta-feira, Dezembro 14, 2006

21/05/2008 - 15:44h Antonio Candido é eleito intelectual do ano

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Crítico é o vencedor da 44ª edição do prêmio Juca Pato, da União Brasileira de Escritores

DA REPORTAGEM LOCAL - FOLHA SP

A UBE (União Brasileira de Escritores) escolheu o crítico literário Antonio Candido, 89, para receber o troféu Juca Pato de Intelectual do Ano de 2007.

Em comunicado oficial, a UBE justifica a decisão ao afirmar que Candido é considerado “uma das inteligências mais completas e influentes da cultura brasileira contemporânea” e “autor de várias obras de análise, interpretação e avaliação crítica do principal acervo literário do Brasil e da herança européia”.

Em entrevista à Folha, Candido disse: “Para mim, o prêmio Juca Pato é uma honra, não apenas devido à sua importância, mas porque na sua base estão duas entidades que foram decisivas na minha vida literária: a Folha e a Associação Brasileira de Escritores, a ABDE, da qual a UBE é sucessora. A partir de 1943 eu me tornei realmente conhecido como crítico titular da Folha, e quando se fundou a ABDE, em 1944, fui segundo secretário na primeira diretoria da seção paulista, da qual fui presidente em 1949. Além disso, ao longo dos anos o Juca Pato vem sendo atribuído a intelectuais de grande qualidade. Estar ao lado deles é muito desvanecedor”.

O prêmio Juca Pato foi entregue pela primeira vez em 1963. Seu nome é uma homenagem ao personagem criado pelo cartunista Belmonte para a “Folha da Noite”, jornal que foi fundido com a “Folha da Tarde” e com a “Folha da Manhã” para dar origem à Folha de S.Paulo.

Livro mais recente

No ano passado, Candido relançou o livro “Um Funcionário da Monarquia - Ensaio Sobre o Segundo Escalão” (editora Ouro sobre Azul, R$ 31, 196 págs.). Para a UBE, o crítico, por meio da história de Antônio Nicolau Tolentino (1810-1888), filho de lavradores que se tornou conselheiro do Tesouro no Brasil imperial, conseguiu “caracterizar o tipo social do alto funcionário que extravasou da burocracia, sem, todavia, integrar o alto escalão oficial”.

Nascido em 24 de julho de 1918 no Rio de Janeiro, Antonio Candido de Mello e Souza se formou em Ciências Sociais pela Faculdade de Filosofia da USP. Até 1978, foi professor titular de Teoria Literária e Literatura Comparada na mesma universidade.

É autor, entre outros, de “Formação da Literatura Brasileira: Momentos Decisivos” (1959). O livro foi estopim para uma polêmica com o escritor Haroldo de Campos (1929-2003) em relação à importância do barroco na história da literatura brasileira. Em 1962, Campos lançou o livro “O Seqüestro do Barroco na Formação da Literatura Brasileira: o Caso Gregório de Matos”.

Candidato único, o crítico literário foi apontado por 50 associados à UBE, entre eles Lygia Fagundes Telles, Nelly Novaes Coelho, Sábato Magaldi, Claudio Willer e Edla van Steen. A data da cerimônia de entrega do troféu ainda não foi definida.

No ano passado, o vencedor do Juca Pato foi o embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, secretário-geral do Itamaraty, por conta do livro “Desafios Brasileiros na Era dos Gigantes” (Contraponto Editora, R$ 55, 456 págs.).

18/05/2008 - 20:59h Governo federal vai incentivar combate à homofobia

Ministério da Cultura abre concursos para fomento da cultura gay

EFE e Agência Brasil - portal O Globo

http://www.lacomuna12.com.ar/imagenes/homofobiaRIO e BRASÍLIA - O Ministério da Cultura lançou uma ofensiva para incentivar manifestações contra a homofobia e em favor da valorização a identidade de gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais.

Dois concursos vão premiar iniciativas deste tipo. O primeiro é o Concurso de Apoio às Paradas de Orgulho GLBT. A iniciativa é voltada para cidades em que o movimento ainda não existe e deve contemplar um projeto de financiamento em cada estado e no Distrito Federal.

O outro é o Prêmio Cultural GLBT 2008, que vai financiar, com verba de até R$ 9 mil, 104 iniciativas valorização da cultura gay. O projeto é da Secretaria de Identidade e Diversidade Cultura do ministério e parte do Programa Brasil sem Homofobia, da Secretatia Nacional de Direitos Humanos. Serão premiadas “iniciativas exemplares de natureza cultura de afirmação da orientação sexual, da identidade de gênero e da cultura da paz”, diz o ministério. As inscrições serão abertas nesta segunda-feira.

Em ambos os casos, só podem concorrer entidades jurídicas, sem fins lucrativos, e que tenham, no mínimo, seis meses de atuação nas comunidades GLBT.

Tanto o Prêmio Cultural quanto o Concurso de Apoio às Paradas GLBT serão financiados com recursos do Fundo Nacional de Cultura, na Ação Fomento de Projetos de Combate à Homofobia.

16/05/2008 - 18:12h “Bush é horrível demais para ser esquecido”, diz Philip Roth

Philip Roth

Blog Rosebud

O escritor americano Philip Roth falou à Spiegel sobre envelhecimento, sobre por que George W. Bush é o pior presidente americano da história, e revelou por que nunca dá o seu número de celular a ninguém.

Philip Roth, que vai completar 75 anos em março, é um dos autores norte-americanos vivos mais aclamados pela crítica. Seu livro “O Complexo de Portnoy”, de 1969, levou-o à fama, e ele deu continuidade ao sucesso, ganhando o prêmio Pulitzer com o livro “Pastoral Americana”, de 1997.

Muitos de seus livros têm o alter-ego ficcional de Roth, Nathan Zuckerman, como personagem principal. Zuckerman aparece novamente no último trabalho de Roth, “Exit Ghost”, em que o personagem volta a Nova York depois de muitos anos de exílio no interior da Nova Inglaterra.

A Spiegel conversou com Roth sobre “Exit Ghost”, as eleições americanas e os prazeres da vida no campo.

(more…)

16/05/2008 - 13:38h Festival de Cannes: E foi a vez do argentino Leonera…


Filme de Trapero tem Rodrigo Santoro no elenco e co-produção de Walter Salles

Luiz Carlos Merten, , CANNES - O Estado de São Paulo

Talvez seja suficiente dizer que se trata de um autêntico filme argentino. Leonera, de Pablo Trapero, possui as qualidades quase sempre associadas ao cinema do país vizinho. Conta uma história humana, com personagens bem delineados e interpretações sinceras. Ao comentar a seleção de Leonera para a competição, Walter Salles, que tem co-produzido, por meio da Videofilmes, os filmes recentes de Trapero, disse que, se alguém merecia estar em Cannes, era seu colega de Buenos Aires. O bom de Trapero é que ele não se repete. El Bonaerense, Familia Rodante, Leonera. Nenhum filme se assemelha ao outro, embora o conceito de família como inferno e paraíso, que já estava no road movie anterior do cineasta, repita-se agora na história da grávida que vai presa e descobre que, de acordo com a legislação, só poderá permanecer com o filho na cadeia até ele completar 4 anos. O tema de Trapero é como essa mulher traída pelos homens, pela própria mãe (que tentará se apossar do neto) lutará com todas as suas forças para recuperar o menino.

Um filme sobre instinto, que supera a cultura repressora. Sobre uma mulher que amadurece dentro da cadeia e precisa achar um caminho dentro do mundo hostil. Ninguém faz uma travessia assim sozinho e o filme de Trapero é sobre as afinidades eletivas, sobre as fidelidades que compensam as traições, sobre a construção da ética na vida dessa mulher (e o tema é caro ao co-produtor Salles). Trapero constrói seu filme sobre essa situação particular, sem exagerar na psicologização da personagem. E conta com ótimo elenco - a atriz Marina Gusman, sua mulher na vida real, é ótima, numa verdadeira entrega ao longo de todo o processo vivido pela personagem, que, como ela, está grávida nas primeiras cenas. Rodrigo Santoro, que subiu a escadaria do Palais, com Marina e Trapero, para a sessão de gala de Leonera, faz um pequeno, mas importante papel.

Apesar das óbvias virtudes de Leonera, com final aberto, havia pouca gente na coletiva realizada pela manhã, exatamente o contrário do que ocorreu à tarde, quando havia gente pelo ladrão para ver Angelina Jolie, Dustin Hoffman e Jack Black, o trio de dubladores de Kung Fu Panda. A animação de Mark Osborne e John Stevenson é uma produção pessoal de Jerry Katzengerg, da DreamWorks Studios. Promete ser uma das sensações do verão americano. -Angelina, claro, foi a sensação da entrevista. Gravidíssima (de gêmeos), ele teve de falar mais de crianças, de família e Brad Pitt do que propriamente de cinema, embora neste caso as coisas não fossem excludentes.

‘Quando se é pai ou mãe, a gente procura inevitavelmente filmes com boas mensagens para a família’, ela diz. A história do urso panda que é bom de kung fu enquadra-se no conceito. ‘É um filme mais sério do que pode parecer’, advertiu Hoffman. ‘Vivemos numa sociedade em que as pessoas precisam se projetar em super-heróis. A idéia, aqui, é criar um anti-super-herói, alguém muito pequeno, mas que realiza coisas extraordinárias, e nesse sentido vira um verdadeiro herói’, ele concluiu. Angelina teve de falar bastante sobre seu trabalho como embaixadora da ONU, neste momento em que a Ásia )Mianmar e, agora, a China) sofre o efeito de tufões e terremotos. ‘Estar aqui em Cannes é um prazer, porque faz parte do meu trabalho e é melhor ainda porque estou com um filme no qual acredito. em 1980. Como a mundanidade faz parte do folclore de Cannes, houve a inevitável pergunta se Brad Pitt acompanharia Angelina Jolie no tapete vermelho. Ela disse que sim. ‘Ele está agora com as crianças, mas à noite vamos participar da montée des mardches’, ela disse, em francês - antes, já havia dito que, em sua casa, com filhos (adotivos) de tantas nacionalidades, existem professores de francês, vietnamita e cambojano. ‘Queremos que as crianças cresçam conhecendo sua origem e cultura, e não influenciá-los para que adotem a nossa.’

WALTZ WITH BASHIR: nova vertente do documentário animado

VERDADE E ANIMAÇÃO: Houve surpresa quando Dossiê Rê Bordosa foi selecionado para o Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade. Um documentário animado parecia uma novidade muito grande, depois confirmada quando o filme passou e foi premiado no Cine PE. Cannes está tendo agora o seu Dossiê Rê Bordosa na competição. O diretor israelense Ari Folman fez um filme - Waltz with Bashir - que dificilmente será ignorado pelo júri, na premiação. Ainda é cedo para falar em prêmios, mas Bashir parece levar vantagem. Afinal, a diretora de Persépolis, premiado no ano passado, está no júri e Marjane Satrapi abriu sua preferência pelos filmes políticos, que de alguma forma refletem sobre o mundo em que vivemos. Waltz with Bashir inspira-se em experiências da vida do próprio diretor, quando integrou o Exército israelense, na ocupação do Líbano. Ari Folman criou um documentário-animado-verdade. Seu tema é o mergulho de dois homens - um é ele próprio - no horror da guerra que ambos tentaram eliminar da memória. Folman filmou em vídeo e depois apresentou o material à dupla de animadores Yoni Goodman e David Polonsky. Eles não fizeram a animação em cima daquelas imagens. Tomaram-nas como referência. O resultado é ousado, graficamente, mas é a ética que subverte a relação do filme com a platéia. A animação cria um distanciamento, mas, de repente, o diretor lança a platéia no centro de imagens reais do massacre de palestinos por tropas falangistas, aliadas de Israel, em Sabra e Chatyla. A força das imagens, a riqueza da trilha - com uma cena de soldados surfando ao som de rock pesado que lembra Apocalypse Now -, tudo faz de Bashir um acontecimento nesta nova vertente do documentário animado.

15/05/2008 - 17:42h O ESCRITOR E SEUS FANTASMAS, de Ernesto Sabato

por Claudinei Vieira

Blog Desconcertos


Ernesto Sabato é o autor de “Sobre Heróis e Tumbas”, uma das três maiores obras da literatura latino-americana de todos os tempos (as outras duas são, obviamente, “Cem Anos de Solidão”, de Gabriel Garcia Marquez e “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa), mesmo considerando que seu primeiro romance, “O Túnel”, também reeditado pela Companhia das Letras, já era um clássico. Junto com “O Túnel”, a editora publicou quase ao mesmo tempo o livro de memórias de Sabato, “Antes do Fim”, o amargo e poético testemunho deste velho senhor nascido em 1911, agora quase cego e que tem se dedicado à pintura por conta dos seus problemas de visão, pois uma tela exige menos dos seus olhos. Ainda assim, continua com uma lucidez impressionante e uma mentalidade afiada e instigante. (demorou um pouco para reeditar também seu terceiro romance, “Abadon, O Exterminador”, mas aconteceu)

“O Escritor e seus Fantasmas” são as reflexões de Sabato sobre o ofício de escrever. Publicado pela primeira vez na Argentina em 1963, fez parte de uma intensa discussão sobre a literatura e seus compromissos onde se misturavam, e se confundiam, propósitos políticos e ideológicos, além dos propriamente artísticos. A grande questão talvez fosse saber onde ficavam os limites, se é que existiam, entre arte e realização pessoal em contraponto a uma literatura desejosa de radicais transformações sociais. Hoje em dia, com a derrocada do mais poderoso expoente e sustentador da nefasta política de uma cultura proletária em oposição a uma cultura burguesa e decadente, esta discussão parece ter sido superada pela própria realidade.

Aparentemente, então, boa parte deste livro pode ser considerada como distante, antiga e ultrapassada, uma curiosidade quanto muito. No entanto, mesmo se Sabato se limitasse a um ataque a literatos marxistas, dos quais a História, com H maiúsculo, já tenha se encarregado de jogar na lata do lixo, só por isso já valeria a pena conhecer seu pensamento.

“O Escritor e seus Fantasmas” vai muito além da descrição de uma rixa entre literatos. Em primeiro lugar, porque Sabato não se coloca como um pensador profissional de literatura teórica. Ele não é um crítico ou um filósofo literário, muito menos um pesquisador. Ele é, acima e antes de tudo, um escritor.

É através de sua árdua experiência prática e cotidiana, que ele vai tecendo suas considerações. Afinal de contas, para que um escritor escreve? No prefácio, Sabato é bem claro: “Este livro se constitui de variações em torno de um único tema, o que tem me obcecado desde que comecei a escrever: por que, como e para que se escrevem ficções?”

Não há capítulos ou progressão geral para um pensamento único. São considerações que podem tomar várias páginas como quando discute o pretenso desaparecimento do romance como gênero literário ou quando combate o “subjetivismo” e o “cientificismo” na literatura. Ou, então, apenas um parágrafo, uma idéia, uma citação de algum outro autor.

Deste livro, algo que se impõe à primeira vista é o profundo comprometimento do artista com sua arte. Sabe-se como Sabato pode ser sério em suas convicções: sua primeira formação foi como físico. Deixou a Física, mesmo tendo fortes possibilidades de ganhar o Prêmio Nobel por suas pesquisas, porque ela não lhe completava como ser humano e nem respondia a suas angustiadas questões morais e pessoais. A literatura, sim, a arte em geral podem proporcionar respostas.

Esse engajamento na arte deve ser absoluto. Em um trecho intitulado “A condição mais preciosa do criador”, ele diz que essa condição é “O fanatismo. É preciso ter uma obsessão fanática, nada deve antepor-se a sua criação, deve sacrificar qualquer coisa a ela. Sem esse fanatismo nada de importante pode ser feito”. Mais para frente, diz: “O homem de hoje vive em alta tensão, diante do perigo da aniquilação e da morte, da tortura e da solidão. É um homem de situações extremas, chegou aos limites últimos de sua existência ou está diante deles. A literatura que o descreve e o interroga só pode ser, portanto, uma literatura de situações excepcionais”.

L'image “http://desconcertos.files.wordpress.com/2008/05/sabato.jpg?w=150&h=211” ne peut être affichée car elle contient des erreurs.Para Sabato, a arte não pode ser prostituída: “Se recebemos dinheiro por nossa obra, tudo bem. Mas escrever para ganhar dinheiro é uma abominação. Essa abominação se paga com o abominável produto que assim se engendra”. Então, como viver? “De qualquer modo, desde que a criação não seja manuseada, abastardada, barateada: montando uma oficina mecânica, trabalhando de empregado em um banco, vendendo quinquilharias na rua, assaltando um banco”.

Partindo de Sabato, estas afirmações adquirem uma conotação que saem do meramente retórico. Afinal, ele é uma pessoa que teve a coragem moral de assumir suas convicções e de pagar por elas.

Fanatismo artístico, no entanto, não significa cegueira cultural. Ao lado de todo esse seu radicalismo artístico, há uma enorme dose de sobriedade e lucidez. Ao discutir a visão marxista de arte, por exemplo, Sabato critica, ataca e denuncia a falsidade dos quadros dogmáticos e esquemáticos dos marxistas de carreira tanto quanto a ignorância e preconceito dos que acreditam que o marxismo, e o próprio Karl Marx, se reduzem a um economicismo simplório.

Sua ironia fina, elegante e penetrante e a escrita direta e simples, marcas absolutas de toda sua literatura, estão presentes aqui em alto grau. Em um trecho intitulado “Sobre os perigos do estruturalismo”, ele comenta: “Quase tudo é estrutura. Como afirmou solenemente um professor: com a única exceção do que é amorfo, tudo apresenta uma estrutura. O que é mais ou menos como dizer que, com a única exceção dos animais invertebrados, todos são vertebrados”, isto é, uma “pomposa imbecilidade”.

A tentação de encher este texto com citações é quase incontrolável; quase a cada página, é possível encontrar uma pérola. O que não significa que não haja também momentos baixos ou afirmações óbvias e simplistas. Mas, elas não atrapalham nem o desmerecem. Afinal, “O Escritor e seus Fantasmas” são as palavras de quem sabe o que está fazendo e fez durante a vida inteira.

publicado agora também pelo blog de amigos e amigos de literatura, o Rosebud.

14/05/2008 - 22:44h ‘Ensaio sobre a cegueira’ faz sucesso na sessão de gala em Cannes

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Filme de Fernando Meirelles foi aplaudido por quase oito minutos, em contraste com recepção fria da sessão para a imprensa em Cannes

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CANNES - ”Ensaio sobre a cegueira”, de Fernando Meirelles, foi aplaudido com entusiasmo por quase oito minutos na sessão de gala realizada na noite desta quarta-feira no Palácio dos Festivais em Cannes. A reação contrastou com a recepção fria da sessão especial para a imprensa na manhã deste mesmo dia. A atuação de Alice Braga (foto) está colecionando elogios nas mais diferentes línguas.

Mas o principal assunto na Croisette não envolve Meirelles e sim aquele que promete ser o equivalente israelense ao romeno “4 meses três semanas e dois dias” que levou a Palma de Ouro no ano passado. Vindo de Israel, o documentário animado “Waltz with Bashir”, de Ari Folman está criando um boca-a-boca fortíssimo na Croisette. Jornalistas veteranos que somam de 10 a 20 coberturas do festival apostam que o filme não sairá daqui sem prêmios. A especulação é motivada pela celeuma que a produção está causando ao revolver os conflitos armados do Líbano nos anos 80.

Outro filme que tem despertado a curiosidade geral é “Surveillance”, de Jennifer Lynch. Quem já viu o longa garante que a diretora, conhecida por “Encaixotando Helena”, fez um filme à altura do pai, o cultuado David Lynch. “Surveillance” será exibido hors concours.

Entre os filmes da competição, que vai até dia 24, os mais esperados sção “Changeling”, de Clint Eastwood, e - para alegria dos brasileiros - “Linha de passe”, de Walter Salles e Daniela Thomas. O impacto de “Diários de motocicleta” (2004) sobre Cannes garantiu uma força inabalável ao nome do diretor brasileiro por aqui.

14/05/2008 - 09:52h O pintor que reciclou o lixo da cultura ocidental

Ele incorporou o refugo da sociedade de consumo nas telas


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Rauschenberg - “Cardboard”

Antonio Gonçalves Filho - O Estado de São Paulo

Rauschenberg não foi Jasper Johns, apesar de ter sido uma instituição da arte americana. Isso quer dizer muito, embora ambos tenham surgido na esteira da arte pop que representava, nos anos 1960, uma alternativa para o expressionismo abstrato americano. Ao ganhar o grande prêmio de pintura na Bienal de Veneza, em 1964, Rauschenberg foi elevado à condição de semideus do pós-expressionismo com suas telas pantagruélicas consumidas avidamente pelo mercado e instituições museológicas. Mas, como se disse, Rauschenberg , a despeito dessa presença permanente na arte americana, não fez por ela o que fez Jasper Johns, ao trazer para o mundo do consumo pop a bandeira dos EUA esvaziada do sentido patriótico e reduzida à mera condição de pretexto para a pintura. Rauschenberg, de certo modo, faz o percurso inverso, apesar de estar na mesma estrada pop: usou as sobras da civilização urbana como crítica, mas acabou contribuindo para o consumo desse refugo como arte - daí a equivocada associação de Rauschenberg com os neodadaístas.

A arte pop sempre manteve uma relação incestuosa com a publicidade e a sociedade de consumo. Rauschenberg era esperto demais para deixar escapar os frutos dessa orgia artístico-financeira, seja vendendo uma cama com lençóis sujos - de tinta ou coisa pior (como a pintura-objeto Cama, produzida nos anos 1950)- ou telas que incorporavam objetos do cotidiano retirados de seu contexto. Jasper Johns, ao contrário, partiu desse mesmo cotidiano para criar um novo espaço pictórico, requintado e próprio.

Em outras palavras, apesar de ligado ao advento da arte pop americana, Jasper Johns ainda cultivava a herança pictórica européia, como mais tarde ficaria provado em pinturas cada vez mais próximas dessa tradição. Rauschenberg representava justamente o contrário, a crise da arte como ciência européia - e, nesse sentido, Argan estava absolutamente certo ao afirmar que a busca de uma arte autônoma, desligada desse passado, deslocou o eixo de produção da Europa para os EUA com o fim da 2ª Guerra. Mas pode um artista ou um movimento ser, efetivamente, autônomo?

Rauschenberg bem que tentou. Não custa lembrar que ele cometeu a heresia de apagar os vestígios dessa mesma pintura européia em 1953, ao destruir um desenho de Willem De Kooning - que, apesar de um nome ligado ao expressionismo abstrato americano, era holandês. A justificativa; ele queria trabalhar num espaço intermediário entre ‘arte e vida’. Isso existe? Uma assemblage - e Rauschenberg foi mestre na técnica - não é a mais sincera prova de que ambas estão grudadas como irmãs siamesas? Não foi ele mesmo quem disse que a tarefa de um artista é ser testemunha de seu tempo? Pois bem: esqueça o homem (e suas contradições) e fique com o pintor, que, nos anos 1950, ainda se preocupava em remover de suas telas abstratas uma incômoda narrativa, até sucumbir a ela ao adotar uma posição antagônica em seu período pop, incorporando mais metáforas do que poderiam suportar os olhos cansados de seus espectadores.

Ao contrário do amigo Johns, os olhos de Rauschenberg não se fixaram na pintura. Eles vagaram pela tela com o ceticismo pop e a inquietação performática, mas acabaram se voltando, de forma nostálgica, para o passado nas últimas obras. Elas constituem uma prova de que o crédito na renovação da arte usando o refugo das ruas caiu por terra quando Rauschenberg cedeu ao formalismo, desistindo do discurso pop. Em certa medida, virou uma paródia dele mesmo, assumindo a condição de performático de plantão ou reciclando idéias para parecer antenado com as bandas dos anos 1980 (ele fez capas para o Talking Heads).

É bem verdade que, nos últimos tempos, Rauschenberg já não incomodava ninguém com seu policromatismo - mais tropicalista que o de Beatriz Milhazes. Ninguém se importa em ganhar dinheiro com pinturas multinacionais. É um negócio como outro qualquer. Até que alguém, algum dia, não consiga vender o refugo.

12/04/2008 - 05:38h POLÊMICA NO MOVIMENTO TEATRAL BRASILEIRO: Duas leis, divisão ou diversidade?

Mobilização se acirra e revela contradições internas e diferenças de visão sobre mecanismos de apoio

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Beth Néspoli - O Estado de São Paulo

Se o movimento da classe teatral ganhou os holofotes nas últimas semanas, ele não começou ontem. Representante da APTR, Andréa Alves enfatiza que a discussão teve início há cerca de cinco anos, nas câmaras setoriais. ‘Em outubro de 2005 conseguimos, numa audiência pública, incluir o teatro na Comissão de Educação e Cultura. Abrimos essa porta’, diz. O anteprojeto de lei do Redemoinho também é de 2005 e já rendeu reportagem no Estado ao ser apresentado no 2º encontro da rede, realizado em Belo Horizonte, no Grupo Galpão.

Por que a disputa parece mais acirrada agora? Em parte pelas diferenças de propostas nos anteprojetos (leia abaixo), em parte pela própria mobilização da classe teatral. No dia 27 de março, dia do teatro, manifestações foram feitas em 11 cidades de diferentes Estados, planejadas pelo movimento Redemoinho em parceria com a Cooperativa Paulista de Teatro. Na próxima quinta-feira, o conselho do Redemoinho, formado por diretores de São Paulo, Porto Alegre, Natal, Belo Horizonte e Salvador, tem encontro marcado com o secretário executivo do MinC, Juca Ferreira, para discutir o anteprojeto de Lei de Fomento. Em maio haverá outra reunião na comissão do Senado para debater a Lei do Teatro. ‘Com certeza o movimento está mais maduro, propõe projetos, coloca o teatro em pauta e isso é um avanço’, diz Andréa.

Mas não unificado. São contradições que se repetem ao longo da História. Se há debate, livre, democrático, as diferenças aparecem. Algumas radicais como se pode constatar pela leitura dos artigos da página ao lado. Por outro lado, se há maturidade, o debate resulta frutífero. ‘No Brasil, é erro comum a confusão entre distribuição de verba e política cultural. Sempre se discute o primeiro. Enquanto não houver esse entendimento, a discussão não avança’, já argumentava Eduardo Tolentino, do Grupo Tapa, em reportagem do Caderno 2 de 11 de março de 2005, sobre a concentração de renda na captação feita por meio da Lei Rouanet. As reportagens também se repetem agora.

É ponto importante - a lei de incentivo é apenas um mecanismo de financiamento. Que serve, bem ou mal, a uma parcela da produção artística. Para além dos grupos organizados e dos artistas cuja simples presença no Senado repercute na mídia, há uma maioria silenciosa lutando para produzir e aprimorar a arte teatral em todo o País. Para levar O Avental ao festival de Curitiba, o grupo baiano Teatro de Bastidores fez uma via-crúcis por órgãos públicos e, ao final, contou sobretudo com seu público. ‘Teve até um espectador que pagou uma das passagens’, diz a produtora Graça Regina Souto Silva. Viajaram sem cenário, que recompraram em Curitiba (R$ 270) e lá deixaram. ‘Nosso projeto foi aprovado na Rouanet, mas não captou.’ Um caso, entre muitos. E era um espetáculo de autor premiado, Marcos Barbosa.

‘Só vai mudar quando as escolas levarem seus alunos ao teatro e ao cinema’, diz Andréa. ‘Ainda há executivos da área de Marketing que não têm noção do que é teatro.’ Com qual freqüência empresários, médicos, engenheiros ou políticos vão ao teatro? Talvez uma pesquisa séria de público revelasse que sua ausência nas salas não é mera questão de poder aquisitivo. Uma cena teatral forte e diversa pede mapeamento, políticas públicas planejadas para desenvolver a atividade em toda a sua amplitude, inclusive na formação, no sentido mais profundo, de público.

Se há consenso nesse ponto, não há sobre quais mecanismos dariam conta dessa amplitude. Ney Piacentini, presidente da Cooperativa Paulista de Teatro, enfatiza: ‘É preciso conhecer para criticar. A lei federal que propomos, por exemplo, não é só para manutenção de grupos, mas para produção de espetáculos e circulação. O que considero importante pôr em discussão é que fundo público tem de ter destinação pública. Lei de incentivo, da forma como está, é loucura brasileira, não existe em país nenhum.’

‘O atual debate é bom porque pode servir para afiar o diagnóstico, única chance de se chegar a boas soluções. Reações acirradas costumam ser provocadas por diagnósticos precários’, diz o consultor cultural João Leiva Filho. ‘Um dos problemas é que o funcionamento da lei piorou’, diz o produtor Claudio Fontana. ‘Antes a análise de um projeto levava no máximo dois meses, agora leva seis. Teoricamente, a criação de uma secretaria não é uma boa idéia, mas se na prática melhorar o atendimento eu aprovo’, argumenta.

‘Um dos problemas da Lei Rouanet é ser única’, diz o presidente da Funarte Celso Frateschi. ‘Cerca de 90% do que é aprovado não capta, é trabalho perdido’, diz. Claudio Fontana sugere que a dedução possa ser feita também sobre o lucro presumido - e não só sobre lucro real - o que facilitaria a captação e o investimento, nas pequenas empresas. ‘O Ministério da Cultura tem consciência de que mudanças vêm sendo solicitadas há cinco anos. Mas não se constrói política cultural com uma cartada. É preciso maturação. Acho que chegamos a esse ponto’, diz Celso Frateschi.

Recentes críticas de Frateschi à Lei Rouanet, segundo ele responsável pelo encurtamento das temporadas, provocaram uma reação em cadeia. ‘Estou convencido de que ainda vou convencer os produtores teatrais de que estou a favor deles’, diz ele. ‘Do jeito que está a Lei Rouanet não lhes serve.’

Produtores apontam a meia-entrada obrigatória para estudantes e idosos como uma das causas dos altos custos de produção. Onera e não atinge quem deveria. ‘Não é por ser estudante ou idoso que há carência financeira’, diz Beatriz Segall. ‘Sem contar que qualquer curso e até pizzaria dá carteira de estudante.’ Fontana aponta ainda os altos aluguéis das salas de espetáculo.

Celso Frateschi considera forte entrave no funcionamento da Rouanet o perfil dos captadores e a concentração de renda (leia quadro nesta página). ‘Não vou falar pelos outros, mas pela própria Funarte. Os prêmios Miriam Muniz, de teatro, e Klauss Vianna, de dança, foram realizados com captação pela Lei Rouanet. Como um produtor independente vai concorrer com Estados e com prefeituras?’ Uma lei geral para as artes vem sendo gestada no Ministério da Cultura. ‘No máximo em dois meses será posta em discussão com a classe’, diz Frateschi. Ele acredita que embora não seja uma lei específica para o teatro, vá servir entre outras coisas para desonerar a Lei Rouanet. ‘E terá especificidades que respeitam as diferenças de necessidades entre as áreas.’

Mais uma etapa dessa discussão certamente se dará no dia 5, quando Frateschi participa de um debate, aberto ao público, no Centro Cultural São Paulo, para discutir Políticas Públicas para o Teatro.

08/02/2008 - 23:41h A melhor foto do ano 2007

World Press Photo acaba de escolher em Amsterdã seus prestigiosos prêmios anuais.

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A melhor foto 2007, o gesto de um soldado exausto

Obra do fotógrafo inglês Tim Hetherington.