23/02/2009 - 15:50h Todos os talentos de Jacques Prévert

A exposição Paris la Belle, na França, e o lançamento em DVD, no Brasil, de Trágico Amanhecer resgatam um artista de gênio

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Luiz Carlos Merten – O Estado SP

Cidade-luz, Paris é a Meca e a Medina dos cinéfilos, que nela encontram, permanentemente, ciclos de filmes e autores que não podem ser rastreados com tanta facilidade em nenhum outro lugar do mundo. Mas Paris não é só uma festa de cinema. Se você quer saber o que ocorre no mundo do design e das artes visuais deve seguir de olho na capital francesa. O Centro Charles Pompidou, o Beaubourg, dedica uma grande mostra – até março – ao arquiteto e designer Ron Arad. Só para ver os móveis que ele cria – verdadeiras obras de arte, mas fica a dúvida se são também confortáveis – já valeria a pena ir à França, mas Paris, encerrada a grande retrospectiva Picasso et les Maitres, no Grand Palais, agora sedia, até dia 28, no Hôtel de Ville, a mais completa exposição sobre Jacques Prévert feita na França.

Paris la Belle. O título vem de um curta que Jacques realizou em parceria com o irmão Pierrre, em 1928, Paris Express, e que foi rebatizado como Paris la Belle, ao ser resgatado, em 1960. Houve outras grandes exposições sobre o artista, antes, mas elas privilegiavam partes de sua obra – as colagens, as fotografias. N.T. Binh, crítico e historiador – autor de uma acurada análise da obra de Joseph L. Mankiewicz na coleção Cahiers du Cinéma – e Eugénie Bachelot-Prévert, neta de Jacques, coassinam a curadoria do evento que revela a multiplicidade dos talentos do grande artista. Se há um artista multimídia, é ele. Homem de teatro, cinema, poeta, autor infantil, pintor, compositor, deixou uma notável contribuição em cada uma dessas mídias. Eugénie sonhava com essa exposição há dois anos, quando se completaram 30 anos da morte de seu avô, em 1977. A falta de patrocínio, na época, inviabilizou o projeto, mas ela teve a sorte de encontrar N.T. Binh, que organizara em 2006, no Hôtel de Ville – a Prefeitura de Paris -, o evento Paris no Cinema e tinha cacife para propor outra grande mostra. Binh propôs Prévert. Por quê? No catálogo da exposição, ele explica singelamente – “Porque Prévert foi sempre um artista identificado com os parisienses…”

O próprio prefeito de Paris, Betrand Deanoë, escreve, na abertura do catálogo, que, durante toda a sua vida, Jacques Prévert estabeleceu (e manteve…) uma excepcional cumplicidade com a capital francesa. Conhecedor das passagens mais secretas dos Grands Boulevards, amigo dos operários, dos pintores de Montmartre e dos escritores de Saint-Germain-des-Près, Prévert cravou a essência de sua poesia no coração de Paris e de seus habitantes. A questão é que não existe um Prévert, mas vários, compondo o itinerário de um artista que foi engajado – e libertário – como poucos. N. T. Binh sustenta que, durante toda a sua vida, Prévert não fez outra coisa senão tentar reencontrar a Paris de sua infância. A exposição estabelece etapas do percurso – a infância, próxima dos Jardins de Luxemburgo; a juventude, quando ele se liga aos surrealistas, integrando a república ‘boullionnante’ da Rua Chateu (Castelo).

Após o rompimento com os surrealistas, Prévert produz para o teatro, escrevendo textos engajados para o grupo Outubro. Os anos 30 foram de muita agitação social na França. Prévert, que visitou a Rússia em 1933, voltou militante de causas radicais. Os operários da Citröen preparavam uma greve para hoje à tarde e lhe pediam um texto – ele o produzia num piscar de olhos. O Prévert dramaturgo vira roteirista de cinema, associando-se a Marcel Carné numa memorável série de filmes que instala a tendência do chamado ‘realismo poético’. O maior desses filmes, O Boulevard do Crime (Les Enfants du Paradis, de 1945) foi considerado numa pesquisa, há cerca de dez anos, como a obra-prima de toda a história do cinema francês, mas a parceria Carné-Prévert inclui outros filmes, como Trágico Amanhecer (Le Jour Se Lève, de 1939), com a dupla clássica Jean Gabin/Arlétty, que acaba de sair em DVD.

Como as coisas ocorrem por ciclos na obra de Prévert, em 1946, ele começa a se afastar do cinema, orientando-se para a poesia (com Paroles) e a canção. É muito interessante assistir aos trechos de filmes e aos clipes que mapeiam o Prévert roteirista e letrista. Ele produziu letras para Edith Piaf, Yves Montand, Juliette Gréco e Nat King Cole. Os três últimos apresentam suas diferentes versões de Feuilles Mortes. Para o espectador brasileiro, é um choque ver a musa do existencialismo cantar Folhas Mortas. Juliette Gréco foi o modelo de Maysa. Existem ainda o Prévert autor infantil, o pintor das colagens e o retratista. Amigo de Juan Miró, Pablo Picasso e Alexander Calder, Jacques brincava com Picasso e dizia que ele era um grande cineasta, embora não soubesse filmar. Picasso retrucava que ele era um grande pintor, mesmo sem saber pintar (nem desenhar). Suas colagens são de uma riqueza – e uma criatividade e um humor – extraordinários. O legado da exposição é que Prévert não se fixou em rótulos nem dogmas. Foi libertário de si mesmo. Criou-se, por isso, um verbo. O diretor Jean-Pierre Jeunet conta que, enquanto escrevia O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, ao dar-se conta de que algumas coisas simplesmente não iriam funcionar, ele pedia à sua roteirista, Guillaume Laurant – “Aqui, nós precisamos prévertizar.”

Juliette Greco

Yves Montand – Les feuilles mortes

05/11/2008 - 20:12h Este amor


Este amor

Tão violento
Tão frágil
Tão terno
Tão desesperado
Este amor
Belo como o dia
E mau como o tempo
Quando há mau tempo
Este amor tão sincero
Este amor tão calmo e sereno
Tão feliz
Tão jovial
E tão pobre
Trêmulo como uma fagulha na escuridão
E tão seguro de si mesmo
Como um homem tranqüilo no mais fundo da noite
Este amor que assusta os demais
Que os faz falar
Que os faz empalidecer
Este amor vigiado
Porque nós o vigiamos
Acossado ferido pisoteado destroçado negado olvidado
Porque nós o acossamos ferimos pisoteamos destroçamos negamos olvidamos
Este amor íntegro
Tão vivo até agora
E pleno de sol
É o teu
É o meu
Esse que foi
Este algo sempre novo
E que não mudou
Tão verdadeiro como uma planta
Tão trêmulo como um pássaro
Tão cálido tão vivo como o verão
Ambos podemos juntos
Nos distanciar e retornar
Esquecê-lo
E depois dormirmos
Despertarmos padecer envelhecer
Dormirmos de novo
Sonhar com a morte
Despertarmos sorrir e rir
E rejuvenescer
Nosso amor segue ali
Obstinado como uma mula
Vivente como o desejo
Cruel como a memória
Absurdo como o arrependimento
Terno como as recordações
Frio como o mármore
Belo como o dia
Frágil como um menino
Nosso amor nos olha sorrindo
E nos fala sem dizer nada
E eu o escuto trêmulo
E grito
Grito por ti
Grito por mim
E te suplico
Por ti por mim por todos os que se amam
E os que se amaram
Sim lhe grito
Por ti por mim e por todos
Os que não conheço
Fica
Não te mexa
Não vá
Nós os que somos amados
Te esquecemos
Mas não nos esqueça tu
Só tínhamos a ti no mundo
Não permitas que nos tornemos indiferentes
Cada vez mais longe
E desde onde sejas
Dai-nos sinais de vida
Muito mais tarde desde o recanto de um bosque
Na selva da memória
Surge de repente
Estenda-nos a mão
E salva-nos.

Jacques Prévert

(Palavras)

rafal_olbinsky.jpg
Pintura de  Rafal Olbinsky

Cet amour

Cet amour
Si violent
Si fragile
Si tendre
Si désespéré
Cet amour
Beau comme le jour
Et mauvais comme le temps
Quand le temps est mauvais
Cet amour si vrai
Cet amour si beau
Si heureux
Si joyeux
Et si dérisoire
Tremblant de peur comme un enfant dans le noir
Et si sûr de lui
Comme un homme tranquille au millieu de la nuit
Cet amour qu faisait peur aux autres
Qui les faisait parler
Qui les faisait blêmir
Cet amour guetté
Parce que nous le guettions
Traqué blessé piétiné achevé nié oublié
Parce que nous l’avons traqué blessé piétiné achevé nié oublié
Cet amour tout entier
Si vivant encore
Et tout ensoleillé
C’est le tien
C’est le mien
Celui qui a été
Cette chose toujours nouvelle
Et qui n’a pas changé
Aussi vrai qu’une plante
Aussi tremblante qu’un oiseau
Aussi chaude aussi vivant que l’été
Nous pouvons tous les deux
Aller et revenir
Nous pouvons oublier
Et puis nous rendormir
Nous réveiller souffrir vieillir
Nous endormir encore
Rêver à la mort,
Nous éveiller sourire et rire
Et rajeunir
Notre amour reste là
Têtu comme une bourrique
Vivant comme le désir
Cruel comme la mémoire
Bête comme les regrets
Tendre comme le souvenir
Froid comme le marble
Beau comme le jour
Fragile comme un enfant
Il nous regarde en souriant
Et il nous parle sans rien dire
Et moi je l’écoute en tremblant
Et je crie
Je crie pour toi
Je crie pour moi
Je te supplie
Pour toi pour moi et pour tous ceux qui s’aiment
Et qui se sont aimés
Oui je lui crie
Pour toi pour moi et pour tous les autres
Que je ne connais pas
Reste là
Lá où tu es
Lá où tu étais autrefois
Reste là
Ne bouge pas
Ne t’en va pas
Nous qui sommes aimés
Nous t’avons oublié
Toi ne nous oublie pas
Nous n’avions que toi sur la terre
Ne nous laisse pas devenir froids
Beaucoup plus loin toujours
Et n’importe où
Donne-nous signe de vie
Beaucoup plus tard au coin d’un bois
Dans la forêt de la mémoire
Surgis soudain
Tends-nous la main
Et sauve-nous.

Jacques Prévert

(Paroles)

Susan Graham – D’amour l’ardente flamme, ária da Ópera La damnation de Faust de Berlioz

10/02/2008 - 20:13h Cet amour, este amor, questo amore,

Cet Amour

Jacques Prévert

Cet amour

este amor

Si violent

Tão violento

Si fragile

tão frágil

Si tendre

tão terno

Si désesperé

tão desesperado

Cet amour

este amor

Beau comme le jour

belo como o dia

Et mauvais comme le temps

e mau como o tempo

Quand le temps est mauvais

quando o tempo é ruim

Cet amour si vrai

este amor tão verdadeiro

Cet amour si beau

este amor tão belo

Si heureux

tão feliz

Si joyeux

tão alegre

Et si dérisoire

e tão ridículo

Tremblant de peur

tremendo de medo

Comme un enfant dans le noir

como uma criança no escuro

Et si sûr de lui

e tão seguro de si

Comme un homme tranquille

como um homem tranquilo

au milieu de la nuit

no meio da noite

Cet amour qui faisait

este amor que fazia

Peur aux autres

medo aos outros

Qui les faisait parler

que os fazia falar

Qui les faisait blémir

que os fazia empalidecer

Cet amour guetté

este amor espreitado

Parce que nous le guettions

porque nós o espreitávamos

Traqué, blessé, pietiné, achevé, nié, oublié

encurralado, ferido, pisado, acabado, negado, esquecido

Parce que nous l’avons traqué blessé piétiné achevé nié oublié

Porque nós o havíamos encurralado ferido pisado acabado negado esquecido

Cet amour tout entier

este amor todo inteiro

Si vivant encore

tão vivo ainda

Et tout ensoleillé

e todo ensolarado

C’est le tien

é o meu

C’est le mien

é o teu

Celui qui a été

este que foi

Cette chose toujours nouvelle

esta coisa sempre nova

Et qui n’a pas changé

e que não mudou

Aussi vraie qu’une plante

tão verdadeira como uma planta

Aussi tremblante qu’un oiseau

tão trêmula quanto um pássaro

Aussi chaude, aussi vivante qu l’été.

tão quente, tão viva quanto o verão

Nous pouvons tous les deux

nós podemos os dois

Aller et revenir

ir e voltar

Nous pouvons oublier

nós podemos esquecer

Et puis nous rendormir

e depois tornarmos a adormecer

Nous réveiller, souffrir, vieillir

nos acordar, sofrer, envelhecer

Nous endormir encore

adormecermos ainda

Rêver à la mort

sonhar com a morte

Nous éveiller, sourire et rire

nos despertar, sorrir e rir

Et rajeunir

e remoçar

Notre amour reste là

nosso amor permanece lá

Têtu comme une bourrique

teimoso como um jegue

Vivant comme le désir

vivo como o desejo

Cruel comme la mémoire

cruel como a memória

Bête comme les regrets

Tolo como os arrependimentos

Tendre comme le souvenir

terno como a saudade

Froid comme le marbre

frio como o mármore

Beau comme le jour

belo como o dia

Fragile comme un enfant

frágil como uma criança

Il nous regarde en souriant

ele nos olha sorrindo

Et il nous parle sans rien dire

e ele nos fala sem nada dizer

Et moi je l’écoute en tremblant

e eu o escuto tremendo

Et je crie

e eu grito

Je crie pour toi

eu grito por ti

Je crie pour moi

eu grito por mim

Je te supplie

eu te suplico

Pour toi pour moi

por ti por mim

Et pour tous ceux qui s’aiment

e por todos aqueles que se amam

Et qui se sont aimés

e que são amados

Oui je lui crie

Sim eu grito por ele

Pour toi pour moi et pour tous les autres

Por você por mim e por todos os outros
Que je ne connais pas

Que eu não conheço
Reste là

Permanece lá
Lá où tu es

Lá onde você está
Lá où tu étais autrefois

Lá onde você esteve em outras ocasiões

Reste là

Permanece lá

Ne bouge pas

Não mude
Ne t’en va pas

Não te vás

Nous qui sommes aimés
Nós que somos amados

Nous t’avons oublié

nós te esquecemos

Toi ne nous oublie pas

tu, não me esqueças

Nous n’avons que toi sur la terre

nós não temos mais que tu sobre a terra

Ne nous laisse pas devenir froids

não nos deixe vir a ser frios

Beaucoup plus loin toujours

muito longe disso

Et n’importe où

e não importa onde

Donne-nous signe de vie

dá-nos sinal de vida

Beaucoup plus tard au coin d’un bois

bem mais tarde, no “canto de um bosque”

Dans la forêt de la mémoire

na floresta da memória

Surgis soudain

manifesta-te de repente

Tends-nous la main

estende-nos a mão

Et SAUVE-NOUS

e salva-nos

prevert.jpg

Jacques Prévert,

poète et scénariste.

Ses poèmes sont depuis lors célèbres dans la Francophonie et massivement appris dans les écoles françaises.

*Né le 04 février 1900 – Neuilly sur Seine – FR
+Décédé le 11 avril 1977 – Omonville-la-Petite – FR