07/01/2009 - 09:51h 2009 moldará o destino do mundo

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*Martin Wolf - VALOR

Bem-vindos a 2009. Este é um ano que determinará o destino da economia mundial, talvez por gerações. Alguns observadores acalentam esperanças de que poderemos restaurar o crescimento econômico mundialmente desequilibrado em meados desta década. Eles estão errados. Nossa escolha é somente sobre o que o substituirá. É entre uma economia mundial mais bem equilibrada e desintegração. Essa escolha não pode ser adiada. Tem de ser feita neste ano.

Estamos aprisionados na mais grave crise financeira mundial em sete décadas. Em conseqüência, o mundo não dispõe de agentes privados dispostos a tomar empréstimos em larga escala. A alternativa - depender de enormes déficits fiscais americanos e expansão do crédito concedido por bancos centrais - é um expediente temporário, embora necessário. Mas isso não proporcionará um retorno duradouro ao crescimento. Mudanças fundamentais são necessárias.

Já deve ter ficado claro - até mesmo para obtusos e complacentes - que esta crise se iguala em gravidade às piores que já impactaram os países avançados na Era do Pós-Guerra. Em recente atualização de um estudo seminal publicado 12 meses atrás, Carmen Reinhart, da Universidade Maryland e Kenneth Rogoff, de Harvard, detalham o que isso significa. Assinalam as similaridades entre grandes crises financeiras em países avançados e emergentes e, ao combinar alguns casos graves, chegam a conclusões perturbadoras.

Crises bancárias são agudas, apontam eles, e a produção declina, em média, durante dois anos. Colapsos nos mercados de ativos são profundos, com quedas nos preços reais das moradias, também em média de 35% num prazo de seis anos, e queda de 55% nos preços das ações ao longo de 3,5 anos. A taxa de desemprego cresce em média 7 pontos percentuais em quatro anos, ao passo que a produção cai 9%.

Não menos importante, o valor real da dívida governamental salta, em média, 86%. Isso se deve apenas em pequena medida ao custo de recapitalização dos bancos. Deve-se bem mais ao colapso nas receitas tributárias.

Até que ponto a atual crise igualará a gravidade da pior registrada no passado? A continuada disposição do mundo em financiar pelo menos os EUA - embora não necessariamente países deficitários menores e mais periféricos, como o Reino Unido - é uma razão para otimismo. Isso efetivamente permite que o governo americano articule um vasto programa de socorro fiscal e monetário.

Mas, como os professores Reinhart e Rogoff apontam em outro estudo, esta é uma crise mundial, não regional. O estudo nos recorda que os EUA são ainda, para bem ou para mal, o pivô da economia mundial. Nas grandes crises em décadas recentes, a demanda americana salvou o mundo. Isso foi verdade durante os anos 90, depois da crise asiática, e novamente depois do colapso nas bolsas, em 2000. Mas quem, com exceção de seu próprio governo, socorrerá os EUA? E em que escala precisará agir?

Essa questão é abordada em outro estudo seminal, o mais recente na série de autoria de Wynne Godley e dois colegas para o “Levy Economics Institute” do “Bard College”. O argumento que fundamenta a análise deve, nesta altura dos acontecimentos, ser bastante familiar aos leitores desta coluna.

O que torna o socorro tão difícil é a força que motivou a crise: a interação entre persistentes desequilíbrios externo e interno nos EUA e no restante do mundo. Os EUA e alguns outros países deficitários crônicos têm, atualmente, uma capacidade estruturalmente deficiente para produzir bens e serviços comerciáveis. O restante do mundo, ou, mais precisamente, um número limitado de países com grande superávit - especialmente a China -, têm o oposto. De modo que a demanda vaza sistematicamente dos países deficitários para os superavitários.

Em épocas de demanda aquecida, isso não é problema. Em períodos de colapso nos gastos privados, como agora, trata-se de um problema enorme. Isso significa que os esforços de socorro americanos precisam ser suficientemente grandes não apenas para aumentar a demanda por produção americana, mas também para ampliar a demanda pelo excedente produtivo de grande parte do restante do mundo. Esse foi um ônus com que o Japão, quando afetado por sua crise, não teve de arcar.

O que aconteceu com os gastos privados americanos decorre do colapso na tomada de empréstimos: entre o terceiro trimestre de 2007 e terceiro trimestre de 2008, a concessão líquida de empréstimos ao setor privado americano caiu aproximadamente o equivalente a 13% do PIB - de longe a mais aguda queda na história da série. Com a tomada de empréstimos fora do cenário, a poupança privada líquida - diferença entre receitas e despesas - provavelmente permanecerá positiva durante anos, enquanto as famílias irão pagando suas dívidas, querendo ou não.

Em vista do persistente déficit estrutural em conta corrente, qual deve ser a ordem de grandeza do déficit fiscal para equilibrar a economia em algum ponto próximo do pleno emprego? Considerando, inicialmente, que o setor privado incorra em um superávit financeiro de 6% do PIB e que o déficit estrutural em conta corrente seja de 4% do PIB, o déficit fiscal precisa ser de 10% do PIB, indefinidamente.

E para chegar a esse ponto, o estímulo fiscal precisa ser enorme. Uma injeção arbitrária de US$ 760 bilhões, ou 5,3% do PIB, não é suficiente. Os autores argumentam que “mesmo com a aplicação de estímulos fiscais quase inacreditavelmente grandes, a produção não crescerá o suficiente para impedir que o desemprego continue a crescer no decorrer dos próximos dois anos”.

Agora consideremos o que acontecerá se, após dois ou mais anos de monstruosos déficits fiscais, os EUA continuarem atolados em desemprego e crescimento lento. As pessoas começarão a perguntar por que o país está exportando tanto de sua demanda para sustentar empregos no exterior. Eles irão querer sua demanda de volta. A última vez em que esse tipo de coisa aconteceu - na década de 1930 - o desfecho foi uma rodada devastadora de desvalorizações em que cada país tenta beneficiar-se em detrimento dos outros, e protecionismo. Poderemos ficar confiantes de que conseguiremos evitar tais riscos? Ao contrário, o perigo é extremo. Depois que tiver início uma reversão da integração da economia mundial e o desemprego disparar, os demônios de nosso passado - o nacionalismo, acima de tudo - retornarão. Os avanço de décadas poderão desmoronar quase do dia para a noite.

No entanto, temos uma oportunidade de ouro para nos desviarmos desse curso. Hoje, sabemos mais. Os EUA têm, em Barack Obama, um presidente com enorme capital político. Seu governo estará determinado a fazer tudo o que puder. Mas os EUA não são suficientemente fortes para socorrerem, sozinhos, a economia mundial. Os EUA necessitam colaboração, especialmente dos países superavitários. Os EUA e um punhado de outros países avançados já não têm condições de absorver os superávits mundiais de poupança e mercadorias. A crise é prova disso. O mundo mudou, e por isso devem mudar suas políticas. Isso precisa ser feito já.

Martin Wolf é colunista do “Financial Times”.

17/12/2008 - 09:57h Lula rejeita flexibilizar regra trabalhista para evitar cortes

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Apesar de pressão de empresários, presidente não pretende apoiar mudança na legislação

Governo “não vai jogar a conta da crise nas costas do trabalhador”, diz Bernardo, mas vai incentivar acordos dentro das regras da CLT

KENNEDY ALENCAR E JULIANNA SOFIA - FOLHA SP

DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

Apesar das pressões do empresariado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não pretende encampar medidas de mudanças da legislação trabalhista por causa dos reflexos da crise econômica mundial sobre a produção e a geração de empregos no Brasil.
“Não vejo a menor possibilidade de o governo discutir a flexibilização das leis trabalhistas ou medidas de exceção”, disse ontem à Folha o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo. Segundo ele, o governo “não vai jogar a conta da crise nas costas do trabalhador”.
Em entrevista no final de semana ao jornal “O Estado de S. Paulo”, o presidente da Vale, Roger Agnelli, defendeu a flexibilização das leis trabalhistas e falou em “medidas de exceção”.
Lula, que considerou “infeliz” a expressão “medidas de exceção”, está disposto a discutir o incentivo a acordos entre sindicatos fortes e grandes empresas para contornar os cortes. Nesse caso, dentro dos parâmetros da CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), seriam negociadas alternativas.
Há no governo uma ala que defende que o FAT (Fundo de Amparo ao Trabalhador) arque com eventual custo de um acordo coletivo, mas é uma idéia polêmica, sugerida por empresários, e que Lula ainda não avaliou detalhadamente.
A Folha apurou que líderes sindicais e representantes da indústria paulista chegaram a iniciar a negociação de um “acordo guarda-chuva” com alternativas às demissões nos setores mais afetados pela crise. A proposta foi apresentada ao presidente Lula com o objetivo de exigir uma contrapartida do governo ao sacrifício dos trabalhadores e das empresas.
O presidente, segundo integrantes da negociação, pediu que as discussões fossem suspensas até janeiro. Caso o Planalto referendasse agora um “acordão”, o discurso pró-consumo encampado por Lula para incentivar as compras de Natal seria prejudicado, pois evidenciaria otimismo menor do que o aparentado pelo governo. Além disso, Lula quer aguardar a resposta às medidas anunciadas pela equipe econômica até agora antes de buscar remédios mais amargos.
A ala do governo que defende eventual uso do FAT para cobrir os acordos é comandada pelo ministro do Desenvolvimento, Miguel Jorge. Segundo a Folha apurou, ele defendeu que o Ministério do Trabalho examine a opção de usar parte dos recursos do seguro-desemprego para ajudar empresas a pagar os salários de trabalhadores que fizerem concessões num acordo coletivo.
Quando era executivo da Volks, Jorge esteve à frente de uma negociação em que houve redução de 20% da jornada e do salário. Na época, dividiu-se o valor do 13º salário, do adicional de férias e da participação nos lucros em 12 vezes para que o empregado mantivesse o nível mensal de remuneração.
Houve contestação judicial, porque a lei não permite essa divisão. No entanto, prevaleceu o entendimento do “acordado sobre o legislado”. Ou seja, a Justiça do Trabalho oficializou o acordo porque ele interessava às duas partes. A sugestão de Jorge é que, caso não se atinja a remuneração mensal do trabalhador após a redução da jornada e a divisão desses benefícios, o seguro-desemprego cubra essa diferença. Obviamente, é uma medida polêmica. Auxiliares do presidente acreditam que dificilmente ele avalizará uma medida assim. Há complicadores políticos e legais.
Para implementá-la, seria preciso uma modificação legal do seguro-desemprego, a ser feita por projeto de lei no Congresso. Somente um agravamento muito forte da crise, na contramão do discurso otimista do governo, poderia criar clima político para a aprovação.

16/12/2008 - 13:20h Entre o antes e o depois

rui_falcao.jpgEm consonância com estratégias semelhantes adotada pelos governos do Japão e dos países da Europa, de prevenção e reação ao aprofundamento da recessão, o governo Lula anunciou na semana passada um conjunto de medidas de vigência imediata, que se resumem na redução de impostos e na promoção dos investimentos, para evitar o desemprego e estimular o consumo. Outras providências virão se a situação o exigir.

Essa é, provavelmente, a primeira vez na história do Brasil em que medidas preventivas destinadas a sustentar a atividade econômica contemplam diretamente os trabalhadores. Visam à manutenção do poder aquisitivo, por meio da redução do Imposto sobre a Renda, do salário e do emprego, a retomada da produção e o restabelecimento dos fluxos de crédito, sem falar da preservação da rede de proteção social, que atende, entre outros programas, os beneficiários do Bolsa-Família.

O ineditismo da iniciativa não passou despercebido pela grande imprensa e por seus colunistas, em geral inclinados a desqualificar, por preconceito, tudo o que emana do Palácio do Planalto. Desta vez, porém, sem deixar de apequenar o feito tanto quanto possível, chegou-se a admitir num gesto irônico que “o presidente Lula descobriu o crédito como instrumento de ação política”, ou que “parece estar havendo agora mais realismo na equipe econômica”… “caminho pragmático que agora começa a trilhar”.

São, em geral, avaliações que intentam reduzir o programa anti-recessão a uma iniciativa de caráter imediatista e gerencial, que teria sido inspirado ao acaso das circunstâncias politiqueiras, como um súbito lampejo oportunista que se tivesse abatido sobre a cabeça do presidente ou de algum de seus ministros. Como a sugerir que, mesmo de um governo do qual nada se espera, pode ocorrer, como a um relógio parado, que dê a hora certa duas vezes por dia.

Tudo isso para não reconhecer que nada há de improvisação no conjunto de medidas anunciadas. Com tal relutância, não se compreenderão os fundamentos de sua motivação nem o alcance de suas implicações. Sob o risco de manter a sociedade privada de seu significado, não se pode passar por cima de seu aspecto novidadeiro, para interpretá-las como mera extensão do receituário a que esteve sujeita a condução da política econômica em passado recente. O receituário do governo FHC, por diferenças doutrinárias, nada tem de aproveitável nas atuais circunstâncias, ao contrário: só serviria para agravar ainda mais o problema.

A cartilha fundamentalista, que manteve o governo FHC passivo diante da crise social gerada pelo seu programa de estabilização, privaria os seus operadores de enxergar o caminho de saída – a necessidade de intervenção do Estado no estímulo à demanda agregada, à retomada dos investimentos e do emprego. A propósito, certamente não é por acaso que os autores do livro virtual “Como reagir à Crise – Políticas Econômicas para o Brasil”, lançado na semana passada por um grupo de economistas que desenharam e implementaram o programa neoliberal tucano, não dedicam um único capítulo ao impacto da crise sobre o emprego e a renda dos trabalhadores. Entre os autores, o ex-ministro da Economia, Pedro Malan, e o ex-presidente do Banco Central, Armínio Fraga. Para assegurar o pleno emprego, diziam eles, bastaria confiar na capacidade do mercado de se auto-regular e de restabelecer espontaneamente a confiança dos investidores. O resultado foram oito anos de estagnação e desemprego, o pior período da história econômica brasileira para os trabalhadores.

O que há de novo no governo Lula é que, assim como os governos do Japão e dos países europeus, ele não se conforma em deixar de lado os instrumentos que lhe são postos à disposição pelo Estado para debelar a crise, em vez de se submeter à passividade gerencial dos fundamentalistas. O livre mercado, deixado a seu suposto automatismo, somente leva a crises recorrentes de acumulação, à concentração da renda e à exclusão social.

O que há de novo, a inspirar a estratégia de resposta à crise, é o restabelecimento da Política na condução dos assuntos do Estado, como instituição capaz de promover a necessária acomodação dos interesses conflitantes, num ambiente democrático de participação e deliberação. Não se trata, pois, de restringir o sentido das medidas a um suposto oportunismo do político Lula - de “ter descoberto o crédito como instrumento de ação política”-, e sim de reconhecer que foi a reinstitucionalização da Política que tornou possível ao governo recorrer ao crédito para estimular a atividade econômica.

Com o restabelecimento da Política em seu papel de pactuar conflitos de interesses, estamos diante de um novo horizonte de valores, construído a partir de uma concepção integral da cidadania, sustentada por sujeitos políticos conscientes, autônomos e ativos. Sob o enfoque da cidadania consagrada nos termos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, cabe ao Estado não apenas assegurar o direito à liberdade individual e à iniciativa privada, mas também prover o acesso aos direitos sociais, o que lhe confere a responsabilidade de desempenhar um papel estratégico no fortalecimento da democracia. Pois, como está inscrito na Constituição Federal e como mostrou o Prêmio Nobel de Economia Amartya Sen, a democracia somente é sustentável se assentada também na realização e defesa dos direitos sociais, ou seja, na eqüidade.

Longe de se constituir em investida oportunista, o conjunto consistente de medidas anti-recessão apresenta-se a nós, do Partido dos Trabalhadores - sem exclusão de demais partidos da base aliada -, e certamente a toda sociedade como uma aplicação natural dos princípios e diretrizes que conformam a dimensão da sustentabilidade.

Em termos elementares, a sustentabilidade é sinônimo de estabilidade, permanência no tempo, duração, reiteração. A estabilidade democrática estará em perigo sempre que o Estado e os governos se omitirem na promoção do bem-estar e da melhoria das condições sociais dos grupos mais vulneráveis. Inversamente, a democracia se fortalecerá sempre que a estratégia de crescimento econômico estiver associada à realização dos direitos sociais e à participação popular. São esses os fundamentos que inspiram a estratégia de resposta à crise – e que nada têm de imediatismo oportunista ou de improvisação.

Como parte da estratégia de desenvolvimento sustentável, que caracteriza o modo petista de governar, são medidas que se orientam pelos princípios da prevenção, precaução, participação, compensação e compromisso com a melhoria contínua, entre outros. A implementação de tal estratégia implica mudança nas relações de poder, como pré-condição e como resultado da incorporação da participação popular nos processos de decisão. É dizer que o propósito que orienta o governo na definição das medidas destinadas a atenuar os efeitos negativos da crise é indissociável de seu compromisso de manutenção do bem-estar social e do fortalecimento da democracia.

Eis a diferença de qualidade, que o preconceito não permite enxergar.


Rui Falcão, 65 anos, advogado e jornalista, é deputado estadual pelo Partido dos Trabalhadores. Foi deputado federal, presidente do PT e secretário de governo na gestão Marta Suplicy.

16/12/2008 - 10:27h FMI vê risco de crise global prolongada e distúrbios sociais em vários países

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Jamil Chade - O Estado SP

A economia global pode cair em uma crise prolongada, espalhando tensões sociais, se os governos não expandirem e implementarem os pacotes de estímulo prometidos, afirmou o diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Dominique Strauss-Kahn ontem. O crescimento está desacelerando na China, à medida que a economia global sofre uma queda sem precedentes de produção e ruma para uma recessão, elevando os riscos de mais distúrbios civis como os vistos na Grécia, acrescentou.

Sem urgência por parte dos governos, o início da recuperação econômica global no fim de 2009 e início de 2010 pode ser adiada. “Muito ainda precisa ser feito e, se esse trabalho não funcionar, será difícil evitar uma longa crise.”

Ele prevê protestos violentos se espalhando se o sistema financeiro não for reorganizado para beneficiar a todos e não apenas a elite. Strauss-Kahn pede que 2% do PIB mundial sejam usados em pacotes para relançar a economia do planeta, cerca de US$ 1,2 trilhão. “2009 será um ano muito difícil e os dados que iremos divulgar em janeiro serão provavelmente piores que os atuais”, disse. “A possibilidade de uma recessão global está mesmo diante de nós.”

No dia 6 de novembro, o FMI previu que os países ricos sofreriam uma queda de 0,3% em seu PIB em 2009, a primeira contração simultânea de todas as economias desenvolvidas desde 1945. Já o mundial cresceria apenas 2,2%. Para o Brasil, a taxa de crescimento de 3% prevista para 2009 deve ser revista.

Ele antecipou projeções globais que devem ser anunciadas em janeiro sobre a China, país deve crescer apenas 5% em 2009. Pelos cálculos do Banco Mundial, só para gerar postos de trabalho para o número crescente de pessoas que deixam o campo para trabalhar nas cidades, a China precisa crescer 5%.

No relatório atual do FMI, a China teria uma alta de 8,5% de seu PIB em 2009, já abaixo da média da última década. Em 2008, o país irá crescer 9,7%.

ESTÍMULO

Para o FMI, embora incertezas limitem a eficácia de algumas medidas de política fiscal, os pacotes que governos em todo o mundo estão adotando podem ter impacto positivo, mas precisam ser mantidos por alguns meses. “Precisamos de apoio e mecanismos de estímulo que sejam grandes e diversificados e que possam ser utilizados por um ou dois trimestres”, pediu Strauss-Kahn.

14/12/2008 - 12:27h Brasil, Japão e Europa investem contra a recessão

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Alberto Tamer - O Estado SP

Brasil, Japão e Europa decidiram, na semana que passou, reduzir impostos e aumentar investimentos para evitar o desemprego, estimular o consumo e enfrentar a recessão. Eles, que têm um PIB somado de US$ 18 trilhões, vão gastar US$ 550 bilhões. Somados ao que a China já está aplicando, são mais de US$ 1 trilhão. Faltam apenas os Estados Unidos, onde Bush ainda se enrola na crise financeira e se recusa a estimular a demanda interna, mesmo com o apelo de Obama, ninguém sabe por quê.

Nós, que ainda estamos crescendo e somos pequenos, anunciamos um pouco mais de US$ 2 bilhões no pacote fiscal de quinta-feira. É compreensível. Eles já vinham desacelerando há muito e estão em recessão, que só agora nos ameaça.

Importante é que todos, asiáticos, europeus e emergentes, decidiram passar da fase inicial de socorrer o sistema financeiro para a segunda fase, decisiva: o incentivo à demanda para recuperar a economia. Estão fazendo isso pelo aumento da demanda, que havia recuado por causa da retração do crédito e da reação do consumidor, preocupado com um futuro incerto.

AINDA HÁ TEMPO

Aqui, ainda há ânimo e, pela primeira vez, consciência do perigo; lá, só agora acordaram - discutem o estímulo há meses - e são poucas as esperanças de retomada no curto prazo. Muitos economistas consideram 2009 um ano perdido para europeus e americanos. Nós ainda podemos recuperá-lo com algum crescimento se o governo mantiver a linha agora anunciada de reduzir impostos, realizar obras de resultado rápido sobre o emprego, como as previstas no setor imobiliário, e promover e incentivar financiamentos a custo menor e prazo maior. Pelo pacote anunciado na quinta-feira, este foi o caminho que decidiu seguir. Deixou de lado ilusões de que estamos suficientemente fortes para sair ilesos da recessão que assola a economia mundial. A maior desde a depressão de 1929.

Parece que está havendo agora mais realismo na equipe econômica. Ela rejeitou a tese dos economistas ortodoxos, que pregavam cautela com maiores gastos como medida para sustentar o crescimento, temiam graves problemas cambiais decorrentes de déficits nas contas externas e até mesmo inflação.

O programa anunciado é o sinal de que o governo escolheu o caminho certo: primeiro evitar o pior para depois enfrentar os desafios. Se não evitarmos a recessão, tudo estará perdido.

AGORA, SIM

Lula, que, para não assustar,exagerava com um otimismo que todos sabiam vazio, mudou seu discurso na quinta-feira. Não parecia o mesmo. Surpreendeu com pronunciamento realista que se aproximava do pessimismo. Foi duro, não mediu palavras, após ouvir líderes empresariais em Brasília para saber o que está acontecendo em seus setores e avaliar as proporções da crise. Confirmou o que já se sabia: a situação é por demais séria para esperar antes de agir.

“Logo no inicio do ano teremos uma paradeira e possibilidade de demissão”, afirmou. No seu estilo, disse que “se a gente permitir que a economia pare, estamos desgraçados”. Anunciou a redução de impostos para empresas e contribuintes. Foi mais longe: “Acho que a gente deveria zerar os impostos sobre investimentos, mesmo que seja temporário. Em época de crise, não vamos agir como se as coisas estivessem normais.” Ou seja, temos uma crise grave,vamos cortar impostos, estimular investimentos, financiar a demanda, tudo isso ainda neste ano. E ele espera que o Banco Central reduza os juros. Resumindo: estamos mal e o governo não pretende deixar piorar.

PACOTE GERA CONFIANÇA

O pacote fiscal foi bem recebido pelos economistas. Alguns falavam que ainda havia necessidade de restabelecer a confiança do consumidor. Acho que não entenderam. Afinal, esse é um dos méritos das medidas: mostrar aos assalariados que o governo vai cobrar menos impostos - caso único, acredito, na história do Brasil, e isso de quem lutou ferreamente pela CPMF; que vai fixar regras para levar o sistema financeiro a oferecer mais crédito com juro menor e prazo maior; que o pacote será ampliado ainda neste ano, com mais desoneração tributária sobre bens de consumo. Dessa vez não são apenas palavras e promessas que circularam em Brasília por tantos meses. São fatos. As medidas entram em vigor em duas semanas e meia, 1º de janeiro. Temos de admitir que nunca se viu nada como isso antes, talvez porque também antes nunca enfrentamos uma crise como esta.

ESTÁ CERTO, MAS É O COMEÇO

Vai dar certo? Tudo indica que sim, desde que o governo persista nesse caminho pragmático que agora começa a trilhar. O pacote oferece muito, se for aplicado rigidamente, sem desvios, sem atrasos, e seguido por outras medidas, todas no mesmo sentido. Proporciona maior poder aquisitivo por meio de menos imposto sobre a renda e o salário; maior garantia de emprego, com a retomada da produção; mais crédito, com o retorno da liquidez do sistema.

E ele traz a esperança de que, se for executado à risca e em tempo, poderemos evitar a recessão e sofrer menos com a desaceleração econômica. Mas ninguém se iluda: é apenas o o início de um longo caminho no ano que se inicia. Agora, vamos confiar e esquecer este 2008 que não termina nunca…

*E-mail: at@attglobal.net

14/12/2008 - 11:35h ”É hora de medidas de exceção”

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David Friedlander - O Estado SP

 


http://decio.globolog.com.br/vale%20roger%20agnelli.jpgO presidente da Vale, Roger Agnelli, defende medidas de exceção para enfrentar a crise econômica global. Agnelli tem discutido o assunto com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de quem é um interlocutor privilegiado. Ele sugeriu a Lula a flexibilização temporária das leis trabalhistas, “para ganhar tempo até que a situação melhore”, e afirma que aceita abrir mão do próprio salário. Segundo ele, a proposta já foi apresentada também a alguns sindicatos.

Um dos executivos mais bem-sucedidos do País, Agnelli está no comando da Vale desde 2001. Segunda maior mineradora do mundo, a Vale tem faturamento superior a US$ 30 bilhões por ano, emprega mais de 60 mil pessoas e está presente em mais de 30 países. Observador privilegiado do cenário global, nesta entrevista Agnelli fala das dificuldades e dos planos da Vale para 2009, e brinca ao falar da própria sorte: “Eu pedi a Nossa Senhora, de quem sou devoto, e ela ajudou. Mas eu também corri muito atrás dos meus objetivos.” A seguir, os principais trechos da entrevista concedida na quarta-feira, horas antes de sua viagem para visitar clientes na Ásia.

Uma crise dramática como essa provoca nas pessoas medo de perder o emprego. Executivos do primeiro time como o sr. também têm esse tipo de preocupação? Isso passa pela sua cabeça?

Não, isso não passa pela minha cabeça. Estou tocando minhas coisas, fazendo o que precisa ser feito. Até porque já fiz bastante, não é? Quando cheguei à Vale, ela era a oitava empresa do mundo no setor de mineração. Hoje, é a segunda. Eu acho que ainda tenho muito para fazer.

Nesse tempo todo, o sr. teve a sorte de pegar um ciclo de prosperidade global. Agora, o sr. vai ter que se movimentar num ambiente muito desfavorável…

Para tirar proveito da sorte é preciso estar bem preparado. O crescimento da economia global ajudou todo mundo, mas ninguém aproveitou tão bem esse movimento quanto a Vale. Na indústria mundial de mineração, a Vale é a empresa que tem o maior volume de projetos para desenvolver, tem os melhores ativos e o maior caixa do setor. Apenas sorte não basta. Meu pai sempre dizia: ?Peça para Nossa Senhora e não corra atrás para ver o que acontece?. Eu pedi a Nossa Senhora, de quem sou devoto, e ela ajudou. Mas eu também corri muito atrás dos meus objetivos.

Como enfrentar a crise?

A Vale já vinha se preparando há muito tempo para o dia em que a situação virasse. Nos últimos anos, investimos em automação, em plataformas de informática, em novos processos industriais, no treinamento de pessoal. No começo do ano, sentimos que a euforia nos preços e na demanda não era sustentável. A partir de junho, tomamos algumas decisões duras. Uma foi a redução dos contratos com terceiros, que ficaram caros demais. Outra foi o aumento de capital de US$ 12,5 bilhões. Pusemos dinheiro para dentro de casa porque a gente não sabia quanto iriam custar os investimentos em 2009 e 2010. Não pretendemos desacelerar investimentos. O projeto é investir US$ 14 bilhões em 2009.

Mas a Vale acaba de demitir 1,3 mil pessoas, desativou minas…

Algumas minas voltarão a operar quando o mercado melhorar. Outras, nunca mais. São minas caras e de escala pequena. Elas só faziam sentido porque o preço do minério estava muito alto e a demanda era maluca. Quanto às demissões, elas não aconteceram só em razão da crise. As mudanças nos processos criaram sinergias e eliminaram funções. Até agora, graças ao crescimento acelerado, em vez de mandar embora, a gente contratava menos. Mas 2009 terá o crescimento limitado e tivemos de fazer o ajuste que até agora pudemos contornar. A maior parte dos demitidos era da área administrativa. Pena ninguém lembrar que a Vale contratou milhares de pessoas nos últimos anos. Entre demitidos e contratados, terminaremos 2008 com um saldo de 5 mil contratações.

A empresa vai continuar demitindo? E quando os 5,5 mil funcionários colocados em férias coletivas voltarem?

A gente coloca uma outra turma em férias coletivas. Depois outra. A gente pode levar isso por um certo tempo, mas tem limite. O que faremos quando todo mundo já tiver tirado férias? Isso tem limite. Eu tenho de manter a empresa saudável para que possa cumprir seus compromissos. O executivo que numa hora dessas for leniente com o ajuste, deixar de fazer o que precisa ser feito, vai comprometer o futuro da empresa. Se houver problemas para os quais a gente não tenha solução, vamos ter de demitir. Olha, estamos vivendo uma situação de exceção. Para lidar com ela, precisamos tomar medidas de exceção.

Que medida de exceção?

Eu tenho conversado com o presidente Lula no sentido de flexibilizar um pouco as leis trabalhistas. Seria algo temporário, para ajudar a ganhar tempo enquanto essa fase difícil não passa.

Quando o sr. conversou sobre isso com o presidente?

Falei disso na semana passada, ontem falei de novo. Estamos conversando com os sindicatos também. O governo e os sindicatos precisam se convencer da necessidade de flexibilizar um pouco as leis trabalhistas: suspensão de contrato de trabalho, redução da jornada com redução de salário, coisas assim, em caráter temporário.

Qual foi a reação do presidente?

Ele só ouviu. Sei que estamos propondo algo muito difícil. Mas é preciso entender que esta não é uma situação normal. É uma situação de exceção, e para lidar com ela precisamos tomar medidas de exceção. Imagine uma empresa exportadora, de qualquer setor. De repente, o mercado sumiu. Se a empresa for intensiva em mão-de-obra e a crise durar muito tempo, ela terá de demitir. Se puder flexibilizar de alguma maneira, você reparte um pouco o prejuízo e o impacto será menor.

E o sr.? Aceitaria reduzir seu salário e seu bônus?

Defendo isso para todos os níveis, eu inclusive. Aceitaria temporariamente, até a situação melhorar.

O sr. fala em dividir o prejuízo, mas a Vale captou US$ 12,5 bilhões antes da crise estourar. Já que está tão capitalizada, a empresa não poderia usar parte desse dinheiro para segurar as pessoas?

A Vale precisa gerar mais emprego, crescer, continuar se posicionando no mercado mundial,continuar sendo lucrativa para sobreviver no longo prazo. A Vale não está fazendo ajustes por ganância ou porque é malvada. É uma questão de necessidade. Nesses últimos dois meses, e provavelmente pelos próximos dois, a indústria siderúrgica vai trabalhar com 50% da capacidade de produção. Se ela não compra, o que vamos fazer com o minério? A mineradora Rio Tinto (da Austrália), nossa concorrente, anunciou a demissão de 14 mil pessoas. Todo mundo que depende do mercado internacional teve impacto.

Quais as prioridades do plano de investimentos para 2009?

Dos US$ 14 bilhões previstos, cerca de 80% serão investidos no Brasil. Em minério de ferro, fertilizantes, cobre, carvão e, principalmente, em logística. Nossos planos de longo prazo não foram alterados, porque acreditamos que os fundamentos da economia não mudaram. O mundo cresceu nos últimos anos por causa da entrada de milhões de pessoas no mercado de consumo. Isso aconteceu na China, na Índia, no Brasil. No curto prazo, a crise financeira vai nos forçar a um ajuste, mas isso não será suficiente para anular as conquistas que o mundo alcançou.

A Vale pode comprar uma empresa?

A verdade é que tem muita gente à venda neste momento. Muita, muita gente. E pouco comprador. Quase não tem comprador. Mas a prioridade é crescimento orgânico, é tocar nossos projetos.

Quanto tempo vamos esperar até que a situação melhore?

A situação é a seguinte: nosso problema hoje não é preço, é a falta de demanda. Nossos clientes não querem comprar, querem primeiro gastar seus estoques. Eles entendem que daqui a pouco os preços vão cair. Eu acho que esse processo dura mais três, quatro meses. Em março ou abril, a situação deixa de piorar, porque as empresas precisarão recompor os estoques. Assim, acho que ainda no primeiro semestre as coisas começam a voltar ao normal. É claro que posso estar errado. Pode ser que continue tudo ruim. Se isso acontecer, vamos ter de rever tudo. Mas acho que melhora. Teremos fatores novos ajudando.

De onde o sr. espera essa ajuda?

Tenho a impressão de que a partir de janeiro a Europa deve parar de piorar, a posse de Barack Obama nos EUA dará uma cortada na onda de pessimismo e a China começa a reagir. A China entrou num processo de retração forte, mas os fundamentos não mudaram e o governo de lá tem todas as opções para revigorar a economia: dinheiro, reserva cambial, mercado interno.

Um episódio muito comentado no meio empresarial este ano foi a queda-de-braço entre a Vale e as siderúrgicas chinesas. A empresa não errou ao forçar um aumento no preço do minério exportado para a China apesar da crise?

Foi antes da crise. No começo do ano, acertamos com os clientes um reajuste de 71% no preço do minério de ferro. Era contrato de um ano, mas dissemos que, se o preço a ser fechado com as siderúrgicas australianas (concorrentes da Vale) fosse muito maior que o nosso, a gente queria ter o direito de reavaliar. Como aconteceu isso, resolvemos fazer uma mudança: igualar o preço cobrado das usinas asiáticas com o das usinas européias - tradicionalmente maior. Ou seja, cobrar dos asiáticos o mesmo que pagam os europeus. Os japoneses, os coreanos, os taiwaneses e as grandes siderúrgicas chinesas concordaram. Começamos a assinar os contratos. Quando chegou a vez dos chineses, já em agosto, o mercado começou a mudar. As pequenas usinas chinesas passaram a fazer barulho porque estavam altamente estocadas e não concordavam com a unificação de preço. Em setembro, explodiu a crise na China, a produção começou a cair e os chineses voltaram atrás.

Qual é a situação hoje?

Os japoneses, os coreanos e os taiwaneses pagaram o preço novo três meses. Depois voltamos ao valor antigo, para não criar diferença com a China. Agora, os japoneses, os coreanos e os taiwaneses continuam honrando seus contratos. Os europeus, com exceção do Mittal (a siderúrgica Arcelor Mittal), continuam comprando a quantidade de minério prevista em contrato. Os chineses não estão retirando o minério, querem negociar preço, a visão deles é mais de curto prazo. Eles romperam contratos com armadores, com produtores de carvão, com mineradoras, com produtores de níquel.

E agora eles querem reduzir o preço do minério em mais de 80%…

Eles querem tirar 82% não do preço, mas do aumento concedido nos últimos dois anos. Querem voltar aos valores de 2006, o que significaria queda de 40% no preço. Não tem o menor cabimento. E tem mais: temos contratos até abril com as siderúrgicas chinesas. Quando terminarem os estoques, eles vão tentar, mas acho que dificilmente vão conseguir se abastecer em outros mercados. Estamos fazendo um esforço para sair dessa situação. É preciso pensar a longo prazo. Se você pensar muito no curto prazo, acontece o que aconteceu recentemente com vários bancos de investimento: eles se arrebentaram.

Os preços das commodities subirão novamente?

Elas não voltam ao nível de antes da crise. Aquilo não era sustentável, aconteceu em razão do excesso de liquidez e isso acabou. Também não podem ficar no nível atual. Não pode sair do forno e ir direto para o freezer: nessas condições, qualquer pirex pode quebrar.

Com a proximidade da sucessão na presidência do Bradesco (marcada para março do ano que vem) surgiu o rumor de que talvez o sr. voltasse para o banco para suceder Márcio Cypriano…

Voltar ao Bradesco? Só se for para assistir à posse do próximo presidente. Vou lá bater palmas para ele. Eu deixei o Bradesco em 2000, não tenho nada a ver com a sucessão no banco. Estou feliz aqui na Vale. E acho que os acionistas também estão.

14/12/2008 - 09:49h Um prognostico pessimista com argumentos

”Crescimento zero será bom resultado para o Brasil em 2009”

Professor de Harvard diz que País está mais bem preparado para enfrentar a crise, mas não tem como escapar de seus efeitos

Leandro Modé - O Estado SP

http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/9/92/Kenneth_Rogoff.jpg/225px-Kenneth_Rogoff.jpg

O americano Kenneth Rogoff, de 55 anos, é um dos mais respeitados economistas do mundo hoje, o que não significa que seja unanimidade. Suas posições ortodoxas, muitas vezes expressas de uma forma contundente, nem sempre agradam ao interlocutor. Em 2002, quando era economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI), envolveu-se em uma polêmica pública com o ex-economista-chefe do Banco Mundial e ganhador do Prêmio Nobel, Joseph Stiglitz. O tema da contenda era globalização. Talvez pelo cargo que tenha ocupado, Rogoff procura manter-se atualizado sobre a economia de vários países. Esse conhecimento dá a ele a certeza de que o mundo está em meio à pior recessão desde a Segunda Guerra Mundial. Por isso, avisa: o Brasil deve dar-se por satisfeito se não enfrentar recessão em 2009. Rogoff, que hoje leciona na Universidade Harvard, conversou com o Estado, por telefone, durante uma viagem de trem de Boston para Nova York.

Leia a íntegra da entrevista

Em artigo publicado há duas semanas, o sr. disse que o maior problema dos países ricos é a recessão. Por isso, devem deixar os juros em segundo plano. O que dizer de países emergentes, como o Brasil?

Os países emergentes têm muito menos espaço para políticas contracíclicas do que os Estados Unidos e os efeitos da inflação são mais danosos. Nos EUA, a inflação reduz o valor real das dívidas e pode ser parte da solução dos atuais problemas. O Brasil não tem esse problema. Além disso, como a inflação no Brasil já é elevada, o Banco Central está entre a cruz e a espada.

Como assim?

A economia global está apenas entrando na pior recessão desde a Segunda Guerra Mundial. As commodities estão despencando e o mercado de crédito secou. Ou seja, é uma situação extremamente difícil e perigosa. O crescimento no Brasil certamente vai desacelerar. Mas, ao mesmo tempo, a inflação permanece elevada. Isso deixa ao Banco Central um espaço menor para responder como gostaria (à desaceleração). Além disso, o real depreciou-se fortemente. Reduzir a taxa de juros desvaloriza o real à frente. Mas, como os juros estão caindo rapidamente mundo afora, o BC brasileiro acabará reduzindo a taxa.

Quando?

Em breve (risos). Ainda que o Brasil esteja às voltas com preocupações inflacionárias, a economia global enfrenta o risco de deflação. Isso ocorre nos EUA, na China e na Europa. Os preços das commodities estão despencando e a produção industrial está caindo. O Brasil sentirá tudo isso logo. Quaisquer que sejam as pressões inflacionárias, serão revertidas em breve.

O sr. vê risco de recessão no País?

Há grande chance de o Brasil experimentar uma recessão suave. É quase impossível escapar disso, uma vez que se espera uma profunda recessão no mundo. O Brasil vai sofrer como todos os outros, mas não acho que sofrerá mais do que os outros. Todas as mudanças que o Brasil implementou nos últimos anos vão permitir que a reação seja muito melhor do que há 10 anos. É uma situação desastrosa, mas, em termos relativos, o Brasil está melhor do que muitos outros países.

Qual sua projeção para o crescimento do Brasil em 2009?

Crescimento zero será um bom resultado, levando-se em conta o ambiente global.

Mas as pessoas aqui falam algo entre 2% e 3%.

Elas são otimistas. A economia global está afundando muito rapidamente.

Qual o seu cenário principal para a economia mundial em 2009?

Como já disse, será a pior recessão desde a Segunda Guerra, mas nada que se assemelhe à Depressão dos anos 30.

O que o sr. espera especificamente para os EUA?

Uma recessão que dure 2009 inteiro. Em 2010 e 2011, o crescimento ainda permanecerá lento, abaixo de 2%. Os preços das residências continuarão a cair e o desemprego, a subir. Os emergentes também terão uma queda em 2009, mas se recuperarão mais fortemente em 2010 e 2011.

E o PIB (Produto Interno Bruto) americano em 2009?

Crescimento negativo entre 3% e 4%.

Com essa retração nos EUA, como fica o PIB mundial?

Pode ficar negativo, especialmente se a China desacelerar mais do que se espera. Isso ocorrerá certamente em um ou dois trimestres. Para o ano todo, espero um crescimento na faixa de 1%.

E a China?

A China também está sofrendo. Já esperava que a China poderia crescer no máximo 6% no ano que vem. Agora, não ficaria surpreso se o país crescesse menos ainda do que isso. Temos de cruzar os dedos para que a China não tenha uma ruptura econômico-social, porque isso poderia aprofundar ainda mais a recessão global.

Alguns países estão sofrendo mais que os outros, como, por exemplo, a Hungria e a Rússia. Por quê?

A Hungria teria uma crise financeira de qualquer maneira. Eles tinham um endividamento instável, uma situação fiscal ruim. A Rússia é outro assunto. É basicamente uma economia de commodity (petróleo). O sistema russo não estava preparado para um petróleo a US$ 40. Eles nunca permitiram que a economia se diversificasse. O Brasil, por exemplo, tem uma economia muito mais diversificada.

Qual sua expectativa em relação à administração Barack Obama?

Ele montou uma grande equipe, incluindo (Timothy) Geithner (que será secretário do Tesouro), (Larry) Summers (que será diretor do Conselho Econômico da Casa Branca) e (Paul) Volcker (ex-presidente do BC americano, Fed, indicado para dirigir um conselho destinado a propor soluções para a crise). Por si só, isso já inspira confiança. Obama fará um serviço muito melhor do que (George W.) Bush no que se refere às pessoas se sentirem assistidas, e isso vai melhorar o humor da população. A administração atual já está em férias. Mas não deve haver dúvidas: mesmo os melhores e mais brilhantes não serão capazes de resolver o problema da noite para o dia.

12/12/2008 - 10:35h Carro até 7% mais barato

Governo corta imposto de veículos novos para estimular vendas

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Edna Simão e Vicente Nunes - Correio Braziliense

A indústria automobilística, que vinha crescendo a um ritmo impressionante de 30% ao ano até o estouro da crise internacional, pediu ajuda e o governo atendeu. A partir de hoje, todos os carros zero com motores de até 2 mil cilindradas (2.0) pagarão 50% menos de Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI). A medida, segundo o ministro da Fazenda, Guido Mantega, tem como objetivo estimular a demanda por automóveis e evitar um brusca desaceleração da economia brasileira em 2009.

A expectativa é de que os preços dos veículos caiam pelo menos 7%, reduzindo os estoques que lotam os pátios da montadoras. Um Ford Fiesta 1.0, por exemplo, negociado a R$ 32.900 passará a ser vendido por R$ 30.597 — uma economia de R$ 2.303. Nos cálculos de Mantega, a medida, que vigorará até 31 de março de 2009, reduzirá em R$ 1 bilhão a arrecadação de impostos. Mas isso não preocupa. A avaliação que prevaleceu dentro do governo foi a de que o consumo aquecido será mais do que suficiente para compensar a perda de receitas. “Esperamos que a diminuição de tributos estimule a economia e aumente a demanda. O perigo é não tomar medidas e deixar o nível de atividade cair”, afirmou Mantega.

O pacote de bondades do governo favorece, principalmente, os consumidores de carros populares. O IPI de 7% que incidia sobre os veículos 1.0 foi zerado. Nos automóveis a gasolina com motores até 2.0, a alíquota baixou de 13% para 6,5% e, nos movidos a álcool ou com sistema de combustível flex, o tributo caiu de 11% para 5%. O governo também favoreceu os utilitários. Nas caminhonetes até 1.0, o IPI recuou de 8% para 1%. “A escassez de crédito fez as nossas vendas desabarem e os estoques aumentarem de forma muito rápida”, disse o vice-presidente da Associação Nacional dos Fabricantes dos Veículos Automotores (Anfavea) e diretor da Fiat, Antonio Sérgio Martins Mello.

O setor automobilístico é altamente dependente de crédito. Mais de 80% das vendas são feitas por meio de financiamento. Desde outubro, porém, as montadoras e as revendedoras passaram do céu para o inferno, com a venda despencando de uma média de 12 mil veículos por dia para 7 mil/dia. Atualmente, existem mais de 300 mil carros nos parques industriais e o setor já ameaça promover uma onda de demissões. “A decisão de reduzir o IPI para estimular a venda de veículos era necessária, porque a indústria automobilística tem peso relevante no desempenho da economia como um todo, por contar com uma longa cadeia produtiva”, disse o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Miguel Jorge.

Ele admitiu, no entanto, que o governo não impôs condições para a concessão dos benefícios, como a garantia de empregos pleiteada pelas centrais sindicais. Nesta semana, representantes dos trabalhadores disseram que continuariam pressionando o governo para que as empresas que estão recebendo ajuda do governo assumam o compromisso de não demitir. “Emprego não é contrapartida. Há um esforço das montadoras para manter o nível do emprego. Mas não há um compromisso firmado nesse sentido”, ressaltou Jorge.

O ministro do Desenvolvimento frisou, porém, que o governo vai acompanhar se a queda do IPI será repassada ao consumidor. Se, por acaso, esse compromisso não for cumprido, as montadoras serão convocadas a dar explicações. “É muito fácil verificar se a redução do IPI está sendo repassada”, assegurou. Mas tal afirmação é vista com desconfiança. Em outros momentos, iniciativas como essa foram adotadas para incentivar as vendas. Contudo, os benefícios ficaram concentrados nos caixas das montadoras.

Segundo o presidente da Anfavea, Jackson Schneider, que participou do encontro de empresários com o presidente Lula, o setor já começa a registrar recuperação das vendas, ainda que o crédito esteja mais caro e o prazo de pagamento, mais curto. Ele destacou ainda que 2008 foi um ano de recordes — de produção e de vendas no mercado interno.


É muito fácil verificar se a redução do IPI está sendo repassada

Miguel Jorge, Ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio

Medidas bem recebidas

Luciana Navarro da equipe do Correio

Espera-se que as mudanças anunciadas pelo governo resolvam o drama de montadoras e concessionárias que acumulam carros nos pátios. Mas enquanto isso não surte efeito, as previsões são pessimistas. A Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave) refez as previsões para 2009 e aposta em queda de 19% nas vendas em relação a 2008. As estimativas feitas no começo deste ano eram de 20% de expansão. “As medidas são bem-vindas e podem interromper a queda, mas ainda é preciso analisá-las e ver como será o processo de recuperação”, disse o presidente da Fenabrave, Sérgio Reze.

Para o vice-presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) e diretor da Fiat, Antonio Sérgio Martins Mello, a redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), mesmo que temporária (valerá até 31 de março), é bem-vinda, pois os estoques de carros nos pátios das montadoras estão elevadíssimos. Apesar do socorro do governo, Mello destacou que as empresas automobilísticas não assumiram nenhum compromisso com a manutenção de empregos. “Não houve garantias nesse sentido. O que firmamos foi um compromisso de fazer um esforço para não haver demissões. Só isso”, destacou.

11/12/2008 - 08:35h PIB de 6,8% nos prepara para o que virá

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Alberto Tamer* - O Estado SP

O excelente crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) no terceiro trimestre, surpreendentes 6,8%,mostra que o Brasil armazenou força para enfrentar a crise que só ganhou proporções inesperadas a partir de outubro. Ele nós dá mais espaço para nos prepararmos diante de tudo que ainda está por vir.

Pode parecer contraditório, mas esse mesmo resultado nos deve levar a ficar mais alerta, mesmo porque não incorpora os assustadores acontecimentos dos últimos dois meses, que levaram a economia mundial à recessão.

Se há razão para comemorar, há mais ainda para preocupar. Estranho, mas é assim. Tudo piorou lá fora, faltam recursos para nos financiar e mercado. Nada de projeções fáceis, pois há ainda uma enorme carga negativa a carregar e é no mínimo ingênuo acreditar que a economia mundial vai recuperar-se nos próximos meses.

GOVERNO REALISTA

Nesse sentido, a reação da equipe econômica do governo foi realista. Não houve festas, além dos discursos populares do presidente que, na verdade, significam pouco. A economia crescerá 5%, neste ano, mas essa taxa não se repetirá no último trimestre do ano e muito menos em 2009.

Bem mais importante, o governo prepara-se para aprovar e anunciar, a qualquer momento, um pacote de medidas de redução de impostos para estimular a produção industrial, o comércio e a demanda. Essa redução abrangeria o Imposto de Renda das classes média e menos favorecidas, porque são as que ainda podem consumir mais, e de impostos sobre produtos industrializados, reduzindo seus preços.

ARRECADAÇÃO MENOR? NÃO.

Isso mostra que a equipe econômica decidiu antecipar-se ao que virá e a aprovar as medidas que tardavam. Sei que haverá sempre o argumento de que corte de imposto significa menor arrecadação - e o governo vai precisar de mais dinheiro para investir. Mas não é bem assim; seguramente essa queda da arrecadação será bem maior se a economia afundar na recessão. O certo é perder agora um pouco para não ter que perder muito mais depois. Aí, sim, a recessão seria inevitável.

Sem esse realismo, sem a concretização antecipada de medidas que visem criar produção, emprego e demanda, decididamente,não poderemos evitar que a onda recessiva que invade o mundo no derrube. Tudo o que incentive a produção, a criação de emprego, a renda e a demanda é urgente hoje.

6,8% AJUDAM INVESTIMENTOS

Esse crescimento do PIB tem um significado externo ainda pouco ressaltado; ele pode atrair mais investimentos num mundo em que todas as economias recuam. Neste cenário desolador, o Brasil surge, pelo menos por enquanto, como uma oportunidade para as empresas estrangeiras que vêem aqui um mercado interno em expansão. Isso explica a entrada constante de investimento externo que escasseia em outros países. É verdade que isso provavelmente não se repetirá em 2009, pois muitas das empresas visavam também a exportar para um mercado que desacelera e se contrai em 2,5%, de acordo com previsão do Banco Mundial. Ao mesmo tempo, não poderemos manter em 2009 o mesmo ritmo de expansão do mercado interno.

INVESTIMENTOS VITAIS

E é aqui que deveria entrar o governo com um novo plano, um novo pacote de projetos para atrair esses investimentos que tendem a escassear à medida que a recessão se aprofunda e o mercado financeiro luta para sobreviver.

O governo sabe que o Brasil está precisando urgentemente desses investimentos não só para animar a economia, mas para atrair dólares. São dólares simplesmente vitais neste momento em que nossas reservas cambiais começam a ser pressionadas para socorrer a economia e enfrentar a falta de liquidez externa.

SEM PIB, SEM INVESTIMENTO

Este é um desdobramento importante do PIB de 6,8%. Luis Afonso Fernandes Lima, presidente da Sobeet, entidade que congrega as transacionais no Brasil - na verdade as grandes investidoras externas -, afirma à coluna que “o crescimento é fator-chave na atração de investimentos diretos”.

“Não foi por acaso que só até outubro os investimentos estrangeiros diretos (IED) chegam a US$ 34,7 bilhões. Trata-se do maior valor nos primeiros três trimestres do ano em toda a série histórica do Banco Central, iniciada em 1947. Até o mês de outubro, já ultrapassamos o recorde do ano inteiro de 2007, de US$ 34,6 bilhões.” Mas não é só. “No ano todo de 2008 o investimento direto poderá atingir US$ 40 bilhões.” Um resultado que só se explica por esse crescimento de 6,8% do PIB.

“O que mais surpreende nesse resultado excelente é que ocorre em meio ao aumento da aversão global ao risco e à intensificação do ajuste global de liquidez, uma forte contração dos fluxos globais de capitais.”

De acordo com a OCDE, de países que respondem por 86% do IED no mundo, os investimentos diretos mundiais devem retrair-se em 37% neste ano,em relação a 2007. O Brasil está hoje apenas atrás da China, Hong Kong e Rússia entre os países emergentes que receberam esses investimentos em 2007.

Luis Afonso Lima prevê que a situação pode se reverter,com a queda dos preços das commodities e a desaceleração econômica mundial.

Daí a importância de o governo associar, em 2009, os incentivos à demanda interna à execução de projetos que mantenham vivo esse interesse excepcional dos investidores externos pelo Brasil.

O Brasil não estará imune. E justamente em um momento de deterioração do seu saldo em transações correntes. Hoje, 57% desses investimentos se voltam para o mercado externo, para “bens exportáveis”.

*E mail: at@attglobal.net

08/12/2008 - 09:30h Ataque e defesa

http://www.lepoint.fr/content/system/media/2/20080320/2008-03-20T120136Z_01_NOOTR_RTRIDSP_2_OFRBS-BANQUE-CRISE-ANALYSTE-20080320.jpg

Carlos Alberto Sardenberg* - O Estado de São Paulo

Reparem no noticiário destes dias. Podemos resumi-lo em duas colunas. Na primeira, seguidas informações sobre o enfraquecimento da atividade econômica no mundo todo. Na segunda, ações dos bancos centrais e pacotes dos governos para reanimar a economia.

O impacto maior, no primeiro momento, é sempre das notícias sobre o agravamento da recessão, especialmente nos países desenvolvidos: demissões, férias coletivas, interrupção de produção, fechamento de fábricas e empresas que entram em concordata.

Na sexta-feira, por exemplo, saiu a notícia que deve ter sido a pior sobre a crise até aqui, no que se refere à economia real: em novembro a economia americana eliminou nada menos que 533 mil empregos, número muito acima da expectativa média (perda de 350 mil postos) e colado na previsão mais pessimista.

Todos se assustam com o tamanho e a rapidez com que a crise se espalha. Resulta daí a desconfiança de que esta crise será mais longa do que se esperava (ou se desejava). A expectativa mais favorável conta com o início da recuperação para o segundo semestre de 2009. A mais negativa diz que a recuperação só virá, e lentamente, a partir de 2010 - e isso se os governos tomarem as providências corretas a tempo. O que nos leva para a segunda coluna do noticiário: a reação à crise.

Tem sido notável o esforço de bancos centrais e autoridades econômicas e políticas. Só na semana passada, tivemos:

Redução “agressiva” de juros pelos Bancos Centrais da Inglaterra e da Europa;

Parlamento alemão aprova plano de US$ 30 bilhões para aumentar gastos públicos, conceder crédito e cortar impostos;

o Fed, banco central dos EUA, cria uma linha de US$ 600 bilhões para comprar títulos das agências hipotecárias públicas (com o objetivo de forçar a redução de juros de hipotecas) e outra de US$ 200 bilhões para comprar carteiras de crédito de instituições de cartão de crédito, de crédito ao consumidor e das que concedem empréstimos a estudantes que entram no ensino superior;

os governos dos EUA e da China abrem linha de crédito de US$ 20 bilhões para financiar o comércio externo de países emergentes.

Temos aí medidas já em andamento e planos. Estes costumam ser recebidos com reserva, pois podem não funcionar. Ainda que essa crise tenha exigido maior intervenção dos governos, isso não torna esses mesmos governos automaticamente eficientes.

Por outro lado, há amplo consenso sobre as políticas a adotar. Economistas de diversas orientações estão falando coisas muito parecidas: que é preciso um forte aumento do gasto público, mas em investimentos, não em custeio, redução de juros e compra, pelos bancos centrais e agências governamentais, de títulos de crédito do sistema financeiro. Além da capitalização de bancos.

Havendo esse consenso, fica mais fácil implantar tais programas, que têm grande apoio entre as lideranças políticas. Portanto, é uma questão de tempo: uma hora isso tudo tem de funcionar.

E continuam todos à espera do plano de Barack Obama. Líderes democratas dizem que vem coisa grande, um programa de gasto público entre US$ 500 bilhões e US$ 700 bilhões. É artilharia pesada. Os US$ 700 bilhões seriam equivalentes a 5% do PIB, o que faria do programa americano o mais forte entre todos já apresentados.

A crise é nossa - Aqui, as 1.300 demissões na Vale deram um sinal estridente para mostrar que a crise está, sim, entre nós.

Tinha de estar. São os caminhos da globalização. O mundo todo cresceu, o Brasil pegou a onda, exportou para todo lado.

Agora o mundo está ou em recessão (os ricos) ou em desaceleração (os emergentes). Sobra uma conta.

Mas desta vez a crise apanha o Brasil em condições bem mais seguras. Considerem este exemplo, a notícia que esteve na primeira página na semana passada: em novembro, a maior fuga de dólares do Brasil em dez anos.

Olhando para os números absolutos, a notícia faz sentido e assusta. Em novembro o mercado de câmbio registrou déficit de US$ 7,1 bilhões, a maior saída de dólares desde o déficit de US$ 8,5 bilhões de janeiro de 1999, quando mudou o regime de câmbio no Brasil, de controlado para livre, com uma maxidesvalorização. Aliás, também houve uma máxi agora. Lembrem-se: ainda em 1º de agosto (faz tão pouco, não é mesmo?) o dólar valia R$ 1,60.

Mas olhando o conjunto das contas externas se vê que a situação atual é muito mais tranqüila.

Comparem: em 1999, o comércio externo brasileiro total era de US$ 100 bilhões/ano, com US$ 50 bilhões de exportações e US$ 50 bilhões de importações. Neste ano, o comércio externo deve atingir US$ 379 bilhões, com superávit de US$ 23 bilhões. Ou seja, a capacidade do País de obter dólares bons com a venda de mercadorias é quatro vezes maior. As reservas do Banco Central em dezembro de 1998 eram de US$ 44 bilhões; hoje, algo como US$ 205 bilhões.

Resumo da ópera: uma saída de US$ 8 bilhões em 1999 era crise no balanço de pagamentos, hoje não chega nem perto disso.

Esta foi uma das grandes mudanças no Brasil: as contas externas passaram de “impagáveis” para superavitárias em dólares. Acrescentem o fim da inflação e o controle das contas públicas - a estabilidade macro - e se entenderá por que desta vez o Brasil não vai quebrar.

História repetida - O presidente Bush, ao comentar o desemprego de novembro, admitiu pela primeira vez que os EUA estão em recessão. E assim se igualou a seu pai, George H. Bush, que também deixou uma recessão para seu sucessor, Bill Clinton, democrata como Obama.

Temos, portanto, dois democratas assumindo recessões deixadas por republicanos. Aliás, Clinton assumiu em janeiro de 1993 em meio a desconfianças de que, inexperiente, pudesse dar conta da crise. E ele simplesmente entregou uma era de prosperidade e expansão.

Quem sabe Obama…?

*Carlos Alberto Sardenberg é jornalista
Site: www.sardenberg.com.br

06/12/2008 - 11:35h Brasil tem cenário melhor que resto do mundo, diz OCDE

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Tendência no país permanece de avanço, enquanto perspectiva global é de forte desaceleração

Entre os países analisados, só o Brasil não aparece em desaceleração; em outubro de 2007, apenas três não tinham cenário positivo

FOLHA SP

Em um cenário de aprofundamento da desaceleração para a economia global em outubro, o Brasil aparece como o único ponto positivo, apesar de já dar sinais de recuo. Segundo a OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico), entre os principais industrializados e emergentes como China e Índia, só o Brasil não aponta para uma “forte desaceleração”.

De acordo com relatório mensal da entidade que reúne 30 dos países mais ricos do mundo, os dados “continuam a apontar para um enfraquecimento em todas as sete grandes economias, mas, comparado com o mês anterior [setembro], o cenário se deteriorou significativamente para as economias que não integram a OCDE, com China, Índia e Rússia agora também enfrentando fortes desacelerações”. O Brasil, diz a OCDE, está em um cenário de inflexão, isto é, está em expansão, mas a curva aponta para uma perda de ritmo.

Entre os 31 países analisados pela OCDE, apenas o Brasil não aparecia com forte desaceleração em outubro. Cenário bem diferente do registrado no mesmo período de 2007: nessa época, apenas Japão, Coréia do Sul e Nova Zelândia, entre os 34 países estudados, apareciam em cenário de desaceleração.

Em outubro do ano passado, o mundo já começava a sentir os efeitos da crise, mas eles ganharam ainda mais força nos últimos meses, especialmente a partir de setembro, quando ocorreu o pedido de concordata do banco de investimento americano Lehman Brothers.

Para chegar a essa previsão, a OCDE usou os chamados indicadores antecedentes, que são vários dados dos países aglutinados para “tentar indicar momentos de mudanças na atividade econômica com aproximadamente seis meses de antecedência”. Ele é, por isso, considerado um termômetro para as economias dos países.

No caso brasileiro, em que são usados dados como produção industrial e exportações, o índice da entidade mostra tendência de crescimento desde junho de 2006.

No final do mês passado, a OCDE previu que a economia brasileira vai se desacelerar. Segundo ela, o PIB brasileiro vai se expandir em 5,3% neste ano e 3% em 2009 -mesma estimativa que foi feita dias antes pelo FMI (Fundo Monetário Internacional).

Ela afirmou ainda que vários dos seus países-membros caminham para a pior recessão desde o início da década de 1980 e que deve crescer 8 milhões o número de desempregados até 2010 nos 30 integrantes da entidade, chegando a 42 milhões de pessoas sem trabalho. Para a OCDE, os Estados Unidos, o Japão e a zona do euro (bloco de 15 países europeus) terão 12 meses consecutivos de contração, a partir do terceiro trimestre deste ano.

05/12/2008 - 14:07h Um arsenal contra a recessão

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Claudia Safatle - VALOR

O governo acionou sua usina de idéias e propostas para colocar na rua caso a desaceleração da atividade econômica no Brasil se transforme em risco de recessão para 2009. Inúmeras alternativas estão colocadas sobre a mesa: da redução do IOF sobre as operações de crédito a um redutor temporário de, por exemplo, 10% nas alíquotas do Imposto de Renda da Pessoa Física (IRPF) e ampliação do seguro desemprego de cinco para dez meses. Há, também, outras várias sugestões de desoneração de impostos sobre a produção e busca-se, ainda, mecanismos de persuasão para levar o sistema bancário privado a soltar o crédito. Nada está decidido, por enquanto, nem há concordância sobre todas as hipóteses aventadas.

No caso do IRPF, a função da medida seria dar dinheiro direto ao consumidor. As alíquotas do Imposto de Renda poderiam ser reduzidas de 27,5% para 24,75% e de 15% para 13,5% por um período pré determinado, uns seis meses. A proposta é controversa dentro do próprio Ministério da Fazenda, o governo não está podendo abrir mais mão de receitas tributárias - a renúncia de receitas com incentivos e desonerações fiscais soma R$ 76 bilhões este ano - e o contra-argumento de economistas que são contrários à idéia é que o contribuinte, em lugar de usar essa renda adicional para consumir, acabaria entesourando o dinheiro com medo da crise e do desemprego.

O Palácio do Planalto está muito preocupado com o crescimento econômico de 2009. Embora as contas feitas e refeitas pelos economistas oficiais indiquem que para se ter uma recessão no país as condições da economia teriam que piorar muito, há dúvidas.

O carregamento do crescimento deste ano para o próximo (”carry-over”) por si só já garantiria 1,5% de aumento do Produto Interno Bruto (PIB) em 2009. Os investimentos públicos serão rigorosamente mantidos, já garantiu o presidente Lula, e as políticas sociais de transferência de renda, também. O governo está tomando todas as medidas para prover de recursos a construção civil. Há os R$ 14 bilhões deste ano reservados para o Fundo Soberano, que podem ser usados em políticas anticíclicas, os investimentos da Petrobras estão mantidos e o sistema de bancos públicos está sendo usado para irrigar a economia de financiamentos.

O crédito, que em outubro teve uma freada abrupta, começa devagar a reaparecer, mais caro, é verdade, mas está reaparecendo. Enfim, tudo somado sustentaria uma taxa de crescimento entre 2,5% a 3% no ano que vem, argumentam os técnicos do governo.

Outro cálculo indica que mesmo que a expansão do consumo em 2009 caia à metade do que foi este ano e a taxa de investimento se reduza a zero, ainda assim seria possível chegar a algo entre 2,5% e 3% de variação do Produto Interno Bruto (PIB) em 2009.

Admite-se que o último trimestre deste ano possa registrar retração do PIB, por estar contaminado pelo auge da crise econômico-financeira internacional, mas há incertezas sobre se esse cenário se perpetuará em 2009. Uma ala de economistas do governo não acredita nessa possibilidade e considera provável uma reação do nível de atividade nos primeiros meses do próximo ano.

A guerra que se trava agora, porém, não é com os números, mas com as expectativas. Se o consumidor não comprar, a indústria não vai produzir, o emprego vai cair e o temor de uma recessão pode se materializar. Isso inquieta o presidente Lula.

Pelos poucos indicadores disponíveis até o momento, a tendência do governo é esperar ainda um tempo, pelo menos o início do ano que vem, para aprovar mais medidas expansionistas fiscais e creditícias. Mas, diante de tantas incertezas, nem essa visão é consensual. Há, na equipe econômica, quem ache que a situação já é gravíssima e defenda que as medidas saiam já.

As reuniões dos ministros com o Palácio do Planalto têm sido permanentes e delas surge uma certeza: se a economia ameaçar ir para o brejo, há toda a margem da elevadíssima taxa de juros básica (a Selic, de 13,75% ao ano) para começar a reduzir e usar para reanimar os investimentos, a produção e o emprego.

A arma da queda dos juros, contudo, não deverá fazer parte do arsenal na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do dia 10. Há um outro problema também sério para administrar, que é a maxidesvalorização da taxa de câmbio de agosto para cá e seus efeitos sobre a inflação do próximo ano.

O Copom deverá manter, na próxima semana, a taxa Selic em 13,75% ao ano e não está claro se poderá começar um novo ciclo de redução da taxa básica já no início de 2009. ” A desaceleração não foi nem será tão forte a ponto de fazer com que as preocupações do Banco Central com a inflação desapareçam”, comentou um economista que comunga da tese de que a retração da produção industrial de outubro não se propagará por 2009.

Todas essas questões em discussão não são triviais. O presidente Lula optou por colocar o Estado como o esteio do nível de atividade, mas a equipe econômica deverá monitorar com precisão as dosagens das políticas monetária e fiscal para, no afã de sustentar o crescimento, não produzir um movimento artificial que poderá pressionar o déficit em conta corrente do balanço de pagamentos numa hora em que o financiamento externo é escasso e, por conseqüência, a taxa de câmbio e a inflação.

O mundo piorou muito depois de 15 de setembro. Todos estão mais pobres, inclusive o Brasil, que viu os preços dos seus principais produtos de exportação despencarem. É, portanto, um mundo que exige certa dose de austeridade na condução da política econômica, pois não é mais possível crescer como antes sem causar os desequilíbrios que produziram décadas de atraso no país, como inflação e dívida pública elevadas e fragilidade das contas externas.

Claudia Safatle é diretora de redação adjunta e escreve às sextas-feiras

E-mail claudia.safatle@valor.com.br

27/11/2008 - 09:30h Menos Estado e má repartição da riqueza: as razões da crise global

http://www.galizacig.com/imxact/2008/02/finances_590.jpg

*Marcio Pochmann - VALOR

A crise econômico-financeira mal iniciou e já produz resultados nefastos que podem superar os de 1929. Somente nos primeiros nove meses de 2008, as bolsas de valores sofreram baixas superiores a 25%, sendo que, para alguns países, com queda acima da verificada nos Estados Unidos e na Inglaterra durante a Depressão de 1929. Parece não terem sido ainda mais profundas por força de uma ampla coordenação mundial de intervenções governamentais, com transferências significativas de recursos públicos aos setores atingidos e com maior poder de pressão. Da mesma forma, prevalece uma intensa articulação política de países, como no caso do G-20, que busca novas brechas para a reversão dos equívocos provocados pela desregulamentação neoliberal e pelos artificiais avanços da financeirização sem fundamentação na produção de riqueza.

Desde o final da década de 1970, quando se tornou dominante a visão do Estado apresentado como obstáculo ao desenvolvimento, a liberalização da economia tomou força somente comparável ao ideário governamental do século 19. Naquela época de predomínio inglês, o capitalismo operava praticamente sem a presença de grandes empresas, apoiado na diversidade de micro e pequenos empreendimentos sem capacidade de impor seus preços a partir da somatória de custos mais margem de lucro. Bem diferente do que vem ocorrendo desde o último quartel do século 20, que demarca o longo processo de esvaziamento dos Estados Unidos enquanto centro dinâmico produtivo e financeiro do mundo. Assim como também aponta para a insuficiência da governança mundial operada a partir do sistema ONU (Organizações das Nações Unidas), por meio de agências multilaterais como Banco Mundial, Fundo Monetário Internacional, entre outras.

De um lado, o peso dos EUA na economia mundial reduziu-se significativamente, com a transferência de parcela do seu setor produtivo para outros países decorrentes da perda de competitividade das empresas e das políticas de enfraquecimento do Estado e do sistema de atenção à produção e emprego. Mesmo assim, os ideólogos do neoliberalismo continuaram a estimular a crença de que seria possível viver como país eternamente super rico num quadro geral de empobrecimento relativo, com consumo superior a 20% da capacidade anual de produção de bens e serviços e o endividamento 3,5 vezes maior que a renda nacional.

O próprio estopim da crise financeira terminou indicando o quanto a opção pela redução do Estado se mostrou inadequada para substituir as políticas sociais por forças exclusivas do mercado. No caso da habitação para os segmentos de baixa renda, por exemplo, o esvaziamento de políticas sociais específicas estimulou o setor privado americano a operar irresponsavelmente, emprestando em longo prazo a quem tinha oportunidade negada de acesso a empregos e remunerações decentes. A mesma situação se reproduziu às famílias levadas a acreditarem exclusivamente nos fundos previdenciários privatizados frente ao atual registro de quedas significativas no valor patrimonial, capaz de inviabilizar benefícios adequados de pensões e aposentadorias.

De outro lado, o papel quase simbólico atual das agências multilaterais construídas no final da Segunda Guerra Mundial, quando os países eram maiores, em geral, que suas empresas. Nos dias de hoje, as corporações transnacionais tornaram-se superiores ao produto anual de países, sendo o mundo, por isso, governado pelo poder privado de não mais do que 500 grandes grupos econômicos. As três maiores delas possuem faturamento anual superior ao PIB do Brasil, considerado o décimo mais rico do planeta, enquanto o faturamento das cinqüenta grandes corporações do mundo supera o PIB de mais de uma centena de países. Se consideradas somente as famílias enriquecidas pelo processo disfuncional de governança pública do mundo, observa-se que apenas um reduzidíssimo conjunto de menos de 1,2 mil bilionários chega a se apropriar de renda equivalente a da metade da população adulta do planeta.

O caráter privado da desregulação mundial termina por gerar situações inaceitáveis, como as atuais crises alimentar e climática. Com o abandono das políticas de segurança alimentar desenvolvidas no segundo após-guerra, que geralmente buscavam operar estoques reguladores e garantia de renda ao campo, as grandes corporações transnacionais do agronegócio sentiram-se estimuladas a estabelecerem preços inicialmente inferiores aos dos produtores tradicionais. A queda nos preços alimentares durou pouco, porém se mostrou suficiente para que houvesse o maior empobrecimento, quando não a falência dos pequenos agricultores, bem como o aprofundamento da dependência externa de tecnologia (defensivos e fertilizantes agrícolas). Nos dias de hoje, o comportamento dos preços dos alimentos pouco atende aos produtores, mas fundamentalmente às grandes corporações mundiais.

Da mesma forma, o mundo continua a insistir na continuidade do modelo de produção e consumo assentado na profunda degradação ambiental. A consciência de sua insustentabilidade não vem acompanhada da produção e difusão de tecnologias limpas e renováveis, justamente porque isso implica rever a hierarquia do mundo organizada a partir da desregulação operado pelas grandes corporações transnacionais.

Resumidamente, a contenção do papel do Estado por quase três décadas foi acompanhado por inquestionável processo de concentração brutal da renda e riqueza mundial. A liberalização das economias enfraqueceu o poder dos trabalhadores na barganha pela maior participação dos salários na renda dos países. Em geral, a parcela salarial dos trabalhadores caiu quase 20 pontos percentuais no PIB, de mais de 70% para um pouco acima dos 50% nos países avançados nos últimos trinta anos. Nos países não desenvolvidos, a queda também se generalizou de acima dos 50% para abaixo dos 40% do PIB desde o final da década de 1970. Com o esvaziamento do Estado, as políticas sociais foram abandonando gradualmente a perspectiva da universalização para aderirem à lógica da focalização, tão defendidas até pouco tempo por agencias multilaterais como Bird e FMI. Percebe-se, hoje, como se mostraram incapazes de sustentar o padrão de bem estar social compatível com o grau de avanço econômico dos países. O resultado não poderia ser outro: desigualdade e o quadro geral de relativa regressão socioeconômica.

Mesmo que apresente característica distinta da Depressão de 1929, a crise econômico-financeira atual tende a demandar remédios muito parecidos. Ou seja, o maior fortalecimento do papel do Estado regulador em novas bases, bem como a desconcentração da renda e riqueza no mundo. Tudo isso, no entanto, não deveria ser estabelecido exclusivamente no âmbito nacional, mas, crescentemente no plano supranacional, por ser capaz de por em marcha uma nova ordem mundial comprometida com prosperidade compatível tanto com a justiça social como a sustentabilidade ambiental do planeta.

Marcio Pochmann, professor licenciado do Instituto de Economia (IE) e do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (CESIT) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). É presidente do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada). Escreve mensalmente às quintas.

27/11/2008 - 08:54h Queda do consumo de aço na China provoca calafrios globais

http://www.bloomberg.com/apps/data?pid=avimage&iid=iuy3Za0hzJd4

Andrew Batson, The Wall Street Journal - VALOR

A indústria chinesa do aço, que na fase de alta dos últimos anos se tornou a maior do mundo, enfrenta agora um longo e tenebroso inverno.

A demanda está caindo tanto no mercado doméstico quanto no externo. As exportações de aço do país, que vinham aumentando a um ritmo extraordinário de 60% ao ano, estão em queda. O declínio das exportações chinesas de aparelhos domésticos e maquinário reduziu a demanda pelo aço. O esfriamento no mercado imobiliário levou a uma forte queda na construção, deprimindo ainda mais a demanda de aço.

A atual baixa na siderurgia chinesa é a mais acentuada e mais profunda em pelo menos uma década, com uma queda de 17% na produção em outubro. Alguns executivos acreditam que os bons tempos do setor nunca mais vai voltar.

“Acreditamos que a época de altos lucros para as produtoras de aço já chegou ao fim”, disse Yang Siming, presidente do conselho da Nanjing Iron & Steel Group, uma siderúrgica de tamanho médio.

Com o rápido crescimento da indústria do aço no país nos últimos anos - hoje ela é cinco vezes maior do que na última contração do mercado e produz mais de um terço do aço consumido no mundo - a atual queda está causando impacto no país e no mundo.

A tendência ainda pode se inverter, claro, se a economia chinesa recuperar o recente furor. O governo está tomando medidas nesse sentido. Além de um enorme pacote de estímulo anunciado este mês, ontem o banco central chinês cortou juros, em mais uma tentativa de estimular a economia.

Mas o fim do túnel ainda parece longe, para desespero de grandes mineradoras como a Companhia Vale do Rio Doce, a BHP Billiton Plc. e a Rio Tinto Plc. Elas foram prejudicadas pelo colapso na demanda chinesa por minério de ferro e outros minerais utilizados na fabricação do aço. Produtores de carvão, que é consumido em grandes quantidades na indústria siderúrgica, também perderam um grande mercado com o esfriamento chinês. Com o declínio nos preços e fraqueza na demanda, a BHP está se concentrando agora em preservar suas finanças. Na terça-feira, a empresa abandonou sua proposta de comprar a Rio Tinto.

A queda na demanda também obrigou os fabricantes de aço de outros países asiáticos a cortar a produção e baixar os preços.

A japonesa Nippon Steel Corp., maior produtora mundial de aço depois da ArcelorMittal e dona de 24% da Usinas Siderúrgicas de Minas Gerais SA (Usiminas), informou que aumentará os cortes na produção de 1 milhão para mais de 2 milhões de toneladas no segundo semestre fiscal que termina em março e não exclui a possibilidade de mais cortes no futuro.

A China Steel Corp., de Taiwan, informou que no primeiro trimestre de 2009 vai cortar os preços dos produtos de aço numa média de 22,56% para o mercado doméstico, que consome 75% de sua produção. Trata-se do primeiro corte em quase três anos. Essa medida se segue a onze trimestres consecutivos de alta de preços.

A China Steel também informa que sua produção em 2008 deve ficar cerca de 10% abaixo do patamar do ano passado, de 10,2 toneladas. A empresa também comunicou que no primeiro trimestre planeja fechar uma de suas fornalhas para manutenção, o que significa outro corte de 25% na produção.

Na Índia, os preços do aço baixaram em cerca de um terço desde julho, e caíram pela metade desde o início do ano.

As fábricas de aço indianas, incluindo a estatal Steel Authority of India, cortaram os preços entre 15% e 20% este mês, e muitos analistas acreditam que haverá outros cortes em breve.

Enquanto isso, as importações de aço em outubro diminuíram em um terço em relação ao mês anterior, segundo dados do governo indiano. Analistas dizem que o aço importado ainda é 5% a 10 % mais barato, em vista da queda nos preços do aço chinês.

A atual baixa também significa menos negócios para os portos, ferrovias e empresas marítimas que transportam commodities como carvão e minério de ferro. O Índice Báltico de Cargas Secas, ou Baltic Dry, que mede o preço do transporte marítimo de produtos a granel, já caiu mais de 90% em relação a junho deste ano, em grande parte devido à expectativa de menor demanda na China.

Uma retração na indústria do aço poderia ajudar a mudar o perfil da economia chinesa, que nos últimos anos tem se concentrado em indústrias pesadas, grandes consumidoras de energia. A expansão da produção de aço foi a base para a transformação da China em um gigante industrial, mas também contribuiu muito para o explosivo aumento no consumo de carvão e petróleo no país e suas emissões de poluentes e gases de efeito estufa. Uma indústria do aço de menor envergadura poderia significar uma China mais limpa, mais eficiente e que exerça menos pressão sobre os recursos mundiais.

“Se o crescimento da produção do aço se reduzir, conforme a tendências recente, para menos de 10%, e houver uma saudável consolidação do setor, até 2012 a China terá economizado mais de um bilhão de toneladas de carvão, fazendo um corte do tamanho da França no seu total anual de emissões de dióxido de carbono”, disse Trevor Houser, analista de energia do Rhodium Group.

(Colaboraram Yuzo Yamaguchi, Alex Pevzner, Arpan Mukherjee e Miho Inada)