08/10/2009 - 11:13h Produtividade de cana cresce até 50%

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“CANA DE AÇÚCAR”, de Bete Brito. Tela painel 60×60cm, óleo s/tela e textura acrílica.


TENDÊNCIA

A introdução das primeiras variedades transgênicas de cana, o melhoramento genético clássico com a seleção de novas variedades e o desenvolvimento de tecnologias sofisticadas para orientar o plantio podem aumentar a produtividade da cana-de-açúcar entre 40% e 50% nos próximos 20 anos no Brasil. A avaliação – que reforça a posição do País como imbatível na produção de açúcar, álcool e energia renovável – é do diretor-superintendente do Centro de Tecnologia Canavieira (CTC), Nilson Boeta, feita durante o lançamento das novas variedades de cana da instituição de pesquisa, em Ribeirão Preto (SP). Fonte O Estado SP

30/09/2009 - 17:27h Expectativa da indústria para a produção é a melhor em 18 anos, diz FGV

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TATIANA RESENDE da Folha Online

O índice de expectativa para a produção da indústria atingiu neste mês o maior nível (139,2) desde abril de 1991, segundo pesquisa da FGV (Fundação Getulio Vargas) divulgada nesta quarta-feira.

O indicador considera a projeção para o trimestre (setembro, outubro e novembro), no comparativo com os três meses imediatamente anteriores, e é a combinação entre as respostas dos empresários otimistas e dos pessimistas. Nesse confronto, 49,9% esperam ampliar a produção, patamar semelhante ao de agosto de 2008 (50,0%). Já os que preveem diminuição totalizam 10,7% –menor nível desde novembro de 2007 (5,7%).

Para Aloísio Campelo, coordenador do Núcleo de Pesquisas e Análises Econômicas da FGV, esse indicador é “o mais operacional” entre os que compõem o Índice de Confiança da Indústria, que atingiu neste mês o maior nível desde setembro de 2008. O dado (109,5), que apresentou a nona alta consecutiva neste mês, está acima da média histórica e só 4,7% abaixo do patamar pré-crise. “Houve uma diminuição das incertezas.”

O setor de material de transporte, que engloba montadoras e autopeças, é o que tem a melhor expectativa sobre a produção, seguido de metalurgia, materiais plásticos e celulose, papel e papelão. A cadeia da indústria automotiva também lidera o otimismo na análise do índice de confiança geral e já está em um patamar mais elevado até do que a média histórica, considerando o período desde o Plano Real.

A partir de amanhã, o IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) reduzido em dezembro do ano passado para automóveis, com o objetivo de impulsionar as vendas, volta a subir gradativamente, até chegar à alíquota original em janeiro.

Emprego

A expectativa para o emprego no mesmo período é menos otimista do que para a produção. Isso mostra, na avaliação de Campelo, que a indústria vai em busca de aumento de produtividade e ampliação no número de horas extras antes de acelerar as contratações. De acordo com a pesquisa, 26,5% dos empresários projetam um incremento no quadro de funcionários e 14,4%, retração, resultando em um índice (112,1) que só é inferior ao de setembro de 2008 (115,1).

Na perspectiva da situação dos negócios para os próximos seis meses, o índice também é o melhor desde o agravamento da crise. “O mercado externo deve passar a ter mais relevância”, afirmou.

O nível de demanda global teve uma leve queda (-1,9%) entre agosto e setembro por causa do mercado interno (-0,7%), que já estava em um patamar alto. Já o nível de demanda externa cresceu 2,9%, mas ainda está abaixo da média histórica.

Na avaliação de estoques, 5,0% dos empresários o consideram insuficiente, e 4,5%, excessivo.”Esse indicador retrata o equilíbrio. Os estoques estão ajustados”, comentou Campelo. Corroborando o momento favorável, a utilização da capacidade instalada na indústria chegou a 81,9% em setembro, superior a agosto (81,3%) e bem próxima da média histórica (82,2%).

19/02/2009 - 09:58h A hora e a vez do novo Estado

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Marcio Pochman – VALOR

A crise mundial torna mais evidente o conjunto de equívocos que resulta da recente experiência neoliberal. Os países que mais longe avançaram o princípio da autorregulação das forças de mercado e da desregulamentação do Estado encontram-se entre os mais frágeis e vulneráveis no contexto atual de turbulências e incertezas globais.

Fácil imaginar como a economia brasileira estaria débil e à deriva se a trajetória privatista e de inserção externa subordinada aos interesses dos países ricos dos anos 90 não tivesse sido interrompida. Sem bancos públicos (BB, CEF, BNB e BNDES) e empresas estatais, como Petrobras e Eletrobrás, por exemplo, o Brasil não teria a mínima condição de responder imediata e positivamente à crise do crédito e do investimento privado. Países que se desfizeram de bancos e empresas públicas, como o caso argentino, convivem hoje com maiores dificuldades para enfrentar afirmativamente a crise. No Brasil, a fase da privatização implicou reduzir a participação dos bancos públicos de mais de 50% para quase um terço da disponibilidade total do crédito doméstico, enquanto a transferência para o setor privado de empresas estatais respondeu por 15% do PIB e pela destruição de mais de 500 mil postos de trabalho. Em valor, o processo de privatização brasileiro somente conseguiu ser inferior à experiência soviética, com parte significativa do setor produtivo estatal sendo capturado pelo capital estrangeiro.

Da mesma forma, a opção política pela diversificação comercial permite ao Brasil o reposicionamento no mundo com soberania, bem diferente das economias com exportações concentradas em poucos países, como parece indicar o México, com mais de 80% do comércio externo só com os EUA. A recessão nos países ricos contamina mais facilmente aquelas nações dependentes de suas trocas externas.

Para o Brasil, o peso dos países ricos no comércio externo encontra-se pouco acima de 40%, quando nos anos 90 era de mais de 67% do total. Estas constatações sobre o país em relação a outras nações descrevem resumidamente uma situação melhor, porém ainda insuficiente para indicar a necessária construção de novo caminho a ser percorrido. Isso porque se tem presente que o neoliberalismo cometeu o seu haraquiri, não tendo sido superado – até o momento – pelo estabelecimento de projeto econômico e social alternativo. As respostas à crise do capital globalizado podem até ser transformadas numa etapa de desenvolvimento do novo padrão civilizatório, mas ainda estão distante disso.

De maneira geral, percebe-se que o Estado reaparece como elemento central do enfrentamento à turbulência mundial, embora ainda desfalcado da perspectiva transformadora de oportunidades e desafios do Século XXI. A reprodução dos tradicionais traços do padrão de Estado dos últimos 100 anos indica tão-somente o aprofundamento da organização por funções setoriais (caixinhas), cada vez mais ineficientes, quando não concorrentes entre si e à margem do potencial das forças do mercado. Adiciona-se a isso o acúmulo das variadas ondas de “choques de gestão” internalizadas pela administração do Estado, que produziram tanto a regressão da capacidade e sistematicidade de grande parte das políticas como o esvaziamento da própria função pública. Por um lado, o corte do funcionalismo e de sua remuneração procedido pela internalização de métodos privados acirrou a competição na função pública e fortaleceu a autonomização setorializada e não convergente das políticas adotadas pelo conjunto do governo. Como na lógica privada, o todo deu lugar a partes, trazendo consigo a prevalência da visão e ação de curto-prazismo no interior da função pública. O planejamento e o compromisso de longo prazo foram substituídos por uma sucessão irracional de programas e projetos pilotos que, alterados constantemente pelas autoridades de plantão, fizeram com que o Estado fosse abandonando o sentido estruturador do padrão civilizatório fora da emergência do curtíssimo prazo. Por outro lado, a estabilidade da esfera pública foi sendo contaminada pela lógica da eventualidade, amplamente acolhida pelo curso da terceirização das funções e da contratação de mão-de-obra. Assim, o Estado foi-se comprometendo com repasses crescentes de recursos a instituições – algumas nem sempre decentes (fundações, ONG’s e cooperativas) – portadoras de flexibilidade para o exercício dos desvios da função pública. Assim, orçamentos e licitações tornaram-se, muitas vezes, o espaço privilegiado para manifestação da força dos interesses privados, negociatas e maior corrupção. Em síntese, a emergência da corrosão do caráter da função pública, posto que o tradicional funcionário de Estado, demarcado pelo profissionalismo e meritocracia, passou a dar lugar – em algumas vezes – ao comissionado e ao corpo estranho dos terceirizados.

O novo Estado precisa ser construído. Ele deve ser o meio necessário para o desenvolvimento do padrão civilizatório contemporâneo em conformidade com as favoráveis possibilidades do Século XXI. A sociedade pós-industrial, com ganhos espetaculares de produtividade imaterial e expectativa da vida ao redor dos 100 anos de idade, abre inédita e superior perspectiva civilizatória: educação para a vida toda, ingresso no mercado de trabalho depois de 25 anos, trabalho menos dependente da sobrevivência e mais associado à utilidade e criatividade sócio-coletiva. Para além das exigências do Século XX, que conformaram tanto o Novo Estado Industrial (J. Kenneth Galbraith) como o Bem-Estar Social (K. Gunnar Myrdal), encontra-se em curso novos e complexos desafios que exigem profunda reforma estatal.

Três grandes eixos estruturadores do novo Estado precisam ser perseguidos com clareza e efetividade. O primeiro diz respeito à constituição de novas institucionalidades na relação do Estado com o mercado. Alavancada pela experiência neoliberal, o mercado enfraqueceu as bases de promoção da competição, cada vez mais sufocadas pelo predomínio da monopolização expresso pelos vícios privados das grandes corporações transnacionais.

O esvaziamento da competição precisa ser rapidamente combatido com novas instituições portadoras de futuro, capazes de garantir a continuidade da inovação por meio da concorrência combinada com a cooperação entre empreendedores e da maior regulação das grandes corporações empresariais. O segundo grande eixo estruturador do novo Estado deve resultar da revolução na propriedade que impulsione uma relação mais transparente, democrática e justa com toda a sociedade. Neste caso, a ampliação do fundo público se faz necessária para sustentar o padrão civilizatório do Século XXI, a partir da tributação sobre o excedente adicional gerado por novas fontes de riqueza, que por serem intangíveis escapam crescentemente das anacrônicas bases arrecadatórias vigentes há mais de 200 anos. Por fim, o terceiro eixo reside na profunda transformação do padrão de gestão pública. Políticas cada vez mais matriciais e intersetoriais pressupõem a organização do Estado em torno do enfrentamento de problemas estruturais e conjunturais. Noutras palavras, a meritocracia e o profissionalismo para conduzir ações públicas articuladas para lidar com problemas estruturais e políticas governamentais descentralizadas e compartilhadas com a sociedade e mercado para enfrentar diversos e específicos problemas conjunturais. Urge fazer do Estado do futuro o experimentalismo do presente. Muito mais do que anunciar as dificuldades da crise global, cabe ressaltar as oportunidades que dela derivam como a realização de uma profunda reforma do Estado que viabilize o alcance das condições pós-crise para sustentação do novo desenvolvimento ambiental, econômico e social.

Marcio Pochmann é presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e professor licenciado do Instituto de Economia e pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho da Universidade Estadual de Campinas. Escreve mensalmente às quintas-feiras.

10/12/2008 - 09:49h Emprego é o que vai definir 2009

 

Marisa Cauduro/Valor

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Drummond, presidente da Whirlpool: “Se conseguirmos manter o emprego nos primeiros meses de 2009, o país reagirá”

Claudia Facchini, de São Paulo – VALOR

Emprego será a palavra-chave em 2009. É esse indicador que vai dimensionar o tamanho da onda que irá atingir a economia brasileira, se será uma marola ou um maremoto. Entre os altos executivos e empresários brasileiros, começa a se desenhar um movimento de conscientização para a manutenção dos postos de trabalho, pelo menos no início de 2009, até que haja uma maior clareza sobre os impactos da crise mundial.

Preservar o número de empregos, sem abalar a produtividade, será um grande desafio para os executivos e empresários no primeiro quadrimestre do ano que vem, diz José Drummond Júnior, presidente da Whirlpool na América Latina. O grupo americano, dono das marcas Brastemp e Consul, é a maior indústria de linha branca (geladeiras, fogões e máquinas de lavar roupa) do Brasil e do mundo.

“Se conseguirmos manter as taxas de emprego nos primeiros quatro, seis meses de 2009, o país irá se sair melhor e irá reagir mais rápido (à crise mundial). O Brasil está, estruturalmente, em uma situação melhor do que estava nas crises anteriores e também está melhor do que outros países”, diz o executivo. Drummond prefere evitar a palavra crise. Por enquanto, o que paira sobre a economia brasileira é uma grande incerteza. Falar em crise, neste momento, seria consumar algo que não aconteceu, argumenta. “Sobre o que irá acontecer no primeiro trimestre de 2009, só será possível responder no primeiro trimestre. ”

Nos últimos dois meses, Drummond procurou conversar com presidentes de empresas de diversos setores para trocar opiniões. Nos últimos 60 dias, o presidente da Whirlpool diz ter realizado mais encontros do que ao longo dos dois últimos anos. E o que ouviu foi uma forte disposição em manter os empregos, apesar das preocupações.

É de se esperar, segundo ele, que haja uma desaceleração do consumo em 2009, mas a estabilidade está longe de ser uma tragédia, afirma Drummond. Não será uma taxa zero de crescimento que fará a Whirlpool perder dinheiro. O ano de 2008 tem sido excelente para a empresa. A Whirlpool S.A., subsidiária do grupo no país, registrou um lucro líquido de R$ 467 milhões entre janeiro a setembro, 40% maior que o obtido em igual período de 2007. As vendas líquidas aumentaram 8%, totalizando R$ 3,6 bilhões. Segundo Drummond, os preços ao consumidor foram reajustados em cerca de 10% ao longo dos últimos meses para compensar a alta nos custos de matérias-primas, como o aço.

07/12/2008 - 15:11h O GASTO DE HOJE PREJUDICARÁ A ECONOMIA DE AMANHÃ?

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por Paul Krugman* – Zero Hora

krugman_paul.jpgNeste momento, há um intenso debate sobre quão agressivo deve ser o governo dos Estados Unidos na tentativa de recuperar a economia. Muitos economistas, inclusive eu, estão clamando por uma grande expansão fiscal para evitar que a economia siga em queda livre. Outros, no entanto, preocupam-se com o fardo que o enorme déficit orçamentário irá colocar sobre as futuras gerações.

Mas as preocupações com o déficit estão totalmente equivocadas. Sob as condições atuais, não há conflito entre o que é bom no curto prazo e o que é bom no longo prazo; uma forte expansão fiscal pode, na verdade, melhorar as perspectivas de longo prazo da economia.

A alegação de que os déficits orçamentários enfraquecem a economia a longo prazo é baseada na crença de que o financiamento governamental desloca o investimento privado – o governo, ao emitir muita dívida, eleva rapidamente a taxa de juro, deixando as empresas pouco dispostas a investir em novas plantas e equipamentos, e isso, por sua vez, reduz a taxa de crescimento da economia a longo prazo. Sob circunstâncias normais, esse argumento faz muito sentido.

Mas as atuais circunstâncias estão muito além da normalidade. Imagine o que poderia ocorrer no próximo ano se a administração Obama capitulasse frente aos falcões do déficit e encolhesse seus planos fiscais. Isso levaria a taxas de juro mais baixas? Certamente, não conduziria à redução das taxas de juro de curto prazo, que são mais ou menos controladas pelo Federal Reserve. O Fed já está mantendo essas taxas o mais baixas possível – virtualmente, em zero – e não mudará essa política a menos que veja sinais de que a economia está ameaçada de superaquecimento. E essa não parece ser uma perspectiva realista em breve.

E sobre o juro de longo prazo? Essas taxas, já no nível mais baixo em meio século, refletem principalmente taxas futuras de curto prazo. Austeridade fiscal pode empurrá-las ainda mais para baixo – mas somente criando expectativas de que a economia poderia se manter profundamente deprimida por um longo tempo, o que iria reduzir, não elevar, o investimento privado.

A idéia de que apertar a política fiscal quando a economia está deprimida na verdade leva à redução do investimento privado não é apenas um argumento hipotético: é exatamente o que ocorreu em dois importantes episódios da história. O primeiro ocorreu em 1937, quando Franklin Roosevelt equivocadamente deu ouvidos aos preocupados com déficit de sua própria era. Ele reduziu de forma acentuada o gasto do governo, entre outras coisas cortando o Works Progress Administration (agência criada em 1935 para gerar empregos e sair da Grande Depressão) pela metade, e ainda elevando impostos. O resultado foi uma severa recessão, e uma queda abrupta no investimento privado. O segundo episódio teve lugar 60 anos depois, no Japão. Em 1996-97, o governo japonês tentou equilibrar seu orçamento cortando gastos e elevando impostos. E outra vez a recessão que se seguiu conduziu a uma queda drástica no investimento privado.

Apenas para ser claro, não estou afirmando que a tentativa de reduzir déficits orçamentários sempre é ruim para o investimento privado. Você pode se basear no caso da restrição fiscal de Bill Clinton nos anos 90, que ajudou a abastecer o maior boom de investimentos dos EUA da década, o que por sua vez ajudou a provocar uma recuperação no crescimento da produtividade.

O que torna a austeridade fiscal tão má idéia, tanto nos EUA de Rooselvet quanto no Japão dos anos 90, foram circunstâncias especiais: nos dois casos, o governo recuou frente a uma armadilha de liquidez, uma situação na qual a autoridade monetária cortou taxas de juro tão rápido como possível, e a economia ainda continuou a funcionar bem abaixo de sua capacidade. E nós estamos no mesmo tipo de armadilha hoje – motivo pelo qual preocupações com déficit estão deslocadas.

Mais uma coisa: expansão fiscal será ainda melhor para o futuro dos EUA se uma grande parte dessa expansão tomar a forma de investimento público – construção de estradas, reforma de pontes e desenvolvimento de novas tecnologias, iniciativas que tornam a nação mais rica no longo prazo.

O governo deve ter uma política permanente de grandes déficits orçamentários? Claro que não. Embora a dívida pública não seja tão ruim como a maioria das pessoas acredita – é basicamente dinheiro que nós devemos a nós mesmos –, no longo prazo o governo, como os indivíduos, tem de equilibrar o gasto e a receita.

Mas neste momento temos um rombo no gasto privado: os consumidores estão redescobrindo as virtudes de poupar no mesmo momento em que as empresas, escaldadas por excessos passados e limitadas pelos problemas no sistema financeiro, estão cortando investimento. Com o tempo, essa lacuna poderá fechar, mas até que isso ocorra o gasto do governo terá de ser feito da forma mais eficiente possível. Caso contrário, o investimento privado e a economia como um todo irão despencar ainda mais.

A questão essencial, então, é que as pessoas que consideram a expansão fiscal de hoje ruim para as futuras gerações entenderam tudo errado. O melhor plano de ação, tanto para os trabalhadores de hoje quanto para seus filhos, é fazer o que for necessário para conduzir a economia no rumo da recuperação.

Paul Krugman – New York Times News Service

- Professor de Economia e Assuntos Internacionais da Universidade de Princeton e colunista do The New York Times, Paul Krugman passa a integrar o time de colunistas do Dinheiro por meio do New York News Service.

Formado na Universidade de Yale em 1974, foi integrante do Conselho de Assessores Econômicos da Casa Branca do ex-presidente Ronald Reagan e assessor do Banco Mundial, do Fundo Monetário Internacional (FMI), da Comissão Trilateral e da Organização das Nações Unidas (ONU). Ganhador do Prêmio Nobel de Economia deste ano por ter formulado uma nova teoria sobre o comércio, Krugman é conhecido mundialmente por suas duras críticas ao presidente norte-americano, George W. Bush. Por exemplo, atacou o engajamento na guerra do Iraque e, recentemente, o modo como Bush administrou o resgate do sistema financeiro. Para o colunista, a atual crise é a maior já vivida pelos Estados Unidos desde o crash de 1929.

01/12/2008 - 09:48h Safra menor no Brasil é mais um problema para economia mundial

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Lauren Etter, The Wall Street Journal – VALOR

Num momento em que o mundo precisa de mais comida, os efeitos da crise global do crédito sobre o Brasil aumentam o risco de falta de alimentos.

Muitos produtores brasileiros tinham a esperança de que a alta no mercado de grãos os ajudaria a pagar as dívidas e se tornarem mais competitivos em relação aos produtores americanos, que há muito são os líderes mundiais em produtividade agrícola. Agora, porém, com falta de capital, os brasileiros estão reduzindo o tamanho das plantações e até deixando de pagar dívidas. A acentuada a queda nos preços de diversos produtos no mercado mundial e o aumento no custo dos suprimentos agrícolas, combinados com o aperto no crédito, estão reduzindo o ritmo de um dos fornecedores de alimentos que mais cresce no mundo.

O desaquecimento do cinturão agrícola brasileiro pode afetar toda a economia do país, a maior da América Latina e que vinha, ao lado de Rússia, China e Índia, puxando o crescimento do mundo emergente.

Nos últimos anos, com o aumento da demanda global por grãos, os produtores brasileiros cultivaram a terra a um ritmo febril para plantar soja; estradas foram abertas no interior do país para transportar a produção. O aumento no preço dos grãos em todo o primeiro semestre de 2008 acelerou essa expansão.

Agora, os produtores estão tendo dificuldade de conseguir empréstimos para cobrir o alto custo dos fertilizantes, pesticidas e sementes. Para esses empréstimos, eles sempre dependeram muito de um punhado de cerealistas multinacionais, como Archer-Daniels-Midland Co., Bunge Ltd. e Cargill Inc.

Ao contrário dos Estados Unidos, onde os fazendeiros dependem de empréstimos do governo e de bancos privados, no Brasil até 40% do financiamento vêm de empresas agrícolas. Essa porcentagem pode cair para até 25% este ano, segundo o ex-ministro da Agricultura Marcus Vinicius Pratini de Moraes, hoje conselheiro independente do JBS SA.

Agora que a volatilidade no mercado de commodities e a crise financeira global aumentaram os riscos e os custos de fazer negócios no Brasil, as grandes empresas cerealistas estão freando o os empréstimos.

“Cada empresa está tentando garantir o máximo possível de capital (para suportar) os efeitos de longo prazo da crise do crédito”, diz Stefano Rettore, gerente-geral da CHS Brasil. “Isso está deixando menos capital disponível para financiar a agricultura brasileira.”

Esse aperto deve contribuir para uma queda de 2% na produção brasileira de soja para a safra de 2008-2009, segundo o Departamento de Agricultura dos EUA.

Na última quarta-feira, a fabricante americana de equipamentos agrícolas Deere & Co. divulgou sua previsão de que as vendas desses equipamentos na América do Sul cairão em até 20% no ano que vem, em parte devido à “difícil situação do crédito no Brasil”, diz Susan Karlix, diretora de comunicações, em uma teleconferência com os investidores.

A Bunge, um dos maiores processadores mundiais de soja, cortou em 70% os pagamentos adiantados em dinheiro aos produtores agrícolas brasileiros desde o final do ano passado, segundo informes da empresa. A Bunge, tal como outras cerealistas, concede empréstimos e pagamentos adiantados em dinheiro aos produtores, em troca de entregas futuras de cereais.

“Basicamente, estamos sendo mais seletivos”, disse Stewart Lindsay, porta-voz da Bunge, “a fim de gerir melhor nosso capital de giro em um nível global, e sermos prudentes em termos de risco, em um ambiente de preços que já demonstrou ser volátil”.

As americanas ADM e Cargill informam que aumentaram o volume total de crédito disponível para os produtores brasileiros. Mesmo assim, os fazendeiros dizem que os empréstimos não bastam para cobrir seus custos cada vez maiores.

Na última década, o financiamento privado para os fazendeiros incentivou o rápido crescimento da agricultura e da infra-estrutura na região Centro-Oeste, ajudando o país a tornar-se um dos maiores produtores agrícolas mundiais. Hoje o Brasil é o maior produtor de soja depois dos EUA, respondendo por uma quarta parte da produção mundial desse grão.

Ao longo dos anos, os fazendeiros brasileiros acumularam vultosas dívidas depois de uma série de colheitas fracas e de taxas de câmbio desfavoráveis, no início da década. Essas dívidas estão fazendo com que muitos encontrem dificuldade para tomar novos empréstimos.

O custo total da produção das três principais lavouras de Mato Grosso – soja, milho e algodão – deve aumentar 42% este ano em relação ao ano passado diz Michael Cordonnier, presidente da consultoria americana Soybean & Corn Advisor.

Agora, além de economizar com fertilizantes e insumos – o que aumenta o risco de redução da safra -, muitos produtores estão deixando de pagar dívidas e equipamentos importantes para garantir produtividade estão sendo retomados pelos bancos. Mais de cem máquinas como tratores e colheitadeiras confiscadas nos últimos dias no Mato Grosso, o campeão nacional da produção de soja, diz Glauber Silveira, presidente da Aprosoja, Associação dos Produtores de Soja do Mato Grosso.

(Colaborou Tony Danby)

26/11/2008 - 12:31h Crise vai reduzir salários, diz OIT

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Assis Moreira, de Genebra – VALOR

Além de 20 milhões de novos desempregados, a crise financeira e econômica global deve provocar uma queda real de salários em 2009 para quem continuar no emprego, alertou a Organização Internacional do Trabalho (OIT).”Os tempos serão difíceis para o 1,5 bilhão de assalariados no mundo”, disse Juan Somavia, diretor da OIT, com sua enorme capacidade de dizer o óbvio, estimando que a “amputação” salarial afetará seriamente as classes médias e fará mais pobres em torno do mundo.A entidade prevê “dolorosos cortes de salários” de 0,5% nas nações industrializados, no rastro da recessão. Globalmente, ainda haveria alta, de 1,1%, em razão do crescimento que persistirá em algumas economias emergentes.A entidade projeta para o grupo de países em desenvolvimento aumento salarial de no máximo 3,5%, contra 4,5% este ano, e em todo caso abaixo do ganho de produtividade desses trabalhadores.Em comunicado, Juan Samovia, diretor-geral da OIT, conclamou os governos a levarem em conta aumentos reais de salários nos planos de recuperação econômica, argumentando que do contrário a retomada será mais lenta.Estudo da OIT sugere que o consumo foi sustentado por endividamento, e não em alta de salários. Enquanto a inflação era fraca e a economia mundial progredia num ritmo de 4% entre 2000/07, a expansão salarial foi inferior a 2% na metade dos países do mundo.O resultado é que a desigualdade salarial continua aumentando. A diferença entre os pagamentos mais altos e os mais baixos chega a 70% em boa parte dos países. A disparidade subiu “bruscamente” na Argentina, China e Tailândia. Baixou no Brasil e a Indonésia, mas a desigualdade nos dois ainda está entre as maiores do planeta.Os dados confirmam que a alta de salários reais continuou abaixo da expansão da produtividade. Assim, em 75% dos países houve queda dos salários no Produto Nacional Bruto (PNB), em comparação aos lucros e outros tipos de renda. Segundo a OIT, cada ponto suplementar de queda do PNB por habitante provoca baixa salarial de 1,55%.Com a crise, os salários mínimos estão de novo na agenda social em vários países. Em comparação aos salários médios, os mínimos aumentaram 39% entre 2004-2007. Na Indonésia, o governo acaba de enfrentar turbulências sociais, depois de anunciar aumento do salário mínimo que fica abaixo da inflação.Nos Estados Unidos, os empregados no comércio já tiveram seus pagamentos cortados em US$ 100 em média.Com as perspectivas sombrias, as tensões sociais sobre salários podem se intensificar. A OIT sugere que uma saída pode ser negociação coletiva.No Brasil, produtividade bate salárioOs salários cresceram no Brasil menos do que a alta da produtividade entre 2001 e 2007, reiterou ontem a Organização Internacional do Trabalho (OIT), indicando que maior fatia dos ganhos econômicos foi direcionado para os lucros. Não apenas isso é visto como injusto, como tem um impacto adverso no futuro crescimento econômico, diz a entidade.Estatísticas da OIT mostram que o salário real no país caiu 1,84% na média entre 1995 e 2000, e subiu apenas 0,25% na média entre 2001 e 2007. Economistas da entidade estimam que a fatia do salário no Produto Nacional Bruto (PNB) tende a continuar declinando, no rastro da crise econômica. Apesar de ser um dos campeões mundiais de desigualdade de renda, o Brasil tem sido um dos poucos a reduzir a disparidade salarial.

25/11/2008 - 08:12h “A crise vem de fora. Antes, 72 horas depois o pais ficava de joelhos”

Lula reúne 36 ministros para unificar discurso

Temendo onda de pessimismo, governo fará campanha publicitária para dizer que país está preparado para crise

Chico de Gois, Gustavo Paul e Luiza Damé – O Globo

BRASÍLIA. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva reuniu ontem 36 dos seus 37 ministros na terceira reunião ministerial do ano para unificar o discurso do otimismo que o governo quer transmitir à sociedade. O temor é que uma onda de pessimismo contamine os consumidores, esfriando ainda mais a economia em 2009. Nesse sentido, o governo vai lançar, a partir do dia 10, uma propaganda no rádio, TV, jornais e internet para tentar convencer a população de que não há motivos para pânico nem para deixar de consumir.
Na reunião, que teve como mote a análise da crise financeira internacional, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, reforçou o que o governo já vem dizendo: a crise atinge o Brasil, mas o país está preparado para enfrentá-la e será menos afetado que outros países.

— O Brasil tem uma indústria diversificada e eficiente e uma agricultura com um dos maiores índices de produtividade do mundo. Agora temos um câmbio favorável para a exportação. O cenário não é tão ruim quanto pintam. Pode ser até um cenário bastante razoável — disse Mantega, ao fim do encontro.

Campanha na TV e rádio para incentivar o consumo

Lula, em evento à noite, reforçou a mensagem: — Todo mundo está vendo a crise internacional 24 horas por dia na TV. Mas todo mundo está percebendo que o Brasil é, neste momento, o país mais seguro e mais preparado para enfrentar essa crise.
Embora não seja tão explícita, a peça publicitária — que terá como slogan “o mundo aprendeu a respeitar o Brasil, e o Brasil confia nos brasileiros” — vai mostrar o efeito dominó que traduz o consumo: ao comprar um produto, o cidadão gera emprego, movimenta a economia e faz o país crescer. A propaganda enfatizará que o governo tomou medidas consideradas acertadas ao diversificar, por exemplo, seu comércio exterior.
O ministro da Comunicação Social, Franklin Martins, disse que o Palácio do Planalto já pensava em fazer uma campanha de fim de ano mostrando os avanços do país, mas, com a crise, modificou-a.
Segundo Mantega, o diferencial brasileiro se deve às medidas tomadas nos últimos anos, que deram solidez à economia.
Ele citou o fortalecimento das reservas cambiais — que permanecem acima de US$ 200 bilhões mesmo depois da fase mais aguda da crise —, a diversificação dos parceiros comerciais no exterior, as medidas fiscais adotadas, como o aumento do superávit primário, e ações emergenciais, como a venda de dólares no mercado, que já consumiram US$ 47,9 bilhões.
O recado dado pelo presidente Lula, e reforçado por Franklin, é que a atual administração não tem qualquer responsabilidade pela atual turbulência econômica: — O presidente quis deixar claro que a crise vem de fora.
Não foi construída aqui. Dois meses depois o Brasil não veio abaixo. Antes, 72 horas depois de a crise iniciar, o país ficava de joelhos.

Governo pode reduzir tributos de novo

Porta-vozes da reunião, Mantega e Franklin insistiram que a atividade econômica brasileira irá desacelerar, mas não terá quedas semelhantes às de outros países desenvolvidos, que entrarão em recessão. O governo vai perseguir o crescimento de 4% em 2009.

— O Brasil está menos vulnerável à crise, mas isso não significa que não seremos atingidos.
Seremos, mas em uma condição melhor — disse o ministro da Fazenda.
O governo sinalizou a possibilidade de novas medidas serem adotadas para melhorar a liquidez do mercado. Mantega disse que, se necessário, o governo vai reduzir tributos como fez na semana passada com o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) para motos: — Se necessário for, faremos a redução de tributos. O IOF, por exemplo, reduz custo financeiro — disse ele.
O governo também pretende manter a política de investimentos no próximo ano, para manter aquecida a atividade econômica.
Mantega disse que, caso seja necessário fazer cortes de despesas públicas para adequar o Orçamento, a ordem será reduzir custeio da máquina, mantendo os investimentos.
Mantega também garantiu que o crédito está retornando à economia, mas ainda não está normalizado. Segundo ele, os grandes bancos já voltaram a ter as mesmas linhas de antes da crise. As pequenas e médias instituições financeiras, porém, ainda não voltaram a emprestar.

— Estamos com 80% do crédito com que estávamos antes de a crise se tornar mais aguda.
Ainda não estamos na normalidade — disse Mantega.

10/11/2008 - 10:40h Ações para ampliar crédito para a safra dão resultado

http://www.oesteinforma.com.br/imagens/2008/agropecuaria/safra-da-regiao-oeste.jpg

VALOR

As medidas adotadas pelo governo para garantir liquidez ao sistema de crédito rural brasileiro começam a surtir efeito. Foram até agora meia dúzia de ações pontuais, que garantiram cerca de R$ 20 bilhões em antecipação e financiamentos adicionais para suprir a saída dos tradicionais financiadores como as tradings, agroindústrias e fornecedores de insumos, notadamente na região Centro-Oeste.

A elevação dos percentuais sobre os depósitos à vista e de caderneta de poupança com aplicação obrigatória no setor, as chamadas exigibilidades bancárias, ampliaram em R$ 8 bilhões a oferta de dinheiro ao setor. A redução “carimbada” dos depósitos compulsórios e a antecipação da equalização de recursos para o Banco do Brasil agregaram outros R$ 9 bilhões ao crédito disponível. Para suprir parte da demanda por linhas de auxílio à exportação, o Conselho Monetário Nacional (CMN) abriu espaço para crédito de até R$ 2,5 bilhões para financiar capital de giro de agroindústrias com lastro em Cédulas de Produto Rural (CPRs), emitidas por produtores para antecipar recursos de custeio das lavouras.

A reação do mercado tem sido positiva. Um exemplo do efeito é o próprio Banco do Brasil, maior operador de financiamentos ao campo, que estima chegar ao fim da primeira metade desta nova safra, cujo plantio começou em outubro, com um volume de empréstimos de custeio próximo de R$ 14 bilhões. Em quatro meses do atual ano-safra, iniciado em julho, o banco emprestou R$ 9,4 bilhões. Se confirmadas a projeções, o desempenho do BB no custeio da safra em 2008 será 32,5% superior ao mesmo período de 2007.

Mesmo assim, a taxa média de juros ficou maior porque aumentou a demanda e o riscos associados ao setor, já que vários dos tradicionais financiadores do campo recuaram em razão de problemas de caixa provocados pela forte instabilidade dos preços na safra passada. A raiz da falta de crédito para o plantio da próxima safra antecede, assim, o agravamento da crise financeira global. De fato, a escassez de crédito começou com o pacote de R$ 75 bilhões de renegociação de dívidas rurais, que limitou a concessão de empréstimos aos produtores que optaram pela rolagem. E, também, porque os bancos ficaram mais seletivos, se esquivando de conceder empréstimos a quem repactuasse seus débitos.

O governo precisa agora garantir renda ao setor através da sustentação de preços e aquisições diretas para formação de estoques públicos durante a comercialização da safra. O orçamento para 2009 prevê apenas R$ 3,8 bilhões para isso. Produtores, bancos e setores do próprio governo estimam a necessidade de até R$ 10 bilhões para honrar a Política de Garantia de Preços Mínimos, prevista em lei e poucas vezes cumprida integralmente.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ministro da Fazenda, Guido Mantega, garantiram, há poucos dias, que o governo cumprirá seu papel de evitar que as cotações agrícolas fiquem abaixo dos preços mínimos.

Da ação do governo também dependerá o plantio no próximo ano-safra 2009/2010 em condições adequadas de crédito para atender ao volume da produção e garantir a produtividade das principais lavouras. Para isso, é preciso modernizar as regras do crédito rural e ampliar as fontes de financiamento para além dos escassos recursos oficiais subsidiados pelo Tesouro. Só com produção, produtividade e renda é que será possível evitar novos acúmulos de dívidas e os intermináveis calotes de parcela minoritária, porém barulhenta, dos agricultores.

Um passo importante na modernização da política agrícola seria, por exemplo, a ampliação do alcance do seguro rural, hoje pouco difundido e caro. Outra iniciativa poderia ser a redução do risco de crédito dos produtores por mecanismos de incentivo à proteção de preços nos mercados futuros.

Cabe ao governo estar alerta para impedir que eventuais desarranjos no setor rural produzam efeitos perversos sobre o abastecimento, a inflação e as exportações. Como se viu no primeiro semestre, a baixa oferta de produtos básicos como feijão, arroz, trigo e milho, pode ter efeito devastador sobre os preços. O pior que pode acontecer é um repique inflacionário em 2009, provocado por redução da oferta de alimentos.

06/11/2008 - 17:52h Para enfrentar o medo

Dominique Strauss-Kahn – VALOR

strauss_khann2.jpgApesar de o aperto nos empréstimos interbancários ter começado a ser afrouxado pelo socorro aos sistemas financeiros em todos os países avançados, as quedas registradas pelos indicadores econômicos fizeram os mercados acionários despencar. As pressões sobre países de mercados emergentes, antes considerados por muitos observadores como “desacoplados” do resto do mundo, ficaram mais intensas, devido ao repatriamento de recursos externos e da venda de ativos.

Em vista do medo que se apodera de consumidores, empresas e países em todo o mundo, agora deixou-se de falar em recessão moderada em países avançados e passou-se a falar em grande depressão mundial. Instalou-se uma sensação de desânimo devido à percepção de que nada pode ser feito para evitar a depressão.

O que está acontecendo? As medidas tomadas três semanas atrás para dar sustentação ao sistema financeiro estavam simplesmente erradas? Absolutamente, não. O aprovisionamento de liqüidez, a recapitalização de bancos, seguros mais uniformes sobre depósitos em todos os países avançados – todas essas medidas foram corretas e necessárias. Mas elas foram apenas uma primeira parte do todo que precisa ser realizado.

Nos países avançados, a queda dos valores dos ativos e, de modo mais geral, o medo do futuro abalou a confiança de consumidores e empresas. O consumo está caindo e as empresas estão cortando investimentos. A crise financeira criou uma acentuada queda na demanda – algo que os economistas denominam “recessão keynesiana”.

Para ajudar a revitalizar a confiança, não há alternativa a empregar ferramentas macroeconômicas para impulsionar a demanda e sustentar a produção. A política monetária pode ser usada em países onde os juros continuam elevados, mas sua eficácia em meio a um aperto de crédito provavelmente será limitada. A política fiscal precisa, portanto, desempenhar um papel central. Expansão fiscal é sempre arriscada, pois amplia o endividamento e aumenta os riscos futuros. Mas, tendo em vista a situação em que estamos, as vantagens extrapolam os custos em países onde há uma endividamento sustentável.

Países com mercados emergentes defrontam-se com um problema adicional. Não apenas precisam enfrentar as perspectivas de quedas nas exportações e na confiança, como também são as mais recentes vítimas de uma crise financeira que começou nos EUA, viajou para a Europa e agora cruzou suas fronteiras.

Bancos estrangeiros estão cortando crédito. Investidores estrangeiros estão repatriando seus recursos financeiros em escala inédita. Ironicamente, as medidas que estão sendo tomadas para solucionar a crise em países avançados estão tornando mais atraente trazer dinheiro de volta para casa, dificultando a vida dos países de mercados emergentes.

Para dar sustentação a seus sistemas financeiros e aquecer a demanda geral, os países de mercados emergentes precisam estar dispostos a tomar medidas similares às implementadas pelos países avançados. Mas a recente prosperidade de muitos desses países resultou de acesso ao capital mundial. Uma brusca interrupção nesse fluxos representa um severo impacto e cria problemas especiais que não podem ser solucionados por esses países sozinhos.

Por isso, os países avançados precisam mostrar-se dispostos a proporcionar o financiamento necessário, e a fazê-lo numa escala inédita. A alternativa é a perspectiva de inadimplência generalizada em face de suas dívidas externas, controles sobre o sistema bancário e protecionismo – uma conseqüência que constituiria um retrocesso nesses países e para a economia mundial como um todo por muitos anos à frente.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) dispõe de recursos financeiros para alocar até US$ 250 bilhões. Pusemos em ação os procedimentos internos e as linhas de socorro que nos permitirão proporcionar os recursos rapidamente, com condições limitadas à reação essencial para enfrentar a crise em curso. Além disso, o Fundo está desenvolvendo uma nova linha de liqüidez para disponibilizar recursos imediatamente a mercados emergentes de vigoroso desempenho que estejam praticando políticas sensatas e tenham bons fundamentos.

Isso deverá dar confiança aos investidores. Mas em vista da escala dos fluxos de capital, também estou exortando governos e bancos centrais de países avançados a proporcionar financiamento paralelamente ao disponibilizado pelos programas do FMI de reação à crise. Também estou convicto da necessidade de encontrar maneiras de colocar em ação os recursos de países que dispõem de grandes reservas. O Fundo desempenhará sua parte, mas todas essas ações são necessárias para reforçar a credibilidade da reação mundial coordenada à crise.

Precisamos também pensar à frente – especialmente em relação aos países de baixa renda na África. Devido a sua limitada participação nos mercados financeiros internacionais, esses países permaneceram até agora relativamente abrigados da turbulência. Mas é uma calma incerta que provavelmente não perdurará.

Muitos países de baixa renda sofrerão o impacto da queda dos preços das commodities. Outros, entre eles os que estavam tornando-se novos mercados emergentes, poderão ver secar seu acesso a capital estrangeiro. Também eles necessitarão ajuda da comunidade internacional. A concessão de empréstimos pelo FMI e por bancos de desenvolvimento mundial, e a manutenção de ajuda de doadores nos níveis atuais, serão essenciais para que evitemos novas tragédias humanas.

A dinâmica do medo é potencialmente catastrófica, mas essa dinâmica pode ser rompida. Quaisquer que sejam os problemas no sistema financeiro, as enormes melhorias, ao longo dos anos, em tecnologia, produtividade e progresso social – os verdadeiros fundamentos – são uma genuína prova do poder da globalização como uma força benigna. Pode ser tarde demais para evitar uma recessão nos países avançados e um desaquecimento da economia em países emergentes e de baixa renda. Mas não é tarde demais para evitar uma depressão mundial.

Dominique Strauss-Kahn é diretor-gerente do FMI. © Project Syndicate/Europe´s World, 2008. www.project-syndicate.org

05/11/2008 - 09:50h EUA: basta de opções econômicas falsas

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Protesto contra demissões em New York

Robert E. Rubin * e Jared Bernstein **, The New York Times – O Estado SP

Enquanto economistas e cientistas políticos tentam entender em que ponto estamos, como chegamos aqui e para onde vamos, nos vemos cercados por dicotomias: temeridade fiscal versus retidão fiscal; capital versus trabalho; livre comércio versus protecionismo. O novo presidente terá de fazer uma escolha entre essas polaridades. Mas essas diferenças são reais? A nossa visão – e partimos de perspectivas diferentes – é de que, sob muitos aspectos, elas são falsas e servem mais como distração e não como um plano.

RETIDÃO FISCAL VERSUS INVESTIMENTO PÚBLICO

A Bíblia já tratou dessa questão muito tempo atrás: há um tempo para gastar e um tempo para poupar. Concordamos que existe um tempo para a disciplina e outro para a liberalidade fiscal. No caso da atual crise financeira, nossa visão é a de que a nossa economia a curto prazo precisa de um enorme estímulo fiscal que possa criar uma demanda econômica substancial.

Acreditamos também que esse estímulo fiscal deve estar vinculado a um compromisso de se restabelecer condições fiscais sólidas, com um programa para vários anos, com espaço para o investimento público.

Nosso futuro econômico também exige investimentos públicos em áreas críticas, como educação, saúde, energia e muito mais. O novo presidente tem de avançar em múltiplas vias, com a restauração de um regime fiscal saudável e investimentos públicos cruciais.

Em primeiro lugar, com base no programa de US$ 700 bilhões aprovado para socorrer o sistema financeiro, o governo deve comprar ativos, seja na forma de uma participação patrimonial ou comprando dívidas de bancos. Em seguida, alguns investimentos públicos podem ajudar a fazer frente aos desafios fiscais. A maior causa de nossos projetados desequilíbrios fiscais está nos programas assistenciais para idosos e para os mais pobres, o que realça a importância de uma reforma dos programas de assistência à saúde que amplie a cobertura para mais americanos, diminuindo os custos.

As alíquotas de imposto de renda de pessoa física e outros impostos para aqueles que estão no topo poderiam retornar aos mesmos níveis da era Clinton. Tais alíquotas ajudaram a financiar a redução do déficit e colaboraram para o investimento público, contribuindo para a mais longa expansão econômica de nossa história.

CAPITAL VERSUS MÃO-DE-OBRA

Além de restaurar um regime fiscal sólido, precisamos trabalhar com outros países para chegar a taxas cambiais equilibradas e resolver nossos atuais desequilíbrios de conta corrente. Mas essa idéia de que não podemos ser responsáveis em matéria fiscal e ao mesmo tempo realizar investimentos públicos é um mito.

Nesse caso também, apesar do alegado conflito, nossos mercados de mão-de-obra e de capital, dinâmicos e flexíveis, se combinaram, gerando ganhos de produtividade impressionantes nos últimos anos. O problema é que tais ganhos não chegaram aos trabalhadores. Embora a produtividade tenha crescido cerca de 20% de 2000 a 2007, a renda real da classe média e trabalhadora diminuiu US$ 2 mil, uma queda de 2%.

Uma causa por trás desse resultado foi a redução drástica do poder de barganha dos trabalhadores e a queda no número de adesões aos sindicatos. Uma verdadeira economia de mercado precisa ter verdadeiros mercados de mão-de-obra, em que empresa e trabalhador negociem como pares.

Uma política pública sólida, como investimentos na educação, saúde, energia e infra-estrutura, financiada por uma taxação progressiva, também pode propiciar um crescimento vigoroso e uma confiança empresarial para investir e contratar. Além disso, políticas que levam a um crescimento forte também ajudam a elevar os salários, equipando melhor os trabalhadores para se saírem bem no mercado global e encorajando as empresas a criarem mais empregos.

LIVRES MERCADOS VERSUS REGULAMENTAÇÃO E PROTEÇÃO

Importantes lições podem ser tiradas dos transtornos verificados no nosso sistema financeiro. Precisamos ter como meta tornar cada vez mais eficaz o equilíbrio entre uma proteção do consumidor cada vez maior e um risco sistêmico cada vez menor de um lado e, de outro, preservar os benefícios de um sistema baseado no mercado.

As conseqüências da crise são profundas para os americanos, com a perda de empregos e queda da renda. Medidas para reformar e fortalecer o sistema financeiro precisam ser avaliadas nesse contexto: no final, elas vão se traduzir numa melhora no nível de emprego, renda e patrimônio dos trabalhadores americanos?

Quanto ao comércio, a escolha não está entre liberalização do comércio versus protecionismo. Pelo contrário, à medida que o comércio se expande, precisamos reconhecer que proteger os trabalhadores não significa protecionismo.

Precisamos preparar melhor as pessoas para que consigam competir e ajudar aquelas que foram prejudicadas. Ou seja, precisamos investir melhor os benefícios obtidos com o comércio, implementando redes de segurança mais eficientes.

Escolhas erradas, fundamentadas em ideologia, nos impediram de resolver eficazmente tais problemas. Nesta conjuntura tão crítica, não temos outra escolha, a não ser nos afastarmos dessas falsas dicotomias e partirmos na direção de um pragmatismo equilibrado, cujo objetivo é dividir amplamente a prosperidade e aumentar a segurança econômica.


* Robert E. Rubin, ex-secretário do Tesouro e diretor do Citigroup, e ** Jared Bernstein, economista do Instituto de Política Econômica

01/11/2008 - 11:02h Enfrentando o medo

Dominique Strauss-Kahn * – O Estado SP

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Mesmo com o início de um afrouxamento no aperto do crédito interbancário, com o resgate do sistema financeiro nos países desenvolvidos, a queda dos indicadores econômicos gerou uma tensão no mercado de ações. Ao mesmo tempo, as pressões sobre os países emergentes, que muitos chegaram a imaginar que estavam “descolados” do resto do mundo, se intensificaram com a cobrança de empréstimos externos e a liquidação de ativos. Com o medo segurando os consumidores, as companhias e os países por todo o mundo, o consenso sobre a crise mudou de uma recessão moderada nos países desenvolvidos para uma grande depressão mundial. E se instaurou um sentimento de desânimo de que nada pode ser feito para impedir.

Monitor da crise: de olho nos sintomas da turbulência

O que está acontecendo? As medidas tomadas há duas semanas para fortalecer o sistema estavam simplesmente erradas? Absolutamente não. A provisão de liquidez, a recapitalização dos bancos, a segurança mais uniforme nos depósitos bancários nos países desenvolvidos – todas essas medidas foram corretas. Mas elas são apenas o primeiro passo do que precisa ser feito.

Nos países desenvolvidos, a queda dos valores dos ativos e, mais genericamente, o medo do que virá no futuro, abalaram a confiança dos consumidores e das empresas. Os consumidores reduziram os seus gastos e as empresas estão cortando investimentos. A crise financeira criou uma forte queda na demanda, uma forte recessão Keynesiana. E para ajudar a renascer a confiança, não há alternativa que não seja a de usar ferramentas macroeconômicas para aumentar a demanda e sustentar a produção. A política monetária pode ser utilizada em países onde as taxas de juros continuam altas, mas os seus efeitos serão paliativos. E num mercado de pouco crédito, limitados. A política fiscal deve, portanto, desempenhar um papel central. Expansões fiscais são sempre arriscadas, já que aumentam a dívida e elevam os riscos mais tarde. Mas, dado as circunstâncias em que nos encontramos, os benefícios dessa expansão excedem os custos em países com dívidas sustentáveis.

Os países dos mercados emergentes enfrentam ainda outro problema. Eles não só têm de lidar com a perspectiva de queda nas exportações e na confiança, como ainda são as últimas vítimas de uma crise financeira que começou nos Estados Unidos, viajou para a Europa e vai agora atravessar impetuosamente suas fronteiras. Os bancos estrangeiros estão cortando o crédito. Os investidores estrangeiros estão levando seus recursos de volta para suas matrizes numa escala sem precedentes. Ironicamente, as medidas tomadas para solucionar a crise financeira nos países desenvolvidos fizeram com que se tornasse mais atrativo para as empresas trazer de volta os seus recursos, tornando assim a vida dos países emergentes mais difícil.

Os países emergentes precisam estar preparados para tomar uma atitude semelhante à dos países desenvolvidos e fortalecer o seu sistema financeiro e a apoiar a demanda. Mas como a prosperidade recente de muitos desses países emergentes veio do acesso ao capital global, uma parada brusca dos fluxos será um golpe duro. E trará desafios especiais que não podem ser resolvidos por cada país isoladamente. Os países desenvolvidos precisam estar preparados para prover o crédito necessário e fazê-lo em uma escala sem precedentes. A alternativa a isso é uma perspectiva de dívida generalizada, controles bancários e protecionismo – conseqüências que trarão um retrocesso para esses países e para a economia global como um todo nos próximos anos.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) tem recursos para se comprometer com até US$ 250 bilhões. Nós colocamos em prática procedimentos internos e facilidades que nos permitirão prover recursos rapidamente, condicionados a uma política de resposta rápida à crise. O Fundo está agora trabalhando em uma nova linha de crédito para prover recursos imediatos para os países emergentes de bom desempenho e fundamentos econômicos sólidos. Isso deve dar confiança aos investidores. Mas dada a escala dos fluxos de capitais, eu também defendo junto aos governos e bancos centrais dos países desenvolvidos que forneçam financiamentos paralelos para os nossos programas de resposta à crise. Estou ainda convencido da necessidade de se encontrar maneiras de trazer para a discussão os recursos de países com grandes reservas. O Fundo irá desempenhar o seu papel, mas todas essas ações são necessárias para reforçar a credibilidade da resposta coordenada e global para a crise.

Temos também que pensar adiante – especialmente nos países de baixa renda da África. Devido à sua limitada participação nos mercados financeiros internacionais, esses países têm estado até agora um tanto blindados da crise financeira. Mas é uma calma desconfortável e que não irá durar muito tempo. Muitos países de baixa renda irão sofrer com a queda no preço das commodities. Outros, incluindo àqueles que estavam se tornando a nova fronteira entre os mercados emergentes, deverão ver secar o acesso ao capital estrangeiro. Eles também irão precisar de ajuda da comunidade internacional. Novamente, empréstimos por meio do FMI e de bancos de desenvolvimento global serão essenciais se quisermos evitar novas tragédias humanas.

A dinâmica do medo é potencialmente catastrófica, mas essa dinâmica pode ser quebrada. Quaisquer que sejam as dificuldades no sistema financeiro, as sólidas melhorias feitas ao longo dos anos em tecnologia, produtividade e o progresso social – os verdadeiros fundamentos – são um testamento genuíno do poder da globalização como uma força do bem. Pode ser tarde demais para evitar uma recessão nos países desenvolvidos e uma desaceleração nos países emergentes e de baixa renda. Mas não é tarde demais para evitar uma depressão mundial.

*Dominique Strauss-Kahn é diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional

28/10/2008 - 10:00h OCDE pede mais ação contra crise prolongada

Assis Moreira, de Genebra – VALOR

Secretário-geral da OCDE, o mexicano José Ángel Gurría
acha que o tamanho e a duração da dramática crise financeira global
continuam incertos – foto AP


O secretário-geral da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), José Ángel Gurría, estima que o tamanho e a duração da dramática crise financeira global continuam incertos. Certeza mesmo ele tem de uma coisa: de que medidas governamentais são essenciais para evitar que a crise se prolongue. Ele vê as perspectivas econômicas especialmente sombrias no curto prazo. Economistas da OCDE projetam volta de crescimento global acima de 3% só em 2010.

Para o secretário-geral dessa espécie de clube dos países mais industrializados, se a crise persistir, a América Latina se tornará especialmente vulnerável, incluindo o Brasil, especialmente pelo lado das exportações.

Em entrevista ao Valor, Gurría faz um diagnóstico severo da crise financeira e recomenda aos atores do mercado voltarem a estudar finanças e gestão de riscos, e sugere criação de mecanismos para que ela não possa se repetir.

Ex-ministro de Finanças do México e secretário-geral da OCDE desde junho de 2006, Ángel Gurría lançará hoje o relatório Latin America Outlook 2009, numa cerimônia em El Salvador. O estudo enfatiza o papel de política fiscal também como uma ferramenta para o desenvolvimento da América Latina. Mostra que a desigualdade de rendimentos brutos não difere muito entre os países europeus da OCDE e os países da América Latina. Mas os impostos e transferências são eficientes na redução das desigualdades apenas nos países europeus da OCDE. Ou seja, o que é importante é o uso dos impostos.

Leia a seguir os principais trechos de sua entrevista:

Valor: Como a OCDE avalia essa crise? O sr. viu em certo momento o colapso da economia mundial?

Angel Gurría: Essa crise financeira que está varrendo os mercados mundiais é sem dúvida a pior desde a Grande Depressão. Ao mesmo tempo em que tem impacto direto sobre a economia real, estão sendo aprendidas duras lições. O tamanho e a duração da crise continuam incertos, mas o custo é imenso, em perdas com subprimes, desvalorização de ações, pacotes de socorro e outros. Vimos antes ciclos de prosperidade e de quedas, mas agora estamos vivendo circunstâncias excepcionais. Desta vez, o sistema financeiro, motor que irriga o funcionamento da economia, foi bloqueado. A crise colocou sérias dúvidas na cabeça das pessoas sobre a confiabilidade dos bancos e dos serviços financeiros, e sobre a própria credibilidade do sistema de mercado.

Valor: Para a OCDE, qual o impacto da crise na economia real?

Gurría: As perspectivas no curto prazo são sombrias, pretas, achamos que haverá uma acumulação de desacelerações econômicas. Nossas projeções apontam para uma estagnação na atividade até o final deste ano, com crescimento negativo em alguns casos. Nos EUA, o desemprego cresce rapidamente, as pessoas cortam o consumo. Na zona euro, também as projeções são de declínio, com queda forte nas autorizações para construção, e aperto do crédito afetando os investimentos. No Japão, o consumo fraco – aliado à falta de confiança – também é inquietante. As economias emergentes também deverão sofrer desaceleração econômica, ainda mais com a redução da demanda no comércio internacional.

Valor: O que os governos precisam fazer mais para restaurar uma certa confiança?

Gurría: Há uma ampla concordância de que os mercados precisam de monitoramento e regulação efetivas, e de governança corporativa mais forte. É verdade que pode ter havido ignorância sobre o montante das dívidas nos balanços e da exposição dos bancos, mas claramente a estrutura regulatória foi incapaz de tratar de questões como securitização baseada em hipotecas, derivativos, CDS (credit-default swaps). Agora, precisamos assegurar que os pacotes de socorro funcionem, que o crédito seja retomado e os sistemas de pagamentos sejam garantidos. Para isso, os mercados precisam recobrar um mínimo de normalidade, evitando-se excessiva volatilidade.

De maneira geral, uma cultura mais holística de gestão de riscos, questões de compensação e responsabilidade, gestão ética e responsável devem ser criados, baseados em melhores estruturas regulatórias e implementação mais forte de padrões que já existem, como os Princípios da OCDE de Governança Corporativa. Também é preciso melhorar a educação financeira e a consciência de risco entre os usuários do mercado financeiro. Outras medidas devem ser reforçadas, não apenas em relação aos bancos, mas no setor imobiliário, por exemplo, de forma que famílias de baixa renda não sejam expostos injustamente a riscos hipotecários.

Valor: Qual será o custo dessa crise para as populações?

Gurría: O que realmente conta é o bem-estar das pessoas, suas casas, empregos e negócios. O objetivo mais importante para nossas ações é evitar uma longa desaceleração econômica global, é restaurar as condições para o crescimento e assegurar que a crise não possa se repetir. Ainda não está clara em qual extensão a intervenção governamental afetará orçamentos deficitários e a demanda agregada, mas está claro que será necessária uma gestão fiscal séria, que mais gastos de um lado precisam ser compensados com economias em outro lugar para não se cair na armadilha de riscos descontrolados. Também continua incerto o grau pelo qual uma inflação menor permitirá uma política monetária mais acomodativa.

Medidas governamentais são essenciais para restaurar o crescimento econômico. Devemos examinar o que nos permitirá uma nova era de maior produtividade e crescimento. E, fazendo isso, é preciso tratar também de questões como concorrência, educação e reformas. Medidas sociais precisarão ser reforçadas para atacar a alta prevista de desemprego. E não devemos negligenciar outros desafios, como mudança climática.

Valor: Como a OCDE vê as perspectivas e desafios para o Brasil?

Gurría: O desempenho econömico recente do Brasil tem sido forte. O principal fator do crescimento nos últimos anos foi a demanda doméstica. Investimentos têm sido elevados, o que é bom para aumentar o potencial de crescimento de longo prazo. O desemprego tem sido baixo.

Mas a economia brasileira não está imune da situação global. Tem o aperto considerável nas condições de crédito externos, afetando liquidez nos mercados domésticos. O real desvalorizou fortemente desde meados de setembro devido a diminuição rápida do apetite por risco. Isso apesar do fato de os bancos brasileiros estarem em geral bem capitalizados e com pouca dependência de financiamento externo.

O efeito sobre o comércio é importante, mas é menor que o efeito do canal financeiro por dois motivos: o Brasil é uma economia bastante fechada, apesar da abertura dos últimos tempos, e de outro lado tem avançado com êxito na diversificação geográfica de suas exportações. Apesar disso, uma queda generalizada dos termos de intercâmbio prejudicaria vários setores.

A demanda por exportações brasileiras pode enfraquecer. A queda nos preços de commodities pode ajudar a aliviar pressões inflacionárias, mas podem também um impacto negativo no valor das exportações.

Valor: Até que ponto a OCDE vê a América Latina afetada?

Gurría: Como se pode ver na história econômica, quando os Estados Unidos espirram, a América Latina pega uma gripe. O crescimento na região é altamente correlacionado com os influxos de capital privado e, portanto, com as condições financeiras externas. Os títulos emitidos por países da região tendem a flutuar junto aos títulos de “alto rendimento” dos Estados Unidos, títulos de empresas americanas de maior risco que o governo e que algumas empresas gigantes. Quando essas firmas dos EUA sofrem falta de crédito, o mesmo acontece para a América Latina.

Tradicionalmente, as recessões nos EUA impactam fortemente a América Latina, mais quando os EUA desaceleram só um pouco, e sem entrar em recessão, a América Latina pode não sentir efeito negativo nenhum.

Hoje a crise é financeira, e os governos da região devem estar preocupados. Mas a região tem vários suportes recentes que puseram a maioria dos países, incluindo o Brasil, sobre um fundamento melhor para suportar a crise.

A forte reestruturação da dívida pública e da dívida externa faz possível que o governo e a indústria possam suportar a seca de crédito e a possível perda no preço das importações. Mas este suporte tem limite, e só será possível se a crise não se estender por muito tempo.

Há portanto fatores a favor: maior credibilidade dos bancos centrais para conter pressões inflacionárias, taxa de câmbio flexíveis, reservas estrangeiras (só como sinal de responsabilidade fiscal), diversificação do destino das exportações.

Mas a região é ainda vulnerável, em especial se a crise continuar por longo tempo, porque a dívida é ainda elevada na região, os preços relativos das importações/exportações poderiam se deteriorar, e nem todos os setores tem a liquidez do setor exportador. E a saúde do setor bancário continua sendo mais importante para o crédito doméstico que as subidas e quedas da bolsa.

Valor: O que os governos da América Latina deveriam evitar?

Gurría: Não devem cair na tentação do protecionismo. Num mundo mais globalizado, não tem lugar a volta das economias autárquicas. O jeito de se desenvolver e sabendo como navegar em águas tormentosas é não ficando em terra.

Valor: A OCDE lança hoje o Latin American Economic Outlook 2009. Quais as principais conclusões?

Gurría: Basicamente que a política fiscal é não apenas um instrumento macroeconômico, mas é também uma ferramenta para o desenvolvimento da América Latina. Uma boa política fiscal, bons gastos públicos e uma boa gestão da dívida podem melhorar o crescimento e ajudar a combater a pobreza e a desigualdade.

Um aspecto interessante é que a desigualdade de rendimentos brutos não difere muito entre os países europeus da OCDE e os países da América Latina. Mas os impostos e transferências são eficientes na redução das desigualdades apenas nos países europeus da OCDE. O que é importante é o uso dos impostos. Sobretudo as contribuições sociais são muito regressivas (na região). Existem também duas questões principais por resolver a respeito dos impostos: as receitas fiscais são baixas e a importância dos impostos indiretos nas receitas fiscais é elevada.

Valor: O sr espera para quando a entrada do Brasil na OCDE ?

Gurría: Os governos da OCDE decidiram em maio de 2007 reforçar a cooperação da entidade com o Brasil, China, Indonésia e África do Sul em vista de uma possível entrada. Isso é particularmente importante para a OCDE cumprir seu mandato de promover políticas convergentes e desenvolvimento econômico global. Ao mesmo tempo, não há uma data-alvo para a adesão do Brasil. Se e quando for aberta a discussão, será determinada com base na disposição, preparação e capacidade do Brasil e dos outros quatro países para adotar práticas, políticas e padrões da OCDE.

Quando esse momento chegar, o Brasil decidirá se estará interessado em lançar um processo de acessão. Há todos os sinais da importância que o Brasil dá ao desenvolvimento de seu engajamento com a OCDE.

Valor: O que é preciso para o país se tornar membro?

Gurría: O conselho (da organização) determina o procedimento a ser seguido e aciona os comitês especializados em áreas relevantes de política econômica para examinar as políticas e regulamentações do país para assegurar que este está pronto a assumir as responsabilidades como membro. O país candidato deve declarar sua posição em relação aos “instrumentos legais” da OCDE, que são as decisões, recomendações e declaracões adotadas. Ou seja, é preciso mostrar tanto a vontade como capacidade de adotar os principais princípios da organização e as obrigações legais e políticas que resultam disso.

Esses “instrumentos” são mais de 160 no total, agrupados por setores, e a posição do país em cada setor é examinado por um comitê. Os países podem fazer reservas sobre “instrumentos” ou parte deles, os quais são incapazes ou relutam aplicar. Essas reservas sao submetidas a um comitê que as discutem até que um consenso sobre sua aplicação seja obtido. Isso pode consumir um bom tempo.

A OCDE tem estado na vanguarda para desenvolvimento internacional de “regras do jogo” sobre movimento de capital, investimento externo e comércio em serviços. Nesse contexto, o Brasil assinou em 1997 a Declaracão e Decisões sobre Investimento Internacional e Empresas Multinacionais, um acordo politico entre os países para cooperação em questões de investimentos. Também se associou à Recomendação do Conselho Envolvendo Ações Efetivas contra Cartéis, Convenção de Combate ao Suborno.

21/10/2008 - 07:52h Clareza e alguma ousadia

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Antonio Delfim Netto – VALOR

As condições básicas que devem guiar nossa política social e econômica são as seguintes: 1) daqui a uma geração, em 2030, seremos 240 milhões de habitantes, com 160 milhões entre 15 e 65 anos, aos quais teremos de garantir empregos decentes; e 2) nossa expectativa de vida ao nascer deverá ser muito parecida com 79/80 anos, o que aumentará o número de pessoas com idade maior do que 65 anos, às quais teremos de dar uma aposentadoria decente.

É por isso que não podemos matar, apenas por pânico do que ocorre na economia mundial, o “espírito de crescimento” que recuperamos recentemente. É meridianamente claro que tais objetivos não poderão ser atingidos com um crescimento médio do PIB menor do que 5% ao ano, perfeitamente possível quando se examina a nossa história e a quantidade e qualidade de nossos recursos naturais e humanos.

Entre os países emergentes, em particular os outros três Brics (Rússia, Índia e China), é verdade que temos crescido menos. Mas não é menos verdade que somos o único que acertou suas contas com o passado e vive num regime politicamente aberto. Não temos nenhum problema de fronteira com nossos vizinhos (e são dez!). Não temos nenhum encrave étnico, religioso ou lingüístico, enquanto cada um deles tem pelo menos meia dúzia de cada categoria. Desde 1988 temos uma Constituição que, com pequenas generosidades e maiores virtudes, está impondo o respeito às instituições e o pleno funcionamento dos três Poderes (Judiciário, Legislativo e Executivo). Ela garante um sistema democrático pluripartidário, com eleição regular do poder incumbente através do amplo, seguro e eficiente uso do sufrágio universal.

Em que outro daqueles países, por exemplo, o Supremo Tribunal Federal teria o poder de controlar a tentativa policialesca de construir o “Panopticon”, a máquina de controle universal dos cidadãos? São esses fatos que colocam à nossa disposição a possibilidade de crescer economicamente nos próximos 25 anos, tanto ou mais que qualquer um deles. Não podemos desperdiça-la.

O que pode nos impedir de fazê-lo? Toda a história econômica dos últimos cem anos mostra que só dois fatores podem abortar nosso crescimento: 1) uma crise de energia ou 2) uma crise de financiamento dos déficits em conta corrente. Mas ela mostra, também, que eles sempre resultaram do descuido dos governos e da miopia das políticas públicas, quando esquecem de vê-las uma geração à frente.

Pois bem. Com um primeiro “bônus” que colhemos da expansão mundial, estimulada por uma política monetária permissiva nos países desenvolvidos e o estímulo da exagerada desregulação financeira, nossa situação externa passou da penúria à de relativa folga (em 2002 estávamos “quebrados” e fomos ao FMI e hoje temos US$ 200 bilhões de reserva). Isso garante que, na ausência do “fim do mundo”, poderemos continuar nos próximos dois anos a importar livremente sem problemas de financiamento do déficit em conta corrente. A importação é um fator de produção imprescindível (exatamente como o trabalho e o capital) para a produção competitiva. Em outras palavras, nos próximos dois ou três anos o financiamento do déficit em conta corrente não abortará o crescimento.

E a energia? Tão pouco! Primeiro, porque o governo está mais cuidadoso. Estamos acelerando a solução do gás, construindo hidrelétricas, continuamos a insistir no etanol e no biodiesel e estamos atingindo a auto-suficiência na produção de petróleo. Segundo, porque outro “bônus” que recebemos da natureza (o pré-sal), deve garantir em quatro ou cinco anos, se usado com inteligência e competência, a nossa libertação simultânea (pelo menos por uma geração) dos dois fatores abortivos do crescimento.

No essencial, portanto, o Brasil está preparado para um crescimento médio da ordem de 5% (ou um pouco mais) pelos próximos 25 anos sem graves problemas sociais, políticos ou econômicos. É claro que há muita coisa a fazer e que podemos fazê-las erradas! É importante reconhecer o papel fundamental do Estado-indutor, mas é ainda mais importante impor-lhe eficiência. A relação custo/benefício dos serviços prestados pelo Estado brasileiro é, provavelmente, uma das mais altas do mundo e dificulta nosso crescimento. É preciso, portanto, melhorá-la.

O setor privado respondeu ao longo dos últimos 15 anos com substancial aumento da sua produtividade. Até agora, estimulado pelo alto nível de utilização do capital, ele está investindo fortemente. Qual será a sua resposta se incorporar uma expectativa pessimista com relação à demanda global e à oferta de crédito criadas pelo pânico externo? Consumidores e empresas tentarão aumentar sua liquidez, postergando o consumo e forçando a liquidação dos estoques. A contrapartida de uma redução da produção será, entretanto, um aumento do custo unitário dos salários por unidade de produto (pressão sobre os preços) e uma redução dos lucros que financiam os investimentos.

É preciso, portanto, que o Banco Central, que até aqui tem agido tempestiva e acertadamente para enfrentar os problemas de liquidez interna, introjete esses fatos na sua expectativa de inflação e modere seu apetite de elevação da taxa de juros. Por outro lado, deve aumentar sua vigilância para não permitir que nosso sistema bancário, apenas por “mania de grandeza imitativa”, reduza o crédito interno acima da precaução razoável.

Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento. Escreve às terças-feiras

E-mail: contatodelfimnetto@terra.com.br

28/09/2008 - 12:59h Desvantagem do Brasil pode virar vantagem na crise


Por ter crescido menos que outros Brics e ser mais fechado, país deve ganhar com agravamento da situação externa

Sistema financeiro do país é mais sólido que o de China, Rússia e Índia; perigo maior está numa queda brusca no preço das commodities

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ÉRICA FRAGA ESPECIAL PARA A FOLHA

O agravamento da crise financeira global nas últimas semanas enterrou de vez a tese de que as chamadas economias emergentes, como a brasileira, poderiam ter se descolado (”decoupled”, em inglês) daquelas dos países desenvolvidos e, com isso, estariam quase imunes ao furacão que se aproximava. Mas é fato que a maioria dos emergentes está menos vulnerável hoje do que há uma década. E o Brasil, que nos últimos anos de bonança sempre foi considerado o patinho feio dos Brics (expressão cunhada pelo Goldman Sachs em 2003 em referência às grandes economias “do futuro”: Brasil, Rússia, Índia e China), pode ter uma história melhor para contar nestes tempos difíceis.

O fato de que a economia brasileira ainda é bastante fechada contribuiu para que o país crescesse de forma bem menos exuberante do que Rússia, Índia e China em anos recentes.

Mas agora o que era desvantagem virou seguro: o país pode acabar suportando melhor os efeitos negativos da crise do que os “Rics”, desde que não haja um colapso nos preços das commodities.

Embora os problemas que levaram à crise atual tenham sido gerados no mundo desenvolvido, vão continuar afetando os emergentes por dois canais: o da economia real e o dos mercados financeiros. O principal dado que já depunha contra a tese do descolamento se refere ao peso que os países desenvolvidos ainda têm na demanda global. Juntos, Estados Unidos e Europa Ocidental representam mais da metade (52%) do consumo privado mundial.

É verdade que as fatias representadas por China, Brasil, Índia, Rússia e outros vêm aumentando. Mas não o suficiente para evitar que uma brutal desaceleração da demanda por bens e serviços por parte dos países desenvolvidos fosse pouco sentida no mundo emergente. E esse impacto negativo tende a ser ainda maior porque o peso das exportações no PIB dos países emergentes aumentou sem parar nas últimas décadas: passando de 26% em 1990 para quase 44% em 2007.

Ou seja, o crescimento nos países emergentes se tornou muito dependente da performance de suas exportações. E, agora, os mercados que costumavam absorver boa parte dessas exportações caminham para a recessão: vão consumir menos, importar menos, quem vendia para eles vai crescer menos.

O Brasil obviamente não está imune, descolado, dessa tendência, mas é menos vulnerável que a maioria dos seus pares à forte desaceleração da demanda privada dos países ricos. Isso porque enquanto as exportações têm um peso de mais de 40% no PIB da média dos emergentes (41% na China, 31% na Rússia, 21% na Índia), no Brasil representam apenas 14%. Embora esse percentual seja bem maior que os cerca de 7% registrados em 1995-98, ainda caracteriza uma economia bastante fechada, menos vulnerável a choques como o que vem pela frente, principalmente se a desaceleração econômica no mundo desenvolvido for ainda pior do que se espera hoje. Um risco que, dada a forte turbulência nos mercados globais nas últimas semanas, não é nada desprezível.

Isso não quer dizer que o Brasil deva se orgulhar de ter uma economia ainda bastante fechada (na qual o peso de exportações e importações no PIB é relativamente baixo).

Graus maiores de abertura tendem a vir acompanhados de maior concorrência e ganhos de produtividade que beneficiam os consumidores e tornam a economia mais eficiente.

O fato de que o Brasil parece seguir rumo a uma maior abertura da economia é positivo, ainda que, neste momento, a menor importância relativa das exportações para o crescimento econômico ajude a amortecer os efeitos negativos da crise externa.

Mas há outros indicadores que podem fazer o Brasil menos vulnerável aos desdobramentos da crise atual, esses, sim, positivos “per se”. De forma geral, os indicadores que medem a solidez do sistema financeiro brasileiro-o outro canal pelo qual a turbulência externa continuará se propagando- são melhores que os dos outros três Brics. Os bancos brasileiros possuem altos níveis de solvência e liquidez e o regime de supervisão do setor é eficiente.

Diferentemente da China, o risco de grandes colapsos no sistema financeiro brasileiro é relativamente pequeno. Ao contrário do que ocorre em China e Índia, não existem bolhas significativas nos preços de ativos (como casas) no Brasil. O nível de inadimplência em empréstimos bancários na China (próximo de 6%) é pouco menos do que o dobro da média registrada no Brasil e quase certamente é subestimado.

Além disso, inflação no Brasil preocupa, mas bem menos que na Rússia e na Índia. Na verdade, talvez o risco maior para o Brasil nessa área seja que um excesso de cautela por parte do Banco Central leve a uma desaceleração excessiva da demanda doméstica. O perigo de desvalorização muito forte do real é bem menor que o da moeda russa (o rublo), que está bastante sobrevalorizada. As empresas russas contraíram crédito em moeda estrangeira de forma excessiva nos últimos anos. O estoque de dívida privada externa na Rússia pulou de US$ 64 bilhões em 2004 para quase US$ 300 bilhões neste ano, o que representa um risco grande de possível dificuldade de rolagem neste momento de forte retração do crédito.

Risco

Tudo isso quer dizer que o Brasil está blindado contra a crise? Certamente, não. Se os preços de commodities, por exemplo, desabarem, o país será um dos mais negativamente afetados, dado o alto peso das mesmas (por volta de 50%) na pauta de exportação brasileira.

Mas esse risco ainda parece ser relativamente pequeno. Fatores estruturais que sustentam os preços nos altos níveis atuais (como muito mais gente consumindo mais comida na Ásia) dificilmente desaparecerão.

Tampouco os dados que fazem com que o Brasil esteja menos sensível que outros emergentes a riscos associados à crise atual querem dizer que o potencial de crescimento de longo prazo do país seja melhor que os dos demais. Isso vai depender de muitos outros fatores, como progresso na área de educação e reformas estruturais. Mas os dados, sim, chamam atenção para o fato de que o Brasil não é mais (talvez nunca tenha sido) o pior dos Brics.

ÉRICA FRAGA é editora de América Latina da consultoria britânica Economist Intelligence Unit (ericafraga@economist.com)

17/09/2008 - 12:29h Velhos problemas, novas oportunidades

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Tudo indica que, a despeito da piora percebida no cenário internacional, a meta de atingir uma taxa de investimento anual de 21% do PIB estabelecida pelo governo para 2010 vai ser atingida ou mesmo ultrapassada

David Kupfer – VALOR

Com esse título, a Cepal, Comissão Econômica para a América Latina, realizou em junho último a sua 32ª Conferência, visando definir as linhas mestras de ação para o fomento do desenvolvimento latino-americano a serem perseguidas nos próximos anos (documento disponível em www.cepal.org). Duas décadas após a eleição do lema “Transformação produtiva com equidade”, que em si mesmo revelava uma certa dose de pessimismo diante da capacidade de resposta insuficiente que se antevia para as economias da região, a revisão contida no novo documento buscou registrar diagnósticos e propostas voltadas para reconectar os diversos países às perspectivas de crescimento mais acelerado trazidas pelo novo padrão de expansão da economia global, no qual é maior o papel reservado aos países emergentes. Dentre os países do subcontinente latino-americano, o Brasil foi o que conseguiu ir mais longe no projeto original de industrialização, o que enfrentou o mais prolongado período de estagnação e é, agora, o que reúne as melhores condições para o salto em direção a um novo estágio de desenvolvimento. Há, de fato, um importante conjunto de oportunidades que estão se abrindo, mas que não deixam de embutir os velhos problemas dos quais o país não conseguiu ainda se desvencilhar em seu esforço para escapar das mazelas do baixo crescimento.

É exatamente quando o cenário internacional começa a atravessar uma zona de crescente turbulência que essas questões ganham relevância. Enquanto muitos analistas afirmam que a deterioração da situação financeira internacional já atingiu proporções que a tornam o pior episódio de crise desde a Grande Depressão de 1929, o Brasil vê-se diante do mais forte ciclo de investimentos desde os idos dos anos 1970. Como previsível, essa mesma dicotomia entre o velho e o novo dominou o 5º Fórum de Economia da Escola de Economia da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo, realizado no início dessa semana. Na mesa que buscou discutir as relações entre investimento e mercado interno, ficou claro que, no que respeita as probabilidades de sustentação das atuais taxas de crescimento por um horizonte temporal mais duradouro, existe espaço tanto para otimistas quanto para pessimistas, e também para ressabiados. Os otimistas nutrem-se das oportunidades abertas pelas novas frentes de expansão da economia relacionados ao deslanche das obras de infra-estrutura, de energia, incluindo a grande estrela que é a exploração do petróleo no pré-sal, e ainda de setores de commodities, que finalmente entraram em rota de ampliação da capacidade produtiva. Os pessimistas alimentam-se do temor do ressurgimento dos velhos problemas, dentre os quais a sensação de que os grandes déficits da conta-corrente poderão voltar muito antes do que se esperava e, em um quadro de maior restrição de liquidez internacional que se anuncia, devolver o país aos tempos de vulnerabilidade externa, da qual parecia ter recém se libertado.

No debate macroeconômico, faz todo sentido tentar avançar na modelagem teórica das relações de causalidade que entrelaçam crescimento econômico ao investimento, e esse último à poupança. A conclusão provável deve ser, porém, pela ausência de qualquer relação fixa unindo esses pares de variáveis. O problema é que os efeitos de um dado nível de investimento não podem ser totalmente determinados sem o conhecimento da produtividade do capital, isto é, qual a quantidade de produto que uma unidade de capital permite obter esse valor, que tecnicamente é chamado de relação capital-produto, é um parâmetro estritamente empírico, de difícil estimativa, pois depende da tecnologia, das instituições e, ainda, dos mistérios da capacidade organizacional humana. Para o Brasil não são disponíveis dados sobre essas relações capital-produto setoriais que, sabe-se, são hoje muito diferentes das que vigoravam no passado devido à profunda reestruturação ocorrida nos métodos de produção praticados no país. A título de exemplo, uma fábrica projetada para realizar simplesmente a montagem de componentes importados terá um nível de investimento muito menor do que outra com a mesma capacidade produtiva, mas com maior densidade de operações industriais, isto é, mais integrada do ponto de vista dos insumos e processos produtivos realizados. Posteriormente, quando entrar em operação, também irá gerar menos emprego e renda. Quanto a investimento e poupança, é lógico que, olhados a posteriori, ambos evoluem em sincronia, como os dois lados de uma mesma moeda, simplesmente porque fazem parte de uma identidade contábil. Há porém fortes evidências a sugerir que a poupança cresce quando o investimento cresce, definindo uma relação de precedência para a decisão de investimento, o que não quer dizer, porém, que o problema do financiamento macroeconômico do investimento não exista e não deva atrair a devida atenção dos formuladores da política.

Tudo indica que, a despeito da piora percebida no cenário internacional, a meta de atingir uma taxa de investimento anual de 21% do PIB estabelecida pelo governo para 2010 vai ser atingida ou mesmo ultrapassada, a confirmar-se para o segundo semestre a expansão de 16% da formação bruta de capital já ocorrida nesse primeiro semestre de 2008 – uma velocidade quase o triplo da do crescimento do PIB. As causas desse fato estão associados aos efeitos aceleracionistas do ciclo de crédito no mercado de bens e habitações, à dinamização da demanda no mercado interno provocada pelo processo de redistribuição de renda em curso, aos efeitos do cenário benigno no mercado internacional de nossos principais produtos de exportação que vigorou no passado recente e, finalmente, à retomada dos investimentos em infra-estrutura energética e de transportes que, de tão atrasados, não podiam mais esperar.

Em conjunto, esses blocos de investimento conseguiram fazer funcionar o motor de arranque da economia brasileira, ultrapassando uma barreira que vinha se mostrando quase irredutível. Daí a serem indutores de um processo de crescimento sustentado, dependerá da capacidade do governo modificar o atual mix da política macroeconômica, que é direcionado para objetivos puros de estabilização para começar a construir uma macroeconomia do crescimento no país. Na prática, após décadas de políticas curto-prazistas, será necessário reaprender a fazer políticas eficazes de financiamento do desenvolvimento. São as dificuldades envolvidas nessa passagem que deixam alguns nem otimistas nem pessimistas, mas bastante ressabiados.

11/09/2008 - 09:28h Demanda interna no país já cresce em ritmo chinês

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Investimento e consumo dão ritmo chinês ao PIB

Ana Paula Grabois – VALOR

Apoiada nos investimentos recordes das empresas e do governo em máquinas, equipamentos e construção, a economia brasileira cresceu acima das estimativas no segundo trimestre e fechou o semestre em alta de 6%. Na comparação com o segundo trimestre de 2007, a taxa chegou a 6,1%. Em relação ao primeiro trimestre, o PIB apresentou expansão de 1,6%. “O PIB vem crescendo ao ritmo de 6% há um ano”, disse a gerente das Contas Trimestrais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Rebeca Palis. Ela ressalta que o efeito do novo ciclo de alta dos juros iniciado em abril pelo Banco Central não foi sentido no segundo trimestre.

Sem considerar o efeito negativo do setor externo (importações e exportações de bens e serviços) sobre o PIB, de 2,5 pontos percentuais, o ritmo da expansão doméstica é comparável ao chinês. Segundo cálculos do economista-chefe da LCA Consultores, Bráulio Borges, a demanda interna cresceu 8,5% no primeiro semestre. “É o investimento que está segurando o crescimento do PIB. Sem investimento, o PIB estaria em 4% ao ano”, disse Borges.

Os investimentos registraram alta de 16,2% no segundo trimestre, a 18ª alta consecutiva na comparação com igual período do ano anterior e recorde da série histórica do IBGE, iniciada em 1996. A taxa de investimento sobre o PIB, de 18,7%, foi a maior já registrada para um segundo trimestre desde 2000, quando foi iniciada a série do indicador. No semestre, o nível da alta do investimento também foi recorde e chegou a 15,7%. Segundo cálculos da LCA, em termos dessazonalizados, a taxa de investimento ficou em 19%, a maior desde o primeiro trimestre de 1998 na comparação com todos os trimestres do período analisado.

Dentro dos investimentos, o destaque foram os gastos na construção civil, cuja alta de 9,9% foi favorecida pelas obras públicas e pela alta de 26,7% no crédito habitacional. Para a gerente do IBGE, o período eleitoral contribuiu para esse resultado. “Em anos eleitorais, historicamente, há mais obras públicas”, afirmou.

Os investimentos subiram também sob efeito da expansão de 41,3% do crédito para empresas e do fim da greve na Receita Federal no segundo trimestre. Muitos equipamentos e máquinas importadas que chegaram no início do ano só foram registrados no trimestre seguinte. A greve também foi responsável pela reversão da queda de 2,1% das exportações de bens e serviços apurada no primeiro trimestre. No segundo trimestre, as exportações cresceram 5,1%.

“As empresas estão investindo para atender à demanda interna, que cresce há vários trimestres. O câmbio também ajuda a importar bens de capital e ainda houve aumento das empresas no mercado de capitais, onde elas conseguiram mais recursos para investir”, destacou Giovanna Rocca, economista do Unibanco .

Ela ressalta que o bom resultado dos investimentos aponta para o aumento do PIB potencial, uma vez que o crescimento do consumo das famílias está em desaceleração, ainda que em patamar elevado, indicando que o país pode ter mais oferta disponível para atender à demanda de consumo da população.

Bráulio Borges, da LCA, lembra que, apesar do forte ritmo de investimento registrado desde o fim de 2006, o nível de utilização da capacidade instalada não cede porque a maior parte dos investimentos tem sido dirigida a ampliações de capacidade, o que exige maior prazo de maturação em comparação a investimentos de modernização. Além disso, as diversas obras em andamento do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), do governo federal são da área de infra-estrutura, cujos prazos também são mais longos. “Temos um cenário apertado por demanda, mas olhando para frente, o horizonte é favorável. Nunca se investiu tanto em ampliação”, diz.

Outro destaque do PIB foi o gasto elevado da administração pública no período devido às eleições municipais. Como a lei eleitoral proíbe gastos e contratações três meses antes das eleições, o IBGE apurou a antecipação desses gastos, especialmente nas contratações feitas por Estados e municípios. O consumo do governo cresceu 5,3% no segundo trimestre, com alta de 5,6% no semestre. Segundo a LCA, os governos (municípios, Estados e União) responderam por 1,1 ponto percentual dos 6% de alta do PIB no primeiro semestre, o que reflete o próprio crescimento econômico do país. “O governo está arrecadando mais e está fazendo mais superávit primário”, diz Borges.

O consumo das famílias, com peso de cerca de 60% do PIB, continuou em patamar elevado, mas desacelerou ligeiramente e passou de 6,9% para 6,7% do primeiro para o segundo trimestre na comparação com igual período do ano anterior. “A evolução do consumo das famílias continuou em patamar alto, mas não assusta mais como a alta de 8,6% registrada no quarto trimestre de 2007″, disse Bráulio Borges.

Para o IBGE, a expansão do consumo foi motivada principalmente pelo aumento da massa salarial. No segundo trimestre, a massa salarial dos brasileiros teve alta de 8,1%. Além disso, o crédito farto e os prazos longos de pagamento dos empréstimos contribuíram para a expansão. Houve crescimento de 32,9% no saldo de operações de crédito com recursos livres para pessoas físicas. Na avaliação do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial, os dados mostram que o consumo “conserva uma evolução que, sem ser explosiva, é alimentadora das decisões de investimento dos empresários”.

Giovanna lembra que o ritmo de crescimento visto ao longo de 2007 já perdeu força em 2008. A taxa de crescimento do consumo das famílias em termos dessazonalizados ficou em 2,1% no segundo semestre de 2007 e desacelerou para 0,7% até junho de 2008.

Pela ótica da produção, o PIB teve como destaque a agropecuária, cuja expansão foi de 4,8% em relação ao segundo trimestre de 2007 em razão das boas safras de café e milho e ainda a ganhos de produtividade que passaram a ser contabilizados pelo IBGE a partir de 2008. A indústria também ficou em patamar elevado, de 5,7%, puxada pela construção civil. (Com Folhapress)

11/09/2008 - 09:24h Investimento puxa alta de 6,1% no PIB

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PIB supera expectativa e cresce 6,1%

Fernando Dantas – O Estado de São Paulo

A força da economia brasileira surpreendeu no segundo trimestre e o resultado do Produto Interno Bruto (PIB) veio no topo da expectativa dos analistas, e bem acima da maioria dos prognósticos. O PIB cresceu 6,1% em relação ao mesmo período de 2007 e 1,6% – ou 6,6% em termos anualizados – ante o trimestre anterior, na série expurgada de variações sazonais (dessazonalizada).

Em quatro trimestres, ou no ano terminado em junho, o avanço foi de 6%, idêntico à expansão no primeiro semestre de 2008. Foi o maior crescimento registrado pelo PIB em 12 meses desde o início da série, em 1996, e a maior expansão no primeiro semestre desde 2004.

O desempenho do PIB no segundo trimestre foi puxado pelo setor agropecuário e pelos investimentos, que cresceram 16,2% na comparação com o mesmo trimestre de 2007 – foi o 18º aumento trimestral consecutivo. Nos 12 meses até junho, os investimentos registraram expansão de 15,5%. Em ambos os casos, também são as maiores altas desde 1996.

“É um período bastante grande de crescimentos elevados, só equivalente a 2004”, disse Roberto Olinto, coordenador de Contas Nacionais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O PIB trimestral foi divulgado ontem, no Rio.

Outro fator positivo para o PIB, destacado pelo IBGE,foi o impulso dado pelas contratações e pelas obras do setor público em ano eleitoral (concentradas no primeiro semestre, por causa das restrições no segundo).

A agropecuária cresceu 3,8% de abril a junho, ante o trimestre anterior, na série dessazonalizada. Na comparação com o mesmo trimestre de 2007, o crescimento foi de 7,1%. Em ambas as medidas, foi o setor que mais cresceu. A agropecuária foi puxada pelo café em grão e pelo trigo, que têm safra no segundo trimestre, e com estimativa de crescimento de respectivamente 27,7% e de 12,8% no ano. “São produtos com crescimento da produção e ganhos de produtividade”, explicou a gerente de Contas Nacionais Trimestrais do IBGE, Rebeca Palis.

Na indústria, o crescimento foi de 0,9% na comparação dessazonalizada com o primeiro trimestre, e de 5,7% ante o primeiro trimestre de 2007. O grande destaque foi a construção civil, que cresceu 9,9% ante igual período de 2007, acumulando uma alta de 9,4% no semestre. A construção civil no segundo trimestre foi puxada pelo aumento de 26,7% no crédito habitacional. Também houve uma alta de 5% na população ocupada na construção.

A indústria de transformação cresceu 4,8% no segundo trimestre, a extrativa mineral, 5,3%, e o setor de utilidades públicas (eletricidade, gás e água), 4,5%. Os serviços cresceram 5,5%, com destaque para a atividade financeira, com expansão de 14%, na esteira da forte expansão do crédito. O PIB do segundo trimestre atingiu R$ 716,9 bilhões.

09/09/2008 - 12:18h Emprego industrial tem a maior alta mensal desde 2004. Renda do trabalhador sobe e uso da capacidade industrial é recorde

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Em julho, o emprego teve crescimento de 0,7% ante o mês anterior. Renda tem 3º mês de alta

Agencia Estado


O emprego industrial teve o maior crescimento mensal desde maio de 2004. Com o ajuste sazonal – que leva em consideração os efeitos temporais -, o crescimento foi de 0,7% em julho ante junho, segundo os números do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em maio de 2004, a alta havia sido de 1,0%. Ante julho de 2007, a ocupação na indústria cresceu 2,8% e acumula no ano alta também de 2,8% e em 12 meses, de 2,9%.

O IBGE informou ainda que, ante julho de 2007, o número de trabalhadores aumentou em 11 das 14 áreas investigadas, com destaque para São Paulo (4,3%), Minas Gerais (6,6%) e regiões Norte e Centro-Oeste (2,8%). Por outro lado, foram observadas reduções em Pernambuco (-4,4%), Santa Catarina (-1,1%) e região Nordeste (-0,3%).Em nível nacional, o pessoal ocupado aumentou, ante julho do ano passado, em 13 dos 18 setores, com máquinas e equipamentos (12,3%), meios de transporte (9,6%), máquinas, aparelhos eletroeletrônicos e de comunicações (11,6%) e produtos químicos (11,1%) respondendo pelos impactos positivos mais importantes. Na direção contrária, as contribuições negativas mais significativas vieram de calçados e artigos de couro (-9,8%), vestuário (-4,7%), têxtil (-6,2%) e madeira (-8,2%).

Renda

Já o valor da folha de pagamento real dos trabalhadores da indústria aumentou 1,3% em julho ante junho, também na série com ajuste sazonal. Este é o terceiro mês consecutivo de aumento ante mês anterior. Nos confrontos com iguais períodos do ano anterior, os resultados continuaram positivos: 6,9% em julho; 6,6% no acumulado de janeiro a julho e 6,4% em 12 meses.

Com atividade aquecida, uso da capacidade industrial é recorde

Segundo dados da CNI, faturamento real do setor registra expansão de 13,2% no mês de julho e de 9% no ano

Fabio Graner, da Agência Estado


BRASÍLIA - O aquecimento da atividade industrial nos últimos meses tem se refletido na maior utilização da capacidade instalada do País. Em julho, esse índice atingiu 83,5%, o maior nível da série histórica, segundo dados da Confederação Nacional da Indústria (CNI). Em julho do ano passado, a utilização da capacidade instalada estava em 82,5%.

Já o faturamento real da indústria de transformação cresceu 13,2% em julho, ante o mesmo mês de 2007. Na comparação com junho, já com o ajuste sazonal, a alta foi de 0,2%. De janeiro a julho, o faturamento real teve expansão de 9%, em relação a igual período do ano passado.As horas trabalhadas na indústria tiveram alta de 0,5% em julho, ante junho, pelo critério dessazonalizado. Sem o ajuste sazonal, a alta foi de 2,7%. Na comparação com julho de 2007, as horas trabalhadas subiram 7,2%. No acumulado do ano, tiveram expansão de 6,1%.

O emprego na indústria, por sua vez, subiu 0,6% em julho, ante junho, com ajuste sazonal. Sem ajuste, a alta foi também de 0,6%. Na comparação com igual mês de 2007, o emprego subiu 4,4%, mesmo índice do acumulado do ano.

A massa salarial real subiu 3,5% em julho, ante junho. Esse indicador foi divulgado sem ajuste sazonal. Na comparação com julho de 2007, a alta da massa salarial foi de 5,7% e no acumulado do ano, 5,6%.

“A atividade industrial em julho segue em forte trajetória de expansão. O crescimento da atividade industrial em julho é especialmente relevante por ocorrer sobre uma base de comparação muito alta”, diz o relatório da CNI.

09/09/2008 - 09:30h Metalúrgico estimula bancário a obter reajuste real elevado

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A negociação de data-base dos metalúrgicos, que no fim de semana garantiu à trabalhadores de montadoras do ABC reajuste salarial de 11,01%, sendo 3,6 pontos percentuais de ganho real, trouxe ânimo extra aos bancários, que iniciam na próxima semana as negociações de reajustes para a categoria. “Sem dúvida, a conquista dos metalúrgicos reforça nosso argumento”, diz o presidente da Confederação dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf) e coordenador do comando nacional que negocia os reajustes salariais dos bancários, Wagner Freitas.

A categoria, que iniciou ontem a rodada de negociações de cláusulas sociais com os bancos, reivindica um ganho sobre a inflação de 5 pontos percentuais. A proposta será colocada em debate na reunião marcada para o dia 16. A partir daí, as instituições financeiras terão até a data da plenária nacional dos bancários (marcada para 25 de setembro) para aprovar a proposta ou fazer uma contra-oferta. “Caso não haja acordo, também estamos dispostos a deflagrar greve a partir da data da plenária”, diz Freitas. Para o sindicalista, o momento de negociar ganhos reais é este, em que a economia brasileira se expande e dá sinais de que crescerá de forma sustentada. “Essa crença é o que levou as montadoras a aceitarem o repasse.”

A Federação dos Trabalhadores nas Indústrias Químicas e Farmacêuticas do Estado de São Paulo (Fequimfar) também trabalha com o objetivo de obter ganhos mais robustos na negociação, que se inicia no dia 19. A categoria, que reúne profissionais das indústrias química, cosmética e de fertilizantes, exige reajuste de 15%, sendo 7% de reposição da inflação, afirmou o presidente da Fequimfar, Danilo Pereira. “As indústrias do setor, como o setor automotivo, tiveram ganhos de produtividade e a idéia é que dividam os ganhos.”

O coordenador da campanha salarial da Federação Única dos Petroleiros (FUP), João Antonio de Moraes, também vai exigir da Petrobras, na primeira rodada de negociações que ocorre no dia 16, aumento real de 5%, apoiando-se nas negociações realizadas por outras categorias ao longo do ano. Para o supervisor do escritório regional do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Econômicos (Dieese), José Silvestre Prado de Oliveira, o reajuste aos metalúrgicos – certamente um dos maiores registrados no ano – reforça o poder de negociação de outras categorias que têm data-base no segundo semestre. “Os metalúrgicos são uma categoria que serve como referência para as negociações de outros grupos”, afirmou.

Mesmo entre os metalúrgicos, a negociação fechada no sábado pelos trabalhadores do ABC serviu de referência para que os trabalhadores da Volkswagen do Paraná endurecessem o discurso. Na semana passada, o Sindicato dos Metalúrgicos da Grande Curitiba obteve reajuste de 10,1%, sendo 2,6% de ganho real, mas a proposta foi rejeitada pelos trabalhadores da Volks, que querem o mesmo reajuste obtido pelos metalúrgicos do ABC, abono superior aos R$ 1,45 mil oferecidos pela montadora e pagamento dos dias parados, afirmou Sérgio Butka, presidente do sindicato. Em São Paulo, os metalúrgicos do setor de autopeças, funilaria e forjaria também recusaram a proposta das indústrias (8,8% de reajuste, sendo 1,5% de aumento real) para exigir ganho acima da inflação de 3,6%. (CB)

08/09/2008 - 23:23h Rendas e lucros do pré-sal

Luiz Carlos Bresser-Pereira – Folha de S.Paulo
http://www.folhapress.com.br/web/galeria/imagens/Foto149.jpg A TEORIA econômica distingue os lucros ou dividendos dos capitalistas inativos (que são a remuneração do seu capital e correspondem aos juros e aos aluguéis), dos lucros dos empresários derivados de suas inovações e das “rendas ricardianas” que têm origem nos diferenciais de produtividade dos recursos naturais. Enquanto lucros-dividendos, juros e aluguéis são legítimos desde que modestos, e os lucros de empresários schumpeterianos são excelente sinal de que o país se desenvolve, as rendas ricardianas, além de não terem legitimidade, causarão graves prejuízos para a sociedade se não forem capturadas por ela. Por isso, e porque o mercado não tem poder de controlá-las, David Ricardo, há 200 anos, as estigmatizava, e as nações bem governadas as controlam.

No debate sobre o pré-sal, o problema fundamental que a sociedade brasileira enfrenta é o de capturar e depois usar bem as rendas ricardianas do petróleo.

Por isso, o governo iniciou o debate do problema por isso, entende que a Agência Nacional do Petróleo (ANP) não é uma verdadeira agência reguladora (não tem preços monopolistas a definir como se mercado houvesse), mas uma agência executiva a quem cabe executar a política do governo (nos países desenvolvidos, as agências de petróleo são sempre executivas) por isso, está estudando a conveniência da criação de uma empresa 100% estatal para ser proprietária das reservas de petróleo e agir como instrumento adicional do governo na partilha das rendas. Como essas rendas são elevadas, empresas nacionais e estrangeiras do setor, reunidas em associação, organizam seminários e contratam economistas e engenheiros para garantir que a ANP seja “autônoma” e que a empresa 100% estatal não seja criada. Dessa forma, esperam participar dessas rendas. Alguns dos argumentos que apresentam em seu favor devem ser considerados pela sociedade brasileira. Sem dúvida, serão necessários grandes investimentos, e, portanto, é preciso não desestimulá-los. Mas, para isso, não é preciso que se apropriem das rendas do petróleo basta que fiquem com os lucros.

Sem dúvida, é preciso garantir a Petrobrás -esta é um grande patrimônio nacional-, mas não deixa de ser curioso que os setores que sempre lhe foram contrários de repente se transformem em seus defensores. Sem dúvida, o Brasil já ultrapassou a fase em que empresas estatais eram necessárias para promover a industrialização, mas não é essa a questão em jogo em torno da empresa 100% estatal. Se esses argumentos merecem consideração, há um argumento adicional que considero indigno: um desrespeito aos brasileiros.

Já li e ouvi que a empresa 100% estatal necessitará de, no máximo, 100 técnicos altamente qualificados, mas que logo estará empregando 5.000. Críticas aos governantes e às instituições são essenciais para a democracia. Com esse argumento, porém, o que se está afirmando é que o Estado brasileiro é formado por um bando de políticos e servidores corruptos que ignoram o interesse público.

Não se está fazendo, portanto, uma crítica razoável, mas se está ignorando e desmoralizando dois séculos de esforço dos brasileiros para construir seu sistema constitucional legal e sua administração pública. Para ser coerente, quem faz tal afirmação deveria advogar que o Brasil devolva seu Estado a Portugal e volte à condição de colônia.

05/09/2008 - 09:14h Sem acordo, metalúrgico ameaça greve geral na 2ª. Inflação pesa nas negociações salariais

http://byfiles.storage.live.com/y1pCSubwcsXGP45cYIfqT1EgtiUCDGugDMpTGSMbADhVzsJyP7DSALcsHZ8zfdLbFKyW-IucXcbhT8

CLAUDIA ROLLI – Folha de São Paulo


DIMITRI DO VALLE
DA AGÊNCIA FOLHA, EM CURITIBA

Sem chegar a um acordo salarial com as montadoras, os metalúrgicos de Volkswagen, Ford, Scania e Mercedes-Benz decidiram suspender a realização de horas extras e a produção no final de semana para pressionar os fabricantes de veículos a negociarem um aumento real “razoável”. Se não houver acordo até amanhã, a categoria pode fazer greve geral a partir de segunda-feira.

A medida vale para os trabalhadores do ABC de outras empresas que também estão em campanha salarial, segundo o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC (CUT). Ao menos 10 mil empregados da Volkswagen, Ford, Scania e autopeças de Diadema paralisaram em até duas horas as atividades ontem.

As paralisações, concentradas na entrada dos turnos da manhã, não afetaram a produção, segundo as montadoras.

No Paraná, base da Força Sindical, cerca de 8.000 metalúrgicos da Renault/Nissan e Volkswagen/Audi decidiram ontem manter a greve em São José dos Pinhais. A paralisação completa hoje cinco dias.

Até a noite de ontem, representantes das montadoras do ABC e dos trabalhadores estavam reunidos na sede do Sinfavea (sindicato dos fabricantes de veículos) para tentar chegar a um acordo.

“As montadoras têm até sábado [amanhã] para apresentar um proposta decente, caso contrário a greve será por tempo indeterminado a partir de segunda-feira. O que foi oferecido está longe do razoável”, afirma Sérgio Nobre, presidente do sindicato da categoria no ABC.
“Na negociação, pensamos a longo prazo e não apenas no atual momento da indústria, assim como as decisões sobre investimento. Temos de pesar também as condições competitivas da indústria no cenário internacional e nos impactos de qualquer aumento de custo”, diz Jackson Schneider, presidente da Anfavea (fabricantes). “Estamos abertos à negociação e acredito na maturidade dos atores nesse diálogo.”
Os sindicalistas não divulgam o índice de reajuste pretendido no ABC, mas já descartaram a proposta feita anteriormente de 1,25 ponto percentual de aumento acima da inflação.

No ano passado, o aumento real nos salários chegou a 2,5 pontos acima da inflação. A indústria automobilística encerrou o ano com 2,34 milhões de automóveis e comerciais leves emplacados -melhor resultado dos últimos dez anos. Nos oito primeiros meses deste ano, os licenciamentos já alcançaram 1,94 milhão de unidades -26,4% de aumento sobre mesmo período de 2007.

“Uma parcela do crescimento do setor tem de ir para o bolso do trabalhador. Não estamos pedindo 20% de aumento real.

Sem acordo, vamos cortar as horas extras”, diz Moisés Selerges, diretor do sindicato.

Na Mercedes-Benz, os metalúrgicos estimam que 400 caminhões e ônibus deixarão de ser produzidos no final de semana. Anteontem, outros cem já deixaram de ser fabricados com uma paralisação.

Os metalúrgicos ligados à Força Sindical fizeram passeata e manifestação ontem pela manhã em frente ao prédio da Fiesp (federação das indústrias), na avenida Paulista. Para a central, a adesão foi de 5.000 trabalhadores representados por 54 sindicatos paulistas. Para a PM, foram cerca de 1.500.

“Os 20% de reajuste que pedimos foi calculado com base na produtividade que o setor teve e na inflação que tem de ser reposta”, diz Eleno Bezerra, presidente do sindicato da categoria em São Paulo e da confederação nacional da Força.

No Paraná, os trabalhadores rejeitaram contraproposta das empresas de reajustar os salários em 10% -sendo 2,5 pontos percentuais de aumento real.

Os grevistas pedem o dobro.

Já os 2.700 funcionários da Volvo (Curitiba) aceitaram a proposta patronal e receberão 10% mais abono de R$ 1.500. O sindicato da região informa que cerca de 6.600 veículos deixaram de ser fabricados desde o início da paralisação. Colaborou KAREN CAMACHO, da Folha Online

 

 

Cai o número de acordos salariais que não têm perdas

Marcelo Rehder – O Estado de São Paulo

A escalada da inflação atrapalhou a campanha salarial das categorias com data-base no primeiro semestre. O resultado das negociações foi o pior dos últimos três anos, segundo levantamento divulgado ontem pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese).

De um total de 309 acordos analisados pela entidade, 86% conseguiram zerar as perdas com a inflação ou garantir aumento real de salário na primeira metade do ano. O número é menor que os apurados nos acordos fechados em igual período de 2006 e de 2007 , que ficaram próximos de 97%.

“O repique na inflação dificultou as negociações, principalmente em setores que sofrem a concorrência das importações, que ficaram mais baratas por causa da valorização do real em relação ao dólar”, disse Clemente Ganz Lúcio, diretor-técnico do Dieese.

Segundo ele, as empresas continuam a obter ganhos expressivos de produtividade, mas o aumento da inflação reduz a margem de manobra para alguns setores concederem aumentos reais sem repasse para os preços. “Os trabalhadores são os que mais perdem com a inflação, pois sofrem arrocho salarial e têm o poder aquisitivo corroído ainda mais pela inflação futura”.

Apesar de inferior ao dos últimos dois anos, o resultado das campanhas salariais de 2008 foi o terceiro melhor para um primeiro semestre desde 1996, quando a pesquisa passou a ser feita.

De acordo com o Dieese, 74% dos acordos firmados na primeira metade deste ano garantiram aumento real de salários. O porcentual é menor que o verificado nos últimos dois anos: 84% e 87%, pela ordem. A proporção de acordos que não conseguiram sequer repor as perdas com a inflação aumentou de 3%, em 2007, para 14%, agora.

As empresas do setor industrial foram as que concederam maior número de aumento de salários acima da inflação, com 81% das negociações. Em seguida ficou o comércio, com 80%, e os serviços, com 64%.

04/09/2008 - 10:40h Faturamento e uso da capacidade são recordes na indústria

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Arnaldo Galvão – VALOR

O segundo semestre começou com forte expansão da indústria, impulsionada pelo aquecimento da demanda doméstica, sustentando recorde de faturamento em julho e permitindo crescimentos expressivos na atividade, no emprego e na massa salarial, segundo cenário traçado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI). Os economistas da entidade alertam, porém, para a perspectiva de desaceleração que deve ocorrer, ainda este ano, com os impactos da elevação dos juros e da redução do ritmo já verificada na Europa e Japão.

Os indicadores industriais divulgados pela CNI mostram que a atividade (horas trabalhadas) cresce há 12 meses consecutivos e o emprego tem expansão há 32 meses seguidos na série com ajuste sazonal e considerando a variação sobre o mês anterior. De janeiro a julho, o faturamento deu salto de 9% (recorde) sobre o mesmo período em 2007. As horas trabalhadas cresceram 6,1%, o emprego ampliou-se 4,4% e a massa salarial foi 5,6% maior. Em julho, o uso da capacidade instalada teve aumento de 0,2 ponto percentual sobre junho, chegando a 83,5%.

Considerando apenas julho e a comparação com o mesmo mês do ano passado, as variações medidas pela CNI foram ainda maiores que as dos primeiros sete meses do ano. O faturamento foi 13,2% maior, as horas trabalhadas cresceram 7,2%, o emprego ampliou-se 4,4% e a massa salarial aumentou 5,7%.

O desempenho de julho surpreendeu os economistas da entidade, Flávio Castelo Branco e Paulo Mol. Eles tinham projetado alguma desaceleração para o início do terceiro trimestre, mas a previsão não foi confirmada. Mol ressaltou que a regularidade no crescimento, que vem se repetindo há vários meses consecutivos, é mais importante que os aumentos percentuais verificados nos indicadores. “Apesar do câmbio desfavorável, o faturamento do segundo semestre começa em patamar maior que o de junho, que já era alto. O ritmo de expansão está mais próximo dos dois dígitos”, comentou Mol.

Em julho, o uso da capacidade instalada da indústria subiu pelo segundo mês consecutivo, chegando a 83,5%. “Não há pressão sobre preços industriais, mas o uso está alto”, admitiu Castelo Branco. Para os economistas da CNI, o setor privado vem investindo para acompanhar o aumento da demanda interna e, portanto, não há preocupação. Eles argumentaram que as horas trabalhadas na indústria (atividade) vêm crescendo há 12 meses seguidos, mas, nesse período, o uso da capacidade vem mantendo certa estabilidade. “Sem investimento, isso não teria ocorrido, mas é preciso continuar investindo”, avaliou o economista.

O faturamento da indústria, em julho, foi, segundo a CNI, maior e mais disseminado. Neste ano, a entidade informou que o indicador não teve crescimento apenas em março e abril. Além disso, a elevação de 9% no período janeiro-julho teve como comparação uma base alta. Nos primeiros sete meses de 2007, já tinha sido registrado crescimento de 5,3% no faturamento.

Dos 19 setores medidos pela CNI, 17 tiveram aumento no faturamento no período janeiro-julho. Madeira (-9,1%) e produtos químicos (-7,2%) foram os dois que perderam vendas. Os três destaques positivos, em 2008, foram os segmentos de veículos automotores (23,8%) , material eletrônico e de comunicação (23,1%) e outros equipamentos de transporte (22,5%).

Nas horas trabalhadas em 2008, apenas quatro segmentos industriais tiveram recuo na atividade: vestuário (-3,1%), couros/calçados (-3,7%), madeira (-11,3%) e refino/álcool (-14%). Os 12 meses consecutivos de expansão da atividade representam o período mais longo de desempenho positivo desde 2003. Os melhores resultados foram obtidos nos segmentos outros equipamentos de transporte (29,5%), máquinas e equipamentos (14,4%), máquinas, aparelhos e material elétrico (12,5%) e veículos automotores (12,2%). Castelo Branco comentou que, nos meses de maior inflação, a redução da renda real dos consumidores prejudicou alguns setores. Como exemplo, disse que a cesta básica chegou a ter preços 30% maiores.

O emprego industrial vem se expandindo há quase três anos (32 meses seguidos), mas os piores desempenhos são dos segmentos que perderam muito com o câmbio: vestuário (-4,7%), couros/calçados (-1,5%), madeira (-11,3%) e material eletrônico e de comunicação (-2%). Os maiores crescimentos do emprego verificados pela CNI no período janeiro-julho foram de 21,5% (outros equipamentos de transporte), 13% (máquinas e equipamentos), 9,6% (veículos automotores), 8,5% (máquinas, aparelhos e material elétrico) e 6,1% (produtos de metal).

Na avaliação de Castelo Branco, esse aumento expressivo do emprego é “novidade” na história recente do país. Citou que o Plano Real, no início dos anos 90, permitiu crescimento, mas com perda de empregos. “Agora, o desafio é a qualificação da mão-de-obra. Pesquisa da CNI já teve sinais de reclamações de empresários que tiveram aumento de custos para treinamento de empregados, o que tira competitividade internacional”, disse.

A expansão de 5,7% na massa salarial da indústria, em julho, foi a maior do ano. De janeiro a julho, os maiores crescimentos foram nos segmentos de outros equipamentos de transporte (15,6%), veículos automotores (11,8%) e máquinas e equipamentos (11,7%). Os destaques negativos ficaram com madeira (-7,3%), vestuário (-2,5%), couros/calçados (-2,3%) e edição/impressão (-0,4%).

21/08/2008 - 09:26h Modelo norueguês demanda dinheiro público e é de licença

Dag Myrestrand / StatoilHydro
Plataforma de exploração da StatoilHydro: ações no mercado desde 2001

Sergio Leo, de Oslo – VALOR

O governo brasileiro tem de tomar uma decisão muito delicada se pretende mesmo seguir o modelo norueguês para proteger os interesses do Estado na exploração do petróleo: ou saca dinheiro do Tesouro Nacional para investir na exploração de novos poços, ou se arrisca a procurar sócios privados dispostos a aceitar um parceiro que não põe dinheiro próprio no negócio. É o que afirmam especialistas noruegueses no assunto, como o geólogo Gunnar Soiland, principal engenheiro e coordenador de projetos do Diretório Nacional de Petróleo (NPD), o equivalente, no governo norueguês, à Agência Nacional de Petróleo (ANP).

“Se o Brasil decide criar uma nova empresa 100% estatal, é lógico que o governo invista dinheiro próprio na companhia”, comenta Soiland. A hipótese de criar uma empresa estatal sem investir nos campos de petróleo, apenas para retirar uma parte das receitas para o governo, soa estranha para os especialistas noruegueses, mas não é considerada inviável por Soiland. “Se as empresas considerarem o campo extremamente lucrativo, pode ser que aceitem uma estatal como carona”, diz ele. O modelo norueguês, porém, é muito diferente e inaplicável no Brasil sem sérias adaptações.

Muito falado no Brasil e pouco conhecido, o modelo adotado pela Noruega tem particularidades, ligadas à história da descoberta e exploração de petróleo no país, que lhe garantem enormes diferenças em relação ao modelo aplicado no Brasil. Copiar simplesmente a experiência norueguesa é impossível, porque, para adotar no Brasil o regime de licenças, tributação, fiscalização e decisão da Noruega, o Brasil teria de alterar profundamente as regras vigentes. Com isso, estaria violando uma das bases do sistema norueguês: a previsibilidade, com a estabilidade das normas para o setor, sem mudanças radicais.

Na Noruega, as companhias petrolíferas não vão a leilão para adquirir concessões que permitiriam a elas explorar os campos: é o governo quem decide quais empresas – sempre em grupo – irão pesquisar, desenvolver e explorar os blocos com chances de encontrar petróleo. Quando determinado bloco é considerado “estratégico” pelos técnicos do NPD e pelo Ministério de Energia, as empresas privadas, para ganhar a licença, obrigatoriamente têm de aceitar no grupo a estatal Petoro, criada em 2001 para administrar as propriedades do governo no setor.

No sistema da Noruega, o governo tem um poder muito maior que no Brasil: o NPD, diferentemente da ANP, é subordinado ao Ministério de Petróleo e Energia, e, baseada em critérios técnicos como os projetos geológicos apresentados, a saúde financeira e experiência da empresa, apenas aconselha o governo sobre as decisões, mas essas são tomadas pelo ministro.

No Brasil, imitar os noruegueses implicaria dar ao ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, a palavra final sobre quais companhias indicadas pela ANP devem explorar as áreas ainda não concedidas com potencial petrolífero.

Diferentemente do sistema de parcerias, no qual um governo decide, em cada campo, qual a parte da receita ou da produção cabe ao setor privado e qual caberia ao setor público, no modelo norueguês cada campo é explorado por um grupo de empresas, escolhido pelo NPD. Com isso, acredita o governo local, há troca de experiências e estímulo para maior produtividade dos campos.

Cada empresa paga impostos ao governo de até 78% da receita operacional, mas elas têm direito a deduções que reduzem esse percentual: podem deduzir da base tributável, em seis anos, o investimento fixo, como “depreciação”. Elas podem abater todas as “despesas relevantes”, relativas à pesquisa, desenvolvimento, exploração e operação dos campos, custos financeiros e de desativação de poços esgotados. Há ainda uma dedução extra no cálculo da base tributável, de 30% do total do investimento em quatro anos, para garantir a lucratividade dos campos.

Quando, no grupo, há a participação da Petoro (campos “estratégicos”), a receita da estatal é entregue diretamente ao governo – esse detalhe faz as pessoas confundirem o sistema com a tradicional parceria, bem diferente: a Petoro investe também no campo, com base em um orçamento fixado pelo ministério. Nos casos em que os sócios têm de investir mais para cobrir despesas extras no investimento em novos campos, o governo também põe dinheiro, se estiver entre os participantes do projeto. Esse dinheiro, no caso da Noruega, vem de projetos lucrativos que já têm o governo como sócio. O governo detém, diretamente, participação em 114 licenças de produção, das mais de 500 existentes. No caso do Brasil, não se tem notícia de onde tirar esses recursos.

A criação da nova estatal, no Brasil, também não poderia seguir o modelo norueguês. No país nórdico, antes de existir a Petoro, existia uma estatal 100% pertencente ao governo, a Statoil (hoje StatoilHydro), criada em 1972, que recebia privilégios na exploração dos campos de petróleo no país: em cada campo explorado pelo setor privado, 50% obrigatoriamente iam para a estatal. Se o campo produzisse petróleo, a Statoil tinha direito a aumentar para 65% sua participação. Em 1985, alguns anos antes de privatizar parcialmente a Statoil, o governo tomou uma parte de cada participação que a estatal detinha nos projetos licenciados para produção de petróleo. Embora a Statoil continuasse administrando essa fatia da produção dos poços, eles foram destacados no orçamento, como uma “participação financeira direta do Estado”, conhecida pela sigla SDFI.

Quando o governo finalmente decidiu vender no mercado ações da Statoil, em 2001, tirando então os privilégios da empresa, foi criada a Petoro para administrar os interesses do SDFI – a estatal hoje evocada como exemplo para o Brasil, por participantes do governo brasileiro. Ao nascer, a Petoro já pôde contar com a receita dos poços e licenças da SDFI. “Estatizaram o que já era estatal”, resume Bjorn Leroen, assessor político da prefeitura de Stavanger, cidade norueguesa dedicada à indústria de petróleo.

Exemplo bem-sucedido de economia baseada em recursos naturais que foi capaz de desenvolver uma indústria sofisticada a partir dessa base, a Noruega mantém, ainda 63% da Statoil em poder do governo, e há planos para aumentar essa participação para 67%. As receitas com a Petoro, a Statoil e impostos pagos pelas companhias privadas somam 31% da arrecadação do governo, o setor responde por 48% das exportações, 23% dos investimentos totais e 24% do Produto Interno Bruto (PIB) do país.


O repórter viajou a convite do governo da Noruega

12/08/2008 - 09:27h Produtividade sobe e contém impacto de custos na indústria

http://www.cicgaribaldi.com.br/arquivos/industria2.gif

Cibelle Bouças, VALOR

A produtividade do trabalho na indústria aumentou 4,11% no acumulado de 12 meses até junho, pouco abaixo do ganho apurado no intervalo de 12 meses até maio (de 4,27%), mas ainda próximo do ganho médio de 4,16% observado no ano de 2007. O ganho é resultado do incremento de 6,71% na produção e de 2,5% no total de horas trabalhadas, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Na comparação entre semestres, no entanto, o crescimento foi um pouco menor, confirmando a tendência de acomodação da produtividade do trabalho na indústria. Entre janeiro o junho, a taxa de expansão foi de 3,51%, mesmo índice apurado em igual intervalo de 2007. No segundo semestre do ano passado, o aumento foi mais expressivo, de 5,78%. Para economistas, o ganho de eficiência pode ajudar a ‘amortecer’ o impacto do aumento nos custos industriais, contribuindo no processo de desaceleração da inflação no segundo semestre.

“O aumento da produtividade está menor, mas ainda é suficiente para incorporar ajustes de salário que devem ocorrer no segundo semestre em função das subidas de preço”, afirma o professor da Unicamp Edgard Pereira, da consultoria Edgard Pereira & Associados. Para o economista, os ganhos de produtividade devem apresentar alguma desaceleração no segundo semestre, por conta das estimativas de desaceleração na taxa de expansão da produção industrial. “É possível que o aumento da produtividade tenha alcançado o seu pico no primeiro semestre.”

Júlio Gomes de Almeida, consultor do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), tem previsão mais otimista. Ele observa que o crescimento de 3,5% no semestre ocorreu com um incremento significativo no número de horas pagas (de 2,67%, ante 1,3% no mesmo intervalo do ano passado). “O ritmo de crescimento do emprego e das horas trabalhadas foi especialmente alto e não deve se manter nesses patamares nos próximos meses”, diz. Para Almeida, mesmo com a previsão de expansão menor da produção industrial, o índice de produtividade deverá melhorar no segundo semestre, encerrando o ano numa faixa mais próxima de 4%. No primeiro semestre, a produção industrial cresceu 6,3% e a projeção do Banco Central para o ano é de um incremento de 5,5% sobre 2007.

O consultor do Iedi observa que o setor industrial tem conseguido manter o ganho médio de produtividade acima de 3% ao ano desde 2004, o que contribui para o crescimento sustentável do setor no longo prazo. Conforme Almeida, ganhos acima de três pontos percentuais por ano permitem que a indústria se proteja parcialmente contra a valorização cambial. “Os custos empresariais estão aumentando muito, tanto salários como matérias-primas. Esse ganho ajuda a dirimir a alta de custos e o repasse de preços ao restante da cadeia.”

Se for convertido em ganho de rentabilidade, o aumento da produtividade também poderia permitir fluxo de caixa para investimentos em capacidade industrial, observa Fernando Sarti, professor do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Ele ressalva que, nos últimos anos, as indústrias não capitalizaram todo o ganho de produtividade que tiveram. Boa parte foi repassada ao setor público, via tributos, ao setor financeiro via juros e ao setor externo, por conta da valorização cambial. “Seria ótimo se o ganho de eficiência não ficasse restrito à contenção de custos, mas gerasse recursos para investimentos”, afirma. Os possíveis efeitos do ganho de produtividade serão considerados pelo governo para mudanças ou manutenção da atual política monetária, observa. “De toda forma, o aumento da produtividade associado a um incremento no nível de emprego é extremamente positivo.”

No primeiro semestre, os setores que apresentaram maior ganho de produtividade com aumento do total de horas trabalhadas foram o de materiais de transporte (que registrou alta de 12,06% em horas pagas e de 7,64% em produtividade), borracha e plástico (com ganho de 2,98% em horas pagas e 5,81% em produtividade) e minerais não-metálicos, com altas de 2,15% e 5,53%, respectivamente. Outros segmentos seguiram ampliando a produtividade à custa da redução no total de horas pagas. É o caso das indústrias de fumo, têxtil, vestuário, calçados e couro, madeira, papel e gráfica. “Os setores mais afetados pelo real valorizado frente ao dólar e pela concorrência com importados mantêm a trajetória de redução do emprego”, observa Pereira.

No semestre, o indicador do emprego industrial registrou incremento de 2,8%. Dos 17 segmentos da indústria de transformação, 11 apresentaram crescimento, destacando-se máquinas e equipamentos (12,6%), meios de transporte (10,8%) e máquinas, aparelhos eletroeletrônicos e de comunicações (12,9%). O índice do valor de folha de pagamento real também cresceu no semestre, ficando em 6,5%.