30/05/2009 - 17:28h As belas árvores de Taquaritinga

As belas árvores de Taquaritinga

Praça de Taquaritinga forrada de flores de Ipê

Blog de Ernani Moura Brito

Retornava de São Paulo no ônibus, lendo, quando, após o jantar frugal no restaurante da estrada, tive obstrução nasal seguida de apneia, provavelmente devido ao sistema de refrigeração do veículo.O motorista parou no posto médico da empresa concessionária que administra a rodovia. Solicitei nebulização. O médico disse que não tinha nebulizador, nem qualquer descongestionante nasal.

Segui na ambulância ao pronto-socorro de Taquaritinga, próxima três quilômetros do local, por que não estava em condições respiratórias de retornar ao ônibus – imaginando as colônias caleidoscópicas de germes e bactérias que esperavam-me nas tubulações do ar refrigerado, provocando novos choques alérgicos e asfixia -, embora a equipe médica argumentava que dispunha de 98% da capacidade respiratória.

No hospital, a enfermeira deu-me diazepam e fiz nebulização. Comprei inalador numa farmácia próxima, e fui para um hotel pernoitar, deixando as janelas do quarto totalmente abertas para sentir o ar fresco.

Acordei com os bons ventos do interior e pássaros cantando. Tomei café e fui para a praça contígua ao hotel, repleta de árvores verdes seculares.

Sentado no banco da praça, sob um velho jatobá, com folhas de ipê caindo ao vento brando da manhã, fiz exercícios de oxigenação, com uma mão apoiada ao velho tronco da madeira, cujas copas altíssimas retorciam-se em braços cheios de musgos.

Um senhor passeava bucolicamente com o cachorro. À minha frente, o coreto, onde algumas crianças começavam a brincar. Um mendigo aproximou-se com voz cantada, chamando-me de “meu anjo” e pedindo esmola. Dei alguns centavos, temendo que comprasse bebida alcóolica.

Acariciava com a palma da mão esquerda a casca de nervuras da velha árvore, agradecendo-a por existir e me deixar respirar um ar tão puro, 100% livre de qualquer poluição, numa cidadezinha esquecida do interior paulista. E lunaticamente cheguei a guardar algumas folhas e uma pequena lasca do tronco no bolso para qualquer emergência respiratória…

Se estava me tornando um perfeito caipira pouco importava-se-me, e tudo o que me vinha à cabeça era poder caminhar na terra, no mato, sentir o cheiro do campo, como quando faço trilhas de bicicleta em Rio Preto.

A questão do posto médico da concessionária privada da rodovia não dispor de nebulizador ou de um simples medicamento nasal é de total negligência, ainda mais pelo fato de que o pedágio é pago pelo consumidor (embutido no preço da passagem).

A este respeito, enviarei comunicado à Assembleia Estadual para as devidas providências.

Quanto à empresa de ônibus, devido ao ar seco e rarefeito outonal, seria bom dispor também de umidificadores nos veículos. Também enviarei requerimento à viação.

O lado bom desse incidente foi conhecer essas belas árvores da praça de Taquaritinga, município de cerca de 70.000 habitantes, cujo símbolo é um coqueiro (Cocos nucifera).

Nunca em minha vida fiquei tão contente por sentar-me debaixo de uma árvore frondosa e respirar ar puro.

As belas árvores da praça de Taquaritinga podem ser visualizadas no Google Earth:

http://images.google.com.br/imgres?imgurl=http://www.panoramio.com/photos/original/10873697.jpg&imgrefurl=http://www.panoramio.com/photo/10873697&usg=__SXdjDI37d-c-XR1G_fS4XHqATWU=&h=1880&w=2816&sz=3247&hl=pt-BR&start=16&sig2=z8XUrlunkVY3wqVViTeP3A&tbnid=sK8a3L21m7ONdM:&tbnh=100&tbnw=150&prev=/images%3Fq%3D%25C3%25A1rvores%2Bde%2Btaquaritinga%2Bsp%26gbv%3D2%26hl%3Dpt-BR&ei=i0YgSpDOIoj-yAX_utWrBg .

P.S.:

E-mail encaminhado a um deputado estadual em 30.5.9:
“Prezado deputado:

Tomei conhecimento no Blog do Favre sobre debate acerca do PEDÁGIO NAS RODOVIAS PAULISTAS a ser realizado dia 1.6.9 em São Paulo.

Gostaria que o sr. tomasse conhecimento de episódio que ocorreu comigo numa viagem de retorno de SP a São José do Rio Preto, em que não havia medicamento no posto de resgate, nem nebulizador para oxigenação, apesar do preço do pedágio ter sido incluído na passagem de ônibus.

O fato está relatado no meu blog (http://ernanimourabrito.blogspot.com ,tópico AS BELAS ÁRVORES DE TAQUARITINGA).

Solicito de V. Sa. providências para que os postos de atendimento médico/resgate das rodovias da concessionária sejam dotados de nebulizadores e medicamentos, pelo menos essenciais (no caso, não havia sequer um meroVicky Vaporub).

A situação é meio complicada por que aquela região é canavieira, e o olor das usinas misturado ao ar seco torna-o rarefeito, exigindo cuidados.

Também gostaria de sugerir procedimentos de FISCALIZAÇÃO nos sistemas de refrigeração dos ônibus intermunicipais, e lei obrigando-os a utilizar também umidificadores de ar (isso é muito comum, por exemplo, nas salas de julgamento do STJ em Brasília).

Contando com a vossa compreensão e colaboração para solucionar os probemas apontados, para que outros passageiros-cidadãos não enfrentem situações mais drásticas, fico-lhe antecipadamente grato.”

21/03/2009 - 09:15h A saúde de Kassab vai bem, já a do povo…

Homem morre após esperar 120 h por UTI

Motorista de 48 anos havia dado entrada no PS de Perus (extremo norte de SP) no domingo como sintomas de infarto

Menina com traumatismo craniano passou a noite com sacos plásticos nas orelhas para recolher o sangue que escorria-lhe dos ouvidos

LAURA CAPRIGLIONE – FOLHA SP

DA REPORTAGEM LOCAL

Ontem às 21h45, 120 horas depois de dar entrada no Pronto Socorro Municipal de Perus com sintomas de infarto, o motorista Luiz Emilio Bride, 48, morreu. Todas as suas últimas horas de vida, menos a final, ele passou em uma sala da emergência do PS, separada apenas por uma porta de vaivém do saguão do prédio, que está em obras. Os familiares do motorista pediam desde o domingo a transferência dele para uma UTI, em qualquer hospital.

Bride, que foi levado ao PS depois de um desmaio, entrou falando. Foi piorando, acabou entubado, e só no início da tarde de ontem teve sua remoção autorizada para os cuidados intensivos do Hospital do Ipiranga. No caminho, ele começou a morrer. Ainda tentaram ressuscitá-lo no Pronto Socorro de Santana. Mas foi tarde demais.

Na quinta-feira, às 15h, o PS de Perus autorizou a visita, “um por um” de todos os parentes de Bride que lá estavam aguardando providências. Por volta do meio-dia, ele sofrera uma parada cardiorrespiratória, da qual conseguiu voltar. Estava inconsciente. Como não era mais hora de visita, os familiares entenderam que o médico já estava providenciando a “despedida”. Desesperada, a filha Gislaine pediu aos prantos a remoção para uma UTI. Ouviu do clínico: “Seu pai não tem mais jeito. Acabou.”

“Isso aqui é um matadouro”, acusou a dona de casa Andressa Nanni, 33, mãe de uma menina de nove anos. A criança estava com dor de garganta e dor de cabeça. Saiu sem ser atendida porque não havia nem sequer um pediatra no plantão. “Esse PS é a única base de saúde que a gente tem no bairro, e ele é um lixo”, afirmou ela.

Na noite de quinta-feira, as cerca de 20 pessoas que esperavam ser atendidas no PS de Perus se comoviam com o caso da menina Vitória Açucena Sarambelli, 8. A criança caiu da bicicleta, fraturou o maxilar em três pontos, quebrou dentes. O acidente aconteceu às 14h. A menina foi levada para o PS, que a enviou ao Hospital Estadual do Mandaqui. Diagnóstico: traumatismo craniano.

Mas o Hospital do Mandaqui, em vez de atender a menina, devolveu-a ao PS. Ela passou toda a noite em uma sala com a luz apagada, para ver se conseguia dormir. Como cuidados, apenas dois sacos plásticos colados nas orelhas (para recolher o sangue que escorria-lhe dos dois ouvidos) e analgésico por via venosa.

Ontem, desfigurada pelo inchaço total da cabeça que a impedia até de abrir os olhos, Vitoria foi de novo enviada ao Mandaqui. Às 22h, ela chorava de dor. Não conseguia se alimentar por causa dos ferimentos. Sua última refeição foi no almoço de quinta-feira.

Quando a reportagem da Folha chegou ao Pronto Socorro, na noite de quinta-feira, oito pais e mães carregando seus filhos no colo estavam parados na frente do prédio. Discutiam o que fazer, já que o médico que estava no local, um clínico, recusara-se a atender as crianças doentes.
Não havia pediatra no PS. Vivian Cunha Lacerda, mãe de Leonardo, 4, 38C de febre, sem comer desde a véspera, pediu ao médico: “Pelo menos olha a garganta dele.” “Ele me disse que não ia pôr a mão no Leonardo porque não é pediatra”, disse a mãe. Depois de 40 minutos de espera pelo ônibus, ela voltou para casa. “Olha como ele está quentinho”, pediu.

Atendimento foi correto, diz secretaria

DA REPORTAGEM LOCAL

Em nota, a Secretaria Municipal de Saúde diz que o motorista Luiz Emilio Bride “foi prontamente atendido” ao chegar ao PS de Perus, no dia 15 e março. Na mesma nota, afirma que a direção do PS solicitou vaga em UTI, “liberada hoje [ontem] pelo Plantão Regulador”.
A secretaria diz ainda que a menina Vitória foi “prontamente atendida” no PS de Perus. “Caso de alta complexidade, houve a necessidade de transferi-la para um hospital de grande porte. No caso, a referência era o Hospital Estadual do Mandaqui, para onde a paciente foi levada”, afirma. “Depois de ser avaliada por um neurocirurgião daquele hospital, foi encaminhada de volta para o Pronto Socorro de Perus, o que não deveria acontecer. Novamente a direção do Pronto Socorro Municipal de Perus solicitou ao Plantão Regulador uma vaga para a criança no hospital do Mandaqui que, desta vez, aceitou a paciente.”
Sobre a falta de pediatras na quinta-feira à noite, a secretaria municipal diz que o fato “não prejudicou o atendimento, pois todos os pacientes, independentemente da idade, foram prontamente atendidos.”
A Secretaria de Estado da Saúde, por sua assessoria de imprensa, afirmou que na cidade de São Paulo, quem cuida da central de vagas (Plantão Regulador) é a prefeitura. Recusa, portanto, responsabilidade pela não-transferência da menina ou do motorista para hospitais mais habilitados a atendê-los. Diz desconhecer a primeira remoção da menina para o Hospital do Mandaqui, onde estava sem previsão de alta.