29/10/2009 - 13:56h Um eleitorado mais exigente

ColunistaMaria Inês Nassif – VALOR

Em 2006, a política eleitoral foi marcada pelo fenômeno de descolamento do voto dos humores da classe média urbana que, ao longo da história da República, funcionou como uma caixa de ressonância das elites econômicas. A ascensão ao mercado de consumo de uma grande parcela de excluídos, por meio do Bolsa Família, produziu uma autonomia do voto dos menos favorecidos em relação ao poder econômico e reduziu o papel de formadores de opinião das classes médias. De lá para cá, as políticas de valorização do salário mínimo adicionaram um outro componente social à realidade política: o ingresso nas classes médias de cidadãos originários da base da pirâmide que já estavam no mercado de consumo, mas que tinham acesso limitado a bens e mercadorias.

Foram, portanto, dois dados importantes de mobilidade social distintos, cada um deles com poder de repercussão em uma eleição diferente. Nas eleições de 2006, o dado social predominante foi o ingresso ao mercado de consumo de grande parcela da população. Nas eleições de 2010, terá forte influência sobre o pleito a ascensão à classe média de grandes contingentes das camadas populares.

Nos últimos sete anos, o país passou de uma situação de reduzidas classes médias e alta e amplas camadas na base da pirâmide – com forte concentração, nessas últimas, de famílias com baixíssima ou nenhuma renda. Quase às vésperas das eleições de 2006, as estatísticas começaram a acusar um forte efeito de desconcentração de renda do programa Bolsa Família, que atingia então os situados no último degrau da pirâmide de renda. Esse dado apenas tornou-se visível no auge do chamado Escândalo do Mensalão e o mundo institucional custou a entender que algo acontecia de diferente no universo social. A política foi sacudida por traumas intensos, cujo epicentro era o Congresso Nacional – em especial uma CPI que alimentava grandes cenas midiáticas que em algum momento chegaram a consolidar, entre letrados, a idéia de que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva era tão destituído de sustentação política que caminhava para um impeachment, ou uma renúncia.

Foram quase simultâneas as divulgações das pesquisas de opinião que acusavam um constante aumento de popularidade de Lula, em plena crise, e a divulgação de indicadores que comprovavam um efeito grande de mobilidade do Bolsa Família. Os fenômenos foram tão vinculados que foram necessárias várias pesquisas de opinião acusando aumento da popularidade de Lula para que a oposição se convencesse que o presidente não apenas estava no páreo, como era o franco favorito na disputa pela reeleição.

O aumento da classe média brasileira no período seguinte é um dado ainda de difícil avaliação, que precisará ser devidamente considerado nas definições de estratégias de campanha de todos os candidatos às eleições presidenciais. O fato de os dois fenômenos terem acontecido num período governado por um único partido, e não ter ocorrido até o momento – nem no período de crise – um forte refluxo das condições objetivas de consumo desses setores, pode indicar que a candidata governista entra no mercado eleitoral como depositária de um legado. O conservadorismo da classe média, no caso dos ascendentes no governo Lula, tende a favorecer a candidata – o status quo agora é o PT, ao contrário de 2002.

De outro lado, a ascensão à sociedade de consumo significa também acesso a bens de consumo ideológicos que mantinham esses setores à margem até agora. A informação, o acesso a tecnologias por onde elas transitam rapidamente e a exposição a diversas outras mídias expõem esses setores emergentes a conteúdos dos quais foram marginalizados enquanto estavam excluídos dessas tecnologias – e cuja inclusão não era alguma coisa que estava na agenda das elites políticas, que partiam do pressuposto, no jogo eleitoral, de que essas camadas eram cooptáveis via movimentos de emocionalização de uma classe média mais conservadora. Outro fator que pode contribuir para isso é o aumento progressivo de escolaridade, que caminha de forma constante desde os governos Fernando Henrique Cardoso. Os ganhos de distribuição de renda podem acelerar o processo de aumento de anos de estudo da população.

Num contexto de maior escolaridade e maior renda, portanto, imagina-se que mudem também os critérios de escolha do voto. O julgamento do eleitor tende a passar por crivos que superem o simples ganho de renda – esse é um ganho passado e entram no cenário expectativas de ascensão social diferentes.

Nesse contexto, pode adquirir importância grande a adesão a candidatos de setores da mídia convencional e não convencional – veiculada pela internet – e ganham peso maior os programas de propaganda eleitoral gratuita no rádio e na televisão. Esse é um elemento novo no processo eleitoral. Dificilmente se volte a uma realidade onde as classes médias representem simplesmente uma caixa de ressonância das elites econômicas mas não necessariamente esse eleitorado tenderá à esquerda por ter ascendido no governo Lula. O dado concreto, no momento, é que esse eleitorado obrigará uma campanha eleitoral que agregue mais informações e argumentos eleitorais mais convincentes.

Maria Inês Nassif é repórter especial de Política. Escreve às quintas-feiras

E-mail maria.inesnassif@valor.com.br

25/09/2009 - 10:15h Sem discurso e sem programa, TV é aposta tucana para subir nas pesquisas

A persistente queda de Serra nas sucessivas pesquisas de opinião deixou o PSDB nervoso. Contrariamente a avaliação vendida no final da nota do Estadão, as pesquisas que seguem a aparição do candidato na TV sempre mostram um crescimento que não necessariamente se mantém posteriormente. Depois de ter usado como “programa de aluguel” o espaço na TV do PPS, os tucanos vão investir em propaganda negativa contra Dilma e promoção de Serra com suas “realizações” em São Paulo. Não veremos nem o metrô real, nem a cidade “limpa” real, ou seja dará para subir uns pontinhos seguramente. LF


http://www.bemparana.com.br/politicaemdebate/wp-content/uploads/2009/07/jose-serra.jpg

TV é aposta tucana para subir nas pesquisas

Serra será a principal estrela do programa estadual do PSDB em outubro

Julia Duailibi e Silvia Amorim – O Estado SP

Os tucanos usarão o programa partidário na TV como cartada estratégica para frear o crescimento dos rivais e a consolidação da tendência de segundo turno, evidenciada na pesquisa do Ibope divulgada nesta semana. O PSDB fará de seu principal nome na disputa de 2010, o governador José Serra, a estrela do programa estadual que irá ao ar em outubro. E ontem decidiu que usará as inserções nacionais, em novembro, para desmontar a imagem de boa administradora da ministra Dilma Rousseff, pré-candidata do PT.

A avaliação é de que o bom desempenho de Marina Silva (PV) e Ciro Gomes (PSB) na pesquisa está relacionado à exposição nos programas partidários em rádio e TV nas últimas semanas. Os tucanos apostam que, assim que as inserções estaduais forem ao ar, Serra voltará a subir nas pesquisas. Usam como exemplo o caso de 2004, quando, na disputa à prefeitura paulistana, chegou a subir 10 pontos após estrelar o programa do partido.

Ontem houve reunião com a cúpula do PSDB para definir como será o programa nacional do partido. Aliados de Serra defendiam a tese de que o espaço deveria ser usado para tecer críticas ao governo federal, com o argumento de que a oposição à gestão Lula nos últimos anos tem sido fraca. A ala ligada ao governador de Minas, Aécio Neves, que também pôs seu nome na disputa presidencial, preferia que parte do programa fosse usada para divulgar os próprios pré-candidatos, já que ele não é tão conhecido nacionalmente como Serra.

Na reunião, resolveu-se que a maior parte das inserções deverá ter forte tom oposicionista e vai bater em áreas do governo sob a coordenação de Dilma. Os pré-candidatos, no entanto, só deverão aparecer no programa de 10 minutos, em dezembro.

Ontem Serra criticou o uso dos programas partidários para propaganda eleitoral. “Não estou entrando em horário partidário fazendo campanha e não vou fazer isso”, afirmou. À noite, no entanto, o governador foi uma das estrelas do programa de TV do PPS. Aliado dos tucanos, o PPS também promoveu a imagem de Aécio e, quase num formato de horário eleitoral gratuito, atacou o governo Lula, vinculando-o ao presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP).

Serra conversou nesta semana com os principais estrategistas ligados ao partido para traçar um diagnóstico da pesquisa divulgada nesta semana. No cenário em que é possível fazer a comparação com a pesquisa anterior, o tucano caiu 4 pontos. A avaliação é de que só após o programa na TV será possível traçar o real “grid de largada”.

O resultado da pesquisa serviu para reforçar o discurso de ala do PSDB que defende maior atividade de pré-campanha. Amanhã, Serra e Aécio devem aparecer juntos em Natal.

26/08/2009 - 18:52h Serra diz que Lula foi mal informado e que União também é citada em propaganda do Rodoanel

Primeiro, Serra ataca propaganda do PT na TV afirmando que é propaganda enganosa, pois a mesma afirma que tem dinheiro do governo federal nas obras do metrô e no Rodoanel. Os jornais publicam amplamente o ataque e não publicam uma linha da nota oficial do PT contestando José Serra.

Depois, Lula declara em São Bernardo que na propaganda tucana em São Paulo não se diz que é uma obra com dinheiro do governo federal.

Agora Serra reconhece que tem dinheiro federal e afirma que nos panfletos isto é reconhecido.

Todos os que assistem a propaganda televisiva do Rodoanel sabem que os tucanos omitem a participação do governo federal na obra, como na expansão da linha 2 do metrô. LF

Ver também O trololó de Serra

 

Flávio Freire – O Globo

SÃO PAULO – O governador de São Paulo, José Serra, reagiu nesta quarta-feira às críticas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva relativas à obra viária do Rodoanel , na capital paulista. Sem citar nomes, Lula acusou, na terça-feira, o governo de São Paulo de omitir em sua propaganda oficial o fato de a construção ter recursos federais. ( Leia mais: Serra evita analisar ‘efeito Marina’ no jogo sucessório porque também pode ser candidato à presidência )

Lula não foi bem informado


- O presidente Lula não foi bem informado – disse Serra.

Segundo ele, a participação da União no projeto é citada nos panfletos, placas e publicidade de TV.

Para o tucano, a declaração de Lula tem viés eleitoral.

Se não fosse véspera de eleição, isso não estaria acontecendo


- Eu acho que a gente tem tido um trabalho de boa cooperação com o governo federal e eu não vou alimentar nenhuma intriga de natureza eleitoral. Se não tivéssemos nas vésperas de eleição não teríamos essa propaganda enganosa do PT nem o presidente teria sido mal informado a respeito de como as obras aqui têm sido apresentadas – disse o governador, lembrando ter convidado pessoalmente o presidente Lula para participar de inspeções das obras.

O Ministério Público Federal recomendou ao Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes o bloqueio dos repasses de verbas federais para o trecho Sul do Rodoanel.

Relatório do Tribunal de Contas da União aponta irregularidades na obra, entre elas o adiantamento de R$ 236 milhões por serviços não realizados.

25/10/2008 - 09:23h Estelionato

Folha de São Paulo – página de Monica Bergamo

http://www.kassab25.com.br/files/imagecache/tratamento-noticia/page/mae_paulistana.jpg

Mãe de mentira

A campanha de Gilberto Kassab (DEM-SP) usou como figurantes dos comerciais do Mãe Paulistana mulheres que nunca foram atendidas pelo programa. As gestantes, que não dão depoimento, mas aparecem em várias cenas dos anúncios, foram convocadas para o teste de vídeo por e-mail, por participarem de e-groups sobre parto e gravidez. Uma delas, de Campinas, teve o filho em hospital particular e, no comercial, recebe um bebê das mãos da enfermeira da rede pública -mas ainda estava grávida quando a cena foi gravada. Na convocação por e-mail, a produtora GW oferecia cachê de R$ 500 para as mães e de R$ 400 para os bebês.

ESTELIONATO
Perguntado se todas as mães que aparecem nos comerciais do Mãe Paulistana foram atendidas pelo programa, o prefeito respondeu à coluna que “sim”. “Caso contrário, seria estelionato. Não estou sabendo disso, mas confio na minha equipe, que é séria e deve ter tomado esse cuidado.” A assessoria da campanha diz que as mães que falam no comercial foram, sim, atendidas pelo programa. E está “apurando” a utilização das figurantes.

Leia a integra da coluna de Monica Bergamo na Folha SP

23/09/2008 - 20:08h Marta e Lula na TV

Canal da Marta

Lula e Marta – Uma parceria por São Paulo


Programa do dia 22/09/08

22/08/2008 - 12:21h A Coca-Cola já teria descoberto

VALOR

Marta Suplicy (PT) apareceu com um conjunto de blusa e casaco de malha rosa bebê, decote arredondado rente ao pescoço, mais para Luiza Erundina do que para o figurino arrojado que a caracteriza; Gilberto Kassab (DEM) chegou batendo com recortes de jornal denunciando a herança petista; e Geraldo Alckmin (PSDB) reprisou a campanha presidencial com a imagem de bom genro do médico de Pindamonhangaba.

O enfado da primeira reação – a quem eles pensam que ainda enganam – não sobrevive à estréia da campanha televisiva. Teve audiência maior que “Jornal Nacional” em tempos de mensalão – 57% na Grande São Paulo – entre outras razões porque o eleitor brasileiro, fartamente exposto às artimanhas da linguagem televisiva, sabe que a criancinha nos braços é para emocionar e os aplausos, para impressionar, mas assiste querendo, sobretudo, se informar.

Prova disso é o levantamento inédito que o professor da Fundação Cultural de Belo Horizonte, Luiz Lourenço, fez com duas amostras de municípios – com e sem horário eleitoral gratuito – nas disputas de 2000 e 2004. O grupo de pesquisas que coordena analisou 226 pesquisas eleitorais em todas as capitais e outros 14 municípios com mais de 100 mil habitantes.

Chegou à conclusão de que naqueles municípios onde há horário eleitoral gratuito o patamar de indecisos cai dez pontos percentuais com o início da programação. Na amostra de Lourenço, nas cidades onde a inexistência de retransmissora de TV priva os eleitores de programação eleitoral local, o patamar de indefinidos permanece alto ao longo da campanha e só cai às vésperas das urnas.

Em São Paulo, os indefinidos – pelo último Ibope, somam 33% do eleitorado – foram expostos a estratégias bem distintas. O programa de estréia de Marta fez uso comedido de sua imagem, optando por sua voz em off como locutora em tom confessional de cenas da cidade. Destinado a diminuir sua rejeição, foi direto ao ponto: “Sou hoje uma pessoa muito mais madura e preparada”; “o tempo foi me mostrando que os problemas cresciam tanto..”, “aprendi a pensar grande, como São Paulo”; “quero governar de modo moderno e ágil, de modo diferente”, “ela quer voltar a governar São Paulo para melhorar o que já fez”.

Floreou recursos de outras campanhas – “Esta cidade nasceu pobre e se tornou rica. Esta mulher nasceu rica e resolveu dedicar sua vida aos mais pobres” – e só colocou o tailleur para receber o apoio do presidente operário. Preencheu toda sua cota de incredulidades com a proposta do gabinete cercado de monitores capazes de identificar problemas de segurança e trânsito em tempo real para reagir instantaneamente.

Ainda não inventaram propaganda melhor

O recurso ao refrão “deixa ela trabalhar”, alusão direta ao da campanha presidencial de 2006, banalizou-se ainda mais porque também foi usado pelo programa de Gilberto Kassab, que lhe sucede. O prefeito abusa de propaganda negativa e atira para todos os lados – “Você não me viu criando taxas ou em cima do muro” – mas seu alvo preferencial é a candidata petista.

É clara a estratégia de se firmar como candidato anti-petista que tem tido, ao longo das duas últimas décadas, eleitorado cativo na cidade. Num programa acanhado e sem referências a Marta, Paulo Maluf (PP) não parece disposto a manter a titularidade do anti-petismo.

Kassab citou Serra cinco vezes no programa e abusou da primeira pessoa do plural – “Acabamos com a taxa do lixo”. Apareceu nas mais variadas situações com o governador – abraçado, de mãos erguidas, no metrô, no meio da rua – e contrapôs a dependência da aliança ao “pulso forte” que implantou o rodízio de caminhões e o Cidade Limpa, “enfrentando poderosos” e “contrariando interesses”.

Alckmin entrou confiante de que o baixo índice de rejeição é seu maior ativo. Ao contrário de Marta e Kassab, que abusaram de imagens da cidade, ele apareceu o tempo inteiro. “É o mais simpático”, dizia o locutor, em off. O programa focou antes na identificação pessoal entre eleitor e candidato do que no que pretende para a cidade. Por enquanto, limita-se a explorar a confiança do eleitor de que ele dará melhor rumo à cidade. É “São Paulo na mão certa” e “São Paulo na melhor direção”.

Eles terão 40 dias para convencer o eleitor. A campanha não se resume à telinha. A TV ajuda as boas campanhas e enterra as más. Luiz Lourenço encerra a discussão sobre o impacto da propaganda eleitoral na eleição citando o publicitário Chico Malfitani: “Se tivessem inventado algo melhor que a televisão para fazer propaganda, a Coca-Cola já teria descoberto”.

Maria Cristina Fernandes é editora de Política. Escreve às sextas-feiras

mcristina.fernandes@valor.com.br