30/04/2009 - 10:26h Plano Obama é bom para o Brasil

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Alberto Tamer* – O Estado SP

 


Um balanço dos intensos 100 dias de Obama é positivo para o Brasil. Na verdade, ele e sua equipe estão agitando e revolucionando a economia americana, que receberam em frangalhos. Não perdeu tempo com as discussões acadêmicas sobre se deveria primeiro socorrer o sistema financeiro para depois estimular a demanda e o crescimento. Desde os primeiros dias, atacou as duas frentes, consciente de que ambas se interdependem e são imprescindíveis para superar a recessão. O mercado financeiro tem sido saneado a custos elevados e a política fiscal começa a dar algum ânimo ao consumidor. Somente isso impediu que o PIB não tivesse uma queda maior que 6,1% neste trimestre. De novo, herança do passado, quando o PIB recuou 6,3%. Somente nos próximos meses o dinheiro da política fiscal começará a entrar no sistema. Se tudo continuar como está – mercado financeiro socorrido e demanda estimulada – a recessão americana poderá terminar em 2009. No momento, a economia parou de afundar ou afunda mais lentamente, o que já é um bom resultado. Afinal, alguém agora está fazendo alguma coisa, oportuna e certa.

FOI BOM PARA NÓS

O grande mérito dos 100 dias de Obama é que sua política está trazendo alguma sensação de alívio no mercado financeiro. E é aí que nos beneficia. Estamos muito longe da normalidade, mas o governo e as empresas brasileiras voltaram a captar no mercado financeiro internacional depois de uma longa e difícil ausência. Além disso, os investimentos financeiros começam a afluir novamente nas bolsas ou na compra de títulos do governo e outros papéis.

O simples anúncio da vitória de Obama abriu novas oportunidades ao Brasil. O governo captou US$ 1 bilhão, no dia 6 de janeiro. E isso após uma ausência de quase 8 meses no mercado. A última captação havia sido feita em 14 de maio de 2008.

O setor privado foi mais ativo. Em março, entraram US$ 750 milhões de captação da Telemar e devem estar entrando US$ 700 milhões de empresas do grupo Friboi. A Odebrecht também levantou US$ 150 milhões em bônus no dia 3 de março. “Os governos (federal e estadual) tem dado ênfase na infraestrutura para sustentar a economia”, afirmou Paulo Cesena, diretor financeiro da empresa. Estão programadas outras operações nesse mesmo setor, estradas, usinas. Também a Petrobrás votou a ser ativa no mercado financeiro.

Nada disso seria possível há 8 meses. O plano de Obama está sendo bom para o Brasil. E isso pode ser apenas o começo. Se o governo brasileiro lançar concorrência para outras obras a serem executadas pelo setor privado, certamente mais recursos entrarão no país nos próximos meses.

HÁ MUITA BOBAGEM…

Nos balanços dos 100 dias, tenho ouvido e lido as coisas mais controversas e algumas até engraçadas. Um professor acadêmico disse que o Brasil não se beneficiou com a nova política de Obama porque os EUA não liberaram o comércio agrícola e continuam dando subsídios aos seus produtores… Isso é falta de informação ou deformação ideológica (abaixo o Satã do Norte…). De acordo com o Ministério da Agricultura, entre janeiro e março deste ano, as exportações do agronegócio para os EUA representam apenas 10,1% do total. Eles são ainda os maiores importadores, mas, ainda de acordo com a tabela do ministério, elas são de apenas US$1,4 bilhão.

Pode argumentar que nossas vendas totais – não só do agronegócios – para os EUA caíram 37,8% no trimestre. Mas esse não foi um fenômeno isolado. Houve aumento de 20,9% para a Ásia, com destaque para para a China, 62,7%. Todos os demais mercados reduziram drasticamente as compras do Brasil e de outros países. O caso do nosso “querido” Mercosul é típico: uma retração de 29,2%.

O protecionismo dos países afundados na recessão não será atenuado com palavras de queixa e protesto. Cabe ao Brasil aproveitar as oportunidades e atrair os recursos que tanto precisamos. Obama está acertando. E nós também se o governo continuar criando condições para captar aqueles dólares que apenas agora começam a dar tímidos sinais de vida.

*E-mail: at@attglobal.net

01/04/2009 - 09:27h Maionese, cocoricós e o G20

Manif anti sarko

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VINICIUS TORRES FREIRE – FOLHA SP


Reunião “histórica” começa sob ameaça de fiasco prático e risco de maior desacordo internacional sobre a crise


“LA MAYONNAISE va prendre” é uma expressão francesa tanto para dizer “a coisa vai engrenar” como, em contexto de maior exaltação, “o caldo vai engrossar”. Nicolas Sarkozy, marido de Carla Bruni, aliás presidente da França, ameaça bater a maionese na reunião do G20, que começa amanhã, em Londres. Não é o mais importante dos tiros no concerto do G20, mas é sintomático.
Sarkozy vazou para imprensa que “deixará uma cadeira vazia” no G20 caso os EUA não aceitem uma reforma que endureça os controles sobre a finança mundial. “Cadeira vazia” é um clássico gaullista, de quando Charles de Gaulle deixou seus pares da Comunidade Econômica Europeia falando sozinhos, em 1965.
A maionese caseira de Sarkozy desanda. Há o risco de a crise levar franceses em massa às ruas, o que não tem tido consequências maiores desde os anos 1960, embora tenha levado à breca um governo liberal, nas grandes greves de 1995. Enfim, nunca se sabe o que pode dar quando há franceses irados na rua. Sarkozy canta, pois, um cocoricó para a galera, tirando casquinha dos EUA. Além do mais, se sair do G20, faz o quê? O que importa? O PIB francês equivale a 6% das 19 economias do G20 (19 países mais um representante da União Europeia). Os EUA têm 30% do PIB do G20.
A chanceler alemã, Angela Merkel, deve reafirmar sua oposição ao apelo de Barack Obama, que pede mais gasto público no mundo a fim de conter o colapso global. Os alemães são conservadores em juros e dívida, mas temem mesmo é ter de bancar a conta do colapso da Europa, que não tem governo unificado para fazer pacote fiscal. A Alemanha é 8% do G20 e, na previsão da OCDE, seu PIB deve encolher uns 5% em 2009.
O premiê japonês, Taro Aso, apoia os americanos e critica Merkel. Aso vai a Londres com aprovação de apenas 25% dos japoneses e sob o risco de governar a pior recessão no mundo rico (queda de 6,6% do PIB, diz a OCDE). O Japão, 10% do PIB do G20, tem, porém, a experiência de quase 15 anos de estagnação, fruto do estouro de uma bolha imobiliária, de uma outra na Bolsa e da reação oficial tardia à crise. Aso apoia a ideia americana de triplicar os fundos do FMI, está soltando um pacote fiscal de US$ 100 bilhões a US$ 200 bilhões, uns 2% a 4% do PIB, e anunciou ajuda para a Ásia.
O anfitrião Reino Unido é sempre pró-EUA, mas não que ver o caldo entornar em casa e está meio sobre o muro. Os chineses, que têm 8% do PIB do G20, vão aproveitar para tirar um cascão dos EUA, como o têm feito, acusando-os de irresponsáveis e sugerindo, por ora retoricamente, dar cabo do dólar como moeda mundial. Os russos estão falidos, mas são mais um problema político.
O resto é mais ou menos o resto.
Aliás, do que vai tratar mesmo o G20? De estímulo à demanda mundial, de reforma financeira, de evitar protecionismo. Numa reunião de um dia, cheia de ruídos, na qual o “Ocidente” tentará tanto lançar mão do “ouro de Pequim” como evitar que a China atraia mais emergentes para seu lado. Em que os líderes terão de falar “urbi et orbi”, por algum acordo internacional, para as ruas que querem protecionismo, para Wall Street que não quer saber de restrições etc. Vai dar certo, isso?

vinit@uol.com.br

30/03/2009 - 12:03h Consumo e ativação da economia

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Amir Khair* – O Estado SP

 


Um dos pontos centrais no combate à crise é a defesa da produção e de empregos. Todos os países estão procedendo assim, inclusive os EUA, com o pacote de Obama. Para tanto, devem ser ampliadas despesas com investimentos e custeios do setor público. Aí surge o problema. De onde sairão recursos extras se a crise também atinge a arrecadação? No caso dos países desenvolvidos, através do aumento do endividamento. Alguns trilhões de dólares turbinaram as dívidas desses países. No caso do Brasil, através da redução de despesas com juros, do uso do Fundo Soberano de R$ 14 bilhões e, se necessário, do aumento do endividamento.

A crise internacional causou quedas nas exportações dos países, agravadas pelo protecionismo. Parte desse excedente é direcionada para mercados internos que, com a queda dos preços internacionais e do consumo, fizeram despencar a inflação. O Brasil não foi exceção. A cada semana o Focus reduz previsões sobre a inflação de 2009. No dia 20 último, já estava em 4,4%, abaixo da meta de 4,5%. Abriu-se espaço para queda maior da Selic. Prevê-se que, ao fim do semestre, ela caia abaixo de 10%. Caso isso ocorra, as despesas com juros do setor público, que atingiram R$ 165,5 bilhões em 2008, podem cair para R$ 135 bilhões neste ano, com economia de R$ 30 bilhões (1% do PIB) que serviria para reduzir o resultado primário. Essa redução não afetará o resultado nominal (resultado primário menos juros) das contas públicas, que está no melhor nível da série histórica com um déficit de 1,6% do PIB em 2008.

Se for preciso, há folga para o aumento do endividamento do setor público, pois a relação dívida-PIB é de 36%, abaixo do nível dos desenvolvidos, que ultrapassa 60%. Embora seja desejável a continuidade do estímulo às exportações, com reduções tributárias, oferta de crédito e redução de custos de logística, a melhor política para ativar a economia é estimular o consumo interno.

Se as políticas públicas se voltarem para populações de rendas médias e baixas, o retorno para a economia será veloz e eficaz, pelo estímulo à demanda. O País tem potencial de consumo não explorado pela desigualdade de renda que, se reduzida, formaria um círculo virtuoso, pelo acesso a possibilidades de consumo, demandas por aumento de produção, investimento e empregos.

Vários poderão ser os estímulos ao consumo: maior oferta de crédito com redução das taxas de juros, desonerações tributárias e tarifárias – especialmente para a população de média e baixa rendas – aumentos no salário mínimo, programas de distribuição de renda, inflação baixa… A expansão do crédito já ocorre, mas as taxas de juros estão altas. Para baixá-las, além da redução da Selic e da maior concorrência imposta ao setor privado bancário pelo Banco do Brasil e pela Caixa, outras medidas podem ser usadas em função dos juros cobrados pelos bancos: reduções seletivas de depósitos compulsórios dos bancos no Banco Central; tributação progressiva sobre lucros; e limites à aquisição de títulos públicos.

É imenso o arsenal de medidas à disposição do Conselho Monetário Nacional para reduzir juros bancários. Ele aprovou na quinta-feira um programa que poderá atingir mais de R$ 100 bilhões para normalizar empréstimos concedidos por bancos pequenos autorizados a emitir Certificado de Depósito Bancário Especial com garantia de até R$ 20 milhões contra perdas, em caso de quebra do banco, oferecendo mais segurança que a garantia atual, de até R$ 60 mil. Aprovou novos limites para operações de crédito da população de baixa renda e de microempreendedores, de R$ 3 mil para R$ 5 mil. Tais medidas podem dar fôlego ao crédito às micro, pequenas e médias empresas e à população de baixa renda.

O programa de construção de moradias lançado pelo governo pode ajudar a reduzir o custo de moradia para os beneficiários e estimular o setor imobiliário, forte empregador de mão de obra.

A Petrobrás poderia reduzir os preços do diesel, que impactam custos do transporte, do gás de cozinha e da gasolina. Os preços da gasolina e do diesel estão 50% acima do nível internacional. A redução teria impactos na inflação, contribuindo para mais queda da Selic, com ganhos fiscais para o governo federal e, possivelmente, compensando a Petrobrás pelo maior volume de vendas.

Governos municipais e estaduais podem adotar medidas que aumentem o poder aquisitivo da população, como baratear transporte coletivo, alimentação, gás, água e medicamentos.

Políticas que aproximam produtores e consumidores de alimentos e reduzem custos de intermediação têm demonstrado sua eficácia e podem contribuir para a expansão do consumo.

É de grande complexidade o enfrentamento da crise e não existem respostas mágicas e previsões certeiras. O fomento ao debate é oportuno, diante da expectativa de que um conjunto ágil, articulado e coordenado de políticas seja implantado. Alguns passos foram dados, mas estão aquém do que pode ser feito para uma ativação maior da economia.

*Amir Khair, mestre em Finanças Públicas pela FGV, é consultor
A partir desta edição, o jornalista Ribamar Oliveira deixa de escrever às segundas neste espaço.

29/03/2009 - 11:17h Prêmio Nobel defende contrato social global

DE GENEBRA – FOLHA SP

Há anos o economista americano Joseph Stiglitz alerta de que uma globalização sem freios e regras será o aumento do fosso entre ricos e pobres. Em seus livros, o Nobel de Economia de 2001 defende um contrato social global, em que as nações desenvolvidas abririam seus mercados aos emergentes em favor de um regime de comércio com mais igualdade. Mas a crise financeira reforça o risco de que ocorra justamente o contrário, deflagrando uma onda de protecionismo a partir dos países desenvolvidos. Se isso ocorrer, diz Stiglitz, os maiores prejudicados serão os países em desenvolvimento. “A crise não começou nos países pobres, mas são eles que pagarão a parte mais pesada da conta”, disse o economista à Folha, em recente passagem por Genebra. (MN)

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FOLHA – O sr. concorda com o premiê Gordon Brown, sobre o risco de desglobalização?
JOSEPH STIGLITZ
– O risco é substancial. A globalização gerou benefícios para muitos países, mas também criou riscos enormes. Caso não haja as reformas necessárias, os benefícios da integração dos mercados desaparecerão, e só permanecerá o lado negativo da globalização, que é a dependência excessiva de fluxos externos de capital. Seria o pior dos mundos.

FOLHA – Qual a consequência?
STIGLITZ
– Se o Ocidente aumentar o protecionismo, isso criará grande instabilidade e poderá reverter os avanços dos últimos anos. As reações serão inevitáveis. Com o aumento da pobreza, muitos governos terão argumentos bastante convincentes para resistir à globalização.

FOLHA – Há protecionismo?
STIGLITZ
– Algumas das coisas que os Estados Unidos estão fazendo podem não provocar efeitos concretos, mas têm um enorme poder simbólico. Um bom exemplo disso é a cláusula “Buy American”.

FOLHA – Quem vai se prejudicar?
STIGLITZ – Os países em desenvolvimento. Espero que os mais ricos tenham sensibilidade para evitar isso.

26/03/2009 - 20:48h Comércio em queda, protecionismo em alta

Antônio Palocci – O Estado SP

Um dos efeitos mais graves da atual crise é a contração do comércio mundial. Ela vinha ocorrendo lentamente desde a eclosão dos problemas na área imobiliária americana em 2007. Mas em setembro do ano passado, após a quebra do Lehman Brothers, a crise financeira se exacerbou, secando as linhas de crédito para o comércio em todo o mundo.

A desorganização do fluxo de comércio internacional é, desde então, assustadora. Esse é um duro revés na economia da maior parte das nações, pois atinge uma atividade saudável para os países e promotora de maior produtividade nas empresas. A Ásia, que tinha a exportação de manufaturas como mola principal para tirar centenas de milhões de pessoas da miséria, é a região que mais sofre.

Atualmente o mercado de manufaturas apresenta capacidade ociosa porque, na esteira dos problemas de liquidez, há uma forte redução no consumo das famílias americanas, que representava 30% do consumo mundial. A maciça desorganização da economia americana, a partir do desmoronamento do seu setor financeiro, sugere, pelos seus reflexos no emprego, que essa contração não se reverterá imediatamente.

O endividamento das famílias jovens e a perda do valor dos ativos e da poupança para a aposentadoria das famílias mais idosas pesam nas expectativas de ambas, levando-as a ser muito cautelosas e não gastar os recentes incentivos fiscais e ajudas governamentais. De fato, a taxa de poupança das famílias americanas está nos níveis mais elevados dos últimos 14 anos.

Na Ásia, a queda da demanda se explica mais pela redução da renda corrente, em razão da retração do comércio internacional, do que pela queda de expectativas de médio prazo. Na medida em que o setor externo equivale a parcela significativa da produção desses países (China, 41,3%; Coreia, 45,6%; Tailândia, 73,8%; Malásia, 110,2%; e Cingapura, 230%), a contração tem efeito imediato sobre a massa salarial e o consumo.

É nesses países – onde tradicionalmente o déficit fiscal e a dívida pública são pequenos e há grandes excedentes comerciais (como os EUA tinham ao final dos anos 20) – que uma política mais agressiva de expansão fiscal e benefícios sociais para reanimar a demanda tem mais chances de sucesso, mesmo que as famílias asiáticas tenham maior propensão à poupança.

As ondas destrutivas da contração comercial já chegaram ao Brasil. As reduções nas exportações estão, desde setembro, persistentemente no campo dos dois dígitos, embora se observe uma pequena melhora mês a mês. Centenas de empresas de menor porte já deixaram de exportar.

O efeito no emprego e na renda tem sido menor aqui, no Brasil, do que na Ásia, onde o comércio corresponde à parcela maior da produção. Mas ele existe e atinge empresas e produtores da melhor qualidade, que têm vencido com base na conquista permanente de produtividade.

Nesses últimos anos o Brasil ampliou fortemente sua capacidade exportadora, diversificando mercados e assumindo a liderança no comércio de produtos minerais e do agronegócio. Mas mesmo no setor de manufaturas enfrentando uma duríssima concorrência com os asiáticos, muitas empresas brasileiras conquistaram importantes espaços.

Essas empresas superaram o desafio da valorização do real nos últimos anos, mas verão suas exportações debilitadas ainda por um tempo, pois a recente desvalorização da moeda não será suficiente para compensar a queda de demanda nos países mais ricos. Na verdade, em termos de comércio, o mundo ficou realmente menor.

Enquanto a crise financeira não for debelada, será muito difícil haver uma recuperação sustentada do comércio internacional. O desafio, portanto, é como compensar essas perdas – ainda que parcialmente – sem partir para o protecionismo, que começa a reaparecer como mecanismo de defesa em muitos países.

O protecionismo pune o consumidor do país que o pratica em nome do interesse de determinados segmentos arbitrariamente escolhidos. Perversamente, pune também o esforço de produtividade das empresas e dos países que desenvolvem corretamente suas próprias vocações. A pesquisa e a inovação são gravemente prejudicadas por barreiras, subsídios e outras distorções que vão surgindo.

Para lidar com esses novos desafios, países como o Brasil têm (assim como a China) a vantagem de um grande mercado interno e baixo endividamento das empresas e famílias. Assim, se a saúde do sistema financeiro e da área fiscal for preservada, há espaço para o crédito expandir e a economia se manter viva, sem trazer enfraquecimento maior para as contas externas, que são sempre o maior risco ao crescimento.

Muitas das empresas atingidas pelo colapso exportador estão entre as maiores e melhores do País. Se forem ajudadas por um conjunto coerente de ações, poderão sobreviver a esse momento duro, ajustando suas vendas e produtos para a realidade atual e se preparando para a retomada do comércio, que virá mais cedo ou mais tarde. Garantia de crédito no curto prazo, espaço para ajuste, redução de risco regulatório e dos custos de conformidade à lei podem ser a melhor forma dos governos diminuírem as incertezas e as fricções da economia.

Esses são mecanismos muito mais eficientes e justos do que o protecionismo. Afinal, o mundo aprendeu nos últimos anos que as trocas comerciais criam emprego e renda, desenvolvem vocações locais e regionais e ainda melhoram a produtividade de todo o tecido econômico. Se algum setor tem culpas por esta crise, certamente não é o do comércio.

Antônio Palocci, deputado federal (PT-SP), foi ministro da Fazenda

17/03/2009 - 14:21h Crise convulsiona classe média no bloco europeu

Segmento social é a principal vítima da recessão econômica em quase todos os países

Inquietação política pode se agravar, caso programas de estímulo não sejam vistos como favoráveis ao cidadão comum, diz diretor da OIT

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JOHN THORNHILL – “FINANCIAL TIMES” – FOLHA SP

A economia está causando convulsões políticas na Europa. Na Islândia e na Letônia, os governos caíram; greves ou protestos irromperam na Grécia, na Irlanda, na França, na Alemanha, no Reino Unido, na Ucrânia e na Bulgária. Os tumultos financeiros abalaram até mesmo os baluartes mais distantes do continente: a ilha francesa de Guadalupe, no Caribe, sofreu greves violentas, enquanto a Rússia teve de enviar policiais de avião para a distante e gélida Vladivostok, a fim de conter protestos de rua.
O surto de inquietação não era esperado no continente. Muitos europeus imaginavam que seriam poupados dos piores efeitos de um desastre gerado nos subúrbios dos EUA.
Mas a crise se espalhou. Na semana passada, os ministros das Finanças da União Europeia revisaram para baixo projeções já desanimadoras para o PIB do bloco e estimaram que a recessão vá perdurar até 2010.
À medida que os governos fazem ações muitas vezes impopulares para salvar suas economias, cresce a raiva, como resultado do desemprego cada vez mais alto, das restrições aos aumentos de salários, dos resgates aos bancos devastados e das quedas nos valores das residências e dos fundos de pensão.
Juan Somavia, diretor-geral da OIT (Organização Internacional do Trabalho), diz que a inquietação social pode se agravar caso os planos de estímulo não sejam vistos como benéficos aos cidadãos comuns, alegando que “há uma sensação de que banqueiros recebem bilhões, e o povo, trocados”.
Por enquanto, é impossível prever os efeitos políticos do terremoto econômico em curso.
A esquerda deveria ser a beneficiária natural. Porém, líderes sindicais recordam, em tom pressago, que foi a extrema direita, e não a esquerda moderada, que ganhou o poder em boa parte da Europa nos anos 30, na última catástrofe capitalista.
Observadores como o sociólogo francês Emmanuel Todd preveem o fim da democracia, ou ao menos sua erosão significativa, com os líderes da direita populista, como o premiê italiano, Silvio Berlusconi, e o presidente francês, Nicolas Sarkozy, tornando-se mais demagógicos e autoritários. Outros preveem uma reversão ao nacionalismo e ao protecionismo.

Maior vítima
Países diferentes estão respondendo de formas diferentes à crise. Mas um traço comum a quase todos é que a classe média é a principal vítima da recessão. Mesmo antes da crise, sociólogos falavam sobre o surgimento de “sociedades-ampulheta” na Europa -a globalização afastando mais e mais vencedores de perdedores.
“A classe média está encolhendo agora, ao menos na Alemanha. Essa é uma situação completamente nova para o país”, afirma Stefan Hradil, sociólogo alemão. A análise também vale para o Reino Unido, onde a mídia destacou os problemas da “classe calada”, formada por profissionais antes seguros de si que agora enfrentam dificuldades financeiras.
O momento político mais explosivo talvez surja quando os europeus tiverem de pagar a conta pelos pacotes de resgate atuais. Os governos só conseguirão reequilibrar as finanças públicas caso cortem os gastos e aumentem os impostos sobre a classe média já sufocada.

Tradução de PAULO MIGLIACCI

16/03/2009 - 09:50h Queda no comércio global será “terrível”

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O diretor-geral da OMC, Pascal Lamy, que teme efeito devastador da contração de até 7% do comércio mundial em 2009

ENTREVISTA DA 2ª

PASCAL LAMY
DIRETOR-GERAL DA OMC

Crise implicará a primeira contração do comércio internacional desde 1982

O francês Pascal Lamy não esconde seu pessimismo quando fala da contração que o comércio mundial sofrerá neste ano, a primeira desde 1982. “Será terrível.” Como diretor-geral da OMC (Organização Mundial do Comércio), ele acompanha de perto o baque sofrido pelo comércio. Seu “faro” indica que o recuo pode chegar a 7%, previsão ainda pior do que as feitas pelos organismos internacionais. Além da queda na demanda, o protecionismo e a falta de financiamento ameaçam o comércio. Lamy continua alertando os membros da OMC para resistir à tentação de fechar seus mercados. “É um tiro no pé.”

MARCELO NINIO – FOLHA SP

DE GENEBRA

Por outro lado, a incerteza no mercado financeiro é intensa, o que restringe os canais de crédito que alimentam o comércio. O volume de papéis podres nos bancos ainda é tão grande, observa Lamy, que a crise pode estar apenas na metade. Por isso, a prioridade absoluta do G20 será focar o sistema bancário de forma clara: “Limpar, limpar, limpar.” Em entrevista à Folha, Lamy reiterou o elogio recente que fez ao presidente Lula na luta contra o protecionismo, pela revogação de barreiras à importação, mas disse que o país precisa de mecanismos mais eficientes de facilitação de comércio. Para ele, a presença do Estado brasileiro no setor ainda é excessiva.

FOLHA – O premiê britânico, Gordon Brown, alertou que o mundo corre o risco de desglobalização. O sr. concorda?
PASCAL LAMY
- Depende do que você chama de desglobalização. Se é o encolhimento do comércio, é óbvio que acontecerá. Os números do comércio vão virar. Agora que a economia mundial terá crescimento zero ou negativo, o comércio terá contração de 6% ou 7%. Mas a globalização é muito mais do que comércio. É uma reforma total do processo produtivo, com um gerenciamento global de oferta e demanda.
Quando os EUA importam um Ipod da China por US$ 100, há US$ 5 de valor agregado chinês. Isso é globalização. Haverá menos Ipods exportados da China para os EUA. Mas isso não muda o fato de que os meios de produção mudaram, e que os países aproveitaram a sua vantagem comparativa. Veja o exemplo do Brasil em alimentos. As exportações de alimentos do Brasil vão cair com a queda da demanda. Mas isso significa que a vantagem comparativa do Brasil acabou? Não. O processo [da globalização] é bem mais sofisticado.

FOLHA – É irreversível?
LAMY
- Eu acho que sim. Mas é claro que os ganhos da globalização serão reduzidos, assim como a eficiência gerada pelas mudanças na produção. Com isso, cai o volume do comércio. Haverá menos crescimento econômico e, com isso, mais pobreza. É óbvio que os países em desenvolvimento, cuja dependência desses fluxos era maior, serão os mais atingidos.

FOLHA – Isso não pode gerar uma onda de desconfiança com o livre comércio internacional?
LAMY
- O impulso de curto prazo para a proteção é compreensível em tempos de dificuldades sociais e econômicas. Mas há muitas formas melhores de proteger as pessoas, seus empregos e o consumo dos pobres, do que o protecionismo. À primeira vista, algumas pessoas dirão que é melhor ser menos dependente do comércio. Mas a médio e longo prazos isso significa menos crescimento. Os países que se apoiaram mais no comércio cresceram 2% a mais do que a média. É claro que em tempos de recessão há um contrachoque. Mas isso não significa que um país deve renunciar a aumentar sua vantagem comparativa no comércio mundial.

FOLHA – Sua previsão [de retração de 7%] para o comércio mundial em 2009 é mais pessimista que a do FMI, de contração de 5%?
LAMY
- É a minha expectativa. Passo metade do tempo falando com gente que lida com comércio em vários continentes, e o meu faro diz que será terrível. A questão não é se o comércio mundial vai ou não encolher. A questão é se vai contrair por razões além da queda na demanda. E as outras razões podem ser o protecionismo e a falta de financiamento.

FOLHA – Cláusulas como o “Buy American”, do pacote de estímulo dos EUA, são um sinal preocupante?
LAMY
- De certa forma é inevitável. Políticos são eleitos por seus eleitorados, não pelos vizinhos. Eu digo a eles que isso não combina com o planeta de hoje, em que é preciso agir em conjunto. A boa notícia é que o protecionismo de alta intensidade, como o dos anos 30, está descartado, graças às disciplinas a que os países se submeteram na OMC. A má notícia é que ainda há espaço de ação para os membros da OMC. As pessoas tendem a focalizar as tarifas, mas há formas ocultas e sutis de protecionismo, como as barreiras não-tarifárias, licenças. Ocorre que mesmo o protecionismo de baixa intensidade pode ter um grande impacto, pois nossas economias estão 20 vezes mais interdependentes do que nos anos 30. Se eu fizer, outros imediatamente farão. É um tiro no próprio pé. Na OMC temos regras que proíbem subsídios à indústria e à agricultura. Mas não há regras específicas sobre serviços, como os bancários. É mais uma evidência de que o sistema financeiro não é suficientemente regulado. O órgão internacional de doenças animais é mais bem regulado que os bancos.

FOLHA – O sr. disse que o presidente Lula merecia um prêmio pelo antiprotecionismo. Mas na revisão da política comercial do Brasil (TPR, na sigla em inglês), apresentada há poucos dias, a OMC disse que o Brasil precisa se abrir mais.
LAMY
- Uma coisa é como as pessoas estão lidando com a crise. A outra é o TPR, que leva tempo. Eu citei o presidente Lula porque ele foi um exemplo de ação. Num dia o licenciamento estava no “Diário Oficial” e no outro ele cancelou tudo. Lula agiu de acordo com o que fala, foi coerente. Quanto ao TPR, houve algumas críticas, mas de modo geral o balanço é positivo, a gestão macroeconômica do Brasil é boa. Um exemplo é que o Banco Central reduziu os juros em plena crise. É um comportamento normal, mas sabemos que no passado ocorria o contrário. Ou seja, o país está se normalizando, embora os juros ainda estejam altos.
Uma área em que há problemas é a facilitação de comércio. Se eu tivesse que aconselhar o Brasil sobre sua política econômica, eu diria para criar um grande programa de facilitação de comércio. O fato de mais de 30% das linhas tarifárias, nesse país emergente e moderno, ainda precisarem de licenças não-automáticas para importação não combina. Há uma discrepância entre a força da economia e do comércio, e sua liderança na OMC, e o fato de 30% de linhas tarifárias ainda precisarem do carimbo de alguém em um escritório. É um problema administrativo, que por algum motivo persiste.

FOLHA – A presença do Estado é grande demais?
LAMY
- Não sou um especialista, mas isso me parece claro.

FOLHA – O Brasil está preparado para enfrentar a crise?
LAMY
- Não sei. Quem sabe quando teremos atingido o fundo do poço? Isso só acontecerá quando as pessoas estiverem convencidas de que o sistema financeiro está limpo. Quando olhamos os números do FMI, vemos que o volume de ativos tóxicos é superior a US$ 2 trilhões e o volume de perdas até agora é US$ 800 bilhões. Isso significa que ainda não estamos nem na metade da limpeza, que é um pré-requisito para o fim da crise. Digamos que um exportador chinês tem um carregamento pronto para os EUA.
Ele precisa de uma carta de crédito e recebe uma proposta de um banco dos EUA, mas a rejeita, pois teme que todos os bancos americanos irão quebrar. E acaba mantendo seu carregamento. Enquanto estivermos nessa situação, será difícil sair da crise. Precisamos limpar o sistema financeiro e essa tem de ser a prioridade do G20: limpar, limpar, limpar. Não importa como isso é feito, com bancos podres, nacionalização etc.

FOLHA – A queda no PIB do Brasil pode induzir ao protecionismo?
LAMY
- Não é o que o presidente Lula diz. Haverá pressões, tenho certeza. A questão é se você resiste às pressões em nome do bem coletivo, que é manter o comércio aberto durante essa crise. Isso é importante principalmente para os países em desenvolvimento. O principal estímulo para esses países não é seu orçamento, mas o comércio. É por isso que a conclusão da Rodada Doha é agora uma prioridade ainda maior do que no ano passado. Os efeitos da crise para o Brasil serão terríveis, mas muito piores nos países mais pobres. Parece óbvio que a África será uma das grandes vítimas da crise, apesar de não tê-la iniciado.

15/03/2009 - 10:46h ”Para os EUA, o Brasil é hoje parte da solução”

Roberto Abdenur: ex-embaixador do Brasil em Washington e consultor de empresas; diplomata destaca que imagem do País entre americanos mudou após a superação de problemas ligados à dívida externa

 

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, tem uma 'oportunidade histórica' para construir uma nova relação com a América Latina, estimou neste sábado o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ao defender uma maior aproximação de Washington com a região.               Foto:Saul Loeb/AFP

Gabriel Manzano Filho – O Estado SP

 


Embaixador brasileiro em Washington até novembro de 2006, o diplomata Roberto Abdenur é um otimista. Tendo presenciado o que chama de “química impressionante” entre os presidentes George W. Bush e Luiz Inácio Lula da Silva, e vendo de perto, como consultor, o diálogo entre empresários de lá e de cá, ele aposta em “progressos notáveis” no relacionamento entre Brasil e Estados Unidos – apesar da crise e de suas incertezas.

Não lhe parece crucial que Lula reviva com o presidente Barack Obama o mesmo grau de empatia anterior – não é segredo que Obama é mais formal e reservado. Mas lembra que a ligação entre nações é determinada mais por fatos concretos do que por laços pessoais.

Seu otimismo vem da crescente projeção mundial do Brasil, que contribuiu para amadurecer o diálogo. “Nosso País livrou-se da dívida externa. É hoje um credor dos EUA, comprando títulos do Tesouro americano. Tem empresários investindo lá”, resume. Em entrevista ao Estado, ele destaca: “Nessa relação, o Brasil passou a ser parte da solução.”

http://www.international.ucla.edu/media/images/abdenur-lrg.jpg
De que modo a chegada de Obama e da crise financeira vão afetar as relações Brasil-EUA?

O Obama tem um temperamento e uma postura diferentes da espontaneidade de Bush. Em novembro de 2005, vi de perto no encontro entre Bush e Lula a química impressionante entre eles. Mas, independentemente disso, a relação progrediu imensamente. O Brasil gozou até de certa deferência da parte americana.

Lula e Obama vão repetir a dose?

Não conheço Obama pessoalmente. Talvez ele seja mais formal, menos descontraído que o Bush. Mas é bom lembrar que o fator pessoal, embora importante, não é o definidor de uma relação entre nações. Esta se define em função de fatos concretos e circunstâncias objetivas, regionais e globais. Nesse sentido, acho que a relação pode ter progressos notáveis.

Por quê?

A base para isso foi dada nos últimos anos, por uma situação de convergência entre os dois. A crescente projeção do Brasil levou a um relacionamento que evoluiu. Passou a haver mais sofisticação no olhar recíproco.

No que consiste essa sofisticação?

Os EUA passaram a ver o Brasil, no contexto regional e no global, como um país de peso, com potencial para uma aproximação ampla. E o Brasil, num pragmatismo que é típico de Lula, passou a vê-los mais como um potencial parceiro do que como obstáculo ao seu desenvolvimento.

Antes era muito diferente?

Em outros períodos, os EUA se contrapunham ao Brasil em muitas coisas. O exemplo mais dramático foi a dívida externa. Hoje o Brasil a superou. O quadro mudou e o Brasil passou a ser parte da solução. É credor dos EUA na forma das reservas que temos em papéis do Tesouro. Pela primeira vez a solidez da nossa economia é um dado da questão.

Que progressos o sr. espera?

O melhor exemplo é o da energia, especialmente o etanol. O Brasil quer ampliar a cooperação bilateral e acho possível que o Congresso americano, em algum momento, adote uma redução gradual de tarifas para o setor. Os EUA vêm investindo muito em energias limpas e renováveis. O Brasil já é parceiro em pesquisa de hidrogênio. Somos um potencial fornecedor de petróleo. E há todo um pacote de atividades a definir, na facilitação do comércio entre os dois.

A crise não vai atrapalhar?

Ela tem impacto nos dois sentidos. Numa perspectiva mais ampla, ela tende a estimular a convergência entre os dois governos. De imediato temos a reunião do G-20, depois vem a questão do comércio – cedo ou tarde a Rodada Doha será retomada. E pela frente virão o debate sobre mudanças climáticas, sobre energia.

O sr. tem trabalhado em contatos empresariais com os dois lados. Dá para melhorar esse diálogo?

Há um potencial. O Brasil conta com uma figura influente na política americana, o senador Richard Lugar. Há alguns dias ele divulgou nota exortando o Senado a negociar um acordo de bitributação Brasil-EUA – um tema que está no horizonte imediato dos dois governos.

Lula admite atuar numa reaproximação entre os EUA e Chávez. Isso tem algum valor prático?

Há um valor diplomático e político no fato de o Brasil ter boas relações com Caracas. Mas uma coisa é o Brasil se apresentar como amigo – de um lado e de outro. Outra é proclamar, abertamente, que a Venezuela é um país democrático. O importante é lembrar que a Venezuela não é inimiga dos americanos. Sua estatal de petróleo, a PDVSA, tem quatro grandes refinarias nos EUA e mais de 15 mil postos. De modo geral, o que a diplomacia do Obama talvez pretenda seja atenuar as tensões na região, melhorar a atmosfera.

Qual o peso, nisso tudo, dos problemas internos americanos e do protecionismo?

Eles estão fazendo uma freada de arrumação. E não vão dar passos significativos, em termos de abertura comercial, enquanto não puserem a casa em ordem. Podem até ratificar alguns acordos comerciais pendentes, com a Coreia, a Colômbia e o Panamá. Quanto ao protecionismo, é preciso qualificar melhor essa história. A economia americana é muito aberta, as tarifas americanas são menos da metade das nossas, na média. Para o bem do consumidor e da inflação, nos Estados Unidos, o acesso a bens importados baratos é um dado positivo. E, como grandes exportadores, eles não têm interesse em precipitar uma guerra comercial.

Quem é:
Roberto Abdenur

Embaixador em Washington entre 2004 e 2006

Ministro das Relações Exteriores entre 93 e 95.

Aposentou-se em 2007, após 44 anos de atividade diplomática

15/03/2009 - 10:10h Obama e Lula discutem ação anticrise e tensão comercial

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/images/cp15032009.jpg


Líderes falam em traçar uma estratégia conjunta para reunião do G20, em abril

Presidente americano não se compromete a levantar barreiras sobre o álcool do Brasil e diz que tensão não acabará “da noite para o dia”

SÉRGIO DÁVILA – FOLHA SP

DE WASHINGTON

No primeiro encontro entre Luiz Inácio Lula da Silva e Barack Obama, no Salão Oval da Casa Branca, os presidentes falaram em traçar estratégia conjunta contra a crise econômica a ser apresentada na reunião do G20, em abril em Londres. Criticaram ainda a recente onda de protecionismo e prometeram avançar a agenda comum de biocombustíveis, apesar da negativa do americano em levantar barreiras tarifárias ao álcool brasileiro por ora.
Obama convocou o economista-chefe da Casa Branca, Lawrence Summers, para participar da parte ampliada do encontro, que no total durou cerca de duas horas, o dobro do tempo inicialmente previsto. O democrata defende uma ação global coordenada contra a recessão mundial atual.
A aliança entre o país mais rico do mundo e a maior economia da América Latina em torno da crise marca um novo grau na relação bilateral e o início oficial do trato entre os dois líderes, que até ontem não se conheciam pessoalmente.
“Pretendemos ter uma série de reuniões em nível ministerial nos próximos dias e semanas”, disse Obama, sobre o G20 (maiores economias do mundo), “para coordenar nossas atividades para fortalecer o crescimento econômico global”. Em encontro posterior com jornalistas brasileiros na sede da Embaixada do Brasil, Lula confirmaria a parceria.
“Foi muito importante a proposta de Obama para constituirmos um grupo de trabalho Brasil-EUA a fim de preparar um trabalho conjunto na reunião do G20″, disse.
Nos próximos dias, o ministro Celso Amorim (Relações Exteriores) e a secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, além de outros representantes do alto escalão dos dois governos, se encontrarão a fim de fazer um esbolo de plano de ação, que envolve, de acordo com Lula, regulação financeira e ações de estímulo fiscal.

Divergência
Num clima bem-humorado, em que ambos os líderes fizeram e ouviram brincadeiras, Lula e Obama pareceram concordar apenas sobre a crise. Ambos defenderam posições conflitantes em relação a medidas protecionistas e barreiras impostas ao álcool brasileiro nos EUA. Obama reconheceu que a questão do biocombustível “tem sido um ponto de tensão entre os dois países”.
“Isso não vai mudar da noite para o dia, mas eu acho que conforme nós continuemos a desenvolver as ideias, o comércio, a negociação em torno da questão do biodiesel, com o tempo essa fonte de tensão pode ser resolvida.”
Já Lula respondeu que não entendia como um combustível poluente como o petróleo não era taxado, mas uma fonte limpa como o álcool brasileiro era. “Mas não espero uma resposta imediata, isso é um processo”, disse o brasileiro, para emendar com um convite para que seu colega norte-americano andasse num carro de tecnologia flex quando visitasse o Brasil -viagem que o democrata confirmou que pretende fazer em breve. Obama respondeu que seu carro já era flex.
“Mas um dos problemas aqui nos EUA é que não temos postos suficientes com biocombustíveis, mas essa é a razão pela qual temos de mudar o sistema de distribuição aqui.”
Os EUA aplicam tarifa de US$ 0,54 por galão (cerca de 3 litros) de álcool brasileiro, o que inibe a entrada do produto. Brasil e EUA produzem 70% do álcool mundial. As exportações brasileiras de álcool somaram 5,16 bilhões de litros em 2008 -45,7% mais que 2007. O maior comprador foram os EUA -2,8 bilhões de litros.
Sobre protecionismo, Obama defendeu a medida “Buy American” (compre produtos americanos, em tradução livre), aprovada recentemente pelo Congresso, dizendo que sua equipe trabalhou para que a emenda não violasse as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC).
“Tenho certeza de que o presidente Lula vai dar passos semelhantes no Brasil para assegurar que não estamos retrocedendo no quesito do comércio mundial”, afirmou. Lula disse que os países estiveram muito próximos da conclusão da Rodada Doha de liberalização de comércio, mas “questões eleitorais nos EUA” atrapalharam.
Lula é o primeiro latino-americano a ser recebido na Casa Branca desde a posse de Obama, em janeiro, e o terceiro líder mundial, depois dos primeiros-ministros Taro Aso (japonês) e Gordon Brown (britânico). Nos últimos dias, assessores obamistas chamaram o país de “parceiro global”.
O brasileiro chegou à Ala Oeste da Casa Branca às 10h56 locais (11h56 de Brasília). Na comitiva, estavam os ministros Amorim, Dilma Rousseff (Casa Civil), o assessor Marco Aurélio Garcia e o embaixador Antonio Patriota. Eles participaram no salão Roosevelt da parte ampliada da reunião, que durou 50 minutos. Do lado americano, além de Summers, estavam o assessor de Segurança Nacional (NSC, na sigla em inglês), James Jones, um de seus vices, Mike Donilon, o número 2 do Departamento de Estado, James Steinberg, e o responsável pela América Latina do NSC, Dan Restrepo.
A meia hora seguinte os dois passaram no Salão Oval, o escritório presidencial, onde conversaram na presença dos intérpretes. Nos 40 minutos finais, os jornalistas entraram. De lá, o anfitrião levou Lula até a saída no jardim das Rosas.

15/03/2009 - 09:50h Presidente dos EUA avisa que barreira ao etanol não cai já

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Obama admite que discussão sobre biocombustível brasileiro no país é fonte de tensão; Lula diz que não esperava resposta imediata

Patrícia Campos Mello, WASHINGTON – O Estado SP

O presidente dos EUA, Barack Obama, admitiu ontem que a tarifa de importação sobre o etanol brasileiro não vai ser eliminada no curto prazo. “Eu sei que a questão do etanol brasileiro entrando nos Estados Unidos tem sido uma fonte de tensão entre os dois países”, disse Obama. “E isso não vai mudar da noite para o dia, mas na medida em que continuamos construindo nossa troca de ideias sobre o comércio de biodiesel, com o tempo essa fonte de tensão pode ser resolvida.”

Ao lado de Obama, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que não esperava mesmo uma resposta imediata e, com o tempo, o Brasil provaria que o biocombustível é uma “alternativa extraordinária”.

“Ninguém consegue mudar sua matriz energética da noite para o dia”, ressaltou o presidente brasileiro. “Graças a Deus o Brasil já detém há 30 anos essa tecnologia.”

Lula disse a Obama que iria levá-lo para andar de carro “flex fuel” quando ele fosse ao Brasil. “Você vai se sentir muito confortável”, disse o presidente brasileiro.

Obama contou que já teve um carro bicombustível nos EUA, mas ressaltou que o problema é que existem poucos postos para abastecimento no país.

Segundo Lula, os dois também conversaram sobre a necessidade de desenvolver projetos de biocombustíveis em terceiros países, como os da África.

15/03/2009 - 09:38h Lula encontra Obama e anuncia ação conjunta para cúpula do G20

Brasil e EUA vão constituir grupo com objetivo de apresentar plano na reunião que discutirá saídas para a crise

 

Patrícia Campos Mello, WASHINGTON – O Estado SP

 


Os presidentes Barack Obama e Luiz Inácio Lula da Silva vão constituir um grupo formado por Estados Unidos e Brasil para apresentar um plano de ação na reunião do G20, que vai discutir saídas para a crise mundial no dia 2 de abril, em Londres. “Foi muito importante a proposta de Obama para constituirmos um grupo Brasil-EUA para preparar um trabalho conjunto na reunião do G20″, disse Lula ontem, em entrevista coletiva, após o encontro que teve com o presidente americano na Casa Branca.

Segundo Lula, o grupo vai unir Brasil e Estados Unidos para debater que tipo de regulamentação financeira será necessária, como serão reconstituídos os fluxos de crédito internacional e como aportar mais recursos em instituições multilaterais para financiar os países em desenvolvimento.

Apesar de declarar a aliança com os EUA para o G20, Lula mostrou ter algumas divergências em relação à abordagem americana e voltou a dizer que os EUA são os maiores responsáveis pela crise financeira global. “A crise econômica surgiu no coração dos países ricos, eles têm a responsabilidade de achar saídas. Os Estados Unidos sabem que têm mais responsabilidade”, declarou.

Lula, Obama e suas comitivas se reuniram por quase duas horas para discutir a crise econômica mundial, o problema do protecionismo, biocombustíveis e as relações dos Estados Unidos na América Latina.

A comitiva de Lula chegou às 10h56 à Casa Branca, para o encontro que começou pontualmente às 11h. Ele foi o primeiro presidente latino-americano a se encontrar com o novo presidente americano.

No lado brasileiro, participaram da reunião a ministra Dilma Rousseff (Casa Civil), o ministro Celso Amorim (Relações Exteriores), o embaixador Antonio Patriota, o assessor para Assuntos Internacionais Marco Aurélio Garcia e a chefe de gabinete de Amorim, Maria Laura. No lado americano, James Steinberg, subsecretário de Estado; general James Jones, titular no Conselho de Segurança Nacional; Thomas Donilon, vice no Conselho; Dan Restrepo, assessor para assuntos de Hemisfério Ocidental do Conselho de Segurança Nacional; e Larry Summers, presidente do Conselho de Assessores Econômicos.

Lula comemorou a união com os EUA para encontrar soluções anticrise, mas manifestou ter posições diferentes das apresentadas até agora pelo governo americano. Ele defendeu, por exemplo, a nacionalização dos bancos como parte da solução da crise. “Aqui nos Estados Unidos falar a palavra estatização, nacionalização, é uma coisa difícil, mas concretamente precisamos fazer o dinheiro voltar ao mercado”, disse. “Se o povo não acredita no atual sistema financeiro, quem pode dar solução se não o Estado?” Ele também fez uma crítica aos resgates dos bancos. “A solução da crise não é a gente ficar dando dinheiro para os bancos.”

Na frente de Obama, Lula também se disse preocupado com o fato de os Estados Unidos estarem aumentando muito seu endividamento e reduzindo o crédito disponível para os países emergentes. “Isso terá de ser discutido no G20.”

O presidente americano quer ter o Brasil como aliado nas discussões anticrise do G20 em Londres. Os EUA defendem um pacote de estímulo coordenado entre os países do grupo. Já a Europa quer dar prioridade para uma maior regulamentação transacional do sistema financeiro, medida que agrada também ao Brasil. “Não podemos abrir mão de regulamentação financeira e vamos discutir a dimensão dessa regulamentação no G20″, disse Lula. Obama e o secretário do Tesouro, Timothy Geithner, defendem um aumento substancial dos recursos do FMI para que o fundo possa auxiliar economias em crise, como as do Leste Europeu, e viabilizar um estímulo fiscal global. Os EUA aumentariam sua contribuição para o FMI, mas esperam que outros países, entre eles Brasil, China e Índia, façam o mesmo.

Os dois presidentes se comprometeram a combater o protecionismo, mas jogaram um balde de água fria no avanço do comércio mundial. “Nosso objetivo é que pelo menos não haja retrocesso (no comércio)”, disse Obama, comentando o protecionismo. “Será difícil para nós concluirmos uma série de tratados de comércio em meio a uma crise econômica.” Obama afirmou que a secretária de Estado, Hillary Clinton, e Celso Amorim vão se encontrar para discutir formas de combater o protecionismo.

FRASES

Luiz Inácio Lula da Silva
Presidente do Brasil

“A crise econômica surgiu no coração dos países ricos, eles têm a responsabilidade de achar saídas. Os Estados Unidos sabem que têm mais responsabilidade”

“A solução da crise não é a gente ficar dando dinheiro para os bancos”

Barack Obama
Presidente dos EUA

“Nosso objetivo é que pelo menos não haja retrocesso (no comércio)”

“Será difícil para nós concluirmos uma série de tratados de comércio em meio a uma crise econômica”

THE NEW YORK TIMES

A versão online do jornal reproduziu, com texto de agências de notícias, Lula dizendo que Obama está “convencido” de que o encontro do G20 no mês que vem “pode resolver a crise econômica”. O jornal contou a brincadeira de Lula com Obama quando disse que não gostaria de estar na posição do americano. O texto termina falando do desejo manifestado por Obama de conhecer o Rio de Janeiro.

CLARÍN X

O jornal argentino trouxe a seguinte manchete em sua versão online: “Lula se encontra com Obama e defende que não se perca tempo apontando culpados”. O texto destacou a afirmação do brasileiro sobre a necessidade de os países buscarem uma solução para a crise no encontro do G-20. A reportagem tratou ainda da declaração de Lula sobre a “responsabilidade histórica” de Obama.

EL PAIS

O jornal espanhol destacou declaração de Obama de que os EUA “têm muito a aprender com o Brasil” no campo de energias renováveis. O texto fala do convite de Lula a Obama para que conheça um carro flex quando vier ao Brasil. “Viagem que o presidente americano disse que pretende fazer em breve”, destaca. A reunião, completou o jornal, “foi descontraída e com brincadeiras dos dois lados”.

BBC

O serviço online da inglesa BBC trouxe Lula pedindo a atenção de Obama para os “riscos” do protecionismo. A reportagem informa que o brasileiro defendeu ainda uma ação contra crise no encontro do G-20. O texto destaca que Lula foi um dos primeiros líderes internacionais a visitar Obama na Casa Branca, concluindo: “Um indicativo do crescimento da importância do Brasil na cena internacional.”

13/03/2009 - 10:45h Comitê rejeita corte de subsídios nos EUA

Em mais um sinal de protecionismo do Congresso, foi recusada proposta de Obama de cortar ajuda a fazendeiros com renda anual acima de US$ 500 mil

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WASHINGTON – O Estado SP

O Comitê de Agricultura da Câmara dos Representantes dos EUA rejeitou por unanimidade o projeto do governo Barack Obama que previa um corte no subsídio dado aos produtores agrícolas. A proposta de eliminar os pagamentos diretos aos fazendeiros com faturamento anual superior a US$ 500 mil reduziria quase pela metade o programa de assistência aprovado no ano passado dentro da Farm Bill, a lei agrícola.

O Comitê argumentou que o programa só pode ser mudado na próxima Farm Bill, em 2012. “A legislação de 2012 estará aqui antes do que muitos imaginam. Quaisquer mudanças no programa de benefícios podem – e devem – esperar até lá”, disse o órgão.

O representante republicano no Comitê, Frank Lucas, apoiou o presidente, o democrata Collin Peterson. Para ele, a proposta que poderia economizar US$ 10 bilhões no programa de subsídios é “mal concebida” e “ridícula”. Pela Farm Bill 2008, o governo americano deve desembolsar, em cinco anos, US$ 26 bilhões com “pagamentos diretos” aos fazendeiros.

PROTECIONISMO

Congressistas americanos pediram ao Tesouro que impeça bancos resgatados pelo pacote financeiro de investirem em outros países, em mais um sinal do protecionismo crescente do Congresso. O deputado democrata Dennis Kucinich afirmou que os investimentos devem ficar nos EUA. “Enquanto é difícil conseguir um empréstimo neste país, está certo que um banco que recebeu dinheiro do Tesouro arrume um empréstimo de US$ 8 bilhões para o governo de Dubai?”, perguntou a Neel Kashkari, encarregado do plano de resgate do sistema financeiro (Tarp) no Tesouro.

Kucinich se referia ao empréstimo do Citigroup para o governo de Dubai e ao investimento de US$ 7 bilhões do Bank of America no China Construction Bank Company. Os dois bancos receberam recursos do pacote de resgate.

Kashkari rebateu que restringir empréstimos a outros países poderia gerar retaliação. “Se impedirmos nossas instituições de fazer negócios no exterior, outros países podem dizer: “OK, a recíproca é verdadeira, nós não vamos deixar bancos estrangeiros fazerem empréstimos na América.”

PATRÍCIA CAMPOS MELLO COM AGÊNCIAS INTERNACIONAIS

FRASES

Dennis Kucinich
Deputado democrata

“Enquanto é difícil conseguir empréstimo, está certo um banco que recebeu dinheiro do Tesouro emprestar US$ 8 bilhões para o governo de Dubai?”

Neel Kashkari
Encarregado do Tarf

“Se impedirmos nossos bancos de fazer negócios fora, outros países podem dizer: ?OK, a recíproca é verdadeira”

13/03/2009 - 10:30h Comércio global pode cair 17%

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Banco Mundial prevê a maior queda em 80 anos

Jamil Chade, GENEBRA – O Estado SP

O comércio mundial terá em 2009 a maior queda em 80 anos, segundo estimativas do Banco Mundial. Para o secretário-geral da Conferência da ONU para Comércio e Desenvolvimento, Supachai Panitchpakdi, essa queda será de pelo menos 10%, chegando a 17% no pior dos cenários.

Ontem, o governo alemão declarou que as exportações em janeiro caíram 20%. Berlim é o maior exportador do mundo e sofre com a recessão generalizada. Em dezembro, já havia verificado queda de 7%, o suficiente para provocar uma retração de 2% no Produto Interno Bruto (PIB) do país. Já o Reino Unido verificou queda de 15% nas exportações para fora da Europa.

A Organização Mundial do Comércio (OMC) prevê que a redução das exportações no mundo será de 3%. Mas, no dia 31 de março, deve rever os números. “O número será feio”, antecipou Patrick Loew, economista-chefe da OMC. Para Supachai, que já ocupou o cargo de diretor-geral da OMC, o número da entidade já está “amplamente superado”. “Temos países importantes que tiveram quedas de mais de 20%.”

Pelos menos dois fatores têm impactado o comércio: a queda nas linhas de crédito aos países emergentes, que foi reduzida em 50%, e a queda na demanda, com a recessão nas maiores economias do mundo.

Isso se reflete em recuo generalizada das exportações. Na Ásia, plataformas de exportações sofrem um colapso. Na Coreia do Sul, as exportações despencaram 33% em janeiro. Em Cingapura, 35%, e, em Taiwan, mais de 43%. No Japão, a queda foi de quase 46% em janeiro. Na China, é a maior desde 1979, com 29%.

ABERTURA

O Brasil não quer esperar uma retomada do processo de negociação na OMC para lutar contra o protecionismo. Na reunião do G-20 (grupo dos 20 países mais industrializados), em abril, o governo quer uma declaração contra a imposição de barreiras. Mas acredita que a moratória declarada pelo G-20 de não impor medidas protecionistas não tem credibilidade.

12/03/2009 - 11:08h Lula pedirá a Obama menos protecionismo durante a crise global

http://en.epochtimes.com/news_images/2006-8-29-lula71709911.jpghttp://readwritenow.files.wordpress.com/2008/03/obama_sc_04_01_2007-731285.jpg

Presidentes do Brasil e dos EUA se encontrarão no sábado; brasileiro insistirá no fim de restrições à importação de etanol

Pauta do encontro incluirá o estreitamento de laços com países da América Latina; Planalto espera que ocorra “boa química” entre os dois

KENNEDY ALENCAR E LETÍCIA SANDER DA SUCURSAL DE BRASÍLIA – FOLHA SP

No primeiro encontro pessoal com o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva pretende propor que o americano se empenhe para concluir a Rodada Doha, evite medidas protecionistas da maior economia do mundo no momento de crise e tenha ação mais efetiva sobre os bancos- sem descartar eventual estatização temporária.
No Palácio do Planalto, há preocupação em que ocorra uma “boa química” no encontro deste sábado em Washington, no qual Lula pretende insistir no fim das restrições americanas à importação do etanol brasileiro e sugerir a Obama que faça gestos de boa vontade para a América Latina, sobretudo para países com forte sentimento anti-EUA.
Ontem, o ministro Celso Amorim (Relações Exteriores) demonstrou otimismo quanto a este aspecto, porque há, segundo ele, uma “afinidade indiscutível de pensamento” entre Lula e Obama. “Nós identificamos até semelhanças, às vezes, nas frases usadas em relação à esperança, à mudança. Há uma afinidade, eu diria, intelectual, que vai permitir que esta relação [entre EUA e Brasil], que já é boa, possa ser muito mais aprofundada”, afirmou.
Ministros e assessores de Lula disseram à Folha que o brasileiro tem na carreira aspectos simbólicos como Obama. Lula é um retirante que conheceu a pobreza, fez carreira sindical e chegou à Presidência. O americano é o primeiro negro a presidir os Estados Unidos.

Pauta

Na pauta de Lula e Obama, segundo Amorim, deve entrar um debate sobre “os remédios para a crise financeira”, o que inclui a necessidade de aumentar e facilitar o crédito para o comércio entre países em desenvolvimento. Segundo Marco Aurélio Garcia, assessor da Presidência para assuntos internacionais, “será uma agenda de poucos pontos”.
Lula pretende pedir a Obama que se empenhe e não faça exigências excessivas para viabilizar a conclusão da Rodada Doha, as negociações para liberalização do comércio internacional que estão paradas no âmbito da OMC (Organização Mundial do Comércio).
O brasileiro também aconselhará Obama a tomar uma atitude mais definitiva em relação aos bancos americanos que estão em dificuldade. A intenção é sugerir que ele não descarte a estatização.
No campo energético, Lula priorizará o álcool. O Brasil levará mais uma vez aos EUA o pleito sobre a necessidade de eliminar, ainda que gradualmente, as tarifas de importação sobre o álcool combustível.
Por ora, o governo manterá o discurso de que não tem como substituir a Venezuela como fornecedor de óleo cru aos EUA, já que não tem excedente para exportar. O petróleo do pré-sal ainda vai demorar a ser explorado em larga escala, e a prioridade do país é agregar valor -refinar aqui e criar uma indústria do petróleo.
O terceiro ponto da agenda desejada pelo Itamaraty será a América Latina. Hugo Chávez, presidente da Venezuela, pediu a Lula que o ajude a melhorar relação com EUA e o aproxime de Obama. Lula pretende fazer isso, mas num contexto de maior “conciliação” com a América Latina, no sentido de ajudar Obama a olhar para cá “com a lógica certa”, nas palavras de Amorim.
Sobre Cuba, o presidente deve sinalizar que são positivas as medidas para suavizar ou encerrar o bloqueio americano.
A ministra Dilma Rousseff (Casa Civil) integrará a comitiva de Lula nos EUA. A Casa Branca reservou pouco mais de uma hora para o encontro, segundo o chanceler Amorim.

12/03/2009 - 10:34h Na mídia

Toda Mídia – Nelson de Sá – FOLHA SP

Andrew Downie/time.com

QUE CRISE?
O correspondente foi ao Jardim Carumbé e ouviu da lojista Maria Irece da Silva uma avaliação do Brasil: “Ricos falam da crise, pobres, não”. No título do “cartão postal”, “Que desaceleração? O boom de negócios nas favelas do Brasil”

wsj.com

LULA A CAMINHO
O “WSJ” entrevistou Lula e ressaltou, no título, que ele “alerta contra protecionismo”.

Leia a integra da coluna Toda Mídia, na FOLHA SP

11/03/2009 - 12:08h ”Brasil é vítima inocente da crise”


Joseph Stiglitz: Nobel de economia; para economista, a situação brasileira pode piorar ainda mais, com os efeitos da recessão “exportada pelos EUA”

http://www.bloomberg.com/apps/data?pid=avimage&iid=iRkKk96Fd3Ds

Jamil Chade, GENEBRA – O Estado SP

O Brasil já é uma das “vítimas inocentes” da crise mundial e pode sofrer ainda mais, disse o prêmio Nobel de economia, Joseph Stiglitz, sem esconder a surpresa com a queda do PIB brasileiro. “O caso do Brasil mostra que os Estados Unidos conseguiram exportar sua recessão.” Em entrevista ao Estado, o economista que lidera uma comissão da ONU para avaliar a situação internacional ainda ataca o pacote de Barack Obama. “Não é grande suficiente.” Ontem, ele lançou o filme O mundo segundo Stiglitz, em que ele explica as injustiças da globalização.

O Brasil registrou uma queda do PIB no quarto trimestre. Como sr. avalia o impacto da crise nos países emergentes?

Os números são surpreendentes. Eu fui ao Brasil há poucos meses e me diziam que a crise não o afetaria. Parece que esse não é mais o caso. Muitos países emergentes estão se tornando as vítimas inocentes dessa crise. A ironia é que, enquanto o governo americano estava dando lições sobre regulações e instituições nos países emergentes, suas políticas eram um fracasso total. O problema é que, por causa disso, hoje a crise é severa em todo o mundo e países como o Brasil vão mesmo sofrer.

Por que a tese da descolagem entre emergentes e ricos não prevaleceu?

Isso era um mito. Agora, mesmo os países que fizeram a lição de casa, tiveram boas políticas e boa situação macroeconômica, vão ser afetados. Esse é o caso do Brasil. Há apenas uma consolação em relação ao Brasil: sem o que o País fez nos últimos anos, a crise seria muito pior. O problema é que, agora, a situação pode piorar ainda mais.

O pacote de Obama é suficiente para tirar o mundo da crise?

Não. Mas precisamos pôr as coisas em perspectiva. Bush estava paralisado e as coisas pioraram a cada dia sem ele fazer nada. Hoje, temos um pacote bem melhor do que a resposta em 2008. Mas não é suficiente e a crise vai ficar pior.

Qual deve ser a solução para países emergentes que podem ficar sem recursos para relançar suas economias?

Hoje, a preocupação é de que muitos emergentes vão precisar de ajuda para superar a crise. O dinheiro, se vier do FMI, terá de vir sem condicionalidades, como existiam no passado. Nos anos 90, as exigências do FMI incluíam ordens para elevar juros e cortar gastos. Isso levou à recessão. O pior é que tudo o que o FMI disse naquela época está sendo recusado pela Europa e pelos EUA hoje. Essa é a hipocrisia.

Uma das preocupações dos países emergentes ainda é o ressurgimento do protecionismo. Como o sr. vai lidar com isso. Está na hora de concluir a Rodada Doha?

Há um acordo global de não recorrer ao protecionismo. Mas muitos pacotes têm medidas protecionistas em sua base e quem mais sofrerá serão os países em desenvolvimento. Esse é o caso do “buy American”. Mas a realidade é que a Organização Mundial do Comércio é uma decepção. Hoje, vemos que mesmo a conclusão da Rodada não traria ganhos substanciais para os países emergentes.

Então, o que o sr. sugere no setor comercial?

O que deve ocorrer agora, diante da crise, é que os países ricos devem abrir unilateralmente seus mercados para os mais pobres do mundo. Os países mais miseráveis serão tocados pela crise, mas não têm dinheiro para relançar a atividade econômica.

Alguns falam em risco de uma desglobalização diante da queda do comércio e investimentos. Isso de fato pode ocorrer?

O processo é muito mais complexo. No filme que fizemos, decidimos ir à China, Botsuana, Equador e outros países. Queríamos mostrar benefícios que de fato a globalização trouxe. Mas mostrar que perdedores também existem. O que não se pode esquecer é que esses perdedores também existem nos Estados Unidos. Siderúrgicas quebraram e os empregos foram mantidos nos Estados Unidos graças a investimentos indianos. A globalização é muito mais complexa do que o fluxo de comércio. Agora, temos prefeitos americanos tentando convencer chineses a abrir fábricas nos Estados Unidos. Enquanto os Estados Unidos gastaram US$ 3 trilhões para ir à guerra no Iraque, em alguns lugares não se tem dinheiro para escola e saúde. A globalização moderna está criando coisas que nunca pensávamos que veríamos.

O sr. acreditava que a crise seria desse tamanho?

Eu previa que teríamos uma queda. Mas não sabia quando nem que seria desse tamanho. Há gente que pensa que, nos anos 30, as pessoas eram primitivas e que agora o mundo não deixará que a depressão ocorra. Muitas vezes escuto: não há perigo de depressão. Mas já tínhamos o conhecimento sobre a crise há dez anos e o FMI fez 40% da população da Indonésia perder o emprego. Conhecimento não é suficiente. Tem de usar politicamente agora.

11/03/2009 - 09:53h “Brasil está talhando um papel poderoso no comércio internacional”, escreve o Wall Street Journal

Lula diz que pedirá a Obama combate ao protecionismo

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John Lyons, The Wall Street Journal, de Brasília

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva declarou ontem que uma crescente onda de protecionismo por parte dos países ricos ameaça as economias do mundo emergente, e prometeu fazer lobby para que os Estados Unidos adotem um acordo de livre comércio com a Colômbia, ainda que isso possa prejudicar parte das exportações de seu próprio país aos EUA.

Numa entrevista ao Wall Street Journal que antecede uma visita de Estado aos EUA no fim de semana, Lula foi bastante crítico quanto a uma recente onda de medidas protecionistas em países que normalmente promovem o livre comércio. Um exemplo: a cláusula para compra de produtos americanos incluída no mais recente pacote de estímulo aprovado pelo Congresso dos EUA, ainda que ela tenha sido modificada para assegurar que o país cumpra regras de comércio internacional.

Lula advertiu que a crise financeira global ameaça prejudicar o desenvolvimento e reivindicou ajuda financeira e outras medidas para prevenir a maior disseminação da crise.

“Não podemos aceitar a ideia de que por conta da irresponsabilidade de banqueiros, e por conta da irresponsabilidade de uns governantes, que não fiscalizaram e não regulamentaram, o mundo pague a conta, sobretudo o povo mais pobre”, disse.

O Brasil é um defensor inusitado do comércio mais aberto. Altas tarifas de importação tornam muitas mercadorias caras demais para boa parte dos brasileiros. O país se opôs aos esforços americanos para unir o continente num enorme acordo de livre comércio, argumentando que as condições propostas pelos EUA eram duras demais para os parceiros comerciais latino-americanos.

O Brasil está pressionando agressivamente pela retomada das negociações no âmbito da Organização Mundial do Comércio por um acordo comercial global. Mas os argumentos de Lula ressaltam a profundidade com que a crise financeira está mudando o panorama até de países que pareciam estar sobrevivendo à crise melhor que outros. Lula disse acreditar que o Brasil evitará a recessão este ano, ainda que EUA, Europa e Japão se contraiam. Mas novos dados divulgados ontem mostraram a economia brasileira desacelerando rapidamente – com crescimento de apenas 1,3% no quarto trimestre de 2008, ante igual período do ano anterior.

Lula disse que conter o protecionismo é sua grande prioridade numa reunião que tem programada com Obama, no sábado. “Qualquer protecionismo poderá, no curto prazo, parecer favorável, mas no longo prazo será uma lástima para os países, e sobretudo na economia global, levando em conta necessidades que os países mais pobres têm de vender produtos para os países mais ricos.”

O ex-líder trabalhista tem se posicionando cada vez mais como um defensor global de países emergentes como África do Sul, Índia e outros em fórums como a reunião dos líderes do Grupo das 20 maiores economias em Londres, no mês que vem.

Na reunião com Obama, disse Lula, ele também planeja discutir propostas que podem ser debatidas na reunião do G-20. Entre essas medidas, disse Lula, estão a revitalização das negociações na Organização Mundial do Comércio, maior compromisso em evitar políticas comerciais protecionistas, diretrizes mais rígidas para a regulamentação de instituições financeiras, incluindo limites à alavancagem, e compromissos por parte dos países ricos de aumentar o crédito para exportações e outras atividades nas nações em desenvolvimento.

Não muito tempo atrás, a tentativa do Brasil de influenciar questões globais poderia ser ignorada. Mas o país, maior exportador mundial de açúcar, café, minério de ferro, carne e frango, está lentamente talhando um papel poderoso em áreas como comércio internacional.

As relações com o Brasil estão se tornando uma prioridade para os EUA. Enormes descobertas de petróleo no litoral podem fazer do país um importante fornecedor do combustível para os EUA num momento em que a produção do México e da Venezuela declina. O Brasil também pode exercer um papel importante na melhora das relações dos EUA com a América Latina, que atingiu novos pontos baixos no ano passado quando a Venezuela e a Bolívia expulsaram embaixadores americanos e o Equador declarou que acabaria com o uso pelos EUA de uma base militar no país.

Lula, por exemplo, disse que está exortando o presidente venezuelano, Hugo Chávez, a reduzir a intensidade de sua retórica anti-EUA e ver a mudança na Casa Branca como uma oportunidade de reformar as relações. Em contraparte, ele está reivindicando que os EUA também desmanchem o embargo comercial contra Cuba, uma mancha há bastante tempo nas relações regionais.

“Não existe mais nenhuma razão humana, sociológica ou política (para manter o embargo a Cuba). Precisa ter um olhar pelo futuro, e não pelo passado. Não podemos ficar fazendo política no século XXI sobre os fatos que (aconteceram) no século 20.”

Os EUA já declararam que esperam reduzir as restrições a viagens e transferências de dinheiro para Cuba.

Operário que não concluiu os estudos e perdeu um dedo num acidente de trabalho, a inusitada ascensão de Lula ao poder lhe dá uma enorme reserva de boa vontade numa região com uma profunda divisão entre ricos e pobres.

Embora boas, as relações entre os EUA e o Brasil são relativamente subdesenvolvidas. A pedra angular é um acordo para desenvolver tecnologia para biocombustíveis – uma área na qual o Brasil é forte.

O passado pobre de Lula aumentou as expectativas de que ele será capaz de estabelecer um relacionamento especialmente produtivo com Obama, cujo próprio passado não pressagiava o poder. O brasileiro foi efusivo em seus elogios ao presidente americano.

“Rezo por Obama mais do que por mim mesmo”, disse Lula. “As políticas de Bush para o Brasil eram dignas. Mas acho que podem ser infinitamente melhores com Obama.”

O desdém de Lula por bancos de investimento remonta ao período imediatamente posterior a sua eleição, em 2002, quando firmas dos EUA e da Europa puxaram uma forte baixa dos títulos da dívida externa brasileira, prevendo que Lula arruinaria a economia. A economia brasileira permaneceu sobre bases sólidas, e seu sistema financeiro está intacto.

De fato, Lula disse que a crise ofereceu uma oportunidade para se criar uma economia na qual os financistas de Wall Street tenham um papel menor.

“O mundo será menos falso”, disse. “A economia que vai contar é a que produz milho, arroz, um parafuso, um carro, um terno, um relógio.”

06/03/2009 - 09:30h Presidente a empresários: “Não me peçam para fazer com que os trabalhadores paguem a crise arrochando os salários”

 

Lula descarta contingenciar verbas e quer aumentar gastos contra a crise

Ribamar Oliveira, BRASÍLIA – O Estado SP

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse ontem que a crise não será vencida com o contingenciamento das verbas orçamentárias, com o corte de gastos ou de salários, mas com ousadia, com investimentos e com disponibilidade de crédito.

“Nós não teremos medo de dizer em alto e bom som: tudo o que tem que acontecer nessa crise, não é o presidente da República se trancar em seu gabinete, os ministros resolverem fazer contingenciamento cada vez maior, cada vez gastar menos, cortar salários, em nome de que a gente vai vencer a crise. Não”, afirmou Lula, durante discurso na abertura de um seminário realizado pelo Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES). “Nós iremos vencê-la diferentemente de outras crises. Essa é com investimentos, é com ousadia, é com coragem, é disponibilizando crédito”, acrescentou.

Lula chegou a dizer aos participantes do seminário – empresários, em sua maioria – que não lhe pedissem “para fazer com que os trabalhadores paguem a crise outra vez, arrochando os salários”.

O presidente afirmou que “agora é a hora da gente aproveitar essa crise para fazer o que nós não tivemos coragem de fazer nos últimos 20 anos”. Lula não chegou a explicitar que coisas seriam essas, mas insinuou que elas envolvem gastos públicos. “Nós não temos problemas de déficit público, pois o País está totalmente equilibrado”, afirmou.

As palavras de Lula mostram que a área econômica está seguindo orientação do presidente quando estuda reduzir o superávit primário de 3,8% para até 2,8% do Produto Interno Bruto (PIB), conforme o Estado antecipou na quarta-feira.

Como a crise derrubou a receita tributária, a área econômica acredita que somente com a redução do superávit primário o governo poderá manter os investimentos públicos e pagar as despesas decorrentes do aumento de 12% do salário mínimo e dos reajustes ao funcionalismo concedidos no ano passado.

Em seu discurso no seminário , o ministro Guido Mantega (Fazenda) foi contraditório quando tratou da questão fiscal. Inicialmente, o ministro disse que “se enganam aqueles que acham que iremos enfraquecer a política fiscal”. Segundo ele, o governo vai cortar gastos correntes para poder compensar a queda nas receitas derivada da crise econômica. Depois, disse que com o acúmulo de solidez fiscal nos últimos anos, o Brasil pode adotar uma política fiscal anticíclica.

Lula voltou ontem a defender a estatização dos bancos pelos países ricos , como forma de resolver a crise financeira e restabelecer o crédito internacional. Lula criticou ainda a volta do protecionismo comercial em vários países. “Não podemos passar do vale-tudo financeiro, que jogou o planeta na situação atual, para um vale-tudo protecionista, que certamente nos jogaria numa crise ainda pior do que aquela que resultou na Segunda Guerra”, disse.

COLABOROU FABIO GRANER

05/03/2009 - 16:00h Recessão e protecionismo: as lições de erros do passado

http://www.constelar.com.br/constelar/122_agosto08/imagens122/desempregados_1933.jpg

*Marcelo Piancastelli – VALOR

Numa viagem de estudos aos Estados Unidos como estudante de economia, a convite do Departamento de Estado, visitei Pittsburgh, na Pensilvânia, região de alta concentração da indústria siderúrgica americana. Diversas vezes, em diferentes reuniões, ouvi lamúrias contra a importação do aço brasileiro. Uma, em particular, ficou gravada até hoje. Jantando na casa de um operário da US Steel, eu o ouvi reclamar, durante todo o tempo, da situação da siderurgia americana e, em especial, da situação de colegas desempregados por conta das importações de aço brasileiro.

Já se passaram algumas décadas. A indústria siderúrgica americana, desde então, fez progressos, mas não se tornou competitiva mundialmente. Em se tratando de Estados Unidos, proponente líder do livre comércio, torna-se difícil alegar falta de talentos, de tecnologia, de capital e de mercado, ou culpar uma legislação trabalhista ultrapassada. Mas, da mesma forma, recrudescem todas aquelas reclamações protecionistas típicas de setores que não conseguem se tornar competitivos.

Eis que, no pacote de medidas contra a recessão proposto ao Congresso pela atual administração do presidente Obama, apareceu um ardiloso artigo coibindo importações de aço que traz à tona o mesmo velho e conhecido lema do protecionismo: salvaguardar empregos em indústrias sem condições de competir no mercado mundial. Em épocas de recessão há sempre esta tentação. As discussões das medidas propostas pelo governo americano no Senado se arrastaram mas, finalmente, acertou-se que apenas aquelas importações resguardadas por acordos internacionais estarão a salvo das novas medidas protecionistas. Ou seja, prevaleceu o protecionismo.

Aqui no Brasil, da mesma maneira, houve também tentativa semelhante. Por meio da conhecida “licença prévia de importação”, tentou-se implantar conhecidos e velhos controles não-tarifários sobre as importações. Iniciativa, felizmente, abortada a tempo diante da forte reação gerada.

A iniciativa americana atual, por sua vez, se assemelha mais àquelas velhas ideias e sequer se aproximam das “novas ideias de economistas mortos”! Isto nos remete a rever lições do passado. As lições da crise de 1929 fazem parte, hoje, de nosso dia-a-dia. Sabe-se que o protecionismo americano, juntamente com outros equívocos na política monetária, apenas prolongaram a recessão, que durou 10 anos e só terminou por conta do início da Segunda Guerra Mundial.

Algumas medidas contra a recessão que se tenta implantar agora, em 2009, são semelhantes àquelas que foram adotadas há quase 80 anos. O presidente Hoover ordenou aos governadores que expandissem os gastos públicos até onde possível. Os gastos públicos, em abril de 1930, estavam em nível mais elevado dos cinco anos anteriores.

O presidente Hoover elevou os preços dos produtos agrícolas como um estímulo ao aumento da produção, levando a uma superprodução.

Finalmente, em junho de 1930, chegou-se ao protecionismo. Um senador de Oregon, Willis Hawley, e outro de Utah, Reed Smoot, apresentaram um projeto de lei, que acabou aprovado e se tornou conhecido como Lei Smoot-Hawley. Tal lei impôs as mais altas tarifas da história americana.

Numa tentativa de amainar as reações contrárias, o presidente Hoover determinou que a aplicação da lei fosse conduzida por um comitê suprapartidário, com representação igualitária entre republicanos e democratas, cujo encargo seria flexibilizar as tarifas quando conveniente. Enquanto isso, as perspectivas da economia americana se deterioravam. O desemprego passou de 3% no outono de 1929 para 9% ao início do ano seguinte.

Em maio de 1930, 1.208 economistas, Irving Fisher entre eles, assinaram uma carta aberta ao presidente alertando-o sobre a necessidade de vetar tal legislação protecionista.

Os termos da carta aberta foram claros: “Nós estamos convencidos de que o aumento das restrições aduaneiras serão um erro. Elas operam em geral para aumentar os preços que os consumidores domésticos terão que pagar. Ao se aumentar os preços, induzirão custos de produção mais elevados e assim, vão compelir os consumidores a subsidiar a perda e a ineficiência na indústria. Ao mesmo tempo, tais restrições forçariam o consumidor a pagar por maiores lucros das firmas estabelecidas. Poucas pessoas poderiam ganhar com tais mudanças”.

Os economistas assinantes da carta aberta previam: “Muitos países nos vão cobrar em espécie”. Com relação à redução de desemprego, os economistas advertiram os republicanos, membros do Congresso que propunham tal lei protecionista, que “não se pode aumentar o emprego restringindo o comércio”.

Os produtores americanos de algodão, carne de porco, gordura animal e trigo passaram a sofrer consequências do protecionismo com queda de suas exportações.

O jornal parisiense “Le Quotidien” publicou um editorial intitulado “Pode Mr. Hoover limitar a catástrofe que os protecionistas americanos estão preparando?”. O primeiro-ministro francês à época, Aristide Briand, sugeriu a formação de um “mercado comum europeu” para fazer face à iniciativa americana.

Hoover recebeu alertas da Universidade de Stanford, sua “alma mater”, e 106 telegramas de executivos da General Motors em todo o mundo o advertiram que o protecionismo isolaria os Estados Unidos e aprofundaria a recessão.

Apesar de todas as advertências, o Congresso americano deu a Hoover o que ele queria. Hoover promulgou a lei em junho de 1930, assinando-a com seis penas de ouro, em homenagem aos seis líderes republicanos que se empenharam em aprová-la.

Já se sabe o final da história: a economia americana padeceu de uma recessão mais longa que o necessário – durou mais de 10 anos e só terminou quando a economia foi alavancada pelo início da Segunda Guerra Mundial.

O protecionismo imposto pela Lei Smoot-Hawley provocou retaliações protecionistas por um grande número de países em todo o mundo. O protecionismo privou os EUA de mercados antes conquistados e aprofundou a recessão. A França e a Itália impuseram tarifas para os automóveis americanos, Austrália e Índia fixaram novas tarifas para produtos americanos. O Canadá elevou suas tarifas três vezes e atingiu, de início, 125 produtos americanos. A Suíça, desgostosa com as tarifas sobre relógios, boicotou importações americanas.

Outras consequências indiretas, inclusive sobre os pagamentos dos débitos de outros países junto ao governo americano, exigirão um espaço muito maior que o disponível no momento para serem comentadas

*Marcelo Piancastelli é economista do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

05/03/2009 - 10:28h UE impõe tarifa à importação de biodiesel dos EUA, diz ‘FT’

Comitê de comércio da Comissão Europeia determinou tarifas entre 29 e 41 euros por 100 quilos do combustível

Deise Vieira – Agência Estado

SÃO PAULO – A União Europeia anunciou tarifas temporárias antidumping e anti-subsídios sobre a importação de biodiesel norte-americano, informa nesta quinta-feira, 5, o jornal ‘Financial Times’.

O comitê de comércio da Comissão Europeia determinou tarifas entre 29 e 41 euros por 100 quilos por um período inicial de seis meses, de acordo com o jornal.

A comissão deve publicar no dia 12 de março uma decisão formal sobre as tarifas, que devem entrar em vigor no dia seguinte. Segundo o Financial Times, após um período inicial, as tarifas podem ser ampliadas para até cinco anos. As informações são da Dow Jones.

03/03/2009 - 11:37h Lula: prêmio antiprotecionista

Diretor-geral da OMC diz que País resiste à tentação

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Jamil Chade – O Estado SP

O diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), Pascal Lamy, aponta o Brasil como o exemplo máximo de um governo que está resistindo às tentações protecionistas, indicando que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva mereceria até “um prêmio”. Para Lamy, Lula superaria o presidente americano, Barack Obama, que ficaria em segundo lugar por estar tentando criar pacotes de socorro que respeitem as leis internacionais.

Para Lamy, que está na Austrália, o governo brasileiro seria o “exemplo” de decisões equilibradas em relação ao comércio.

Em sua avaliação, a tentação ao protecionismo é compreensível diante da crise e de demissões em massa. Mas alertou que barreiras podem ser um “tiro no pé”. “Todos querem proteger empregos, pensões, ou seu dinheiro, mas o protecionismo não funciona “, afirmou.

Lamy defendeu que a única forma de sair da crise é insistir em aumentar o comércio e os gastos. Países como Japão, Coreia do Sul, Austrália e Nova Zelândia estão evitando medidas protecionistas.

Mas todos os elogios vão para o comportamento do Brasil. “Se houvesse um prêmio para esse período, acredito que o presidente Lula teria de receber”, disse. Lamy quer usar o Brasil como exemplo diante da decisão do governo de abandonar as licenças que estabeleceu às importações, em janeiro.Diante da reação generalizada, Lula acabou retirando a nova barreira.

CRÍTICAS

Mas nem todos apontam o Brasil como exemplo. Na próxima segunda-feira, o País terá sua política comercial questionada na OMC.Governos de todo o mundo enviaram mais de 530 perguntas ao Brasil sobre sua política comercial e o governo agora terá de dar uma resposta.

O questionamento não significa a abertura de uma disputa comercial contra o Brasil.

Mas parte dos ataques se referem à elevação de tarifas no Brasil. A média de impostos passou de 10,4% para 11,5%. Isso ocorreu diante da elevação de tarifas de importação para têxteis de calçados.

26/02/2009 - 11:34h Crise afunda economia espanhola

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Após anos de crescimento alto, puxado por abundância de crédito, desemprego explode no país

Adoção do euro limita ação do governo; empresários querem reforma trabalhista e economistas preveem retomada lenta e dolorosa

VICTOR MALLET DO “FINANCIAL TIMES” – FOLHA SP

Quando um dos maiores clubes de futebol de um país tão fanático pelo esporte quanto é a Espanha deixa de pagar seus jogadores, é um aviso de que algo pode estar drasticamente errado em uma das economias mais bem sucedidas na Europa.
David Villa é um dos jogadores do Valencia cujo último salário está atrasado por tempo indeterminado pelo clube, fortemente endividado. Villa é apenas mais um entre o número crescente de vítimas, ricas e pobres, de um mergulho na recessão que se encaminha para ser uma das piores da Europa.
As tensões estão começando a se manifestar na sociedade espanhola, normalmente tranquila e tolerante. Vendedores de rua e africanos residentes no país fizeram duas manifestações neste mês em Lavapiés, em Madri, protestando contra o alegado racismo e as investidas policiais; subsequentemente, veio à tona que a polícia da capital recebeu cotas semanais de imigrantes ilegais que deve prender. Em Andaluzia, no sul, milhares de imigrantes sem comida ou abrigo invadiram cidades procurando em vão trabalhos na colheita de azeitonas já tomados por espanhóis.
Guindastes estão parados em obras na costa espanhola e nas periferias. Muitas lojas pequenas no centro de Madri fecharam. Um dono de construtora arruinado é acusado de cinco assaltos a bancos.
“Não vamos ter uma recessão. Vamos ter uma depressão, como nos anos 1930″, diz o economista Lorenzo Bernaldo de Quirós, presidente da Freemarket International Consulting. Quirós é um dos analistas mais pessimistas, mas se justifica apontando previsões quase consensuais: o desemprego atingindo 19% até o final do ano (contra mais de 14%, ou 3,3 milhões de pessoas, hoje); um déficit orçamentário de ao menos 6,5% do PIB; contração econômica de 3% ou mais em 2009, e, possivelmente, uma deflação. “Somado à crise financeira, este é o quadro perfeito para definir uma depressão”, conclui.
Essa depressão pode atingir a economia espanhola -uma das dez maiores do planeta e a quarta da zona do euro- com tanta gravidade que pode fazê-la perder muitos dos ganhos conquistados na década passada desde a adoção do euro.
Até a chegada da crise global, a Espanha tinha desempenho elogiável. Seu retorno à democracia e à prosperidade após uma guerra civil e a ditadura Franco é, afinal, uma das grandes histórias de sucesso da Europa do pós-guerra. Nos dez anos terminados em 2006, o crescimento real chegou à média anual de 3,7%, contra 2,1% na zona do euro. O PIB per capital subiu para mais de 90% da média dos 15 principais países ocidentais da União Europeia.
Essa expansão ajudou a gerar mais de 5 milhões de empregos e a atrair mais imigrantes, como proporção relativa à população, que qualquer outro país da Europa. A construção civil, financiada pelo crédito fácil, foi o motor principal da economia durante uma década -e aí está a origem das dificuldades. Como nos EUA e no Reino Unido, a bolha imobiliária se rompeu, com grande força.
Estimados 1 milhão de casas e apartamentos recém-construídos estão desocupados. A construção residencial -que respondeu diretamente por 7,5% do PIB em 2006- está quase parando. O lobby que representa 14 grandes construtoras anunciou que não iniciou a construção de uma única casa nova em dezembro e só 135 em todo o quarto trimestre de 2008. “Durante 15 anos, o padrão de crescimento da economia espanhola foi baseada em mercados financeiros com alto grau de liquidez – e liquidez barata”, diz Rafael Doménech, economista-chefe para a Europa do banco espanhol BBVA. “Foi ótimo para a economia espanhola que as famílias e as empresas usassem essa liquidez para aumentar sua dívida.”
E foi o que elas fizeram. A dívida do setor privado dobrou em uma década, chegando a 120% do PIB. Com boa parte do crédito vindo de aposentados alemães e outros poupadores, através de títulos de crédito espanhóis avalizados por hipotecas, o déficit de conta corrente chegou a mais de 10% do PIB. Com o novo ambiente dos mercados financeiros, diz Doménech, “não podemos esperar usar o mesmo modelo de crescimento dos últimos dez anos”.
Teoricamente, a Espanha poderia substituir a atividade da construção com o aumento da produção em outros setores. O país é uma das economias mais abertas do mundo, e suas empresas nos setores de moda, energia renovável, infraestrutura e bancos têm sido investidores externos e exportadores ativos. Mas outras economias não estão em condições de assumir o lugar da construção. A indústria automotiva espanhola, responsável por um quinto das exportações do país e 6% de seu PIB, está lutando para fazer frente à queda na demanda doméstica e externa. O turismo, que movimenta 50 bilhões, caiu 3% no ano passado -a primeira queda anual desde 97.
O premiê socialista José Luis Rodríguez Zapatero seguiu o mesmo caminho que outros líderes na crise, anunciando uma enxurrada de planos de gastos governamentais, numa tentativa de combater o aumento do desemprego e evitar uma depressão prolongada. Miguel Sebastián, seu ministro da Indústria, vem flertando com o protecionismo -embora negue a acusação-, lançando uma campanha de “compre produtos espanhóis”.
Mas não há certeza alguma de que as medidas de gastos -algumas anunciadas apesar das objeções do ministro das Finanças e ex-responsável pela restrição fiscal, Pedro Solbes- terão os efeitos desejados. O que é certo é que a margem fiscal de manobra do governo, com o déficit orçamentário projetado já sendo mais que o dobro do teto de 3% do PIB permitido pela UE, é fortemente limitada. Embora a dívida pública acumulada ainda seja relativamente modesta, a deterioração das finanças públicas levou a agência de classificação Standard & Poor’s, no mês passado, a tirar da Espanha sua classificação AAA.
Em crises anteriores, a Espanha simplesmente desvalorizou a peseta para aumentar a competitividade das exportações e atrair investimentos -o caminho seguido agora pelo Reino Unido-, mas uma desvalorização unilateral deixou de ser uma opção possível para um membro da zona do euro.
Quase todos os executivos, economistas ortodoxos e políticos da oposição de direita concluem que a única maneira de a Espanha emergir da crise mais forte -ou sobreviver a ela dentro dos limites da zona do euro- é aumentar sua produtividade e competitividade, adotando reformas estruturais. O que querem dizer é que empregados possam ser contratados e demitidos mais facilmente, a um custo menor, e que os salários sejam definidos por empresas, não por setores.
Na semana passada, o presidente do Banco Central, Miguel Angel Fernández Ordóñez, irritou o governo ao descrever a reforma trabalhista como a medida “mais importante” contra o desemprego.
Enquanto isso, o fim da alta performance econômica deixa a dúvida: será que o país poderá retomá-la ao final da crise global? Para os economistas, a construção foi uma parte tão importante que a recuperação inevitavelmente será lenta. “A economia espanhola levará cerca de sete anos para crescer a 3% ao ano novamente”, diz Bernardo Quirós. “Os espanhóis perderão metade de sua riqueza. É horrível.”

Tradução de CLARA ALLAIN

21/02/2009 - 10:08h Roach prevê contração de 1% na economia global

Para o presidente do Morgan Stanley na Ásia, em 2010 poderá haver expansão de 2,5% a 3%, haverá nova retração no ano seguinte

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Cláudia Trevisan – O Estado SP

A economia global deverá encolher 1% este ano, na primeira queda desde o fim da 2ª Guerra Mundial, enquanto o o crescimento da China ficará em torno de 5,5%, o menor em 19 anos. Essas previsões foram feitas ontem pelo presidente do Morgan Stanley na Ásia, Stephen Roach, célebre por alertar para o potencial devastador dos desequilíbrios globais muito antes de a crise atual ter início.

Para ele, a situação poderá melhorar em 2010, com expansão mundial entre 2,5% a 3%, impulsionada principalmente pelos investimentos em infraestrutura previstos nos pacotes de estímulo de Washington e Pequim.

Mas a economia poderá perder fôlego novamente no ano seguinte. O resultado serão três anos (2009-2011) com crescimento médio mundial de 2%. “Teremos contrações simultâneas em todos os grandes países ricos e recessão ou desaceleração no mundo em desenvolvimento”, disse Roach, durante encontro com um grupo de jornalistas em Pequim.

Segundo ele, a economia chinesa está em pior situação que o crescimento de 6,8% no quarto trimestre de 2008 leva a crer. Na comparação com o trimestre anterior, o ritmo de expansão ficou próximo de zero e deverá permanecer assim no início de 2009, acredita.

Pelo menos desde 2004, o economista sustentava que o modelo de crescimento norte-americano, amparado no consumo e no endividamento excessivos, era insustentável e terminaria em uma severa recessão. Seu cenário demorou a se concretizar, mas seus efeitos se espalharam com rapidez impressionante pelo mundo a partir de setembro de 2008.

“Os consumidores norte-americanos gastaram muito além do que podiam nos últimos 14 anos e o consumo atingiu o recorde de 72% do PIB em 2007″, ressaltou. Agora, Roach espera um período de 3 a 5 anos de “redução significativa” no crescimento do consumo nos Estados Unidos.

Washington e Pequim estarão no centro dos ajustes necessários para a superação da crise, observou o economista. “Os Estados Unidos precisam poupar mais e consumir menos, enquanto a China precisa poupar menos e consumir mais.”

PROTECIONISMO

O grande risco é que a recessão nos Estados Unidos leve o Congresso e o governo a adotarem medidas protecionistas, algo já insinuado na cláusula do pacote de US$ 787 bilhões que exige que o aço e o ferro utilizado em projetos governamentais sejam produzidos nos Estados Unidos. A China reagiu e disse que a medida poderá minar o relacionamento entre os dois países.

Na terça-feira, Roach, em depoimento no Congresso americano, sustentou que medidas protecionistas vão agravar os problemas dos Estados Unidos e do restante do mundo. “Nenhuma relação bilateral é mais importante para o mundo do que a existente entre os Estados Unidos e a China e será trágico se esse relacionamento for prejudicado”, disse Roach.

No Congresso, ele lembrou que a China é o principal financiador do colossal déficit em conta corrente americano e afirmou que Pequim poderia retaliar, se ausentando dos leilões de venda de títulos do Tesouro.

“Essa não é uma consideração trivial para um país que precisa de cerca de US$ 3 bilhões de fluxo de capital a cada dia para financiar seu déficit. Se a China deixar de prover sua parcela de capital para a América, a cotação do dólar poderá despencar e a taxa de juros real de longo prazo, subir.”

No fim de 2009, a China tinha US$ 696,2 bilhões em papéis do Tesouro dos EUA, uma participação de 22,3% na dívida total, de US$ 3,12 trilhões.

01/02/2009 - 15:26h Governo britânico adverte contra greves ‘protecionistas’

Miles de trabajadores británicos se manifiestan contra los trabajadores extranjeros

AE-AP – Agencia Estado

LONDRES – Diante de uma onda de greves e protestos, o governo da Grã-Bretanha afirmou hoje que entende a frustração dos trabalhadores do setor de energia com a contratação de estrangeiros, mas advertiu contra o protecionismo. O secretário (ministro) dos Negócios, Peter Mandelson, disse que compreende a preocupação dos trabalhadores quanto a seus empregos num momento de recessão, mas ressalvou que o protecionismo “seria uma maneira certa de transformar uma recessão numa depressão”. “Seria um grave erro recuar de uma política na qual, pelas normas, as companhias britânicas podem operar na Europa e empresas europeias podem operar aqui.”

Dezenas de milhares de trabalhadores britânicos do setor de energia fizeram greves-relâmpago e manifestações em vários lugares da Grã-Bretanha nos últimos dias, em protesto contra a contratação de trabalhadores portugueses e italianos para a construção de uma refinaria de US$ 280 milhões, da empresa petrolífera francesa Total, no nordeste da Inglaterra.

Os protestos começaram quando foi anunciado que a construtora Irem, da Itália, estava contratando apenas trabalhadores italianos e portugueses, num momento em que a taxa de desemprego no Reino Unido alcançou 6,1%. “Não se deveria permitir que nenhuma empresa discriminasse contra qualquer um com base em onde as pessoas nasceram. Não se pode simplesmente dizer que somente italianos e portugueses podem se inscrever para empregos, como aconteceu neste caso”, disse Paul Kenny, secretário-geral do sindicato GMB, dos petroleiros britânicos.

Ontem, cerca de 700 funcionários da refinaria de Grangemouth, na Escócia, fizeram uma paralisação de protesto. Cerca de 400 trabalhadores e simpatizantes fizeram uma manifestação do lado de fora da refinaria da empresa suíça Petroplus em Wilton, no norte da Inglaterra. Na usina de energia elétrica de Aberthaw, em Gales, cerca de 50 pessoas fizeram um ato de protesto. Também houve manifestação na usina de energia de Kilroot, em Carrickfergus, na Irlanda do Norte.

Em Londres, um porta-voz do primeiro-ministro Gordon Brown disse que o contrato com a construtora Irem foi feito “há algum tempo, quando havia falta de trabalhadores especializados no setor de construção no Reino Unido”. “Obviamente esse não é o caso agora e nós vamos falar com a indústria nos próximos dias para assegurar que ela está fazendo tudo o que pode para apoiar a economia britânica”, disse.

31/01/2009 - 15:02h “Power broker”: dez anos depois, Brasil dá a volta por cima em Davos


Amorim condena novas barreiras

Crise aumenta risco protecionista e torna urgente a conclusão de Doha

Rolf Kuntz – O Estado de São Paulo

O chanceler Celso Amorim qualificou como “mau sinal” a inclusão de uma emenda contra a importação de ferro e aço no pacote fiscal enviado ao Congresso pelo presidente Barack Obama. Pela cláusula, não terá acesso aos benefícios fiscais anticrise quem realizar obras de infraestrutura com material importado. “Tudo isso é preocupante”, disse o ministro, “porque não há doença mais contagiosa que o protecionismo.”

Nenhum governo, argumentou Amorim, deve ter a ilusão de tomar uma medida protecionista sem provocar reações. Além disso, os países maiores devem ter liderança no combate às barreiras comerciais.

Ainda não se pode, no entanto, julgar a tendência da nova administração americana, ressalvou Amorim, porque a cláusula “buy American” (compre produtos americanos) foi introduzida por um parlamentar, na Câmara de Representantes. O projeto, com esse dispositivo, já foi aprovado na Câmara e ainda poderá ser revisto no Senado.

O presidente Barack Obama, lembrou Amorim, conversou por telefone com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no começo da semana, e mencionou a necessidade de concluir a Rodada Doha de negociações comerciais. “Acho que foi sincero”, disse o chanceler.

Em 16 de março, o presidente Lula irá a Nova York para um evento sobre biocombustíveis, promovido pelo Wall Street Journal. Há possibilidade, segundo ele, de um primeiro contato com Obama na visita, mas isso dependerá de um acerto.

Os dois temas – como evitar maior protecionismo e como retomar a Rodada Doha – serão discutidos hoje por negociadores de vários países, num hotel de Davos, em encontro coordenado pelo diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), Pascal Lamy. Trata-se de fato de um só assunto, porque, se as negociações não forem retomadas e concluídas, o risco de ações protecionistas será muito maior.

A União Europeia, observou Amorim, já anunciou a decisão de elevar a tarifa de importação de produtos lácteos. “É um péssimo sinal”, acrescentou. A crise internacional cria um ambiente propício ao fechamento das economias e à multiplicação de medidas prejudiciais ao comércio.

Esse risco torna mais urgente a reativação das negociações e o revigoramento dos compromissos contra o protecionismo. Não basta cuidar da superação da crise financeira, disse o ministro. Esse detalhe, segundo ele, não foi considerado na elaboração do programa do Fórum Mundial: muitas sessões foram dedicadas à crise das finanças e poucas ao comércio.

Se as negociações globais forem retomadas, acrescentou o ministro, o correto será partir dos pontos acordados até 2008 e consolidados no chamado pacote de julho. O valor desse pacote é muito grande, segundo Amorim. Não teria sentido, segundo ele, jogar fora todas essas conquistas e começar novamente do zero.

Dez anos depois, Brasil dá a volta por cima em Davos

Em 1999, o País enfrentava uma crise cambial e um novo surto de inflação

Depois de dez anos, a volta por cima: o Brasil pôde apresentar-se ontem, num almoço paralelo à reunião do Fórum Econômico Mundial, como “parte da solução, e não do problema”. Essas palavras foram ditas pelo executivo-chefe do Banco Itaú para a América Latina, Ricardo Villela Marino.

Como num jantar há dez anos, o governo brasileiro foi representado pelo ministro de Relações Exteriores. Em janeiro de 1999, no lugar de Celso Amorim, o chanceler era Luiz Felipe Lampreia. O real estava desvalorizado, o País enfrentava uma crise cambial e um novo surto de inflação parecia ameaçar as conquistas do ajuste implantado em 1994. A moeda brasileira, havia dito na véspera o secretário adjunto do Tesouro americano, Lawrence Summers, deixara de ser real para tornar-se virtual: real.com. A piada fez sucesso em Davos.

Desta vez, a crise começou nos Estados Unidos e manifestou-se pouco depois na Europa, sem poupar nem sequer os maiores bancos suíços. No Brasil, disse Villela Marino, não houve subprime nem excesso de risco nos empréstimos. Os padrões de segurança dos bancos brasileiros – relação entre capital e aplicações – excedem os padrões de Basileia, fixados pelo Banco de Compensações Internacionais (BIS).

O presidente da Petrobrás, Sérgio Gabrielli, participou do almoço. Também discursou, e começou comparando os fundamentos macroeconômicos do Brasil e dos Estados Unidos, para afirmar a maior solidez das condições brasileiras. Há dez anos, num jantar em ambiente de velório, um empresário brasileiro pediu ao então ministro da Economia da Argentina Domingo Cavallo a receita para salvar o Brasil.

Cavallo atendeu com visível prazer e dissertou longamente sobre como o governo argentino havia encontrado a receita do crescimento com estabilidade. Três anos depois, a paridade imaginária entre o peso e o dólar seria rompida, de forma desastrosa, e o Tesouro argentino daria um calote histórico.

Naquela noite, o desastre mais visível era o do Brasil, atingido pelas ondas de choque da crise russa. Lampreia aguentou os desatinos durante um bom tempo, mas acabou perdendo a paciência e, com a polidez possível, enquadrou Cavallo e os empresários brasileiros deslumbrados.

Ontem, o presidente da Petrobrás, além de comparar os fundamentos macroeconômicos de Brasil e Estados Unidos, ainda se permitiu comentar as prováveis dificuldades do presidente Barack Obama para atender às expectativas internacionais em relação às suas medidas. Depois, falou sobre os planos do Brasil no setor de energia e sobre a contribuição dos biocombustíveis para a preservação ambiental. O País, lembrou, deverá investir US$ 2,8 bilhões na produção de etanol e de biodiesel nos próximos cinco anos.

O chanceler Amorim começou comentando o título oficial do almoço, inscrito no programa do Fórum. Há 30 anos, disse o ministro, o título seria algo como “Brasil, país do futuro”, ou “Brasil, gigante adormecido”. Mas o evento, desta vez, foi rotulado como “Brazil, power broker”. Não há tradução direta: “power broker” é alguém influente, levado em conta em decisões importantes, capaz de modificar relações de poder. Em resumo, um ator relevante.

O Brasil, disse Amorim, poderá ser menos afetado que outros países pela crise porque iniciou um programa de investimentos antes do agravamento da situação, uma espécie de política anticíclica antecipada. Mencionou também como uma das vantagens o poder de consumo resultante das políticas sociais. Externamente, o país se tornou menos vulnerável, de acordo com o ministro, porque diversificou seus parceiros comerciais e depende menos dos Estados Unidos (cerca de 14% das das exportações brasileiras).

Mas a posição de power broker, afirmou o ministro, depende em grande parte do trabalho de integração sul-americana e tem sido exercido, por exemplo, na mediação em casos de conflito na região. Sobre a ausência do presidente brasileiro, uma explicação de mercado: “Há mais demanda de Lula do que oferta de Lula”. O presidente, argumentou, já esteve três vezes em Davos e neste ano decidiu participar do Fórum Social em Belém.