21/08/2012 - 08:27h Kassab preocupa mais a campanha de Serra do que Russomano

Por Vandson Lima | VALOR

De São Paulo

No grupo que coordena a campanha de José Serra (PSDB) a prefeito de São Paulo, o empate na liderança das intenções de voto com Celso Russomanno (PRB) é ainda visto como um problema menor. Preocupa sobremaneira os tucanos o que tem sido chamado de “efeito Kassab”. A relação direta feita pelo eleitor entre a gestão do atual prefeito Gilberto Kassab (PSD), considerada ruim ou péssima por 43% do eleitorado – segundo pesquisa do Ibope – e a candidatura de Serra tem segurado os índices em um patamar abaixo do que a campanha esperava às vésperas da propaganda televisiva.

Segundo um dos integrantes da campanha, o eleitor sequer recorda que Kassab venceu a eleição de 2008. “Para a maioria, foi o Serra que deixou o mandato em 2006 e botou o Kassab na cadeira de prefeito. As pessoas nem lembram que ele venceu uma eleição por conta própria. Logo, atribuem a administração mal avaliada ao Serra”, conta.

A fala do tucano coaduna com a sondagem do Ibope. Entre os 18% de eleitores que aprovam Kassab, Serra obtém 42% das intenções de voto. Já entre os 43% que a desaprovam, apenas 15% pretendem votar no tucano.

Para outro integrante da campanha, que considera a rejeição à gestão Kassab desproporcional às suas realizações, Serra tem sido leal ao prefeito ao não renegar que o governo atual é uma extensão daquele iniciado em 2005. Em entrevistas, Serra de fato avalia que três modelos de gestão passaram pela cidade: o de Paulo Maluf (PP) e Celso Pitta, a administração “petista” – com Luiza Erundina (PSB) em 1989 e Marta Suplicy (PT) em 2000 – e a tucana, com Serra e Kassab. E considera este último o melhor período para a cidade.

Para destravar a possível subida de Serra nas sondagens, foi marcado para a noite de ontem um jantar na casa do presidente municipal do PSDB, Júlio Semeghini. A previsão era de que além de deputados federais, estaduais e vereadores do partido, estariam presentes Kassab e o governador Geraldo Alckmin (PSDB), aprovado por 41% dos paulistanos de acordo com a mesma pesquisa e visto como cabo eleitoral crucial para as pretensões de Serra.

Além de traçar a estratégia junto aos parlamentares para uma participação mais vistosa na campanha, o convescote mirava dissipar a resistência do secretário estadual de Energia, José Aníbal, derrotado na prévia partidária, em registrar apoio ao candidato tucano. Esperado para o jantar, Aníbal é influente junto à base do partido, que tem se mostrado em alguns casos arredia. Na quinta-feira, o presidente do diretório do PSDB no Jabaquara (zona sul da capital), Milton Kamiya, e seu vice, Romualdo Moraes, anunciaram adesão à candidatura do concorrente Gabriel Chalita (PMDB).

Em relação a Russomanno, ainda impera a leitura de que ele é desprovido de apoios do Executivo e de tempo de propaganda na TV, portanto perderá fôlego. O eleitor que hoje lhe dá bons índices, acreditam tucanos, migrará para Fernando Haddad (PT), que irá ao segundo turno com Serra.

Integrantes de PSDB e PSD ouvidos pelo Valor concordam, inclusive, na data para se ter uma sondagem mais realista do cenário paulistano: início de setembro, quando a propaganda televisiva entrará em sua terceira semana.

Um tucano prevenido ressalva: “Agora, se bater o feriado [sete de setembro, um mês antes da eleição] e o Russomanno continuar lá em cima, fura toda a estratégia”.

02/07/2012 - 19:45h Patrus Ananias diz que não pediu para ser candidato em Belo Horizonte

Petista diz que espera apoio ‘político e material’ da direção nacional petista, além da presença de Lula e Dilma na campanha
02 de julho de 2012

Marcelo Portela, de O Estado de S.Paulo

O ex-ministro Patrus Ananias afirmou ao Estado que em nenhum momento pediu para ser candidato do PT para prefeito de Belo Horizonte – cargo que já ocupou entre 1993 e 1996 -, mas acatará a decisão do partido. Ressaltou, porém, que, caso a decisão seja por sua candidatura, ele espera apoio “político e material” da direção nacional petista, além da presença do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e da presidente Dilma Rousseff na campanha.

Como o senhor vê a possibilidade de voltar a disputar a prefeitura de Belo Horizonte?
Primeiro, há questões preliminares a serem processadas. Ainda há possibilidade de repactuação com o PSB. Havia uma relação de confiança e foi feito um acordo, que não foi cumprido. Mas acredito que ainda é possível a repactuação.

Mas o senhor aceitaria ser o candidato do PT?
Não estou reivindicando ser candidato. Sou militante do PT há 32 anos e estou à disposição do partido. Mas é preciso processar com cuidado a questão. Tenho uma relação afetiva com o Roberto Carvalho. Somos amigos desde os anos 1970 e é uma relação familiar mesmo. A também a questão política. A tese dele (de candidatura própria) prevaleceu e ele mostrou que tem presença política na cidade.

Caso a decisão seja por sua candidatura, como pretende conduzi-la?
A candidatura só tem sentido se for pela unidade partidária. Essa é uma condição. Também queria, dentro dos limites legais e éticos, apoio político e material da direção nacional do partido. Inclusive de agenda, com a presença da presidente Dilma e do presidente Lula. Porque é pelo crescimento do PT em Belo Horizonte, no Estado e no País.

02/07/2012 - 19:38h PT confirma fim da aliança com PSB em Belo Horizonte


Enquanto petista pedem a candidatura de Patrus Ananias, Lacerda trabalha para tentar reverter o racha

02 de julho de 2012

Marcelo Portela, de O Estado de S.Paulo

A direção do PT em Minas Gerais confirmou nesta segunda-feira, 2, o fim da aliança com o PSB para a disputa pela reeleição do prefeito de Belo Horizonte, o socialista Marcio Lacerda. Nesta terça, 3, petistas mineiros se reúnem com a direção nacional do partido em São Paulo para indicarem à instância máxima da legenda o nome do ex-ministro Patrus Ananias como candidato para a disputa pelo Executivo da capital mineira. Já Lacerda afirmou que tentará “até o último minuto” recompor a aliança, mas já anunciou como vice o secretário municipal de Governo Josué Valadão (PP) no lugar do deputado federal Miguel Corrêa Júnior (PT).

A direção estadual do PT homologou o lançamento de candidato própria, decidida na convenção do partido, no sábado, 30, após a legenda ser comunicada da decisão do PSB de não fazer coligação proporcional na capital, considerada pelos petistas como “traição” de Lacerda. E informou que ainda nesta segunda o prefeito deveria receber comunicado petista entregando os cerca de 900 cargos em todos os escalões que o partido tem na administração municipal.

Para o prefeito, porém, o PT rachou por “uma questão pequena, que é essa questão dos vereadores”. Ele afirmou que tentaria novas negociações com a direção petista, mas confirmou que o PSB não vai rever sua decisão. “Romper essa aliança vitoriosa em Belo Horizonte por uma disputa de cadeiras na Câmara Municipal não é uma atitude correta. O PSDB passou a alegar de uns meses para cá que, já que o PT tinha a (vaga de) vice, seria injusta a aliança proporcional. Seria uma questão de equilíbrio das forças políticas e nós achamos que essa posição do PSDB é justa”, disse, após evento oficial na prefeitura do qual participou ao lado do governador tucano Antonio Anastasia, que tem no vice-governador Alberto Pinto Coelho um correligionário do candidato a vice apontado por Lacerda.

Miguel Corrêa Júnior, no entanto, ressaltou que o racha foi decidido em razão de uma “quebra de confiança muito grande”. “Não é uma disputa por vagas na Câmara. É o descumprimento de um acordo, que não foi unilateral”, emendou o presidente do PT mineiro, deputado federal Reginaldo Lopes. Ele apresentou documentos assinados por Lacerda afirmando que a decisão sobre a questão seria do presidente do diretório estadual do PSB, o ex-ministro Walfrido Mares Guia, e outro do próprio Walfrido aceitando a coligação proporcional com o PT.

“O Walfrido lutou até o fim. Mas o prefeito cedeu aos caprichos e vaidades do príncipe Aécio”, disparou Lopes, referindo-se ao senador Aécio Neves (PSDB-MG). Pelas informações de bastidores, o tucano teria entrado em contato com Lacerda informando que, caso o PSB fizesse aliança proporcional com o PT, seria o PSDB que deixaria a coligação. “O rompimento do PSB local foi com o PSB nacional, com o ex-presidente Lula e com a presidente Dilma (Rousseff)”, declarou Miguel Corrêa, segundo o qual o presidente nacional socialista, o governador Eduardo Campos (PE), seria favorável ao acordo com o PT.

02/07/2012 - 08:46h “O PSD é o cupim do PSDB em São Paulo”

Escolha de vice deflagra embate no PSDB

02 de julho de 2012

O Estado SP

A escolha do ex-secretário municipal de Educação Alexandre Schneider (PSD) como candidato a vice-prefeito de José Serra (PSDB) deflagrou um embate entre tucanos ligados ao governador Geraldo Alckmin (PSDB) e o grupo serrista. Um dia após o anúncio da vice, alckmistas fustigaram a escolha de Schneider e voltaram a atacar a chapa única para eleição de vereadores, apelidada de “chapão”.

O grupo que apoia o governador esperava ser contemplado com a indicação da vice, depois de ter perdido o embate que decidiu que o PSDB formaria aliança com outros partidos na chapa proporcional. Os alckmistas defendiam voo solo por avaliar que, coligado em uma chapa tão grande, o PSDB tende a perder cadeiras na Câmara Municipal.

O assessor especial de Alckmin Fábio Lepique atacou pelo Twitter o líder do PSDB na Câmara, vereador Floriano Pesaro, e membros da Executiva do partido, pelas decisões anunciadas. “O @Floriano45 e os membros do diretório que votaram a favor do ‘chapão’ prestaram um desserviço ao PSDB. E nem a vice levamos!”. Ao Estado, desabafou: “Perdemos tudo.”

José Aníbal, secretário estadual de Energia, protestou contra a indicação de Schneider. “Vai na direção contrária ao que queria a militância da capital”.

Pesaro, um dos principais articuladores de Serra no processo eleitoral, afirmou haver “uma estratégia de desestabilizar a campanha do Serra”, e tentou desqualificar as críticas. “Essa questão do Fábio (Lepique) é de uma falsidade moral sem precedentes. E a palavra do José Aníbal é a de alguém que foi derrotado nas prévias e age de forma isolada.”

Passado. A escolha de Schneider reavivou ressentimentos oriundos da eleição de 2008, quando Serra apoiou a reeleição do prefeito Gilberto Kassab (PSD) e Alckmin se lançou candidato, estabelecendo um racha no partido. À época, tucanos que integravam a gestão Kassab, como Andrea Matarazzo, optaram pela neutralidade. Schneider, contudo, apoiou o prefeito.

Desde então, este recebe sinais de Kassab de que poderia ser seu sucessor. Em 2011, ele trocou o PSDB pelo PSD. Sua entrada na vice desperta o os ciúmes de tucanos que alimentam desejo de suceder Serra e Alckmin na capital e creem que Schneider “furou a fila” da sucessão.

A desconfiança do grupo alckmista em relação ao vice de Serra se estende também a Kassab, que coligou seu PSD ao PT em diversas cidades do Estado e, nacionalmente, sinaliza um alinhamento com o governo federal. Ele é visto como potencial adversário de Alckmin em 2014.

Chapão. O “chapão” na proporcional fez o presidente do PSDB da Mooca, Eduardo Odloak, desistir de concorrer a vereador. Em texto, Odloak afirmou que a coligação “diminuiu as chances de renovação”. Segundo ele, o PSDB deve eleger apenas metade dos 13 vereadores de 2008. “Um mau negócio”, diz Lepique. Pesaro defendeu a decisão: “É importante para eleger o Serra.”

Como o sr. avalia a indicação de Schneider para vice de Serra? Vai na direção contrária do que queria a militância da capital. Essa aliança preferencial (com o PSD) não foi objeto de discussão partidária. É uma iniciativa exclusiva do candidato.

O PSDB está cedendo demais?

O PSD é o cupim do PSDB na capital, eles se alimentam do PSDB. Não é possível acolher sistematicamente o que deseja o atual prefeito. O PSDB corre sério risco de virar figurante.

Qual é o impacto do ‘chapão’ para a eleição dos vereadores?

É uma medida conservadora, com o propósito de não renovar a Câmara.

02/07/2012 - 08:21h Em BH, PT já fala em Patrus contra Lacerda


Cúpulas petista e do PSB se mobilizaram ontem para recompor o acordo, mas ex-ministro de Lula pode entrar na disputa

02 de julho de 2012

MARCELO PORTELA , BELO HORIZONTE – O Estado de S.Paulo

A decisão do diretório municipal do PT de deixar a aliança pela reeleição do prefeito de Belo Horizonte, Marcio Lacerda (PSB), mobilizou ontem as direções das duas legendas, que ainda tentam recompor o acordo. Algumas lideranças petistas, porém, já não acreditam que o PSB possa rever a sua posição – contrária a uma coligação proporcional na capital mineira. Assim, já articulam para lançar o ex-ministro Patrus Ananias como candidato. Marcio Lacerda tem o apoio do PSDB, de Aécio Neves, e de diversos partidos da base do governo federal. No sábado à noite, o PT-BH lançou o vice-prefeito Roberto Carvalho, desafeto de Lacerda, como candidato à prefeitura.

Os contatos entre petistas e PSB começaram ainda no sábado, assim que a decisão do diretório municipal do PT foi anunciada. Desde então, o ministro do Desenvolvimento, Fernando Pimentel, vem conversando com os presidentes nacionais do PT, Rui Falcão, e do PSB, governador Eduardo Campos (PE), para tentar reverter o cenário.

Ontem, o secretário-geral do PSB, Carlos Siqueira, desembarcou em Belo Horizonte para se encontrar com o prefeito e o com presidente do PSB mineiro, o ex-ministro Walfrido dos Mares Guia. Em seguida, falariam com a direção do PT mineiro. O Estado tentou falar com líderes do PSDB, mas nenhum deles atendeu ao telefone. “Se a avaliação do Marcio (Lacerda) for diferente, reorganizamos e fazemos a aliança”, afirmou um dos interlocutores de Pimentel e integrante do diretório petista em Minas.

Revolta. A direção do PT não esconde que está revoltada com a postura do prefeito. Nos bastidores, a informação é de que Lacerda teria sido “enquadrado” pelo senador Aécio Neves (PSDB-MG) para não fazer a aliança proporcional com os petistas – decisão que foi comemorada com entusiasmo durante a convenção tucana na capital, realizada simultaneamente à do PT, no sábado.

Tucanos. O PSDB já conta com a possibilidade de indicar o candidato a vice de Lacerda. Aécio foi, junto com Pimentel, o principal articulador da candidatura do prefeito em 2008, assim como da tentativa de reedição da aliança.

“O Aécio quer derrotar o PT e agora tem que assumir o ônus. Porque a decisão do Lacerda foi contra o PT de Belo Horizonte. Mas ele está disposto a romper com o PT nacional, com o Lula e com a Dilma?”, indagou um dos petistas que participam das negociações. Segundo esse dirigente, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a presidente Dilma também já se inteiraram do imbróglio criado na eleição de Belo Horizonte e estariam ajudando a encontrar uma saída – o que incluiria contatos com Patrus para viabilizar sua candidatura. Isso demandaria uma espécie de intervenção branca no diretório municipal.

“As decisões que tinham que ter sido tomadas já o foram. Não acredito em nenhum tipo de intervenção e o Patrus afirmou que está inteiramente à disposição da minha campanha”, afirmou Roberto Carvalho.

02/07/2012 - 08:16h Prefeito de BH ameaça desistir de reeleição

Por Marcos de Moura e Souza | VALOR

De Belo Horizonte

O prefeito de Belo Horizonte, Márcio Lacerda (PSB), que segundo todas as pesquisas têm fortes chances de ser reeleito em outubro, ameaça retirar sua candidatura. O recado foi enviado no fim de semana ao PT e chegará também ao PSDB, segundo apurou o Valor.

PT e PSDB governam com Lacerda desde 2009. Há meses, o prefeito tenta costurar uma reedição da aliança com as duas legendas. Mas a antecipação, por parte de seus dois aliados, pelas disputas eleitorais de 2014, dificultam muito a tarefa de Lacerda de ter ambos no palanque.

No sábado, a situação ficou ainda mais difícil. O PSB, em convenção municipal, decidiu ficar sozinho na chapa da eleição proporcional de vereadores, sem coligação com PT ou PSDB. Isso enfureceu lideranças petistas de Minas Gerais, que exigiam a proporcional como condição para apoiar a reeleição do prefeito.

O PT reagiu no sábado mesmo: a executiva municipal lançou um candidato a prefeito, o atual vice-prefeito, Roberto Carvalho. Mas como Carvalho está longe de ser unanimidade, outras lideranças do partido falam agora em lançar o ex-prefeito e ex-ministro do governo Lula, Patrus Ananias. Mas isso só se o PSB não voltar atrás e não fechar a chapa proporcional com PT.

Lacerda tem dois aliados de peso: o senador Aécio Neves (PSDB-MG), principal nome hoje da oposição à eleição presidencial de 2014, e o ministro do Desenvolvimento Fernando Pimentel (PT). Foi um acordo entre os dois que elegeu Lacerda, então secretário de Estado no governo Aécio, em 2008. No fim de semana, Lacerda pendeu para Aécio. O prefeito apoiou a decisão da executiva nacional de não fechar chapa proporcional com ninguém.

Aécio prevenira Lacerda que se o PSB fechasse a proporcional com o PT, o PSDB pularia fora de sua campanha pela reeleição. O argumento tucano é que o PT já tinha indicado o candidato a vice-prefeito e com a chapa proporcional aumentaria sua bancada na Câmara Municipal.

Incomodado com o que considera ser uma disputa de seus dois aliados atuais já com vistas às eleições de 2014, quando Lacerda poderia concorrer ao governo do Estado, o prefeito diz agora que tem quatro hipóteses: dizer sim ao PT na chapa proporcional e perder os tucanos; abraçar os tucanos, fechando com eles eventualmente a chapa proporcional; disputar sozinho, elegendo apenas os vereadores de seu partido, ou desistir da candidatura.

28/06/2012 - 09:42h Vice de Serra explicita disputa entre Kassab e Alckmin

Por Vandson Lima e Raphael Di Cunto | VALOR

De São Paulo

A briga pela indicação do candidato a vice na coligação que terá José Serra (PSDB) como postulante à Prefeitura de São Paulo ganhou novos contornos ontem. De um lado, a executiva do PSDB aprovou um manifesto em que reivindica a chapa pura. De outro, o PR comunicou à chapa, por nota, que só abdica do posto se o vice for indicado pelo PSD, partido do prefeito Gilberto Kassab.

Nas entranhas dessa batalha entre aliados se avoluma a disputa entre o governador Geraldo Alckmin (PSDB) e Kassab, ambos com olhos postos em 2014 e ciosos em ceder espaço para o outro na composição da chapa serrista.

A executiva do PSDB na capital paulista aprovou na terça-feira, por unanimidade, a defesa de que o vice de Serra seja também um nome da sigla – o ex-secretário estadual de Cultura Andrea Matarazzo, próximo de Serra, e o deputado federal Edson Aparecido, aliado de Alckmin, figuram como favoritos.

A leitura no tucanato é de que o PSDB já cedeu o suficiente aos aliados ao aceitar a formação de uma mesma chapa de vereadores, o que em tese prejudicaria o desempenho do partido na eleição proporcional. Veem ainda na manifestação do PR as digitais de Kassab, principal articulador da adesão do partido à aliança.

Principal líder do PR na cidade de São Paulo, o vereador Antonio Carlos Rodrigues disse não considerar uma ameaça o fato de seu partido reivindicar a vice. “De maneira nenhuma. Só queremos sentar e conversar, não podemos saber as coisas apenas pelos jornais”, afirmou. “Quando combinamos a aliança, houve acordo para que o partido com a maior bancada ficasse de vice. Se mudou, queremos postular a vaga”, avisou.

O vereador diz que não ter conversado com o prefeito Gilberto Kassab antes de redigir a nota. O prefeito deseja indicar o vice e ofereceu o ex-secretário municipal de Educação Alexandre Schneider para a vaga. O DEM, antigo partido de Kassab, quer que o escolhido seja o deputado federal Rodrigo Garcia (DEM). O PV também pleiteia a vice, com o ex-secretário municipal de Meio Ambiente Eduardo Jorge.

Durante a convenção tucana que oficializou a candidatura Serra, no domingo, o presidente do PV, José Luiz Penna, chegou a dizer que haveria um “processo de queimação” nas denúncias de que seu correligionário teria recebido propina enquanto estava no cargo. Para Penna, isso ocorreria justamente por Jorge ser um dos nomes considerados para a vice de Serra. Questionado se a “queimação” viria de partidos aliados, se limitou a dizer “Aí eu não sei”. Hoje, a coordenação de campanha de Serra se reúne com os aliados.

Ontem, o Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP) multou Serra em R$ 5 mil por propaganda eleitoral antecipada, em decisão do juiz Henrique Harris Junior. É a terceira multa do candidato do PSDB a prefeito da capital paulista neste ano. As punições totalizam até o momento R$ 20 mil. O PT acusou Serra, em representação ao TRE, de divulgar sua candidatura no site www.joseserra.com.br, por meio de comentários dos leitores. O parecer do Ministério Público Eleitoral (MPE) é favorável à multa, sob a alegação de que os comentários são moderados pelo proprietário, que “não pode alegar ignorância ou desconhecimento acerca do seu conteúdo”.

06/06/2012 - 07:35h Sobre caciques e partidos

O papel das grandes lideranças nacionais de PT e PSDB na eleição paulistana revelam estilos opostos: só um é caciquista

Por Cláudio Gonçalves Couto – VALOR

A birra de Marta Suplicy, ausentando-se do ato de lançamento da candidatura de Fernando Haddad à Prefeitura de São Paulo, enseja uma boa oportunidade para discutir o papel das lideranças individuais nos partidos políticos. Ela serve para mostrar que o caciquismo é um fenômeno mais complexo do que sugerem análises apressadas sobre a influência de certas lideranças na definição dos rumos das organizações partidárias. Quanto a isto, um aspecto ganha relevo: enquanto alguns líderes criam sucessores, atuando na produção ou reforço de novas lideranças (crucial para a sobrevivência organizacional), outros embotam essa criação, contribuindo para a esclerose organizacional.

O problema é distinguir entre caciquismo – um tipo de liderança que subjuga a organização à vontade pessoal inquestionável do líder – e influência. Uma liderança influente no partido logra convencer os correligionários, sem contudo impor-lhes decisões inquestionáveis. Assim, se a persuasão é requisito para a obtenção de anuência, não há caciquismo. Trata-se de diferença de grau, que ultrapassados certos limiares se converte em distinção de natureza.

Há situações nas quais se migra, ao longo do tempo, de um estado para outro. Assim, caciques podem converter-se apenas em lideranças influentes, seja por que se debilitam ou ajustam a conduta, seja porque um reforço organizacional do partido lhes reduz o espaço para o arbítrio. Inversamente, líderes influentes podem, em certas conjunturas, tornar-se caciques; algo mais provável em organizações partidárias frouxas ou enfraquecidas – o que não é a mesma coisa.

Caciques são os que se colocam acima do partido

Para existir, o cacique necessita do apoio de um subconjunto organizacional dentro do partido: sua entourage, uma facção majoritária ou posições-chave na burocracia. Assim, enquanto o partido como um todo é fraco organizacionalmente, esse subgrupo é relativamente forte, impondo a vontade de seu líder. Contudo, há uma condição principal, decisiva distinguir o caciquismo da influência: o cacique subordina os interesses da organização aos seus próprios; é o projeto pessoal do cacique que sempre prevalece sobre o do partido – e mesmo sobre o de sua claque.

Há quem veja no patrocínio de Lula à candidatura de Fernando Haddad evidência de caciquismo, demonstrando que o PT nada mais seria do que um partido sem vontade própria, a reboque do grande líder. Será mesmo? Isto não se coaduna com características notórias do partido: organização forte, disputa intensa entre facções, espaço para contestação seguido de alinhamento a decisões tomadas pelo conjunto. Na realidade, Lula é muitíssimo influente, mas não um cacique no sentido próprio do termo. E isto não só por méritos próprios dele, mas pelas características do partido que construiu – que restringe o caciquismo.

No caso paulistano, antes mesmo de Marta desistir da candidatura, já enfrentava – além de Fernando Haddad – a oposição interna de antigos aliados, agora pré-candidatos, os deputados Jilmar Tatto e Carlos Zarattini. Candidata duas vezes derrotada à prefeitura, a senadora já não desfrutava da condição de escolha óbvia da agremiação – como foi em 2008. A imposição de seu nome – a despeito de outras postulações, de um clamor interno por renovação e da grande rejeição aferida pelas pesquisas ¬- é que seria caciquismo. Em tal contexto, o apoio de Lula à renovação operou mais como contrapeso à tentativa de caciquismo em nível local do que se mostrou ele próprio uma imposição inconteste.

Compare-se com a autoimposição de José Serra no PSDB, contra Aécio Neves. Verificou-se no ninho tucano uma estratégia de sufocamento da disputa interna pela interminável postergação do embate, até que o ex-governador mineiro jogou a toalha, considerando que não teria tempo hábil para se viabilizar. A solução pelo alto, dessa ardilosa vitória pelo cansaço, repetiu-se agora na escolha da candidatura tucana à prefeitura paulistana. Após meses alegando que não se candidataria, o que ensejou uma animada disputa entre quatro pré-candidatos (sugerindo renovação partidária) o ex-governador mudou de ideia, inscreveu-se na prévia após o prazo regulamentar, provocou a desistência de dois postulantes e prevaleceu. Serra obteve na prévia apenas pouco mais de 50% dos votos, num embate contra postulantes muito menos expressivos – tanto no que concerne à envergadura política quanto à história. Isto mostra o tamanho do desagrado que sua soberba causou na base tucana.

Fosse o PSDB dotado de maior densidade organizacional, os dois episódios da imposição serrista deflagrariam uma crise interna – como a que deve se produzir no PT de Recife neste ano. O caráter elitizado da agremiação e a baixa intensidade da vida partidária (sobretudo se comparada à do PT) permitem que as manobras dos caciques e seus embates permaneçam basicamente como um problema deles mesmos. A renovação, neste caso, ocorre apenas nas franjas da disputa política (como nas eleições de deputado estadual e vereador), pelo ocaso das lideranças ou por algum acidente; raramente por uma estratégia bem definida. Em São Paulo, a oportunidade da renovação foi perdida; o risco da esclerose cresceu.

É nisto que as atuações de Lula e Serra se distinguem como influência, no primeiro caso, e caciquismo, no segundo. Enquanto o ex-presidente interveio no processo de modo a promover uma renovação de lideranças e atuando segundo a lógica da organização partidária, o ex-governador apenas fez prevalecer seu projeto pessoal de poder, às expensas do partido, que tornou seu refém. Isto permanece, a despeito de quem venha ganhar ou perder as eleições de outubro.

Algo que confunde a percepção de papéis tão distintos são os estilos muito diversos de um e de outro. Enquanto Lula é um líder carismático e de estilo esfuziante, Serra é um líder gerencial e de estilo soturno. Intuitivamente, o senso comum identifica o primeiro com o improviso e o personalismo, e o segundo com a racionalidade e a institucionalidade. Uma análise mais cuidadosa revela exatamente o oposto.

Cláudio Gonçalves Couto é cientista político, professor da FGV-SP e colunista convidado do “Valor”. Rosângela Bittar volta a escrever na segunda quinzena de junho

E-mail: claudio.couto@fgv.br

03/06/2012 - 09:14h Para Lula, Serra é um candidato ‘desgastado’

Ex-presidente atacou tucano sem, porém, citar seu nome; pré-campanha do PSDB não quis comentar
03 de junho de 2012

O Estado de S.Paulo

Na tentativa de polarizar com José Serra, líder nas pesquisas para a Prefeitura de São Paulo, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez ontem críticas ao pré-candidato do PSDB, sem, porém, citar nominalmente o tucano. No discurso de apoio ao pré-candidato petista, Fernando Haddad, Lula afirmou que o ex-ministro da Educação concorreria com um candidato “desgastado”.

“Tem um que tá tão desgastado que nem sei por que ele quer ser candidato a prefeito”, cutucou Lula, que utilizou a tática que será largamente usada pelo PT na campanha, a de lembrar que Serra deixou a Prefeitura de São Paulo após um ano e quatro meses e mandato. “Ele utilizou a cidade como um trampolim.”

O ex-presidente afirmou ainda que o tucano deixou também o governo do Estado antes do fim do mandato e “tomou uma tunda da presidente Dilma” na eleição presidencial de 2010.

Haddad adotou discurso semelhante e usou a mesma metáfora de Lula. “São Paulo cansou de prefeitos de meio expediente e de prefeitos de meio mandato”, afirmou. “Jamais usarei a prefeitura como trampolim.”

O ex-presidente disse que confia que tão logo se torne conhecido, o ex-ministro da Educação salte para um patamar superior a 30% nas pesquisas de intenção de voto.

A assessoria de Serra informou ontem que ele não iria comentar as críticas. “O Lula quer chamar Serra para o debate. Ele não é candidato. Nós não vamos cair nesta armadilha”, declarou o coordenador da pré-campanha do tucano, Edson Aparecido. / FERNANDO GALLO e RICARDO CHAPOLA

02/04/2012 - 18:29h Zona que balança – como a geografía pode definir a eleição paulistana

José Roberto de Toledo – estadao.com.br

Quem percorre os 20 quilômetros da avenida Sapobemba, cortando a zona leste da cidade de São Paulo, desde os limites da Mooca até os confins de São Rafael, assiste a uma paulatina mudança de paisagem urbana: marcas famosas vão sumindo das fachadas do comércio, construções perdem o acabamento, e os anos de uso dos carros em circulação se tornam proporcionais à quantidade de lombadas e buracos interpostos pelo caminho.

Enquanto rodam dígitos no hodômetro, terrenos baldios intercalam conjuntos habitacionais e casas cada vez mais modestas. O mato invade o espaço que seria das calçadas e até uma multicolorida lona surge na tangente de uma curva à esquerda: “Circo de Cuba”. A coincidência assume ares premonitórios.

Entre a esquina com a avenida Salim Farah Maluf e a encruzilhada com a estrada do Rio Claro, o conteúdo das urnas eletrônicas sofre um câmbio tão radical quanto a substituição do falar italianado -típico dos moradores de bairros adjacentes ao começo do trajeto- pelo sotaque nordestino, de quem vive no extremo oposto.

São dois territórios com preferências partidárias arraigadas e muito diferentes entre si. No 2º turno da eleição presidencial de 2010, José Serra (PSDB) teve 72% dos votos na 4ª Zona Eleitoral, a da Mooca. Mas a proporção mudava a cada quilômetro adiante, até Dilma Rousseff (PT) alcançar 65% da votação na zona eleitoral de São Mateus.

O voto do paulistano está relacionado ao bairro onde ele mora. O PT tem seus maiores redutos na região periférica da cidade, enquanto o PSDB é forte no centro expandido. Esse padrão se repete desde os anos 90 em todas as votações -para vereador ou presidente, passando por prefeito, deputado e governador.

O determinismo geográfico do voto reflete uma divisão de classe. A explosão demográfica de São Paulo centrifugou imigrantes e trabalhadores de baixa renda entre os anos 40 e 80 do século passado. Em regra, quanto mais longe a moradia, mais pobre o morador. Quanto mais periferia, menos calçamento, iluminação e hospitais.

O PT reforçou o geovoto durante os governos de Luiza Erundina (1989 a 1992) e Marta Suplicy (2001 a 2004). Canalizou investimentos, programas assistenciais e assistencialistas para as regiões mais pobres e distantes das zonas sul e leste da cidade. Cativou seu eleitorado em Paralheiros e Guianases, por exemplo, mas alienou eleitores dos bairros mais centrais que se sentiram preteridos com a mudança de prioridade.

O PSDB é menos organizado que o PT, como provou o baixo quórum das prévias tucanas na cidade. Mas se faltam militantes, seu eleitorado é tão fiel quanto o petista. Em 2008, PT e PSDB lideraram, juntos, os votos de legenda para vereador em São Paulo: 21% para cada partido. A divisão se repetiu em 2010 na eleição para deputado federal. A legenda do PT recebeu 22%, e a do PSDB ficou com 19% -bem à frente dos demais partidos.

A concentração do eleitorado tucano é proporcional à riqueza dos moradores. No centro expandido, varia de 82% no homogêneo Jardim Paulista a 68% no Butantã, uma zona eleitoral que mescla bairros ricos como Cidade Jardim e Morumbi com comunidades pobres, como Jardim Jaqueline e Morro da Fumaça.

Em décadas passadas, a outra parte do eleitorado antipetista foi janista e malufista. É o segmento que se concentra numa faixa contínua, desde o Jaçanã e a Vila Maria, ao norte, até a Vila Prudente, onde a zona leste faz esquina com a zona sul. Decepcionado e/ou desamparado por seus líderes, esse eleitor voltou-se para quem tem mais chances de derrotar os petistas. Votou em Serra em 2004 e em Gilberto Kassab (então no DEM) em 2008.

Nesses pedaços da cidade, só muda a intensidade da vitória, mas o vencedor é sempre o mesmo: petistas na extrema periferia e tucanos no centro expandido e no colar janio-malufista. Por isso, tornou-se estratégico o meio do caminho entre o petismo e o antipetismo. São as zonas eleitorais que oscilam de um partido a outro de eleição para eleição. É também uma zona de transição social, de emergência da nova classe média, que muda de hábitos de consumo e pode mudar também de partido.

Na zona leste, os termômetros que indicarão para qual lado a eleição vai virar são Ermelino Matarazzo, São Miguel Paulista, Vila Jacuí, Ponte Rasa, Vila Matilde, Itaquera, Conjunto José Bonifácio e Sapobemba. Na zona sul: Jardim São Luís, Socorro e Campo Limpo. Juntos, eles somam 1 milhão de votos válidos. O futuro prefeito de São Paulo deve sair de para onde essa zona balançar.

30/03/2012 - 09:38h Quando tirarem Demóstenes da sala

Maria Cristina Fernandes – VALOR

Uma das mais eloquentes lideranças da oposição virou reú no Supremo Tribunal Federal na mesma semana em que o governo saiu vitorioso em dois dos principais projetos de sua pauta legislativa do ano, a criação do fundo de previdência complementar dos servidores e a Lei Geral da Copa.

Não há causalidade entre um e outro fato. E isso explica por que uma crise que parecia tão aguda nas relações da presidente Dilma Rousseff com o Congresso se desfez de uma hora para outra.

O ocaso do senador Demóstenes Torres (DEM-GO) pouco afeta a governabilidade de Dilma. E não apenas pela condição minoritária de seu partido, mas porque não é na oposição que o projeto de poder da presidente é posto em xeque, mas dentro de sua própria base. Quando um parlamentar como Demóstenes cai em desgraça, as bandeiras que defende passam a depender mais de seus simpatizantes na base aliada do governo, o que lhes aumenta os antagonismos.

Bravatas prosperaram no vazio de propostas

Ao virar o jogo no Congresso, Dilma mostrou que ainda dispõe dos recursos políticos – e orçamentários – para conter essa soma de interesses antagônicos que a sustenta.

À distância, deu condições aos seus novos líderes na Câmara e no Senado de promover a troca de guarda e autonomia aos ministros para negociar com os parlamentares. Articulados com o presidente da Câmara, Marco Maia, e a ministra das Relações Institucionais, Ideli Salvatti, promoveram os acordos que levaram à aprovação dos projetos.

A chance dessa pax parlamentar perdurar é diretamente proporcional à disposição do governo de cumprir acordos como aquele que fixou para depois da Páscoa a votação do Código Florestal. O entendimento também tem mais chance de prosperar se os compromissos firmados entre os ministros e os parlamentares forem cumpridos.

Isso certamente passa pela liberação de emendas. Enquanto não inventarem outro jeito de os parlamentares influenciarem num naco de investimentos do governo em benefício de comunidades que garantem a continuidade de sua carreira política vai continuar sendo assim.

A faxina de Dilma pode não passar de discurso mas não é na liberação de emenda que mora o engodo, e sim na triangulação entre parlamentares, seus indicados na máquina de governo e fornecedores públicos que recebem pelo serviço que não prestam.

É dos lucros dessa triangulação que vivem muitos políticos deste e de outros governos. É mais simples coibi-los quando são miudezas que estão em jogo, como nos contratos prestados por Ongs. É a esse fim que parece se destinar o projeto de criação do fundo para o financiamento dessas entidades que o governo vai enviar ao Congresso.

Mas difícil de fechar é o ralo por onde passam os grandes contratos. Basta ver o histórico de entreveros entre o Executivo e o Tribunal de Contas da União. E mesmo que haja alguma disposição real em fechar o ralo, a torneira jorra mais forte à medida que crescem a economia e a capacidade de investimento do governo.

A corrupção pode até ser um problema do tamanho que Demóstenes Torres costumava pintar da tribuna, mas o que os indícios de seu processo no STF parecem indicar é que a contravenção tem laços que extrapolam o governo de plantão. Alicia parlamentares de de todos os matizes, desde que influentes no aparato policial e na cúpula do judiciário.

Demóstenes Torres não era um denunciante qualquer. Chegou ao Senado no mesmo ano em que o PT alcançou o Planalto foi um de mais implacáveis críticos até ser acusado de receber mesada do mesmo contraventor que detonou o escândalo Waldomiro Diniz, o primeiro da era petista.

Nesse meio tempo jogou no descrédito um dos mais operantes policiais do governo Luiz Inácio Lula da Silva, o ex-delegado geral da Polícia Federal e ex-superintendente da Abin, Paulo Lacerda, ao acusá-lo de um grampo nunca provado no Supremo Tribunal Federal..

Arrematou a cultivada imagem de paladino da moralidade ao tornar-se um dos grandes defensores da Lei da Ficha Limpa e dos poderes de investigação do CNJ.

O senador foi alçado à condição de ideólogo conservador ao encabeçar a resistência parlamentar à política de cotas raciais. Numa audiência promovida pelo Supremo chegou a dizer que a escravidão teria beneficiado o continente africano por ter sido o primeiro item de sua pauta de exportações. E que, por isso, faria pouco sentido para o Brasil adotar políticas compensatórias para os negros que, além do mais, haviam proliferado por meio de relações consensuais entre escravas e brancos.

O apoio que recebeu na pregação anticotas o encorajou a prosseguir na cruzada de ideólogo do conservadorismo com um projeto que trata o viciado em drogas como um deliquente e institui uma política nacional de internação compulsória.

Acabou angariando o respeito e a admiração de seus pares pela coragem de assumir essas posições num país crescentemente marcado por políticas inclusivas.

Foi a dificuldade de a oposição oferecer uma agenda alternativa ao crescimento econômico que deu fermento às bravatas de Demóstenes. De tão dependente de bandeiras moralistas, os oposicionistas perderam a capacidade de se aglutinar mesmo face a um tema tão crucial para o futuro quanto a desindustrialização.

Foi com esse tema que o senador Aécio Neves (PSDB-MG) subiu à tribuna na quarta-feira passada. Face à recomposição da base governista, urgia recuperar iniciativa à oposição. Dali a pouco o PSDB daria seus votos à aprovação da Funpresp, em nome de uma reforma iniciada pelo governo tucano e sequenciada pelos petistas. O discurso de Aécio teve pouca ressonância, mas os governistas bateram bumbo com a aprovação quase unânime.

Se a pauta legislativa se aprofundar na agenda da indústria nacional, focada em questões tributárias e trabalhistas, o consenso, como mostrou levantamento de Caio Junqueira (Valor, 28/03/2012), tem dias contados. Agora que tiraram Demóstenes da sala bem que o jogo podia começar.

Maria Cristina Fernandes é editora de Política. Escreve às sextas-feiras

E-mail: mcristina.fernandes@valor.com.br

27/03/2012 - 08:39h Os desafios de Lula e Serra na eleição

Por Raymundo Costa – VALOR

Ex-governador, prefeito e duas vezes candidato a presidente da República, esperava-se de José Serra melhor desempenho na prévia dos tucanos, realizada no domingo para escolher o candidato do partido a prefeito de São Paulo – Serra teve 52,1% dos 6.229 votantes, contra 31,2% do secretário estadual de Energia, José Aníbal, e 16,7% do deputado federal Ricardo Trípoli. Quando disputou com Luiz Inácio Lula da Silva a prévia do PT para a eleição de 2002, o senador Eduardo Suplicy teve 15,6% dos votos. Era um opositor solitário contra o líder inconteste do partido.

Os 52,1% não têm a menor importância no quadro de uma disputa que só agora começa a ser delineada. Mas deve servir de advertência para José Serra, mesmo sabendo-se da precariedade desse tipo de consulta, sujeita, de última hora, a filiações dirigidas de militantes. Importante, para o tucano – e também para o candidato do PT -, é o apoio de quem realmente tem voto.

Para Serra, no momento, é o apoio das bancadas federal, estadual e municipal, além, é evidente, do governador Geraldo Alckmin. O mesmo serve para Fernando Haddad, o candidato escolhido pelo ex-presidente Lula num projeto de renovação do PT. Neste quesito, Serra leva a desvantagem de ter a cúpula nacional do PSDB, inclinada a apoiar a candidatura de Aécio Neves na próxima eleição presidencial. Haddad tem um grande handicap: o apoio de Lula e sua imensa popularidade, mas a desvantagem de um partido que teve de engolir sua indicação por Lula e que anda indócil com sua imobilidade nas pesquisas.

Divisão ameaça planos do PSDB e do PT em São Paulo

Os últimos movimentos partidários indicam que Haddad pode até mesmo ficar isolado, ele que precisa de tempo maior de televisão para se tornar mais conhecido. Mas isso se deve provavelmente a um erro de cálculo de Lula, que mostrou suas cartas antes do tempo, passando para os partidos aliados a mensagem de que a eleição de Haddad é importante para o PT, mas é muito mais ainda para ele, uma espécie de questão de honra. Subiu na hora o preço de todos os candidatos a aliado.

O PT se repete: quando Dilma patinava nas pesquisas, no início de 2010, poucos eram os dirigentes partidários a fazer uma sincera profissão de fé na escolha do comandante. Haddad, ao contrário de Dilma, é considerado um professor bom no debate, pessoa de estilo suave, simpática e com serviços prestados ao país, como ministro da Educação e Cultura de Lula e Dilma.

As recentes mudanças feitas pela presidente Dilma Rousseff no Congresso também serviram para aumentar o desconforto dos petistas da cidade de São Paulo. A indicação do novo líder do governo na Câmara, Arlindo Chinaglia (SP), é um exemplo. Os deputados sempre procuraram manter alguns critérios nas indicações para a partilha de cargos e funções. Nos últimos anos, o líder do governo sempre vinha da liderança da bancada. Isso aconteceu com Arlindo Chinaglia (SP), Henrique Fontana (RS) e Cândido Vaccarezza. Agora, o ex-líder da bancada Paulo Teixeira (SP) foi ignorado em favor de Chinaglia, embora fosse o nome preferido da coordenadora política do governo, Ideli Salvatti, para a desempenho da função.

A disputa em São Paulo contribuiu para o desequilíbrio na representação das correntes. Para desistir de disputar a prévia para a indicação do partido a prefeito de São Paulo, Jilmar Tatto ganhou a liderança da bancada: José Guimarães (CE), o candidato do campo majoritário, aceitou acordo para ser o próximo líder. A senadora Marta Suplicy (SP) rendeu-se à força de Lula, mas ficou na vice-presidência do Senado, rompendo um acordo pelo qual o senador José Pimentel ocuparia o cargo, findo o primeiro ano de exercício do PT. E ao deputado Carlos Zarattini, outro dos pré-candidatos, coube a função de relator do projeto dos royalties na Câmara, um posto de projeção. Teixeira foi sacrificado, mas não é o único da turma que cobra mais efetividade do candidato.

Do lado tucano, as dificuldades aparentes do candidato petista parecem ter uma leitura mais realista. O próprio José Serra, em conversa com interlocutores, tem afirmado que seria um grande um erro subestimar a candidatura do ex-ministro da Educação. Na percepção do tucano, o PT tem os 30% tradicionais que costuma alcançar na cidade de São Paulo e um candidato bem mais difícil de enfrentar do que foi Aloizio Mercadante nas eleições de 2006 para governador, quando o petista teve cerca de 35% dos votos. O tucano costuma ressaltar uma virtude em Fernando Haddad: a capacidade de aprender.

Resta saber quais as lições o próprio Serra tirou de suas últimas campanhas, especialmente a última delas, em que perdeu a Presidência da República para Dilma, numa disputa em que largou na frente como franco favorito.

Os problemas do tucano com a direção nacional do PSDB certamente são bem maiores que os de Haddad com o comando do PT. Nos bastidores do PSDB, o grupo hoje engajado na candidatura presidencial do senador Aécio Neves (MG) não demonstra muito entusiasmo com a eventual vitória de Serra na eleição de São Paulo.

O grupo opera, por exemplo, para evitar a coligação do DEM (que é ligado ao governador do Estado, Geraldo Alckmin). O Democratas, para apoiar Serra, exige reciprocidade em Sergipe, Salvador e Recife. Em Sergipe, o candidato João Alves (ameaçado de impugnação pela Justiça Eleitoral) tem o apoio de Serra, que o considera um dos candidatos a governador de maior fidelidade a sua candidatura presidencial em 2010. O tucano paulista também avalia que ACM Neto (DEM) é o candidato da oposição com maior possibilidade de vitória em Salvador.

Em Recife, quem parece pouco disposto a apoiar a candidatura de Mendonça Filho é o presidente do PSDB, Sérgio Guerra, por questões puramente regionais. Mas as contas estão indo parar na caixa postal de José Serra. O sucesso da prévia paulista deveria ser um alento para o PSDB e não mais um instrumento para a divisão do partido. A pancadaria na base aliada do governo, amplamente majoritária, mostra a falta que faz uma oposição de verdade.

Raymundo Costa é repórter especial de Política, em Brasília. Escreve às terças-feiras

E-mail raymundo.costa@valor.com.br

08/03/2012 - 09:37h González será, de novo, o marqueteiro de Serra

González: jornalista coleciona desafetos na cúpula nacional do PSDB


Por Raymundo Costa | VALOR

De Brasília

O jornalista Luiz González será o marqueteiro da campanha do pré-candidato do PSDB a prefeito de São Paulo, José Serra, cuja equipe para a eleição já está virtualmente montada. González foi o marqueteiro das campanhas vitoriosas de Serra em 2004, para a prefeitura de São Paulo, e 2006, para o governo estadual, mas a cúpula nacional do PSDB põe na sua conta boa parte da responsabilidade pelas derrotas do partido nas eleições presidenciais de 2006, com Geraldo Alckmin, e de 2010 com o próprio Serra.

Segundo apurou o Valor, Serra confia no jornalista e quer refazer a parceria. González tem outra campanha vitoriosa em São Paulo no currículo: a reeleição do prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, em 2008 – o atual prefeito sucedeu Serra, em 2006, quando o tucano deixou a prefeitura para disputar o governo de São Paulo. As maiores dificuldades de González com o PSDB se deram com a direção nacional tucana, nas duas eleições presidenciais que comandou para o partido, as duas vencidas pelo PT.

A principal restrição dos dirigentes tucanos ao jornalista, nas duas eleições, era a seu comportamento considerado excessivamente centralizador. González era acusado pelos tucanos e aliados do DEM, no caso da eleição disputada por Serra contra Dilma Rousseff, de não admitir interferência no marketing da campanha e de não ouvir as opiniões da classe política. Mas em 2010 contribuiu para o conflito também o fato de setores do PSDB terem outras alternativas para a comunicação e publicidade da campanha.

À época, dirigentes do PSDB diziam que González era muito bom para comandar eleições em São Paulo, mas tinha dificuldades de elaborar um discurso nacional. O jornalista resistiu às pressões, assim como Serra, que preferiu mantê-lo mesmo quando se delineou a derrota para a candidata do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, num cenário de crescimento econômico e alta popularidade do petista.

Serra já sondou praticamente todos os profissionais com os quais espera contar na equipe de campanha, muito embora sua candidatura, formalmente, ainda dependa de vitória na prévia do PSDB, caso ela efetivamente seja realizada: a consulta foi esvaziada com a desistência dos pré-candidatos Bruno Covas e Andrea Matarazzo, após Serra anunciar que aceitaria ser o candidato do partido à sucessão do prefeito Gilberto Kassab.

O tucano dizia que não seria candidato a prefeito, mas efetivamente cedeu a apelos dos tucanos, especialmente do governador Geraldo Alckmin, que se julgavam sem alternativa competitiva para manter a Prefeitura de São Paulo, nas eleições de outubro. Na avaliação do PSDB, perder o cargo para o PT abre um flanco nas posições tucanas que pode levar à queda do governo do Estado nas eleições de 2014.

O PSDB governa São Paulo, o maior colégio eleitoral do país, desde a posse de Mário Covas, em janeiro de 1995 (nesse período, só não teve um tucano no Palácio dos Bandeirantes durante a breve passagem de Cláudio Lembo, vice que substituiu Alckmin entre março de 2006 e 1º de janeiro de 2007). Deve completar os 20 anos de poder estadual no fim do mandato do atual governador, Geraldo Alckmin.

Além de González, Serra também já convidou para comandar a equipe de campanha o secretário de Desenvolvimento Metropolitano do Estado de São Paulo, Edson Aparecido. Pré-candidato que desistiu depois da entrada de Serra na disputa, o deputado estadual Bruno Covas ficará encarregado pela área responsável pela juventude. Andrea Matarazzo também estará na equipe, assim como o secretário e deputado federal Walter Feldman.

A equipe que está sendo montada por Serra, segundo apurou o Valor, é quase uma reedição da que foi formada na campanha vitoriosa de 2004. Devem integrar o conselho político da campanha – ainda não está claro se formal ou informalmente – o senador Aloysio Nunes Ferreira e o ex-governador Alberto Goldman. O primeiro foi secretário de governo e o segundo vice quando Serra era governador.

08/03/2012 - 09:22h Aliança entre DEM e PSDB corre risco em SP

Por Vandson Lima | VALOR

De São Paulo

Dada como certa desde a entrada de José Serra (PSDB) na disputa, a aliança entre PSDB e DEM na eleição à Prefeitura de São Paulo corre sério risco de naufragar por conta do desacerto entre as siglas em outras praças Brasil afora.

É o que garantem lideranças do DEM, insatisfeitas que estão com a maneira como o presidente nacional tucano, deputado federal Sérgio Guerra (PE) tem tocado as negociações. O DEM considera fundamental para sua sobrevivência no cenário político eleger os prefeitos de Salvador (BA) e Recife (PE), onde pretende lançar como candidatos os deputados federais Antônio Carlos Magalhães Neto e Mendonça Filho, respectivamente.

A sigla cobra dos tucanos apoio nas duas cidades como contrapartida à coligação com Serra, na qual teria de aceitar a incômoda companhia do PSD, partido cuja criação, em 2011, lhe arrancou dezenas de deputados e centenas de prefeitos.

Em Salvador, DEM, PSDB e PMDB, partidos de oposição ao governador Jaques Wagner (PT), conversam desde o ano passado sobre a possibilidade de estarem em uma mesma chapa. O PSDB levou à mesa a pré-candidatura do deputado federal e ex-prefeito Antônio Imbassahy. O PMDB ofereceu outro ex-prefeito, o radialista Mário Kertész. Nos bastidores, partidários de DEM e PMDB dizem que o quadro mais provável hoje é de que PSDB e DEM se acertem, Imbassahy deixe o páreo e os tucanos apoiem ACM Neto, enquanto o PMDB iria às urnas sozinho.

Na capital pernambucana a costura é ainda mais complicada. Segundo colocado na eleição municipal de 2008, Mendonça Filho (DEM) tem avançado nas conversas para convencer PMDB e PPS a apoiarem sua candidatura, mas com o PSDB a negociação travou. Sérgio Guerra prefere lançar o deputado estadual Daniel Coelho (PSDB) à disputa por enxergá-lo como um nome novo e com potencial para fazer frente ao candidato da frente PSB/PT, que domina as máquinas estadual e municipal.

Para demistas, a motivação de Guerra é outra: ele não quer se indispor com o governador Eduardo Campos (PSB) apoiando uma candidatura da oposição que tenha chances reais de vencer. Logo, prefere usar o pleito para dar visibilidade a um correligionário promissor, mas que não ameaçaria realmente os planos do governador e possível parceiro em 2014.

Todo o imbróglio tem reflexos diretos na sucessão paulistana. Cortejado pelo PMDB para ficar com a vice na chapa do deputado federal Gabriel Chalita, o DEM lançou em fevereiro a pré-candidatura do secretário estadual de Desenvolvimento Social, Rodrigo Garcia, mas a possibilidade de sua ida às urnas é dada como praticamente descartada no quadro atual. “As alternativas estão claras. Se o PSDB ceder e nos apoiar em Recife e Salvador, apoiaremos Serra. Caso contrário, aceitaremos a oferta de Chalita”, afiança um líder do DEM.

Se unidos, DEM e PMDB terão outro desafio além de tentar eleger Chalita, cujos índices de intenção de voto variam entre 7% e 15%, segundo pesquisa do Datafolha. Vitimados pelo PSD, que arrancou vereadores de ambos, precisam recuperar espaço na Câmara Municipal paulistana. Atualmente, o DEM tem apenas três vereadores. O PMDB, nenhum.

05/03/2012 - 09:20h A eleição como surpresa

Por Renato Janine Ribeiro – VALOR

Estas eleições prometem muito suspense. Para dizer a verdade, a campanha para as municipais de 2012 começou a soltar adrenalina, e muita, com um bom ano de antecedência. A rigor, ainda não sabemos quem vai ganhar – às vezes, nem quem vai disputar – as eleições na maior parte das capitais. Aliás, a ansiedade é uma constante em nossas eleições, excetuando talvez as duas vitórias de Fernando Henrique, em 1994 e 98. Hoje, a novela paulistana é exemplar desse ritmo de surpresas.

Primeiro ato: Lula intervém, afasta a aspirante mais popular do PT, Marta Suplicy, e emplaca Fernando Haddad. Foi uma ação surpreendente, mesmo que ela possa encontrar uma justificativa, que estaria em Haddad sofrer menor rejeição do que Marta e, portanto, ter talvez maiores chances de vencer. Segundo ato, o mais surpreendente até agora: o prefeito Kassab se distancia do aliado PSDB e negocia com o PT. Isso espantou, mas também há lógica nesse curioso minueto. Afinal, Kassab disputou as eleições municipais de 2008 com o atual governador do Estado, Geraldo Alckmin, e desde então eles se estranham. Mesmo assim, foi paradoxal ver uma aproximação do Partido dos Trabalhadores com um político de origem na direita, tanto assim que as bases do PT, já incomodadas com a intervenção de Lula na escolha do candidato, quase se rebelaram contra uma aliança tão “contra natura”. Terceiro ato: a entrada de José Serra na disputa, pondo fim às negociações do prefeito paulistano com o PT. Serra não queria a prefeitura e deixara isso claro, a ponto de serem programadas prévias somente por essa razão – mas mudou de ideia. Essa foi, porém, a menor surpresa das três: foi a única saída para sua família política continuar governando a maior cidade do país, e para ele se manter na posição de grande nome do PSDB.

Desde 89 elegemos só presidentes improváveis

Três atos, disse eu, um para cada surpresa; na era clássica, ou seja, nos séculos XVII e XVIII, as peças de teatro tinham cinco atos. Hoje, têm um, dois ou três. Ninguém aguenta mais tanto intervalo… Só que nas eleições deste ano vamos ultrapassar os cinco atos de Racine e Molière. Em outras palavras: eleições, no Brasil, reservam muitas surpresas. Acredito que em nosso país a dose de imprevistos numa campanha eleitoral seja maior do que em países nos quais as preferências partidárias ou políticas dos eleitores estão consolidadas ou, se assim preferirem, engessadas. Embora nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha, França, Itália, Alemanha e Espanha não seja raro uma eleição trocar o partido que está no governo, o porcentual de eleitores que mudam de opinião não é dos maiores. Já no Brasil, ele pode ser bastante elevado.

Lembremos as eleições presidenciais desde 1989. Escolho esse período, porque ele é o único marcado pela constância da democracia em nossa história. Na República Velha, as eleições eram fraudadas; depois disso, passamos por duas longas ditaduras, a de Vargas e a dos militares; e, na fase democrática de 1945 ou 46 até 1964, vivemos boa parte do tempo sob a ameaça de uma intervenção armada, que por sinal acabou ocorrendo. Mas, desde que a democracia começou a se consolidar entre nós, em 1985, um dado interessante é que somente se elegeram para a presidência da República candidatos improváveis. Poucos sabiam quem era Fernando Collor dez meses antes de ele se eleger. FHC, intelectual sofisticado, parecia o exemplo de quem jamais conseguiria falar ao povo. Seguramente, ele não se elegeria sem o Plano Real. Delfim Neto dizia que até “um poste” venceria Lula em qualquer eleição. Difícil lembrar, hoje, o quanto Lula era temido e rejeitado. Já Dilma era considerada uma tecnocrata, jamais disputara um pleito e não aparentava ter maiores dotes para a comunicação política. Em contrapartida, nenhum dos nomes óbvios – Ulysses Guimarães em 1989, Mário Covas em 1994, José Serra depois – chegou a presidente do Brasil. Parece estar em nossa tradição democrática – curta, mas creio que consolidada – a eleição como surpresa.

Essa situação tem um aspecto positivo. Nosso eleitorado não é “blasé”. Ele é capaz de mudar de ideia, conforme os rumos da campanha. Sim, ele pode ser conquistado por golpes baixos, como quando Collor acusou Lula, em 1989, de tentar induzir a ex-namorada a fazer um aborto – ou, nas últimas eleições, quando de novo o aborto serviu de arma eleitoral. Mas também decide o voto com base no interesse, como aconteceu quando o plano Real domou a inflação, ou quando o governo Lula promoveu uma maciça ascensão social das classes D e E para a classe C.

Ou pensemos no eleitorado, tal como está representado na Câmara. Nossa política tem dois polos, o PT, com 88 deputados eleitos em 2010, e o PSDB, com 54. Partidos de convicções firmes são esses dois, mais o DEM, o PCdoB e o PSOL. Talvez o PPS. Somados, têm uns 200 deputados, num total de 513. Quase todas as demais agremiações, inclusive a segunda maior, o PMDB, com 79 representantes, carecem de convicções tão firmes – isto é, podem apoiar qualquer governo. Isso é ruim? Muito. Mostra o oportunismo desses partidos. Mas, do ângulo dos cidadãos, indica que a maior parte deles não sente ódio excessivo a qualquer polo. Temos dois polos partidários, por sinal melhores que a média em outros países do mundo (melhores que os dos Estados Unidos, Itália ou França), mas a cidadania não está rachada entre eles. Mesmo se acreditarmos que os eleitores tucanos odeiem o PT, e os petistas detestem o PSDB – o que está longe de valer para todos -, a maior parte da população não está tão dividida. Isso é positivo. Permite que as pessoas mudem de ideia. Dá vida à política.

Renato Janine Ribeiro é professor titular de ética e filosofia política na Universidade de São Paulo. Escreve às segundas-feiras

E-mail rjanine@usp.br

05/03/2012 - 08:54h Desafio de Serra será manter eleitorado fiel


Pré-candidato tem em redutos da classe média sua força eleitoral, onde conquistou maior votação na capital paulista

05 de março de 2012

DANIEL BRAMATTI – O Estado de S.Paulo

Como candidato do PSDB à Prefeitura de São Paulo, José Serra enfrentará em 2012 o desafio de impedir que os adversários avancem sobre os redutos de classe média que deram ao tucano três vitórias eleitorais na capital paulista nos últimos oito anos.

Serra teve desempenho quase idêntico nos primeiros turnos de 2004, quando concorreu à prefeitura, e de 2010, ano em que disputou a Presidência. Com apenas uma exceção, ele venceu e perdeu nas mesmas zonas eleitorais, com porcentuais de votos muito próximos (veja quadro).

A “cidadela serrista” é formada pelas áreas mais ricas e por quase todos os bairros de classe média da cidade. A conquista desse eleitorado é vista como estratégica para o PT, o que levou o partido a escolher um candidato visto como mais palatável pela classe média e sem a rejeição histórica da ex-prefeita Marta Suplicy – o ex-ministro da Educação Fernando Haddad.

Gabriel Chalita (PMDB), com tempo de propaganda que o credencia a eventualmente romper a polarização PSDB-PT, nunca concorreu a cargos executivos, mas seu mapa de votação como candidato a vereador e a deputado federal mostra uma base de classe média, principalmente em áreas fronteiriças ao chamado centro expandido.

Os movimentos do PT e o perfil de Chalita indicam que os redutos de Serra serão os principais palcos da batalha eleitoral.

Antecedentes. Nas três eleições em que ficou em primeiro lugar em São Paulo, Serra polarizou a disputa com um candidato do PT – partido cujo eleitorado, de perfil oposto ao do PSDB, se concentra nos extremos leste, sul e noroeste da cidade.

Nos três episódios, era o PT quem enfrentava alta rejeição – obstáculo, agora, para o tucano. Segundo a última pesquisa Datafolha, publicada no domingo, 30% dos eleitores paulistanos não votariam de jeito nenhum no representante do PSDB.

Em 2006, como candidato a governador, Serra teve desempenho acima de sua média histórica na capital. Seu principal adversário, Aloizio Mercadante (PT), perdeu fôlego na reta final da campanha ao ter assessores envolvidos no “escândalo dos aloprados” – tentativa de compra de um dossiê contra o tucano.

Em 2008, Serra não concorreu e a polarização PT-PSDB não se verificou. O tucano Geraldo Alckmin ficou em terceiro lugar na disputa pela prefeitura – o vencedor foi Gilberto Kassab, então no DEM, que Serra apoiou veladamente no primeiro turno e de forma aberta no segundo.

O PT apostou em Marta Suplicy, vitoriosa na eleição para a Prefeitura em 2000, nas disputas municipais de 2004 e 2008. Os redutos petistas da periferia garantiram sua ida ao segundo turno, mas ela foi derrotada duas vezes na reta final, por conta da alta rejeição em áreas de classe média.

Haddad, agora, tem baixa rejeição, o que pode ser decorrência do fato de ser pouco conhecido entre os paulistanos. Apenas 41% dos eleitores sabem quem é Haddad, segundo o Datafolha. Serra, por sua vez, é conhecido por 99%.

O ex-ministro da Educação tem como trunfo dois cabos eleitorais importantes – a presidente Dilma Rousseff e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A primeira ganhou pontos na classe média e ampliou sua popularidade no Sudeste no primeiro ano de mandato. O segundo é o político cujo apoio mais pode beneficiar um candidato, segundo a pesquisa Datafolha.

Antes de avançar sobre o eleitorado que tem sido hostil ao PT nos últimos anos, o ex-ministro da Educação busca ganhar espaço entre os simpatizantes tradicionais. O pré-candidato tem feito incursões a bairros periféricos para se apresentar a cabos eleitorais petistas e ouvir reivindicações de líderes locais.

05/03/2012 - 08:27h No embalo da pesquisa

05 de março de 2012

JOSÉ ROBERTO DE TOLEDO – O Estado de S.Paulo

O termômetro esquenta ou esfria o objeto cuja temperatura ele pretende medir. Assim também, a pesquisa eleitoral influi na disputa que ela acompanha. A sondagem do Datafolha sobre a eleição paulistana criou um fato positivo para José Serra e praticamente liquidou as já remotas chances dos outros pré-candidatos do PSDB a prefeito de São Paulo. Mais do que isso, aumentou o magnetismo do tucano no jogo das alianças partidárias.

Na atual fase da corrida eleitoral, o mais importante para cada um dos principais candidatos é unir seus partidos em torno de seu nome e conseguir o máximo de coligações com outras siglas, de preferência com aquelas que têm direito a pelo menos uma inserção diária durante o horário eleitoral obrigatório. Serra largou na frente.

Ao bater em 30% das intenções de voto no Datafolha, ele tornou-se líder e – mais relevante – passou a ser percebido como o favorito. Nada mais atraente para os políticos do que a perspectiva de poder. Não importa que Serra cresceu por um evento efêmero – o tumulto causado pela sua entrada tardia na disputa e a grande exposição na mídia que se seguiu – , nem que parte de sua intenção de voto seja, de fato, efeito memória. A pesquisa criou um fato político e deu impulso a Serra.

Antes que obscurantistas venham clamar contra a liberdade de informação, é bom lembrar que isso é do jogo. Assim como ajudou, a pesquisa poderia ter atrapalhado se o resultado fosse diferente. Em 2010, quando Dilma Rousseff, em ascensão, começou a encostar no tucano, em queda, cada pesquisa era uma dose de vitamina para a campanha da petista e um tormento para Serra. Neste momento, os papéis se inverteram.

Para o PT e para Fernando Haddad, a pesquisa Datafolha foi uma notícia duplamente ruim. A estagnação do petista em 3% mostrou que a estratégia de Lula não deu certo. Ao atropelar as prévias do partido e impor um nome que ele escolheu sozinho, o ex-presidente pretendia ganhar tempo para tornar seu candidato conhecido e evitar rachas internos. Aconteceu o oposto.

O ressentimento de petistas alijados da disputa, como Marta Suplicy, é cada vez mais notório, e Haddad continua patinando no desconhecimento, apesar de estar em campanha há meses. Sem adversário interno, o pré-candidato petista mal aparece no noticiário. Ao mesmo tempo, a doença de Lula não permitiu que ele propagandeasse o nome de seu pupilo à exaustão, como fez com Dilma em 2009 e 2010.

Desconhecimento e inexperiência são defeitos que não pioram com o tempo. Ainda há muito chão pela frente e o PT tem um eleitorado cativo que levou seu candidato ao segundo turno nas últimas cinco eleições de prefeito em São Paulo. O problema petista imediato são as coligações perdidas.

É muito mais difícil – e caro – convencer um partido a apoiar o 7.º colocado do que o líder da pesquisa. Especialmente quando Dilma enfrenta uma rebelião na base de apoio ao seu governo. O PTB só é aliado do PT em Brasília. O PDT, cada vez menos. O PP malufista tucanou. O PSD kassabista também. PRB, PC do B e PMDB têm candidatos próprios mais bem colocados que o petista. O PR ameaça com Tiririca. Sobra o PSB, talvez.

Serão necessários muitos ministérios e muita verba federal para o PT seduzir outras siglas e levá-las para sua coligação. Sem isso, Haddad, que precisa de tempo na TV para o eleitor descobrir que ele existe, corre alto risco de ficar com menos tempo de propaganda do que o principal rival, o universalmente conhecido Serra.

Se não fizer amigos e influenciar outros partidos, Haddad pode ficar empatado em inserções publicitárias com Gabriel Chalita (PMDB), que corre por fora e não perdeu pontos com a entrada de Serra: tem 7% das intenções de voto (tinha 6%).

A dificuldade petista de arrumar coligações para seu candidato em São Paulo se deve aos aliados de Dilma terem caído na real. Perceberam que jogam, em 2012, a sua sobrevivência daqui a dois anos, quando serão renovadas as bancadas na Câmara dos Deputados e um terço do Senado. Os principais cabos eleitorais em 2014 serão – como sempre foram – os prefeitos que ganharem a eleição no próximo mês de outubro. E está difícil elegê-los.

Os aliados acham que o PT é o bicho-papão. Mas foi o recém-criado PSD que bagunçou a base aliada de Dilma. Das suas 272 prefeituras, o partido de Gilberto Kassab “roubou” a maioria (153) de partidos que apoiam a presidente no Congresso: 31 do PMDB, 30 do PP, 23 do PR, 15 do PTB e 10 do PSB, por exemplo.

Como resultado, PMDB, PP, PDT, PR e PTB têm menos prefeitos hoje do que elegeram em 2008.

Ao mesmo tempo, PT e PSB conseguiram cooptar novas prefeituras e estão jogando pesado para engordar ainda mais esse número nesta eleição.

São Paulo é apenas o caso mais visível de um problema nacional: a disputa pelo poder municipal entre partidos que só são aliados no plano federal por força do presidencialismo de coalizão brasileiro.

O mau desempenho no Datafolha e a busca pelas coligações perdidas mostram que não será apenas na base da ligação direta com o eleitor e seu bolso que Lula vai conseguir eleger Haddad, nem que Dilma vai conseguir governar. A política é necessária, como sempre foi.

05/03/2012 - 08:05h Renovação eleitoral pauta discussão na corrida paulistana


Enquanto PT aposta em novidade na eleição com Haddad, o PSDB deve lançar Serra, nome já conhecido do eleitorado

05 de março de 2012

FERNANDO GALLO – O Estado de S.Paulo

A falta de novas lideranças em seus quadros leva o PT e o PSDB a optarem por caminhos distintos na eleição municipal de 2012, avaliam especialistas consultados pelo Estado. Com a entrada do ex-governador José Serra na corrida eleitoral, os tucanos continuam a apresentar desde 1996 os mesmos dois nomes aos eleitores da capital: Serra e o governador Geraldo Alckmin. Os petistas, por sua vez, optam pelo novato Fernando Haddad, que desbancou a senadora Marta Suplicy (PT-SP) depois de três eleições consecutivas.

O PSDB, dizem os analistas, é vítima de uma armadilha: sem um nome alternativo forte, busca o recall alto de Serra, mas adia o processo de renovação, impedindo o surgimento de novas lideranças. “Como vai haver recall de outros nomes se nunca é dado aos mais jovens a oportunidade de aparecer?”, indaga Carlos Melo, professor do Insper.

Ele lembra que Serra, em 1996, e Alckmin, em 2000, concorreram nas eleições municipais, e perderam. “Perder não é pecado, é do jogo. Eleições não são feitas só para ganhar, mas para expor um programa, uma alternativa a ser testada. Você não pode ser o dono da fila”.

O cientista político Fernando Abrucio, professor da FGV, avalia que Alckmin não fez pelo deputado Bruno Covas, seu secretário de Meio Ambiente, aquilo que o avô de Bruno, Mário Covas, fez pelo governador ao fomentar sua candidatura à prefeitura em 2000. “O Alckmin é fruto do Covas, que o bancou. Uma liderança pensa no futuro”, alfineta. “Pode ser que Bruno, que foi o deputado estadual mais votado e tem sobrenome forte, perdesse a eleição, mas chegaria a 15% ou 20 % dos votos e seria um PSDB novo”.

Marco Aurélio Nogueira, da Unesp, vê a falta de base partidária como impeditivo à renovação no tucanato. “O PSDB tem ligação precária com a sociedade e um problema grave de reprodução. Não cresce nem se renova porque não é oxigenado pela sociedade”.

PT. No caso petista, além do envelhecimento e do desgaste de alguns líderes como Marta Suplicy e o ministro Aloizio Mercadante, houve dirigentes abatidos pela crise do mensalão. “Envelheceram e não é apenas de idade, envelheceram politicamente. O José Dirceu é mais novo que o Serra, mas não tem a mesma força de antes”, diz Abrucio.

Mesmo com um nome novo na disputa, o PT não escapa das críticas, dirigidas a escolha de Haddad pelo dedaço do ex-presidente Lula, segunda etapa de um processo de renovação nacional do partido, iniciado em 2010 com a escolha de Dilma.

“Não é uma renovação natural, de políticos que surgiram na base, foram vereadores, deputados”. Segundo ele, a renovação foi “contingencial”, uma necessidade do projeto nacional de Lula. “O Lula enfrentou uma queda de braço com setores do PT e ganhou. Por isso ocorre a renovação”. Para Abrucio, os nomes foram tirados da burocracia de governo. “Não é necessariamente ruim, embora fosse melhor que nascessem nos partidos. Mas a vida partidária está frágil”.

04/03/2012 - 10:02h Aníbal e Tripoli na trincheira pela prévia tucana


Pré-candidatos do PSDB resistem ao favoritismo de Serra à Prefeitura de São Paulo e não abrem mão da consulta interna

04 de março de 2012

Julia Duailibi, de O Estado de S.Paulo

Quinta-feira, dia 1.º de março, o deputado Ricardo Tripoli (PSDB-SP) se reúne com lideranças comunitárias no Sindicato dos Químicos, no centro da capital paulista. Para uma plateia de cerca de 50 pessoas, diz: “(O ex-governador José) Serra vai ter que se explicar. Tudo o que vão falar para cima dele é se vai sair ou não (da Prefeitura para disputar a Presidência)”.

No dia seguinte, em outro ponto da região central, o secretário estadual José Aníbal (Energia) se encontra com militantes e presidentes de diretórios zonais do PSDB tucanos para um almoço. Circula entre as mesas, com as mangas da camisa arregaçadas, e questiona: “Por que adiar?”. É uma crítica à postergação da prévia em três semanas em razão da entrada de Serra na disputa. Marcada para hoje, será agora dia 25.

“Tem uma foto dele no tablet. Todo mundo o conhece”, completou Aníbal, citando o sistema de votação do PSDB em que o militante escolherá seu candidato por meio de tablets espalhados em 58 locais da cidade.

Tripoli e Aníbal, que arrancavam palmas de suas plateias, são agora os desafiantes de José Serra. Na semana passada, os outros pré-candidatos, os secretários estaduais Andrea Matarazzo (Cultura) e Bruno Covas (Meio Ambiente), desistiram da prévia em nome de Serra. O fantasma da candidatura do ex-governador rondou os sete meses de campanha interna no PSDB. Até que, finalmente, no último domingo, se colocou como fato.

O governador Geraldo Alckmin chamou Tripoli e Aníbal para um cafezinho no Palácio dos Bandeirantes e, após uma conversa branda sobre a moto da marca Leonette que tinha nos anos de juventude em Pinda, anunciou a candidatura Serra. E, apesar das juras de que a prévia seria mantida, deu indícios de que a máquina governamental já pendia para um lado.

Tripoli e Aníbal chegaram à reunião em carros diferentes, mas saíram do Palácio dos Bandeirantes juntos. Deram início à ação conjunta para resistir à pressão das lideranças do PSDB pró-Serra. Ação se materializou em telefonemas diários e numa nota pública pedindo a Serra que participe de debates.

Até a semana passada, o ex-governador, que não é politicamente próximo de nenhum dos dois, não os havia procurado. Por ironia, tanto Tripoli quanto Aníbal se dizem seguidores políticos do governador Mario Covas (1930-2001), que era de grupo distinto do de Serra no PSDB.

Em campo. Os prognósticos no PSDB apontam para Serra vencedor, e os tucanos descartam uma “zebra” no dia da prévia. Mas Tripoli e Aníbal rechaçam as previsões, que dizem ser contaminadas pela visão pró-Serra de lideranças do partido. Com mais ou menos entusiasmo, foram à caça dos votos de Matarazzo e Bruno.

Aníbal tomou café da manhã na semana passada com líderes comunitários da Zona Sul. Na matemática eleitoral, diz: “São, pelo menos, 80 votos”. Tripoli, com o celular, comemora mais uma adesão de um puxador de votos tucanos. Aliás, num partido em que as decisões são tradicionalmente tomadas pela cúpula, os militantes da ponta – aqueles que filiaram vizinhos e familiares e mantêm ascendência sobre os seus votos – passaram a ser os homens mais prestigiados do PSDB nos últimos dias.

Dono de um discurso mais conciliador, Tripoli, advogado de formação, brinca que, aos 59 anos, é agora o “candidato mais jovem da prévia”. Coloca-se no debate com uma espécie de discurso “alternativo”, em que mescla questões de meio ambiente e de qualidade de vida. Político, não bate na gestão do prefeito Gilberto Kassab (PSD), cujo flerte eleitoral com o PT foi decisivo para Serra se candidatar. “Não é uma gestão ruim. Há coisas boas que podemos aproveitar.” Que coisas boas? “O Cidade Limpa”, disse sobre o projeto de restrição da publicidade pela cidade.

Foi o único dos pré-candidatos que colheu as 220 assinaturas necessárias para se inscrever na prévia – os outros tiveram as pré-candidaturas chanceladas pela direção municipal do PSDB.

Lembra que procurou Serra em seu escritório em 2011 para informar que se inscreveria na prévia. Na conversa, o ex-governador usou o discurso que entoou até janeiro: disse que não seria candidato, e que Tripoli deveria seguir em frente com a prévia, que faria bem ao partido.

Aníbal, de 64 anos, conhecido no PSDB pela verve mais enfática, é economista. Atuou no movimento estudantil com a presidente Dilma Rousseff, com que mantém amizade até hoje. Nos discursos, destaca a carreira política e a experiência na vida pública. Propõe a criação das chamadas “prefeituras distritais” para descentralizar a administração. “São Paulo está mal governada. Faltam R$ 300 mil para fazer uma calçada no Grajaú”, declara, sem pisar em ovos.

Conta que na disputa de 2004 desistiu da prévia e abriu mão para Serra. “Naquele momento, achava que ele tinha preferência. Hoje, não.”

02/03/2012 - 09:54h Uma página em branco

A cidade de São Paulo não aparece nos 31 artigos publicados na imprensa nos últimos 12 meses pelo pré-candidato do PSDB, José Serra

Por Maria Cristina Fernandes – VALOR

Entre a campanha presidencial de 2010 e a decisão de candidatar-se à Prefeitura de São Paulo, José Serra foi colunista de jornal. Escreveu 21 artigos em “O Estado de S.Paulo” e dez em “O Globo”. A íntegra desses artigos está no seu site (www.joseserra.com.br), onde também se encontram discursos feitos em encontros partidários de que participou nesse período, comentários sobre a conjuntura e um artigo sobre goleiros publicado pelo jornal “Lance!”.

Os artigos revelam o ex-candidato à Presidência da República, o ex-senador e, eventualmente, o ex-governador do Estado de São Paulo. Em nenhum momento, porém, avoca sua experiência de um ano e três meses frente à prefeitura da capital.

São textos fluidos e ácidos com raras concessões ao lirismo, como no texto em que revela sua simpatia pelos goleiros: “Vê seu time sempre pelas costas e o adversário pela frente. Trabalha com as mãos no esporte dos pés”.

Faz revelações de sua infância ao rememorar os 50 anos da renúncia de Jânio. Sua mãe entusiasmou-se pela campanha do tostão contra o milhão. As mulheres consideravam Jânio um político diferente dos outros. O jovem Serra também. Achava que havia feito um bom governo em São Paulo, “operoso e sem escândalos” e, por isso, tinha lhe dado o primeiro voto de sua vida. O pai era contra por sua gestão na prefeitura, quando os fiscais cobravam caixinha dos feirantes do Mercado Municipal.

Serra fez duas estreias. Na imprensa começou com um “Oposição para quê?”, em que faz referências não tão veladas à proeminência que o senador Aécio Neves havia adquirido no partido. Diz que o PSDB não sabe fazer oposição e considera razoável o eleitor imaginar que “não sabe governar quem não sabe se opor”. Sugere os 10 Mandamentos como cartilha para a oposição e sugere o 11º: “Não ajudarás o adversário atacando teu colega de partido”.

Faltou São Paulo nos artigos de José Serra

Ao abrir o site, em um pequeno artigo com o título “Minha primeira vez”, cita um conto de Machado de Assis: “As palavras têm sexo, unem-se umas às outras. E casam-se. O casamento delas chama-se estilo”.

Na internet e nos jornais o que predomina são os textos de crítica ao governo federal. Desindustrialização, câmbio e infraestrutura são os temas econômicos mais frequentes. Recorre à terceira colocação do Brasil no índice do Big Mac mais caro para fazer suas críticas ao câmbio sobrevalorizado. Reclama de uma política mais agressiva para o turismo, capaz de competir pelos R$ 16 bilhões que os brasileiros gastaram em 2010 no exterior.

Considera o trem-bala “o pior projeto da história” e diz que as concessões petistas das rodovias federais “não foram ‘a preço de banana’, foram de graça mesmo” para concluir que “a pior ideologia é a incompetência”.

Faz um único elogio à política econômica, reservado ao site. Quando o Copom baixa meio ponto da Selic defende a credibilidade do Banco Central e o direito de a presidente conversar com seus diretores e ministros da área econômica sobre os rumos da política monetária.

Volta e meia analisa a economia internacional. Diz que o Euro foi o “maior erro de política econômica em escala internacional na segunda metade do século XX”.

Faz críticas recorrentes a corrupção e a loteamento de cargos, queixa-se dos rumos da reforma política e do que avalia como abandono do tema dos direitos humanos na política externa. Faz um artigo sobre saúde, relembrando sua atuação no ministério e defendendo a vinculação de recursos. Já este ano escreveu um artigo sobre o Enem em que critica a iniciativa petista de tentar mudar a forma de ingresso nas universidades transformando-o num vestibular gigantesco e mal administrado.

Nos 12 meses em que escreveu Serra não falou do transporte público, das creches, das AMAs (Assistências Médicas Ambulatoriais) ou da limpeza urbana da cidade de São Paulo.

Ele avisara, ao estrear como articulista, que estaria ocupado com o “futuro do Brasil e dos brasileiros”. Na carta que entregou ao diretório municipal do PSDB reconheceu que os 44 milhões de votos que recebera em 2010 lhe estimularam a voltar sua atenção a questões nacionais.

Em sua primeira entrevista como pré-candidato, Serra disse que apresentava sua postulação por “necessidade política e por gosto de ser prefeito”.

Se nem ele nem seu partido acreditavam ter alternativa, foi efetivamente por necessidade que resolveu se apresentar. Mas que a prefeitura mobiliza seus gostos não havia como adivinhar.

Esta é, no PSDB, uma das principais preocupações de sua campanha. Serra terá, provavelmente, a vantagem de liderar a mais robusta aliança partidária da sucessão paulistana. Além disso, conta com o histórico eleitoral de uma cidade que favorece candidaturas de centro-direita. Apesar disso tudo, porém, esta deve ser uma campanha mais difícil do que aquela em que venceu Marta Suplicy em 2004.

Naquele ano Serra ainda tinha fresco na memória do eleitor a passagem, havia dois anos, pelo Ministério da Saúde, quando fez uma gestão inovadora.

Agora já se passaram dez anos desde que deixou a Saúde. A avaliação é que lhe faltam marcas e sobram desgastes acumulados numa polêmica campanha presidencial. Aquilo que fez na rápida passagem pela prefeitura acabaria sendo creditado na conta de Gilberto Kassab, que ruma para concluir seu segundo mandato no posto. Também é difícil evitar que o que restou de sua administração como governador de Estado durante dois anos e três meses não se diluísse nos mais de sete anos que Geraldo Alckmin já acumula no cargo.

Até pode ser verdade, como diz Serra, que na eleição paulistana disputam-se os rumos da política nacional, dado o peso que os dois principais partidos do país jogam na parada. Mas não parece tão claro que a mão inversa funcione com a mesma fluidez. A blindagem do regime sírio, o futuro do euro, o nó cambial, o loteamento da Funasa ou a reforma política talvez tenham pouca influência sobre o voto paulistano.

Não que se deva esquecer o que escreveu. Há muitos momentos de lucidez nos artigos de Serra. A questão agora é preencher a página de São Paulo que ficou em branco.

Maria Cristina Fernandes é editora de Política. Escreve às sextas-feiras

E-mail mcristina.fernandes@valor.com.br

01/03/2012 - 11:26h Haddad alfineta: ‘Me interessa a cidade de SP’


Petista provoca Serra, lembra renúncia de 2006, e afirma que tucano mantém sonho presidencial

01 de março de 2012

DAIENE CARDOSO , AGÊNCIA ESTADO – O Estado de S.Paulo

“O paulistano quer um prefeito para a cidade, que cumpra o seu mandato. O cidadão quer alguém que cuide da cidade”, provocou ontem o pré-candidato do PT à Prefeitura de São Paulo, Fernando Haddad, antecipando um tema que os petistas pretendem explorar de forma recorrente na campanha: em 2006, José Serra renunciou à Prefeitura e disputou o governo do Estado. O pré-candidato tucano, ao anunciar anteontem a intenção de entrar na disputa municipal, nacionalizou o debate.

Em entrevista ao portal Terra, Haddad afirmou que o foco da disputa deve ser a administração da cidade e não o projeto nacional de Serra, que ainda aspira disputar a Presidência da República. “Há quem diga que ele disputará a eleição de 2014, quer dizer, nem foi realizada a eleição de 2012 e já estão pensando na questão nacional”, prosseguiu o candidato petista à sucessão de Gilberto Kassab (PSD).

O pré-candidato do PT disse que tem interesse no futuro da cidade de São Paulo e não no “futuro do País” ou nas “duas visões distintas de Brasil”, como mencionou o tucano no discurso em que admitiu, depois de longas semanas de hesitação, sua disposição de entrar na corrida eleitoral paulistana. “Estamos interessados na cidade e não estamos pensando num segundo passo: o que será de mim daqui a dois anos”, alfinetou o petista.

Haddad ressaltou que as próprias lideranças do PSDB – como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o presidente nacional do partido, deputado federal Sérgio Guerra (PE), e até o senador presidenciável Aécio Neves (MG) – não descartam a possibilidade de Serra tentar de novo lançar-se candidato às eleições presidenciais de 2014. Fernando Henrique afirmou, em entrevista ao Estado, que Serra poderá sair “revitalizado” da disputa municipal e que não se pode afirmar, pelo dinamismo da política, que ele estaria fora do páreo em 2014.

Recuo. Na opinião de Haddad, o PT acertou na estratégia ao lançar um nome novo em 2012 – enquanto o PSDB “ensaiou” implementar a mesma iniciativa, mas “sentiu-se inseguro e recuou”. O petista citou os governadores Cid Gomes (PSB-CE), Eduardo Campos (PSB-PE), Marcelo Déda (PT-SE), Sérgio Cabral (PMDB-RJ) e até o ex-tucano e prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (PMDB), como exemplos da nova geração de administradores que renovaram “com a força da boa política”.

Apesar de afirmar que o sentimento geral da população paulistana é de “abandono”, Haddad evitou críticas diretas a Kassab e não quis dar nota à sua administração. “Não gosto de dar nota para administrador público, acho que é a população quem tem de dar”, justificou.

No entanto, ao opinar sobre o preço da tarifa de ônibus na cidade (que é de R$ 3,00), o petista disse que o valor é incompatível com o bolso dos usuários e que a qualidade da integração do sistema está aquém das necessidades da cidade. “O prefeito carregou no reajuste”, criticou.

O ex-ministro da Educação voltou a dizer que se sente aliviado com a decisão de Kassab de manifestar apoio a Serra e encerrar o flerte com o PT e sua candidatura em São Paulo.

“A militância, de uma maneira geral, estava muito refratária a essa aproximação. Eu também estava me sentindo um pouco desconfortável”, admitiu.

01/03/2012 - 11:20h Para Chalita, Serra busca ‘o 3º turno das eleições presidenciais’

Desafeto de Serra nos tempos de PSDB, pré-candidato do PMDB à Prefeitura de São Paulo diz que rival ‘quer é ser presidente’
01 de março de 2012

Julia Duailibi, de O Estado de S.Paulo

O pré-candidato do PMDB à Prefeitura de São Paulo, Gabriel Chalita, afirmou nessa quarta-feira, 29, que o ex-governador José Serra quer “disputar o terceiro turno” da eleição presidencial ao se colocar como pré-candidato do PSDB na corrida municipal paulistana.

“Serra entra na eleição para disputar o terceiro turno das eleições presidenciais. Então ele vem com um discurso nacional. Ele deixou claro muitas vezes que não quer ser prefeito, quer ser presidente da República”, disse o parlamentar ao Estado.

Chalita criticou o ex-governador, de quem foi desafeto enquanto era filiado ao PSDB – ao sair do partido em 2009, passou pelo PSB antes de ir par ao PMDB. “Quem pode ser acusado de incoerente é o Serra, que assina uma coisa e não cumpre o que assinou, e o Kassab, que acena para um lado e para outro. Eu tenho uma cara só. Na nossa linha, não tem política de subsolo, é tudo absolutamente claro”, disse ao ser indagado se o eleitorado não apontaria incoerência nas críticas, já que ele fazia parte da mesma sigla que Serra.

Questionado sobre uma eventual pressão do PT para abrir mão de sua candidatura e apoiar o petista Fernando Haddad, no cenário com Serra na disputa, Chalita disse que a eleição não será polarizada e que o PT respeita a sua intenção de disputar. “Tenho muito respeito pelo PT, pela presidenta Dilma e pelo presidente Lula, mas minha candidatura não é linha auxiliar de ninguém”, disse. Segundo Chalita, o vice-presidente Michel Temer (PMDB) está “muito empolgado” com a sua campanha.

“Não muda a estratégia do PMDB porque a gente já contava com a candidatura do Serra. Ele tem dito uma coisa e tem feito outra já faz um tempo”, disse.

O pré-candidato disse ser bem-vindo o apoio do PSDB, caso vá ao segundo turno. “Se eu for contra o PT, espero que o PSDB apoie. Minha relação com (o governador Geraldo) Alckmin é muito boa e continua muito boa”, afirmou. “Serra não apoiaria o PT no segundo turno. Quero o voto dos eleitores do PSDB, inclusive no primeiro turno.”

29/02/2012 - 10:54h PSDB racha, governo SP vence, e prévia será feita só dia 25


Em reunião tensa, integrantes da Executiva do partido aprovaram por maioria apertada o adiamento da escolha interna em três semanas; outros pré-candidatos reclamaram da mudança

29 de fevereiro de 2012

Bruno Boghossian, Julia Duailibi e Gustavo Uribe – O Estado SP

Dividida, após a entrada do ex-governador José Serra na disputa pela Prefeitura de São Paulo, a direção do PSDB decidiu na noite dessa terça-feira, 28, ao fim de uma discussão tensa, adiar as prévias do partido para 25 de março – três semanas após a data original. Quando os integrantes da executiva estavam próximos de um consenso em torno do dia 11, Serra propôs um novo adiamento presidente local da sigla, Julio Semeghini. Em meio a bate-boca entre membros do grupo, o ex-governador, apoiado pelo Palácio dos Bandeirantes, venceu por 10 votos a 8.

A reunião durou 2h30. Em uma primeira votação, 14 dos 18 integrantes aprovaram o adiamento por uma semana. Em seguida, o líder do PSDB na Câmara, Floriano Pesaro, propôs a transferência para 25, como queria Serra. Nesse momento, o grupo rachou. A oposição era capitaneada pelos outros dois pré-candidatos, José Aníbal e Ricardo Tripoli. “Estávamos caminhando para um consenso em relação ao dia 11, mas alguns celulares tocaram e o resultado foi esse”, disse Tripoli, ao deixar o encontro.

Além de Serra, defendia o adiamento para 25 o grupo do secretário de Cultura, Andrea Matarazzo, que abriu mão da disputa para apoiar o ex-governador.

“Temos que dar oportunidade para que todos discutam (a entrada de Serra)”, justificou o presidente municipal Julio Semeghini. “Não foi possível construir um consenso”.

Mais cedo, o partido aprovou por unanimidade o pedido de entrada de José Serra na disputa, por meio de uma carta.

O Estado apurou que Serra teria dito nessa terça a Semeghini que poderia sair da disputa “do mesmo jeito que entrou”, se fosse mantido o prazo do dia 4. Políticos próximos a Serra minimizaram o mal-estar, dizendo que, para o ex-governador, “tanto fazia” fazer a prévia no dia 11 ou no 25 de março. Circulou, ainda, a notícia de que Aníbal teria ameaçado deixar a disputa e levar o caso à convenção. Ele negou.

28/02/2012 - 09:46h Para FHC, disputa em SP ‘revitaliza’ Serra e não o tira do páreo presidencial

Ex-presidente acha correta decisão do tucano de candidatar-se à Prefeitura; ‘Não significa que ele não possa ser outra coisa’

28 de fevereiro de 2012

GUSTAVO CHACRA, CORRESPONDENTE / NOVA YORK – O Estado de S.Paulo

A candidatura de José Serra à Prefeitura de São Paulo permitirá a ele “voltar à cena política com força” e foi a decisão mais adequada para o ex-governador e para o PSDB, afirmou ontem o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso em entrevista exclusiva ao Estado. “Dá a chance para o partido ganhar e dá a ele uma revitalização política”, analisou o ex-presidente.

Segundo FHC, a eleição para prefeito não significa que o ex-governador abandona o projeto de disputar a Presidência no futuro. “Política é uma coisa muito dinâmica. Tem sempre a cláusula de prudência. Política não é uma coisa em que os horizontes se fecham”, disse, ao comentar sobre a possibilidade de o tucano, mais uma vez, deixar um cargo para se candidatar a outro, como aconteceu quando era prefeito e governador de São Paulo.

O ex-presidente falou com o Estado em Nova York, onde lidera uma comitiva de 12 CEOs de empresas brasileiras ligadas à Comunitas, entidade criada por Ruth Cardoso para incentivar o investimento social corporativo.

O anúncio da candidatura de José Serra à Prefeitura não esvazia as prévias do PSDB?

Não estou no Brasil e não acompanhei de perto esta evolução. Quem está coordenando é o governador Geraldo Alckmin. Agora, o peso eleitoral do Serra é de tal magnitude que eu acho que o partido vai se ajustar à realidade política.

Mas não faltam caras novas no PSDB? Afinal, há anos Serra e o Alckmin se revezam em candidaturas em São Paulo. O PT tenta essa renovação agora com Fernando Haddad.

As prévias foram uma tentativa nesta direção. Mas quando você tem alguém com a densidade política do Serra, que se disponha a ser candidato a prefeito, do ponto de vista do PSDB há uma importância estratégica porque existe realmente viabilidade de ganhar São Paulo.

O sr. mencionou que o senador Aécio Neves (MG) é o candidato óbvio do PSDB para 2014.

Foi uma pergunta feita pela revista The Economist: quem é o candidato óbvio? Eu respondi que o Serra vai sair candidato, não vai desistir. E eles perguntaram quem seria o outro. É o Aécio. É uma coisa que todo o mundo sabe. São os dois que estão despontando com mais força.

Mas com o Serra se candidatando a prefeito…

Abre espaço para uma outra candidatura para presidente. Agora, sempre tem que colocar aquela cláusula de prudência. A política é muito dinâmica. O Serra pode ganhar ou pode perder. Nos dois casos, o fato de ele ser candidato agora reforça a presença dele como um líder. Todo líder político, enquanto quiser se manter ativo na política, tem de ter a expectativa de poder. Tem que ser candidato. Eu, por exemplo, quando deixei a Presidência, disse que não seria mais candidato a nada e não fui. Disse que estava saindo de cena. No começo, as pessoas não acreditaram. Como não sou ingênuo, ao tomar esta decisão, estava mesmo saindo de cena. Para quem não tomou esta decisão ainda, a melhor coisa a fazer é se candidatar. Você pode se candidatar em vários níveis. O Serra, ao tomar a decisão de se candidatar (para a Prefeitura), volta à cena política com força. Onde ele é necessitado neste momento? Onde o partido o vê com bons olhos neste momento? É aí (na Prefeitura). Isso significa que amanhã ele não pode ser outra coisa? Não.

Mas não pega mal para o Serra, que já foi prefeito uma vez e saiu para se candidatar (o tucano deixou a Prefeitura em 2006, para disputar a Presidência, e o governo do Estado, em 2010, para mais uma vez entrar na disputa presidencial)?

Ele vai tomar as precauções devidas porque ele tem de ganhar a eleição. Provavelmente ele vai reafirmar a disposição dele (de permanecer na Prefeitura). Mas não vi, não falei com ele. Política não é uma coisa em que o horizonte se fecha. De repente, o que estava fechado se abre. Acho que a decisão do Serra foi a mais adequada neste momento para ele e para o partido. Dá a chance para o partido ganhar e dá a ele uma revitalização política.

Mas para a Presidência, o Serra e o Aécio continuam sendo os dois nomes fortes do PSDB?

Eu acho que sim.


Tucano anuncia candidatura no Twitter; PSDB tenta adiar prévia

Serra deve enviar hoje carta ao diretório da sigla; executiva municipal quer postergar disputa interna para o dia 11 de março
28 de fevereiro de 2012

BRUNO BOGHOSSIAN, JULIA DUAILIBI, GUSTAVO URIBE / AGÊNCIA ESTADO – O Estado de S.Paulo

O ex-governador José Serra confirmou ontem querer ser candidato a prefeito de São Paulo. “Hoje (ontem) comunicarei por escrito à direção do PSDB de São Paulo minha disposição de disputar a Prefeitura”, escreveu no Twitter. Segundo a direção do PSDB municipal, a carta deve ser enviada apenas hoje.

Serra também anunciou apoio à prévia do partido para escolher o nome que disputará a eleição. Ele disse que sempre foi favorável ao processo interno. “E delas pretendo agora participar.”

Embora tenha usado o verbo “pretender”, o PSDB dá sua participação como certa, caso os outros concorrentes, o secretário José Aníbal (Energia) e o deputado Ricardo Tripoli, não desistam da prévia.

A decisão do tucano, antecipada pelo estadao.com.br na sexta-feira, deflagrou uma operação da direção do PSDB para postergar a eleição interna, marcada para domingo. Ontem, o presidente do PSDB paulistano, Julio Semeghini, entrou em contato com Aníbal e Tripoli, para pedir que aceitassem postergar a prévia em, pelo menos, uma semana.

A questão será debatida hoje em reunião da executiva municipal, para a qual Serra foi convidado. A tendência é que os tucanos ligados a ele e ao governador Geraldo Alckmin consigam aprovar o adiamento da prévia, já que têm a maioria dos 16 votos.

Um dos argumentos usados para convencer os tucanos ligados a Tripoli e Aníbal, que têm pelo menos sete votos na executiva, será o de que Serra participaria de dois debates. Ontem, no último encontro da série programada no ano passado, a proposta de adiamento foi rechaçada pelos pré-candidatos. “Podemos fazer um debate com Serra na quarta ou quinta desta semana”, afirmou Aníbal.

Nos últimos dois dias, os outros dois pré-candidatos, os secretários Andrea Matarazzo (Cultura) e Bruno Covas (Meio Ambiente), abriram mão da disputa interna. Depois que Serra mandar por escrito a carta informando querer participar da prévia, será feita a inscrição pela executiva, fora do prazo – a data final para isso era 14 de fevereiro.

Para Alckmin, a mudança na data é “irrelevante”. “Se é dia 4, se é dia 11, uma semana pra frente ou não, é irrelevante. A prévia existe se houver mais de um pré-candidato. A data é acessória.”

Vice. Ontem mesmo Serra manteve as articulações políticas em reuniões mantidas à noite, em seu escritório. O ex-governador já sonda os aliados sobre a indicação do vice. A chapa “puro-sangue”, defendida como forma de compor com os tucanos que abriram mão da prévia, tem sido bombardeada por aliados que também pleiteiam o cargo.

A dobradinha do PSDB, dizem os que são contra a puro-sangue, daria motivos para adversários alegarem que Serra não pretende cumprir os quatro anos de mandato, caso vença – em 2006, ele deixou a Prefeitura para disputar o governo estadual.

O PSD, do prefeito Gilberto Kassab, quer indicar o vice. O mais cotado é o secretário municipal de Educação, Alexandre Schneider. O DEM pleiteia a mesma indicação, alegando que era o acordo com Alckmin antes da entrada de Serra. O PPS, da pré-candidata Soninha Francine, também está no radar.

O vice-governador, Guilherme Afif Domingos (PSD), ressaltou que seu partido tem bons nomes para o posto. “Temos quadros que fizeram parte da administração Serra, mas não estamos colocando isso como condição”, salientou.

Além da questão da vice, os possíveis aliados de Serra questionam as vantagens de uma coligação na chapa proporcional com o PSD, que tem 11 vereadores. DEM e PSDB temem que a aliança com o partido de Kassab dificulte a ampliação de suas bancadas – ou até a manutenção do atual número. Ontem à noite, um grupo de vereadores tucanos anunciou apoio a Serra. “Viemos mostrar que 6 dos 8 vereadores estão com Serra”, disse o líder da bancada, Floriano Pesaro. O grupo é o mesmo que apoiava Matarazzo. / COLABOROU ROLDÃO ARRUDA

27/02/2012 - 11:55h No Twitter, Serra anuncia que disputará candidatura à Prefeitura de SP. Dois pré-candidatos desistem em favor de Serra, mas prévia do PSDB é mantida

Depois de suspense, ex-governador afirma que comunicará ao partido disposição de participar das eleições e defende realização das prévias tucanas
27 de fevereiro de 2012

do estadão.com.br

O ex-governador José Serra anunciou na manhã desta segunda-feira, 27, que pretende participar das eleições pela Prefeitura de São Paulo e que disputará as prévias do PSDB que definirá o candidato tucano. Pelo Twitter, Serra disse ser “favorável” à escolha interna.

“Hoje [segunda] comunicarei por escrito à direção do PSDB de São Paulo minha disposição de disputar a prefeitura de SP”, disse o ex-governador em seu perfil no Twitter. Serra ainda não havia se pronunciado oficialmente sobre sua intenção de disputar as eleições. “Sempre fui favorável às prévias para a escolha do candidato a prefeito do PSDB. E delas pretendo agora participar”, completou.

Inicialmente, quatro pré-candidatos participavam das prévias, mas dois deles retiraram o nome da eleição interna quando o ex-governador sinalizou que participaria do processo. Ficarão de fora os secretários estaduais Andrea Matarazzo (Cultura) e Bruno Covas (Meio Ambiente), que deve anunciar a decisão nesta segunda. Os outros dois, secretário estadual de Energia, José Aníbal, e o deputado federal Ricardo Tripoli, afirmam que vão disputar as prévias.

Nos próximos dias, a Executiva Municipal do PSDB em São Paulo irá se reunir para definir a entrada do ex-governador no processo de prévias. A proposta inicial, defendida pelos líderes do PSDB da capital paulista, é de que o processo seja remarcado para 11 de março, o que daria mais tempo para Serra arregimentar apoio junto à militância partidária.

A mudança da data das prévias é possível em virtude de uma resolução do Diretório Estadual do PSDB que aponta que o processo interno deve ser realizado até 31 de março.

Debate. Apesar das desistências, o debate entre os pré-candidatos do PSDB com a militância marcado para esta noite está mantido. Ainda continuam na disputa o secretário estadual de Energia, José Aníbal, e o deputado federal Ricardo Tripoli. / Com informações de Gustavo Uribe, da Agência Estado

Dois pré-candidatos desistem em favor de Serra, mas prévia do PSDB é mantida

Matarazzo anunciou renúncia da pré-candidatura nesse domingo e Bruno Covas fará o mesmo nesta segunda; Aníbal e Tripoli dizem que ex-governador terá de passar pela disputa interna da sigla
27 de fevereiro de 2012

Julia Duailibi e Fausto Macedo, de O Estado de S.Paulo

A decisão de José Serra de entrar na disputa pela Prefeitura de São Paulo forçou a intervenção do governador Geraldo Alckmin (PSDB) que, nesse domingo, 26, reuniu-se com nomes da sigla inscritos para a prévia, marcada e mantida para o próximo 4 de março, para informá-los sobre a entrada tardia do ex-governador no páreo e negociar desistências das pré-candidaturas. A primeira baixa foi do secretário estadual da Cultura, Andrea Matarazzo, que renunciou nesse domingo à pré-candidatura. Bruno Covas, secretário do Meio Ambiente, repete o script nesta segunda, 27. Mas o secretário José Aníbal (Energia) e o deputado estadual Ricardo Tripoli disseram a Alckmin que não desistem e não aceitaram mudar a data da consulta interna.

Alckmin chamou Aníbal e Tripoli para uma conversa no Palácio dos Bandeirantes domingo, ainda pela manhã. Sondou-os sobre a possibilidade de postergar a eleição interna – o grupo serrista quer mais tempo para aglutinar apoios em torno do nome do ex-governador. Serra disse a Alckmin que entraria na disputa na sexta-feira e deve fazer o anúncio oficialmente nesta segunda. A aproximação do PSD, criado pelo prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, ao PT foi fundamental para aumentar a pressão sobre o tucano. A única hipótese de Kassab desistir da aliança com os petistas seria a candidatura de Serra.

Aníbal e Tripoli disseram a Alckmin que aceitavam a entrada de Serra na corrida, mesmo fora da data de inscrição da prévia – o prazo terminou no dia 14 de fevereiro. Os dois não recuaram e argumentaram a Alckmin que o ex-governador tem de se submeter ao pleito interno no próximo domingo e também comparecer hoje à noite ao debate do partido, o último programado. A cúpula tucana tentava ontem adiar o debate, o que provocou a reação dos pré-candidatos.

“As prévias estão garantidas no dia 4 de março, conforme combinado em novembro”, declarou Aníbal. “Lamento a saída dos outros dois. Mas acho muito bom que o Serra vá se inscrever. O processo segue.” Tripoli, por seu lado, deixou claro que não abre mão da disputa. “A militância continua proprietária do processo. Portanto continuo candidato.”

Coube a Alckmin dizer aos dois pré-candidatos que Covas e Matarazzo desistiriam das pré-candidaturas. Na conversa, o governador disse também que, diferentemente de 2004, quando entrou em campo para desmarcar a pré-convenção então agendada para que Serra disputasse a Prefeitura, desta vez não pediria aos postulantes que não concorram.

Ritual da renúncia. Às 17h35 de ontem, em uma sala acanhada no centro da cidade, depois de sete meses de campanha, “sempre de paletó, gravata e abotoaduras” – paramentos que ontem não exibia -, Matarazzo anunciou sua renúncia a um reduzido grupo de correligionários, a quem citou quase todos pelo nome e deles recebeu aplausos.

O secretário da Cultura revelou-se um dedicado cabo eleitoral de Serra. “Aqui abro mão da minha candidatura e peço ao meu grupo que substitua meu nome pelo nome de José Serra nessas prévias. O processo eleitoral das prévias continua, o que muda é apenas o nome. Abro mão do meu lugar e faço isso com orgulho, por alguém que é exemplo de homem público.”

Matarazzo afirmou que Alckmin não lhe pediu “nem que entrasse (na prévia) nem que saísse”. E que “não vai postular” nada, ante a indagação se almeja a vaga de vice do ex-governador caso o PSDB opte por uma chapa “puro-sangue”. Ele foi categórico ao comentar seu gesto, a uma semana das prévias. “Tem uma coisa que é da minha formação: a questão da precedência e da hierarquia. Vocês não verão nunca eu disputando uma eleição com o Serra. Somos do mesmo grupo político. O Serra sempre estará mais credenciado do que eu.”

Domingo à noite, Covas comunicou a decisão à militância, mas evitou a imprensa. Hoje ele anuncia a desistência. / COLABOROU LUIZ GUILHERME GERBELLI