20/09/2009 - 18:00h Freud 70 anos: Sonhos, complexo e pulsão para leigos. Os livros

 

Especialistas refletem sobre a obra do pai da psicanálise

Coleção dedicada a iniciantes lança segunda leva de títulos que atualizam as principais ideias do repertório psicanalítico

Francisco Quinteiro Pires – O Estado SP

Sigmund Freud foi bastante corajoso ao expor os seus sonhos em praça pública. Em certa medida, tal coragem recebeu uma recompensa, dada por A Interpretação dos Sonhos (1900), uma de suas obras capitais que inaugurou a psicanálise. E é ela que ganha uma análise afiada de John Forrester na coleção Para Ler Freud. Professor da Universidade Cambridge, Forrester disseca, em A Interpretação dos Sonhos (Civilização Brasileira, 94 págs., R$ 15), as críticas à teoria freudiana que diz haver diferenças entre o conteúdo latente e o manifesto dos sonhos. A distinção se faz necessária. O autor inglês explica que, quando se dá sentido aos elementos oníricos, torna-se possível acessar a caixa-preta dos desejos.

Organizada pela psicanalista Nina Saroldi, a coleção, lançada no fim de 2008, manda agora para as livrarias, junto com o livro de Forrester, mais dois volumes: Complexo de Édipo, de Chaim Samuel Katz, e As Pulsões e Seus Destinos, de Joel Birman. A trinca da estreia foi formada por Além do Princípio do Prazer (Oswaldo Giacoia Junior); As Duas Análises de uma Fobia em um Menino de Cinco Anos – O Pequeno Hans (Celso Gutfreind); e Luto e Melancolia (Sandra Edler). No total, a série terá 15 volumes. “Sem textos cifrados, a coleção atualiza as principais ideias elaboradas por Freud ao longo da a sua produção”, diz Nina, que assina os prefácios das edições.

Psicanalista e escritor, Katz aborda, em Complexo de Édipo (164 págs., R$ 25), um conceito desenvolvido pelo teórico austríaco a partir de um sonho com a mãe e uma antiga babá. Valendo-se da mitologia grega, o pai da psicanálise criou a teoria da paixão pela mãe e do ciúme pelo pai. Segundo Katz, que convocou teóricos como Foucault e Jung para tratar do assunto, é o complexo de Édipo que torna a vida em sociedade viável, por delimitar o fluxo da libido e a obtenção do prazer. Katz examina a manifestação contemporânea da culpa e da vergonha.

“Joel Birman é um dos autores mais produtivos da psicanálise”, diz Nina. “Sua posição política é interessante porque mostra a preocupação e a possibilidade de as questões sociais serem tratadas pela teoria psicanalítica.” Além de As Pulsões e Seus Destinos (162 págs., R$ 25), Birman está lançando Cadernos Sobre o Mal (Civilização Brasileira, 336 págs., R$ 49,90). Professor da UFRJ, ele debate, no primeiro, as referências atuais ao conceito de pulsão, pela qual se revela a ambivalência do indivíduo. No segundo, investiga as diversas expressões da violência nos dias correntes, sob a luz da psicanálise e levando em conta os problemas sociais.

Desafios da nova tradução brasileira

Feita a partir do alemão, ela tem o objetivo de recuperar o estilo impecável do autor; serão 35 volumes, dos quais 3 já saíram

Luiz Alberto Hanns – O Estado SP

Nos anos 80 e 90, dezenas de artigos e livros questionando a teoria e denunciando a ética pessoal de Freud passaram a circular pela mídia. Alguns apontavam deficiências teóricas, outros expressavam uma fúria caluniadora que parecia responder a décadas de domínio e arrogância de muitos dos seguidores de Freud. Agora, passado o que nos EUA se denominou Freudbashing (malhar Freud), damo-nos conta que, na verdade, os novos avanços da psicogenética, das neurociências e da psicofarmacologia não se contrapõem à teoria freudiana, e podemos avaliar seu lugar na cultura e ciência com mais isenção. Neurocientistas têm relido e valorizado suas teorias, bem como em ciências humanas muitos conceitos freudianos foram incorporados. Igualmente vários países europeus e Estados americanos passaram a incluir a psicanálise nos serviços públicos de saúde.

Contudo, esta retomada de Freud não explica o interesse despertado pelas novas traduções que surgem neste momento em que sua obra cai em domínio público. Afinal, desde os anos 70 Freud é o autor de língua alemã cuja tradução é a mais debatida. O curioso é que, em geral, Freud escrevia de modo acessível visando à divulgação da psicanálise. Por que, então, a celeuma sobre sua tradução?

Uma das respostas é que sua obra não é apenas lida, mas estudada. Não só por psicanalistas, mas também por filósofos, semioticistas, críticos de arte, etc. Alguns textos são destrinchados frase a frase discutindo-se “o que Freud realmente queria dizer”, dúvidas estas alimentadas por uma desconfiança das traduções que remonta aos anos 70, época em que o debate em torno da tradução de Freud transbordou para além dos especialistas, chegando ao público leitor de jornais. As discussões de então centravam-se nos termos psicanalíticos adotados pela prestigiosa tradução inglesa de J. Strachey, a Standard Edition of Sigmund Freud Complete Psychanalytical Works, que havia estabelecido um padrão terminológico internacional.

Discutia-se uma revisão dos termos psicanalíticos, cuja tradução passou a ser considerada “medicalizada” e estranha à linguagem freudiana – uma linguagem ligada à experiência cotidiana e afetiva. Afora alguns termos já corriqueiros como ego, superego, id e narcisismo, outros como catexia (carga de energia), estase (acúmulo), epistemofilico (desejo de conhecer), seriam desnecessariamente herméticos. Além disso, nos anos 80, quando se publicaram novos estudos abarcando outras importantes traduções em diversos idiomas, novas distorções e falta de distinções conceituais foram mapeadas, colocando todas sob suspeita e incentivando uma revisão geral das traduções.

A nossa Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de S. Freud da Imago Editora passou por um processo análogo, sendo em especial criticada pela psicanalista Marilene Carone, que infelizmente morreu pouco depois de iniciar uma nova tradução. Além de ter sido traduzida do inglês, a Standard Brasileira continha diversos erros. Uma nova tradução a partir do alemão e conforme critérios atuais se fazia necessária e a própria Imago a retomou, sob minha coordenação em 2002. Entretanto, é provável que nenhuma das novas traduções internacionais, incluindo a nossa nova edição brasileira, satisfaça a todas as demandas contemporâneas. Uma das dificuldades reside na relação de Freud com a linguagem.

Para ele, havia uma sabedoria psicológica nos idiomas, e é da linguagem cotidiana que ele se servia para nomear conceitos e apontar nexos entre fenômenos. Um exemplo ilustrativo: Freud descreve um momento psíquico essencial – o cerne dinâmico da pulsão ou do instinto – que ele nomeia de Drang e que para outros idiomas foi traduzido por um termo mais pobre, pressão (pressure, poussée, presión). Ocorre que em português há um termo análogo ao Drang: ânsia. Tanto ânsia como Drang descrevem algo que brota do desconforto físico crescente (por exemplo, a ânsia do sufocado em respirar), passa pelo afã e aponta para o anseio (por exemplo, ânsia por viajar).

O nosso ânsia, tal como Drang, articula duas conexões importantes: uma com o corpo que sofre e impele, e outra com a psique que representa mentalmente os objetos de alívio almejados. Não haveria espaço aqui para demonstrar as implicações e os desdobramentos teóricos que ligam o desejo ao corpo e este à vida psíquica, bem como as relações entre sofrimento e prazer. Estes temas foram discutidos por Freud sempre empregando palavras ligadas à nossa experiência afetiva. Daí seu estilo ter sido denominado “prosa científica”.

Lembremo-nos que o mesmo Freud que foi considerado pela escola de Viena como exemplo de rigorosa ciência positivista ganhou o prêmio literário Goethe. Contudo, esse duplo registro discursivo coloca o tradutor diante de um impasse: se por um lado houve um consenso em “desmedicalizar” a linguagem, os avanços psicanalíticos atuais levaram a novas exigências de formalização teórica e padronização terminológica (em geral semanticamente mais pobre), e se contrapõem a uma tradução mais coloquial que busca restaurar os nexos semânticos e literários. Internacionalmente tem havido diversas soluções; na França, a nova tradução coordenada por Laplanche, tem um cunho mais terminologizante, na Inglaterra a atual tradução dirigida por Phillips tem um viés radicalmente literário.

A nova tradução brasileira, que começou a ser publicada em 2004 e que se estenderá até 2017, opta por dois caminhos: no corpo do texto enfatizamos a fluidez e o prazer de leitura, portanto, um viés literário, mas ao fim de cada capítulo incluímos um extenso corpo de notas com subsídios aos estudiosos. Embora nossa tradução deva se prestar a estudos, não abrimos mão de recuperar o estilo de Freud, acessível, instigante e em diálogo com a cultura. Outra providência foi não mais publicarmos a obra de Freud em ordem cronológica, pois isso nos obrigaria a publicar junto com textos relevantes de sua juventude, um grande número de cartas pessoais e artigos repetitivos que só interessam aos estudiosos e deixaria importantes textos de sua maturidade para uma publicação muito posterior.

Optamos por eixos temáticos que reúnem os textos mais lidos e procurados. O primeiro eixo, já publicado, engloba os Escritos sobre a Psicologia do Inconsciente (em três volumes, totalizando 640 páginas e 17 textos do período de 1911 a 1938). O eixo seguinte, em quatro volumes, trará os Escritos sobre Cultura, Sociedade e Religião. Mais adiante virão os textos sobre sexualidade, depois sobre arte e literatura, num total de 12 eixos temáticos, distribuídos por 35 volumes. Esperemos que este formato, bem como resgate do texto fluido e expressivo de Freud, permita à nova geração de leitores apreciar seu estilo e perceber suas múltiplas aberturas para a modernidade.

* Luiz Alberto Hanns, doutor em Psicologia pela PUC-SP, psicanalista, é cordenador-geral da nova tradução brasileira das obras de Sigmund Freud e autor do Dicionário Comentado do Alemão de Freud (Imago), entre outros livros sobre o tema

Estante Básica

RENATO MEZAN


Eis alguns livros disponíveis em português que podem interessar tanto aos marinheiros de primeira viagem quanto aos que já possuem algum conhecimento da psicanálise:

DE SIGMUND FREUD

Obras Psicológicas, editora Imago. Trata-se da nova edição da obra completa de Freud, traduzida diretamente do alemão, sob a coordenação-geral de Luiz Alberto Hanns. A publicação teve início em 2004 e já foram lançados três volumes, que reúnem os Escritos Sobre a Psicologia do Inconsciente. Neles estão incluídos os chamados textos metapsicológicos do criador da psicanálise – como O Recalque, Pulsões e Destinos da Pulsão e O Fetichismo.

SOBRE SUA VIDA E A ÉPOCA EM QUE VIVEU

Freud – Uma Vida Para o Nosso Tempo, de Peter Gay. São Paulo, Companhia das Letras, 1989.

Freud: Sua Longa Viagem Morte Adentro, de Lúcio Roberto Marzagão. Belo Horizonte, Ophicina de Arte & Prosa, 2007.

Viena Fin-de-Siècle, de Carl Schorske. São Paulo, Companhia das Letras, 1993.

SOBRE SUA OBRA

O Carvalho e o Pinheiro: Freud e o Estilo Romântico, de Inês Loureiro. São Paulo, Escuta, 2002.

Freud: Um Ciclo de Leituras. Silvia Leonor Alonso e Ana Maria Siqueira Leal (orgs.). São Paulo, Escuta, 1997.

Freud, Pensador da Cultura, de Renato Mezan. São Paulo, Companhia das Letras, 2005.

PRÁTICA CLÍNICA

Freud e o Homem dos Ratos, de Patrick J. Mahony. São Paulo, Escuta, 1991.

RELAÇÃO COM O JUDAÍSMO

O Moisés de Freud: Judaísmo Terminável e Interminável, de Yosef Hayim Yerushalmi. Rio de Janeiro, Imago, 1992.

Psicanálise, Judaísmo: Ressonâncias, de Renato Mezan. Rio de Janeiro, Imago, 1995.

O MOVIMENTO PSICANALÍTICO E OS AUTORES PÓS-FREUDIANOS

História, Clínica e Perspectivas nos Cem Anos da Psicanálise. Abrão Slavutzky, César de Souza Brito e Edson Luiz André de Sousa (orgs.). Porto Alegre, Artes Médicas, 1996.

Transferências Cruzadas: Uma História da Psicanálise e Suas Instituições, de Daniel Kupermann. Rio de Janeiro, Revan, 1996.

A Psicanálise Cura? Uma Introdução à Teoria Psicanalítica, de Roberto Girola. São Paulo, Ideias e Letras, 2004.

PSICANÁLISE NO BRASIL

A Psicanálise no Brasil: As Origens do Pensamento Psicanalítico, de Elisabete Mokrejs. Rio de Janeiro, Vozes, 1992.

Figura e Fundo: Notas Sobre a Psicanálise no Brasil, 1977-1997, de Renato Mezan. In Interfaces da Psicanálise; São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

20/09/2009 - 17:30h Freud 70 anos: Arte feita com estilhaços da teoria do ”pai”

Das primeiras vanguardas até hoje, uma presença decisiva – e particular

http://vr.theatre.ntu.edu.tw/hlee/course/th6_520/sty_20c/painting/ernst-06X.jpg
Pietá (ou Revolução à Noite) de Max Ernst. Pensando em Freud

Antonio Gonçalves Filho – O Estado SP

 

Especialistas refletem sobre a obra do pai da psicanálise

Surrealistas sempre foram grandes leitores de Freud. Já o psicanalista nunca prestou muita atenção aos surrealistas. Considerava fútil qualquer tentativa de expressar visualmente o que trama o inconsciente. Toda manifestação artística, segundo Freud, passa necessariamente pelo ego, mesmo que o francês André Breton (1896-1966), mentor dos surrealistas, tenha defendido o contrário. Então, o que teria levado Breton a seguir a cartilha de Freud? Básico: matar o pai, tomar seu lugar e tripudiar sobre seu cadáver, no melhor estilo edipiano. Não se pode esquecer que, ao contrário do eurocêntrico Freud, Breton e os surrealistas foram os primeiros a promover culturas não-europeias, admitindo a relevância dos mitos ancestrais e representações simbólicas dos antípodas.

Freud, como já acentuou Edward Said, pode até ter usado – e usou, de fato – esse conhecimento ao escrever Totem e Tabu (1913), mas não exatamente para fazer o elogio das culturas do Pacífico ou as africanas.

O conservadorismo artístico de Freud é notório – basta uma mirada em sua coleção particular para atestar que o interesse do psicanalista pela arte dirige seu olhar de volta aos gregos. Seus contemporâneos são praticamente ignorados. Apesar disso, o pintor alemão Max Ernst (1891-1976), um dos expoentes do movimento surrealista, leu seus livros ainda na Alemanha. No ano em que Freud lançou O Eu e o Id (1923), Ernst fez uma espécie de homenagem a ele numa tela chamada Pietà (ou Revolução à Noite), hoje na Tate Gallery. Na pintura, o Cristo é o próprio Ernst, mas quem o sustenta não é a mater piedosa das representações renascentistas. É o próprio pai (ou Freud), que pode ocupar simbolicamente o papel da mãe desejada nessa parábola visual automaticamente associada ao complexo de Édipo – conceito introduzido por Freud em A Interpretação dos Sonhos (1900), que Ernst, então estudante de Filosofia e Psiquiatria da Universidade de Bonn (de 1909 a 1914), conheceu antes de desembarcar em Paris e conhecer o grupo de Breton.

Breton, é provável, leu Freud na mesma época, pois foi durante a 1ª Guerra, prestando serviços num hospital para soldados traumatizados, que o poeta passou a desenvolver jogos de associações verbais semelhantes aos que o psicanalista usava com seus pacientes, conforme o estudo de Fiona Bradley sobre o movimento surrealista. Nesses jogos, os médicos estimulavam os pacientes a reagir automaticamente a palavras por eles pronunciadas, fixando-se na primeira reação dos soldados. Essa técnica teria levado Breton a desenvolver o que ficaria conhecido como escrita automática – marco zero do surrealismo, que derivaria para a pintura automática de Miró, justaposição de signos verbais a visuais num tipo de comunicação não-racional.

É claro que nem a escrita nem a pintura surrealista nasceram com os surrealistas. Tampouco com Freud. Todo mundo já sonhava – ou tinha pesadelos – bem antes de A Interpretação dos Sonhos. É grande a lista de escritores (de Dante a Lautréamont, passando por Jarry e Rimbaud ) e pintores (Bosch, Arcimboldo) que poderiam ser classificados de surrealistas. Freud tampouco se interessou por eles. Escreveu pouco sobre artistas visuais e, ainda assim concentrando suas reflexões na obra de dois renascentistas , Leonardo da Vinci e Michelangelo. Pena. Teria comprovado sua teoria de que o desejo fora de lugar pode provocar grandes estragos . Seria interessante ler suas impressões sobre o maneirismo “pervertido” de Arcimboldo, cujos rostos transfigurados certamente teriam ajudado o estudioso a introduzir a teoria da pulsão de morte em Além do Princípio do Prazer.

Freud, de origem hassídica, teria necessariamente de se voltar para a cultura literária – e não é por acaso que Sófocles vem em seu socorro com Édipo e Shakespeare com Hamlet na hora de formular o primeiro capítulo de sua teoria psicanalítica. Jung, de pais protestantes, era, nesse sentido, mais visual que seu mestre – e mais aberto às culturas visuais e mitologias arcaicas. Outra explicação é sua possível aversão à mistura explosiva entre surrealismo e radicalismo político. Para um vienense criado num ambiente hostil a inovações (musicais, em especial) e que, quando criança, sonhava se tornar um militar, a proximidade do espírito anarquista herdado do dadaísmo – do qual o surrealismo descende- era impensável. Breton era trotskista. Salvador Dalí era ambíguo, mas nunca conseguiu disfarçar sua simpatia pela ultradireita.

Apesar disso, Dalí realizou com Buñuel o filme que resume em imagens alguns dos temas mais caros a Freud: a repressão sexual, seja ela propagada pela Igreja ou pela sociedade burguesa. L’Âge d’Or (1930) foi lançado no ano em que Freud publicou O Mal-Estar na Civilização. Nesse livro, cuja atualidade é assustadora, o psicanalista diz basicamente que sacrificamos a felicidade por um alto nível de civilização – hoje poderíamos mudar as palavras e dizer que trocamos a liberdade pela segurança. A dupla Buñuel-Dalí fala exatamente o mesmo: no filme, fragmentado, um casal é sexualmente reprimido para logo em seguida vermos a imagem de uma mulher praticando fellatio no dedão do pé de uma estátua religiosa. Tanta desinibição poderia ser até demais para alguém que, a exemplo de Hobbes, defendia a existência de um limite para a civilização existir. Vale lembrar que, antes de L’Âge d’Or, Buñuel e Dalí já haviam subvertido Freud. Um Cão Andaluz (1926) descreve como condição ideal a do seu “perverso polimorfo” para garantir o êxito dessa mesma civilização – ao tratar da sexualidade infantil, Freud usou esse termo para associar o repertório dos primeiros prazeres sexuais ao dos pervertidos na idade adulta.

Não pensa diferente o herdeiro da dupla, o cineasta e psicomago chileno Alejandro Jodorowsky, autor de filmes desconcertantes, entre eles A Montanha Sagrada (1973), sobre um falso Messias que encontra um alquimista disposto a ajudá-lo na tarefa de redimir pecadores. Nem que seja castrando os infelizes, tarefa que o sádico chefe de polícia cumpre com prazer. Não é para estômagos fracos. Nem para Freud. Jodorowsky está vivo, mas sua idade (80 anos) não permite mais tanta extravagância. Passou o cetro para Matthew Barney, de 42 anos, versão soft dos delírios oníricos de Jodorowsky, assumidamente um dos que não ultrapassam o segundo estágio da tipologia freudiana, regredindo frequentemente à fase anal.

O norte-americano Matthew Barney, em seu épico de longa duração, Cremaster Cycle (1994- 2002), regride aos tempos pré-freudianos para mostrar como a biologia pode engendrar seres extraordinários dotados de virilidade animal e pouco raciocínio. Nessa antevisão apocalíptica, ele só perde para a veterana francesa Louise Bourgeois, que hoje vive em Nova York. A quase centenária escultora teve uma relação tumultuada com seu pai – bem mais do que a de Freud com o dele. Seus corpos com mil seios, aranhas e torsos sem membros são quase ilustrações da recusa infantil a uma sexualidade interpessoal. Freud teria em Matthew e Louise material farto para nova teorias. Sorte deles que morreu assim que a guerra começou.

20/09/2009 - 17:06h Freud 70 anos: Recepção profissional e consequente no Brasil teve início na década de 20

Especialistas refletem sobre a obra do pai da psicanálise

Durval Marcondes, fundador da primeira sociedade de psicanálise da América Latina, inaugurou sua institucionalização no País

Renato Mezan – O Estado SP

As primeiras referências às ideias de Freud por parte de psiquiatras brasileiros são contemporâneas da publicação dos seus artigos em revistas científicas alemãs, ou seja, datam do fim do século 19 e dos anos iniciais do 20. Isso porque, dado o prestígio da medicina germânica, muitos brasileiros faziam seus estudos na Alemanha ou em Viena, e se mantinham atualizados assinando os periódicos lá editados.

Com uma exposição sobre o novo método feita em 1899 por Juliano Moreira, da faculdade do Rio de Janeiro, pouco a pouco vão surgindo menções aos trabalhos de Freud, porém sem destaque especial: é mais um entre os autores citados, assim como Krafft-Ebing, Bleuler ou Kraepelin. Aqui e ali, temos notícias do emprego de técnicas freudianas na prática clínica, mas sempre isoladamente e sem continuidade.

Na década de 1920, a influência das vanguardas europeias sobre os modernistas abre outra via para a penetração das ideias psicanalíticas: no Manifesto Antropofágico, Oswald de Andrade se serve de algumas delas, e Mário de Andrade chegou a sugerir o termo sequestro para verter o nome do principal mecanismo de defesa proposto por Freud (Verdrängung, depois traduzido como repressão ou recalque). Sai um ou outro artigo na imprensa, ouve-se uma que outra conferência, do mesmo modo como se fala do surrealismo ou do tango: a psicanálise é mais um assunto para as conversas de salão, sem prejuízo do emprego de tal ou qual aspecto dela em determinado caso atendido por um profissional.

É com Durval Marcondes que tem início um esforço mais consequente para que as ideias freudianas deixem de ser apenas mais um item no cardápio intelectual. Ele se põe em correspondência com Freud, funda uma Revista Brasileira de Psicanálise (que teve um único número, em 1928), organiza em São Paulo a Sociedade Brasileira de Psicanálise (ainda em 1927), e busca trazer para a cidade um analista didata, capaz de realizar análises de verdade e assim formar um primeiro grupo de psicanalistas locais.

À sombra de Melanie Klein, com a chegada da dra. Adelheid Koch à capital paulista, no ano de 1937, encerra-se a fase diletante da psicanálise brasileira, e tem início um novo período, que a meu ver se estende até meados da década de 1970. Ele se caracteriza pela formação de Sociedades de Psicanálise em diversas capitais; à medida que atingiam determinados padrões, eram aceitas como filiadas pela Associação Internacional de Psicanálise (IPA, da sigla em inglês).

Quem quisesse se tornar psicanalista devia seguir um curso de formação nestas associações, de cujo currículo faziam parte os principais escritos de Freud. A maneira pela qual eram lidos, porém, era tributária de desenvolvimentos mais amplos no interior da disciplina, tanto técnicos quanto políticos. Refiro-me ao fato de que depois da guerra muitos latino-americanos vão se formar na Inglaterra, onde tomam contato com o círculo de Melanie Klein e acabam adotando o estilo clínico que ela inaugurou.

O kleinismo torna-se assim a corrente predominante nas sociedades brasileiras; Freud vai aos poucos se convertendo numa espécie de pai fundador, um vulto venerado a cujo retrato na parede se fazem as reverências de praxe, mas sua obra passa a ser considerada como algo de importância “histórica”, com que se tem a mesma relação que com os clássicos da arte e da literatura. Na clínica, porém, empregam-se as ideias de Klein e de seus discípulos.

Assim, durante as décadas de 1950 e 1960, a metrópole psicanalítica para os brasileiros é Londres. A publicação dos três volumes da biografia de Freud escrita por Ernest Jones, assim como dos primeiros volumes da nova tradução inglesa dos Gesammelte Werke por James e Alix Strachey – empreendimento que consumiu muitos anos de trabalho, e resultou nos 24 tomos da Standard Edition of the Complete Works of Sigmund Freud – estimulou alguns analistas do Rio de Janeiro a verter para o português os escritos do mestre. Mas a opção de os traduzir da Standard, e não do original, resultou num trabalho sem coerência na terminologia e eivado de erros.

O fato de a Edição Standard Brasileira – realizada com boa vontade, porém sem qualidade literária nem científica – ter sido recebida sem críticas diz bastante sobre a posição secundária de Freud nas referências dos analistas brasileiros de então: se os textos da escola kleiniana tivessem sido traduzidos com a mesma displicência, com certeza a reação teria sido outra. Somente com as novas condições mencionadas mais adiante é que se percebeu como era ruim o texto disponível na nossa língua.

Nas mesmas décadas, mas ainda sem impacto sobre a psicanálise em nosso país, Jacques Lacan estava empreendendo na França o chamado “retorno a Freud”. O estudo minucioso dos textos, frequentemente no original alemão, resultou para os seguidores de Lacan numa grande familiaridade com o pensamento do mestre de Viena, e na transformação dele num interlocutor tanto para a teorização quanto para a prática clínica, o que não era o caso nos países de língua inglesa.

A partir de 1970, as doutrinas lacanianas começam a ser divulgadas na América Latina, em especial na Argentina. Os profissionais platinos que vinham para cá – primeiro como conferencistas visitantes, e após o golpe de 1976 como emigrados políticos – traziam na bagagem uma nova visão da obra freudiana, influenciados como estavam pelo prestígio de que ela passara a desfrutar na França. Durante a década de 1980, retornam ao país vários analistas formados naquele país, ou na universidade belga de Louvain, então um importante centro lacaniano. Eles trazem consigo um conhecimento e uma valorização de Freud que muito contribuíram para a maior difusão do seu pensamento nas plagas tropicais. Em alguns novos cursos de formação para psicanalistas – como o do Instituto Sedes Sapientiae, em São Paulo – o corpus freudiano se torna o eixo central dos estudos, o que ainda hoje contrasta com o programa de corte mais britânico em uso nas sociedades filiadas à IPA.

Por fim, para compreender a situação atual de Freud na cultura brasileira é preciso mencionar três outros processos ocorridos nos últimos 30 anos. Em primeiro lugar, a crescente solicitação por parte da mídia para que psicanalistas expressem sua opinião acerca de comportamentos, atitudes, declarações de autoridades políticas e científicas, crimes particularmente hediondos, e outros fatos da vida social. Nesses comentários, frequentemente é citada alguma ideia do fundador da disciplina, e isso contribui para que o grande público se familiarize com conceitos como o de inconsciente, complexo de Édipo, perversão, e assim por diante.

Em segundo lugar, a presença da psicanálise nos cursos de pós-graduação em psicologia e filosofia deu origem a muitas teses de boa qualidade, que por sua vez – terceiro processo – vêm sendo publicadas por editoras especializadas. Nelas, e portanto nos livros a que dão origem, são frequentes as referências a Freud, e discussões acerca das suas implicações para o assunto tratado.

Sinal de uma exigência congruente com o novo papel da obra freudiana no pensamento dos analistas brasileiros é a decisão da Editora Imago de encetar uma nova tradução dela, desta vez com critérios adequados e a partir do original alemão. Sob a coordenação de Luiz Alberto Hanns, até o momento já saíram três do total de volumes projetados. As excelentes notas explicativas, e a qualidade da tradução, com certeza a tornarão um instrumento de trabalho utilíssimo para os psicanalistas, pesquisadores e demais interessados em conhecer o que Freud realmente disse (leia mais a respeito na página 11).

Para concluir: além das constantes citações em artigos, livros e conferências, esse contato mais íntimo com a obra fundadora da psicanálise vem influindo no modo como os profissionais conduzem seu trabalho clínico. A capacidade dos escritos de Freud para inspirar reflexões sobre os mais variados aspectos da vida psíquica, assim como para fornecer pistas que permitem compreender fenômenos dos quais ele não tratou explicitamente, parece dar razão ao psicanalista francês André Green, o qual, questionado certa vez sobre o que havia de novo em psicanálise, respondeu sem hesitar: “Freud.”

* Renato Mezan é psicanalista, professor titular da PUC/SP, autor de várias obras sobre Freud e a psicanálise. O texto aqui publicado é parte de um livro sobre o pensamento alemão a ser lançado em 2010 pelo Instituto Goethe de São Paulo, que gentilmente permitiu sua divulgação antecipada

20/09/2009 - 16:29h Freud 70 anos: Mistérios que vêm da masculinidade

Psicanalista não previu que mudanças na sociedade deslocariam a figura feminina de lugar e criariam uma nova relação entre os gêneros

Especialistas refletem sobre a obra do pai da psicanálise

Maria Rita Kehl – O Estado SP

Não se sabe que motivos levaram o escritor Grégoire Bouiller a encerrar por e-mail a relação amorosa com a artista plástica Sophie Calle. De fato, o protocolo contemporâneo da gestão dos afetos não recomenda o método e nem a mídia, considerada impessoal e burocrática demais diante das razões do coração. Os visitantes da exposição Cuide de Você (Prennez Soin de Vous), que ocupou o Sesc Pompeia entre 10/7 e 7/9 tiveram acesso a uma cópia da carta de rompimento, mas não às razões pelas quais o autor preferiu o e-mail a uma conversa pessoal. Quem sabe ele tivesse tentado romper a relação antes, pessoalmente, sem sucesso? Ou temesse por parte de Sophie uma cena melodramática e constrangedora, no limite do decoro tão caro aos parisienses?

O fato é que a ex-namorada conseguiu reverter a humilhação provocada pelo pé na bunda eletrônico de Grégoire convocando, a seu favor, uma fervorosa adesão feminista, pós-moderna, multidisciplinar e internacional. As 107 mulheres a quem Sophie enviou a carta de Grégoire a pretexto de consultá-las sobre como respondê-la foram unânimes em condenar a falta de etiqueta, de sensibilidade e, por que não? – de macheza por parte do rapaz. É possível agrupar as objeções das amigas de Calle em duas categorias principais: as críticas ao estilo supostamente literário de Bouiller e os diagnósticos de coloração psicanalítica à personalidade do rapaz. A carta de Grégoire foi considerada kitsch, maneirista, antiquada, estereotipada, brega, convencional – observações que teriam ferido de morte o escritor se a carta fosse uma peça literária. Já sua personalidade, foi diagnosticada por mulheres de diversas profissões como egoísta, infantil, narcisista, insegura, dissimulada e despreparada para o amor. Grégoire foi condenado, com base no código de ética pós-feminista, por um delito moderno tipicamente masculino: o de não estar à altura da imensa capacidade de amar das mulheres.

É provável que elas tenham razão. Não é difícil perceber o cabotinismo do rapaz, que tenta se passar por uma vítima de sua própria infidelidade. O que me interessa, entretanto, é observar que as fraquezas de caráter de que Grégoire é acusado são, sem tirar nem pôr, idênticas às características atribuídas por Freud às próprias mulheres, desde seu texto Introdução ao Narcisismo, de 1914. Infantilidade, narcisismo, egoísmo, frieza de sentimentos e uma habilidade para a dissimulação desenvolvida a partir de seu complexo de castração, compõem a estilística da feminilidade, segundo a observação freudiana. Em vários outros textos, entre os quais O Eu e o Id (de 1923), A Sexualidade Feminina (1931) e A Feminilidade (1933), Freud confirma suas observações anteriores. A repressão sexual à qual as moças eram submetidas desde a infância, o desconhecimento da vagina, o sentimento de humilhação devido à inferioridade de seu minúsculo órgão sexual em comparação com o falo masculino, tudo contribuiria para tornar as mulheres frígidas no sexo e arredias no amor. Do homem, uma mulher só desejaria duas coisas: que a colocasse em um pedestal de modo a confirmar seu valor como objeto privilegiado do desejo dele; e que lhe propiciasse a única e verdadeira experiência de plenitude a que a mulher teria direito: não o êxtase do sexo, mas o da maternidade. A feminilidade seria uma espécie de preço pago pela mulher ao homem, visando à obtenção do falo-filho. “A mulher freudiana é aquela que diz “obrigada” ao homem”, escreveu Colette Soler.

O homem freudiano seria o narciso ferido, sempre inseguro de seu valor; eterno amante dedicado a conquistar o amor da virgem inexperiente a quem caberia, depois do casamento, reconhecer a virilidade dele. A mulher representava o objeto misterioso que, embora dependente material e juridicamente do parceiro, jamais lhe revelaria o segredo de seu desejo e de seu gozo. O homem freudiano ocupa a posição do amante e a mulher, a do objeto idolatrado. Mas para que a estratégia funcione, é essencial que a moça conserve uma aura de mistério e de estudada indiferença. Nisso consiste a mascarada da feminilidade, cuja função é ocultar a verdade do desejo e da castração femininos.

Onde se encontram, hoje, as “verdadeiras” mulheres freudianas? Teremos nós, gerações pós-feministas, esquecido os artifícios e artimanhas que nos faziam tão atraentes quanto inacessíveis à fantasia masculina? Hoje, não nos parece que os homens é que andam arredios, ao passo que as mulheres do século 21 se comportam como guerreiras assediadoras da gélida fortaleza masculina? “O que faço para sustentar meu desejo por esta que se entregou a mim desde o primeiro momento?” perguntam os rapazes de hoje que, por angústia e vingança, transformam suas amadas em grandes mães assexuadas.

A linha divisória entre homens e mulheres, pelo visto, perdeu sua antiga fixidez, trazendo mobilidade e liberdade para ambas as partes. Se o falo não é um pênis e sim um significante, seu manejo está franqueado a homens e mulheres. Só que, ao insistir em sustentar a equação pênis=falo, os homens acabam por se colocar em uma posição muito mais frágil do que as mulheres. Estas recém-descobriram, por conta da própria psicanálise, que o órgão masculino só possui o valor fálico que elas lhe conferirem.

Freud estaria enganado em suas observações a respeito das diferenças entre os sexos, das quais faço aqui uma proposital caricatura? Não creio. O que ele não poderia prever é que as transformações da cultura, para as quais a psicanálise desempenhou no século 20 um papel central, fariam por deslocar as mulheres de seus lugares tradicionais até exigir a construção de outra feminilidade ou, ainda mais: de outra relação dialética entre homens e mulheres.

Não é impossível então, que na medida em que as mulheres se livraram de algumas restrições sexuais e existenciais impostas pela moral vitoriana, a linha demarcatória entre a masculinidade e a feminilidade tenha se deslocado – forçando os homens, por enquanto, a jogar na defensiva. Freud já havia percebido a existência de um hiato na complementariedade imaginária entre homens e mulheres, a ponto de perguntar à sua amiga Marie Bonaparte: mas afinal, o que quer uma mulher? Pergunta que repercutiu em todas as gerações de psicanalistas, sobretudo homens. Ora: é claro que ninguém pode saber o que deseja uma mulher. O desejo é, por definição, inconsciente. Um homem também desconhece o próprio desejo.

Quanto ao suposto mistério do querer feminino, que se manifesta por intermédio de fantasias triviais e de pequenas reivindicações dirigidas ao outro – bem, nesse caso qualquer mulher pós-freudiana poderia responder: eu quero o mesmo que você, seu bobo. Você só não percebe porque não quer saber que sou sua semelhante, sua rival, sua irmã.

E, nesse caso, a diferença sexual continua um mistério – para os homens e para as mulheres.


* Maria Rita Kehl, psicanalista, é autora de O Tempo e o Cão (Boitempo), entre outros livros

20/09/2009 - 15:56h Freud 70 anos: O papel de refletir sobre o conjunto do espírito humano

Especialistas refletem sobre a obra do pai da psicanálise

O exame da cultura e da civilização tornou-se uma das linhas de força da psicanálise, que prossegue dedicada a essa frente

Sérgio Telles – O Estado SP

A inquietante e dolorosa vacilação humana entre o Bem e o Mal, a razão e a irracionalidade – enigma sobre o qual há séculos se debruçavam a filosofia e as religiões – foi entendida por Freud como decorrente da divisão estrutural do psiquismo em diversas instâncias, cujo funcionamento percebeu ser regido por um conflito permanente entre forças opostas.

Foi com as histéricas que Freud descobriu a dimensão inconsciente do psiquismo, mas logo a reconheceu nos demais quadros psicopatológicos e no funcionamento mental dos ditos “normais”. É quando passa a fazer o levantamento desta forma de funcionamento psíquico que escapa totalmente à consciência e à lógica racional e que usa uma linguagem cifrada, até então incompreensível a ponto de lhe ser negado qualquer sentido. Daí a necessidade de interpretá-la ao se manifestar em sintomas, sonhos, atos falhos, fantasias e desejos.

Freud constata que o inconsciente pode ser detectado em toda e qualquer manifestação do psiquismo humano, desde os mais simples e rudimentares até as mais complexas produções culturais, como a arte, a religião, a filosofia.

Por isso mesmo, desde o início, Freud estabeleceu que a psicanálise não se restringe a seu aspecto terapêutico e procurou aproximá-la dos demais domínios do espírito.

É grande o número de textos que Freud dedicou a assuntos artísticos e culturais, como Delírios e Sonhos na Gradiva de W. Jensen (1907), Leonardo da Vinci e Uma Lembrança de Sua Infância (1910), O Moisés de Michelangelo (1914) e Moisés e o Monoteísmo (1939). Essa linha de trabalho culminou com obras magistrais nas quais estuda a gênese da lei (Totem e Tabu, 1913), a questão da psicologia das massas e da liderança (Psicologia de Grupo e a Análise do Ego, 1921), a religião (O Futuro de Uma Ilusão, 1927) e a própria civilização (O Mal-Estar na Civilização, 1930).

O pensamento “sociológico” e “cultural” de Freud – que, durante certo tempo e por vários motivos foi relegado a um segundo plano – recebeu uma grande revitalização a partir dos trabalhos de Jacques Derrida. Ele convoca os psicanalistas a retomarem seu posto na polis, a participarem – como Freud o fez – mais intensamente dos debates que envolvem as grandes questões da atualidade. Confirma Derrida o que já é sabido desde o aparecimento dos primeiros trabalhos de Freud – que o mundo é hostil à psicanálise e a ela oferece grande resistência. Mas – continua Derrida – é necessário reconhecer que a psicanálise, por sua vez, também “resiste” ao mundo, e – o que é mais grave – resiste a si mesma, recusando-se a continuar expandindo o campo de saber criado por Freud.

Derrida lamenta a ausência da psicanálise no enfrentamento com questões nas quais sua contribuição é imprescindível, como nos campos da ética, da política e do jurídico.

O Mal-Estar na Civilização é o texto magnífico onde Freud analisa os impasses decorrentes do fato de o homem ter saído da natureza e ingressado no campo da cultura. Ali ele afirma ser necessário conter os desejos agressivos e sexuais para tornar possível a vida em comum. Como conciliar isso com o objetivo terapêutico maior da psicanálise que propõe justamente combater a repressão e tornar conscientes os conteúdos agressivos e sexuais que ela afastava da consciência? Essa aparente contradição se desfaz quando lembramos que a superação da repressão e a integração no psiquismo dos conteúdos até então reprimidos não deve ser confundida com a realização concreta destes desejos na realidade. O levantar da repressão dá ao sujeito um maior conhecimento sobre si mesmo, fortalece seu ego e faz com que ele deixe de atribuir à outra pessoa (via projeção) desejos e fantasias que são de sua própria lavra. Cabe ao sujeito, agora de posse de seus desejos antes reprimidos, avaliar a adequação e a oportunidade de pô-los em prática ou reconhecer que tem de renunciá-los de uma vez por todas. Isso implica o reconhecimento da lei e a aceitação de limites, um abandono do narcisismo onipotente infantil e uma aceitação do princípio da realidade.

O fato de Freud considerar a civilização como valioso apanágio da humanidade a ser protegido contra a barbárie sempre à espreita não impede que a psicanálise exerça sobre ela uma crítica sistemática, o que a coloca numa posição muitas vezes contrária ao consenso geral, despertando resistências e hostilidades.

No tempos iniciais, Freud e a psicanálise se opunham à hipocrisia com a que a sociedade tratava a sexualidade, reprimindo-a maciçamente, fazendo-a manifestar-se no corpo contorcido, paralisado, convulsivo da histérica.

A psicanálise ajudou a mudar este panorama e o que vemos hoje em dia é o oposto do que ocorria no tempo de Freud.

Ao contrário da censura, da repressão e do impedimento superegoico contra a sexualidade, prevalece agora a imposição do gozo ininterrupto, a ordem é gozar. É exigido de todos uma vida sexual intensa e variada, sendo discriminados aqueles que não cumprem com tal imperativo. A sexualidade se exibe às escâncaras nos meios de comunicação, que ininterruptamente confundem o público e o privado.

Enquanto os anseios eróticos eram vigiados e reprimidos na era vitoriana, agora o mercado está atento a todo e qualquer desejo para transformá-lo num objeto de consumo, oferecido pela enganosa publicidade como o passaporte para a felicidade instantânea.

O que aconteceu? Teriam desaparecido os impedimentos e a repressão? É claro que não. A psicanálise entende que a repressão se desloca para outras áreas, por exemplo, impedindo a manifestação da genuína intimidade afetiva.

Ao apontar as falácias da sociedade do consumo, o vazio decorrente do narcisismo desenfreado, a negação da falta e da incompletude, a liberdade equivocada que leva às fobias e ataques de pânico, a psicanálise, mais uma vez. está na contramão.

No próprio campo terapêutico, o espírito do tempo volta a ficar contra a psicanálise. Ela é desmerecida como algo ultrapassado pela neurociência (que reduz o funcionamento mental ao equilíbrio dos neurotransmissores cerebrais) e pelo cognitivismo (teoria psicológica herdeira do behaviorismo, baseada em processos cognitivos conscientes, que ignora – consequentemente – o Inconsciente freudiano, e tenta aproximar o funcionamento da mente ao processamento de dados por um computador).

Neste contexto, é reconfortante que um pensador do calibre de Derrida tenha reafirmado a radical novidade do inconsciente freudiano, que continua descentrando e desafiando o saber humano baseado no cogito, na razão, na consciência.


* Sérgio Telles é psicanalista e escritor, autor de Visita às Casas de Freud e Outras Viagens (Casa do Psicólogo), entre outros

20/09/2009 - 15:21h Freud 70 anos: Uma prática da subjetivação

Inseparável do corpo teórico, clínica freudiana admite transformar a ‘miséria neurótica’ em ‘infelicidade banal’

Especialistas refletem sobre a obra do pai da psicanálise

*Joel Birman – O Estado SP

A experiência psicanalítica se constituiu pelo reconhecimento insofismável da presença de conflitos no psiquismo. Essa evidência foi, para Freud, o canteiro de obras para a construção da teoria analítica e para o delineamento das coordenadas da clínica em psicanálise. Isso implica enunciar, inicialmente, que não existiria para Freud nenhuma possibilidade de separar estes dois registros, na medida em que a teoria e a clínica estariam organicamente costuradas. Seria em decorrência disso, portanto, que as diversas transformações da teoria ocorridas no discurso freudiano foram as consequências das mudanças operadas no registro da clínica. É preciso afirmar, em seguida, que a clínica foi um dispositivo inventado para remanejar e oferecer outros destinos para os ditos conflitos.

A presença do conflito evidenciava a existência de luta entre partes opostas que se contrapunham na experiência psíquica. Seria tal luta que se apresentava como dor e sofrimento nos indivíduos. Além disso, esse conflito se consubstanciava pela produção de sintomas que, como formação de compromisso que era entre os polos em luta, materializava o dito conflito. Contudo, esse se manifestava ainda em outras produções psíquicas, como o sonho, o lapso, o ato falho e a piada. O conjunto dessas produções psíquicas foram denominadas por Lacan de formações do inconsciente, constituindo a argamassa da experiência psicanalítica

A novidade teórica inventada por Freud foi a de demonstrar como o conflito psíquico se fundava em parte no inconsciente, mas que esse se mantinha oculto aos registros psíquicos do eu e da consciência, que representavam o outro polo do conflito. A experiência analítica visava então a colocar em cena o conflito em pauta, para que o sujeito pudesse relançar esse em outras bases, de maneira a dissolver o sintoma assim como o seu correlato, qual seja, a dor e o sofrimento que lhe acompanham. Enfim, como nos disse Freud numa fórmula concisa, em A Psicoterapia da Histeria (1895), seria preciso transformar a miséria neurótica em infelicidade banal.

Porém, no polo conflitivo centrado no inconsciente, Freud inscreveu o desejo. Seria esse na sua potência que procuraria sempre se impor no campo psíquico, como um imperativo efetivo do sujeito visando à sua satisfação. No entanto, encontraria sempre obstáculos para a sua realização, de maneira que teria que ser recalcado pela censura. O desejo, contudo, na sua insistência, buscaria sempre encontrar brechas para a sua circulação, driblando as infinitas dobras da censura. Seria, assim, pelo retorno do recalcado que o desejo se faria presente nas diferentes formações do inconsciente. Enfim, o desejo seria sempre transvestido por fantasmas, que definiriam as cenas e as personagens pelas quais o desejo tomaria corpo e forma.

No entanto, ao longo do seu percurso teórico, Freud empreendeu diferentes leituras do conflito psíquico e do desejo, procurando enfatizar então as suas bases pulsionais. Se inicialmente formulou que o conflito se daria entre a pulsão sexual e a pulsão do eu, posteriormente passou a enunciar que aquele se centraria entre a pulsão de vida e a pulsão de morte. Vale dizer, no início da psicanálise era a sexualidade que colocaria questões para o sujeito, mas em seguida a sexualidade faria parte das forças estruturantes do psiquismo e o que passou a ser problemático eram as forças destrutivas, representadas pelo imperativo da pulsão de morte. Seria então a crueldade o que promoveria estragos no sujeito, nas relações desse com o seu corpo e com o mundo. Foi neste contexto teórico-clínico, enunciado em Além do Princípio do Prazer (1920), que Freud nos disse que a experiência analítica não se centraria mais nem na interpretação nem tampouco na superação da resistência, como nos seus tempos primordiais, mas no domínio e na elaboração da compulsão à repetição.

De qualquer maneira, Freud sempre atribuiu a uma impossibilidade, existente na atualidade do sujeito, a fonte crucial para a constituição das diferentes perturbações psíquicas. Assim, da impossibilidade na realização do desejo até a perda de algo que fosse significativo para o sujeito, passando pelo impacto de experiências traumáticas, o que estaria sempre em pauta era a presença de um excesso intensivo no psiquismo, que o sujeito não conseguiria devidamente dominar e constituir assim destinos estruturantes para isso. A dimensão econômica do psiquismo seria o que melhor interpretaria o que estaria em causa inicialmente na produção das perturbações psíquicas, na impossibilidade de gozar que capturaria então o sujeito.

Em seguida, contudo, para canalizar este excesso pulsional, o psiquismo procuraria simbolizar o que ocorreu de maneira catastrófica, lançando mão de representações psíquicas. Seria a dimensão simbólica do psiquismo o que estaria agora em causa na produção das perturbações psíquicas, pela qual os diferentes sintomas serão tecidos nas suas particularidades. Assim, o sujeito procura lidar com uma questão real por caminhos oblíquos e transversos, lançando mão de seus arquivos do passado para enfrentar algo que se impõe na atualidade de sua experiência. Portanto, o que estaria agora em pauta seria uma tática equivocada para lidar com uma impossibilidade. Estaria aqui a dimensão do paradoxo presente em qualquer perturbação psíquica, seja essa da ordem da neurose, da perversão ou da psicose.

Dessa maneira, no entanto, o sujeito formula uma questão que estaria materializada no seu sintoma, de forma singular. A novidade trazida por Freud foi a de procurar traduzir o que se materializava no sintoma, isto é, na indagação que assim se balbuciava. Vale dizer, o sintoma queria sempre dizer algo de singular sobre o sujeito, que na sua impossibilidade falava disso de maneira transversa. Caberia, assim, ao psicanalista declinar essa voz sincopada, forjando as frases e conjugando os verbos enunciados no lusco-fusco dos fantasmas, para que as subjetivações pudessem então se produzir efetivamente.

Seria, portanto, pela invenção de novas formas de simbolização e de fantasmatização, que o sujeito poderia percorrer outros caminhos para sair do seu impasse, de maneira a dissolver a dor e o sofrimento que lhe dilacera. Para isso, a experiência psicanalítica possibilitaria a constituição de repetições de diferença no campo da repetição do mesmo, de maneira que o psiquismo pudesse realizar então a inflexão decisiva da compulsão à repetição em outras direções.

Fala-se muito hoje que a psicanálise não conseguiria mais sustentar o seu projeto clínico, não apenas em decorrência de sua duração e de seus custos como se dizia outrora, mas diante das novas modalidades de sofrimento que se apresentam na atualidade. Como se a psicanálise ficasse surda e opaca às novas formas de dor, que constituem a matéria-prima do mal-estar na contemporaneidade. Proclama-se, assim, a maior eficácia terapêutica da psiquiatria biológica e da psicologia cognitiva, que seriam os novos bálsamos para curar definitivamente os nossos males do espírito. Contudo, no projeto teórico-clínico delineado por Freud nunca foi fácil lidar com o conflito psíquico e as impossibilidades colocadas para a realização do desejo, de forma a constituir outros destinos que fossem estruturantes para o sujeito. Por isso mesmo, a resistência sempre se perfilou no campo da experiência psicanalítica, que não deve ser considerada negativamente, pois a resistência seria também o caminho pelo qual o sujeito procura afirmar o seu desejo em face da máquina interpretativa do analista, que ameaça apagar dessa maneira a sua singularidade.

Assim, a diferença fundamental da psicanálise em face de tais práticas clínicas é que para aquela o conflito psíquico não desaparece magicamente, nem pela ação das drogas psicofarmacológicas, nem tampouco pelo aprendizado de novos comportamentos. Isso porque o conflito psíquico se funda no desejo e nos fantasmas, que marcam a singularidade do sujeito. Esse não pode abrir mão de sua singularidade, sob o risco fatal de desaparecer. Vale dizer, a psicanálise é uma poderosa prática de subjetivação, que procura inventar destinos outros para o desejo e para os fantasmas do sujeito, através dos quais esse pode se enunciar em palavras, gestos e ações. Enfim, é preciso declinar o desejo e o fantasma do sujeito para que esse possa assumir plenamente a sua singularidade.

*Joel Birman é psiquiatra e psicoterapeuta, professor de Psicologia das Universidades Federal e Estadual do Rio de Janeiro e pesquisador do Collège International de Philosophie, de Paris. Escreveu, entre outros livros, Arquivos do Mal-Estar e da Resistência e Cadernos Sobre o Mal (Civilização Brasileira)

20/09/2009 - 15:03h Freud em analise

Especialistas refletem sobre a obra do pai da psicanálise
Arquivo/AE

Especialistas refletem sobre a obra do pai da psicanálise

 

”Psicanálise é a medicina da alma do nosso século”

Uma das intelectuais mais respeitadas da França, ela fala com exclusividade ao ‘Estado’ sobre o legado do pensador de Viena

Andrei Netto – O Estado SP

Poucos intelectuais traduziram tão bem sua época como Sigmund Freud fez com o século 20. Em sua obra, estão expressas as bases de conceitos tão poderosos e, ao mesmo tempo, tão legíveis, que se tornaram parte do cotidiano com a velocidade característica de sua época. É o caso do inconsciente – um conceito já elaborado nos séculos 18 e 19 por autores como Leibniz e Edward von Hartmann. Reinterpretada por Freud, a ideia de que o que falamos pode ter significados ocultos que fogem à esfera da consciência e, portanto, ao nosso domínio, é hoje reconhecível por todos.

Resumir seu pensamento a esse conceito, porém, é limitar uma obra enérgica e influente, alerta Elisabeth Roudinesco. Psicanalista, historiadora, docente, escritora, discípula de Jacques Lacan, amiga de Jacques Derrida, Elisabeth é, aos 64 anos recém-feitos, um dos pensadores vivos mais importantes de sua área, a psicanálise – um dos legados de Freud à humanidade. Segundo a intelectual marxista, o médico neurologista convertido em gênio está por trás, de uma forma ou de outra, de todas as formas de emancipações vividas pela sociedade do século 20, das quais o feminismo e a liberação sexual são só dois exemplos evidentes.

Além de suas atividades acadêmicas, que a levam a viajar o mundo todo, Elisabeth, uma das intelectuais mais respeitadas da França, se mantém hiperativa como escritora. E no centro de seus interesses está Freud. Ele explicaria a efervescência da autora, que lançará dois novos livros – Histoire de la Psychanalyse en France (La Pochotèque) e Retour à la Question Juive (Albin Michel) – nos próximos dias.

Previsto para outubro, Em Defesa da Psicanálise (Jorge Zahar, 248 págs.) é o seu próximo lançamento no Brasil. Nessa obra, estão reunidos entrevistas e ensaios da autora inéditos no País. Organizados pelo psicanalista Marco Antonio Coutinho Jorge, os textos são de épocas diversas e abordam temas polêmicos: a falta de participação dos psicanalistas na vida pública, a homossexualidade, o antissemitismo e a ciência, além das conexões da psicanálise com a medicina e a filosofia. No livro, a resposta da autora para os que falam da morte da psicanálise é direta: “Que ilusão!”

Em 23 de setembro de 1939, Freud morria em Londres. Às vésperas do aniversário de 70 anos de seu desaparecimento, o Estado pediu ajuda a Elisabeth para esmiuçar a herança de um mestre. Em seu apartamento, em um quartier pequeno-burguês de Paris, na quarta-feira, foram registradas mais de duas horas de entrevista exclusiva. A seguir, sua síntese.

Estamos a 70 anos da morte de Freud. O que ainda é tão representativo em sua obra? Por que ele é uma referência para a própria humanidade?

Ele é o único a ter teorizado, assim como seus herdeiros, o que chamamos de inconsciente. Não falo do subconsciente nem do inconsciente dos psicólogos. Eu me refiro ao inconsciente, que pode ser traduzido pela noção de que, quando alguém fala, não sabe o que diz. Há milhões de exemplos concretos, como o ministro do Interior da França (Brice Hortefeux), que fez declarações racistas na semana passada. Conscientemente, ele não é racista. Inconscientemente, sim. Mas julgamos alguém por seu inconsciente? Sim, se ele é ministro. Mas, via de regra, não podemos enviar alguém aos tribunais por seu inconsciente. Podemos dizer: “Comporte-se!” Muitas pessoas são inconscientemente racistas e antissemitas. Quando não há lei, esses sentimentos se exprimem.

Está no inconsciente? É inexorável?

É inexorável. Freud dizia, com razão, que a única maneira de impedir o crime é a lei, a civilização. No fim do século 19, havia pessoas e governos pública e oficialmente racistas. Não era proibido.

Permita-me retomar a questão: por que Freud ficou marcado como o homem que sintetiza o século 20?

Porque ele aportou algo de novo. Ele estava no prolongamento da filosofia do sujeito. Ele trouxe explicações que a filosofia havia pensado, mas ele lhes deu um assento teórico. E isso não me surpreende. Além disso, Freud permite compreender os dois totalitarismos do século 20: o nazismo, sobre o qual pensou e anteviu melhor do que qualquer outro, e o comunismo, que não teve nada a ver com sua ideia original, com o marxismo. Os dois, aliás, são diferentes: o nazismo se inscreveu desde seu início, sabia-se o que esperar; o comunismo caminhou para o lado errado. Mesmo assim, Freud viu que ele não funcionaria. É verdade que ele era conservador, assim como muitos de seus herdeiros. Mas há muitos freud-marxistas, muitos freudianos de esquerda – que são os meus preferidos, aliás. Nessa época, psicanálise era uma teoria da regeneração do homem, da emancipação. Quatro coisas nasceram ao mesmo tempo: o sionismo, o último movimento de emancipação dos judeus; a psicanálise, que é a emancipação do inconsciente; o socialismo, a emancipação social; e o feminismo, a emancipação da mulher. Era um grande movimento. O século 20, como anteviu Freud, foi o triunfo do contrário – o que pode ser resumido no nazismo. Freud afirmou que o triunfo do contrário já estava lá, entre nós, naquela época. E disse ainda: “Atenção, eu sou a favor da emancipação, mas o homem é habitado pelo contrário disso.” Eu creio que ele foi o único a dizê-lo. É um dos motivos pelos quais é o Homem do Século 20. Por outro lado, ele jamais abandonou a ideia do progresso. Freud foi um homem progressista. Contra Schopenhauer, contra os grandes conservadores de seu tempo, contra os que eram inteiramente pessimistas em relação ao progresso, acusando-o de não servir para nada, Freud disse: “Sim, ele serve.” Foi por isso que eu o chamei, depois de Adorno e outros, como a “luz sombria”, marcada pelo iluminismo, mas sem muitas ilusões. Esse vínculo, o fato de ter pensado a relação entre as duas coisas, o levou a pensar ao mesmo tempo que o pior e o melhor podem acontecer com o homem. Ele nunca foi antiprogressista, ao contrário do que se diz. Por tudo o que mencionei, ele está no centro dos dias de hoje. Você não pode pensar o sionismo, o feminismo, a liberação das mulheres, a transformação da família, sem passar por Freud em determinado momento.

Se Freud é o homem do século 20, qual é o seu lugar no século 21?

É o mesmo. A maioria dos psicanalistas tornou-se conservadora. Não 100%, mas a maioria é conservadora. Por quê? É uma de minhas grandes interrogações. Eu não o sou, e no Brasil eles são menos. Diria até que são menos na América Latina. Mas eles são conservadores por diversas razões. Os lacanianos não deveriam sê-lo, já que Lacan relançou o pensamento da rebelião, da contestação. A Internacional Freudiana tornou-se conservadora porque caiu na repetição do dogma. Eles não se renovaram, tornaram-se um movimento dogmático, centrado sobre a clínica e não sobre a reflexão a respeito da sociedade e do indivíduo. Além disso, cometeram o erro de dialogar demais com as ciências duras, ao crer que o debate sobre o cérebro e os neurônios era essencial. Sempre afirmei que esse debate não era essencial, porque o cérebro e os neurônios não precisam de psicanálise. Não há muito o que fazer com isso, senão dar medicamentos. Mas se a psicanálise se ocupa apenas disso, afastando-se das moeurs (expressão francesa para costumes), ela se torna conservadora, familiarista. Os psicanalistas se desinteressaram dos assuntos sociais. Foi assim que se tornaram conservadores.

Por que a psicanálise brasileira é menos conservadora?

A América Latina, e sobretudo o Brasil, é uma sociedade que espelha a Europa. Os psicanalistas brasileiros são ecléticos. Em alguns momentos são culturalistas, e nos chateiam com a sua brasilidade – não esqueça que houve na França a francilidade e na Alemanha a germanidade. Mas, fora isso, eles, como espelho da Europa, importaram conhecimento. Ao importar, misturaram-no. E o ecletismo dos brasileiros – mais do que dos argentinos, que são menos ecléticos – se formou pegando um pouquinho de Freud, um pouquinho de Lacan e por aí foi. Isso funciona porque questiona o dogmatismo. Eles desconstruíram, para empregar a expressão de Derrida, o dogma europeu.

Voltemos a Freud. Ele não avançou em dois domínios: as crianças e os psicóticos. Por quê?

Sim, ele avançou sobre o tema da infância. Ele nos deu a base da análise da infância. O que se pode dizer é que sua corrente não triunfou no mundo psicanalítico quando se fala em infância, e sim a de Melanie Klein. Nisso, estou completamente de acordo com você. Foi ela quem fundou a psicanálise da infância. No entanto, tudo isso é psicanálise. Ela engloba todas as correntes. Sobre os psicóticos, você tem razão. Freud não acreditava que seria possível analisar os psicóticos. Muito cedo, quando ele compreendeu que essa era a “Terra Prometida” – bem antes da aparição dos medicamentos -, quando ele percebeu que quase todos os seus discípulos eram psiquiatras e trabalhavam com a psicose, ele se desinteressou, embora não tenha desestimulado ninguém. É verdade que é um domínio muito problemático. A análise se faz para os neuróticos. A “cura” analítica funciona muito para os neuróticos, porque, como eles não se curam, se acomodam. E, como transformamos a neurose de fracasso em neurose de sucesso, a cura funciona. A psicanálise torna mais inteligente, mais corajoso, mais apto na sociedade. A psicanálise funciona muito bem. Entretanto, é verdade que não curamos bem a psicose, embora tenhamos nos desenvolvido muito nesse tema também. Os loucos hoje buscam na psicanálise um complemento, já que os psiquiatras só querem saber de medicamentos. Se não há a psicanálise, o paciente vira um legume, um morto em vida.

No início, com Freud, a psicanálise era um processo breve, rápido. Hoje, é o contrário, estende-se por anos, décadas às vezes. O que mudou?

Era rápido porque Freud fazia seis sessões por semana de uma hora. Era intensivo. Há também o fato de que estendemos a análise para domínios não previstos de início, o que a tornou mais difícil. Mudou-se a modalidade da cura, também. Há pessoas que precisam falar sempre, ao longo de sua vida. Mas é verdade que Freud ficaria chocado hoje. Duas vezes por semana, durante 10 anos? Não! Para Freud, era de seis meses a um ano, todos os dias, por uma hora. Quando não era possível, como Marie Bonaparte, tudo bem. Ela ficou 14 anos em análise.

Freud esforçou-se muito para dar à psicanálise o status de ciência, mas ela sempre esteve na alça de mira de cientificistas ortodoxos. Como a psicanálise responde a essas críticas? E por que ela deve ser considerada uma ciência?

Freud oscilou, hesitou muito entre o status de ciência, no sentido de ciência dura – ele queria no fundo que a psicanálise fosse uma “neurologia da alma” – e um outro status, que ele não chamava filosofia, mas ainda assim estava do lado da especulação, da literatura e da filosofia. Ele renunciou completamente e muito cedo ao status de ciência dura, porque se deu conta de que não se tratava de uma ciência no sentido que se conhece. Logo, é preciso inscrever a psicanálise no registro das ciências humanas. É uma ciência, no sentido da racionalidade, mas não no mesmo sentido da biologia e da neurologia. Freud se dividia entre as duas concepções. Não estamos mais no tempo do darwinismo, e a biologia é reconhecida como uma ciência, uma ciência da natureza. A psicanálise não o é de modo algum. Não tem metodologia, resultados ou a positividade das ciências duras. É uma ciência mais próxima das Humanas, como a Antropologia, a Sociologia, a História. Mas mesmo essa concepção, a de parte das ciências humanas, já foi contestada.

O pensamento de Freud é íntegro e poderoso ainda hoje? Sua força criativa ainda é existe?

Sem dúvida. Creio que vamos assistir a um grande retorno a dois pensadores, inclusive: Marx e Freud. Não ao comunismo e à psicanálise, mas a Marx e Freud. Autores como Marx, Freud, Nietzsche e toda a filosofia da rebelião se tornaram malditos nos últimos 20, 30 anos, quando caímos em um estado de neoconservadorismo. A crise econômica, em especial como a que se passou nos Estados Unidos, vai desempenhar um papel considerável. Vamos voltar ao pensamento da rebelião.

Como as ideias de Freud retornarão? Com que aplicação?

Retornarão com as de Marx. Mas não sei como serão aplicadas. O que está voltando com muita força é a ideia de que temos um inconsciente, de que o desejo é capital. A psicanálise, bem pensada, permite compreender a moeurs, o inconsciente, o desejo e a sexualidade de uma forma inteligente. É uma teoria do desejo, afinal.

A senhora vê conceitos de Freud confirmados pelos progressos da ciência ou por novas tecnologias?

Não. Os progressos da ciência são os progressos da ciência. Nenhum dos conceitos de Freud é confirmado pela biologia. São dois domínios diferentes. A psicanálise é a medicina da alma. É especial.

Assim como a psiquiatria, em sua origem?

Hoje não há mais psiquiatria. E, logo, nos damos conta de que existem cada vez mais loucos. Porque são usados apenas medicamentos, ela não funciona mais. É útil, mas não resolve. É muito interessante o que se passou na psiquiatria. Biologizaram-na. Até então, era um equivalente da psicanálise. Era uma medicina da alma. Mas a deslocaram para a biologia. Curamos a loucura? Não. Acalmamos os loucos? Sim. Vivemos um recuo de 50 anos com a psiquiatria “biologizada”.

A obra de Freud é marcada por sua didática, sua clareza. E esse não me parece ser o caso dos pensadores da psicanálise contemporânea. De onde vem esse problema de comunicação?

Esse problema é enorme. Os psicanalistas escrevem em clichês. Mesmo que Lacan seja um autor difícil de ler, não se trata de um clichê. Além disso, mesmo que os seguidores de Lacan escrevam em secto, os freudianos também o fazem. Freud era um autor claro, o que influenciou todo o movimento psicanalítico. Hoje, quando leio psicanalistas freudianos norte-americanos ou ingleses fico impressionada com os clichês que estão presentes. É um símbolo muito grave de encerramento sectário. Quando os intelectuais se fecham em torno de si mesmos, eles falam a linguagem de uma tribo. No interior, a tribo se compreende. Eu sempre compreendi a tribo, mas não posso escrever como ela. Não sei fazer. Sou muito clara. Às vezes os antropólogos e sociólogos que queriam se divertir me perguntavam se eu, como psicanalista, não me sentia como o antropólogo que chega à Melanésia e que deve decifrar a linguagem da tribo. É uma alegoria exata. Eu decifro facilmente essa linguagem. Mas para você, que a lê, não deve ser fácil. A psicanálise é mais afetada pelos clichês que a filosofia, por exemplo.

O meu ponto é: se o problema da clareza da comunicação existe, o que torna a psicanálise tão popular em todo o mundo?

Ela é popular em todo o mundo, mas o é de uma forma inconveniente. Por exemplo, ela é popular em muitos países, infelizmente, pela forma da psicologia interpretativa dos chefes de Estado. Eu recuso todos os pedidos de entrevista sobre as fantasias dos chefes de Estado. Mas isso a TV adora, sob a forma da psicologia. Todos os antifreudianos, todos os que não gostam da psicanálise, dirão que ela está em todo lugar. Sim, os psicanalistas estão em todo lugar, mas sob que formas! É ridículo!

19/04/2009 - 15:28h Depressão e capitalismo global

 

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Em O Tempo e o Cão, autora procura entender o mal-estar da sociedade contemporânea

 

Luiz Zanin Oricchio – O Estado SP

 

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Habituados, por dever de ofício, a ouvir os outros, os psicanalistas são seres que se autoobservam. Maria Rita Kehl dirigia seu carro pela Via Dutra, quando surgiu pela frente um cachorro. Não havia como parar, o carro estava acossado pelos caminhões que vinham por trás. O animal foi atropelado, e saiu mancando pelo acostamento. O choque fez a psicanalista meditar sobre a velocidade que preside a vida contemporânea, a aceleração que nos leva a reagir instantaneamente a tudo que acontece para, em seguida, esquecer com igual rapidez. Vivemos em regime de um eterno presente, cada vez mais intenso. E cada vez mais sem sentido, para não dizer “alienado”, conforme vocabulário de outra época.

Em sua clínica, e na própria literatura das profissões psi, Maria Rita tem observado o aumento de queixas de depressão. Talvez seja o mal-estar do século, a “moléstia” do capitalismo turbinado e globalizado. O cão da Via Dutra (que, afinal, não morreu no acidente) a ajudou a juntar as duas pontas do problema e relacionar a depressão com determinada experiência do tempo: talvez os deprimidos sejam os sujeitos que “sofrem de um sentimento de tempo estagnado, desajustados do tempo sôfrego do mundo capitalista”.

Esta a hipótese de O Tempo e o Cão (Boitempo, 304 págs., R$ 39), livro que faz com que análise clínica e crítica social dialoguem e se completem de modo a iluminar o fenômeno da depressão contemporânea. A seguir, a entrevista concedida pela psicanalista ao Estado.

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Primeiro, a questão do método. Eu me refiro à maneira eclética de mesclar conceitos psicanalíticos (em especial de Lacan) com ideias da filosofia, principalmente dos frankfurtianos, a partir de Benjamin. Como chegou a essa síntese fértil para abordar um tema específico como o das depressões?

Esta primeira pergunta me é particularmente interessante. Na verdade, o que faço não é nada novo. O próprio pensamento de Lacan, muitíssimo mais abrangente que o meu, dialoga constantemente com pensadores de outras áreas, tanto os contemporâneos dele quanto os clássicos. Os frankfurtianos, por sua vez, incluem a psicanálise como uma das ferramentas da teoria crítica – entre eles, penso que quem melhor compreendeu Freud foi Walter Benjamin. Hoje quem faz isso com mais ousadia, a meu ver, é o Slavoj Zizek; no Brasil, posso citar rapidamente Paulo Arantes e Vladimir Safatle, entre outros, de modo que me considero muito bem acompanhada.

O título do livro, O Tempo e o Cão, refere-se diretamente a uma experiência, que imagino um tanto traumática, de atropelar um cachorro na estrada. Gostaria que explicasse como elaborou esse incidente no sentido de uma percepção das relações entre a depressão e a temporalidade.

Foi um acidente de pequena importância até mesmo para o cão, que consegui não matar por sorte. Por pouco, a velocidade normal do tráfego na Via Dutra, entre caminhões e ônibus, me obrigaria a passar por cima dele. Se em vez de um cão fosse uma criança seria impensável não frear, mas teria provocado um acidente de proporções tremendas. Qual a novidade disso? Sabemos que a velocidade regular de nossa vida cotidiana é brutal; estamos habituados a ela. Mas o incidente na estrada me fez pensar nos efeitos subjetivos da aceleração da vida contemporânea. Na época andava lendo Benjamin, para quem a atividade contínua de “aparar os choques” da vida moderna (repare que ele escrevia sobre Paris no final do 19) é incompatível com a dimensão da experiência e está entre as causas do que ele chama de melancolia. Comecei a pensar no livro por aí.

Interessantes as objeções ao uso intensivo dos medicamentos no tratamento psiquiátrico das depressões. A doutrina da “eficácia contemporânea” passa necessariamente pela medicalização do sintoma?

Eu não condeno em bloco o uso dos antidepressivos. Sei que muitas pessoas dependem de medicação até para sair de casa e chegar ao analista. Os antidepressivos podem salvar vidas. Minha crítica se refere ao uso indiscriminado de medicamento como tentativa de apagamento do sujeito do inconsciente, segundo a lógica de que o valor da vida se mede pela eficiência. Os efeitos dessa aliança sobre o modo como as pessoas tentam suprimir as próprias crises normais da existência com medicamentos, a meu ver, incluem-se entre as causas do aumento das depressões no século 21.

De que maneira isso também pode ser interpretado como uma conivência entre a psiquiatria e o interesse econômico dos laboratórios?

Este é um fato objetivo. A pressão dos laboratórios sobre os psiquiatras, a presença maciça das grandes marcas de medicamentos a financiar congressos de psiquiatria, o prestígio dos medicamentos de última geração, em relação aos quais os psiquiatras temem ficar desatualizados e perder clientela, etc. A psiquiatria hoje está tão atrelada às descobertas da indústria farmacêutica que, de acordo com alguns críticos da área, a produção de um pensamento teórico sobre as doenças mentais se reduziu a zero. Virou uma “psiquiatria veterinária”, na expressão do psicanalista André Green. Mas há importantes exceções a este estado de coisas; não são poucos os psiquiatras que indicam que a medicação deva ser acompanhada de alguma forma de terapia da palavra.

De qualquer forma, o que parece contar mesmo é a “aceleração do tempo” contemporâneo. Ponho entre aspas porque o tempo não acelera e sim a nossa percepção dele. Você associa esse fenômeno às novas tecnologias, ao chamado turbocapitalismo? Estes fenômenos predispõem à depressão?

Você tem toda a razão, não é o tempo que acelera, somos nós. Aliás, o que é o tempo? A leitura de Henri Bergson me foi de grande valia para pensar nessa questão. A impressão que se tem, desde a revolução industrial, é que o tempo em sua dimensão cronológica vem se acelerando de uma forma exasperante. Quanto mais tentamos aproveitar o tempo, quanto mais dispomos das horas e dos dias segundo a convicção de que “tempo é dinheiro”, mais sofremos do sentimento de desperdiçar a vida. Você já reparou que depois de uma semana muito corrida, com a agenda repleta de compromissos, tem-se a impressão de que o tempo voou e nada aconteceu? O que me preocupa é que, na tentativa de fazer render o tempo desde o começo da vida, hoje os pais de classe média e alta começam a educar seus filhos segundo o mesmo princípio da agenda cheia. Algumas dessas crianças cheias de compromissos se tornam insatisfeitas, dependentes de estimulação externa, incapazes de devanear e inventar brincadeiras quando estão desocupadas.

Achei interessante (e alarmante) essa questão das mães ansiosas, que não conseguem dar aos filhos o seu devido tempo e mantêm uma expectativa alta em seu desempenho. Em que medida isso afeta a criança e a predispõe à depressão? A posição (enfraquecida) dos pais também chama a atenção. De que maneira a família nuclear parece se desagregar atualmente por força das exigências sociais crescentes?

Essa pergunta são duas, certo? A ansiedade materna, bem antes de se manifestar como expectativa pelo desempenho da criança, tem a ver com a pressa em mantê-la sempre satisfeita. Mas a melhor forma de amar uma criança não é impedir que ela conheça a falta: a falta é constitutiva do aparelho psíquico. Ela não pode faltar! A criança começa a virar gente (sujeito) ao inventar recursos simbólicos para lidar com o vazio e a insatisfação. Ora, a sociedade em que vivemos é regida por essa espécie de imperativo kantiano às avessas: goze. Que dizer da obrigatoriedade do gozo? Ela só não é mais danosa porque é impossível de cumprir. Aqui entra sua segunda questão: os chamados pais enfraquecidos são exatamente os que vivem em dívida com a satisfação de seus filhos. Difícil encontrar algum ideal tão inquestionável quanto o prazer. Mesmo os pais que não desconhecem a função de colocar limites aos excessos de suas crianças, não encontram outros ideais para transmitir a elas.

De certa forma, a modernidade pode ser vista como uma patologia do tempo, que atingiu um ponto insuportável de aceleração. Acredita que esse fator ou pode produzir outros sintomas psíquicos além da depressão?

Certamente sim: as drogadições, por exemplo, não seriam sintomas da urgência em gozar que comanda a vida contemporânea? E a violência banalizada nas grandes cidades, não seria sinal do encolhimento da capacidade de negociar conflitos em função dessa mesma urgência?

Você acredita que um estudo psicanalítico desse tipo funciona também como uma crítica ao capitalismo contemporâneo, ao consumismo, à reificação crescente, etc?

Espero que sim, ainda que as críticas jamais tenham tido o poder de derrubar o capitalismo. O que o poderá derrubar, algum dia, serão as condições materiais concretas produzidas por suas próprias contradições. Nossa: agora falei como uma cartilha. Mas penso que a produção do pensamento crítico é um importante dispositivo contra o conformismo, o sentimento fatalista de que está “tudo dominado”, de que o capitalismo conseguiu anular todas as visões de mundo diferentes dele. A crítica é um “veneno antimelancolia”, no sentido benjaminiano da “indolência do coração” que caracteriza a atitude fatalista.

Já detectou em sua clínica alguma repercussão da atual crise econômica mundial? Acha que ela contribuirá para gerar mais depressivos ou ao contrário, pode produzir uma conscientização crítica do modelo atual?

No meu consultório, casualmente, não. Pode ser questão de tempo. Quanto à crise atual provocar ainda mais depressões, respondo que sim, no que concerne ao desemprego, ao desamparo, à desesperança dos que são chutados para fora do sistema produtivo como seres supérfluos. E por outro lado, não: o abalo do pensamento único que correspondia ao triunfo da concentração do capital financeiro poderá ter interessantes efeitos antidepressivos. Somos novamente convocados a pensar, fazer projetos coletivos, resgatar esperanças em outra ordem mais justa que esta que causou o desastre. O singular, o modesto, o pequeno, poderão retomar seu trabalho nas brechas do grandioso, do monumental, do “dinheiro que apenas se olha” (Débord). Os movimentos sociais poderão se revitalizar; as pessoas poderão reinventar a ação política e deixar de se sentir supérfluas. Quem sabe o fatalismo melancólico deixe de dominar a subjetividade?

Você acha que a proliferação de manuais de autoajuda, de receitas de felicidade, tem algo a ver com a “felicidade obrigatória” que a sociedade do desempenho nos prescreve?

Concordo com você. Mas respeito aqueles que, na falta de outros recursos, buscam nesses livros caminhos para sair da depressão. Ocorre que o ideal de felicidade, que no século 18 nos libertou do conformismo religioso, hoje se tornou opressivo. Virou uma subideologia da sociedade de consumo. Ora, a felicidade não é uma mercadoria que se possua. Não é uma conquista do ego; ela não para quieta, não nos garante nada. As pessoas sentem-se culpadas por não possuir a tal felicidade, o que os torna ainda mais infelizes. Prefiro, com Oswald de Andrade, deixar de lado a felicidade e apostar na prova dos nove da alegria.

Você vê possibilidade de diminuir o sofrimento do depressivo, sem alterar as condições sociais que com ele se relacionam?

Você me permite esclarecer um ponto importante. A ideia de que a depressão seja um sintoma social não significa que os depressivos devam ser tratados como casos sociológicos. Os depressivos devem ser escutados, como todos os que buscam a psicanálise, um a um. Assim, em sua singularidade irredutível, deve ser conduzida a análise dos depressivos – que passa, necessariamente, pela reversão da forma como cada um deles se deixou alienar (como todo sujeito, aliás) pelas formações hegemônicas do imaginário social.