20/09/2009 - 18:00h Freud 70 anos: Sonhos, complexo e pulsão para leigos. Os livros
Coleção dedicada a iniciantes lança segunda leva de títulos que atualizam as principais ideias do repertório psicanalítico
Francisco Quinteiro Pires – O Estado SP
Sigmund Freud foi bastante corajoso ao expor os seus sonhos em praça pública. Em certa medida, tal coragem recebeu uma recompensa, dada por A Interpretação dos Sonhos (1900), uma de suas obras capitais que inaugurou a psicanálise. E é ela que ganha uma análise afiada de John Forrester na coleção Para Ler Freud. Professor da Universidade Cambridge, Forrester disseca, em A Interpretação dos Sonhos (Civilização Brasileira, 94 págs., R$ 15), as críticas à teoria freudiana que diz haver diferenças entre o conteúdo latente e o manifesto dos sonhos. A distinção se faz necessária. O autor inglês explica que, quando se dá sentido aos elementos oníricos, torna-se possível acessar a caixa-preta dos desejos.
Organizada pela psicanalista Nina Saroldi, a coleção, lançada no fim de 2008, manda agora para as livrarias, junto com o livro de Forrester, mais dois volumes: Complexo de Édipo, de Chaim Samuel Katz, e As Pulsões e Seus Destinos, de Joel Birman. A trinca da estreia foi formada por Além do Princípio do Prazer (Oswaldo Giacoia Junior); As Duas Análises de uma Fobia em um Menino de Cinco Anos – O Pequeno Hans (Celso Gutfreind); e Luto e Melancolia (Sandra Edler). No total, a série terá 15 volumes. “Sem textos cifrados, a coleção atualiza as principais ideias elaboradas por Freud ao longo da a sua produção”, diz Nina, que assina os prefácios das edições.
Psicanalista e escritor, Katz aborda, em Complexo de Édipo (164 págs., R$ 25), um conceito desenvolvido pelo teórico austríaco a partir de um sonho com a mãe e uma antiga babá. Valendo-se da mitologia grega, o pai da psicanálise criou a teoria da paixão pela mãe e do ciúme pelo pai. Segundo Katz, que convocou teóricos como Foucault e Jung para tratar do assunto, é o complexo de Édipo que torna a vida em sociedade viável, por delimitar o fluxo da libido e a obtenção do prazer. Katz examina a manifestação contemporânea da culpa e da vergonha.
“Joel Birman é um dos autores mais produtivos da psicanálise”, diz Nina. “Sua posição política é interessante porque mostra a preocupação e a possibilidade de as questões sociais serem tratadas pela teoria psicanalítica.” Além de As Pulsões e Seus Destinos (162 págs., R$ 25), Birman está lançando Cadernos Sobre o Mal (Civilização Brasileira, 336 págs., R$ 49,90). Professor da UFRJ, ele debate, no primeiro, as referências atuais ao conceito de pulsão, pela qual se revela a ambivalência do indivíduo. No segundo, investiga as diversas expressões da violência nos dias correntes, sob a luz da psicanálise e levando em conta os problemas sociais.
Desafios da nova tradução brasileira
Feita a partir do alemão, ela tem o objetivo de recuperar o estilo impecável do autor; serão 35 volumes, dos quais 3 já saíram
Luiz Alberto Hanns – O Estado SP
Nos anos 80 e 90, dezenas de artigos e livros questionando a teoria e denunciando a ética pessoal de Freud passaram a circular pela mídia. Alguns apontavam deficiências teóricas, outros expressavam uma fúria caluniadora que parecia responder a décadas de domínio e arrogância de muitos dos seguidores de Freud. Agora, passado o que nos EUA se denominou Freudbashing (malhar Freud), damo-nos conta que, na verdade, os novos avanços da psicogenética, das neurociências e da psicofarmacologia não se contrapõem à teoria freudiana, e podemos avaliar seu lugar na cultura e ciência com mais isenção. Neurocientistas têm relido e valorizado suas teorias, bem como em ciências humanas muitos conceitos freudianos foram incorporados. Igualmente vários países europeus e Estados americanos passaram a incluir a psicanálise nos serviços públicos de saúde.
Contudo, esta retomada de Freud não explica o interesse despertado pelas novas traduções que surgem neste momento em que sua obra cai em domínio público. Afinal, desde os anos 70 Freud é o autor de língua alemã cuja tradução é a mais debatida. O curioso é que, em geral, Freud escrevia de modo acessível visando à divulgação da psicanálise. Por que, então, a celeuma sobre sua tradução?
Uma das respostas é que sua obra não é apenas lida, mas estudada. Não só por psicanalistas, mas também por filósofos, semioticistas, críticos de arte, etc. Alguns textos são destrinchados frase a frase discutindo-se “o que Freud realmente queria dizer”, dúvidas estas alimentadas por uma desconfiança das traduções que remonta aos anos 70, época em que o debate em torno da tradução de Freud transbordou para além dos especialistas, chegando ao público leitor de jornais. As discussões de então centravam-se nos termos psicanalíticos adotados pela prestigiosa tradução inglesa de J. Strachey, a Standard Edition of Sigmund Freud Complete Psychanalytical Works, que havia estabelecido um padrão terminológico internacional.
Discutia-se uma revisão dos termos psicanalíticos, cuja tradução passou a ser considerada “medicalizada” e estranha à linguagem freudiana – uma linguagem ligada à experiência cotidiana e afetiva. Afora alguns termos já corriqueiros como ego, superego, id e narcisismo, outros como catexia (carga de energia), estase (acúmulo), epistemofilico (desejo de conhecer), seriam desnecessariamente herméticos. Além disso, nos anos 80, quando se publicaram novos estudos abarcando outras importantes traduções em diversos idiomas, novas distorções e falta de distinções conceituais foram mapeadas, colocando todas sob suspeita e incentivando uma revisão geral das traduções.
A nossa Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de S. Freud da Imago Editora passou por um processo análogo, sendo em especial criticada pela psicanalista Marilene Carone, que infelizmente morreu pouco depois de iniciar uma nova tradução. Além de ter sido traduzida do inglês, a Standard Brasileira continha diversos erros. Uma nova tradução a partir do alemão e conforme critérios atuais se fazia necessária e a própria Imago a retomou, sob minha coordenação em 2002. Entretanto, é provável que nenhuma das novas traduções internacionais, incluindo a nossa nova edição brasileira, satisfaça a todas as demandas contemporâneas. Uma das dificuldades reside na relação de Freud com a linguagem.
Para ele, havia uma sabedoria psicológica nos idiomas, e é da linguagem cotidiana que ele se servia para nomear conceitos e apontar nexos entre fenômenos. Um exemplo ilustrativo: Freud descreve um momento psíquico essencial – o cerne dinâmico da pulsão ou do instinto – que ele nomeia de Drang e que para outros idiomas foi traduzido por um termo mais pobre, pressão (pressure, poussée, presión). Ocorre que em português há um termo análogo ao Drang: ânsia. Tanto ânsia como Drang descrevem algo que brota do desconforto físico crescente (por exemplo, a ânsia do sufocado em respirar), passa pelo afã e aponta para o anseio (por exemplo, ânsia por viajar).
O nosso ânsia, tal como Drang, articula duas conexões importantes: uma com o corpo que sofre e impele, e outra com a psique que representa mentalmente os objetos de alívio almejados. Não haveria espaço aqui para demonstrar as implicações e os desdobramentos teóricos que ligam o desejo ao corpo e este à vida psíquica, bem como as relações entre sofrimento e prazer. Estes temas foram discutidos por Freud sempre empregando palavras ligadas à nossa experiência afetiva. Daí seu estilo ter sido denominado “prosa científica”.
Lembremo-nos que o mesmo Freud que foi considerado pela escola de Viena como exemplo de rigorosa ciência positivista ganhou o prêmio literário Goethe. Contudo, esse duplo registro discursivo coloca o tradutor diante de um impasse: se por um lado houve um consenso em “desmedicalizar” a linguagem, os avanços psicanalíticos atuais levaram a novas exigências de formalização teórica e padronização terminológica (em geral semanticamente mais pobre), e se contrapõem a uma tradução mais coloquial que busca restaurar os nexos semânticos e literários. Internacionalmente tem havido diversas soluções; na França, a nova tradução coordenada por Laplanche, tem um cunho mais terminologizante, na Inglaterra a atual tradução dirigida por Phillips tem um viés radicalmente literário.
A nova tradução brasileira, que começou a ser publicada em 2004 e que se estenderá até 2017, opta por dois caminhos: no corpo do texto enfatizamos a fluidez e o prazer de leitura, portanto, um viés literário, mas ao fim de cada capítulo incluímos um extenso corpo de notas com subsídios aos estudiosos. Embora nossa tradução deva se prestar a estudos, não abrimos mão de recuperar o estilo de Freud, acessível, instigante e em diálogo com a cultura. Outra providência foi não mais publicarmos a obra de Freud em ordem cronológica, pois isso nos obrigaria a publicar junto com textos relevantes de sua juventude, um grande número de cartas pessoais e artigos repetitivos que só interessam aos estudiosos e deixaria importantes textos de sua maturidade para uma publicação muito posterior.
Optamos por eixos temáticos que reúnem os textos mais lidos e procurados. O primeiro eixo, já publicado, engloba os Escritos sobre a Psicologia do Inconsciente (em três volumes, totalizando 640 páginas e 17 textos do período de 1911 a 1938). O eixo seguinte, em quatro volumes, trará os Escritos sobre Cultura, Sociedade e Religião. Mais adiante virão os textos sobre sexualidade, depois sobre arte e literatura, num total de 12 eixos temáticos, distribuídos por 35 volumes. Esperemos que este formato, bem como resgate do texto fluido e expressivo de Freud, permita à nova geração de leitores apreciar seu estilo e perceber suas múltiplas aberturas para a modernidade.
* Luiz Alberto Hanns, doutor em Psicologia pela PUC-SP, psicanalista, é cordenador-geral da nova tradução brasileira das obras de Sigmund Freud e autor do Dicionário Comentado do Alemão de Freud (Imago), entre outros livros sobre o tema
Estante Básica
RENATO MEZAN
Eis alguns livros disponíveis em português que podem interessar tanto aos marinheiros de primeira viagem quanto aos que já possuem algum conhecimento da psicanálise:
DE SIGMUND FREUD
Obras Psicológicas, editora Imago. Trata-se da nova edição da obra completa de Freud, traduzida diretamente do alemão, sob a coordenação-geral de Luiz Alberto Hanns. A publicação teve início em 2004 e já foram lançados três volumes, que reúnem os Escritos Sobre a Psicologia do Inconsciente. Neles estão incluídos os chamados textos metapsicológicos do criador da psicanálise – como O Recalque, Pulsões e Destinos da Pulsão e O Fetichismo.
SOBRE SUA VIDA E A ÉPOCA EM QUE VIVEU
Freud – Uma Vida Para o Nosso Tempo, de Peter Gay. São Paulo, Companhia das Letras, 1989.
Freud: Sua Longa Viagem Morte Adentro, de Lúcio Roberto Marzagão. Belo Horizonte, Ophicina de Arte & Prosa, 2007.
Viena Fin-de-Siècle, de Carl Schorske. São Paulo, Companhia das Letras, 1993.
SOBRE SUA OBRA
O Carvalho e o Pinheiro: Freud e o Estilo Romântico, de Inês Loureiro. São Paulo, Escuta, 2002.
Freud: Um Ciclo de Leituras. Silvia Leonor Alonso e Ana Maria Siqueira Leal (orgs.). São Paulo, Escuta, 1997.
Freud, Pensador da Cultura, de Renato Mezan. São Paulo, Companhia das Letras, 2005.
PRÁTICA CLÍNICA
Freud e o Homem dos Ratos, de Patrick J. Mahony. São Paulo, Escuta, 1991.
RELAÇÃO COM O JUDAÍSMO
O Moisés de Freud: Judaísmo Terminável e Interminável, de Yosef Hayim Yerushalmi. Rio de Janeiro, Imago, 1992.
Psicanálise, Judaísmo: Ressonâncias, de Renato Mezan. Rio de Janeiro, Imago, 1995.
O MOVIMENTO PSICANALÍTICO E OS AUTORES PÓS-FREUDIANOS
História, Clínica e Perspectivas nos Cem Anos da Psicanálise. Abrão Slavutzky, César de Souza Brito e Edson Luiz André de Sousa (orgs.). Porto Alegre, Artes Médicas, 1996.
Transferências Cruzadas: Uma História da Psicanálise e Suas Instituições, de Daniel Kupermann. Rio de Janeiro, Revan, 1996.
A Psicanálise Cura? Uma Introdução à Teoria Psicanalítica, de Roberto Girola. São Paulo, Ideias e Letras, 2004.
PSICANÁLISE NO BRASIL
A Psicanálise no Brasil: As Origens do Pensamento Psicanalítico, de Elisabete Mokrejs. Rio de Janeiro, Vozes, 1992.
Figura e Fundo: Notas Sobre a Psicanálise no Brasil, 1977-1997, de Renato Mezan. In Interfaces da Psicanálise; São Paulo: Companhia das Letras, 2002.






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