28/08/2012 - 09:07h Relações de Lula e Campos por um fio

Por Raymundo Costa – Valor

Amigos inseparáveis, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, estão com as relações pessoais e políticas estremecidas. Na realidade, os dois chegaram à beira do rompimento, depois que Eduardo Campos se recompôs politicamente com o senador Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE), com o início da campanha eleitoral. Mas o que move PT e PSB, numa disputa quase fratricida, são as duas próximas eleições presidenciais.

Lula “adorava” Jarbas, segundo contam amigos do ex-presidente, mas os descaminhos da política levaram o senador pernambucano a se transformar num dos mais ácidos críticos do presidente, no segundo mandato. A memória de Lula ainda traz bem impressa a imagem de uma visita que Jarbas fez à sua casa, em São Bernardo do Campo.

Para mostrar a admiração que tinha por Jarbas, Lula costuma contar uma das “maiores humilhações” que teria sofrido até hoje. O agora ex-presidente recebeu em sua casa, em São Bernardo do Campos, o já consagrado senador e sentou-se num sofá surrado bem sobre o rasgão que não gostaria que Jarbas visse. Constrangido, não se levantava e passou a maior parte do tempo sentado, o que impedia Jarbas também, por educação, de levantar e ir embora.

Estremecimento Lula e Campos é uma prévia de 2014

À época, Jarbas era um dos mais importantes líderes do grupo do PMDB que fazia oposição ao regime militar. Quando assumiu o Palácio do Planalto, Lula tinha boas expectativas em relação ao senador. Ocorre que entre os dois havia Eduardo Campos, adversário de Jarbas, à época ministro da Ciência e Tecnologia, presidente nacional do PSB e deputado de boa cepa pernambucana: neto do lendário governador Miguel Arraes.

Em pouco tempo, Eduardo se tornou uma ameaça ao PT. Além de estirpe, o governador pernambucano se revelou um hábil articulador político e não tardou a botar novamente de pé o antigo Partido Socialista (PSB). Sob o olhar condescendente de Lula e a desconfiança do PT, aos poucos o governador foi avançando pelo Nordeste, região eleitoralmente forte e que recebeu grandes benefícios do governo Lula. Tanto que o PT ganhou as últimas eleições com facilidade na região.

Eduardo Campos decidiu fazer um gesto de boa vontade eleitoral em São Paulo: não foi fácil, mas ele conseguiu convencer os dirigentes do PSB local a apoiar o candidato do PT a prefeito, o ex-ministro da Educação Fernando Haddad. “Fizemos quase uma intervenção branca apenas para atender o Lula, que, todos nós sabemos, quer eleger o Haddad”, conta um dirigente do PSB. Os pessebistas ofereceram duas opções para a vice: a deputada Luiza Erundina e o educador César Calegari. O PT escolheu Erundina.

Outro conflito PT-PSB foi o do Recife. Os pessebistas concluíram que Lula errou do início ao fim na negociação para manter a aliança entre os dois partidos: O PT exigia liderar a aliança quando estava rachado em três facções. Lula também não se impôs ao PT e apontou um candidato como fez em São Paulo.

“Vamos lançar o nosso [candidato]. Se eu entrar nessa história não vamos ficar bem com nenhum dos lados [as facções do PT em disputa]. Como o PT é o partido no poder, o PSB considera legítimas suas aspirações por espaço, mas entende que o que a sigla quer mesmo é se tornar “exclusivista e esquece que a época do stalinismo passou”, avalia-se no PSB. A sigla, por exemplo, acha que teria boas chances nas eleições de Salvador. O PT não abriu mão de impor o nome de Nelson Pelegrino. Restaram à sigla de Eduardo cidades com menor potencial eleitoral no Norte do país. Essa é a queixa.

No fundo, o que contamina as relações entre PT e PSB é o pós-lulismo, o que virá depois do controle, esse sim quase hegemônico, do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. As relações pessoais entre Lula e Eduardo, embora abaladas, em breve serão restabelecidas, conforme acreditam os mais radicais de um e outro partido.

A relação política é outra coisa. Quando Lula se queixou da aliança de Eduardo com Jarbas, o pernambucano reagiu com o chamado tapa com luvas de pelica: ele não fora à casa do senador do PMDB para pedir apoio político. Jarbas é que o visitara.

Lula, evidentemente, não gostou de ser lembrado da visita que fez à casa de Paulo Maluf para celebrar a aliança do PP com o PT, em São Paulo. Assim como Eduardo Campos dificilmente vai dar crédito à explicação, dada no Planalto, segundo a qual aguardara por quatro horas para ser recebido pela presidente Dilma Rousseff.

De acordo com o Palácio do Planalto, o que ocorreu foi uma grande confusão: quando já se estava com o programa de concessões pronto para o lançamento, alguém lembrou que os governadores não haviam sido convidados para a cerimônia. Foi um corre-corre, noite adentro. Pelo menos uns 20 governadores conseguiram modificar a agenda e arrumar transporte para Brasília. Eduardo entre eles.

Posteriormente, alguém teria visto o governador de Pernambuco na antessala de um assessor e vazou a versão segundo a qual ele esperou para ser recebido. Verdadeira ou não, o fato é que Eduardo registrou a intriga: “Ela se esquece que depois dessa eleição tem outra”. Referia-se a Dilma, é claro.

Eduardo já disse que não quer ser candidato ao Senado ou a vice-presidente, quando deixar o governo. Ele efetivamente analisa a “tática Ciro”, ou seja, sair candidato já em 2014 a fim de se tornar conhecido para 2018. Mas também conversa com Aécio Neves – uma conversa aparentemente sem futuro, pois caberia a ele a vice, enquanto o tucano ficaria com a cabeça de chapa.

Sobre o futuro da relação do grupo, é ilustrativo um episódio ocorrido antes da viagem de Dilma ao México. A presidente perguntou a Gleisi Hoffmann qual seria o presente oficial da comitiva. Dilma não gostou da resposta e determinou: “Liga para a Fatinha [mulher do governador Jaques Wagner] ou para a Renata [mulher de Campos]. Evidentemente ela pensava em uma peça com a cara do Nordeste brasileiro.

Raymundo Costa é repórter especial de Política, em Brasília. Escreve às terças-feiras

E-mail: raymundo.costa@valor.com.br

02/08/2012 - 13:46h Constrangimentos no mensalão

2/08/2012

Paulo Moreira Leite – Revista Época

Sabemos que os esquemas financeiros da política brasileira são condenáveis por várias razões, a começar pela principal: permitem ao poder econômico alugar o poder político para que possa atender a seus interesses. Os empresários que contribuem com campanhas financeiras passam a ter deputados, senadores e até governos inteiros a seu serviço, o que é lamentável. O cidadão comum vota uma vez a cada quatro anos. Sua força é de 1 em 100 milhões. Já o voto de quem sustenta os políticos é de 100 milhões contra 1.

Por isso sou favorável a uma mudança nas regras de campanha, que proíba ou pelo menos controle essa interferência da economia sobre a política. Ela é, essencialmente, um instrumento da desigualdade. Contraria o princípio democrático de que 1 homem equivale a 1 voto.

Pela mesma razão, eu acho que todos os fatos relativos ao mensalão petista precisam ser esclarecidos e examinados com serenidade. Casos comprovados de desvios de recursos públicos devem ser punidos. Outras irregularidades também não devem passar em branco.

Não vale à pena, contudo, fingir que vivemos entre cidadãos de laboratório. Desde a vassoura da UDN janista os brasileiros têm uma longa experiência com campanhas moralizantes para entender um pouco mais sobre elas. Sem ir ao fundo dos problemas o único saldo é um pouco mais de pirotecnia.

No tempo em que Fernando Henrique Cardoso era sociólogo, ele ensinava que a opinião pública não existe. O que existe, explicava, é a “opinião publicada.” Esta é aquela que você lê.

O julgamento do mensalão começa em ambiente de opinião publicada. O pressuposto é que os réus são culpados e toda deliberação no sentido contrário só pode ser vista como falta de escrúpulo e cumplicidade com a corrupção.

Num país que já julgou até um presidente da República, é estranho falar que estamos diante do “maior julgamento da história.” É mais uma opinião publicada. Lembro dos protestos caras-pintadas pelo impeachment de Collor. Alguém se lembra daquela da turma do “Cansei”?

Também acho estranho quando leio que o mensalão foi “revelado” em junho de 2005. Naquela data, o deputado Roberto Jefferson deu a entrevista à Folha onde denunciou a existência do “mensalão” e disse que o governo pagava os deputados para ter votos no Congresso. Falou até que eles estavam fazendo corpo mole porque queriam ganhar mais.

Anos mais tarde, o próprio deputado diria – falando “a Justiça, onde faltar com a verdade pode ter mais complicações – que o mensalão foi uma “criação mental”. Não é puro acaso que um número respeitável de observadores considera que a existência do mensalão não está provada.

A realidade é que o julgamento do mensalão começa com um conjunto de fatos estranhos e constrangedores. Alguns:

1. Roberto Jefferson continua sendo apresentado com a principal testemunha do caso. Mas isso é o que se viu na opinião publicada. Na opinião não publicada, basta consultar seus depoimentos à Justiça, longe dos jornais e da TV, para se ouvir outra coisa. Negou que tivesse votado em projetos do governo por dinheiro. Jurou que o esquema de Delúbio Soares era financiamento da campanha eleitoral de 2004. Lembrou que o PTB, seu partido, tem origens no trabalhismo e defende os trabalhadores, mesmo com moderação. Está tudo lá, na opinião não publicada. Ele também diz que o mensalão não era federal. Era municipal. Sabe por que? Porque as eleições de 2004 eram municipais e o dinheiro de Delúbio e Marcos Valério destinava-se a essa campanha.

2. Embora a opinião publicada do procurador geral da República continue afirmando que José Dirceu é o “chefe da quadrilha” ainda é justo esperar por fatos além de interpretações. Deixando de lado a psicologia de botequim e as análises impressionistas sobre a personalidade de Dirceu é preciso encontrar a descrição desse comportamento nos autos. Vamos falar sério: nas centenas de páginas do inquérito da Polícia Federal – afinal, foi ela quem investigou o mensalão – não há menção a Dirceu como chefe de nada. Nenhuma testemunha o acusa de ter montado qualquer esquema clandestino para desviar qualquer coisa. Nada. Repito essa versão não publicada: nada. São milhares de páginas. Nada entre Dirceu e o esquema financeiro de Delúbio.

3. O inquérito da Polícia Federal ouviu 337 testemunhas. Deputados e não deputados. Todas repetiram o que Jefferson disse na segunda vez. Nenhuma falou em compra de votos para garantir votos para o governo. Ou seja: não há diferença entre testemunhas. Há concordância e unanimidade, contra a opinião publicada.

4. A opinião publicada também não se comoveu com uma diferença de tratamento entre petistas e tucanos que foram agrupados pelo mesmo Marcos Valério. Como Márcio Thomaz Bastos deve lembrar no julgamento, hoje, os tucanos tiveram direito a julgamento em separado. Aqueles com direito a serem julgados pelo STF e aqueles que irão para a Justiça comum. De ministros a secretárias, os acusados do mensalão petista ficarão todos no mesmo julgamento. A pouca atenção da opinião publicada ao mensalão mineiro dá a falsa impressão de que se tratava de um caso menor, com pouco significado. Na verdade, por conta da campanha tucana de 1998 as agências de Marcos Valério recebiam verbas do mesmo Banco do Brasil que mais tarde também abriria seus cofres para o PT. Também receberam aqueles empréstimos que muitos analistas consideram duvidosos, embora a Polícia Federal tenha concluído que eram para valer. De acordo com o Tribunal de Contas da União, entre 2000 e 2005, quando coletava para tucanos e petistas, o esquema de Marcos Valério recebeu R$ 106 milhões. Até por uma questão de antiguidade, pois entrou em atividade com quatro anos de antecedência, o mensalão tucano poderia ter preferência na hora de julgamento. Mas não. Não tem data para começar. Não vai afetar o resultado eleitoral.

É engraçada essa opinião publicada, concorda?

13/07/2012 - 08:40h Humberto Costa é líder isolado no Recife

VALOR

O senador Humberto Costa (PT-PE) continua líder isolado nas pesquisas de intenção de voto para a Prefeitura de Recife, segundo pesquisa do Instituto de Pesquisa Maurício de Nassau divulgada nesta quinta-feira pelo portal “LeiaJá”. Na sondagem estimulada, o petista tem apoio de 35,5% dos entrevistados, contra 20,7% do deputado federal Mendonça Filho (DEM).

Candidato do governador Eduardo Campos (PSB), o ex-secretário de Governo Geraldo Júlio (PSB) recebeu 6,8% das intenções de voto, em empate técnico com o deputado estadual Daniel Coelho (PSDB), que conta com o apoio de 5,6% dos eleitores.

Foi a primeira pesquisa do instituto com a inclusão do nome de Geraldo Júlio, que nunca disputou uma eleição e entrou na disputa depois do racha entre PT e PSB. A pesquisa também mostra que a indecisão dos eleitores ainda é grande: 8% dos entrevistados ainda não sabem em quem votar e outros 20,7% dizem que votarão branco ou nulo.

Na sondagem espontânea, Costa continua a liderar e é citado como candidato favorito por 23,3% dos entrevistados. Mendonça Filho é lembrado por 13%, seguido por Geraldo Julio (5,1%) e Daniel Coelho (3,5%). O ex-prefeito João Paulo (PT), que é vice de Humberto Costa, é citado como seu candidato favorito por 1,6%. Já o atual prefeito, João da Costa (PT), que foi impedido pela direção nacional do partido de tentar a reeleição, recebeu apoio de 3,3% dos entrevistados.

A pesquisa, que ouviu 1080 eleitores entre os dias 9 e 10 de julho e foi registrada no Tribunal Regional Eleitoral de Pernambuco (TRE-PE) sob o número 0041/201, não mede a intenção de voto em um possível segundo turno. A margem de erro é de 3,5 pontos percentuais. (RDC)

04/07/2012 - 09:36h Executiva do PT sela candidatura de Patrus em Belo Horizonte


Ex-ministro cobrou e recebeu o aval da presidente Dilma e de Lula; petistas descartam novo acordo com Lacerda, do PSB, alegando que partido não é ’subalterno’

04 de julho de 2012

Daiene Cardoso, da Agência Estado

Com o aval da presidente Dilma Rousseff e do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a Executiva Nacional do PT indicou ontem o ex-ministro Patrus Ananias para concorrer à Prefeitura de Belo Horizonte.

O nome de Patrus deverá ser referendado por uma comissão formada pelo atual vice-prefeito Roberto Carvalho e pelo deputado federal Miguel Correa Júnior, que chegou a ser indicado pelo PT para ser vice na chapa do prefeito Marcio Lacerda (PSB), candidato à reeleição.

Após a reunião, na sede do partido em São Paulo, o presidente nacional do PT, deputado estadual Rui Falcão, disse que o vice-presidente nacional do PSB, Roberto Amaral, chegou a pedir um tempo para reverter a decisão de Lacerda – que rompeu o acordo com o PT na capital mineira em favor do PSDB. “Não podemos ficar na expectativa do que eles vão fazer. O PT não é um partido subalterno”, reagiu Falcão.

Em seu entender, o acordo entre PT e PSB em Belo Horizonte foi “rasgado unilateralmente” por Lacerda e rompimento de acordo em política “é uma coisa gravíssima”. Falcão elogiou a disposição de Roberto Carvalho de buscar uma candidatura própria. “Ele sempre defendeu a candidatura própria, argumentando que o prefeito Marcio Lacerda poderia, a qualquer momento, nos surpreender. Temos de reconhecer hoje que o Roberto Carvalho, neste aspecto, tinha razão.”

Falcão disse que não vê nos rompimentos entre PT e PSB em outras capitais um sinal de que o governador Eduardo Campos tenha projetos independentes do PT. “Não vejo nele nenhuma intenção de precipitar a sucessão de 2014 agora. Até porque ele tem dito que estará com a companheira Dilma em 2014″, ponderou o presidente petista, ressaltando que o rompimento do PT em Belo Horizonte é com o Marcio Lacerda.

Vice. A partir desta quarta-feira, 4, o PT pretende conversar com os partidos da base do governo federal para definir o vice de Patrus. Embora o PMDB já tenha candidato e o PDT esteja com ele coligado, os petistas acreditam que podem atrair esses partidos para a nova chapa. “Assim como se criou um quadro novo a partir do rompimento do acordo com Lacerda, essa movimentação toda pode criar uma nova realidade em Belo Horizonte”, avisou Falcão.

Formalmente, o candidato do PT em Belo Horizonte é o atual vice-prefeito Roberto Carvalho, que fez anteontem o registro no TRE para garantir uma candidatura petista. Com o acerto de ontem, ele deve abrir mão da candidatura em favor de Patrus.

“Não tem mais volta, temos candidatura própria e estamos unidos para a disputa”, avisou Correa Júnior. “Com o rompimento, o PT de Belo Horizonte está deixando a administração de Lacerda.”

03/07/2012 - 08:29h Recife fica dividida na polarização entre ex-aliados

VALOR

Imprudência, ineficiência e ingerência. Eis a receita que transformou uma eleição tida como certa em uma odisseia com desfecho trágico anunciado. Confortavelmente instalado na Prefeitura do Recife desde janeiro de 2001, o PT de Pernambuco não tinha dúvidas, até bem pouco tempo atrás, de que o lugar estaria garantido por pelo menos mais quatro anos. A gestão tímida e mal avaliada, sobretudo pela classe média, era compensada pelo suporte do governador Eduardo Campos (PSB), cujo acúmulo de poder político parece não ter limite.

Lançado candidato à revelia do comando petista no Estado, o atual prefeito do Recife, João da Costa (PT), começou a gestão com o pé esquerdo. Uma briga com o fiador de sua candidatura – o antecessor e hoje deputado federal João Paulo Lima e Silva – resultou na suspensão do contrato de limpeza urbana, o que deixou Recife mergulhada no lixo por algumas semanas. A má impressão inicial ganhou força meses mais tarde, quando o período de chuvas piorou a situação das já esburacadas ruas e calçadas. O trânsito caótico também acabou debitado integralmente na conta do prefeito.

Mal avaliado e sem a proteção do antecessor, muito popular na cidade, Costa ficou vulnerável. O comando petista não via motivos para mantê-lo no cargo. Desde os primeiros anos da gestão, líderes do partido já falavam, reservadamente, da possibilidade de Costa ser retirado do jogo no fim do primeiro mandato. Com a ajuda do governador e da Frente Popular – amontoado de legendas que Campos lidera – seria relativamente simples colocar outro nome petista na prefeitura. A oposição, esvaziada, também não oferecia risco.

O plano, entretanto, foi mal executado. Sentindo-se ameaçado, o prefeito agiu intensamente nas bases do partido, ao recrutar milhares de militantes para uma eventual prévia. Sua vitória na eleição interna foi contestada pelos derrotados e o imbróglio se arrastou por meses até o diretório nacional do PT impor o nome do senador Humberto Costa como candidato do partido. Pressionado pela Frente Popular, Eduardo Campos viu na briga petista a chance de estender seus tentáculos para a capital, e acabou lançando candidato próprio.

Com isso, o PT chegou em frangalhos à convenção que na sexta-feira confirmou a candidatura de Humberto Costa para a corrida municipal. Para manter-se à frente da prefeitura, o partido terá a missão de defender o projeto em curso desde 2001 e, ao mesmo tempo, explicar os motivos pelos quais o prefeito saiu de cena. Toda essa argumentação terá que ser feita em pouco mais de cinco minutos de programa de televisão, já que a chapa petista conta apenas com o PP de Paulo Maluf e o inexpressivo PHS.

Campos carregou quase todos os partidos da Frente Popular. O suporte de 16 legendas vai proporcionar ao seu candidato, o ex-secretário estadual de Desenvolvimento Geraldo Júlio, quase 13 minutos no programa eleitoral.

No lançamento da candidatura, na semana passada, o governador poupou o PT de críticas mais ácidas, a fim de evitar que a crise aberta no Recife, em Fortaleza e, desde sábado, em Belo Horizonte – onde a aliança também foi rompida – ganhasse ainda mais destaque. No entanto, justificou a candidatura do PSB como uma reação aos “debates enfadonhos e desprovidos de conteúdo” travados no PT.

Desconhecido do eleitorado e estreante em eleições, Geraldo Júlio deverá usar o tempo na televisão para se apresentar como um técnico disposto a solucionar os problemas estruturais da cidade. As principais queixas dos recifenses estão concentradas no setor de mobilidade urbana, seja pelos crescentes congestionamentos, pela ineficiência do transporte público ou pela má conservação das ruas, avenidas e calçadas.

Ao repelir o PT, a Frente Popular incorporou quase que automaticamente o PMDB, que até pouco tempo era a principal força de oposição a Campos no Estado. Tido como um dos candidatos mais competitivos para a sucessão municipal, o deputado federal Raul Henry (PMDB) retirou seu nome e, na semana passada, já estava sentado ao lado do governador no lançamento da candidatura do PSB.

A adesão pemedebista colocou em situação ainda mais difícil uma oposição que, apesar da fragilidade, não conseguiu se unir em torno de um só candidato. Assim, sem apoio de nenhum partido, o DEM lançou o e ex-vice-governador Mendonça Filho, que apesar de aparecer bem colocado nas últimas pesquisas de intenção de voto, não deve ir longe. Já o PSDB terá apenas a companhia do nanico PTdoB para a candidatura do deputado estadual Daniel Coelho. O tucano ainda aguarda um posicionamento do PPS, que desistiu da candidatura do ex-deputado federal Raul Jungmann.

Geraldo Júlio ainda não estava incluído na pesquisa de intenção de votos mais recente feita pelo Instituto de Pesquisa Maurício de Nassau para o “Jornal do Commércio”. Análises feitas pelo instituto considerando a possibilidade – agora confirmada – de lançamento de um candidato pelo PSB preveem uma polarização com o PT.

A alta exposição de Humberto Costa – em função das disputas dentro do PT – e uma possível associação de sua candidatura ao governador Eduardo Campos parecem ter impulsionado a intenção de votos no senador. Outro fato que mostra a tendência de polarização da disputa é a crescente perda de espaço da oposição. A pesquisa mostra que, somados, os então candidatos – além de Mendonça Filho, constavam da pesquisa Daniel Coelho e Raul Henry, que deixou a disputa – somavam 28% das intenções de votos, oito pontos percentuais abaixo dos 36% alcançados por Costa.

02/07/2012 - 08:59h ‘Serra será a parte fácil’, afirma petista

Coordenador da campanha petista à prefeitura de São Paulo, vereador Antônio Donato, disse ao Valor que o enfrentamento com o adversário José Serra (PSDB) “será a parte fácil” da primeira disputa eleitoral da vida de Haddad e que o maior desafio é tornar o ex-ministro da Educação mais conhecido pela população paulistana

Por Luciano Máximo | VALOR

De São Paulo

Depois da formalização da candidatura de Fernando Haddad pelo PT no fim de semana, o coordenador da campanha petista à prefeitura de São Paulo, vereador Antônio Donato, disse ao Valor que o enfrentamento com o adversário José Serra (PSDB) “será a parte fácil” da primeira disputa eleitoral da vida de Haddad e que o maior desafio é tornar o ex-ministro da Educação mais conhecido pela população paulistana. Donato argumentou que o tucano tem índice de rejeição alto, de 35%, e atingiu “um teto” nas intenções de voto de 30%”.

“Na eleição presidencial de 2010, o Serra ganhou da presidenta Dilma Rousseff na capital paulista com mais de 40% de votos. Nos últimos seis meses, desde as primeiras pesquisas para a prefeitura, ele não consegue passar o teto de 30% dos votos. Enfrentar Serra vai ser a parte fácil da nossa campanha, ele tem alta rejeição, é um personagem totalmente desgastado”, afirmou Donato, durante a convenção que homologou a candidatura de Haddad, no sábado.

O vereador acrescentou que a imagem do tucano também é bastante associada à do prefeito Gilberto Kassab (PSD). “Oitenta por cento da população querem mudança na cidade, avaliam mal a gestão de Kassab. É aí que Serra tem mais a perder e é aí que vamos trabalhar, com o desafio de tornar o Haddad mais conhecido. Pesquisas mostram que ele é desconhecido por 49% dos paulistanos e do total de pessoas que o conhecem, apenas 9% o conhece muito bem.”

O maior perigo poderia ser então Celso Russomanno (PRB), que tem subido nas pesquisas e ocupa o segundo lugar com 24% das intenções de voto. Mas Donato também minimizou as chances do apresentador de TV, mesmo depois de o PRB ter fechado aliança com o PTB na reta final. A legenda era disputada por tucanos e petistas e a adesão vai elevar o tempo de propaganda da coligação de Russomanno a mais de dois minutos. O vice da chapa será o petebista Luiz Flávio D’Urso, que desistiu de candidatura própria.

O coordenador petista acredita que a campanha de Russomano deva se desidratar. “A explicação é que ele deixará de ter a mesma exposição que vinha tendo nos programas populares na televisão aberta”, disse Donato.

A coligação de Russomanno conta com seis siglas (PRB-PTdoB-PTN-PHS-PRP-PTB), mas a maioria delas tem pouco peso eleitoral. A aliança de José Serra (PSDB-PSD-DEM-PR-PV) terá o maior tempo de TV, 7min42s, graças à vitória no PSD, na quinta-feira, no Supremo Tribunal Eleitoral. A sigla criada pelo prefeito Gilberto Kassab terá direito ao tempo no rádio e TV proporcional ao tamanho da bancada de 52 deputados federais que a fundaram. O critério vigente é a bancada eleita na última eleição (2010) quando o PSD não existia, mas sete dos 11 ministros foram favoráveis à causa. Com o segundo maior tempo de TV da coligação, Kassab se cacifou para indicar um nome de sua confiança para vice, o ex-secretário municipal de Educação Alexandre Schneider (PSD). O tempo de Haddad (PT-PCdoB-PSB-PP) será um pouco menor e está estimado em 7min30s.

28/06/2012 - 08:40h Pesquisa do PT revela que mensalão afetou 30% dos seus eleitores

Por Raymundo Costa | VALOR

De Brasília

Pesquisa encomendada pelo PT revelou que 70% de seus eleitores se mantiveram fiéis ao partido, apesar do mensalão. A maior preocupação da sigla, agora, são os efeitos que um mês de julgamento dos acusados terá nas eleições. O julgamento deve se tornar um grande show midiático, o que pode alterar a percepção sobre o partido, dificilmente para melhor.

A expectativa no PT é que desde antes de o julgamento começar, no dia 2 de agosto, uma quinta-feira, o tema “mensalão” será predominante no noticiário dos jornais, rádios, televisão e nas redes sociais. A partir do dia 2, então, as emissoras de televisão terão links no STF, para transmissões ao vivo, o assunto estará na internet e na mídia em geral, todos os dias. Isso certamente terá efeitos sobre a imagem do partido, em plena campanha.

Segundo a pesquisa do PT, a “cara do mensalão” é o empresário Marcos Valério, com 34% das respostas.

A percepção geral, antes da pesquisa, era de que esse personagem fosse o ex-ministro José Dirceu, apontado como o” chefe da quadrilha” dos 40 réus denunciados pelo então procurador-geral Antônio Fernando e nas alegações finais do atual chefe do Ministério Público Federal, Roberto Gurgel.

Dirceu não é o primeiro, mas vem logo a seguir na relação, com 16%. O índice é surpreendente até porque José Dirceu é, entre todos os acusados, aquele que mais se expõe publicamente na discussão do mensalão. Tanto que alguns colegas do banco dos réus chegaram a criticá-lo, em dado momento, porque consideraram que sua defesa algumas vezes era feita as custas dos outros “companheiros”.

Isso ocorreria, por exemplo, quando Dirceu dizia que nem sequer exercia cargo partidário à época em que o suposto mensalão teria ocorrido, estava no governo, argumento que passava a impressão segundo a qual os que estavam no partido seriam culpados. Dirceu também parou de falar que queria a realização rápida do julgamento, como se os demais não quisessem.

O antigo tesoureiro do PT, Delúbio Soares, à época (2005) o principal “vilão” do mensalão, e os demais réus aparecem com 2% ou menos na pesquisa.

Mesmo com o mensalão, o PT é citado na pesquisa analisada pela cúpula da sigla como o partido “mais honesto” do país. Ou seja, sete anos depois, o PT se apresenta ao eleitorado sem grandes prejuízos provocados pelo escândalo do mensalão, o maior ocorrido nos dois mandatos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Mas o que já estava “precificado”, na avaliação da cúpula partidária, deverá ser utilizado à exaustão na campanha eleitoral pelos adversários do PT.

Os petistas avaliam o que pode ser feito diante desta situação. Atualmente, por exemplo, nada impede que as imagens do julgamento sejam utilizados na propaganda eleitoral gratuita no rádio e na televisão.

O PT tenta elaborar uma política de redução de danos para conter prejuízos maiores na eleição de outubro, na qual o partido já não se encontra bem posicionado para a disputa nas principais capitais – atualmente, seu único candidato bem posicionado nas pesquisas, num grande colégio eleitoral, é Nelson Pellegrino, em Salvador. São Paulo ainda é uma incógnita, mesmo com o crescimento de cinco pontos de Fernando Haddad, em São Paulo, segundo pesquisa Datafolha.

A cobertura extensiva do julgamento, segundo avaliações petistas, será negativa para o partido, mesmo que alguns dos réus sejam absolvidos. A melhor hipótese seria a absolvição do ex-ministro José Dirceu, do ex-presidente da sigla José Genoino, do ex-presidente da Câmara João Paulo Cunha, os nomes com a marca do partido, e de Delúbio Soares, cujo nome não é lembrado agora pelo eleitorado, mas que o julgamento colocará de novo em “foco”.

A pesquisa tem alguns resultados heterodoxos, que deixaram “pasmos” os petistas, com o fato de uma parcela do eleitorado – pouco mais de dois dígitos – dizer que vota no PT por causa do mensalão.

21/06/2012 - 08:56h PT sonda aliados e PC do B ganha força para vice

Sem Erundina, correligionários de Haddad buscam nomes em siglas como PTB; Lula quer encontrar Rabelo e fechar aliança com parceiro tradicional

21 de junho de 2012

O Estado de S.Paulo

Em busca de um vice para a chapa de Fernando Haddad, pré-candidato a prefeito de São Paulo, o PT buscou opções em siglas como PSB e PTB, mas tende a deixar a indicação com o PC do B.

“Decidimos dar prioridade à construção da aliança. Após essa consolidação discutiremos a questão da vice”, informou o coordenador da campanha, vereador Antônio Donato (PT), que reconheceu: “Temos uma conversa mais avançada com o PC do B”. Na terça-feira, a deputada Luiza Erundina (PSB-SP) desistiu de ocupar a vaga em protesto às deferências do PT ao PP, de Paulo Maluf. No mesmo dia, o advogado Pedro Dallari (PSB) foi procurado por colegas de partido, mas também não aceitou.

Na própria terça-feira, deputados estaduais do PT se encontraram com o colega de Assembleia Campos Machado (PTB) e o sondaram sobre a indicação do advogado Luiz Flávio D’Urso (PTB), pré-candidato do partido, para a vice. Campos pediu dois dias para responder e deve dizer não.

“Eu continuo com minha candidatura posta, mas, se o partido vier a tomar decisão diferente, mudaremos o rumo”, afirmou D’Urso. Campos se encontrara com petistas no sábado, quando disse que precisava ter candidatura para fortalecer seu partido. O PSDB também corteja o PTB .

O ex-presidente Lula pretende conversar hoje, durante a Rio+20, com o presidente do PC do B, Renato Rabelo. O petista poderá até oferecer a vice ao tradicional aliado, que tem três candidatos à vaga: a deputada Leci Brandão, o vereador Jamil Murad e a presidente da sigla em São Paulo, Nádia Campeão.

Entre os três, o PT manifesta preferência por Nádia. O partido avalia que o eleitor teria dificuldade para aceitar Leci, que nunca ocupou cargo no Executivo, como vice de um candidato novato. Nádia foi secretária na gestão Marta Suplicy (2001-2004).

Ontem, o ex-ministro do Esporte Orlando Silva, Nádia e dirigentes do PC do B acertaram, em um café da manhã com Haddad, que a aliança deve sair antes da decisão sobre a vice. Depois, reuniram-se entre si, e saíram reafirmando, em público, a candidatura de Netinho de Paula.

Apesar de tudo, vereadores do PSB ainda tentavam indicar o vice de Haddad. Faziam circular os nomes da deputada Keiko Ota e do ex-jogador Marcelinho Carioca. O PT rechaça ambos. / FERNANDO GALLO, JOÃO DOMINGOS, JULIA DUAILIBI e BRUNO BOGHOSSIAN

06/06/2012 - 07:35h Sobre caciques e partidos

O papel das grandes lideranças nacionais de PT e PSDB na eleição paulistana revelam estilos opostos: só um é caciquista

Por Cláudio Gonçalves Couto – VALOR

A birra de Marta Suplicy, ausentando-se do ato de lançamento da candidatura de Fernando Haddad à Prefeitura de São Paulo, enseja uma boa oportunidade para discutir o papel das lideranças individuais nos partidos políticos. Ela serve para mostrar que o caciquismo é um fenômeno mais complexo do que sugerem análises apressadas sobre a influência de certas lideranças na definição dos rumos das organizações partidárias. Quanto a isto, um aspecto ganha relevo: enquanto alguns líderes criam sucessores, atuando na produção ou reforço de novas lideranças (crucial para a sobrevivência organizacional), outros embotam essa criação, contribuindo para a esclerose organizacional.

O problema é distinguir entre caciquismo – um tipo de liderança que subjuga a organização à vontade pessoal inquestionável do líder – e influência. Uma liderança influente no partido logra convencer os correligionários, sem contudo impor-lhes decisões inquestionáveis. Assim, se a persuasão é requisito para a obtenção de anuência, não há caciquismo. Trata-se de diferença de grau, que ultrapassados certos limiares se converte em distinção de natureza.

Há situações nas quais se migra, ao longo do tempo, de um estado para outro. Assim, caciques podem converter-se apenas em lideranças influentes, seja por que se debilitam ou ajustam a conduta, seja porque um reforço organizacional do partido lhes reduz o espaço para o arbítrio. Inversamente, líderes influentes podem, em certas conjunturas, tornar-se caciques; algo mais provável em organizações partidárias frouxas ou enfraquecidas – o que não é a mesma coisa.

Caciques são os que se colocam acima do partido

Para existir, o cacique necessita do apoio de um subconjunto organizacional dentro do partido: sua entourage, uma facção majoritária ou posições-chave na burocracia. Assim, enquanto o partido como um todo é fraco organizacionalmente, esse subgrupo é relativamente forte, impondo a vontade de seu líder. Contudo, há uma condição principal, decisiva distinguir o caciquismo da influência: o cacique subordina os interesses da organização aos seus próprios; é o projeto pessoal do cacique que sempre prevalece sobre o do partido – e mesmo sobre o de sua claque.

Há quem veja no patrocínio de Lula à candidatura de Fernando Haddad evidência de caciquismo, demonstrando que o PT nada mais seria do que um partido sem vontade própria, a reboque do grande líder. Será mesmo? Isto não se coaduna com características notórias do partido: organização forte, disputa intensa entre facções, espaço para contestação seguido de alinhamento a decisões tomadas pelo conjunto. Na realidade, Lula é muitíssimo influente, mas não um cacique no sentido próprio do termo. E isto não só por méritos próprios dele, mas pelas características do partido que construiu – que restringe o caciquismo.

No caso paulistano, antes mesmo de Marta desistir da candidatura, já enfrentava – além de Fernando Haddad – a oposição interna de antigos aliados, agora pré-candidatos, os deputados Jilmar Tatto e Carlos Zarattini. Candidata duas vezes derrotada à prefeitura, a senadora já não desfrutava da condição de escolha óbvia da agremiação – como foi em 2008. A imposição de seu nome – a despeito de outras postulações, de um clamor interno por renovação e da grande rejeição aferida pelas pesquisas ¬- é que seria caciquismo. Em tal contexto, o apoio de Lula à renovação operou mais como contrapeso à tentativa de caciquismo em nível local do que se mostrou ele próprio uma imposição inconteste.

Compare-se com a autoimposição de José Serra no PSDB, contra Aécio Neves. Verificou-se no ninho tucano uma estratégia de sufocamento da disputa interna pela interminável postergação do embate, até que o ex-governador mineiro jogou a toalha, considerando que não teria tempo hábil para se viabilizar. A solução pelo alto, dessa ardilosa vitória pelo cansaço, repetiu-se agora na escolha da candidatura tucana à prefeitura paulistana. Após meses alegando que não se candidataria, o que ensejou uma animada disputa entre quatro pré-candidatos (sugerindo renovação partidária) o ex-governador mudou de ideia, inscreveu-se na prévia após o prazo regulamentar, provocou a desistência de dois postulantes e prevaleceu. Serra obteve na prévia apenas pouco mais de 50% dos votos, num embate contra postulantes muito menos expressivos – tanto no que concerne à envergadura política quanto à história. Isto mostra o tamanho do desagrado que sua soberba causou na base tucana.

Fosse o PSDB dotado de maior densidade organizacional, os dois episódios da imposição serrista deflagrariam uma crise interna – como a que deve se produzir no PT de Recife neste ano. O caráter elitizado da agremiação e a baixa intensidade da vida partidária (sobretudo se comparada à do PT) permitem que as manobras dos caciques e seus embates permaneçam basicamente como um problema deles mesmos. A renovação, neste caso, ocorre apenas nas franjas da disputa política (como nas eleições de deputado estadual e vereador), pelo ocaso das lideranças ou por algum acidente; raramente por uma estratégia bem definida. Em São Paulo, a oportunidade da renovação foi perdida; o risco da esclerose cresceu.

É nisto que as atuações de Lula e Serra se distinguem como influência, no primeiro caso, e caciquismo, no segundo. Enquanto o ex-presidente interveio no processo de modo a promover uma renovação de lideranças e atuando segundo a lógica da organização partidária, o ex-governador apenas fez prevalecer seu projeto pessoal de poder, às expensas do partido, que tornou seu refém. Isto permanece, a despeito de quem venha ganhar ou perder as eleições de outubro.

Algo que confunde a percepção de papéis tão distintos são os estilos muito diversos de um e de outro. Enquanto Lula é um líder carismático e de estilo esfuziante, Serra é um líder gerencial e de estilo soturno. Intuitivamente, o senso comum identifica o primeiro com o improviso e o personalismo, e o segundo com a racionalidade e a institucionalidade. Uma análise mais cuidadosa revela exatamente o oposto.

Cláudio Gonçalves Couto é cientista político, professor da FGV-SP e colunista convidado do “Valor”. Rosângela Bittar volta a escrever na segunda quinzena de junho

E-mail: claudio.couto@fgv.br

04/06/2012 - 15:31h De olho na privatização, socialistas franceses flertaram com Collor e tucanos

Mastrangelo Reino/Folhapress - 30/3/2009 / Mastrangelo Reino/Folhapress - 30/3/2009

Favre: “Mitterrand achava a esquerda daqui uma série de grupos sem futuro”


Valor Econômico – 04/06/2012

Se hoje os laços entre o PT e os socialistas franceses são estreitos, no início o relacionamento foi marcado pelo flerte com concorrentes de lado a lado do Atlântico.

De sua fundação, em 1980, até a queda do Muro de Berlim, em 1989, o PT ainda abrigava correntes que defendiam uma relação privilegiada com os partidos comunistas em detrimento das legendas social-democratas, como o PS.

“Durante a queda do Muro havia petistas que estavam fazendo cursos de formação política em Berlim Oriental e saíram de lá meio às pressas”, conta Luis Favre. “Havia muita confusão sobre o que era o socialismo. O PT se dividia. Lula não. Se identificou logo com Lech Walesa, na Polônia. Depois de 1989, a situação decantou”, lembra Favre, em referência ao líder sindicalista do Solidariedade, que pressionava por abertura no regime comunista e tornou-se presidente da Polônia (1990-1995).

O Partido Socialista francês, por sua vez, também se dividia em facções na procura de parceiros políticos em um Brasil que vivia a redemocratização. Integrantes ligados a Michel Rocard, primeiro-ministro entre 1988 e 1991, defendiam uma aproximação com o então candidato e depois presidente Fernando Collor, de olho na política de privatizações. Parte do mesmo grupo apoiaria mais tarde aliança com o PSDB, o que nunca se concretizou.

As maiores atenções dos socialistas franceses, porém, se voltavam para o PT e seu maior concorrente na esquerda à época, o PDT, então liderado pelo ex-governador do Rio de Janeiro, Leonel Brizola. O PDT era o representante oficial do Brasil, como até hoje, na Internacional Socialista (IS), associação mundial que reúne partidos social-democratas. Brizola era um dos vice-presidentes da IS.

Mas na eleição presidencial de 1989, quando Lula, e não Brizola, vai ao segundo turno e o PT surge como principal partido da esquerda brasileira, estabelece-se uma nova correlação de forças. Na Internacional Socialista, lembra Luis Favre, Brizola tinha muito apoio dos alemães e parte dos portugueses, por ter se exilado em Lisboa. Mas os franceses do PS defendiam uma aproximação com o PT, o Partido Socialista Chileno e outras forças emergentes na América Latina, que não eram de origem social-democrata, como os movimentos de guerrilha da Frente Sandinista, na Nicarágua, da Frente Farabundo Martí (FMLN), em El Salvador, e o M-19, da Colômbia.

Favre conta que o PT nunca fez questão de ocupar o lugar do PDT, porque a IS é um “clube de amigos, uma central de relacionamentos internacionais”, pouco importando a condição de seção oficial ou de observador. Ele reconhece, porém, que a conquista de um novo status na associação estava em jogo. “Mas na verdade, era o contrário, os socialistas franceses é que começaram a trabalhar e defender a ideia de levar o PT à IS. Se não para substituir o PDT como representante principal, para encontrar um modus vivendi”, afirma.

O interesse do Partido Socialista contrastava com a posição do próprio presidente francês François Mitterrand, que dava “muito pouca bola” para o PT, diz o consultor. Mitterrand estava mais focado na construção da moeda única europeia e numa aliança com os Estados Unidos. “A América Latina não interessava. Ele considerava que a esquerda latino-americana era uma série de grupos sem futuro. Mas o Partido Socialista tinha uma atitude contrária”, diz o francês.

Marco Aurélio Garcia cita como marco o envio de representantes do PS ao 7º Encontro Nacional do PT, ocorrido entre 31 de maio e 3 junho de 1990. É neste ano que os petistas resolveram reforçar suas conexões internacionais meses depois de viagem de Lula à Europa, durante a campanha presidencial de 1989.

Em 1990, Favre é enviado como representante do PT na Europa com a missão de estabelecer laços com as legendas social-democratas da Suécia, Dinamarca, Alemanha, Espanha, Portugal, com o Partido Comunista Italiano, já em processo de transformação, e consolidar a relação com o PS. As viagens são feitas com Lula e Marco Aurélio Garcia.

Favre prefere minimizar sua participação na construção da ponte entre o PT e o PS. Diz que a relação é fruto de ligações institucionais e do trabalho de secretários de relações internacionais como Garcia, Luiz Eduardo Greenhalgh e do ex-petista Francisco Weffort, ministro da Cultura de Fernando Henrique Cardoso.

Por ser estrangeiro, Favre nunca foi filiado ao PT, e por isso, jamais exerceu cargo de direção no partido. Mas reconhece que a fluência no francês e os contatos adquiridos na longa militância política internacional lhe ajudaram a se destacar de maneira informal.

Sua primeira visita ao Brasil foi em 1973, quando viajava da França para coordenar grupos trotskistas latino-americanos ligados à Quarta Internacional, organização comunista fundada por Leon Trótski (1879-1940) depois de sua expulsão da União Soviética.

Das visitas aos trotskistas surgiram os primeiros contatos com futuros petistas como o ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci; a diretora do Instituto Lula, Clara Ant; o ministro das Comunicações, Paulo Bernardo; o coordenador da campanha de Fernando Haddad à Prefeitura de São Paulo, Antônio Donato; e o crítico de gastronomia Josimar Melo.

Na França, entre os companheiros de trotskismo estavam Jean-Luc Mélenchon – terceiro lugar na eleição presidencial deste ano, pelo Partido de Esquerda – e Lionel Jospin. “Eu e ele mandamos o trotskismo às favas mais ou menos no mesmo tempo, por volta de 1986″, conta Favre, citando o ano em que passou a morar no Brasil.

04/06/2012 - 09:40h PT e PS francês põem fim a desencontro no poder

Por Cristian Klein | VALOR

MAG

Ruy Baron/Valor – 13/01/2011Marco Aurélio Garcia: “A tendência é de os acordos continuarem. Temos parceria na área eletrônica, espacial e nuclear”

A chegada de François Hollande ao poder na França tem sido apontada como uma reação às medidas de austeridade de uma Europa em crise e levanta a possibilidade de decisões protecionistas na economia, o que pode afetar o Brasil. Menos lembrada, no entanto, é a coincidência política inédita: pela primeira vez, os dois países são comandados ao mesmo tempo por governos de esquerda, liderados por partidos que mantêm contatos e se influenciam diretamente há mais de 20 anos.

O Partido dos Trabalhadores (PT) e o Partido Socialista (PS) francês põem fim agora a um longo desencontro no poder central. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva venceu a eleição de 2002 cinco meses depois da saída de Lionel Jospin como primeiro-ministro, na coabitação com o então presidente Jacques Chirac, representante da direita francesa. Foi um descompasso entre os partidos nos governos. Mas não das relações entre ambos, que se aprofundaram e teriam se transformado.

Se antes, os socialistas franceses eram um exemplo de esquerda bem-sucedida no poder – governaram entre 1981 e 1995 com o presidente François Mitterrand – nos últimos dez anos, na avaliação de petistas, é o partido brasileiro que se tornou referência para o PS.

Assessor especial da presidente Dilma Rousseff e ex-secretário de relações internacionais do PT, Marco Aurélio Garcia afirma que “conhece muito” François Hollande, com quem já teve vários encontros, antes e enquanto o atual presidente francês liderou o PS entre 1997 e 2008. Garcia conta que petistas e socialistas têm relações muito sólidas. Enviam representantes para os congressos de cada organização e estão atentos à política defendida ou implementada pelo outro.

O assessor especial lembra que, em agosto de 2010, no fim do governo Lula, ao participar da chamada universidade de verão do Partido Socialista, encontrou “todo mundo” da agremiação, entre os quais Martine Aubry, atual primeira-secretária do PS, cargo equivalente ao de presidente do partido. O congresso reuniu mais de 4 mil militantes da legenda, na cidade de La Rochelle, no oeste da França.

“Evidentemente havia um interesse muito grande pela experiência brasileira, em particular, porque é a experiência de um partido de esquerda que está dando certo, num momento em que as experiências tradicionais na Europa não têm funcionado muito bem”, afirma Garcia.

Outro contato recente, cita o assessor da Presidência, foi durante seminário sobre a Primavera Árabe, em Paris, em novembro, quando aproveitou para conversar com Pierre Moscovici, então chefe da campanha de Hollande. Moscovici agora é o ministro da Fazenda francês.

A conexão PT-PS inclui ainda vários momentos marcantes. Antigo admirador do Brasil e do PT, François Hollande esteve no Fórum Social Mundial de Porto Alegre, em 2002 e 2003, quando liderava o PS, e se encontrou em seguida com o então recém-empossado presidente Lula.

No ano anterior, Hollande havia sido o responsável pela aproximação entre Lula e Jospin, que concorria à Presidência e contou com o apoio do brasileiro no comício de encerramento de sua campanha. Em 2007, Ségolène Royal, então mulher de Hollande e candidata presidencial do PS, citava o Brasil e os programas de inclusão social do PT em seus discursos.

A amizade entre os dois partidos, no entanto, não garante que as relações entre governos e Estados melhore automaticamente. Nunca antes na história dos dois países, Brasil e França estiveram tão próximos quanto nas administrações de Lula e de Nicolas Sarkozy, que foi derrotado por Hollande em sua tentativa de reeleição.

Líder da UMP, principal sigla da centro-direita francesa, Sarkozy selou importantes acordos com o Brasil na área de defesa, que puseram a relação em outro patamar. A parceria Lula-Sarkozy era tão grande que o ex-presidente brasileiro não escondeu sua preferência pelos caças franceses Rafale, na concorrência para renovar a Força Aérea Brasileira. Até hoje a disputa – da qual participam também os aviões sueco Gripen e os americanos F-18 – não foi definida.

Filiado ao PS e um dos principais contatos do PT na França, o pesquisador Jean-Jacques Kourliandsky, encarregado dos estudos sobre América Latina do Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas (Iris) de Paris, afirma que a proximidade entre os partidos não deve ser confundida com os interesses dos Estados. Mas não vê motivo para que a relação não avance com a dupla Dilma-Hollande. Para ele, todos os ex-presidentes “puseram sua pedra nesta obra comum” e Sarkozy apenas aprofundou o que foi feito por antecessores. François Mitterrand, cita, veio ao Rio de Janeiro, em 1992. Chirac recebeu o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, em 1996, e Sarkozy firmou um acordo estratégico em 2008. “É uma política de Estado e não de partido”, diz.

Kourliandsky nega que o Partido Socialista tenha uma tendência mais protecionista do que as forças da direita francesa.

“O PS, pelo que expressa em seu programa, e pelos atos quando teve responsabilidade de governo, não é um partido protecionista, apesar de que, como todos os partidos políticos franceses, defende os interesses da agricultura francesa, elemento fundamental de equilíbrio do balanço comercial externo da França. É um tema de debate tradicional entre França, Brasil e os países do Mercosul”, afirma o socialista.

Em 2003, Hollande, então presidente do PS, e Lula: longa relação com Brasil

Na mesma linha, Valter Pomar, ex-secretário de relações internacionais do PT entre 2005 e 2010, diz que a discussão em torno do protecionismo dos socialistas parte de uma premissa errada, já que “99% dos políticos franceses”, inclusive os de direita, são a favor de mecanismos de proteção à economia do país.

Em sua opinião, a diferença é que a vitória de Sarkozy representaria a continuação de uma política de direita, pró-capital financeiro, que “gera efeitos daninhos à França e ao mundo como um todo”. “Se tem recessão lá, isso nos afeta. Quanto ao protecionismo, a política pública dos franceses eles é que decidem. Mas preferimos sempre um partido de esquerda, que tenha compromissos com valores como a igualdade e a soberania nacional”, defende.

Para Pomar, o notório bom relacionamento entre Lula e Sarkozy “faz parte do folclore” assim como o mantido pelo ex-presidente com seu então congênere americano, George W. Bush. “Isso não impediu que o PT torcesse pelo Partido Democrata. Não tenho a menor ideia se Lula tinha simpatia por Sarkozy, mas o fato é que a esquerda, Lula inclusive, torceu por [Barack] Obama, assim como para os socialistas e Hollande, na França”, diz.

Marco Aurélio Garcia afirma que as perspectivas de um bom relacionamento “são excelentes” e cita os primeiros encontros que Dilma e Hollande terão no México, durante reunião do grupo das 20 maiores economias do mundo, o G-20, e logo em seguida, no Brasil, na conferência Rio+20, ambos neste mês.

“A tendência é de os acordos continuarem. Eles estão empenhados na questão do submarino nuclear. Temos também acordo na área eletrônica, espacial, nuclear, enfim, são vários projetos”, conta Garcia, para quem, na questão protecionista, “não é tanto a França que está envolvida, é muito mais a União Europeia de uma forma geral”.

Outro nome do PT bastante ligado ao PS, o argentino naturalizado francês Luis Favre é menos contundente ao analisar o impacto da eleição de Hollande para a relação com o Brasil. Ele diz que há “muitas incertezas” e que tudo depende de como será a evolução da situação da crise europeia e francesa. O ambiente para as negociações com a União Europeia é diferente do clima favorável encontrado antes, quando Sarkozy endossou várias posições internacionais defendidas por Lula, como a demanda por uma cadeira permanente para o Brasil no Conselho de Segurança da ONU, e “estranhamente”, aponta Favre, apoiou a taxa Tobin, imposto proposto pelo Prêmio Nobel de Economia de 1981 James Tobin para limitar a especulação financeira internacional.

“O protecionismo pode aumentar. O problema não é a vontade de Hollande, mas o contexto da crise europeia, como a saída da Grécia da zona do euro. Não é o governo, é a realidade que pode puxar neste sentido. Tendências politicamente xenófobas também vão nesta direção”, diz.

Luis Favre, ao lado de Marco Aurélio Garcia e do ex-presidente da Caixa Econômica Federal, Jorge Matoso – dois exilados que moraram na França, durante a ditadura militar – estão entre os principais construtores da relação PT-PS.

Mais conhecido por ter sido casado com a senadora Marta Suplicy (PT-SP), Favre desde janeiro de 2011 trabalha no Peru, onde chegou para atuar na campanha de Ollanta Humala e é contratado pelo Partido Nacionalista Peruano (PNP) para cuidar da imagem do presidente.

Favre conta que conhece François Hollande “faz tempo”. No entanto, seu maior contato no Partido Socialista é o ex-primeiro-ministro Lionel Jospin, camarada dos tempos de trotskismo, quando morou na França, antes de se mudar pela primeira vez para o Brasil.

A amizade entre os dois pavimentou a primeira experiência de forte parceria entre governos dirigidos por socialistas e petistas. Durante o mandato de Marta Suplicy na Prefeitura de São Paulo (2001-2004), Jospin fez várias visitas ao Brasil e estabeleceu convênios com a ex-prefeita. Os Centros Educacionais Unificados (CEU’s) contaram com aulas bilíngues em francês. O Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), projeto surgido na França em 1986 e difundido pelo Brasil, teve em São Paulo sua primeira ambulância doada pelo governo francês.

Em 2001, Marta discursou nos dois comícios de encerramento das campanhas que elegeram os socialistas Bertrand Delanoë e Gérard Collomb às prefeituras de Paris e de Lyon. Em 2004, a cooperação levou à criação da associação internacional de grandes prefeituras, a Cidades e Governos Locais Unidos (CGLU), que teve entre seus primeiros co-presidentes a petista e Delanoë.

03/06/2012 - 09:14h Para Lula, Serra é um candidato ‘desgastado’

Ex-presidente atacou tucano sem, porém, citar seu nome; pré-campanha do PSDB não quis comentar
03 de junho de 2012

O Estado de S.Paulo

Na tentativa de polarizar com José Serra, líder nas pesquisas para a Prefeitura de São Paulo, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez ontem críticas ao pré-candidato do PSDB, sem, porém, citar nominalmente o tucano. No discurso de apoio ao pré-candidato petista, Fernando Haddad, Lula afirmou que o ex-ministro da Educação concorreria com um candidato “desgastado”.

“Tem um que tá tão desgastado que nem sei por que ele quer ser candidato a prefeito”, cutucou Lula, que utilizou a tática que será largamente usada pelo PT na campanha, a de lembrar que Serra deixou a Prefeitura de São Paulo após um ano e quatro meses e mandato. “Ele utilizou a cidade como um trampolim.”

O ex-presidente afirmou ainda que o tucano deixou também o governo do Estado antes do fim do mandato e “tomou uma tunda da presidente Dilma” na eleição presidencial de 2010.

Haddad adotou discurso semelhante e usou a mesma metáfora de Lula. “São Paulo cansou de prefeitos de meio expediente e de prefeitos de meio mandato”, afirmou. “Jamais usarei a prefeitura como trampolim.”

O ex-presidente disse que confia que tão logo se torne conhecido, o ex-ministro da Educação salte para um patamar superior a 30% nas pesquisas de intenção de voto.

A assessoria de Serra informou ontem que ele não iria comentar as críticas. “O Lula quer chamar Serra para o debate. Ele não é candidato. Nós não vamos cair nesta armadilha”, declarou o coordenador da pré-campanha do tucano, Edson Aparecido. / FERNANDO GALLO e RICARDO CHAPOLA

29/05/2012 - 08:53h Governo federal municia PT em embate sobre transportes


VALOR

Em meio a troca de acusações entre PT e PSDB por conta do caos no metrô de São Paulo, o governo federal municiou ontem petistas com dados sobre os investimentos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) em mobilidade urbana em São Paulo. Petistas tentam rebater o vínculo feito por tucanos entre os problemas na área de transportes à suposta ausência de repasses federais.

Ontem, em seminário do PT sobre mobilidade urbana, o Ministério do Planejamento divulgou dados que mostram que São Paulo ficará com quase metade do investimento em transporte do PAC 1, do PAC mobilidade e dos recursos para obras nessa área voltadas para a Copa de 2014.

O secretário do PAC, Maurício Muniz Barretto de Carvalho rebateu o discurso do PSDB de que a União não ajudou São Paulo na área de Transportes. “Vamos deixar claro quais são os investimentos do governo federal”, afirmou o representante do governo federal, no início da apresentação. Muniz detalhou projetos em São Paulo que receberão recursos do PAC e afirmou que o governo federal destinou R$ 1,850 bilhão para a linha 2 do metrô, entre outros investimentos. Ao falar sobre a destinação de recursos para obras da Copa de 2014, o secretário do PAC disse que São Paulo vai receber quase tanto quanto o Rio de Janeiro: R$ 1,882 bilhão. O recurso será para a construção do monotrilho que vai ligar o aeroporto de Congonhas até a estação da CPTM do Morumbi. O Rio, comparou, terá R$ 1,884 bilhão.

Segundo Muniz, os governos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e da presidente Dilma Rousseff planejaram R$ 50 bilhões para obras de mobilidade urbana em Estados e municípios. Desse montante, São Paulo receberá R$ 21 bilhões.

“Não dá para falar que o governo federal não apoia, não contribui com Estados e municípios em mobilidade”, afirmou Muniz, ex-funcionário do metrô paulista. “Existe, sim, uma participação forte do governo federal apoiando transporte urbano, mobilidade urbana”, disse, no seminário, na Assembleia Legislativa.

Ao detalhar a origem dos R$ 21 bilhões, no entanto, o secretário mostrou que dos cerca de R$ 21 bilhões, R$ 1,3 bilhão será de recursos próprios da União. O Estado e municípios paulistas terão de dar uma contrapartida de R$ 11 bilhões. O restante virá de financiamento.

O esforço do governo federal em divulgar seus investimentos no Estado é uma resposta às declarações do governador Geraldo Alckmin (PSDB) de que “não tem um centavo do PT” no metrô e nos trens de São Paulo. A colisão de dois trens do metrô há duas semanas, que deixou pelo menos 49 pessoas feridas, e a greve dos metroviários na semana passada reacenderam o debate entre PT e PSDB sobre os problemas de mobilidade urbana no Estado. Na mesma linha de Alckmin, o ex-governador e pré-candidato do PSDB à Prefeitura de São Paulo, José Serra, reforçou as críticas ao PT, na tentativa de defender sua gestão no governo paulista.

O pré-candidato do PT à Prefeitura de São Paulo, Fernando Haddad, criticou Alckmin pelo demora na expansão do metrô. Segundo o petista, não há obras de escavação em curso no Estado. Haddad atacou também o prefeito da capital, Gilberto Kassab (PSD), por não ter construído corredores de ônibus durante sua gestão, que ajudariam a desafogar o metrô. “Cada gestão pode construir entre 250 e 300 quilômetros de corredores de ônibus. A gestão Serra/Kassab não fez nada por puro preconceito contra o transporte coletivo”.

Durante o seminário, deputados do PT destacaram estudo da bancada do partido na Assembleia Legislativa que mostra que os governos Lula/ Dilma emprestaram 226% a mais que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso para obras de expansão da CPTM e do metrô. De acordo com os dados do PT, o São Paulo contraiu R$ 4,6 bilhões em empréstimos durante a gestão FHC ante R$ 15,24 bilhões nas administrações petistas.

O governo de São Paulo, via assessoria, rebateu as informações divulgadas pelo governo federal e disse que o Estado não recebeu “nem um centavo” da União para investimento em mobilidade urbana. Segundo o governo paulista, a única obra na área de Transporte com recursos do governo federal é o Rodoanel, além da promessa de investimento na linha 18 do metrô, a ser construída.

16/04/2012 - 09:52h Lula pode definir aliança de PT com Fruet em Curitiba


Paulo Bernardo diz que ex-presidente se prepara para conversar com ex-opositor, candidato pelo PDT

16 de abril de 2012

EVANDRO FADEL / CURITIBA, / COLABOROU MARCELO PORTELA – O Estado de S.Paulo

O PT de Curitiba começou a decidir ontem se lança ou não candidato à Prefeitura. O partido se vê dividido entre a pré-candidatura de Gustavo Fruet, do PDT, e ter representante próprio na disputa. E, embora ainda fosse desconhecido até o início da noite de ontem quantos delegados cada uma das correntes terá (em votação marcada para os dias 27 e 28), o ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, disse que o ex-presidente Lula já se prepara para conversar com Fruet.

Quando foi deputado federal pelo PSDB, Fruet foi dos mais ferrenhos opositores ao governo petista – sobretudo na crise do “mensalão”. “Hoje é nosso aliado e é absolutamente compreensível a situação, porque o PSDB não o quis candidato”, justificou Bernardo. “Nossa questão com Fruet sempre foi política, também batíamos nele”.

Ainda de acordo com Bernardo, o PT tem como missão se fortalecer no Estado, preparando-se para as eleições majoritárias de 2014. “Em Curitiba, nossa avaliação é a de que a melhor forma de reforçar o PT é ter uma aliança que seja capaz de ganhar as eleições”, opinou.

A união das lideranças e dos militantes é a meta do PT de Curitiba após as eleições de ontem. Estavam habilitados para votar 2.701 filiados. A partir da divulgação dos votos, o partido terá 24 horas para indicar ao diretório nacional seus 300 delegados. Além de Bernardo, a ministra da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, sua mulher, também defende a parceria com Fruet. Ambos votaram no Colégio Estadual João Bettega, no Bairro Portão.

Caso a tese de candidatura própria vença, dois nomes estão em pauta: o do deputado federal Dr. Rosinha e o do deputado estadual Tadeu Veneri.

Para Rosinha, caso o partido queira se preparar para 2014, não pode “terceirizar” a candidatura em Curitiba.

“O PT, individualmente, tem o maior tempo eleitoral e os melhores cabos eleitorais, que são o ex-presidente Lula, a presidenta Dilma e a ministra Gleisi. Não tem mais aquele medo de que o PT seja ruim para administrar”, afirmou.

Rosinha garantiu que, desde a fundação do partido, sempre respeitou decisões da maioria e que agora não será diferente. Ou seja, caso o apoio a Fruet seja a vontade da maioria, ele deve acatar a decisão.

Decisão em Campinas. O economista e presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Márcio Pochmann, venceu as prévias do PT e será candidato à Prefeitura campineira. Indicado por Lula, ele superou o ex-vereador, ex-deputado estadual e ex-secretário Tiãozinho.

Racha em Minas. Parte do PT mineiro abandonará a campanha pela reeleição do prefeito de Belo Horizonte, Marcio Lacerda (PSB), que terá um petista como vice, mas contará com o PSDB na aliança.

Documento enviado pelo PSB ao PT confirmou que o PT indicará o vice de Lacerda, mas é evasivo sobre o pedido de coligação para a eleição proporcional e se omite sobre a coligação com os tucanos.

02/04/2012 - 18:29h Zona que balança – como a geografía pode definir a eleição paulistana

José Roberto de Toledo – estadao.com.br

Quem percorre os 20 quilômetros da avenida Sapobemba, cortando a zona leste da cidade de São Paulo, desde os limites da Mooca até os confins de São Rafael, assiste a uma paulatina mudança de paisagem urbana: marcas famosas vão sumindo das fachadas do comércio, construções perdem o acabamento, e os anos de uso dos carros em circulação se tornam proporcionais à quantidade de lombadas e buracos interpostos pelo caminho.

Enquanto rodam dígitos no hodômetro, terrenos baldios intercalam conjuntos habitacionais e casas cada vez mais modestas. O mato invade o espaço que seria das calçadas e até uma multicolorida lona surge na tangente de uma curva à esquerda: “Circo de Cuba”. A coincidência assume ares premonitórios.

Entre a esquina com a avenida Salim Farah Maluf e a encruzilhada com a estrada do Rio Claro, o conteúdo das urnas eletrônicas sofre um câmbio tão radical quanto a substituição do falar italianado -típico dos moradores de bairros adjacentes ao começo do trajeto- pelo sotaque nordestino, de quem vive no extremo oposto.

São dois territórios com preferências partidárias arraigadas e muito diferentes entre si. No 2º turno da eleição presidencial de 2010, José Serra (PSDB) teve 72% dos votos na 4ª Zona Eleitoral, a da Mooca. Mas a proporção mudava a cada quilômetro adiante, até Dilma Rousseff (PT) alcançar 65% da votação na zona eleitoral de São Mateus.

O voto do paulistano está relacionado ao bairro onde ele mora. O PT tem seus maiores redutos na região periférica da cidade, enquanto o PSDB é forte no centro expandido. Esse padrão se repete desde os anos 90 em todas as votações -para vereador ou presidente, passando por prefeito, deputado e governador.

O determinismo geográfico do voto reflete uma divisão de classe. A explosão demográfica de São Paulo centrifugou imigrantes e trabalhadores de baixa renda entre os anos 40 e 80 do século passado. Em regra, quanto mais longe a moradia, mais pobre o morador. Quanto mais periferia, menos calçamento, iluminação e hospitais.

O PT reforçou o geovoto durante os governos de Luiza Erundina (1989 a 1992) e Marta Suplicy (2001 a 2004). Canalizou investimentos, programas assistenciais e assistencialistas para as regiões mais pobres e distantes das zonas sul e leste da cidade. Cativou seu eleitorado em Paralheiros e Guianases, por exemplo, mas alienou eleitores dos bairros mais centrais que se sentiram preteridos com a mudança de prioridade.

O PSDB é menos organizado que o PT, como provou o baixo quórum das prévias tucanas na cidade. Mas se faltam militantes, seu eleitorado é tão fiel quanto o petista. Em 2008, PT e PSDB lideraram, juntos, os votos de legenda para vereador em São Paulo: 21% para cada partido. A divisão se repetiu em 2010 na eleição para deputado federal. A legenda do PT recebeu 22%, e a do PSDB ficou com 19% -bem à frente dos demais partidos.

A concentração do eleitorado tucano é proporcional à riqueza dos moradores. No centro expandido, varia de 82% no homogêneo Jardim Paulista a 68% no Butantã, uma zona eleitoral que mescla bairros ricos como Cidade Jardim e Morumbi com comunidades pobres, como Jardim Jaqueline e Morro da Fumaça.

Em décadas passadas, a outra parte do eleitorado antipetista foi janista e malufista. É o segmento que se concentra numa faixa contínua, desde o Jaçanã e a Vila Maria, ao norte, até a Vila Prudente, onde a zona leste faz esquina com a zona sul. Decepcionado e/ou desamparado por seus líderes, esse eleitor voltou-se para quem tem mais chances de derrotar os petistas. Votou em Serra em 2004 e em Gilberto Kassab (então no DEM) em 2008.

Nesses pedaços da cidade, só muda a intensidade da vitória, mas o vencedor é sempre o mesmo: petistas na extrema periferia e tucanos no centro expandido e no colar janio-malufista. Por isso, tornou-se estratégico o meio do caminho entre o petismo e o antipetismo. São as zonas eleitorais que oscilam de um partido a outro de eleição para eleição. É também uma zona de transição social, de emergência da nova classe média, que muda de hábitos de consumo e pode mudar também de partido.

Na zona leste, os termômetros que indicarão para qual lado a eleição vai virar são Ermelino Matarazzo, São Miguel Paulista, Vila Jacuí, Ponte Rasa, Vila Matilde, Itaquera, Conjunto José Bonifácio e Sapobemba. Na zona sul: Jardim São Luís, Socorro e Campo Limpo. Juntos, eles somam 1 milhão de votos válidos. O futuro prefeito de São Paulo deve sair de para onde essa zona balançar.

27/03/2012 - 08:39h Os desafios de Lula e Serra na eleição

Por Raymundo Costa – VALOR

Ex-governador, prefeito e duas vezes candidato a presidente da República, esperava-se de José Serra melhor desempenho na prévia dos tucanos, realizada no domingo para escolher o candidato do partido a prefeito de São Paulo – Serra teve 52,1% dos 6.229 votantes, contra 31,2% do secretário estadual de Energia, José Aníbal, e 16,7% do deputado federal Ricardo Trípoli. Quando disputou com Luiz Inácio Lula da Silva a prévia do PT para a eleição de 2002, o senador Eduardo Suplicy teve 15,6% dos votos. Era um opositor solitário contra o líder inconteste do partido.

Os 52,1% não têm a menor importância no quadro de uma disputa que só agora começa a ser delineada. Mas deve servir de advertência para José Serra, mesmo sabendo-se da precariedade desse tipo de consulta, sujeita, de última hora, a filiações dirigidas de militantes. Importante, para o tucano – e também para o candidato do PT -, é o apoio de quem realmente tem voto.

Para Serra, no momento, é o apoio das bancadas federal, estadual e municipal, além, é evidente, do governador Geraldo Alckmin. O mesmo serve para Fernando Haddad, o candidato escolhido pelo ex-presidente Lula num projeto de renovação do PT. Neste quesito, Serra leva a desvantagem de ter a cúpula nacional do PSDB, inclinada a apoiar a candidatura de Aécio Neves na próxima eleição presidencial. Haddad tem um grande handicap: o apoio de Lula e sua imensa popularidade, mas a desvantagem de um partido que teve de engolir sua indicação por Lula e que anda indócil com sua imobilidade nas pesquisas.

Divisão ameaça planos do PSDB e do PT em São Paulo

Os últimos movimentos partidários indicam que Haddad pode até mesmo ficar isolado, ele que precisa de tempo maior de televisão para se tornar mais conhecido. Mas isso se deve provavelmente a um erro de cálculo de Lula, que mostrou suas cartas antes do tempo, passando para os partidos aliados a mensagem de que a eleição de Haddad é importante para o PT, mas é muito mais ainda para ele, uma espécie de questão de honra. Subiu na hora o preço de todos os candidatos a aliado.

O PT se repete: quando Dilma patinava nas pesquisas, no início de 2010, poucos eram os dirigentes partidários a fazer uma sincera profissão de fé na escolha do comandante. Haddad, ao contrário de Dilma, é considerado um professor bom no debate, pessoa de estilo suave, simpática e com serviços prestados ao país, como ministro da Educação e Cultura de Lula e Dilma.

As recentes mudanças feitas pela presidente Dilma Rousseff no Congresso também serviram para aumentar o desconforto dos petistas da cidade de São Paulo. A indicação do novo líder do governo na Câmara, Arlindo Chinaglia (SP), é um exemplo. Os deputados sempre procuraram manter alguns critérios nas indicações para a partilha de cargos e funções. Nos últimos anos, o líder do governo sempre vinha da liderança da bancada. Isso aconteceu com Arlindo Chinaglia (SP), Henrique Fontana (RS) e Cândido Vaccarezza. Agora, o ex-líder da bancada Paulo Teixeira (SP) foi ignorado em favor de Chinaglia, embora fosse o nome preferido da coordenadora política do governo, Ideli Salvatti, para a desempenho da função.

A disputa em São Paulo contribuiu para o desequilíbrio na representação das correntes. Para desistir de disputar a prévia para a indicação do partido a prefeito de São Paulo, Jilmar Tatto ganhou a liderança da bancada: José Guimarães (CE), o candidato do campo majoritário, aceitou acordo para ser o próximo líder. A senadora Marta Suplicy (SP) rendeu-se à força de Lula, mas ficou na vice-presidência do Senado, rompendo um acordo pelo qual o senador José Pimentel ocuparia o cargo, findo o primeiro ano de exercício do PT. E ao deputado Carlos Zarattini, outro dos pré-candidatos, coube a função de relator do projeto dos royalties na Câmara, um posto de projeção. Teixeira foi sacrificado, mas não é o único da turma que cobra mais efetividade do candidato.

Do lado tucano, as dificuldades aparentes do candidato petista parecem ter uma leitura mais realista. O próprio José Serra, em conversa com interlocutores, tem afirmado que seria um grande um erro subestimar a candidatura do ex-ministro da Educação. Na percepção do tucano, o PT tem os 30% tradicionais que costuma alcançar na cidade de São Paulo e um candidato bem mais difícil de enfrentar do que foi Aloizio Mercadante nas eleições de 2006 para governador, quando o petista teve cerca de 35% dos votos. O tucano costuma ressaltar uma virtude em Fernando Haddad: a capacidade de aprender.

Resta saber quais as lições o próprio Serra tirou de suas últimas campanhas, especialmente a última delas, em que perdeu a Presidência da República para Dilma, numa disputa em que largou na frente como franco favorito.

Os problemas do tucano com a direção nacional do PSDB certamente são bem maiores que os de Haddad com o comando do PT. Nos bastidores do PSDB, o grupo hoje engajado na candidatura presidencial do senador Aécio Neves (MG) não demonstra muito entusiasmo com a eventual vitória de Serra na eleição de São Paulo.

O grupo opera, por exemplo, para evitar a coligação do DEM (que é ligado ao governador do Estado, Geraldo Alckmin). O Democratas, para apoiar Serra, exige reciprocidade em Sergipe, Salvador e Recife. Em Sergipe, o candidato João Alves (ameaçado de impugnação pela Justiça Eleitoral) tem o apoio de Serra, que o considera um dos candidatos a governador de maior fidelidade a sua candidatura presidencial em 2010. O tucano paulista também avalia que ACM Neto (DEM) é o candidato da oposição com maior possibilidade de vitória em Salvador.

Em Recife, quem parece pouco disposto a apoiar a candidatura de Mendonça Filho é o presidente do PSDB, Sérgio Guerra, por questões puramente regionais. Mas as contas estão indo parar na caixa postal de José Serra. O sucesso da prévia paulista deveria ser um alento para o PSDB e não mais um instrumento para a divisão do partido. A pancadaria na base aliada do governo, amplamente majoritária, mostra a falta que faz uma oposição de verdade.

Raymundo Costa é repórter especial de Política, em Brasília. Escreve às terças-feiras

E-mail raymundo.costa@valor.com.br

26/03/2012 - 09:52h PT aprova aliança para reeleger Lacerda em BH

Por Marcos de Moura e Souza | VALOR

De Belo Horizonte

O PT confirmou ontem que vai apoiar a reeleição do prefeito de Belo Horizonte, Marcio Lacerda (PSB), em outubro. No encontro de tática eleitoral do diretório municipal, delegados petistas aprovaram por 255 votos (contra 224) a tese da aliança. Lacerda reeditará, assim, a fórmula que o elegeu em 2008, quando contou com o apoio tanto do PT quanto do PSDB. Atualmente, ele é franco favorito a vencer a eleição.

A presença dos tucanos na aliança desagrada grande parte da base e dos delegados do diretório do partido em Belo Horizonte, mas o que a maioria decidiu é que isso não será um impedimento para a manutenção do apoio a Lacerda. “Em aliança não podemos impor”, disse o petista Patrus Ananias, ex-ministro do governo de Luiz Inácio Lula da Silva e ex-prefeito de Belo Horizonte. “Quem quer fazer aliança não pode fazer chantagem.”

O PSB integra a base da presidente Dilma Rousseff. Os dois partidos, lembrou Ananias, têm uma aliança nacional estratégica. Ao seguir apoiando Lacerda, o PT facilita as negociações dos dois partidos em outras cidades, disse o secretário-geral do PSB em Minas Gerais, Mário Assad Júnior. Em São Paulo, por exemplo, o candidato petista Fernando Haddad tenta atrair o PSB para sua campanha.

A direção do PT na capital mineira planeja discutir com o prefeito pontos que comporão o programa de governo e a indicação de outro petista para o cargo de candidato a vice-prefeito. Esses deverão ser os temas a serem definidos no próximo encontro do PT, marcado para 15 de abril.

O atual vice, o presidente municipal do PT Roberto Carvalho, se distanciou de Lacerda e se apresentava como possível candidato do partido à Prefeitura de Belo Horizonte. Carvalho vinha liderando a campanha no partido em prol do lançamento de uma candidatura própria. Mas ontem, sua ala acabou aprovando o apoio a Lacerda, contanto que o PSDB deixe a aliança. O prefeito, no entanto, quer os tucanos e os petistas ao seu lado.

A favor do apoio a Marcio Lacerda estavam lideranças petistas como o ministro do Desenvolvimento, Fernando Pimentel, o presidente da Câmara dos Deputados, Marco Maia, e dois ex-ministros do governo Lula, Luis Dose e Patrus Ananias.

A direção do partido em Minas também é a favor da chapa com Lacerda, apesar do mal estar em ter os tucanos na mesma composição. Numa indicação da ginástica que seu partido terá de fazer durante a campanha, ao lado do prefeito e de tucanos, o deputado federal Reginaldo Lopes, presidente do diretório estadual do PT, disse: “Seria imaturidade, ficar contra o PSB, contra o Marcio. Agora, a política certa seria ficar contra o Aécio [Neves], contra o [José] Serra, contra o Fernando Henrique [Cardoso], contra o PSDB, mas a favor de Belo Horizonte e do Marcio.”

22/03/2012 - 09:10h Pré-candidatura de Rands pode levar PT do Recife a prévia

Opção do PT por secretário que integra cúpula do governo Eduardo Campos pode destravar hesitação do PSB no apoio a Fernando Haddad

VALOR

Eleito com tranquilidade em 2010 para o terceiro mandato de deputado federal, o advogado pernambucano Mauricio Rands (PT) causou surpresa dois meses após as eleições, ao anunciar que deixaria Brasília para assumir em Pernambuco a secretaria estadual de Governo. Mais de um ano após a mudança, que não foi bem explicada, ele volta a surpreender, desta vez como pré-candidato petista à Prefeitura do Recife, que hoje é ocupada pelo colega de partido João da Costa, ainda em primeiro mandato.

A opção do PT por Rands, secretário da confiança do governador Eduardo Campos (PSB), pode ter desdobramentos nas alianças dos dois partidos em outras capitais. Na principal delas, São Paulo, a hesitação do PSB em apoiar Fernando Haddad (PT) pode ser destravada pelo desfecho do PT no Recife.

O nome de Rands surge nos últimos capítulos de uma novela que se arrasta desde os primeiros meses de 2009, quando o atual prefeito assumiu. De perfil técnico, João da Costa chegou ao Palácio Capibaribe pelas mãos do antecessor, o hoje deputado federal João Paulo Lima e Silva (PT), que peitou caciques petistas no Estado para emplacar o pupilo. Pouco tempo depois, no entanto, os dois romperam por motivos até hoje desconhecidos e se tornaram inimigos ferrenhos.

A briga gerou nova rachadura no PT pernambucano, que já era dividido entre os grupos de João Paulo (Articulação de Esquerda) e do ex-ministro da Saúde e hoje senador Humberto Costa, integrante da tendência Construindo um Novo Brasil (CNB), assim como Rands. O terceiro bloco foi formado pelos aliados do prefeito, que conviveu com índices elevados de rejeição durante quase todo o mandato e chega ao ano eleitoral enfraquecido politicamente.

Empossado na secretaria, Rands tomou a frente de projetos importantes, como captação de recursos externos e elaboração de parcerias público-privadas. Ele coordena, por exemplo, o projeto de um grande polo multimodal na Mata Norte de Pernambuco, que inclui novo porto, novo aeroporto e um anel viário. Apresentado no ano passado, o empreendimento poderá atrair bilhões em investimentos. Há, no entanto, quem duvide que saia do papel.

De qualquer forma, o secretário petista passou a habitué do núcleo duro do governo de Eduardo Campos (PSB), cujo poder político atinge patamares imperiais em Pernambuco. Campos é o chefe-maior da Frente Popular, grupo de 16 partidos que detém a supremacia política do Estado e do qual faz parte o PT.

A expectativa para as eleições deste ano era – até pouco tempo – de que a frente marcharia unida em torno da reeleição de João da Costa. Entretanto, a gestão mal avaliada e a falta de tino político geraram um movimento de oposição ao prefeito por parte de algumas legendas do grupo, casos de PTB, PDT, PP e alguns nanicos. Comandado pelo senador Armando Monteiro Neto (PTB), o grupo propõe uma candidatura alternativa dentro da Frente Popular.

Além disso, disputas mal resolvidas em alguns municípios geraram ruídos entre PSB e PT, ao ponto de o primeiro cogitar o lançamento do ministro da Integração Nacional, Fernando Bezerra Coelho, para a corrida municipal no Recife. A candidatura seria um golpe fatal na aliança entre os dois partidos, visto que o PT não cogita a hipótese de perder a cidade, que comanda desde 2001. Campos, por sua vez, sabe que pode precisar do PT em 2014.

Não bastasse a rejeição dos aliados, João da Costa também não conseguiu unir o PT. Diante de pesquisas que apontam uma chance real de derrota na eleição, setores do partido defendem já há alguns meses a saída do prefeito pela porta dos fundos e o lançamento de novo nome. O primeiro a ser ventilado foi o de Humberto Costa, mas a possibilidade acabou descartada, segundo fontes, pois o senador poderia representar um risco aos interesses de Eduardo Campos em 2014, caso decidisse se lançar ao governo estadual.

Com Rands é diferente. Além de gozar da confiança de Campos, que nos bastidores não esconde sua preferência pelo secretário, o petista tem condições de unir novamente a Frente Popular em torno de um só candidato. O desafio da CNB, agora, é apresentar oficialmente o nome de Rands, o que deve ocorrer no sábado, e evitar que a disputa interna culmine com as prévias. Isso porque o prefeito, que não está disposto a abrir mão da candidatura, tem maioria no diretório municipal.

Existe a expectativa de que uma solução menos traumática para o imbróglio possa sair da reunião entre Campos e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que estava prevista para esta semana, mas acabou remarcada para a próxima.

22/03/2012 - 08:40h Planalto aposta na renovação da maioria

Por Raymundo Costa | VALOR

De Brasília

O governo viveu ontem um dia de cão na Câmara, mas o Palácio do Planalto ainda considera cedo para avaliar o resultado da troca dos líderes do governo, na semana passada, na qual deu preferência a nomes de facções minoritárias em detrimento das correntes majoritárias dos partidos, especialmente PT e PMDB. Acredita-se, no núcleo central de governo, que está ocorrendo uma acomodação de terreno e só mais adiante será possível saber se a operação conduzida pela presidente Dilma Rousseff teve êxito ou foi um fracasso.

A nova orientação política do governo Dilma obedece a uma lógica cuidadosamente planejada e tem por objetivo formar uma nova maioria no Congresso, agregando setores de partidos aliados insatisfeitos com o governo àqueles que já compunham a coalizão governista de mais de uma dezena de partidos, a chamada base aliada. Dilma também quer inovar nos métodos e renovar lideranças. O exemplo que costuma ser dado é o do Senado, há vários anos com seus principais cargos controlados pela tríade formada pelos senadores José Sarney (AP), Renan Calheiros (AL) e Romero Jucá (RR), todos do PMDB. Na Câmara, ainda davam as cartas o chamado “grupo paulista” do PT, ligado ao ex-ministro José Dirceu e ao campo majoritário do PT.

Com a renovação, a presidente espera mudar práticas como o famoso toma lá, dá cá que costuma nortear muitas negociações no Congresso para a aprovação de projetos de interesse do governo. A própria Dilma talvez tenha sido quem melhor explicou o conceito por trás da ideia dessas mudanças, em discurso ontem no Rio de Janeiro quando falou sobre o “jeitinho” brasileiro. “Não tenho nenhuma dúvida que a maioria dos brasileiros cansou de conviver com práticas marcadas pela lassidão e com nossa fama do país do jeitinho”.

A presidente negou que estivesse criticando a flexibilidade do brasileiro. “Estou criticando o jeitinho”. Segundo Dilma, o brasileiro preza a ética e o respeito às regras. “Sei que o povo brasileiro sabe que sem regras, os primeiros que sofrem são os mais fracos”, afirmou. No que depender de seu governo, disse Dilma, o Brasil será país em que contratos, tratos, regras e acordos serão sempre cumpridos.

Bem antes de a presidente mudar seus líderes na Câmara e no Senado, a base aliada já dava demonstrações de insatisfação com a condução política do governo. A crítica é que o Palácio do Planalto quer sempre impor, em vez de negociar, e não atende a emendas de parlamentares ao Orçamento, recursos que são mais importantes ainda para deputados e senadores em ano eleitoral, como 2012, quando serão eleitos prefeitos dos municípios e vereadores, personagens que nas eleições de 2014, serão peças-chaves nas eleições de deputados estaduais, federais, senadores e governadores.

A reação do Congresso, nessas situações, é incomodar o governo votando contra projetos de seus interesses. O dia infernal para a presidente da República já começou nas reuniões das comissões temáticas, pela manhã. Até às 15 horas, um auxiliar da presidente contabilizava em seu computador pelo menos quatro disparos efetuados na direção do Palácio do Planalto. Desde a aprovação de uma PEC que atribui competência exclusiva ao Congresso para decidir a demarcação de terras indígenas e áreas de conservação ambiental, até a votação de um convite para o ministro Guido Mantega (Fazenda) ir ao Congresso explicar as medidas para minimizar os efeitos da crise internacional, passando por um bate-boca entre a deputada Jandira Feghali (PCdoB-RJ) e a ministra da Cultura, Ana de Hollanda.

Auxiliares de Dilma informam que a primeira parte de seus objetivos, com a mudança dos líderes Romero Jucá (Senado) e Cândido Vaccarezza (Câmara) foi alcançada: quebrou a divisão nos dois maiores partidos da base, especialmente do PMDB. A presidente não tem a ilusão de que ao indicar o senador Eduardo Braga (AM) para a função, vá conseguir todos os votos do “G-8″, a dissidência pemedebista, mas, dependendo da votação, alguns deles se agregarão ao grupo governista liderado por Renan. O raciocínio dos governistas é inverso: ela não ganhou os votos do “G-8″ e perdeu alguns entre os aliados de primeira hora.

O mesmo raciocínio serve para a troca de Vaccarezza por Arlindo Chinaglia: trocou-se um nome de um grupo desgastado, o chamado “grupo paulista” cuja referência é o ex-ministro José Dirceu, por nomes novos, muitos deles também paulistas, mas de outras tendências: Chinaglia, Paulo Teixeira, Jilmar Tatto, Marcos Maia, Walter Pinheiro e Ricardo Berzoini – este, ex-ministro do Trabalho e da Previdência do governo Lula, antes compunha o “grupo paulista”. (Colaborou Francisco Goes, do Rio)

08/03/2012 - 09:53h Haddad escolhe Serra e Kassab como alvos

Pré-candidato petista à Prefeitura alfinetou tucano por ‘assumir compromissos e não honrá-los’ e criticou gestão do atual prefeito
08 de março de 2012

O Estado de S.Paulo

Distante do PSD e determinado a polarizar o debate com os tucanos, o pré-candidato do PT à Prefeitura de São Paulo, Fernando Haddad, criticou ontem o ex-governador José Serra e o prefeito Gilberto Kassab.

Ao assinar carta-compromisso com o desenvolvimento sustentável de São Paulo, Haddad alfinetou o pré-candidato do PSDB ao relembrar, mais uma vez, a renúncia de Serra em 2006 da Prefeitura. “É preciso que as pessoas, quando assinam um documento, o leiam com certa regularidade para não esquecerem o compromisso que assumiram. Aí a cidade vai avançar”, disse. Serra havia registrado em cartório, na ocasião, o compromisso de não deixar a Prefeitura para disputar outro cargo.

Segundo o petista, há dois tipos de políticos tradicionais: os que cumprem e os que não cumprem os compromissos assumidos ou fogem deles. “Penso que precisamos inaugurar uma nova fase na cidade de São Paulo e no Brasil, que é assumir compromissos e honrá-los”, cutucou.

O documento assinado ontem pelo petista faz parte do programa Cidades Sustentáveis, da Rede Nossa São Paulo. Além de Haddad, assinaram a carta-compromisso os pré-candidatos Gabriel Chalita (PMDB), Soninha (PPS) e Netinho de Paula (PCdoB), que se comprometeram em fazer um diagnóstico da situação da cidade em 90 dias após a posse e estabelecer um plano de metas contemplando 12 eixos do programa, que abrange temas como mobilidade, educação e planejamento urbano

“Haddad fez questão de fazer da assinatura um evento público”, destacou Oded Grajew, coordenador-geral da entidade. “Pode ter certeza de que isso aqui não é só um papel assinado”, garantiu Haddad, que pretende usar a plataforma da Rede Nossa São Paulo em seu futuro plano de governo.

Metas. Livre para criticar a gestão de Kassab depois que o PSD embarcou na candidatura de Serra, Haddad disse também que o plano de metas estabelecido pela Prefeitura ficou “aquém do razoável”. Grajew lembrou que Kassab não cumpriu uma de suas promessas de governo: o atendimento de 174 mil crianças fora de creches. “O Kassab prometeu zerar o déficit em creches”, disse Grajew.

Haddad aproveitou a ocasião para comentar o impacto da restrição da circulação de caminhões na Marginal do Tietê, apesar de enfatizar que não é contra a medida. Segundo ele, houve “falta de planejamento” na implementação da medida, o que provocou o desabastecimento de postos de combustíveis. O petista criticou Kassab por abandonar o modelo de transporte intermodal adotado na gestão de Marta Suplicy na capital.

O episódio, na avaliação do pré-candidato, foi marcado pela “falta de planejamento” e de diálogo dos agentes municipais com os motoristas. “Quando se comete um erro estratégico, você acaba tendo de fazer remendos. Quando você erra no planejamento, você acaba tendo que, açodadamente, se precipitar e nem sempre se estabelece o diálogo necessário para se construir uma saída.” / DAIENE CARDOSO, DA AGÊNCIA ESTADO

06/03/2012 - 08:40h Para petistas, momento exige frieza para negociações

Por Vandson Lima | VALOR

De São Paulo

Com seu pré-candidato à Prefeitura de São Paulo com índices de intenção de voto que rodeiam a casa dos 3%, segundo pesquisa do Datafolha, a cúpula do PT paulista se diz ciente de que a candidatura do ex-ministro da Educação Fernando Haddad depende de alguns ingredientes não disponíveis neste momento para decolar. Por ora, a ordem é manter o sangue frio nas negociações com outras legendas, aguardar a recuperação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e trazer efetivamente a senadora Marta Suplicy (PT) para a pré-campanha, fazendo com que os votos que naturalmente iriam para ela se convertam no primeiro “estirão” do petista nas pesquisas.

Haddad fez ontem uma agenda de aproximadamente 10 horas na região de Parelheiros, no extremo sul da capital paulista. Tomou café com lideranças de bairro, visitou creches, postos de saúde e terminou o dia em reunião com a militância petista local. Ouviu muitas críticas à gestão do prefeito Gilberto Kassab (PSD), com quem o PT quase se aliou, e elogios ao governo Marta, iniciado em 2001. “Nosso plano de governo tem que ser uma síntese do que fizemos na prefeitura e do que estamos fazendo no governo federal”, avaliou Haddad. Ele disse que nesta semana deve ser definida a coordenação de campanha e seu programa de governo estará pronto até maio.

Haddad lamentou a cassação, imposta pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), do direito de seu partido veicular propaganda partidária no dia 25 deste mês e que poderia ser de grande ajuda para fazer sua pré-candidatura mais conhecida. “Fará falta, sobretudo em função do meu perfil. Talvez eu seja o único estreante em eleições municipais [entre os pré-candidatos]. Mas já está dado, não há como contornar”, disse.

Sobre uma eventual aliança com o PSB, sigla cada vez mais próxima de se coligar com o PSDB em São Paulo por conta da entrada de José Serra na disputa, Haddad relatou uma conversa telefônica que teve com o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, presidente nacional do PSB, no fim de semana. “Conversei com ele, porque teve tanta história de que eles estavam fechados com o PSDB, que o questionei. Ele é meu amigo, disse que não tem nada acertado com ninguém.”

Entre petistas, a avaliação é de que, dada a colocação de Haddad nas sondagens, este é um momento perigoso para a negociação política, sendo necessário ter paciência para fazer os acertos em momento mais oportuno e com Lula encabeçando as tratativas.

O ex-ministro aumentou o tom das críticas ao governo Kassab. “Você anda pela cidade e não vê uma grande obra sendo feita, uma duplicação de estrada, nada. São Paulo não tem hoje o que mostrar para a comunidade internacional em termos de gestão pública”, criticou.

Campos nega compromisso com PT em SP

Por Cristian Klein |VALOR

O governador de Pernambuco e presidente nacional do PSB, Eduardo Campos, negou que tenha firmado qualquer compromisso pessoal com a presidente Dilma Rousseff ou com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para que seu partido apoie a candidatura do PT em São Paulo.

“Meu compromisso é só com o PSB, de conduzir bem o PSB. Tenho uma relação com a presidenta Dilma, de grande estima, respeito, ajudei a sua eleição, sou da base de sustentação dela. Tenho ajudado ela, mas nunca trocamos posições eleitorais por circunstâncias políticas na base de apoio; nunca fizemos isso”, disse Campos, depois de proferir uma palestra sobre seu governo na Associação Comercial de São Paulo.

No evento, estavam presentes o prefeito Gilberto Kassab e o vice-governador Guilherme Afif Domingos, ambos do PSD, que já anunciaram apoio à eventual candidatura do ex-governador José Serra (PSDB).

O PSB é tradicional aliado do governo federal petista, do qual participa com dois ministérios, mas seu diretório estadual prefere apoiar os tucanos. O presidente regional da legenda, Márcio França, é o secretário de Turismo do governador Geraldo Alckmin.

No PT, a declaração de Eduardo Campos foi interpretada como uma forma de “esticar a corda” e se cacifar em outras negociações pelo país, especialmente em Belo Horizonte, onde o PT ainda não se decidiu por apoiar a reeleição de Márcio Lacerda (PSB), e em Recife, onde Campos estaria tentando emplacar o deputado federal licenciado e seu secretário de Governo, Maurício Rands, como o candidato petista à prefeitura.

“Ele sabe o que disse para o Lula…”, disse um dirigente do PT, afirmando que o governador também teria se comprometido com Dilma Rousseff, em jantar durante visita da presidente a Pernambuco, no mês passado.

Se esse foi o objetivo, Eduardo Campos o cumpriu à risca. Afirmou que a política de aliança em São Paulo, por ser uma cidade com mais de 200 mil habitantes, será debatida pelos diretórios municipal, estadual e, finalmente, nacional, num processo que pode durar até junho. “Por que decidir agora?”, perguntou. E negou que a cúpula nacional é que decidirá.

“Não é exatamente assim. Ninguém vai impor a ninguém uma decisão. Essa decisão tem que ser pactuada dentro do partido. O partido não é o desejo de Márcio [França] nem o meu desejo. Temos que ouvir o partido no município, a nossa bancada na Assembleia, no Congresso Nacional, nos outros municípios importantes onde vamos disputar eleições. É um processo de diálogo”, disse.

Questionado sobre a versão divulgada pelo PT, de que haveria um suposto compromisso com Lula de levar seu partido a apoiar a candidatura do ex-ministro da Educação, Fernando Haddad, Eduardo Campos reafirmou estar livre para a tomada de decisão. “Não posso cuidar de versão, minha gente. Nós não temos nenhuma decisão pré-estabelecida em relação a município nenhum no Brasil, muito menos em relação a São Paulo. Nunca tratamos desse assunto”, afirmou.

Eduardo Campos lembrou que já disputou o governo de Pernambuco, em 2006, contra um candidato do PT, o atual senador Humberto Costa; que o PSB já deixou de ter candidato próprio (Ciro Gomes) à Presidência, em 2010, a favor de um palanque único para Dilma Rousseff; que o PSB já abriu mão para que Aldo Rebelo (PCdoB) fosse candidato a vice na chapa de Marta Suplicy, na última eleição à Prefeitura de São Paulo; e que os próprios petistas têm alianças com tucanos em vários Estados.

“Você vai a Pernambuco e tem aliança do PT com o PSDB em vários municípios”, disse.

Campos afirmou que não teme uma retaliação do PT caso o PSB apoie Serra e tentou minimizar a importância do partido no Estado. “O PSB não tem força política ainda para definir o quadro. Somos força que tem importância, mas somos coadjuvantes”, argumentou.

O governador também citou sua aliança com o PSD do prefeito Gilberto Kassab. “Não polarizamos. Temos uma relação construída com o prefeito Kassab, que vocês conhecem qual é, de parceria, do partido a nível nacional”, ressaltou.

Eduardo Campos também lembrou a aliança com os tucanos em outros Estados, como Minas Gerais, Paraná e Paraíba.

“Nós somos um partido diferente do PT. Somos aliados do PT, mas temos aliança com o PSDB em outros Estados, o que é natural que tenhamos. Construímos o processo político de redemocratização ao lado do PSDB, não satanizamos o PSDB, de forma nenhuma, nem devemos fazer isso”, disse.

O presidente do PSB reconheceu que, caso os diretórios municipal e estadual decidirem pelo apoio aos tucanos em São Paulo, ficará difícil a direção nacional revogar a aliança.

“Óbvio que dificulta. Se quando todo mundo decide de um jeito já tem dificuldade de fazer aliança…”

Eduardo Campos chegou a São Paulo no domingo, quando jantou com Gilberto Kassab. O governador disse que o tema da conversa foi política, embora o prefeito tenha negado. Kassab negou ainda que tenha oferecido a Secretaria de Esportes para o PSB, de modo a atrair a legenda para a candidatura de José Serra. “Não houve oferta da secretaria, e de nenhuma outra”.

A palestra de Campos na Associação Comercial atraiu um grupo expressivo de integrantes do PSB paulista, a maioria com interesse direto na aliança com os tucanos. São os casos do deputado federal Jonas Donizete, pré-candidato em Campinas, e do prefeito Valdomiro Lopes, de São José do Rio Preto, que busca a reeleição. Nestas cidades, o PSDB já mostrou disposição de abrir mão de candidatura própria em troca de receber o apoio do PSB na capital. A presença de seis deputados estaduais e cinco federais foi qualificada como uma estratégia para convencer Campos.

O presidente do diretório municipal, vereador Eliseu Gabriel, afirmou que em reuniões, no domingo e ontem, ficou acertado que a decisão deve sair em até quatro semanas.

05/03/2012 - 09:20h A eleição como surpresa

Por Renato Janine Ribeiro – VALOR

Estas eleições prometem muito suspense. Para dizer a verdade, a campanha para as municipais de 2012 começou a soltar adrenalina, e muita, com um bom ano de antecedência. A rigor, ainda não sabemos quem vai ganhar – às vezes, nem quem vai disputar – as eleições na maior parte das capitais. Aliás, a ansiedade é uma constante em nossas eleições, excetuando talvez as duas vitórias de Fernando Henrique, em 1994 e 98. Hoje, a novela paulistana é exemplar desse ritmo de surpresas.

Primeiro ato: Lula intervém, afasta a aspirante mais popular do PT, Marta Suplicy, e emplaca Fernando Haddad. Foi uma ação surpreendente, mesmo que ela possa encontrar uma justificativa, que estaria em Haddad sofrer menor rejeição do que Marta e, portanto, ter talvez maiores chances de vencer. Segundo ato, o mais surpreendente até agora: o prefeito Kassab se distancia do aliado PSDB e negocia com o PT. Isso espantou, mas também há lógica nesse curioso minueto. Afinal, Kassab disputou as eleições municipais de 2008 com o atual governador do Estado, Geraldo Alckmin, e desde então eles se estranham. Mesmo assim, foi paradoxal ver uma aproximação do Partido dos Trabalhadores com um político de origem na direita, tanto assim que as bases do PT, já incomodadas com a intervenção de Lula na escolha do candidato, quase se rebelaram contra uma aliança tão “contra natura”. Terceiro ato: a entrada de José Serra na disputa, pondo fim às negociações do prefeito paulistano com o PT. Serra não queria a prefeitura e deixara isso claro, a ponto de serem programadas prévias somente por essa razão – mas mudou de ideia. Essa foi, porém, a menor surpresa das três: foi a única saída para sua família política continuar governando a maior cidade do país, e para ele se manter na posição de grande nome do PSDB.

Desde 89 elegemos só presidentes improváveis

Três atos, disse eu, um para cada surpresa; na era clássica, ou seja, nos séculos XVII e XVIII, as peças de teatro tinham cinco atos. Hoje, têm um, dois ou três. Ninguém aguenta mais tanto intervalo… Só que nas eleições deste ano vamos ultrapassar os cinco atos de Racine e Molière. Em outras palavras: eleições, no Brasil, reservam muitas surpresas. Acredito que em nosso país a dose de imprevistos numa campanha eleitoral seja maior do que em países nos quais as preferências partidárias ou políticas dos eleitores estão consolidadas ou, se assim preferirem, engessadas. Embora nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha, França, Itália, Alemanha e Espanha não seja raro uma eleição trocar o partido que está no governo, o porcentual de eleitores que mudam de opinião não é dos maiores. Já no Brasil, ele pode ser bastante elevado.

Lembremos as eleições presidenciais desde 1989. Escolho esse período, porque ele é o único marcado pela constância da democracia em nossa história. Na República Velha, as eleições eram fraudadas; depois disso, passamos por duas longas ditaduras, a de Vargas e a dos militares; e, na fase democrática de 1945 ou 46 até 1964, vivemos boa parte do tempo sob a ameaça de uma intervenção armada, que por sinal acabou ocorrendo. Mas, desde que a democracia começou a se consolidar entre nós, em 1985, um dado interessante é que somente se elegeram para a presidência da República candidatos improváveis. Poucos sabiam quem era Fernando Collor dez meses antes de ele se eleger. FHC, intelectual sofisticado, parecia o exemplo de quem jamais conseguiria falar ao povo. Seguramente, ele não se elegeria sem o Plano Real. Delfim Neto dizia que até “um poste” venceria Lula em qualquer eleição. Difícil lembrar, hoje, o quanto Lula era temido e rejeitado. Já Dilma era considerada uma tecnocrata, jamais disputara um pleito e não aparentava ter maiores dotes para a comunicação política. Em contrapartida, nenhum dos nomes óbvios – Ulysses Guimarães em 1989, Mário Covas em 1994, José Serra depois – chegou a presidente do Brasil. Parece estar em nossa tradição democrática – curta, mas creio que consolidada – a eleição como surpresa.

Essa situação tem um aspecto positivo. Nosso eleitorado não é “blasé”. Ele é capaz de mudar de ideia, conforme os rumos da campanha. Sim, ele pode ser conquistado por golpes baixos, como quando Collor acusou Lula, em 1989, de tentar induzir a ex-namorada a fazer um aborto – ou, nas últimas eleições, quando de novo o aborto serviu de arma eleitoral. Mas também decide o voto com base no interesse, como aconteceu quando o plano Real domou a inflação, ou quando o governo Lula promoveu uma maciça ascensão social das classes D e E para a classe C.

Ou pensemos no eleitorado, tal como está representado na Câmara. Nossa política tem dois polos, o PT, com 88 deputados eleitos em 2010, e o PSDB, com 54. Partidos de convicções firmes são esses dois, mais o DEM, o PCdoB e o PSOL. Talvez o PPS. Somados, têm uns 200 deputados, num total de 513. Quase todas as demais agremiações, inclusive a segunda maior, o PMDB, com 79 representantes, carecem de convicções tão firmes – isto é, podem apoiar qualquer governo. Isso é ruim? Muito. Mostra o oportunismo desses partidos. Mas, do ângulo dos cidadãos, indica que a maior parte deles não sente ódio excessivo a qualquer polo. Temos dois polos partidários, por sinal melhores que a média em outros países do mundo (melhores que os dos Estados Unidos, Itália ou França), mas a cidadania não está rachada entre eles. Mesmo se acreditarmos que os eleitores tucanos odeiem o PT, e os petistas detestem o PSDB – o que está longe de valer para todos -, a maior parte da população não está tão dividida. Isso é positivo. Permite que as pessoas mudem de ideia. Dá vida à política.

Renato Janine Ribeiro é professor titular de ética e filosofia política na Universidade de São Paulo. Escreve às segundas-feiras

E-mail rjanine@usp.br

05/03/2012 - 08:54h Desafio de Serra será manter eleitorado fiel


Pré-candidato tem em redutos da classe média sua força eleitoral, onde conquistou maior votação na capital paulista

05 de março de 2012

DANIEL BRAMATTI – O Estado de S.Paulo

Como candidato do PSDB à Prefeitura de São Paulo, José Serra enfrentará em 2012 o desafio de impedir que os adversários avancem sobre os redutos de classe média que deram ao tucano três vitórias eleitorais na capital paulista nos últimos oito anos.

Serra teve desempenho quase idêntico nos primeiros turnos de 2004, quando concorreu à prefeitura, e de 2010, ano em que disputou a Presidência. Com apenas uma exceção, ele venceu e perdeu nas mesmas zonas eleitorais, com porcentuais de votos muito próximos (veja quadro).

A “cidadela serrista” é formada pelas áreas mais ricas e por quase todos os bairros de classe média da cidade. A conquista desse eleitorado é vista como estratégica para o PT, o que levou o partido a escolher um candidato visto como mais palatável pela classe média e sem a rejeição histórica da ex-prefeita Marta Suplicy – o ex-ministro da Educação Fernando Haddad.

Gabriel Chalita (PMDB), com tempo de propaganda que o credencia a eventualmente romper a polarização PSDB-PT, nunca concorreu a cargos executivos, mas seu mapa de votação como candidato a vereador e a deputado federal mostra uma base de classe média, principalmente em áreas fronteiriças ao chamado centro expandido.

Os movimentos do PT e o perfil de Chalita indicam que os redutos de Serra serão os principais palcos da batalha eleitoral.

Antecedentes. Nas três eleições em que ficou em primeiro lugar em São Paulo, Serra polarizou a disputa com um candidato do PT – partido cujo eleitorado, de perfil oposto ao do PSDB, se concentra nos extremos leste, sul e noroeste da cidade.

Nos três episódios, era o PT quem enfrentava alta rejeição – obstáculo, agora, para o tucano. Segundo a última pesquisa Datafolha, publicada no domingo, 30% dos eleitores paulistanos não votariam de jeito nenhum no representante do PSDB.

Em 2006, como candidato a governador, Serra teve desempenho acima de sua média histórica na capital. Seu principal adversário, Aloizio Mercadante (PT), perdeu fôlego na reta final da campanha ao ter assessores envolvidos no “escândalo dos aloprados” – tentativa de compra de um dossiê contra o tucano.

Em 2008, Serra não concorreu e a polarização PT-PSDB não se verificou. O tucano Geraldo Alckmin ficou em terceiro lugar na disputa pela prefeitura – o vencedor foi Gilberto Kassab, então no DEM, que Serra apoiou veladamente no primeiro turno e de forma aberta no segundo.

O PT apostou em Marta Suplicy, vitoriosa na eleição para a Prefeitura em 2000, nas disputas municipais de 2004 e 2008. Os redutos petistas da periferia garantiram sua ida ao segundo turno, mas ela foi derrotada duas vezes na reta final, por conta da alta rejeição em áreas de classe média.

Haddad, agora, tem baixa rejeição, o que pode ser decorrência do fato de ser pouco conhecido entre os paulistanos. Apenas 41% dos eleitores sabem quem é Haddad, segundo o Datafolha. Serra, por sua vez, é conhecido por 99%.

O ex-ministro da Educação tem como trunfo dois cabos eleitorais importantes – a presidente Dilma Rousseff e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A primeira ganhou pontos na classe média e ampliou sua popularidade no Sudeste no primeiro ano de mandato. O segundo é o político cujo apoio mais pode beneficiar um candidato, segundo a pesquisa Datafolha.

Antes de avançar sobre o eleitorado que tem sido hostil ao PT nos últimos anos, o ex-ministro da Educação busca ganhar espaço entre os simpatizantes tradicionais. O pré-candidato tem feito incursões a bairros periféricos para se apresentar a cabos eleitorais petistas e ouvir reivindicações de líderes locais.

05/03/2012 - 08:27h No embalo da pesquisa

05 de março de 2012

JOSÉ ROBERTO DE TOLEDO – O Estado de S.Paulo

O termômetro esquenta ou esfria o objeto cuja temperatura ele pretende medir. Assim também, a pesquisa eleitoral influi na disputa que ela acompanha. A sondagem do Datafolha sobre a eleição paulistana criou um fato positivo para José Serra e praticamente liquidou as já remotas chances dos outros pré-candidatos do PSDB a prefeito de São Paulo. Mais do que isso, aumentou o magnetismo do tucano no jogo das alianças partidárias.

Na atual fase da corrida eleitoral, o mais importante para cada um dos principais candidatos é unir seus partidos em torno de seu nome e conseguir o máximo de coligações com outras siglas, de preferência com aquelas que têm direito a pelo menos uma inserção diária durante o horário eleitoral obrigatório. Serra largou na frente.

Ao bater em 30% das intenções de voto no Datafolha, ele tornou-se líder e – mais relevante – passou a ser percebido como o favorito. Nada mais atraente para os políticos do que a perspectiva de poder. Não importa que Serra cresceu por um evento efêmero – o tumulto causado pela sua entrada tardia na disputa e a grande exposição na mídia que se seguiu – , nem que parte de sua intenção de voto seja, de fato, efeito memória. A pesquisa criou um fato político e deu impulso a Serra.

Antes que obscurantistas venham clamar contra a liberdade de informação, é bom lembrar que isso é do jogo. Assim como ajudou, a pesquisa poderia ter atrapalhado se o resultado fosse diferente. Em 2010, quando Dilma Rousseff, em ascensão, começou a encostar no tucano, em queda, cada pesquisa era uma dose de vitamina para a campanha da petista e um tormento para Serra. Neste momento, os papéis se inverteram.

Para o PT e para Fernando Haddad, a pesquisa Datafolha foi uma notícia duplamente ruim. A estagnação do petista em 3% mostrou que a estratégia de Lula não deu certo. Ao atropelar as prévias do partido e impor um nome que ele escolheu sozinho, o ex-presidente pretendia ganhar tempo para tornar seu candidato conhecido e evitar rachas internos. Aconteceu o oposto.

O ressentimento de petistas alijados da disputa, como Marta Suplicy, é cada vez mais notório, e Haddad continua patinando no desconhecimento, apesar de estar em campanha há meses. Sem adversário interno, o pré-candidato petista mal aparece no noticiário. Ao mesmo tempo, a doença de Lula não permitiu que ele propagandeasse o nome de seu pupilo à exaustão, como fez com Dilma em 2009 e 2010.

Desconhecimento e inexperiência são defeitos que não pioram com o tempo. Ainda há muito chão pela frente e o PT tem um eleitorado cativo que levou seu candidato ao segundo turno nas últimas cinco eleições de prefeito em São Paulo. O problema petista imediato são as coligações perdidas.

É muito mais difícil – e caro – convencer um partido a apoiar o 7.º colocado do que o líder da pesquisa. Especialmente quando Dilma enfrenta uma rebelião na base de apoio ao seu governo. O PTB só é aliado do PT em Brasília. O PDT, cada vez menos. O PP malufista tucanou. O PSD kassabista também. PRB, PC do B e PMDB têm candidatos próprios mais bem colocados que o petista. O PR ameaça com Tiririca. Sobra o PSB, talvez.

Serão necessários muitos ministérios e muita verba federal para o PT seduzir outras siglas e levá-las para sua coligação. Sem isso, Haddad, que precisa de tempo na TV para o eleitor descobrir que ele existe, corre alto risco de ficar com menos tempo de propaganda do que o principal rival, o universalmente conhecido Serra.

Se não fizer amigos e influenciar outros partidos, Haddad pode ficar empatado em inserções publicitárias com Gabriel Chalita (PMDB), que corre por fora e não perdeu pontos com a entrada de Serra: tem 7% das intenções de voto (tinha 6%).

A dificuldade petista de arrumar coligações para seu candidato em São Paulo se deve aos aliados de Dilma terem caído na real. Perceberam que jogam, em 2012, a sua sobrevivência daqui a dois anos, quando serão renovadas as bancadas na Câmara dos Deputados e um terço do Senado. Os principais cabos eleitorais em 2014 serão – como sempre foram – os prefeitos que ganharem a eleição no próximo mês de outubro. E está difícil elegê-los.

Os aliados acham que o PT é o bicho-papão. Mas foi o recém-criado PSD que bagunçou a base aliada de Dilma. Das suas 272 prefeituras, o partido de Gilberto Kassab “roubou” a maioria (153) de partidos que apoiam a presidente no Congresso: 31 do PMDB, 30 do PP, 23 do PR, 15 do PTB e 10 do PSB, por exemplo.

Como resultado, PMDB, PP, PDT, PR e PTB têm menos prefeitos hoje do que elegeram em 2008.

Ao mesmo tempo, PT e PSB conseguiram cooptar novas prefeituras e estão jogando pesado para engordar ainda mais esse número nesta eleição.

São Paulo é apenas o caso mais visível de um problema nacional: a disputa pelo poder municipal entre partidos que só são aliados no plano federal por força do presidencialismo de coalizão brasileiro.

O mau desempenho no Datafolha e a busca pelas coligações perdidas mostram que não será apenas na base da ligação direta com o eleitor e seu bolso que Lula vai conseguir eleger Haddad, nem que Dilma vai conseguir governar. A política é necessária, como sempre foi.

05/03/2012 - 08:05h Renovação eleitoral pauta discussão na corrida paulistana


Enquanto PT aposta em novidade na eleição com Haddad, o PSDB deve lançar Serra, nome já conhecido do eleitorado

05 de março de 2012

FERNANDO GALLO – O Estado de S.Paulo

A falta de novas lideranças em seus quadros leva o PT e o PSDB a optarem por caminhos distintos na eleição municipal de 2012, avaliam especialistas consultados pelo Estado. Com a entrada do ex-governador José Serra na corrida eleitoral, os tucanos continuam a apresentar desde 1996 os mesmos dois nomes aos eleitores da capital: Serra e o governador Geraldo Alckmin. Os petistas, por sua vez, optam pelo novato Fernando Haddad, que desbancou a senadora Marta Suplicy (PT-SP) depois de três eleições consecutivas.

O PSDB, dizem os analistas, é vítima de uma armadilha: sem um nome alternativo forte, busca o recall alto de Serra, mas adia o processo de renovação, impedindo o surgimento de novas lideranças. “Como vai haver recall de outros nomes se nunca é dado aos mais jovens a oportunidade de aparecer?”, indaga Carlos Melo, professor do Insper.

Ele lembra que Serra, em 1996, e Alckmin, em 2000, concorreram nas eleições municipais, e perderam. “Perder não é pecado, é do jogo. Eleições não são feitas só para ganhar, mas para expor um programa, uma alternativa a ser testada. Você não pode ser o dono da fila”.

O cientista político Fernando Abrucio, professor da FGV, avalia que Alckmin não fez pelo deputado Bruno Covas, seu secretário de Meio Ambiente, aquilo que o avô de Bruno, Mário Covas, fez pelo governador ao fomentar sua candidatura à prefeitura em 2000. “O Alckmin é fruto do Covas, que o bancou. Uma liderança pensa no futuro”, alfineta. “Pode ser que Bruno, que foi o deputado estadual mais votado e tem sobrenome forte, perdesse a eleição, mas chegaria a 15% ou 20 % dos votos e seria um PSDB novo”.

Marco Aurélio Nogueira, da Unesp, vê a falta de base partidária como impeditivo à renovação no tucanato. “O PSDB tem ligação precária com a sociedade e um problema grave de reprodução. Não cresce nem se renova porque não é oxigenado pela sociedade”.

PT. No caso petista, além do envelhecimento e do desgaste de alguns líderes como Marta Suplicy e o ministro Aloizio Mercadante, houve dirigentes abatidos pela crise do mensalão. “Envelheceram e não é apenas de idade, envelheceram politicamente. O José Dirceu é mais novo que o Serra, mas não tem a mesma força de antes”, diz Abrucio.

Mesmo com um nome novo na disputa, o PT não escapa das críticas, dirigidas a escolha de Haddad pelo dedaço do ex-presidente Lula, segunda etapa de um processo de renovação nacional do partido, iniciado em 2010 com a escolha de Dilma.

“Não é uma renovação natural, de políticos que surgiram na base, foram vereadores, deputados”. Segundo ele, a renovação foi “contingencial”, uma necessidade do projeto nacional de Lula. “O Lula enfrentou uma queda de braço com setores do PT e ganhou. Por isso ocorre a renovação”. Para Abrucio, os nomes foram tirados da burocracia de governo. “Não é necessariamente ruim, embora fosse melhor que nascessem nos partidos. Mas a vida partidária está frágil”.