19/07/2009 - 13:48h Interesse Nacional: debater é possível

Com temas atuais, Interesse Nacional mostra agilidade

O n.º 6 (julho-setembro) coloca no centro do debate questões como a reforma da Lei Rouanet e a crise da política brasileira

Antonio Gonçalves Filho – O Estado SP

As discussões públicas sobre o projeto de reforma da Lei Rouanet apontaram como principal consequência da sua aprovação a diminuição de recursos à disposição da cultura, caso prevaleça a proposta do governo federal de alterar o modelo de fomento. Não é assim que pensa o ministro da Cultura Juca Ferreira, que assina um dos textos do número 6 (julho-setembro) da revista Interesse Nacional (80 págs., R$ 25), mas é o que defende em artigo, na mesma edição, o secretário de Estado da Cultura de São Paulo, João Sayad. O ministro argumenta que o governo pretende democratizar o modelo de incentivo à cultura, hoje voltado, segundo Ferreira, para a Região Sudeste. Sayad discorda. Diz que, tal como está, o projeto atende mais aos interesses da Receita Federal.

Essa é apenas uma amostra do que traz a ágil revista trimestral de debates. Tendo como editor responsável Rubens Antonio Barbosa, a nova Interesse Nacional, uma publicação voltada para a discussão de temas políticos, econômicos e sociais, traz ainda outro assunto espinhoso – o da regularização fundiária na Amazônia, objeto de recente medida provisória aprovada pelo Congresso. Quem assina o texto a respeito do tema é Alberto Lourenço, gestor federal ligado à Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República. Ele diz que a regularização deve reduzir os conflitos e a violência fundiária, trazendo ainda a valorização da terra. Sobre a origem desses conflitos, culpa o “ambicioso projeto geopolítico de integração e controle da Amazônia” pela ditadura militar, que privilegiou as grandes empresas, concedendo a elas crédito e incentivos fiscais.

Esse projeto estratégico mudou no governo Médici, lembra Lourenço. A despeito de suas falhas, o Estado ainda manteve controle sobre a ocupação do território amazônico, situação que mudaria nos anos 1980, quando cresceu a demanda por terras e diminuíram os recursos do Incra para assentar os migrantes. Até hoje, os dados cadastrais do órgão são precários. As ocupações são informais, jamais registradas em cartórios, de acordo com o articulista. Também, segundo ele, não se sabe quanto e quais são as terras federais inalienáveis.

Como decidir, então, o tamanho máximo das ocupações passíveis de regularização? Esse limite foi ampliado de 500 para 1.500 hectares no ano passado. Como impedir, depois , a venda ilegal dessas terras? Para Lourenço, seria pior proibir a transação, que se faria sempre por preço inferior ao da terra legal. E o mais importante: essa medida legal ameaçaria a floresta? Ele acha que não. A legalização, diz o articulista, protege a floresta e cria condições para a gestão ambiental.

Dele discorda o presidente da associação protecionista Acorda Brasil, o economista Klaus G. Hering. Na mesma revista, ele defende que o manejo da floresta tropical “é função do que dela se quer, a ideia que dela se tem”. Em outras palavras: o ideal mesmo é preservar a Floresta Amazônica não com leis punitivas e inoperantes, mas com uma política que transforme pequenos e grandes proprietários em parceiros na proteção da biodiversidade. Ou seja, com educação ambiental, capaz de convencer desmatadores a seguir a cartilha dos preservacionistas.

Sobre a inoperância das leis ambientais, Hering cita como exemplo o caso das sete áreas de preservação permanente no Vale do Itajaí, em Santa Catarina. O decreto do presidente da República que criou um Parque Nacional na área provocou a desapropriação de meia centena de proprietários rurais que há gerações conservam a mata atlântica. Resultado: aumentou o desmatamento na região. Culpa dos políticos?

Por falar neles, no artigo O Resgate da Política, o senador Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE) propõe uma reforma nessa área que parta do próprio Congresso Nacional, e não do governo. O texto critica a “retórica diluviana” do presidente Lula, além do grande escândalo político de seu governo – o “mensalão” – e os aponta como provas da “mediocridade que hoje pauta a política de Brasília”. A impunidade, segundo Jarbas Vasconcelos, é a consequência desse quadro de degradação. E ele não poupa nem deputados nem senadores, falando dos recentes escândalos envolvendo as despesas do Congresso Nacional. Como se vê, a revista Interesse Nacional, apesar de sair apenas de três em três meses, é “quente” como um jornal diário. E, considerando sua linha editorial, parece disposta a manter viva a polêmica.

21/03/2009 - 18:28h sebos & traças

vássia silveira

Eu perdoaria tudo. Perdoaria se o tivesse encontrado nos braços da amiga. Se as mãos estivessem grudadas na ninfeta. Se as costas acariciadas fossem as da vizinha ou se os lábios roçassem a nuca, a face, a boca da estrangeira. Perdoaria se a língua estivesse entre as pernas da ex, se o sexo gritasse pela carne flácida da empregada ou se os dedos fossem enfiados na traseira da prima. Tudo menos isso… Cena infame, traição sem nome, como pôde? Como pôde fazer?

As lembranças passam embaralhadas na minha cabeça. Estamos os dois, entre as prateleiras das tragédias gregas. Publicações antigas, bolorentas e de páginas amareladas. Cheiro de mofo, umidade que gruda nos dedos e me faz espirrar. Puf! Foi o barulho abafado que o livro fez ao cair no chão. Risos nervosos. Minhas mãos suavam frio e os óculos dele estavam tortos. Quis lhe dizer, mas estava tomada de vergonha. Daí veio o beijo, tímido como as primeiras leituras. A parede no final do corredor, o gosto da língua geográfica nas lambidas dos Cânticos. A mesma fúria que mais tarde, num descuido da bibliotecária, nos fez limpar o chão da sala dos clássicos universais.

Agora subimos ladeiras à procura de um lugar. Paredes altas, que caibam a história que carregamos nas malas: capas duras, edições de bolso, enciclopédias, coleções. Casar amor é fácil. Idéias e livros, não. Entramos no sobrado, uma casinha de fachada amarela, duas janelas e porta na frente. Corredor estreito, pátio interno separando a cozinha, cheia de baratas. A torneira do banheiro que não saía água e as goteiras no quarto. Penduramos na entrada um provérbio chinês e escalamos escadas para empilhar nas prateleiras, os livros. Centenas deles. A empregada faltou, mas nos deixou com as últimas aquisições do sebo limpas. Ele abre a página de Otelo, eu me debruço sobre as de Beauvoir. Mulheres, homens, estradas, fazendas, montanhas, desertos, traições.

Veio a imagem da camisa de seda manchada de batom. Meu ódio, a lavanderia. E o maldito telefonema. Não virá para o sarau. Reunião de última hora na empresa. Meus dedos passeiam nas páginas, aflitos. Duas horas depois, novo telefonema. Acidente na estrada, pista interditada, carros em fila indiana, lentidão digna de Kundera, ele diz. Três horas da manhã. Os relógios da casa anunciam abismo, escuridão. Histórias de realismo fantástico atrapalham minha leitura, fecho a Odisséia, jogo o casaco por cima da camisola, apanho as chaves, bato a porta, subo no carro e pego a estrada. Asfalto fresco e pista vazia. Nenhum movimento. Refaço o trajeto percorrido por ele, do trabalho ao sobrado. Paro em bares, botecos e inferninhos que encontro no caminho. Recebo cantadas grosseiras, enfrento o mau cheiro dos banheiros, a fumaça suspensa em meio às luzes noturnas, o bafo quente das bebidas baratas. Vou desistir.

Mas justo na hora, adivinho a traseira do carro dele no estacionamento. Dou ré, paro ao lado e desço. Um homenzinho surge do nada e informa que não há vagas. Todos os quartos estão ocupados, moça. Abro a bolsa, tiro o pacote branco com o dinheiro do aluguel e condomínio, estendo a mão ao homem, minto. Minto bem, pego a chave e peço que me diga em qual deles está o dono carro.

Com o estômago embrulhado, tiro os sapatos, piso no chão, paro em frente ao lugar, deixo cair a bolsa de tiras longas, enfio o metal na fechadura e empurro a porta. No meio do quarto, a cama redonda. Lanternas vermelhas, teto envidraçado, piso xadrez, frigobar, taças. No espelho em frente, a imagem do homem nu, com as pernas estendidas e as mãos ocupadas.

Sem pensar duas vezes, tiro da bolsa o canivete que usava para separar folhas grudadas, caminho até ele, e antes que possa reagir ou dizer qualquer coisa, toro-lhe os dedos. Viro as costas e penso nas mil e uma noites que rolamos no tapete embalados pelos artifícios de Sherazade, nas estantes da biblioteca, no chão dos clássicos, no último sebo, nos saraus…

Como disse, perdoaria tudo. Tudo menos encontrá-lo ali, naquele motel, àquelas horas da madrugada, sozinho. Com um livro nas mãos.

Vássia Silveira é jornalista e editora do site Ana e Suas Mulheres. Escreve o blogue Gavetas e Janelas e assina uma coluna semanal de crônicas no Nariz de Cera.

Fonte escritoras suicidas

04/03/2009 - 17:55h Nu de costas

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Modigliani

 


Um dos principais integrantes da escola de Paris, Amedeo Modigliani (1884-1920) marcou a pintura da primeira metade do século XX com suas figuras alongadas, que se destacam pelo despojamento e pela estilização.

    

Amedeo Modigliani nasceu na cidade italiana de Livorno, em 12 de julho de 1884, filho de abastada família judia.

     Por causa da saúde precária não recebeu educação formal e voltou-se para o estudo da pintura, que iniciou na cidade natal e prosseguiu em Veneza e Florença.

     Em 1906 mudou-se para Paris e, ao fim de três anos de vida boêmia, executou uma de suas obras mais importantes: “O violoncelista”, que expôs no Salão dos Independentes de 1909.

     O encontro com o escultor Constantin Brancusi marcou a carreira de Modigliani, que por um longo período abandonou a pintura pela escultura. Impressionado pelo cubismo, muito influenciado por Cézanne, Toulouse-Lautrec e Picasso, o artista executou nesse período esculturas nas quais se misturam influências da escola de Siena e da arte da África negra, sobretudo das esculturas do Congo e do Gabão.

     Também a influência dos kouroi (esculturas gregas que representam jovens atletas desnudos) se faz sentir nesses trabalhos, que Modigliani esculpia sempre diretamente na pedra, na tentativa de preservar a unidade plástica do bloco.

     Essa fase se prolongou até 1914, quando o artista, sem dispor dos recursos necessários à produção de esculturas, retornou à pintura.

     Os temas preferidos de Modigliani foram, a partir de então, os retratos e os nus femininos com modelos que, segundo o artista, expressavam “a muda aceitação da vida”. Com o raro dom de conseguir uma imediata empatia entre seus retratos e o observador, dotou suas figuras de uma sensualidade que se transmite não pela nudez, mas pelo movimento e pelo alongamento dos traços.

     Essa breve fase final do artista foi a mais importante de sua obra, caracterizada por um despojamento que alguns críticos creditaram a sua inclinação para a escultura. Modigliani morreu em Paris, em 24 de janeiro de 1920.

©Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações Ltda.

 

21/02/2009 - 16:01h O adeus

por Rubem Braga

 

Fonte Blog Releituras

 

 

No oitavo dia sentimos que tudo conspirava contra nós. Que importa a uma grande cidade que haja um apartamento fechado em alguns de seus milhares de edifícios; que importa que lá dentro não haja ninguém, ou que um homem e uma mulher ali estejam, pálidos, se movendo na penumbra como dentro de um sonho?

Entretanto a cidade, que durante uns dois ou três dias parecia nos haver esquecido, voltava subitamente a atacar. O telefone tocava, batia dez, quinze vezes, calava-se alguns minutos, voltava a chamar; e assim três, quatro vezes sucessivas.

Alguém vinha e apertava a campainha; esperava; apertava outra vez; experimentava a maçaneta da porta; batia com os nós dos dedos, cada vez mais forte, como se tivesse certeza de que havia alguém lá dentro. Ficávamos quietos, abraçados, até que o desconhecido se afastasse, voltasse para a rua, para a sua vida, nos deixasse em nossa felicidade que fluía num encantamento constante.

Eu sentia dentro de mim, doce, essa espécie de saturação boa, como um veneno que tonteia, como se meus cabelos já tivessem o cheiro de seus cabelos, se o cheiro de sua pele tivesse entrado na minha. Nossos corpos tinham chegado a um entendimento que era além do amor, eles tendiam a se parecer no mesmo repetido jogo lânguido, e uma vez, que, sentado, de frente para a janela por onde se filtrava um eco pálido de luz, eu a contemplava tão pura e nua, ela disse: “Meu Deus, seus olhos estão esverdeando”:

Nossas palavras baixas eram murmuradas pela mesma voz, nossos gestos eram parecidos e integrados, como se o amor fosse um longo ensaio para que um movimento chamasse outro: inconscientemente compúnhamos esse jogo de um ritmo imperceptível, como um lento bailado.spacca_braga2.jpg (17305 bytes)

Mas naquela manhã ela se sentiu tonta, e senti também minha fraqueza; resolvi sair, era preciso dar uma escapada para obter víveres; vesti-me lentamente, calcei os sapatos como quem faz algo de estranho; que horas seriam?

Quando cheguei à rua e olhei, com um vago temor, um sol extraordinariamente claro me bateu nos olhos, na cara, desceu pela minha roupa, senti vagamente que aquecia meus sapatos. Fiquei um instante parado, encostado à parede, olhando aquele movimento sem sentido, aquelas pessoas e veículos irreais que se cruzavam; tive uma tonteira, e uma sensação dolorosa no estômago.

Havia um grande caminhão vendendo uvas, pequenas uvas escuras; comprei cinco quilos. O homem fez um grande embrulho de jornal; voltei, carregando aquele embrulho de encontro ao peito, como se fosse a minha salvação.

E levei dois, três minutos, na sala de janelas absurdamente abertas, diante de um desconhecido, para compreender que o milagre acabara; alguém viera e batera à porta, e ela abrira pensando que fosse eu, e então já havia também o carteiro querendo o recibo de uma carta registrada, e quando o telefone bateu foi preciso atender, e nosso mundo foi invadido, atravessado, desfeito, perdido para sempre — senti que ela me disse isso num instante, num olhar entretanto lento (achei seus olhos muito claros, há muito tempo não os via assim, em plena luz), um olhar de apelo e de tristeza onde entretanto ainda havia uma inútil, resignada esperança.


Texto extraído do livro “Figuras do Brasil – 80 autores em 80 anos de Folha”, Publifolha – SP, 2001, pág. 132.

Conheça a vida e a obra de Rubem Braga visitando “Biografias”.

Ilustração: Spacca

João Spacca de Oliveira (1964), nasceu em 1964,  em São Paulo (SP), é cartunista e ilustrador. Fez “storyboards” para filmes publicitários no começo da carreira, depois, entre 1985 e 1995, criou charges políticas para o jornal “Folha de São Paulo” e ilustrou o suplemento infantil “Folhinha” por dois anos. Escreveu histórias em quadrinhos para as revistas “Níquel Náusea” e “Front”, e também trabalhou com animação. Atualmente faz charges para a versão on-line do “Observatório da Imprensa” e para publicações empresariais. Ilustrou , para a “Companhia das Letrinhas”, “O Mário que não era de Andrade”, de Luciana Sandroni; “O jogo da parlenda”, de Heloísa Prieto; “A reunião dos planetas”, de Marcelo Oliveira; e “Vice-versa ao contrário”, de vários autores. Escreveu e ilustrou “Santô e os pais da aviação — A jornada de Santos-Dumont e de outros homens que queriam voar” (vencedor do prêmio HQMIX 2006 nas categorias Desenhista Nacional, Edição Especial Nacional e Roteirista Nacional); “Debret em viagem histórica e quadrinhesca ao Brasil”, e “D. João Carioca — A corte portuguesa chega ao Brasil (1808 – 1821)”, publicados pela Cia. das Letras. Em 2005, Spacca recebeu o primeiro prêmio de charge no Salão Internacional de Humor de Piracicaba.

E-MAIL: spacca@spacca.com.br

22/04/2008 - 21:33h Interesse Nacional

capa da primeira ediçãoAo leitores desta coluna e aos interessados na revista Interesse Nacional,

Agradeçemos os elogios prestados aqui sobre a revista, bem como as sugestões aqui articuladas.

Gostaria de pedir que visitem o nosso site www.interessenacional.com para deixar ali suas sugestões ou qualquer duvida sobre a revista.

Agradeçemos ao Luis Favre por postar o lançamento da nossa revista e contamos sempre com o seu apoio.

Atenciosamente,

Revista Interesse Nacional