17/11/2008 - 13:41h Saúde: os números ocultam

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célula cancerosa vista ao microscópio eletrônico

AGNES MARIE SÁ FIGUEIREDO - O GLOBO

É inegável as conquistas obtidas em nosso país com relação a certas doenças infecciosas, principalmente aquelas cujas medidas de prevenção e/ou controle são mais conhecidas e efetivas, como a diarréia, a tuberculose, a malária e outras, conforme indicam as publicações recentes do Ministério da Saúde (Saúde Brasil 2007). Entretanto, o vasto universo das doenças causadas por microrganismos não se resume às doenças geralmente agrupadas como “infectocontagiosas” ou “infecciosas e parasitárias”.

Os microrganismos, sejam os protozoários, os fungos, as bactérias e, ainda, os vírus, estão envolvidos em diferentes tipos de afecções.

Por exemplo: há alguns anos, jamais poderíamos imaginar que certos tipos de cânceres estariam associados a tais seres microscópicos.

No entanto, um dos ganhadores do Prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina 2008, Dr. Harald zur Hausen, foi agraciado com essa honraria, justamente, por ter relacionado o câncer de colo de útero, o segundo mais freqüente em mulheres, com o papiloma vírus humano (HPV). Mas não pensem que a associação entre microrganismos e câncer se encerra aí.

Uma bactéria conhecida como Helicobacter pylori, a qual é encontrada no estômago de cerca de 2/3 da população mundial, é o principal fator de risco de úlcera péptica e duodenal, aumenta, segundo estudos, o risco de câncer gástrico, linfoma de tecido linfóide associado à mucosa, conhecido como linfoma de MALT, e, ainda, de câncer pancreático.

Portanto, parece-me fundamental que a sociedade seja alertada sobre o papel das doenças infecciosas em determinados tipos de cânceres e, conseqüentemente, sobre sua influência “silenciosa” nas taxas de óbtidos. Além disso, em certas circunstâncias, o câncer por si só pode predispor o paciente a severas e recorrentes infecções. Por outro lado, a neutropenia (que reflete um comprometimento do sistema imunológico) é reconhecida há décadas como importante fator de risco para o desenvolvimento de infecções em pacientes submetidos a certas quimioterapias.

Portanto, é fato amplamente conhecido, pela comunidade médica, que as doenças infecciosas são importantes causas de mortalidade entre pacientes com diversos tipos de neoplasias malignas.

Realmente, por muitos e muitos anos, a tuberculose foi a principal causa de morte entre as doenças respiratórias de adultos. Porém, apesar de os óbitos por essa doença ter diminuído, outras infecções respiratórias, as de natureza aguda, estavam em 2005 na 5ª ou 6ª posição entre as 10 principais causas de morte em nosso país, segundo dados do Saúde Brasil 2007. Cabe acrescentar que, através de um estudo recente do Unicef/OMS intitulado “Pneumonia: the forgoten killer of children, 2006”, ficou constatado que essa doença mata mais crianças do que qualquer outra, e estimase que seja responsável pela morte de cerca de 2.000.000 de crianças a cada ano, em todo o mundo, sendo as espécies bacterianas Streptococcus pneumoniae e Haemophilus influenzae as principais responsáveis. Porém, infelizmente, pouca atenção tem sido dada para essa doença. Nesse mesmo estudo foi estimado que 150.000.000 de episódios de pneumonia devam ocorrer a cada ano, sendo que o Brasil estaria em 5o lugar, junto com a Etiópia, com 4.000.000 de casos. É preciso salientar que não somente as crianças estão mais susceptíveis às pneumonias; os indivíduos idosos também estão entre a população susceptível e, portanto, com elevado risco para a doença e conseqüente mortalidade.

Vale lembrar, aqui também, outros importantes “matadores” que ficaram esquecidos nesta estória, as doenças hoje conhecidas como “infecções associadas a serviços de saúde” (IASS), em que se incluem as infecções hospitalares. Essas doenças acometem pacientes, durante o curso de um tratamento que receberam para debelar outra doença, em um estabelecimento que presta serviço de saúde. Segundo os Centers for Diseases Control (CDC), nos Estados Unidos, as IASS estão entre as 10 principais causas de mortalidade.

Não devemos, em hipótese alguma, sob pena de estarmos causando um erro grave, subestimar o impacto de tais doenças em nosso meio.

Estudos têm demonstrado que os índices dessas infecções são maiores em países da América Latina e da África. Agrava-se a essa triste estatística o fato de que muitas dessas infecções, como as que ocorrem nos hospitais, são causadas por bactérias resistentes a múltiplos antibióticos. Tal fato dificulta, significativamente, a pronta prescrição pelos médicos de uma terapia antibiótica eficaz, contribuindo assim para o aumento do número de óbitos.

Aos profissionais da saúde cabem estar atentos para os fenômenos resultantes da evolução adaptativa dos microrganismos, os quais culminam, algumas vezes, no surgimento de novas doenças (conhecidas como emergentes) e, em outras vezes, no aumento da incidência de doenças antigas, porém com características epidemiológicas singulares, únicas, as quais, quando não reconhecidas, podem mascarar os índices dessas infecções e da mortalidade associada.

Aos nossos políticos cabe o ônus da necessidade de aplicarem mais recursos para o desenvolvimento de laboratórios e sistemas cada vez mais sofisticados, visando à coleta e posterior análise de dados, sobre tais doenças, de maneira que os números possam nos apontar, de forma mais reveladora, esse mundo micro, porém da maior importância para a saúde global.

AGNES MARIE SÁ FIGUEIREDO é diretora do Instituto

12/06/2008 - 18:02h Esperança no tratamento de câncer

Câncer já pode ser considerado doença crônica por causa do avanço das terapias individualizadas

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Maria Vianna - O Globo Online

CHICAGO - O perfil genético do paciente vai ser cada vez mais importante para definir que tipo de tratamento seguir na hora em que é diagnosticado algum tipo de câncer. Das novidades apresentadas no encontro anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO, na sigla em inglês) este mês em Chicago, o aperfeiçoamento e o barateamento de testes feitos com biomarcadores - moléculas que reconhecem características específicas de um tumor quando juntadas a ele - foram recebidos com entusiasmo pelos especialistas na área, que já falam inclusive que alguns tipos de câncer podem ser encarados como doença crônica. Para os especialistas, os tratamentos cada vez mais individualizados estão ajudando a prolongar a vida de pacientes. Isso significa que, com o tratamento adequado, as pessoas poderão viver anos, assim como ocorre com doenças como diabetes e hipertensão arterial.

- Há seis, sete anos, a sobrevida do câncer de cólon era de 11 meses. Hoje já é 30 e está crescendo. É cada vez mais comum ver pacientes de câncer ditos incuráveis com sobrevida de dez anos. Nos casos do de mama , reto e próstata, a sobrevida está aumentando a cada ano que passa - explica o oncologista Gilberto Amorim, do Instituto Nacional do Câncer (Inca).

Estes testes identificam se o paciente vai se beneficiar mais da quimioterapia, da radioterapia ou de uma combinação de tratamentos que inclui drogas orais, ou até mesmo se o tratamento escolhido não vai ser eficaz.

- No início, o tratamento do câncer era basicamente a quimioterapia, que funciona como tiro de cartucheira, ou seja, atira para todo lado. Às vezes, a quimioterapia acerta o alvo certo, às vezes mais do que deveria e outras vezes, nada. Isso não é o ideal. Os tratamentos hoje visam atingir apenas as células cancerosas, sem afetar as células saudáveis. É como se a gente trocasse a cartucheira por um tiro teleguiado - explica o oncologista Paulo Hoff, diretor do setor de oncologia do Hospital Sírio Libanês e do Hospital das Clínicas de São Paulo.
Polêmica envolvendo o teste

Para médicos e pacientes, esta notícia tem um grande impacto não só na forma do tratamento, como também em seu custo. Embora um teste deste tipo custe cerca de R$ 3 mil, o paciente com câncer pode gastar o triplo disto em quimioterapia e medicamentos antes de perceber que o tratamento não está dando certo.

Por outro lado, os testes que verificam se o indivíduo tem alto risco de sofrer algum tipo de câncer - que já podem ser feitos no caso do de mama e de cólon - ainda não são bem aceitos pela comunidade médica. A oncologista Clarissa Matthias, diretora do Núcleo de Oncologia da Bahia, frisa que o teste pode ser eficaz em doenças que podem ser evitadas com atitudes preventivas.

- No câncer de mama, mulheres que testam positivo para mutações que quase sempre levam à doença reduzem suas chances em 90% quando fazem uma mastectomia profilática. Se o câncer de mama fosse comum na minha família, ia querer que minha filha fizesse o teste e a cirurgia de retirada das mamas. É uma escolha da pessoa com seu médico, mas acho importante ter esta opção - diz a médica.

Hoff discorda, lembrando que mesmo com uma alta chance de desenvolver o câncer, a pessoa pode nunca desenvolver a doença.

- Podemos até fazer um cálculo, dependendo do tipo de câncer, de quanto é causado pela genética e pelas atividades do dia-a-dia. São pouquíssimas as situações em que o teste vai determinar se a pessoa vai ter câncer e ela vai estar com o destino selado. Os testes que prevêem se as pessoas vão ou não ter câncer são polêmicos e ainda vão demorar bastante para serem adotados pelos médicos - acredita o oncologista.

11/02/2008 - 08:32h Tumores evoluem para resistir a drogas

Brasileiro radicado no Reino Unido detecta seleção natural agindo em “tempo real” para mudar genes de câncer de mama

Quimioterápico causa uma mutação benéfica à célula doente, que se espalha entre as células; estudo saiu on-line na revista “Nature”

RAFAEL GARCIA
DA REPORTAGEM LOCAL - FOLHA DE SÃO PAULO

“Nada em biologia faz sentido a não ser sob a luz da evolução.” Quando o biólogo russo-americano Theodosius Dobzhansky (1900-1975) cunhou essa frase, estava se referindo ao princípio subjacente a tudo o que é vivo, mas não estava dizendo necessariamente que o mesmo tipo de lógica se aplicaria especificamente à busca de tratamentos contra o câncer.

Essa surpresa foi algo com que o patologista brasileiro Jorge Reis-Filho, 32, se deparou. Tentando entender como tumores adquirem resistência a drogas quimioterápicas, a equipe liderada pelo cientista no Centro Breakthrough de Pesquisa em Câncer de Mama, de Londres, descobriu como um tipo de tumor “evolui”. Atacado por um remédio, o câncer pode se adaptar por meio da seleção natural a um ambiente que em tese lhe seria hostil.

A descoberta teve participação de outra equipe, liderada pelo bioquímico Alan Ashworth. Os cientistas mostraram que o câncer de mama causado por uma mutação no gene BRCA2 -um dos tipos mais comuns de variedades hereditárias dessa doença- pode desenvolver tolerância a medicamentos modernos, que atacam o DNA do tumor.

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