05/11/2008 - 10:54h A verdade incomoda

Juarez Rodriguez/Estado de Minas/Folha Imagem e Luiz Costa/Hoje em Dia/AE

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Aécio e Serra: atuação dos governadores de Minas e São Paulo na campanha municipal gera tensão interna no PSDB agravada pela certeira etiqueta colada por Márcio Lacerda, prefeito de BH na aliança paulista: centro-direita

PSDB contesta declarações de Lacerda sobre apoio da legenda a Quintão

Raquel Ulhôa, de Brasília - VALOR

A declaração do prefeito eleito de Belo Horizonte, Márcio Lacerda (PSB), sobre suposta interferência de “correntes políticas de São Paulo” na campanha eleitoral mineira para favorecer o candidato do PMDB, Leonardo Quintão, serviu como um alerta para a cúpula tucana. Setores do PSDB viram no gesto sinal de uma campanha de bastidor para enfraquecer a pré-candidatura do governador de São Paulo, José Serra (PSDB), à Presidência da República.

Lacerda, em entrevista ao “Estado de S.Paulo”, afirmou ter notícias de que a campanha do seu adversário teve “apoio financeiro muito forte de São Paulo” e de “correntes que não queriam o sucesso” do governador Aécio Neves (PSDB), de Minais Gerais. Serra e Aécio são os dois nomes do PSDB cotados para encabeçar a disputa presidencial de 2010. Lacerda foi apoiado por Aécio e pelo prefeito de Belo Horizonte, Fernando Pimentel (PT).

Lacerda disse, ainda, que Aécio e o deputado Ciro Gomes (PSB-CE) - seu padrinho político - não têm “aquela fome de ser presidente que Serra tem”. Setores do PSDB preferem achar que Ciro Gomes - e não Aécio - está por trás das acusações de Lacerda. Querem evitar uma crise interna no PSDB. O prefeito eleito foi secretário-executivo do Ministério da Integração Nacional em 2003, na gestão de Ciro.

“Pato novo, quando mergulha fundo, corre perigo”, afirmou ontem o líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio (AM), referindo-se às declarações de Lacerda, vistas como tentativa de atingir Serra. “É bom ele (Lacerda) se preocupar com seu partido e não opinar sobre o meu. Se quiser, que o faça. Mas sem torcer os fatos. O governador Serra não se intrometeu na eleição de Minas. Disse, apenas, que o modelo adotado em Belo Horizonte (aliança do PT com o PSDB) não é fácil repetir”, disse Virgílio.

O presidente do PSDB, senador Sérgio Guerra (PE), foi o primeiro a reagir ao que considerou “insinuações” do prefeito eleito, negando que Serra tenha atuado durante a campanha a favor da candidatura de Quintão. Em São Paulo, o candidato de Serra - o prefeito Gilberto Kassab (DEM), que foi reeleito - disputou em aliança com o PMDB.

“A atuação dos dois governadores, Serra e Aécio, foi coordenada pelo partido”, disse Guerra. Segundo ele, “não há nenhuma chance” de Serra ter interferido na campanha de Belo Horizonte para prejudicar o candidato de Aécio. Assim como, segundo ele, o governador mineiro não atuou em São Paulo sem o conhecimento do partido. Guerra lembrou que o apoio de Aécio à candidatura de Lacerda, numa aliança com o PT, foi aprovada por unanimidade pela Executiva Nacional do PSDB - o que não ocorreu no PT.

O líder do PSB no Senado, Renato Casagrande (ES), não viu problemas na declaração de Lacerda - a não ser para o PSDB. “Se a colaboração financeira (para a campanha de Quintão) foi legal, lícita, não vejo problema nenhum, a não ser a repercussão política das relações internas do PSDB”, disse. O que chamou a atenção de Casagrande, na entrevista, foi a definição que Lacerda fez da aliança ocorrida em Belo Horizonte - “de centro-esquerda” - e a de São Paulo - “centro-direita”. Para Casagrande, o prefeito eleito tem razão, porque a aliança feita em São Paulo é de “direita, conservadora”.

Ele considerou natural que Lacerda se posicione claramente com relação aos projetos colocados para o Brasil hoje. Segundo o líder, o projeto do PSB é fortalecer a candidatura de Ciro Gomes em 2010.

04/11/2008 - 11:11h Subserviências

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A jornalista Dora Kramer, na sua coluna de hoje no Estadão, acusa o prefeito eleito de Belo Horizonte, Márcio Lacerda, de “subserviência”. O motivo é a afirmação de Lacerda caracterizando a coligação de José Serra em São Paulo, de “centro-direita”.

Diferentemente do prefeito de São Paulo, que como todos sabem é um político com brilho e personalidade própria, que nunca manifestou qualquer “subserviência” para com seu “grande comandante”, o de BH e Eduardo Paes, de Rio, não podem manifestar uma opinião política tão manifestamente ultrajante.

Onde se viu tratar de “centro-direita” a aliança demo-tucana pro-Serra?

Políticos despojados até do rótulo de políticos, administradores que agem para serem bons administradores, defendendo os interesses de todos, acima dos partidos, serem etiquetados como… partidários e acima de “direita”? (centro ainda tudo bem, mas a etiqueta vem com “centro-direita”, aí é demais).

O curioso é que não é avançada nenhuma argumentação contra. Vejam o que Dora Kramer escreve:

“Marionete

Os prefeitos eleitos do Rio e Belo Horizonte andam precisando de um bom amigo que lhes informe a diferença entre a fidelidade e a subserviência desmedida.

Para se eleger, Eduardo Paes seguiu a cartilha do governador Sérgio Cabral; correu literalmente atrás de uma palavra amiga do presidente Lula, foi humilhado por Marisa Letícia, pegou na mão de quem antes jamais pegaria.

Depois de eleito, Márcio Lacerda já se fez duas vezes porta-voz de provocações ao governador de São Paulo, José Serra: comparou em tom pejorativo a tendência paulista de “centro-direita” à ação mineira de “centro esquerda” e acusou a existência de “apoio financeiro vindo de São Paulo” na campanha de seu adversário, Leonardo Quintão.

Compreende-se que ambos sejam gratos aos governadores de seus Estados, sem os quais nem sonhariam em chegar à frente das respectivas prefeituras.

Mas, considerando que provocações e bajulações são atos pessoais e intransferíveis, o prestador de serviços corre riscos. Um deles é perder o respeito do público; outro é contratar inutilmente inimigos para o dia de amanhã.”

Ainda bem, volto a repetir, que Kassab não corre esse risco. Ele até ganha mais respeito do público quando declara, como ontem, que “o clamor dos cidadãos pedia para Serra deixar a prefeitura” no meio do mandato e que o “grande comandante” fará o “trabalho de preenchimento de cargos será coordenado pelo governador Serra. Ele é o líder. Então caberá a ele indicar os candidatos às outras vagas, para governador, vice-governador, senador…Quando existe uma aliança, a aliança faz o papel dos diversos partidos.” (entrevista de Kassab ao Correio Braziliense).

Democracia nas decisões e manifestação clara de independência que não merecem qualquer porém da mídia, muito chocada com o rótulo estampado por Márcio Lacerda na testa do grande comandante de Kassab, o de “centro-direita”.

Luis Favre

03/11/2008 - 08:27h ”Campanha do meu adversário teve apoio forte vindo de São Paulo”

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Márcio Lacerda: prefeito eleito de Belo Horizonte;

segundo ele, ajuda financeira para Quintão veio de correntes que não queriam o sucesso de Aécio na eleição

 

 

Eduardo Kattah, BELO HORIZONTE - O Estado SP

O prefeito eleito de Belo Horizonte, Márcio Lacerda (PSB), afirma que a campanha de Leonardo Quintão (PMDB), seu adversário no segundo turno, recebeu forte apoio financeiro “vindo de São Paulo”. Em entrevista ao Estado, o prefeito disse que esse apoio veio de correntes “que não queriam o sucesso do governador (Aécio Neves)”, em alusão velada ao governador José Serra (PSDB).

Lacerda disse que seus padrinhos Aécio e o deputado Ciro Gomes (PSB-CE) trabalham por um projeto de centro-esquerda, em contraponto à aliança de centro-direita de PSDB e DEM, simbolizada pela eleição de Gilberto Kassab (DEM) em São Paulo. Aécio e Ciro, diz, não demonstram “aquela fome de ser presidente que Serra tem”.

Não ganhar no primeiro turno comprometeu a aliança que o elegeu?

A vitória no primeiro turno aconteceu por falhas da nossa estratégia, não por falhas de concepção da aliança. Mas no Sudeste eu tive a maior votação (no primeiro turno) entre os candidatos mais bem colocados. Dizer que houve vitórias do Serra e do Sérgio Cabral (governador do Rio), porque os seus candidatos foram para o segundo turno, e uma derrota porque eu não fui (eleito no primeiro turno), é forçar um pouco a barra. Não houve derrota da aliança.

Que influência a eleição de Belo Horizonte teve sobre 2010?

Ela sinalizou que é possível tendências social-democratas dentro do PT e dentro do PSDB se unirem. E se uniram num projeto eleitoral para uma cidade. Não significa que isso aconteceria em outras eleições. Pode acontecer. O mínimo que deveria acontecer é os social-democratas dos grandes partidos se unirem para ter um projeto para o País. Qualquer que seja o novo presidente, o ideal seria que ele tivesse uma ampla coalizão de forças de centro-esquerda o apoiando, tanto na eleição quanto no governo.

O sr. classificou a vitória de Gilberto Kassab em São Paulo como uma aliança de centro-direita…

E é.

Ela não ajudou a desgastar a aliança do governador Aécio e do prefeito Pimentel, de PSDB com PT?

Não estou dizendo que (a aliança) tenha essa importância toda. Estou dizendo que ela sinaliza algo novo na política nacional, pelo ineditismo. O papel do Kassab será municipal, embora a máquina de uma prefeitura como a de São Paulo - Belo Horizonte muito menos - seja importante no apoio para eleição de governador e presidente. Mas eu digo que é de centro-direita na medida em que reflete uma aliança que o PSDB de São Paulo já tinha com o PFL (atual DEM) há mais tempo. O governador (Aécio) falou isso para ele. Ele disse: “Já falei para o meu amigo Serra que se ele quiser ser presidente tem de criar uma ampla coalizão, um movimento de opinião.”

Como assim, um movimento de opinião?

Para que ele possa governar com a base social-política necessária capaz de gerar as transformações de que o País precisa. Ele precisa ganhar essa base ampla de opinião. Mostrar que é capaz de aglutinar. Ninguém pode ser candidato de si mesmo ou de um partido. Se você pensar bem, o Lula não foi eleito pelo PT. A votação dele foi o dobro da capacidade do PT de gerar votos. Acho que o centro do debate é este: que projeto o novo presidente terá para o País e qual a ampla coligação de forças e movimento de opinião que vai ajudá-lo a governar depois.

O sr. disse que a sua aliança enfrentou resistências vindas de fora, de São Paulo. De onde partiram essas resistências?

A cúpula do PT foi amplamente contrária, isso é conhecido. O PSDB nacional apoiou. Mas a gente tem notícias de que a campanha do meu adversário teve um apoio muito forte vindo de São Paulo.

Que tipo de apoio? Dado por quem?

Prefiro não dizer, porque eu tenho notícias de que o apoio financeiro vindo de São Paulo foi muito forte. Apoios ao candidato do PMDB e de correntes que não queriam o sucesso do governador (Aécio) nessa empreitada.

Qual a participação de Ciro na escolha do seu nome? Que tal a dobradinha Aécio-Ciro para 2010?

Ele participou da articulação aqui. Eu soube da participação dele nas articulações em outubro de 2007. Eu não vejo nem Ciro nem Aécio com aquela fome de ser presidente. Eles são até desapegados da idéia. Não têm aquela gana de ser presidente que parece que o governador José Serra tem. Eles querem um projeto para o País. Os dois querem um projeto de centro-esquerda.

19/10/2008 - 11:22h Nova virada eleitoral pode acontecer em BH

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Márcio Lacerda (PSB) e Leonardo Quintão (PMDB) na disputa em BH

 

KENNEDY ALENCAR Colunista da Folha Online

O deputado federal Leonardo Quintão (PMDB) é um dos fenômenos destas eleições municipais. Na reta final do primeiro turno em Belo Horizonte, o peemedebista cresceu e quase encostou em Márcio Lacerda, candidato do PSB à prefeitura da capital mineira. Resultado: 43,5% dos votos válidos para Lacerda e 41,2% para Quintão.

No começo da campanha para o segundo turno, pesquisas apontaram uma vantagem de Quintão na casa dos 20 pontos percentuais. Levantamento realizado pelo Datafolha nas últimas sexta e quinta-feira constatou uma redução dessa vantagem para exatos 10 pontos percentuais –47% para Quintão contra 37% de Lacerda. Em votos válidos, excluídos brancos, nulos e indecisos, a pesquisa dá 56% ao peemedebista e 44% a Lacerda.

Na quarta-feira, houve a sabatina da Folha com os dois candidatos –este jornalista foi um dos entrevistadores. Impressão: Quintão é uma águia política. Carismático, bom de TV, inteligente. Isso tudo é verdade. Mas lembra muito o Fernando Collor de 1989. Não no sentido agressivo. Pelo contrário. É bem cordato. Mas usa chavões com eloquência, o que é sinal de vazio de idéias. Quintão parece ter vestido um personagem para a eleição, como Collor na primeira disputa presidencial após a redemocratização.

Na sabatina, Lacerda lembrou que Quintão usou dados de fichas da repressão da ditadura para chamá-lo de assaltante de bancos. O peemedebista diz que apenas reproduziu o que estava na ficha do adversário. Ora, logo alguém do PMDB, partido que fez oposição, ainda que consentida, à ditadura. Rapidamente, ele saiu da armadilha, dizendo que a ditadura era ruim e que o PMDB a combatera, mas o ataque já estava nas ruas de BH havia dias.

Lacerda caiu em contradição, como criticar as companhias peemedebistas de Quintão tão benquistas por seu maior aliado, o governador de Minas, Aécio Neves (PSDB). O candidato do PSB também reconheceu que errou na campanha de primeiro turno, recusando-se a responder a ataques e ficando escondido na propaganda de TV. Aécio e o prefeito da capital, Fernando Pimentel (PT), fizeram uma aliança à força, desagradando partidários e aliados. Aécio e Pimentel tiraram Lacerda do bolso do colete e estão tomando um belo susto.

Mas, de novo, uma impressão: o candidato do PSB demonstrou mais consistência política e administrativa na sabatina. Ao final do encontro, gente que pensava em votar em Quintão já admitia optar por Lacerda ao obter mais informações sobre os candidatos. Havia 200 pessoas na sabatina. A percepção deste jornalista é de que ocorre uma reflexão sobre a onda Quintão. Há chance de nova virada em Minas.

(…)

Leia a integra da coluna de Kennedy Alencar na Folha online
Kennedy Alencar, 40, é colunista da Folha Online e repórter especial da Folha em Brasília. Escreve para Pensata às sextas e para a coluna Brasília Online, sobre os bastidores da política federal, aos domingos. Também é comentarista do telejornal “RedeTVNews”, no ar de segunda a sábado às 21h10.

E-mail: kalencar@folhasp.com.br