17/08/2008 - 15:23h Educação: O boletim das cotas raciais

Cotistas da UnB têm rendimento melhor do que os demais alunos na área de Humanas, mas suas notas são piores em Exatas

 

Ana Beatriz Magno - Correio Braziliense

Fotos: Edilson Rodrigues/CB/D.A Press
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Felipe, da engenharia mecatrônica, tem dificuldades para acompanhar o terceiro semestre do curso

 

 

 

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Depois de reprovar no sistema universal, Lucas optou pelas cotas para passar em relações internacionais

 

 

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Laila Antunes, da enfermagem, não sente vergonha de ser uma cotista: “Minhas notas são boas”

 

 

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Lúcio, da engenharia mecânica, vincula o desempenho na UnB à qualidade da educação fundamental

 

 

 

Laila Ramos Antunes cumpre na pele a sina de seu nome. “Laila significa negra como a noite”, diz a moça de 21 anos, aluna do terceiro semestre de enfermagem na Universidade de Brasília. “Entrei pelas cotas e não tenho vergonha disso. Não tive o privilégio de estudar em colégios particulares caros nem venho para o câmpus de carrão”.

Ela vai e volta de ônibus, mora no Guará, usa óculos espelhados, tem cabelo de trançinhas rastafári e convive com uma vontade engasgada de estudar medicina. “Eu tentei três anos e não passei. Desisti, entrei na enfermagem e estou conseguindo entender as aulas com alguma tranqüilidade. Minhas notas são boas”, explica.

A dificuldade de Laila para entrar na UnB e sua facilidade em acompanhar o curso retratam o resultado de uma pesquisa inédita coordenada pelo professor Jacques Velloso, da Faculdade de Educação. Ele compara o desempenho acadêmico dos estudantes cotistas e não-cotistas desde 2004, quando o programa de cotas raciais foi criado, e mostra que a performance dos alunos varia de acordo com a faculdade escolhida.

As notas dos estudantes da área de Saúde, por exemplo, não têm cor. Cotistas e não-cotistas empatam. “São cursos muito disputados no vestibular. O nível de quem entra é muito alto independentemente das cotas e, por isso, durante a faculdade as notas são muito parecidas”, explica o educador Jacques Velloso. “Esse empate ocorre em um terço dos 62 departamentos da UnB”.

Os cotistas empatam com os não-cotistas na Saúde, ganham nas Humanidades e perdem nas Exatas. “Nas Exatas, o aluno precisa de base forte em matemática e física.Essa base ainda é fraca nas escolas públicas de onde vem a maioria de quem entra pelas cotas”, analisa a pedagoga Claudete Batista Cardoso, 27 anos. “Já nos cursos de Humanas, os alunos cotistas podem usar sua experiência social e cultural para obter um bom rendimento acadêmico”, completa Jacques Velloso.

Velloso orientou a dissertação de mestrado de Claudete defendida em maio passado sobre as chamadas políticas de ação afirmativa — aquelas que pretendem compensar séculos de exclusão social, com a concessão de alguns benefícios. Podem ser por raça, por renda familiar, por local de estudo.A UnB optou pelo programa de cotas raciais e há quatro anos garante 20% das vagas no vestibular para afrodescendentes.

Todos têm que comprovar suas raízes. As facilidades, no entanto, acabam no momento da matrícula. “No meu trabalho tentei mostrar que não basta criar o programa de cotas para a entrada na universidade”, analisa Claudete, integrante da equipe de pesquisa de Jacques Velloso. “Os dirigentes da UnB precisam dar mais atenção a esses estudantes depois que eles entram, justamente para ajudar os que têm as notas menores e sofrem pela falta de base no ensino fundamental.”

Felipe Guimarães de Oliveira, 20 anos, morador de Samambaia, sofre para acompanhar o terceiro semestre de engenharia mecatrônica — curso difícil de entrar e dificílimo de terminar: menos de 10% dos alunos conseguem atravessar os cinco anos de faculdade sem ser reprovado em alguma matéria pelo menos uma vez. Felipe bombou já no primeiro período. Foi reprovado em cálculo 1, o bicho-papão dos calouros de Exatas.

“Eu ralo muito. Sempre estudei em colégio público. Era bom aluno, mas já nas primeiras semanas de UnB percebi que eu estava muito distante dos meus colegas. Meus hábitos de estudos eram fracos, me faltava disciplina. Estou tentando me adaptar”, diz Felipe. “Meus pais não têm curso superior. Sou uma exceção aqui dentro. Não é só na cor. É em tudo”.

O rapaz viaja duas horas de ônibus para ir e voltar do câmpus, não fez cursinho nem tem laptop. “Isso tudo influencia. Acho que a universidade deveria ter um programa de reforço acadêmico para nós, cotistas. Às vezes, a reitoria manda umas cartinhas, mas é só isso”, lamenta.

A direção da UnB reconhece que há falhas no programa de cotas. “Estamos tentando reestruturá-lo. Antes, ele era ligado ao gabinete do reitor. Agora, queremos vinculá-lo ao Decanato de Graduação”, explica o professor Luiz Gonzaga Motta, secretário de Comunicação da universidade. “O programa de cotas não pode ser uma jóia política do reitor. Tem que ter finalidades acadêmicas”, emenda Motta.

Humanidades

Se nas engenharias, as notas dos cotistas perdem até dois pontos em relação aos não-cotistas, em várias cursos de Humanas o resultado é inverso. “As diferenças não são tão grandes como na engenharia, mas mostram que o estudante de cota pode se superar quando tem a chance de entrar na universidade”, analisa a socióloga Maria Francisca Coellho, professora do departamento de sociologia. “Isso é bom, democratiza a universidade e investe num valor que vai além da competição.”

Lucas Augusto Santos Batista achou que não conseguiria ganhar a árdua competição para entrar no curso de relações internacionais. Tentou uma vez sem o apoio do programa de cotas. Não conseguiu. “Fiquei com medo de ser reprovado mais uma vez e me inscrevi como cotista. Sou negro, mas não sou pobre. Moro no Plano Piloto e sempre estudei em colégio particular”, diz o rapaz de 18 anos, no terceiro semestre de relações internacionais. “Quero ser diplomata. Não estou com dificuldades na faculdade.”

As pesquisas do professor Velloso mostram que o temor de Lucas não é despropositado.Sem as cotas, um jovem negro teria menos da metade das chances de entrar na faculdade do que com as cotas. “É inegável que o programa tem seus méritos, mas mesmo assim eu discordo das cotas. Só está entrando uma elite negra na universidade, o que desperta uma rivalidade racial dentro do câmpus”, pondera o professor de relações internacionais Paulo Nascimento. “Acho muito mais interessante um programa que beneficie os alunos das escolas públicas, independentemente de suas raças.”

“Lógico que também seria interessante se tivéssemos cotas para os colégios públicos, mas não podemos descartar o que já conquistamos em matéria de democratização do acesso com as cotas raciais. Elas melhoraram a universidade”, rebate a socióloga Maria Francisca.Em matéria de dedicação dos estudantes, os números a apóiam. Os alunos cotistas abandonam menos os cursos. Em 2005, por exemplo, enquanto a evasão dos não-cotistas ficou em 16%, a dos cotistas não passou de 10%.

“Mas no geral, os dados mostram que as cotas correspondem a uma correção necessária para melhorar o acesso à universidade, porém seus resultados são muito pequenos para corrigir as desigualdades sociais e raciais do país”, conclui o educador Jacques Velloso. “Sou de cota, mas sou bom. Sou bom porque tive uma educação fundamental boa. Isso é uma exceção para os cotistas, mas não é um problema dos cotistas. É um problema do Brasil”, ensina o futuro engenheiro mecânico Lúcio Gomes Nascimento, de 19 anos.

APROVEITAMENTO Em um terço dos 62 cursos da UnB não há diferença entre o rendimento acadêmico de cotistas e não-cotistas

EVASÃO ESCOLAR 16% dos estudantes que entraram na UnB sem cotas em 2005 abandonaram o curso. Entre os cotistas esse percentual foi de 10%

HUMANIDADES As notas dos cotistas em 2005 superaram as dos não-cotistas em 18 cursos CHANCES Em 2006, as chances de um aluno negro entrar num curso de ciências humanas sem cotas eram de 9% com as cotas, as chances pularam para 20%

CIÊNCIAS EXATAS Em 2006, as chances de um estudante negro entrar num curso de ciências exatas sem cotas eram de 7% Com as cotas, as chances pularam para 20% ENGENHARIA Numa escala de 1 a 5, a média dos estudantes não-cotistas de engenharia civil em 2006 foi 3,6 entre os alunos cotistas, a nota foi 2,5

SAÚDE Em 2006, as chances de um estudante negro entrar num curso de ciências da saúde, eram de 10% com as cotas, as chances pularam para 20% MEDICINA Em 2006, o rendimento dos estudantes cotistas no curso de medicina foi igual ao dos não-cotistas

16/06/2008 - 09:11h Sonhos

Seria realmente ótimo se o Brasil fosse esse paraíso mestiço que os nãoracialistas apregoam

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NEI LOPES - O GLOBO

Contrariando expectativas que já duram mais de cem anos, no Brasil, “país com maior população afro-descendente fora da África”, “negros e pardos vão superar o número de brancos neste ano” de 2008, conforme afirmações textuais do jornalista Ivan Martins, em reportagem publicada na edição do último de junho da revista “Época”, publicação semanal da Editora Globo. As afirmações, acompanhadas da constatação de que o país “não tem um único político negro de projeção nacional”, vem a propósito da candidatura do senador Barack Obama à Presidência dos Estados Unidos.

No momento em que o Congresso Nacional prepara a votação do Estatuto da Igualdade Racial, um grupo de intelectuais e artistas lidera a corrente contrária à aprovação do texto, colocandose contra a “grave ameaça” de secessão da sociedade brasileira em “negros” (pretos e pardos) e “brancos” (louros e “morenos”), como se essa divisão, em termos de poder e capital, já não fosse a grande característica desta sociedade.

Invocam, agora, esses arautos da “desracialização”, no calor da discussão sobre o problema social brasileiro, o suposto exemplo de Obama, o qual, em pura retórica de campanha, afirmou num discurso que “não existe uma América branca, uma negra, uma asiática, uma hispânica: e sim os Estados Unidos da América”. E os “desracializadores” invocam o candidato americano, nos apontando o dedo, como se dissessem: “Estão vendo? Ele não exibe a cor da pele como uma arma ou um escudo!” Para nós seria realmente ótimo se o Brasil fosse esse paraíso mestiço que os não-racialistas apregoam.

Se além dos mulatos “no sentido lato”, como diz a canção, também aqueles no sentido estrito (com a indisfarçável fenotipia dos majoritariamente afro-descendentes), como o autor destas linhas se vê e considera, tivessem as possibilidades de poder e influência que tem o afro-americano Barack Obama. Mas esta, infelizmente, não é a nossa realidade.

Atrasados em pelo menos cinqüenta anos com relação às conquistas sociais do povo negro nos Estados Unidos, no Brasil, nós, herdeiros do mesmo brutal despojamento que plasmou a sociedade norte-americana (e do qual Obama, esclareça-se, não é vítima direta), vimos sendo, há mais de 120 anos, forçados a acreditar que neste país “alegremente mestiço e desracializado” nunca houve segregação nem ku-kluxklan, e que nossa inferioridade se deve apenas a problemas econômicos e pode ser zerada com boas escolas e boas merendas para todos.

Mas aí vem o jornalista Ivan Martins, da “Época”, e, depois de dar a palavra ao idealizador e diretor da paulista Universidade Zumbi dos Palmares, “gerida por negros, subsidiada e voltada para as classes mais pobres”, pergunta, na reportagem mencionada: “Quanto tempo, porém, será necessário para que se produza um líder como Obama no Brasil?” Enquanto isso não ocorre, meu amigo Martinho da Vila segue cantando seus belos sambas-enredo.

Principalmente, o “Sonho de um sonho”, com que sua escola chegou em segundo lugar (empatada com mais duas) no disputado carnaval de 1980.

14/05/2008 - 09:04h Ipea: trabalhador negro ganha 53% menos que o branco

Mantida a tendência atual, igualdade de rendimentos só seria atingida no Brasil dentro de mais de três décadas

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Geralda Doca - O Globo

BRASÍLIA. A população negra, composta por brasileiros pretos e pardos, será maioria ainda este ano. Porém, o Brasil está longe de ultrapassar de vez as barreiras da desigualdade. Segundo estudo inédito do Ipea, divulgado ontem, as políticas públicas em andamento (programas de transferência de renda e ações específicas, como as cotas) não têm compromisso com a questão racial e mantêm longa a jornada rumo ao fim das disparidades.

Mantidas as tendências atuais, o Brasil levaria 32 anos para igualar a renda dos trabalhadores: os negros ganham hoje, em média, R$ 558,24, 53% menos do que o rendimento médio dos brancos: R$ 1.087.
Ontem, foram celebrados os 120 anos da Abolição da Escravatura.

Mas as distorções provocadas pela falta de uma política pública, quando os escravos foram libertados, ainda se manifestam. Diretor de Cooperação e Desenvolvimento do Ipea, Mário Theodoro, autor do estudo, defendeu duas linhas de atuação para superá-las.

A primeira é a adoção de outras políticas universais, além da educação, que assegurem direitos e condições de vida, como acesso à moradia e urbanização.

Ela é apoiada, também, no crescimento econômico, que reduz a informalidade, maior entre negros. A segunda é que essas e outras políticas e programas incorporem o foco racial como estratégia do Estado.

Apesar da importância do Bolsa Família, que ajuda a redizir a pobreza, Theodoro disse que o modelo do programa está esgotado em sua capacidade de promover a igualdade entre negros e brancos, porque a maioria da população mais pobre já foi contemplada.

— Temos muitas dúvidas se essas tendências vão continuar.

O Bolsa Família está chegando ao limite e não terá mais capacidade para reverter o problema da desigualdade entre brancos e negros — disse Theodoro, citando também “o caráter assistencialista do programa”.

Theodoro exemplifica com a educação. Ao se compararem indicadores básicos, como os de alfabetização, vê-se que o Brasil avançou muito em 30 anos. Em 1976, 92% dos brancos sabiam ler e escrever, contra 78% dos negros. Atualmente, a proporção é de 99% e 97%, respectivamente.

Isso deve-se à universalização do ensino fundamental.

Mas estes números não melhoraram as oportunidades dos negros — tanto que a distância entre o número de brancos e negros nas universidades se ampliou no mesmo período: de 4 pontos percentuais para 12,1.

Negros são maioria entre empregados domésticos A pesquisa aponta ainda outras disparidades existentes entre as duas raças no mercado de trabalho: há quase um milhão de negros a mais à procura de emprego na comparação com os brancos. Além disso, a população negra é maioria nas ocupações sem remuneração, sem carteira assinada e domésticas.

No mercado formal, os negros superam os brancos em setores que pagam mal, como agricultura e construção civil.

Em 2010, os negros serão maioria absoluta, mais de 50% dos brasileiros, porque as negras estão tendo mais filhos do que as brancas. Em 2006, 49,7% dos brasileiros se declararam brancos, ao passo que 49,5% se disseram negros. Trinta anos antes, a distribuição era 57,2% e 40,1%, respectivamente.

13/05/2008 - 12:52h IGUALDADE RACIAL: “Falta muito para inserir o negro na sociedade”

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DA REPORTAGEM LOCAL FOLHA DE SP

Militante do movimento negro desde os anos 70, o negro Carlos Alberto Medeiros, 60, é um dos signatários do documento que será entregue hoje no STF. Presidente do Centro Brasileiro de Informação e Documentação do Artista Negro, ele é um entusiasta da política de cotas raciais. “Já conquistamos, do ponto de vista das leis, direitos iguais para os negros. Está consagrado na Constituição de 1988″, diz. “Mas ainda falta muito para a inserção real do negro na sociedade. O negro que freqüenta uma boa escola, por exemplo, ainda é barrado pela discriminação do mercado de trabalho”, afirma.

Segundo Medeiros, os adversários das cotas, signatários do manifesto “113 cidadãos anti-racistas contra as leis raciais”, servem de fachada para interesses egoístas e racistas. “Nós não podemos mais nos restringir à denúncia de discriminação contra os negros. É preciso apontar formas reais de superação.”

Medeiros lembra que, quando o Movimento Negro Unificado foi fundado, em 1978, havia o caso de quatro atletas negros de uma equipe mirim que haviam sido proibidos de entrar no Clube de Regatas Tietê por causa da cor da pele. “Se a diretoria aceita um sócio de cor e ele entra na piscina, na mesma hora, cem sócios deixam o clube”, chegou a declarar um conselheiro do clube. “Hoje, ofensas como essa são raras porque os negros adquiriram consciência de seus direitos e o preconceito se sofisticou”, diz.

“Se demos grandes saltos, porém é impossível deixar de reconhecer que, entre um trabalhador negro e outro branco, com igual qualificação, a vaga de emprego tem grandes chances de acabar com o branco. Combater a discriminação exige enfrentar a questão racial. Não fazê-lo só serve para os verdadeiros racistas manterem tudo como está”, diz Medeiros.

13/05/2008 - 12:48h IGUALDADE RACIAL: Rio estuda aprofundar política de cotas

Lei estadual de 2003 passa por uma revisão e principal ponto é preparar estudantes para mercado de trabalho

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Roberta Pennafort - O Estado de São Paulo

O universitário Cyro Garcia Júnior, de 26 anos, chega em casa diariamente perto de meia-noite. Janta e vai logo dormir, já que acorda bem cedinho. Às 5h50, ele tem de estar pronto para mais um dia em que se dividirá entre o curso de filosofia na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e o trabalho. Horário para estudar? Praticamente inexiste.

“Aproveito para ler no ônibus e no trem. Durmo 4 horas por noite, mas não dá para cochilar, porque essa é a hora que tenho para estudar”, conta Cyro, que chegou ao ensino superior graças à reserva de vagas para negros.

Melhorar a vida de jovens como Cyro é um dos objetivos da comissão da Procuradoria-Geral do Estado do Rio designada para rediscutir a Lei das Cotas. A legislação estadual entrou em vigor em 2003 e uma revisão depois de 5 anos já estava prevista. Se a meta inicial era garantir o acesso à universidade a estudantes negros ou de baixa renda, agora o foco maior é o preparo dos cotistas para o competitivo mercado de trabalho que os espera depois da formatura.

“A idéia é aperfeiçoar a lei, sem alterar sua essência. É preciso preparar o estudante para o mercado. Por exemplo, dando prioridade a cotistas na seleção para estágios no serviço público estadual”, explica o procurador Augusto Werneck, que coordena a comissão. Ela preparou um anteprojeto que será entregue hoje, Dia da Abolição da Escravatura, ao governador Sérgio Cabral (PMDB). Ele, por sua vez, terá de enviar um projeto de lei à Assembléia Legislativa para que as novas regras valham já para o vestibular de 2009.

O anteprojeto prevê a manutenção das cotas em 20% para negros, 20% para alunos de escolas públicas e 5% para deficientes, indígenas e filhos de policiais mortos em serviço. Também mantém o pagamento de bolsa-auxílio durante todo o curso, o que já deveria valer, mas não vem sendo aplicado na Uerj, por falta de verba.

Outros itens são o combate rigoroso à fraude na autodeclaração dos inscritos e a extensão do período de revisão da lei para dez anos. “Cinco anos é muito pouco tempo para avaliar os efeitos na sociedade. Nos Estados Unidos, figuras como Barack Obama e Condoleezza Rice só surgiram 30 anos depois das primeiras ações afirmativas”, argumenta Werneck.

DEMANDAS

Fundador da ONG Educafro e militante pela inclusão de jovens afrodescendentes no ensino superior, frei David dos Santos acha fundamental o aperfeiçoamento da lei. Ele diz que entre as demandas dos cotistas estão o cumprimento da extensão da bolsa-auxílio durante todo o curso e não só nos primeiros anos, o fim das duas fases eliminatórias na Uerj (com o restabelecimento de uma primeira, eliminatória e de uma segunda apenas classificatória), a extensão da isenção da taxa do inscrição no vestibular para todos os alunos de escolas públicas e o aumento no número de livros disponíveis nas bibliotecas.

“Tem curso com 40 alunos e dois livros. Isso é desonesto, porque os livros são caros. O problema está em todos os cursos, mais especialmente de direito e odontologia”, diz frei David. Ainda mais importante, para ele, é sensibilizar a instituição de ensino. “As cotas estão caminhando sem o envolvimento da universidade”, critica. “Se os professores fossem um pouco mais empolgados, os cotistas se sairiam ainda melhor. Eles não motivam os alunos.”

13/05/2008 - 12:46h IGUALDADE RACIAL: ONG premia defensores da inclusão de negros

Afrobrás entregou medalhas a personalidades como Marta Suplicy, ministra do Turismo e Edson Santos, secretário de Igualdade Racial

Ministra do Turismo recebe Medalha do Mérito Cívico Afro-Brasileiro

RICARDO WESTIN - FOLHA DE SÃO PAULO

DA REPORTAGEM LOCAL

O aniversário da abolição da escravatura foi lembrado ontem à noite em São Paulo num evento em que a ONG Afrobrás entregou medalhas a mais de uma dezena de personalidades que foram importantes para a inclusão dos negros na sociedade. Entre os homenageados, estiveram a ministra Marta Suplicy (Turismo) e o secretário nacional Edson Santos (Igualdade Racial). Ambos defenderam o sistema de cotas para negros, adotado em diversas universidades públicas.
“Há polêmica na questão das cotas”, disse Santos, referindo-se às várias ações na Justiça contra esse sistema. “Mas o governo não vai baixar o nível. Tenho certeza de que tanto os negros como toda a sociedade brasileira ganharão com isso.”
Logo em seguida, Marta lembrou a época em que era estudante nos EUA. “Foi há quase 40 anos. Me puseram numa classe dos primeiros cotistas americanos negros. Eles ingressaram na universidade graças à cota. Também não foi fácil lá. Houve muita resistência. Depois desses 40 anos, fui vendo como os cidadãos americanos negros, graças às cotas, foram ocupando lugares de prestígio. E hoje há um pré-candidato negro à Presidência.”
Marta, que é a possível candidata do PT à Prefeitura de São Paulo, lembrou que, em seu mandato, o 20 de novembro tornou-se o feriado do Dia da Consciência Negra na cidade.
A cerimônia da entrega das medalhas do mérito cívico afro-brasileiro foi realizada na sede da Unipalmares (Universidade da Cidadania Zumbi dos Palmares), na zona oeste. A universidade, a primeira no país voltada para a inclusão dos negros no ensino superior, tem a Afrobrás como mantenedora.
Também receberam a medalha o ator e cantor Toni Tornado, a atriz Neuza Borges, os desembargadores Ericksson Gavassa Marques e Otávio Augusto Toledo e a secretária estadual da Educação, Maria Helena Guimarães Castro , entre outras personalidades.
O governador José Serra (PSDB) e o prefeito Gilberto Kassab (DEM) também foram homenageados, mas não compareceram.

13/05/2008 - 12:38h IGUALDADE RACIAL: atos retomam discussão sobre cotas para negros

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DA SUCURSAL DE BRASÍLIA - Folha SP

A questão das cotas para negros em universidades ganhou fôlego nos últimos dias em razão de manifestações de grupos favoráveis e contrários à política.
As ações se concentram na Câmara dos Deputados, onde tramita projeto de lei que institui a política de cotas, e no STF (Supremo Tribunal Federal), que vai julgar duas ações diretas de inconstitucionalidade sobre o tema.
Hoje, defensores das cotas vão à Câmara pedir a aprovação do projeto -sem ele, são as universidades que decidem se adotam ou não o sistema, o que dá margem a contestações judiciais.
À tarde, eles entregam um manifesto com mais de 400 assinaturas ao presidente do STF, ministro Gilmar Mendes, em que pedem a rejeição das ações contra as cotas. Entre os signatários estão o arquiteto Oscar Niemeyer e o ator Lázaro Ramos.
As ações contestam as cotas no ProUni (Programa Universidade para Todos) e em vestibulares de universidades estaduais do Rio de Janeiro.
O julgamento começou no dia 2 de abril, mas foi interrompido por um pedido de vista do ministro Joaquim Barbosa. O voto do relator, Carlos Ayres Britto, foi a favor das cotas.

Contrários
No dia 30, um grupo de oito pessoas entregou ao presidente do STF um documento contra as cotas.
Intitulado “Cento e treze cidadãos anti-racistas contra as leis raciais”, o documento tem entre os signatários Caetano Veloso e ex-primeira-dama Ruth Cardoso.
O texto diz que a política de cotas, defendida pelo Ministério da Educação, cria uma falsa divisão entre negros e brancos.
Para os favoráveis às cotas, a reserva de vagas segue o princípio constitucional que coloca entre os objetivos fundamentais do Brasil “erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais”.

04/04/2008 - 14:06h Segregação presente, mas sob outra roupagem

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Marília Martins - O Globo

Correspondente

NOVA YORK. Quando alguém pergunta sobre as conquistas e as frustrações do movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos, a professora Lillian Williams costuma responder citando sua própria trajetória pessoal como exemplo.
Ela é hoje coordenadora de estudos afro-americanos na Universidade Estadual de Nova York, em Buffalo. Nos anos 60, a área de estudos afro-americanos simplesmente não existia e o posto de pesquisadora universitária era praticamente impossível de ser alcançado por mulheres negras.

Lillian Williams reconhece que, nos últimos 40 anos, a sociedade americana mudou radicalmente.Mas a professora não considera que a pauta de reivindicações do movimento pelos direitos civis esteja esgotada.

Ao contrário, para ela ainda há muito por fazer para reduzir as tremendas desigualdades raciais que ainda persistem nos EUA. Segundo a acadêmica, nestes 40 anos muita coisa mudou, como o surgimento de uma classe média negra, que antes não existia. Ela cita as leis sobre os direitos civis, de 1964, e sobre a garantia do direito de voto, de 1965, como fundamentais para que estas mudanças acontecessem, assim como as ações afirmativas dos anos 70, que garantiram, por exemplo, cotas para professores e estudantes de minorias raciais nas universidades.

Apesar disso, a acadêmica mantém suas ressalvas.

— Mas mesmo assim, 40 anos depois do assassinato de Luther King, não se pode dizer que os EUA sejam uma democracia racial. Não é verdade.

As escolas de ensino fundamental, por exemplo, tornaramse ainda mais segregacionistas, e as oportunidades em termos de trabalho, educação e saúde não são iguais. As minorias raciais ainda são segregadas economicamente — analisa ela. — Chegamos a um ponto em que não se trata mais de conquistar direitos legais, e sim de garantir a implementação dos direitos existentes.

O conflito agora é econômico, e nesse sentido se pode pensar numa coalizão ampla de todas as minorias.

Bairros pobres ainda são guetos para moradores Um dos aspectos que chamam a atenção é o fato de as escolas públicas fundamentais serem, nos EUA de hoje, mais segregacionistas que as dos anos 60. Lillian explica que o sistema escolar público americano divide as escolas de acordo com a vizinhança: escolas de bairros negros têm hoje apenas alunos negros, e assim por diante. Há pouca mistura de alunos de raças diferentes na mesma classe porque as cidades americanas têm divisões raciais que são superpostas a divisões geográficas.

Por isso, os bairros pobres continuam a ser guetos para seus moradores, sem oportunidades de educação e de trabalho que se equiparem aos bairros ricos, onde mora a maioria branca. O mesmo acontece com as universidades.

Para a professora, as cotas facilitaram o acesso de alunos negros aos cursos universitários, mas não resolveram o problema da discriminação.

Ela explica que as universidades estaduais têm menos verbas para ensino do que as ricas universidades particulares, ainda redutos da elite branca.

— É verdade que universidades ricas, como Harvard, têm programas de inclusão social e de diversificação do seu quadro docente, mas os centros de decisão ainda permanecem nas mãos de uma elite branca, e por isso persistem as desigualdades de oportunidades — critica Lillian Williams. — Outra vez voltamos ao ponto que é central no debate racial de hoje nos EUA: é preciso garantir a todos oportunidades iguais de educação e de trabalho, e nisto os EUA ainda estão longe de ser uma democracia racial.

Como a pesquisadora, muitos lembram que o movimento dos direitos civis nos EUA ganhou uma outra realidade com o aparecimento, nos anos 90, de uma alta classe média negra, antes inexistente.

Segundo o Censo americano, 25% dos domicílios de famílias negras são hoje de classe média, mas nos números que revelam a ascensão social dos negros ainda há forte índice de concentração: apenas 5% dos negros americanos têm renda superior à de 85% dos domicílios de famílias brancas. Nomes como o da apresentadora de TV Oprah Winfrey ou o do primeiro CEO negro americano, Stanley O’Neal, da Merrill Lynch, tornaram-se símbolos desta nova possibilidade de ascensão social, que antes não havia.

Timothy Nelson, da Universidade de Harvard, considera que a abertura das universidades para os negros teve um papel importante nisso, permitindo a formação de um contingente de profissionais liberais que hoje disputa postos de trabalho com a elite branca.

Mas ele ressalta que ainda resta um largo contingente de negros, hispânicos, asiáticos e outras minorias raciais que permanecem à margem da sociedade, vivendo segregados em bairros que se transformam em guetos sociais.

— É possível pensar, hoje, em pontos comuns que unem todas essas minorias socialmente marginalizadas. Mas, para que esta realidade mude, seria preciso que houvesse uma nova maioria no poder interessada em priorizar a redução das desigualdades sociais. Num momento em que a economia americana caminha para a recessão, esta promessa parece difícil de ser alcançada — diz.

04/04/2008 - 13:59h O arquiteto da igualdade

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O Globo

Martin Luther King Jr. foi o principal nome do movimento pelo fim da segregação racial nos EUA nas décadas de 1950 e 1960, sendo conhecido tanto por sua opção por uma luta pacífica em meio aos conturbados protestos no país, quanto por ser um dos mais brilhantes oradores do século XX.

 FAMÍLIA: Nasceu em Atlanta, na Geórgia, em 15 de janeiro de 1929. Foi o segundo filho — o primeiro homem — do pastor Martin Luther King, de quem herdou o nome, e Alberta Williams King, cujo pai também era um pastor protestante.

 EDUCAÇÃO: Aluno brilhante, ele pulou a oitava séria do ensino fundamental e o terceiro do ensino médio. Entrou na Faculdade Morehouse com 15 anos, se formando em sociologia em 1948. Após três anos num seminário, iniciou um doutorado em teologia, na Universidade de Boston, formando-se em 1955.

 PASTOR: King foi ordenado pastor em 1948, com 19 anos, se tornando pastor assistente na Igreja Batista Ebenezer, em Atlanta. De 1954 a 1959, foi pastor em Montgomery, no Alabama.Neste ano, passou a dirigir a Conferência da Liderança Cristã do Sul, em Atlanta. De 1960 até sua morte, foi o copastor de Ebenezer com o pai.

 BOICOTE: Martin Luther King se tornou conhecido nos EUA a partir de meados dos anos 1950. Como membro da Associação de Aprimoramento de Montgomery, ele foi o líder da campanha de boicote ao sistema de transporte público da cidade.
Os brancos que entravam nos ônibus deveriam sentar-se nas primeiras fileiras e continuar a preencher os lugares do início para o fim. Os negros, faziam o inverso. Quando um branco entrava, toda uma fileira de negros deveria se levantar. Em 1ode dezembro de 1955, Rosa Park se recusou a deixar o lugar, e foi detida e multada. Quatro dias depois, os negros passaram a boicotar os ônibus, exigindo a revogação da lei. Dezenas de negros foram presos, inclusive King (a primeira de mais de 30 detenções que sofreu). O caso ganhou atenção nacional e, em 13 de novembro de 1956, a Suprema Corte decidiu que a lei local era inconstitucional. O boicote acabou, em 20 de dezembro.

 DIREITOS CIVIS: Após a vitória, ele passou a liderar o movimento pelos direitos civis dos negros, baseado em desobediência civil não violenta. Em 63, comandou uma marcha em Washington, coroando-a com o discurso “Eu tenho um sonho”.
Em 64, se tornou o mais jovem ganhador do Nobel da Paz.

 MORTE: Em 4 de abril de 1968, King recebeu um tiro disparado por James Earl Ray, quando estava na sacada do motel Lorraine, em Memphis, onde estava para apoiar protestos por melhores condições para trabalhadores do sistema de água e esgoto. O presidente Lyndon Johnson decretou um dia de luto nacional. Ray foi condenado a 99 anos de prisão.

04/04/2008 - 13:54h O sonho não se realizou*


Senador Edward W. Brooke, primeiro senador negro dos Estados-Unidos - Bill Crandall for The New York Times

*Edward W. Brooke - O Globo

Os Estados Unidos têm muito sobre o que refletir com os 40 anos de eventos inter-relacionados como a Comissão Kerner, o assassinato de Martin Luther King e a onda de protestos que ocorreram depois do crime em mais de cem cidades em todo o país. Ouvimos o inteligente discurso do senador Barack Obama sobre a questão da raça, e as reações que ele provocou. Hoje, infelizmente, o sonho do Dr. King ainda não se realizou.

O ex-senador Fred Harris e eu somos os únicos membros ainda vivos da Comissão de Aconselhamento sobre a Desordem Civil (o nome do grupo liderado pelo governador Otto Kerner) do presidente Lyndon Johnson. Ela concluiu que a frustração dos negros cresceu a partir da sub-representação no sistema político, na polícia, na mídia e em todos os aspectos da vida americana. Exortamos novos investimentos em empregos, escolas e habitação.

Declaramos que a pobreza, a desigualdade e a segregação no gueto racial criaram um ambiente destrutivo desconhecido para a maioria dos americanos brancos. Dissemos que a América branca criara e mantivera o gueto e que fazia vista grossa. Foram palavras duras, mas a verdade precisava ser dita.

Pensei que o presidente Johnson aplaudiria nossa análise e apoiaria nossas recomendações.

Mas o presidente que tanto fizera para os direitos civis se distanciou das descobertas.

Não nos convidou à Casa Branca para o lançamento do relatório, como era costumeiro, nem acolheu nossas recomendações.
Retrospectivamente, vejo que o relatório era forte demais para ele aceitar: sugeria que suas conquistas — a Lei dos Direitos Civis, o programa antipobreza — eram só um começo.

Pedimos, num ano eleitoral, que ele endossasse a idéia de que a América branca tinha grande responsabilidade pela rebelião negra.

A comissão dificilmente poderia prever os avanços que os afro-americanos fariam desde o relatório, ou o aumento populacional, o progresso e a influência dos hispânicos. Com a ascensão de um afro-americano na disputa presidencial, observadores imparciais poderiam engasgar com o quanto avançamos.

Ainda assim, apesar da visibilidade de afroamericanos e hispânicos bem-sucedidos e do progresso nas relações raciais, para os pobres dos EUA — aqueles que não sabem o que é assistência médica, porque, para eles, ela não existe; para quem a prisão é um futuro mais possível do que a faculdade; os que foram abandonados nos centros urbanos decadentes devido à fuga da classe média — o futuro é tão sombrio quanto nos anos 1960.

As condições-chave identificadas pela comissão são tão atuais, mesmo que não tão violentas, hoje como há 40 anos. A ausência de moradias e a falta de emprego ou de esperança no futuro confinaram um número ainda maior de cidadãos num mundo assustadoramente familiar, que não muito tempo atrás fez com que as cidades ficassem em chamas.

Realizar o sonho do Dr. King requer segurança econômica e de saúde, geração de empregos e educação de qualidade para a minoria pobre, para a negligenciada classe trabalhadora e para a ansiosa classe média.

*EDWARD W. BROOKE , republicano, foi o primeiro senador negro dos EUA

04/04/2008 - 04:47h Negro e branco, brilhante e flexível, Obama revitaliza King

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O Estado de São Paulo - Gilles Lapouge*

Barack Obama tinha 6 anos quando Martin Luther King foi assassinado em Memphis. Desde aquele 4 de abril de 1968, a história mundial tornou-se tão efervescente que esquecemos a face dolorosa dos EUA. A candidatura de Obama é um convite a nos lembrarmos dela. No entanto, se o eloqüente Obama é um herdeiro da epopéia de King, ele o é de maneira longínqua, imprecisa.

King, pastor na Geórgia, foi o representante exemplar dos descendentes de escravos africanos que viviam no sul, repelidos e desprezados pela maioria dos brancos. Obama vem de outra parte. Ou melhor, vem de todos os lugares ao mesmo tempo - e essa é a sua força. Ele é negro e branco. Nasceu no Havaí, de pai queniano e mãe branca de alta linhagem: entre seus ancestrais está Jefferson Davies, presidente dos Estados Confederados da América. Muito jovem, retornou ao Quênia. Estudou em uma escola muçulmana na Indonésia. Fez seus estudos superiores nos EUA. Tornou-se cristão e participou de uma igreja negra de Chicago. Nada disso lembra a história de King. Lembra mais a de um imigrante do que a de um negro americano.

Há outra diferença. King não se inscrevia no jogo normal dos EUA e de suas instituições. Ele não conduziu uma ação política. Era um pastor que a miséria e a injustiça vieram interpelar. Já Obama é um homem político. Seguiu todos os currículos. Sabe das dificuldades. Conhece todas as sutilezas. Assim, o combate que empreende não é exatamente o mesmo que o de King. É por isso que evitou tão ferozmente apresentar-se como o recuperador da bandeira de King.

Nem sempre foi fácil. Ele tinha um desafio sutil: não se passar por um representante natural da comunidade negra, mas sem negligenciá-la. Nesse caso também, ele precisava estar aqui e lá ao mesmo tempo: negro e branco, nem negro nem branco.

O fato de pertencer, se não à comunidade negra, mas pelo menos ao mundo mestiço, não conseguiu descarrilar sua carruagem em várias ocasiões em que isso poderia ter ocorrido. O momento mais perigoso foi no início de março, quando vídeos lembraram que o antigo pastor da igreja de Obama em Chicago, o reverendo Jeremiah Wright, era um inimigo dos EUA. Em 2003, Jeremiah, que foi uma espécie de guia espiritual de Obama, clamou: “Em vez de dizer ‘Que Deus abençoe os EUA’, é preciso dizer: ‘Que Deus amaldiçoe os EUA’, que tratam como subumanos alguns de seus cidadãos.” Pior: após os atentados de 11 de setembro de 2001, Jeremiah ousou dizer: “Surpreende-me que as pessoas se espantem de que tudo o que os EUA fizeram no estrangeiro seja jogado hoje em sua cara.” Diante desse terremoto, Obama reagiu com sangue-frio. Finalmente, ousou encarar de frente a questão racial, essa ferida dos EUA que ele até então evitava. Fez um discurso inspirado sobre o tema, à maneira de um Lincoln ou de King.

De fato, há algumas semelhanças entre sua luta política e a luta humana de King. Os dois homens, num dado momento, defrontaram-se com o mesmo inimigo: o ódio dos extremistas. Por volta de 1960, os negros americanos, constatando que a não-violência não dava resultado, distanciaram-se de King e cometeram excessos sangrentos. King assistiu, desesperado, a esse retorno do horror.

Obama também deparou com o mesmo tipo de excesso. Mas soube acalmar os ânimos. E exatamente por causa de sua personalidade ambígua, meio queniana e meio americana, meio negra e meio branca, um pouco religiosa, mas não muito. Ele tem uma suavidade, uma flexibilidade que King não podia conhecer. E ele tem outros trunfos. Além de seu charme e seu brio dialético, é um homem absolutamente novo. King era muito velho, dos inícios da história americana. Obama, com apenas 46 anos, é um homem livre em relação às tradições políticas asfixiantes às quais todos os seus concorrentes estão extremamente ligados.

O fato de ele pertencer à comunidade negra, longe de aliená-lo dos brancos, como ele próprio temia, é, ao contrário, aceito. Melhor ainda: muitos americanos brancos, desesperados ao constatar o desprezo, o ódio ou a aversão aos EUA no mundo todo, se perguntam se este homem brilhante, negro e ileso de todos os clichês americanos não poderia reconquistar o coração dos homens. A cor da sua pele não poderá fazer esquecer a imagem corrompida e despedaçada dos EUA de Bush?

*Gilles Lapouge é correspondente em Paris

24/03/2008 - 10:08h Obama, derrota anunciada?

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Blog de Marcelo Coelho

Pelas últimas pesquisas, a estrela de Barack Obama começa a declinar; a divulgação de alguns pronunciamentos do reverendo Jeremiah Wright Jr., líder da igreja a que Obama pertence, precipitou um fenômeno que o pré-candidato democrata vinha evitando com imensa habilidade e talento político. Tratava-se de diminuir o componente “racial” de sua candidatura; de apresentá-la como um caminho de união, não de conflito, para o povo americano. Muitas das falas de Jeremiah Wright vão no sentido oposto, e Obama faz o possível para se desvincular, agora, do reverendo –de quem emprestou, aliás, o título de um sermão para dar nome ao livro “A Audácia da Esperança”.Ganha interesse, nesse contexto, um estudo recém-publicado nos Estados Unidos: A Bound Man: Why We Are Excited About Obama and Why He Can’t Win [Um Homem Vinculado (?): Por que Estamos Excitados com Obama e Por que Ele não Pode Vencer], de Shelby Steele.O livro foi resenhado na New York Review of Books, na edição de 6 de março; aparentemente, a “Obamania” ainda estava em pleno curso, e Darryl Pinckney, que assina a resenha, tinha todas as razões para manifestar ceticismo diante do diagnóstico do livro. Três quartos da resenha se dedicam a contar a história de vida de Obama, e o quanto se desvincula do figurino clássico do militante dos direitos negros nos Estados Unidos. Para Darryl Pinckney, o livro sobre Obama é “esquálido e infeliz”. Steele acusa Obama de apresentar-se a si mesmo como uma voz de protesto entre os negros e de unificação entre os brancos. Mas quando Steele afirma que Obama não pode servir as aspirações de uma raça sem trair as da outra, é Steele, que faz acusações contra a “chantagem [moral] dos negros”, quem se mostra ultrapassado e ameaçadíssimo pela candidatura de Obama. Será o único? Será que as idéias que Obama “ultrapassa” não estão a ponto de pegá-lo na curva, agora?Uma teoria maluca que li recentemente afirmava que Obama seria o próximo presidente, porque seu perfil se assemelha ao de Pernalonga. Ao contrário de seu companheiro Patolino, Pernalonga sempre se mantém frio e superior nos embates mais decisivos. Foi o que aconteceu, segundo a teoria, com Kennedy vencendo Nixon, e com Reagan vencendo… quem mesmo?Mas a teoria “Pernalonga” pode se desfazer diante de outro conto, mais clássico, o da corrida entre o coelho e a tartaruga. A velocidade de Obama poderia se dar mal, então, diante da lerdeza de Mc Cain. Teorias, é claro, que não têm nada a não ser pesquisas (quanto valem?) para embasá-las. O fato é que, no momento em que a resenha contra Shelby Steele foi publicada na “NYRB”, as teses do livro resenhado se tornam mais interessantes do que era de esperar.

A edição feita pela Fox News dos pronunciamentos de Jeremiah Wright pode ser vista aqui. Sinceramente, com exceção do que ele diz a respeito da Aids, todas as suas críticas aos Estados Unidos, tachadas de antipatrióticas, são obviedades deste lado do Equador. Mas é claro que Obama não pode endossá-las sem risco de perder as eleições.

Escrito por Marcelo Coelho

03/03/2008 - 09:28h O segundo presidente negro

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Matthew Shirts - O Estado de São Paulo

Onde quer que eu vá, de uns tempos para cá, a pergunta é uma só: Barack Obama pode mesmo ganhar a Presidência dos Estados Unidos? Os brasileiros não acreditam. Estão abismados.

A resposta que parecem aguardar é ‘não’. Esperam eu dizer que ainda não foram contados os votos de alguma região onde se acredita que o homem defendeu a arca de Noé dos dinossauros com Winchesters, ou então uma longa explicação de como o Colégio Eleitoral pode tornar sua eleição impossível.

Não é que torçam contra o candidato. Não é isso. Tampouco são fãs da Hillary Clinton ou do John McCain. O problema é que se Obama for o próximo presidente, então seu entendimento anterior dos Estados Unidos e do mundo era equivocado. Pensavam outra coisa daquele país e do que era possível por lá. Talvez tenham de reconsiderar as coisas, o emprego, o casamento, tudo.

É um sentimento compreensível. A possibilidade de um negro, jovem, ser o próximo presidente dos EUA é mesmo surpreendente, sobretudo depois de oito anos de administração Bush. E mais: ele não é raivoso. E tem aquele nome, pelo amor de Deus, que não é nem de americano. (Um brasileiro amigo meu afirmou, dia desses, num momento de distração, que Obama nasceu no Haiti - foi no Havaí…)

Eu mesmo não teria acreditado se alguém me dissesse, há um ano, que ele estaria liderando a corrida pela indicação do Partido Democrata a esta altura do campeonato. O espanto não é privilégio de brasileiro (Nasci e fui criado nos Estados Unidos).

Como explicar o Obama? Não estava tudo preparado para a vitória da Hillary? Não era a sua vez? A máquina partidária não fora azeitada para isso? Ela é competente, afinal, inteligentíssima, experiente, à sua maneira, e traz ao baile, ainda, a novidade de ser mulher.

Há quem explique o fenômeno por meio da formação excepcional do Obama. É difícil, dizem, lutar contra o primeiro candidato negro plausível à Presidência dos Estados Unidos. Mais ainda contra um indivíduo que consegue ser de Kansas, Chicago, Havaí e Quênia, de mãe solteira pobre, filho de muçulmano com cristão, e de Harvard. É muita biografia. É muita coisa ao mesmo tempo. O resultado é carismático demais.

Mas não é só isso. Fiquei feliz ao ler, esta semana, que Obama não é um fenômeno isolado, por incrível que possa parecer. Faz parte de uma nova geração de políticos chamada pela revista New Yorker de ‘a ala Oprah Winfrey do Partido Democrata’. Para quem não sabe, Oprah, como é conhecida, é uma apresentadora de TV e empresária de incalculável influência na cultura americana. Seu apoio foi fundamental para a candidatura de Obama. E também para a eleição de outro negro, Cory Booker, este ao cargo de prefeito da cidade de Newark, em New Jersey, a dez quilômetros de Manhattan.

Guarde esse nome. Como Obama, Booker é negro e jovem, de apenas 38 anos. E como Obama, rejeita a política baseada no racialismo. Estudou, como Obama, em instituições de elite: Yale, Oxford e Stanford, onde jogou futebol americano. Já é apontado como presidenciável. Aposta seu futuro na reforma de uma cidade decadente e corrupta. Sua maior bandeira é a segurança pública. É conciliador, como Obama. Fisicamente, lembra um pouco Ronaldo, o fenômeno, quando este ainda era careca.

Booker inspira e comove pelo mesmo motivo do Obama: o desejo de uma era pós-racial na vida americana. É um sentimento forte. A política voltou a ter um componente utópico nos Estados Unidos. Amanhã, depois das primárias de Ohio e Texas, Obama pode definir a eleição do seu partido. Seja como for, o espírito da época já mudou. Para melhor.