31/08/2008 - 10:02h O exótico

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VERISSIMO - O GLOBO

Agora que Barack Obama está confirmado como o indicado dos democratas à Presidência dos Estados Unidos e sua candidatura passou de hipótese a fato, muitos no seu partido devem estar se perguntando “o que foi que nós fizemos?” A hipótese de alguém como Obama ser o candidato era atraente, era de sonho. O fato irreversível da sua candidatura traz um choque de realidade. Obama como hipótese era um candidato diferente, mais diferente do que qualquer outro na história do partido e do país. Obama confirmado provoca especulações sobre a viabilidade política do sonho. Especula-se que ele talvez seja diferente demais.

Se Obama fosse negro de pai e mãe seu exotismo seria menor. Bem ou mal, os brancos americanos já têm uma longa experiência de convivência com negros, principalmente depois do fim do racismo oficial nos estados do Sul e da segregação nas escolas.

Mas ainda existe uma separação de fato, e o que quase não faz parte da experiência americana é a mestiçagem. Obama não é apenas diferente da maioria branca, é diferente da maioria dos negros do país — na verdade, com sua história multirracial e multinacional, é diferente da maioria da Humanidade.

Além de ser filho de um africano muçulmano e de uma americana branca, nasceu no Havaí, que no imaginário, e nos planos de viagem, do americano comum é o lugar mais exótico em que se pode estar sem sair dos Estados Unidos. E, não sendo um havaiano típico, até no Havaí ele é diferente.

O trabalho duro dos democratas agora é fazer o eleitorado distinguir o que Barack Obama tem de positivamente diferente do que ele tem de estranho.

Na convenção que indicou Barack já deu para perceber que grande parte da propaganda eleitoral democrata será dedicada a mostrar que os Obama são gente como a gente americana e não têm nada de exótico, ou não ao ponto de assustar. E que a novidade que ele representa é a de um jovem com outras idéias, em contraste com o velho McCain, e não a de um enigma que se aproxima da Presidência para fazer ninguém sabe bem o quê. Esta última alternativa é a que a propaganda dos republicanos enfatizará, numa campanha que — segundo comentaristas americanos — já é uma das mais sujas da história. Pode-se imaginar que até as eleições de novembro um lado insistirá que Barack Obama é normal e o outro que ele é um mistério de quem se pode esperar de tudo, até o sacrifício de galinhas no Gabinete Oval.

De qualquer jeito, agora começa o período em que as pessoas se concentram nas opções e nos contrastes e pensam melhor em quem vão votar. E em que o partido democrata descobre se fez uma boa escolha ou jogou fora uma eleição imperdível.

28/08/2008 - 19:32h A histórica fotografia da “Marcha para Washington por Emprego e Liberdade”

Images & Visions

© Foto do Hulton Archive/Getty Images. Martin Luther King. “Marcha para Washington por Emprego e Liberdade”, em 28 de Agosto de 1963.

A “Marcha para Washington por Emprego e Liberdade” aconteceu em 28 de Agosto de 1963. Martin Luther King fez o discurso mais emblemático da sua vida e um dos mais representativos na luta contra a Discriminação Racial e Étnica pronunciado na escadaria do Monumento a Lincoln, em Washington. D.C. Luther King foi ouvido por mais de 250.000 pessoas de todas as etnias, reunidas na capital dos Estados Unidos da América. A frase “I have a Dream” foi repetida durante todo o discurso.

17/08/2008 - 15:23h Educação: O boletim das cotas raciais

Cotistas da UnB têm rendimento melhor do que os demais alunos na área de Humanas, mas suas notas são piores em Exatas

 

Ana Beatriz Magno - Correio Braziliense

Fotos: Edilson Rodrigues/CB/D.A Press
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Felipe, da engenharia mecatrônica, tem dificuldades para acompanhar o terceiro semestre do curso

 

 

 

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Depois de reprovar no sistema universal, Lucas optou pelas cotas para passar em relações internacionais

 

 

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Laila Antunes, da enfermagem, não sente vergonha de ser uma cotista: “Minhas notas são boas”

 

 

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Lúcio, da engenharia mecânica, vincula o desempenho na UnB à qualidade da educação fundamental

 

 

 

Laila Ramos Antunes cumpre na pele a sina de seu nome. “Laila significa negra como a noite”, diz a moça de 21 anos, aluna do terceiro semestre de enfermagem na Universidade de Brasília. “Entrei pelas cotas e não tenho vergonha disso. Não tive o privilégio de estudar em colégios particulares caros nem venho para o câmpus de carrão”.

Ela vai e volta de ônibus, mora no Guará, usa óculos espelhados, tem cabelo de trançinhas rastafári e convive com uma vontade engasgada de estudar medicina. “Eu tentei três anos e não passei. Desisti, entrei na enfermagem e estou conseguindo entender as aulas com alguma tranqüilidade. Minhas notas são boas”, explica.

A dificuldade de Laila para entrar na UnB e sua facilidade em acompanhar o curso retratam o resultado de uma pesquisa inédita coordenada pelo professor Jacques Velloso, da Faculdade de Educação. Ele compara o desempenho acadêmico dos estudantes cotistas e não-cotistas desde 2004, quando o programa de cotas raciais foi criado, e mostra que a performance dos alunos varia de acordo com a faculdade escolhida.

As notas dos estudantes da área de Saúde, por exemplo, não têm cor. Cotistas e não-cotistas empatam. “São cursos muito disputados no vestibular. O nível de quem entra é muito alto independentemente das cotas e, por isso, durante a faculdade as notas são muito parecidas”, explica o educador Jacques Velloso. “Esse empate ocorre em um terço dos 62 departamentos da UnB”.

Os cotistas empatam com os não-cotistas na Saúde, ganham nas Humanidades e perdem nas Exatas. “Nas Exatas, o aluno precisa de base forte em matemática e física.Essa base ainda é fraca nas escolas públicas de onde vem a maioria de quem entra pelas cotas”, analisa a pedagoga Claudete Batista Cardoso, 27 anos. “Já nos cursos de Humanas, os alunos cotistas podem usar sua experiência social e cultural para obter um bom rendimento acadêmico”, completa Jacques Velloso.

Velloso orientou a dissertação de mestrado de Claudete defendida em maio passado sobre as chamadas políticas de ação afirmativa — aquelas que pretendem compensar séculos de exclusão social, com a concessão de alguns benefícios. Podem ser por raça, por renda familiar, por local de estudo.A UnB optou pelo programa de cotas raciais e há quatro anos garante 20% das vagas no vestibular para afrodescendentes.

Todos têm que comprovar suas raízes. As facilidades, no entanto, acabam no momento da matrícula. “No meu trabalho tentei mostrar que não basta criar o programa de cotas para a entrada na universidade”, analisa Claudete, integrante da equipe de pesquisa de Jacques Velloso. “Os dirigentes da UnB precisam dar mais atenção a esses estudantes depois que eles entram, justamente para ajudar os que têm as notas menores e sofrem pela falta de base no ensino fundamental.”

Felipe Guimarães de Oliveira, 20 anos, morador de Samambaia, sofre para acompanhar o terceiro semestre de engenharia mecatrônica — curso difícil de entrar e dificílimo de terminar: menos de 10% dos alunos conseguem atravessar os cinco anos de faculdade sem ser reprovado em alguma matéria pelo menos uma vez. Felipe bombou já no primeiro período. Foi reprovado em cálculo 1, o bicho-papão dos calouros de Exatas.

“Eu ralo muito. Sempre estudei em colégio público. Era bom aluno, mas já nas primeiras semanas de UnB percebi que eu estava muito distante dos meus colegas. Meus hábitos de estudos eram fracos, me faltava disciplina. Estou tentando me adaptar”, diz Felipe. “Meus pais não têm curso superior. Sou uma exceção aqui dentro. Não é só na cor. É em tudo”.

O rapaz viaja duas horas de ônibus para ir e voltar do câmpus, não fez cursinho nem tem laptop. “Isso tudo influencia. Acho que a universidade deveria ter um programa de reforço acadêmico para nós, cotistas. Às vezes, a reitoria manda umas cartinhas, mas é só isso”, lamenta.

A direção da UnB reconhece que há falhas no programa de cotas. “Estamos tentando reestruturá-lo. Antes, ele era ligado ao gabinete do reitor. Agora, queremos vinculá-lo ao Decanato de Graduação”, explica o professor Luiz Gonzaga Motta, secretário de Comunicação da universidade. “O programa de cotas não pode ser uma jóia política do reitor. Tem que ter finalidades acadêmicas”, emenda Motta.

Humanidades

Se nas engenharias, as notas dos cotistas perdem até dois pontos em relação aos não-cotistas, em várias cursos de Humanas o resultado é inverso. “As diferenças não são tão grandes como na engenharia, mas mostram que o estudante de cota pode se superar quando tem a chance de entrar na universidade”, analisa a socióloga Maria Francisca Coellho, professora do departamento de sociologia. “Isso é bom, democratiza a universidade e investe num valor que vai além da competição.”

Lucas Augusto Santos Batista achou que não conseguiria ganhar a árdua competição para entrar no curso de relações internacionais. Tentou uma vez sem o apoio do programa de cotas. Não conseguiu. “Fiquei com medo de ser reprovado mais uma vez e me inscrevi como cotista. Sou negro, mas não sou pobre. Moro no Plano Piloto e sempre estudei em colégio particular”, diz o rapaz de 18 anos, no terceiro semestre de relações internacionais. “Quero ser diplomata. Não estou com dificuldades na faculdade.”

As pesquisas do professor Velloso mostram que o temor de Lucas não é despropositado.Sem as cotas, um jovem negro teria menos da metade das chances de entrar na faculdade do que com as cotas. “É inegável que o programa tem seus méritos, mas mesmo assim eu discordo das cotas. Só está entrando uma elite negra na universidade, o que desperta uma rivalidade racial dentro do câmpus”, pondera o professor de relações internacionais Paulo Nascimento. “Acho muito mais interessante um programa que beneficie os alunos das escolas públicas, independentemente de suas raças.”

“Lógico que também seria interessante se tivéssemos cotas para os colégios públicos, mas não podemos descartar o que já conquistamos em matéria de democratização do acesso com as cotas raciais. Elas melhoraram a universidade”, rebate a socióloga Maria Francisca.Em matéria de dedicação dos estudantes, os números a apóiam. Os alunos cotistas abandonam menos os cursos. Em 2005, por exemplo, enquanto a evasão dos não-cotistas ficou em 16%, a dos cotistas não passou de 10%.

“Mas no geral, os dados mostram que as cotas correspondem a uma correção necessária para melhorar o acesso à universidade, porém seus resultados são muito pequenos para corrigir as desigualdades sociais e raciais do país”, conclui o educador Jacques Velloso. “Sou de cota, mas sou bom. Sou bom porque tive uma educação fundamental boa. Isso é uma exceção para os cotistas, mas não é um problema dos cotistas. É um problema do Brasil”, ensina o futuro engenheiro mecânico Lúcio Gomes Nascimento, de 19 anos.

APROVEITAMENTO Em um terço dos 62 cursos da UnB não há diferença entre o rendimento acadêmico de cotistas e não-cotistas

EVASÃO ESCOLAR 16% dos estudantes que entraram na UnB sem cotas em 2005 abandonaram o curso. Entre os cotistas esse percentual foi de 10%

HUMANIDADES As notas dos cotistas em 2005 superaram as dos não-cotistas em 18 cursos CHANCES Em 2006, as chances de um aluno negro entrar num curso de ciências humanas sem cotas eram de 9% com as cotas, as chances pularam para 20%

CIÊNCIAS EXATAS Em 2006, as chances de um estudante negro entrar num curso de ciências exatas sem cotas eram de 7% Com as cotas, as chances pularam para 20% ENGENHARIA Numa escala de 1 a 5, a média dos estudantes não-cotistas de engenharia civil em 2006 foi 3,6 entre os alunos cotistas, a nota foi 2,5

SAÚDE Em 2006, as chances de um estudante negro entrar num curso de ciências da saúde, eram de 10% com as cotas, as chances pularam para 20% MEDICINA Em 2006, o rendimento dos estudantes cotistas no curso de medicina foi igual ao dos não-cotistas

28/06/2008 - 18:53h A fé dos homofóbicos

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André Petry - Veja

Em 1946, quando os negros reivindicaram a inclusão de alguns direitos na Constituição, foi um salseiro. Foram acusados de antidemocráticos e racistas por congressistas e estudantes da UNE. Em 1988, a Constituição promoveu o racismo de contravenção a crime. Ninguém chiou. Na década de 50, quando se discutia o divórcio, teve cardeal dizendo que se devia pegar em armas para combater a proposta. Em 1977, o Congresso aprovou o divórcio. Não houve tiroteio, e a igreja do cardeal nunca mais tocou no assunto. Recordar é viver.

Agora, os evangélicos estão anunciando o apocalipse caso o Senado faça o que a Câmara já fez: aprovar lei punindo a homofobia com prisão. A lei em vigor pune a discriminação por raça, cor, etnia, religião e procedência nacional. A nova acrescenta a punição por discriminação contra homossexuais. Cerca de 1 000 evangélicos tentaram invadir o Senado em protesto. Dizem que a criminalização da homofobia levará à prisão em massa de pastores e padres, e viveremos todos sob o domínio gay. A história ensina que, cedo ou tarde, a lei, ou outra qualquer com objetivo similar, será aprovada, e a vida seguirá seu curso regular sem nada de extraordinário.

Os evangélicos e aliados dizem que proibir a discriminação contra gays fere a liberdade de expressão e religião. Dizem que padres e pastores, na prática de sua crença, não poderão mais criticar a homossexualidade como pecado infecto e, se o fizerem, vão parar no xadrez. É uma interpretação tão grosseira da lei que é difícil crer que seja de boa-fé.

Tal como está, a lei não proíbe a crítica. Proíbe a discriminação. Não pune a opinião. Pune a manifestação do preconceito. Uma coisa é ser contra o casamento gay, por razões de qualquer natureza. Outra coisa é humilhar os gays, apontá-los como filhos do demônio, doentes ou tarados. É tão reacionário quanto uma Ku Klux Klan alegar que a proibição da segregação racial fere sua liberdade de expressão. Querem a liberdade de usar a tecnologia Holerite de cartões perfurados pela IBM?

Alegam que a liberdade religiosa fica limitada porque combater o pecado vira crime. É um duplo equívoco. O primeiro é achar que uma doutrina de crença em forças sobrenaturais autoriza o fiel a discriminar o herege. O segundo é atribuir à lei valor moral. O direito penal não é instrumento para infundir virtudes. É um meio para garantir o convívio minimamente pacífico em sociedade. Matar é crime não porque seja imoral, mas porque a sociedade entendeu que a vida deve ser preservada. Dúvidas? Recorram ao Supremo Tribunal Federal. Na democracia, é assim. Lei não é bíblia de moralidade.

O que essa proposta pretende dar aos gays, e sabe-se lá se terá alguma eficácia, é aquilo a que todo ser humano tem direito: respeito à sua integridade física e moral. Os evangélicos, pelo menos os que foram a Brasília, dão prova de desconhecer que seres humanos não diferem de coisas só porque são um fim em si mesmos. Os seres humanos diferem das coisas porque, além de tudo, têm dignidade. As coisas têm preço.

16/06/2008 - 09:11h Sonhos

Seria realmente ótimo se o Brasil fosse esse paraíso mestiço que os nãoracialistas apregoam

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NEI LOPES - O GLOBO

Contrariando expectativas que já duram mais de cem anos, no Brasil, “país com maior população afro-descendente fora da África”, “negros e pardos vão superar o número de brancos neste ano” de 2008, conforme afirmações textuais do jornalista Ivan Martins, em reportagem publicada na edição do último de junho da revista “Época”, publicação semanal da Editora Globo. As afirmações, acompanhadas da constatação de que o país “não tem um único político negro de projeção nacional”, vem a propósito da candidatura do senador Barack Obama à Presidência dos Estados Unidos.

No momento em que o Congresso Nacional prepara a votação do Estatuto da Igualdade Racial, um grupo de intelectuais e artistas lidera a corrente contrária à aprovação do texto, colocandose contra a “grave ameaça” de secessão da sociedade brasileira em “negros” (pretos e pardos) e “brancos” (louros e “morenos”), como se essa divisão, em termos de poder e capital, já não fosse a grande característica desta sociedade.

Invocam, agora, esses arautos da “desracialização”, no calor da discussão sobre o problema social brasileiro, o suposto exemplo de Obama, o qual, em pura retórica de campanha, afirmou num discurso que “não existe uma América branca, uma negra, uma asiática, uma hispânica: e sim os Estados Unidos da América”. E os “desracializadores” invocam o candidato americano, nos apontando o dedo, como se dissessem: “Estão vendo? Ele não exibe a cor da pele como uma arma ou um escudo!” Para nós seria realmente ótimo se o Brasil fosse esse paraíso mestiço que os não-racialistas apregoam.

Se além dos mulatos “no sentido lato”, como diz a canção, também aqueles no sentido estrito (com a indisfarçável fenotipia dos majoritariamente afro-descendentes), como o autor destas linhas se vê e considera, tivessem as possibilidades de poder e influência que tem o afro-americano Barack Obama. Mas esta, infelizmente, não é a nossa realidade.

Atrasados em pelo menos cinqüenta anos com relação às conquistas sociais do povo negro nos Estados Unidos, no Brasil, nós, herdeiros do mesmo brutal despojamento que plasmou a sociedade norte-americana (e do qual Obama, esclareça-se, não é vítima direta), vimos sendo, há mais de 120 anos, forçados a acreditar que neste país “alegremente mestiço e desracializado” nunca houve segregação nem ku-kluxklan, e que nossa inferioridade se deve apenas a problemas econômicos e pode ser zerada com boas escolas e boas merendas para todos.

Mas aí vem o jornalista Ivan Martins, da “Época”, e, depois de dar a palavra ao idealizador e diretor da paulista Universidade Zumbi dos Palmares, “gerida por negros, subsidiada e voltada para as classes mais pobres”, pergunta, na reportagem mencionada: “Quanto tempo, porém, será necessário para que se produza um líder como Obama no Brasil?” Enquanto isso não ocorre, meu amigo Martinho da Vila segue cantando seus belos sambas-enredo.

Principalmente, o “Sonho de um sonho”, com que sua escola chegou em segundo lugar (empatada com mais duas) no disputado carnaval de 1980.

13/05/2008 - 12:52h IGUALDADE RACIAL: “Falta muito para inserir o negro na sociedade”

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DA REPORTAGEM LOCAL FOLHA DE SP

Militante do movimento negro desde os anos 70, o negro Carlos Alberto Medeiros, 60, é um dos signatários do documento que será entregue hoje no STF. Presidente do Centro Brasileiro de Informação e Documentação do Artista Negro, ele é um entusiasta da política de cotas raciais. “Já conquistamos, do ponto de vista das leis, direitos iguais para os negros. Está consagrado na Constituição de 1988″, diz. “Mas ainda falta muito para a inserção real do negro na sociedade. O negro que freqüenta uma boa escola, por exemplo, ainda é barrado pela discriminação do mercado de trabalho”, afirma.

Segundo Medeiros, os adversários das cotas, signatários do manifesto “113 cidadãos anti-racistas contra as leis raciais”, servem de fachada para interesses egoístas e racistas. “Nós não podemos mais nos restringir à denúncia de discriminação contra os negros. É preciso apontar formas reais de superação.”

Medeiros lembra que, quando o Movimento Negro Unificado foi fundado, em 1978, havia o caso de quatro atletas negros de uma equipe mirim que haviam sido proibidos de entrar no Clube de Regatas Tietê por causa da cor da pele. “Se a diretoria aceita um sócio de cor e ele entra na piscina, na mesma hora, cem sócios deixam o clube”, chegou a declarar um conselheiro do clube. “Hoje, ofensas como essa são raras porque os negros adquiriram consciência de seus direitos e o preconceito se sofisticou”, diz.

“Se demos grandes saltos, porém é impossível deixar de reconhecer que, entre um trabalhador negro e outro branco, com igual qualificação, a vaga de emprego tem grandes chances de acabar com o branco. Combater a discriminação exige enfrentar a questão racial. Não fazê-lo só serve para os verdadeiros racistas manterem tudo como está”, diz Medeiros.

17/04/2008 - 19:56h Aimé Césaire, chantre de la “négritude”

Aimé Césaire est mort, jeudi 17 avril, à l’âge de 94 ans. Le poète martiniquais était hospitalisé depuis une semaine à Fort-de-France. Avec lui, les Antilles perdent leur plus célèbre figure.

En 1931, à peine arrivé à Paris, que Césaire rencontre Léopold Sédar Senghor. Boursier au lycée Louis-Le-Grand, le petit-fils du tout premier instituteur martiniquais prépare avec lui Normale Sup’. Senghor est sénégalais, et un dialogue fusionnel s’ouvre entre les deux hommes, alors que Césaire n’avait de cesse de répéter qu’on “n’est pas impunément noir”.

De Senghor, Césaire dira, des années plus tard, qu’il incarnait “l’Afrique éternelle dans sa noblesse, sa dignité, son histoire, sa philosophie, sa sagesse.” Là où les Antilles de l’esclavage et de la traite des noirs, dans la bouche du poète martiniquais, resteront plutôt “une Afrique démembrée, déchirée, lacérée”.

06/04/2008 - 15:29h França: os vermes nazistas em ação

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Túmulos de franceses muçulmanos “mortos pela França”, foram profanados, não longe de Paris, em Notre Dame de Lorette. O repudio é generalizado o que no impede a corja nazista e antisemita de agir na calada da noite, com uma certa impunidade.

04/04/2008 - 04:47h Negro e branco, brilhante e flexível, Obama revitaliza King

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O Estado de São Paulo - Gilles Lapouge*

Barack Obama tinha 6 anos quando Martin Luther King foi assassinado em Memphis. Desde aquele 4 de abril de 1968, a história mundial tornou-se tão efervescente que esquecemos a face dolorosa dos EUA. A candidatura de Obama é um convite a nos lembrarmos dela. No entanto, se o eloqüente Obama é um herdeiro da epopéia de King, ele o é de maneira longínqua, imprecisa.

King, pastor na Geórgia, foi o representante exemplar dos descendentes de escravos africanos que viviam no sul, repelidos e desprezados pela maioria dos brancos. Obama vem de outra parte. Ou melhor, vem de todos os lugares ao mesmo tempo - e essa é a sua força. Ele é negro e branco. Nasceu no Havaí, de pai queniano e mãe branca de alta linhagem: entre seus ancestrais está Jefferson Davies, presidente dos Estados Confederados da América. Muito jovem, retornou ao Quênia. Estudou em uma escola muçulmana na Indonésia. Fez seus estudos superiores nos EUA. Tornou-se cristão e participou de uma igreja negra de Chicago. Nada disso lembra a história de King. Lembra mais a de um imigrante do que a de um negro americano.

Há outra diferença. King não se inscrevia no jogo normal dos EUA e de suas instituições. Ele não conduziu uma ação política. Era um pastor que a miséria e a injustiça vieram interpelar. Já Obama é um homem político. Seguiu todos os currículos. Sabe das dificuldades. Conhece todas as sutilezas. Assim, o combate que empreende não é exatamente o mesmo que o de King. É por isso que evitou tão ferozmente apresentar-se como o recuperador da bandeira de King.

Nem sempre foi fácil. Ele tinha um desafio sutil: não se passar por um representante natural da comunidade negra, mas sem negligenciá-la. Nesse caso também, ele precisava estar aqui e lá ao mesmo tempo: negro e branco, nem negro nem branco.

O fato de pertencer, se não à comunidade negra, mas pelo menos ao mundo mestiço, não conseguiu descarrilar sua carruagem em várias ocasiões em que isso poderia ter ocorrido. O momento mais perigoso foi no início de março, quando vídeos lembraram que o antigo pastor da igreja de Obama em Chicago, o reverendo Jeremiah Wright, era um inimigo dos EUA. Em 2003, Jeremiah, que foi uma espécie de guia espiritual de Obama, clamou: “Em vez de dizer ‘Que Deus abençoe os EUA’, é preciso dizer: ‘Que Deus amaldiçoe os EUA’, que tratam como subumanos alguns de seus cidadãos.” Pior: após os atentados de 11 de setembro de 2001, Jeremiah ousou dizer: “Surpreende-me que as pessoas se espantem de que tudo o que os EUA fizeram no estrangeiro seja jogado hoje em sua cara.” Diante desse terremoto, Obama reagiu com sangue-frio. Finalmente, ousou encarar de frente a questão racial, essa ferida dos EUA que ele até então evitava. Fez um discurso inspirado sobre o tema, à maneira de um Lincoln ou de King.

De fato, há algumas semelhanças entre sua luta política e a luta humana de King. Os dois homens, num dado momento, defrontaram-se com o mesmo inimigo: o ódio dos extremistas. Por volta de 1960, os negros americanos, constatando que a não-violência não dava resultado, distanciaram-se de King e cometeram excessos sangrentos. King assistiu, desesperado, a esse retorno do horror.

Obama também deparou com o mesmo tipo de excesso. Mas soube acalmar os ânimos. E exatamente por causa de sua personalidade ambígua, meio queniana e meio americana, meio negra e meio branca, um pouco religiosa, mas não muito. Ele tem uma suavidade, uma flexibilidade que King não podia conhecer. E ele tem outros trunfos. Além de seu charme e seu brio dialético, é um homem absolutamente novo. King era muito velho, dos inícios da história americana. Obama, com apenas 46 anos, é um homem livre em relação às tradições políticas asfixiantes às quais todos os seus concorrentes estão extremamente ligados.

O fato de ele pertencer à comunidade negra, longe de aliená-lo dos brancos, como ele próprio temia, é, ao contrário, aceito. Melhor ainda: muitos americanos brancos, desesperados ao constatar o desprezo, o ódio ou a aversão aos EUA no mundo todo, se perguntam se este homem brilhante, negro e ileso de todos os clichês americanos não poderia reconquistar o coração dos homens. A cor da sua pele não poderá fazer esquecer a imagem corrompida e despedaçada dos EUA de Bush?

*Gilles Lapouge é correspondente em Paris

03/04/2008 - 17:41h 31 Hours, 28 Minutes

By Michael Finger

Memphis Magazine

April 1, 2008

In his final years, Dr. Martin Luther King Jr. had death on his mind.

While watching news coverage of the assassination of President John F. Kennedy, he turned to his wife, Coretta, and told her, “This is what is going to happen to me.” All his adult life, this practitioner of nonviolence had been threatened, assaulted, and surrounded by people — most of them white, some of them black — who considered him their enemy. The FBI routinely released memos documenting his activities, with the heading “Martin Luther King — Communist.” Andrew Young, one of the leaders of the Atlanta-based Southern Christian Leadership Conference, observed that King had questioned “fundamental patterns of American life” and had therefore “become the enemy” to many Americans.

So as he headed to Memphis in the spring of 1968, to hold what he hoped would be a peaceful demonstration in support of the sanitation workers’ strike here, King knew his life was in grave danger. “There’s no way in the world you can keep somebody from killing you,” he told a reporter, “if they really want to kill you.”

And he knew Memphis would be a challenge. The sanitation strike had dragged on into its fifth week, and the situation seemed hopeless. Jerry Wurf, international head of the American Federation of State, County and Municipal Employees (AFSCME) had complained bitterly, “I spent half my time trying to keep that city from burning down, while the god-damned mayor was pouring gasoline on the situation as I ran around pulling matches out of people’s hands.”

King’s supporters had dire premonitions. On the night following the dreadful riot of March 28th, the Rev. James Jordan, pastor of historic Beale Street Baptist Church, woke up in tears. He later told friends that he’d had a nightmare: “Dr. King’s picture came before me. I saw the Lord had shown me Dr. King’s death.”

When King decided to return to Memphis on April 3rd, to salvage his reputation and show the world that he could indeed preach the gospel of nonviolence with a second march on April 8th, a bomb threat delayed his flight. Ralph Abernathy, his second-in-command at the SCLC, reassured him, “Nobody is going to kill you, Martin,” but King still seemed deeply troubled. Later that day, however, he told supporters, “I would rather be dead than afraid.”

Then came his famous speech that blustery evening of April 3, 1968, at Mason Temple. With the wind howling outside and banging the shutters around the packed auditorium, he seemed to pause and reflect for a few seconds, then said, “Like anybody, I would like to live a long life. Longevity has its place. But I’m not concerned about that now. I just want to do God’s will. And He’s allowed me to go up to the mountain. And I have seen the promised land. I may not get there with you. But I want you to know tonight, that we as a people will get to the promised land . . .”

Within 24 hours, he would be felled by an assassin’s bullet. On these pages we present the storm of events that surrounded Dr. Martin Luther King Jr. in his final hours in Memphis. >>>

(more…)

03/04/2008 - 17:25h A dream deferred?

From Economist.com

Forty years after the murder of Martin Luther King, is America any closer to realising his dreams?

AFP/AP

MARTIN LUTHER KING dreamed of a day when his children would be judged not by skin colour but by character. Black America has moved far since his murder on April 4th 1968, at least on the political front. Four decades ago racists blew up churches and beat civil-rights marchers. Today, at least at the top, black America has found its voice: a black woman, Condoleezza Rice, is secretary of state, and a black man, Barack Obama, may capture the presidency in November.

In social and economic matters across the black population as a whole, however, blacks are still much worse off than whites. They endure far greater rates of poverty, crime and other social ills. Efforts to tackle these problems have produced dismal results, as opposing groups lay claim to King’s dream of colour-blindness.

Schooling shows some of the most intractable difficulties. Last year the Supreme Court declared unconstitutional plans by two school districts to assign students, according to race, to various schools (in an effort to balance the mix of races in classrooms). The court narrowly declared that the plans were against the constitution’s promise of equality before the law.

Yet few tools exist to tackle de facto educational resegregation. Aggressive federal intervention in the 1960s got black and white pupils to mix more. But by the 1980s white parents and conservative jurists had turned against controversial programmes such as the bussing of students to distant schools. Today blacks are again increasingly concentrated, if not legally segregated, into failing schools. Some 73% of black children study where over half the students are non-white, and 38% attend “intensely segregated” schools (over 90% non-white). Those schools get less funding and have less qualified teachers than average. In turn fewer blacks finish their studies. The most hopeful estimate—a 2006 report by the Economic Policy Institute—suggests that 74% of black students graduate. That is still ten percentage points below whites.

Another difficulty on the road to King’s colour-blind America concerns higher education. In 2006, the average white student scored 1063, out of 1600 on the Scholastic Aptitude Test, which is widely used for university admissions. The average black score was just 863. A 200-point gap usually means the difference between admission to an excellent university and a decent one, or between a decent one and a mediocre one.

The traditional remedy was “affirmative action”: various measures by universities to ensure higher rates of black enrolment. Here, too, jurisprudence has pushed back, most notably in a 2003 Supreme Court ruling, Gratz v Bollinger. The court found that universities may seek “diversity” in admissions, but the mechanistic system used by the University of Michigan, which gave points to students merely for being black, was unconstitutional. A simultaneous ruling on Michigan’s law-school admissions programme provided some ambiguity, when the court said that an “individualised, holistic” review of each application could consider race as a factor. Voters in Michigan responded by approving a 2006 ballot measure that banned affirmative action. The issue may now arise in the presidential campaign. A prominent (and black) opponent of affirmative action, Ward Connerly, is trying to get an initiative on the ballots of five states that would ban public institutions from considering race, sex or ethnicity when, for example, hiring staff.

Affirmative action—and other efforts—have certainly failed to rid America of sharp inequalities. Past oppression probably counts for much of the persistence of black poverty: in 1967, according to the census, the average black person had an income that was just 54% of the average white one. By 2005 the gap had only closed to 64%. And lingering prejudice makes life harder for many black job applicants. Social experiments have repeatedly shown that employers who are offered two otherwise identical résumés prefer one that carries a typically white name to one with a typically black name. Increasingly it is poorer and less educated black Americans who use “typically black” names, according to research by Steven Levitt, an economist at the University of Chicago.

With educational and economic opportunities skewed, no wonder that health and welfare indicators are too: the Justice Department estimates that one in three black men will go to jail at some point. An astounding 68% of blacks are overweight or obese, compared with (a still high) 58% of whites. Black people get cancer slightly more often than whites (despite smoking the same amount), and are more than twice as likely to be shot dead. Overall, black lives are five years shorter than white ones.

King is widely remembered as an inspirational speaker and moral leader. But John McWhorter of the Manhattan Institute concludes that his more mundane efforts may end up mattering as much: “I wish more people thought about the long, hard work he did behind the scenes on policy and negotiation.” Rows continue over the relative merits of race-blind policies and the need to level out America’s inequalities. Four decades after King’s death much remains to be done.

21/03/2008 - 02:06h Hillary ultrapassa Obama em pesquisa Gallup

Reuters O Globo Online

hillary_quebra_nozes.jpgWASHINGTON - A pré-candidata democrata à Casa Branca Hillary Clinton assumiu pela primeira vez em várias semanas uma vantagem significativa sobre Barack Obama na disputa pela indicação partidária, segundo uma nova pesquisa Gallup. No entanto, o levantamento, que ouviu 1.209 pessoas entre os dias 14 e 18 de março em todo o país, foi realizado antes do discurso histórico sobre a questão racial nos EUA proferido pelo senador de Illinois na terça-feira. A pesquisa, que tem margem de erro de três pontos percentuais, indicou que Hillary lidera com uma vantagem de 49% a 42%. Uma outra pesquisa, sobre as primárias na Pensilvânia, no dia 22 de abril, revelou uma vantagem de 51% a 35% de Hillary.

Segundo o Gallup, é a primeira vez que a ex-primeira-dama assume uma liderança estatisticamente significativa desde a pesquisa feita entre 7 e 9 de fevereiro, logo depois da chamada “Superterça”, quando mais de 20 Estados realizaram prévias partidárias. Desde então, os dois candidatos apareciam consistentemente em empate técnico, mas no levantamento de 11 a 13 de março Obama liderava.

Na simulação para a eleição geral de novembro, o republicano John McCain aparece à frente de Obama com 47% a 43% no levantamento junto a 4.367 eleitores registrados. A margem de erro para o levantamento sobre a eleição geral é de 2 pontos percentuais, para mais ou para menos.

Com relação a Hillary, a situação é de empate técnico -48% a 45% em favor do republicano.

A pesquisa do Gallup, segundo analistas, já indicaria os estragos que a posição radical e irascível do pastor Jeremiah Wright teria provocando na campanha de Obama, mas não captou a reação do senador, num discurso considerado paradigmático por analistas políticos.

” Quando a Guarda Nacional está no Iraque e não pode ajudar as vítimas do furacão em Louisiana ou das enchentes aqui na Virgínia Ocidental, nossas comunidades estão pagando um preço por essa guerra “

Na quinta-feira, dois dias após o discurso na Filadélfia, o senador mudou o foco da questão racial para economia e guerra no Iraque.

- Quando você está pagando mais de US$ 50 para encher o tanque de seu carro, você está pagando o preço dessa guerra - disse Obama em Charleston, na Virgínia Ocidental. - Quando a Guarda Nacional está no Iraque e não pode ajudar as vítimas do furacão em Louisiana ou das enchentes aqui na Virgínia Ocidental, nossas comunidades estão pagando um preço por essa guerra.

Já a campanha do republicano John McCain afastou o funcionário Soren Dayton, depois que se descobriu que foi ele quem distribuiu um vídeo do pastor Jeremiah Wright, ligado a Obama, com opiniões polêmicas sobre racismo no país, na tentativa de provar que o senador democrata não é patriota.

05/03/2008 - 15:46h O musical que mudou a Broadway

Versão nacional conserva o leve tom operístico e a coreografia que define o caráter dos personagens

Ubiratan Brasil - O Estado de São Paulo

Versão moderna de Romeu e Julieta, metáfora sobre a ameaça que os imigrantes significam a um país rico, a eterna briga pela conquista do território - West Side Story ainda provoca leituras diversas, mas em um detalhe todos são unânimes: trata-se do musical que revolucionou a Broadway. ‘Quando foi montado, em 1957, surpreendeu não só pelos temas mas por apresentar uma ação que passava para a dança de forma natural, como se a coreografia fosse extensão dos movimentos dos atores’, comenta Jorge Takla, que comanda a primeira montagem brasileira de West Side Story, que estréia sexta para convidados, no Teatro Alfa, e sábado para o público.

Diretor, produtor, iluminador e cenógrafo do espetáculo, Takla preferiu manter o título original, rejeitando a tradução brasileira que acompanha a versão cinematográfica, Amor, Sublime Amor, ganhador de nada menos do que dez Oscars em 1961. ‘Preferi realizar um trabalho sem concessão, ou seja, com 42 atores e uma orquestra com 23 músicos, como prevê o original’, conta ele, que calcula um investimento total de R$ 5 milhões para levantar a montagem, além de R$ 1,5 milhão mensal para manutenção de um total de 100 apresentações.

Tamanho cuidado não é exagero - a criação original de West Side Story uniu uma equipe ainda imbatível na história da Broadway. Jerome Robbins, que se tornou o modelo máximo do coreógrafo-diretor, teve o controle total da produção, desde a concepção até a montagem final; Leonard Bernstein, com quem Robbins havia iniciado uma brilhante parceria anos antes, compôs as músicas; Stephen Sondheim, na época um jovem de 20 anos que contava apenas com o apoio do grande Oscar Hammerstein, escreveu as letras das canções; e Arthur Laurents, então um dramaturgo promissor, cuidou do libreto.

A história é ambientada no subúrbio de Nova York, onde duas gangues rivais, os Jets (os nascidos americanos) e os Sharks (imigrantes porto-riquenhos), lutam pelo domínio do bairro. Em meio a tanta incompreensão, Tony, um dos fundadores dos Jets, se apaixona por Maria, a irmã de Bernardo, comandante dos Sharks. O amor impossível, que faz lembrar Romeu e Julieta (inspiração inicial da história), é fadado ao fracasso - uma paixão irrealizável graças ao racismo e à xenofobia americana. ‘Trata-se de obra musicalmente complexa, em que atores devem cantar e dançar de forma natural, sem parecer uma demonstração de técnica’, comenta Takla.

De fato, escrito como se fosse uma ópera, o musical exige cantores com vocação lírica para os papéis principais. Mais: em uma das mais célebres canções, Maria, o ator que interpreta Tony necessita alcançar uma nota difícil, o si bemol. ‘Para conseguir isso, tive de retrabalhar minha respiração’, conta Fred Silveira, que vive Tom com firmeza e emoção e participa do oitavo musical de sua carreira. ‘Além de outra exigência, a coreográfica, é preciso preparar a emoção para o final.’

É justamente o momento em que Maria perde a inocência à custa da vida do amado. ‘Ela sofre uma mudança radical em sua rotina, tornando-se mulher graças ao ódio que separa as duas gangues’, comenta Bianca Tadini, soprano lírica que, como Maria, também atinge notas difíceis (como um dó, no final da música Quinteto) e confere dignidade à menina obrigada a amadurecer com a perda.

Também cantora lírica, Sara Sarres interpreta um papel (Anita, porto-riquenha apaixonada por Bernardo) que exigiu uma mudança em sua carreira. ‘Mudei vocalmente minha interpretação, buscando posições mais graves de minha voz.’ Com isso, ela deixou de viver as eternas mocinhas e se tornar, com presença marcante, uma mulher madura, que também sofre uma perda.

Em West Side Story, os números musicais ajudam a narrar a trama e definem o caráter dos personagens. Daí a comprovada importância dos papéis considerados secundários. ‘Cada um tem uma trajetória específica e até uma coreografia própria, o que marca bem sua posição’, comenta Luciano Andrey, desenvolto como Riff, principal amigo de Tony. ‘E, para isso, temos de usar a técnica do balé clássico adaptado ao musical’, completa Adalberto Halvez, dono de uma enorme vitalidade ao viver Bernardo.

Foi esse o grande desafio de Tânia Nardini, responsável pela adaptação da coreografia original, e também de Cláudio Botelho, que traduziu as letras sem perder o frescor - seu maior trunfo foi a versão de Tonight: como a canção exigia uma palavra de duas sílabas para substituir ‘tonight’, ele encontrou em ‘você’ a chave para manter o ritmo certo e ainda segurou a linha melódica da letra. Um esforço de equipe para garantir o estilo clássico do musical, cujo final, ao contrário da peça de Shakespeare, é mais amargo e mais condizente com o mundo moderno.

Serviço
West Side Story. 140 min. (com 15 min. de intervalo). 12 anos. Teatro Alfa - Sala A (1.210 lug.). Rua Bento Branco de Andrade Filho, 722, Santo Amaro, telefone 5693-4000. 5.ª e 6.ª, às 21 h; sáb., às 17 h e às 21 h; dom., às 18 h. R$ 40 a R$ 130 (5.ª);R$ 60 a R$ 140 (6.ª e dom.);
R$ 60 a R$150 (sáb.). Ingressos pelos telefones 5693-4000 e 0300 789-3377 (serviço exclusivo do Teatro Alfa, com entrega no próprio teatro no dia do espetáculo). Ingresso Rápido, 4003-1212, www.ingressorapido.com.br (com taxa de conveniência). Até 27/7

05/03/2008 - 15:12h Canções de uma América que perde a inocência na rua

Musical de Bernstein e Sondheim é um registro documental do nascimento das gangues racistas nas cidades dos EUA

Antonio Gonçalves Filho - O Estado de São Paulo

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O musical West Side Story nasceu há meio século como uma história de dois amantes de crenças antagônicas, um católico e outro judeu, ambos moradores no lado leste de Manhattan. O projeto logo foi abandonado. Seria esquemático demais situar o musical na parte nobre da ilha. Nem o coreógrafo Jerome Robbins, que teve a idéia de adaptar Romeu e Julieta para a linguagem do musical americano, parecia convencido. Finalmente, ao ler uma reportagem no jornal Los Angeles Times sobre gangues rivais formadas por mexicanos e americanos, Arthur Laurents, autor da peça, logo imaginou que o conflito religioso da história original poderia ser transformado numa briga étnica. Não no elegante lado leste, mas no lado oeste de Manhattan, o mais miserável.

Laurents conversou, então, com o compositor Leonard Bernstein, parceiro de Robbins no musical On the Town (1944). Coincidentemente, o maestro, um gay nada discreto habituado a rondas noturnas em bairros pobres de Manhattan, havia descoberto às margens do Rio Hudson, lá pela Rua 125, alguns garotos porto-riquenhos fazendo uma algazarra dos diabos: pulavam e brigavam entre os arcos de um prédio como se estivessem numa coreografia de Robbins. Assim nascia um dos números mais fascinantes (a seqüência do Rumble) de West Side Story, herdeiro dos musicais politizados de Brecht e Weill - sem o didatismo da dupla alemã. Estava decidido: seria um musical sobre gangues urbanas que tomam o lugar das famílias feudais de Shakespeare e lutam por afirmação étnica e pela defesa de seu território. Isso nos anos 1950, muito antes do hip-hop e dos gangsta rappers.

No lugar dos Capuletos e Montecchios, os Jets, a gangue polimorfa de caucasianos, luta até a morte contra os Sharks, outra gangue formada por imigrantes porto-riquenhos. O cenário: a América de jovens deserdados, dispostos a tudo para pertencer a algum grupo social. Em West Side Story, o sonho americano de ascensão vira um pesadelo quando um dos garotos da primeira gangue, os Jets - ou seja, os ‘jatos’, signos da América do futuro -, apaixonado pela irmã do líder porto-riquenho, mata por acidente um dos Sharks - os ‘tubarões’, bichos que não evoluem há mais de 2 milhões de anos.

Os sociólogos americanos cansaram de explicar a origem desse conflito: declínio da oferta de emprego aos imigrantes (especialmente os latinos) numa época de automação e medidas cautelares da Suprema Corte para manter negros, chicanos e nativos fora do páreo. Aprovando leis ambíguas nos anos 1950, que garantem igualdade aos cidadãos (desde que separados por raças), essa corte é ridicularizada na figura do policial Krupke, que ouve, dos garotos das duas gangues de West Side Story, mais palavrões do que suportam seus ouvidos. Tanto que Sondheim (também autor de Sweeney Todd, base do filme homônimo em cartaz) foi obrigado a mudar as letras da canção Gee, Officer Krupke, na adaptação para o cinema: nela, um garoto diz que seu pai é um bastardo, sua mãe uma ‘fdp’ e sua irmã uma biscate. Conclusão: a canção foi banida da programação da BBC por mencionar abuso sexual e uso de drogas. Mais uma vez: isso em 1957.

O pior de tudo é que nem Bernstein nem Sondheim exageravam. Quando Rita Moreno interpretou, no cinema, a cena em que Anita é acossada e quase currada pelos Jets, a atriz desabou a chorar ao lembrar que foi vítima de abuso sexual quando criança. Ela não perdoa seu algozes. Aconselha Maria, apaixonada pelo americano Tony, a procurar um bom rapaz porto-riquenho e se livrar daqueles ‘monstruosos’ ianques que a acuaram na rua (na canção A Boy Like That). Perpetuam-se os estereótipos cultivados por ambos os lados. Fica claro que eles são transmitidos pelos pais das vítimas. Os Jets não só discriminam os Sharks porto-riquenhos, acusando-os de roubar seus empregos, como enunciam um discurso racista sobre a inferioridade latina, imitando o sotaque do antípoda. A própria Anita se encarrega de traçar um auto-retrato depreciativo dos porto-riquenhos, justificando que prefere a discriminação à miséria (na canção América). Algo mudou?

03/03/2008 - 09:28h O segundo presidente negro

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Matthew Shirts - O Estado de São Paulo

Onde quer que eu vá, de uns tempos para cá, a pergunta é uma só: Barack Obama pode mesmo ganhar a Presidência dos Estados Unidos? Os brasileiros não acreditam. Estão abismados.

A resposta que parecem aguardar é ‘não’. Esperam eu dizer que ainda não foram contados os votos de alguma região onde se acredita que o homem defendeu a arca de Noé dos dinossauros com Winchesters, ou então uma longa explicação de como o Colégio Eleitoral pode tornar sua eleição impossível.

Não é que torçam contra o candidato. Não é isso. Tampouco são fãs da Hillary Clinton ou do John McCain. O problema é que se Obama for o próximo presidente, então seu entendimento anterior dos Estados Unidos e do mundo era equivocado. Pensavam outra coisa daquele país e do que era possível por lá. Talvez tenham de reconsiderar as coisas, o emprego, o casamento, tudo.

É um sentimento compreensível. A possibilidade de um negro, jovem, ser o próximo presidente dos EUA é mesmo surpreendente, sobretudo depois de oito anos de administração Bush. E mais: ele não é raivoso. E tem aquele nome, pelo amor de Deus, que não é nem de americano. (Um brasileiro amigo meu afirmou, dia desses, num momento de distração, que Obama nasceu no Haiti - foi no Havaí…)

Eu mesmo não teria acreditado se alguém me dissesse, há um ano, que ele estaria liderando a corrida pela indicação do Partido Democrata a esta altura do campeonato. O espanto não é privilégio de brasileiro (Nasci e fui criado nos Estados Unidos).

Como explicar o Obama? Não estava tudo preparado para a vitória da Hillary? Não era a sua vez? A máquina partidária não fora azeitada para isso? Ela é competente, afinal, inteligentíssima, experiente, à sua maneira, e traz ao baile, ainda, a novidade de ser mulher.

Há quem explique o fenômeno por meio da formação excepcional do Obama. É difícil, dizem, lutar contra o primeiro candidato negro plausível à Presidência dos Estados Unidos. Mais ainda contra um indivíduo que consegue ser de Kansas, Chicago, Havaí e Quênia, de mãe solteira pobre, filho de muçulmano com cristão, e de Harvard. É muita biografia. É muita coisa ao mesmo tempo. O resultado é carismático demais.

Mas não é só isso. Fiquei feliz ao ler, esta semana, que Obama não é um fenômeno isolado, por incrível que possa parecer. Faz parte de uma nova geração de políticos chamada pela revista New Yorker de ‘a ala Oprah Winfrey do Partido Democrata’. Para quem não sabe, Oprah, como é conhecida, é uma apresentadora de TV e empresária de incalculável influência na cultura americana. Seu apoio foi fundamental para a candidatura de Obama. E também para a eleição de outro negro, Cory Booker, este ao cargo de prefeito da cidade de Newark, em New Jersey, a dez quilômetros de Manhattan.

Guarde esse nome. Como Obama, Booker é negro e jovem, de apenas 38 anos. E como Obama, rejeita a política baseada no racialismo. Estudou, como Obama, em instituições de elite: Yale, Oxford e Stanford, onde jogou futebol americano. Já é apontado como presidenciável. Aposta seu futuro na reforma de uma cidade decadente e corrupta. Sua maior bandeira é a segurança pública. É conciliador, como Obama. Fisicamente, lembra um pouco Ronaldo, o fenômeno, quando este ainda era careca.

Booker inspira e comove pelo mesmo motivo do Obama: o desejo de uma era pós-racial na vida americana. É um sentimento forte. A política voltou a ter um componente utópico nos Estados Unidos. Amanhã, depois das primárias de Ohio e Texas, Obama pode definir a eleição do seu partido. Seja como for, o espírito da época já mudou. Para melhor.