13/10/2009 - 11:50h Mentalidades monetárias equivocadas

Krugman_paulPaul Krugman*, THE NEW YORK TIMES – O Estado SP

Uma lição da Grande Depressão é que não se deve subestimar o poder destruidor das más ideias. E algumas más ideias que ajudaram a causar a Depressão mostraram-se, ai de nós, extremamente duráveis: em forma modificada, elas continuam a influenciar o debate econômico hoje.

O historiador econômico Peter Temin argumentou que a principal causa da Depressão foi o que ele chama de “mentalidade de padrão ouro”. Com isso, quer dizer não somente a crença na importância sagrada de manter o valor em ouro de uma moeda, mas um conjunto de atitudes afins: medo obsessivo de inflação, mesmo em face de deflação; oposição ao crédito fácil, mesmo quando a economia precisa desesperadamente dele, com base em que isso seria de alguma forma deturpador; afirmações de que mesmo que o governo pudesse criar empregos, ele não deveria, pois seria uma recuperação “artificial”.

No início dos anos 1930, essa mentalidade levou governos a elevar juros e cortar gastos, a despeito do desemprego em massa, na tentativa de defender as reservas em ouro. E, mesmo quando países ficavam sem ouro, a mentalidade prevalecente os deixava relutantes em cortar impostos e criar empregos.

Os EUA não vão retornar ao padrão ouro. Mas uma versão moderna da mentalidade do padrão ouro esta exercendo uma influência crescente em nosso discurso econômico. E essa nova versão de uma ideia antiga ruim poderá minar nossas chances de recuperação plena.

Considere-se, em primeiro lugar, o alarido sobre o declínio do dólar. A verdade é que isso é uma boa notícia. Por um lado, ela é sobretudo resultado do aumento da confiança: o dólar subiu no auge da crise porque investidores em pânico buscavam proteção nos Estados Unidos, e está caindo agora que o medo está cedendo.

E um dólar mais baixo é bom para os exportadores americanos, ajudando-nos a fazer a transição de déficits comerciais imensos para uma posição internacional mais sustentável. Mas, na página de opiniões do The Wall Street Journal, o que se vê é que a queda do dólar é uma coisa terrível, sinal de que o mundo está perdendo a fé nos EUA (em especial, é claro, no presidente Barack Obama).

Fica-se pensando que alguma coisa precisa ser feita para conter a descida do dólar. E, na prática, o declínio do dólar se tornou uma vara com a qual os conservadores do Congresso pressionam o Federal Reserve (Fed) a recuar no esforço de sustentar a economia. Só podemos esperar que o Fed suporte a pressão. Mas há sinais de uma mentalidade equivocada dentro do próprio Fed. Nas últimas semanas, surgiram declarações, principalmente de presidentes regionais do Fed, mas não só, pedindo o retorno do endurecimento monetário, incluindo juros mais altos.

Funcionários do Fed são, normalmente, cautelosos ao comentar a política monetária futura para não prejudicar os esforços da instituição de moldar as expectativas. Assim, é extraordinário ver esses funcionários quebrando regras, até instruindo a ação do Comitê de Mercado Aberto (Fomc) do Fed, que fixa a taxa de juros.

Mais extraordinária é a ideia de que elevar o juro no curto prazo faz sentido. Afinal, ao desemprego alcançou 9,8% e continua subindo, enquanto a inflação está bem abaixo da meta de longo prazo do Fed.

Para evitar uma “Grande Inflação”, diz Charles Plosser do Fed da Filadélfia, “teremos de agir bem antes que a taxa de desemprego e outras medidas de utilização de recursos tenham voltado a níveis aceitáveis”.

Não sei que análise está por trás desses dedos nervosos no gatilho. Provavelmente, não se tratem de análises, mas de mentalidade. E é crucial que não deixemos essa mentalidade guiar a política.

* O autor é Nobel de Economia

03/10/2009 - 14:35h Krugman: Gastar dinheiro agora significa fortalecer a economia, no curto e no longo prazos

Krugman_paulMissão não cumprida

Paul Krugman*

As ações estão em alta. Segundo Ben Bernanke, a recessão acabou. Eu sinto uma crescente disposição entre os formadores de opinião a declarar: missão cumprida no combate à crise. E há quem afirme que está na hora de deixarmos de nos preocupar com o estímulo econômico para nos concentrarmos no déficit do orçamento. Mas não está, não. A autocomplacência que começa a se instaurar em relação ao estado da economia é insensata e perigosa.

Sim, o Federal Reserve (Fed) e o governo Obama nos tiraram da Beira do Precipício – título de um novo ensaio de Christina Romer, diretora do Conselho de Assessores Econômicos, no qual argumenta, de maneira convincente, que a política de forte expansão dos gastos públicos nos salvou de uma possível reedição da Grande Depressão.

Mas, embora evitar outra depressão seja muito bom, tudo indica que, se o governo não fizer muito mais do que planeja atualmente para promover a recuperação da economia, a situação do mercado de trabalho – no qual, hoje, a procura de emprego é seis vezes maior que a oferta – continuará sendo angustiante nos anos vindouros.

Na realidade, a projeção econômica do próprio governo – em que são levados em conta os novos empregos que suas medidas criarão – mostra que a taxa de desemprego, que há apenas dois anos estava abaixo de 5%, será em média 9,8% em 2010, 8,6% em 2011 e 7,7% em 2012.

Não podemos considerar aceitável essa perspectiva, em primeiro lugar, porque ela implica enorme sofrimento nos próximos anos. Além disso, se o desemprego permanecer nesse nível por tanto tempo, lançará uma sombra negra sobre o futuro dos Estados Unidos.

Os que acham que estamos fazendo o bastante para criar empregos devem ler o relatório apresentado recentemente por John Irons, do Instituto de Política Econômica, que descreve a “devastação” produzida por um desemprego persistente. Entre outras coisas, Irons destaca que o desemprego persistente na escala hoje prevista levaria a um enorme aumento da pobreza – e que existem evidências esmagadoras de que as crianças que crescem em meio à pobreza muito provavelmente terão uma vida miserável.

Esse custo humano deveria constituir nossa maior preocupação, mas suas implicações em termos de recursos também são assustadoras. As projeções do Departamento do Orçamento do Congresso, por exemplo, mostram que, no período de 2010 a 2013 – sem contar os prejuízos que já sofremos – o “déficit de produção”, a diferença entre tudo o que a economia poderia ter produzido e tudo o que ela realmente produz, será superior aos US$ 2 trilhões. O que significa que são trilhões de dólares de potencial produtivo que se perderão.

Mas a coisa é muito pior. Um relatório do Fundo Monetário Internacional (FMI) mostra que o tipo de recessão que tivemos, causada por uma crise financeira, costuma causar danos no longo prazo em termos das perspectivas de crescimento de um país. “O caminho da produção tende a se estreitar substancialmente e de maneira persistente depois das crises do setor bancário.”

Entretanto, o mesmo relatório sugere que esse desfecho não é inevitável. “Concluímos que uma resposta mais firme de uma política fiscal no curto prazo” – medida pela qual se entende um aumento temporário dos gastos do governo – “está significativamente associada a menores perdas da produção no médio prazo.”

Portanto, deveríamos fazer muito mais do que estamos fazendo para promover a recuperação econômica, não apenas porque isso reduziria nosso sofrimento atual, como também porque melhoraria nossas perspectivas no longo prazo.

Mas será que podemos fazer mais – no sentido de oferecer mais ajuda a combalidos governos estaduais e aos desempregados, de aumentar os gastos em infraestrutura, de oferecer incentivos fiscais aos empregadores para que criem empregos? Sim, nós podemos.

O senso comum diz que ajudar a economia agora produzirá ganhos no curto prazo à custa de sofrimento no longo prazo. Mas, como acabamos de ressaltar, do ponto de vista da nação como um todo não é assim que funciona. A crise está produzindo danos no longo prazo para a economia e a sociedade e, se pudermos abrandá-la, teremos um futuro melhor.

É verdade que um aumento dos gastos com a recuperação e a reconstrução piorará a própria posição fiscal do governo. Mas mesmo neste caso, o bom senso exagera. Os verdadeiros custos fiscais desse respaldo para a economia são surpreendentemente baixos.

Gastar dinheiro agora significa fortalecer a economia, no curto e no longo prazos. E uma economia mais forte implica maiores receitas, para compensar uma considerável parcela dos custos iniciais. Segundo cálculos aproximados, a compensação chegaria a quase 100%, de forma que o estímulo fiscal não é um almoço grátis completo. Mas custa muito menos do que imaginaríamos de acordo com um suposto debate informado.

Sei que um aumento do estímulo é algo difícil de vender em termos políticos, mas é urgentemente necessário. A questão não é se podemos fazer mais para promover a recuperação, mas se podemos optar por não fazê-lo. E a resposta é não.

*Paul Krugman é Prêmio Nobel de Economia de 2008

17/09/2009 - 11:39h Lula teve ‘visão correta’ ao falar que crise era ‘marolinha’, diz ‘Le Monde’

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Segundo jornal, governo foi ‘preciso em estratégia concentrada no apoio do mercado interno’.

- O presidente Luiz Inácio Lula da Silva teve uma visão “bastante correta” ao dizer, no ano passado, que a crise no Brasil provocaria apenas uma “marolinha”, diz artigo publicado no jornal francês Le Monde nesta quinta-feira.

O diário argumenta que a recessão no Brasil durou apenas um semestre, citando o aumento de 1,9% do PIB no segundo trimestre de 2009, após queda nos dois trimestres imediatamente anteriores, além da recuperação da Bolsa de Valores de São Paulo e do real.

“A rápida recuperação do Brasil demonstra a precisão da estratégia adotada pelo governo e concentrada no apoio do mercado interno. As reduções de impostos a favor das indústrias de automóveis e de eletrodomésticos mantiveram as vendas nestes nestes dois setores cruciais”, afirma o jornal, lembrando ainda que a confiança do consumidor brasileiro jamais chegou a ser abalada.

No artigo, intitulado “A retomada do crescimento mundial se baseia nos Brics”, o Le Monde traça o panorama econômico dos países do grupo – Brasil, Rússia, Índia e China – um ano após a queda do banco Lehman Brothers, considerada o marco da atual crise financeira global.

Outros países

“É para os grandes países emergentes que se direciona hoje a esperança de que a fase de recuperação do nível de vida vai se acelerar. E que seus modelos de crescimento, até hoje essencialmente baseados nas exportações, vão progressivamente dar lugar a um novo modelo de desenvolvimento, garantindo mais importância à demanda interna”, diz o jornal.

Sobre a China, o Le Monde afirma que a previsão de crescimento de 8% para o PIB de 2009 deve ser atingida, mas ressalta que o modelo econômico do país favorece o investimento em detrimento do consumo.

O diário francês lembra que a Índia conseguiu manter um crescimento sustentado, principalmente nos setores de indústria e serviços.

Já a Rússia, tida como o país mais atingido dos Brics pela crise, também parece estar se recuperando, de acordo com o Le Monde, com um aumento do PIB nos últimos meses. BBC

 

 

 

Le rebond de la croissance mondiale repose sur les BRIC

16/09/2009 – LE MONDE

Le président de la Réserve fédérale américaine (Fed), Ben Bernanke, a célébré à sa manière le premier anniversaire de la faillite de la banque d’affaires Lehman Brothers en annonçant, mardi 15 septembre, que la récession économique était “très probablement terminée” aux Etats-Unis.

Le même jour, confirmant ses propos, le département du commerce américain a fait savoir que les ventes de détail avaient progressé de 2,7 % au mois d’août, leur plus forte hausse depuis janvier 2006. Si c’est le signe que le consommateur américain retrouve un peu d’appétit, les économistes sont aussi d’accord pour dire que la ménagère du Texas ne pourra plus jouer le rôle de moteur de croissance de l’économie mondiale, comme elle l’était depuis deux décennies. Le temps du désendettement et de l’épargne est venu pour les Américains. Ce n’est guère non plus sur la vieille Europe, engluée dans ses problèmes structurels de dettes publiques, de prélèvements obligatoires record et de retard technologique, que l’économie mondiale peut compter pour retrouver son dynamisme passé.

C’est vers les grands pays émergents, les fameux BRIC (Brésil, Russie, Inde, Chine) que l’espoir se porte aujourd’hui – l’espoir que la phase de rattrapage de leur niveau de vie vis-à-vis des pays occidentaux va se poursuivre, voire s’accélérer. Et que leurs modèles de croissance, jusqu’à présent essentiellement basés sur les exportations, qu’il s’agisse de T-shirts ou de matières premières, va progressivement céder la place à un nouveau mode de développement, faisant la part belle à la demande intérieure. Etat des lieux dans les économies des BRIC, un an après le séisme.

Chine. Avec des ventes de voitures en hausse de près de 30 % sur les huit premiers mois de l’année, une reprise soutenue des importations de matières premières et une Bourse en surchauffe, la Chine ne donne pas vraiment l’impression de souffrir de la crise mondiale. Le taux de croissance annuel de 8 % du PIB, l’objectif initial du gouvernement pour 2009, devrait être atteint, a récemment déclaré le Bureau national des statistiques.

La robustesse de la croissance chinoise s’explique par le méga-plan de relance de 4 trillions de yuans (400 milliards d’euros) sur deux ans annoncé fin 2008, source d’une frénésie d’investissement en infrastructures sans pareil dans l’histoire économique mondiale. Dans l’urgence, le gouvernement chinois a ordonné aux banques d’ouvrir toutes grandes les vannes du crédit. Et après un fort ralentissement en juillet, les crédits sont repartis en août.

Cette stratégie de relance aux stéroïdes, qui a permis d’amortir le choc sur l’emploi et d’éviter que n’explose le chaudron social, est aussi porteuse de déséquilibres : une partie de l’argent des banques s’est visiblement dirigée vers la spéculation (bourse, immobilier et matières premières), tandis que de futures mauvaises créances s’accumulent. Le modèle économique chinois, ont dénoncé plusieurs économistes chinois réunis vendredi 12 et samedi 13 septembre, au Davos chinois, à Dalian, penche un peu plus du mauvais côté, celui de l’investissement au détriment de la consommation.

Inde. Malgré la crise mondiale survenue il y a un an, la croissance indienne s’est poursuivie à un rythme soutenu. Elle a atteint 6,7 % sur l’année fiscale qui se termine au 31 mars 2009, et devrait descendre aux alentours de 6 % lors de l’exercice suivant. La mauvaise mousson de cet été, avec la moitié du pays touchée par la sécheresse, explique ce léger fléchissement. Hormis l’agriculture, tous les secteurs sont épargnés par la crise. La production industrielle a connu en juin sa meilleure performance en un an et demi. Et le secteur des services a maintenu son rythme de croissance de 6,3 % au premier trimestre 2009. L’Inde doit sa bonne performance à la robustesse de sa demande intérieure et à la résistance de son système financier, “peu connecté au reste du monde”, comme le note Rajiv Kumar, directeur du Conseil indien pour la recherche sur les relations économiques internationales (Icrier).

Dans un pays où seuls 15 % de l’économie dépendent des exportations, la demande intérieure a été peu affectée par la récession mondiale, surtout dans les zones rurales, qui constituent la moitié du revenu national. Grâce aux programmes sociaux et à la hausse des investissements publics dans les infrastructures, les campagnes ont, au contraire, vu leurs revenus augmenter. L’Etat en paie le prix fort, avec un déficit budgétaire représentant 6,8 % du PNB. Et l’agence de notation Standard & Poor’s a ramené de “stable” à “négatif” sa notation souveraine sur l’Inde. Le pays reste toutefois une destination attirante pour les investisseurs du monde entier, car il est perçu comme un relais de croissance idéal aux marchés saturés, et touchés par la crise, des pays développés.

Brésil. En prédisant avec ironie il y a un an que “le tsunami” de la crise provoquerait dans son pays une simple “vaguelette”, le président brésilien, Luiz Inacio Lula da Silva, avait vu assez juste : la récession n’aura duré qu’un semestre.

Le produit intérieur brut a augmenté de 1,9 % au deuxième trimestre 2009, après avoir régressé pendant deux trimestres consécutifs : – 3,4 % (octobre-décembre 2008) et – 1 % (janvier-mars 2009).

Selon le ministre de l’économie, Guido Mantega, le géant sud-américain devrait, sur sa lancée, retrouver en 2010 sa vitesse de croisière d’avant la crise, autour de + 4,5 %.

Happé par la récession plus tard que la plupart des pays du monde, le Brésil en sort plus tôt, comme l’attestent deux autres indices : la bourse de Sao Paulo a retrouvé son très haut niveau d’il y a un an et la monnaie, le real, a reconquis toute sa vigueur face au dollar et à l’euro.

La rapide récupération du Brésil témoigne de la justesse de la stratégie adoptée par le gouvernement et axée sur le soutien du marché intérieur. Des réductions d’impôts en faveur de l’automobile et de l’électroménager ont maintenu les ventes dans ces deux secteurs industriels cruciaux.

La banque centrale a aidé les banques en difficulté, puisant dans ses grosses réserves – 200 milliards de dollars – pour irriguer le marché asséché. De grosses entreprises, comme le géant minier Vale, ont pris peur, en gelant leurs investissements, ce que le président Lula leur reproche aujourd’hui. Mais la confiance des consommateurs, elle, n’a guère été ébranlée : “L’économie a survécu grâce aux plus pauvres”, souligne Lula.

Russie. Bien plus touchée par la crise que les autres pays du BRIC (Brésil, Inde, Chine), la Russie connaît un semblant de reprise. Son PIB a augmenté, en glissement mensuel, de 0,4 % en juin et de 0,5 % en juillet.

Le ministre russe des finances, Alexeï Koudrine, se veut optimiste : le pays émergera “complètement” au troisième trimestre 2009. “Sur le long terme et pour de multiples raisons, la Russie restera dotée d’une solide croissance” qui lui permettra de se hisser “au sixième rang de l’économie mondiale”.

Après un essor économique sans précédent ces dix dernières années, la Fédération russe a subi la crise de plein fouet. Son PIB a chuté de 9,8 % au premier trimestre sur un an, et de 10,9 % au deuxième trimestre.

Cet atterrissage brutal s’explique par le modèle russe de croissance, axé sur les exportations de matières premières et le recours massif aux crédits étrangers. La crise a révélé l’échec des autorités à mettre en place des réformes structurelles au moment où l’Etat engrangeait les recettes de la vente du pétrole. Conscientes de ces faiblesses, les autorités russes ont plaidé ces derniers mois en faveur d’une diversification et d’une modernisation des infrastructures.

Ces bonnes résolutions risquent d’être vite oubliées. Le frémissement actuel de l’économie a une seule cause, la remontée des prix du pétrole, passés de 33 dollars en décembre 2008 à 70 dollars ces derniers mois. Quant au recours aux emprunts à l’étranger, il s’est tari, ce qui signe la fin de la consommation effrénée et des projets de développement. “Vingt années de tumultueux changements dans notre pays n’ont pas changé son humiliante dépendance aux matières premières. (…) A de rares exceptions près, nos entreprises ne créent pas les biens et la technologie nécessaires à la population”, a récemment souligné le président, Dmitri Medvedev.

Jean-Pierre Langellier (à Rio), Marie Jégo (à Moscou), Julien Bouissou (à New Delhi), et Brice Pedroletti (à Shanghaï)

14/09/2009 - 09:40h “O Brasil está liderando o mundo para fora da recessão”

Toda Mídia

NELSON DE SÁ – nelson.sa@grupofolha.com.br

“Exit”

Nas reportagens publicadas por “Wall Street Journal” e “Financial Times” no sábado, o mesmo título, “Brasil sai da recessão”. O “FT” ouviu economista que creditou ao Bolsa Família e aos salários em alta. O site do “WSJ” acrescentou que a dívida dos emergentes fechou a semana em alta “pelos dados do Brasil e da China”, agora sempre juntos.

Nas reportagens publicadas por “Wall Street Journal” e “Financial Times” no sábado, o mesmo título, “Brasil sai da recessão”. O “FT” ouviu economista que creditou ao Bolsa Família e aos salários em alta. O site do “WSJ” acrescentou que a dívida dos emergentes fechou a semana em alta “pelos dados do Brasil e da China”, agora sempre juntos.

O “WSJ” postou ainda que o ministro da Fazenda falou em crescimento de 1% no ano e o presidente do Banco Central concordou que crescimento positivo é “provável”. E a “Veja” destaca que dias antes, na reunião preparatória do G20, o secretário do Tesouro dos EUA, Timothy Geithner, declarou “em alto e bom som”, para todos ouvirem, que “o Brasil está liderando o mundo para fora da recessão”.
Ontem, no alto das buscas por Google News e Yahoo News, Mantega e Meirelles seguiam falando, já com os próximos passos, mas ainda festejando seu “success case”, modelo de sucesso.

CRISE? QUE CRISE?

veja.abril.com.br

Nas duas primeiras chamadas da revista, “Por que o Brasil foi o último a entrar e o primeiro a sair” e “Os emergentes superarão os ricos em cinco anos”. Abrindo a reportagem, “Dá para acreditar?”

TALVEZ
Em série de reportagens no domingo, a Reuters Brasil destacou que o “PIB mais forte faz mercado melhorar previsão de 2009″, a exemplo dos dois ministros. Mas ainda não passa de “talvez até positivo”. Por outro lado, avisa, “Trabalhadores já pensam em greve por salário maior”, caso dos metalúrgicos.

NÚMEROS MELHORAM
Da americana AP à chinesa Xinhua e à BBC original, “Brasil deixa recessão”. Já na BBC em português, “Brasil tem uma das maiores recuperações pós-recessão”. E no “Jornal Nacional”, fechando a semana, “Números da economia melhoram e mostram que país deixou para trás o período de recessão”.

AGORA, A REGULAÇÃO

news.bbc.co.uk

A uma semana da cúpula do G20 nos EUA, Lula deu nova entrevista à BBC, de Américo Martins, e declarou que “os países ricos são mais culpados” pela crise, “porque não tinham qualquer regulação para o sistema financeiro”

Leia a integra da coluna Toda Mídia, na Folha de São Paulo

06/09/2009 - 15:40h Como puderam os economistas

 

Paul Krugman* – O Estado SP

 


1. Confundindo beleza com verdade É difícil acreditar agora, mas pouco tempo atrás os economistas estavam parabenizando a si mesmos pelo sucesso da própria profissão.

Este – suposto – sucesso era tanto teórico quanto prático, proporcionando à profissão uma era dourada.

Do ponto de vista teórico, eles pensaram ter resolvido suas disputas internas. Assim, num estudo publicado em 2008 intitulado “O estado da macro” (ou seja, a macroeconomia, o estudo de questões econômicas mais amplas, como as recessões por exemplo), Olivier Blanchard do MIT, atual economista-chefe do Fundo Monetário Internacional, declarou que teríamos chegado a uma “ampla convergência de visões”.

E no mundo real, os economistas acreditavam ter tudo sob controle: o “problema central da prevenção das depressões foi resolvido”, declarou em 2003 Robert Lucas, da Universidade de Chicago, no seu pronunciamento presidencial endereçado à Associação Econômica Americana. Em 2004, Ben Bernanke, ex-professor de Princeton e atual presidente do Federal Reserve(o BC dos EUA), celebrou a era da Grande Moderação no desempenho econômico durante as duas décadas anteriores, a qual ele atribuiu, em parte, a melhores decisões tomadas na política econômica.

No ano passado, tudo desabou.

Na sequência da crise, as fissuras na profissão dos economistas aumentaram, tornando-se fendas jamais vistas antes. Lucas chamou os planos de estímulo do governo Obama de “charlatanice econômica”, e seu colega de Chicago, John Cochrane, diz que tais planos têm como base “contos de fadas” já descartados. Como resposta, Brad DeLong, da Universidade da Califórnia, em Berkeley, escreveu sobre o “colapso intelectual” da Escola de Chicago, e eu mesmo já escrevi que os comentários feitos pelos economistas de Chicago são o produto de uma Idade das Trevas da macroeconomia, durante a qual foi esquecido um conhecimento adquirido a um custo muito elevado.

O que houve com a profissão dos economistas? E para onde ela vai a partir do ponto atual?

2. De Smith até Keynes, voltando ao princípio O nascimento da economia enquanto disciplina costuma ser creditado a Adam Smith, que publicou A riqueza das nações em 1776. Nos 160 anos seguintes, um extenso volume de teorias econômicas foi desenvolvido a partir de uma mensagem central: confie no mercado. Esta era a premissa básica da economia “neoclássica” (batizada a partir dos economistas do fim do século 19 que refinaram os conceitos de seus predecessores “clássicos”).

Esta fé foi, no entanto, esmagada pela Grande Depressão. Ao final, a maioria dos economistas se voltou para as propostas de John Maynard Keynes, tanto para explicar o que acontecera quanto para encontrar uma solução para as depressões futuras.

Apesar do que dizem alguns, Keynes não queria que o governo administrasse a economia. Ele descreveu como “moderadamente conservador em suas implicações” o raciocínio publicado em 1936 na sua obra-prima, Teoria geral do emprego, do juro e da moeda. Keynes queria consertar o capitalismo, e não substituí-lo. Mas ele de fato desafiou a ideia de que as economias de livre mercado possam funcionar na ausência de um zelador. E ele defendeu uma intervenção governamental ativa – imprimir mais dinheiro e, caso necessário, gastar muito com obras públicas – para combater o desemprego durante os períodos de declínio.

A história da economia enquanto disciplina ao longo dos últimos 50 anos é, em boa medida, a história do recuo do keynesianismo e do retorno do neoclassicismo. A retomada neoclássica foi inicialmente liderada por Milton Friedman, da Universidade de Chicago, que afirmou já em 1953 que a ciência econômica neoclássica funciona bastante bem enquanto descrição da maneira pela qual a economia de fato funciona, fazendo desta teoria “ao mesmo tempo extremamente frutífera e merecedora de grande confiança”. Mas e quanto às depressões? O contra-ataque de Friedman a Keynes começou com a doutrina conhecida como monetarista. Os monetaristas não discordavam, em princípio, da ideia de que uma economia de mercado necessite de estabilização deliberada. Entretanto, os monetaristas afirmavam que uma forma bastante limitada e circunscrita de intervenção governamental – qual seja, instruir aos bancos centrais que mantenham em crescimento constante o suprimento de dinheiro do país (a soma do dinheiro em circulação e dos depósitos nos bancos) – seria suficiente para evitar as depressões.

Friedman combateu com grande credibilidade a ideia de iniciativas governamentais deliberadas para empurrar o desemprego até um patamar inferior ao seu nível “natural” (atualmente estimado em 4,8% para os Estados Unidos): de acordo com a previsão dele, medidas excessivamente expansionistas levariam a uma combinação entre inflação e alto desemprego – uma previsão confirmada pela estagflação da década de 1970, a qual contribuiu muito com o aumento da credibilidade do movimento antikeynesiano. Entretanto, a posição de Friedman acabou vista como relativamente moderada em comparação com a de seus sucessores.

Enquanto isso, alguns macroeconomistas enxergaram as recessões como algo positivo, parte do ajuste da economia às mudanças. E mesmo aqueles que não se dispunham a ir tão longe argumentavam que qualquer tentativa de combater um declínio econômico acabaria provocando mais males do que benefícios.

Muitos macroeconomistas se tornaram novos keynesianos autoproclamados, que continuaram a acreditar num papel ativo desempenhado pelo governo.

Mas mesmo eles aceitavam a noção de que investidores e consumidores são racionais e os mercados em geral costumam acertar.

É claro, alguns economistas desafiaram o pressuposto do comportamento racional, questionaram a crença na confiabilidade dos mercados financeiros e sublinharam o longo histórico de crises financeiras de consequências econômicas devastadoras. Mas eles não foram capazes de avançar muito contra uma complacência difusa e, retrospectivamente, tola.

3. O cassino das finanças

Na década de 1930, os mercados financeiros, por motivos óbvios, não eram muito respeitados. Keynes considerava péssima ideia permitir que tais mercados – nos quais os investidores gastavam seu tempo correndo uns atrás do rabo dos outros – ditassem importantes decisões de negócios: “Quando o desenvolvimento do capital de um país se torna o subproduto das atividades de um cassino, é provável que o serviço resulte mal feito”.

Entretanto, perto de 1970, os debates sobre a irracionalidade dos investidores, sobre as bolhas e sobre a especulação destrutiva tinham virtualmente desaparecido do discurso acadêmico. A disciplina foi dominada pela “hipótese do mercado eficiente”, promulgada por Eugene Fama, da Universidade de Chicago, teoria que afirma a capacidade dos mercados financeiros de estabelecer com precisão o preço dos ativos exatamente no seu valor intrínseco como produto de todas as informações disponíveis publicamente.

E na década de 1980, os economistas financeiros, principalmente Michael Jensen, da Escola de Administração Harvard, argumentavam que devido ao fato de os mercados financeiros sempre acertarem ao definir os preços, o melhor que os caciques corporativos podem fazer, não apenas pelo seu próprio bem como pelo bem de toda a economia, é maximizar o preço de suas ações. Em outras palavras, os economistas financeiros acreditavam que deveríamos entregar o desenvolvimento do capital do país àquilo que Keynes chamara de “cassino”.

O modelo teórico desenvolvido pelos economistas financeiros ao suporem que cada investidor busca um equilíbrio racional entre o risco e a recompensa – o chamado Modelo de Precificação de Ativos Financeiros (CAPM, em inglês) – é de uma maravilhosa elegância. E para quem aceita suas premissas, o modelo é também muito útil. O CAPM não apenas ajuda a escolher o portfólio – ele ensina a atribuir preços aos derivativos financeiros, títulos sobre títulos, o que é ainda mais importante do ponto de vista da indústria financeira. A elegância e a aparente utilidade da nova teoria levou seus criadores a receberem uma sequência de prêmios Nobel, e muitos professores da faculdade de administração se tornaram cientistas brilhantes de Wall Street, recebendo cheques dignos deste centro financeiro.

Somos obrigados a reconhecer que os teóricos das finanças produziram boa quantidade de provas estatísticas, o que, de início, pareceu ser uma sólida base de apoio para suas hipóteses. Mas tais provas eram curiosamente limitadas. Os economistas financeiros raramente fizeram a pergunta, aparentemente óbvia (e de resposta difícil), de se os preços dos ativos faziam sentido quando eram levados em consideração fundamentos econômicos do mundo real, como a renda. Em vez disso, eles perguntavam apenas se o preço dos ativos fazia sentido em relação ao preço de outros ativos.

Mas os teóricos das finanças continuaram acreditando que seus modelos estavam essencialmente corretos, e o mesmo pensaram muitas pessoas que tomavam decisões no mundo real. Entre estas pessoas estava Alan Greenspan, que na época era presidente do Fed e defensor de longa data da desregulamentação financeira, cuja rejeição dos apelos por um maior controle sobre os empréstimos subprime ou por medidas para combater o inchaço da bolha imobiliária se deveu principalmente à crença de que a ciência econômica financeira moderna tinha tudo sob controle.

Em outubro do ano passado, Greenspan admitia estar em estado de “choque e descrença”, porque “todo o edifício intelectual” tinha “desabado”.

4. Ninguém poderia prever…

Em recentes e pesarosos debates econômicos, “ninguém poderia prever…” se tornou uma das principais frases de efeito multiuso. É o que dizemos em relação a desastres que poderiam ser previstos, deveriam ser previstos e de fato foram previstos por alguns economistas, os quais foram ridicularizados pelo seu esforço.

Tomemos como exemplo a aguda alta e queda no preço dos imóveis. Alguns economistas, principalmente Robert Shiller, de fato identificaram a bolha e alertaram para as dolorosas consequências do seu estouro. Ainda assim, em 2004 Alan Greenspan rejeitou comentários sugerindo que uma bolha imobiliária estivesse em formação: a existência de “uma aguda distorção nacional dos preços”, declarou ele, era “muito improvável”. O aumento no preço dos imóveis, segundo disse Bernanke em 2005, “reflete principalmente a solidez dos fundamentos econômicos”.

Como puderam eles deixar de reparar na bolha? É verdade que as taxas de juros estavam abaixo do normal, o que possivelmente explicaria parte do aumento nos preços. Pode ser também que Greenspan e Bernanke quisessem comemorar o sucesso do Fed em tirar a economia da recessão de 2001; admitir que boa parte deste sucesso se deveu à criação de uma monstruosa bolha teria esfriado as festividades.

Mas havia algo mais acontecendo: uma crença generalizada no princípio de que as bolhas simplesmente não se formam. O mais chocante, ao relermos as garantias de Greenspan, é que elas não foram feitas com base em provas – elas tinham como base a suposição, a priori, de que simplesmente não pode haver uma bolha no mercado imobiliário.

E os teóricos das finanças foram ainda mais inflexíveis neste ponto.

Em entrevista concedida em 2007, Eugene Fama, pai da hipótese do mercado eficiente, declarou que “a palavra ?bolha? me deixa louco”, e na sequência explicou por que podemos confiar no mercado imobiliário: “O mercado imobiliário apresenta menor liquidez, mas as pessoas são muito cuidadosas quando compram casas. Trata-se provavelmente do maior investimento que farão, e portanto elas pesquisam atentamente e comparam preços”.

De fato, os compradores de imóveis costumam comparar cuidadosamente o preço de suas potenciais aquisições com os preços de outras casas. Mas isto não nos diz se o preço dos imóveis se justifica.

Em resumo, a crença nos mercados financeiros eficientes cegou muitos economistas, se não todos, para a emergência da maior bolha financeira já vista. E a teoria do mercado eficiente também desempenhou um papel significativo na criação da bolha em primeiro lugar.

Agora que o verdadeiro risco associado aos ativos supostamente seguros foi revelado, os lares norte-americanos testemunharam a evaporação de US$ 13 trilhões no valor de suas propriedades. Mais de 6 milhões de empregos foram perdidos e a taxa de desemprego parece rumar para o nível mais alto registrado desde 1940. Assim, que tipo de orientação a ciência econômica moderna tem a oferecer diante do nosso apuro atual? Será que podemos confiar nesta orientação?

5. A querela do estímulo

Durante uma recessão normal, o Fed responde por meio da compra de notas do Tesouro – títulos de curto prazo da dívida do governo – que estejam em poder dos bancos. Isto provoca uma redução nas taxas de juros sobre a dívida do governo; investidores em busca de uma maior proporção de retorno procuram outros ativos, provocando uma redução nas demais taxas de juros ; e normalmente estas taxas de juros mais baixas provocam, afinal, uma reversão no declínio econômico. O Fed combateu a recessão que teve início em 1990 derrubando de 9% para 3% as taxas de juros para os títulos de curto prazo. Combateu a recessão que teve início em 2001 cortando as taxas de juros de 6,5% para 1%. E tentou lidar com a recessão atual baixando as taxas de 5,25% para zero.

Mas a taxa zero revelou-se alta demais para pôr fim à recessão. E o Fed não pode reduzir as taxas de juros para menos do que zero já que, com mais taxas próximas do zero, os investidores simplesmente açambarcam o dinheiro em vez de emprestá-lo. Assim, perto do fim de 2008, com as taxas de juros basicamente definidas como aquilo que os macroeconomistas chamam de “patamar menor ou igual a zero” enquanto a recessão continuava a se aprofundar, a política monetária convencional tinha perdido todo o seu poder de tração.

E agora? Esta é a segunda vez que os EUA enfrentam juros menores ou iguais a zero, sendo que a primeira vez foi a Grande Depressão. E foi precisamente a observação de que existe um limite inferior para as taxas de juros o que levou Keynes a defender um maior gasto governamental: quando a política monetária é ineficaz e o setor privado não pode ser convencido a gastar mais, o setor público deve assumir seu lugar no apoio à economia. O estímulo fiscal é a resposta keynesiana para o tipo de situação econômica semelhante a uma depressão – como a que vivemos atualmente.

Tal pensamento keynesiano forma a base das medidas econômicas do governo Obama. Cochrane, da Escola de Chicago, indignado diante da ideia de que os gastos governamentais pudessem aliviar a mais recente recessão, declarou: “Isto não faz parte daquilo que se ensina aos estudantes de economia desde 1960. Elas (ideias keynesianas) são contos de fadas que já foram desacreditadas pelas provas. Em tempos de crise, é muito confortável voltar aos contos de fadas que ouvíamos quando crianças, mas isto não faz deles menos falsos”.

Mas como destacou Brad DeLong, da Universidade da Califórnia, em Berkeley, a posição atual da escola pode ser resumida também numa rejeição completa das ideias de Milton Friedman. Friedman acreditava que as medidas do Fed – e não as mudanças nos gastos governamentais – deveriam ser usadas para estabilizar a economia, mas nunca afirmou que um aumento no gasto governamental seria incapaz, sob quaisquer circunstâncias, de aumentar o emprego. Na verdade, ao relermos o resumo elaborado por Friedman em 1970 de suas próprias ideias, Contexto teórico para a análise monetária, o que mais impressiona é a aparência keynesiana do seu pensamento.

E Friedman certamente jamais comprou a ideia de que o desemprego em massa represente uma redução voluntária no esforço de trabalho e nem a ideia de que as recessões sejam de fato benéficas para a economia.

Ainda assim, Casey Mulligan, da Escola de Chicago, sugere que o desemprego esteja tão alto porque muitos trabalhadores tem optado por não aceitar empregos. Ele sugeriu, em especial, que os trabalhadores estejam optando por permanecerem desempregados porque isto melhora suas chances de receber a concessão de alívios para suas hipotecas. E Cochrane declara que o alto desemprego é, na verdade, algo positivo: “Precisamos de uma recessão. Pessoas que passam suas vidas martelando pregos em Nevada precisam de algo diferente para fazer.” Particularmente, acho que isto é loucura. Por que seria necessário o desemprego maciço em todo o país para tirar os carpinteiros de Nevada? Será que alguém é capaz de afirmar com seriedade que perdemos 6,7 milhões de empregos porque um número menor de americanos deseja trabalhar? Mas se partirmos do princípio que as pessoas são perfeitamente racionais e os mercados, perfeitamente eficientes, temos de concluir que o desemprego é voluntário e as recessões são desejáveis.

6. Falhas e atritos

A economia, enquanto ciência, enfrentou problemas porque os economistas foram seduzidos pela visão de um sistema de mercado perfeito e desprovido de atrito. Se a profissão almeja a redenção, ela terá de conciliar-se com uma visão menos deslumbrante – a de uma economia de mercado que apresenta muitas virtudes, mas que também está repleta de falhas e atritos.

Já existe um exemplo relativamente desenvolvido do tipo de ciência econômica que tenho em mente: a escola de pensamento conhecida como behaviorismo financeiro. Os adeptos desta abordagem enfatizam duas coisas. Primeiro, muitos investidores do mundo real em pouco se assemelham aos frios e calculistas investidores da teoria do mercado eficiente: eles são bastante sujeitos ao comportamento de manada, a surtos de exuberância irracional e a pânicos injustificados. Segundo, mesmo aqueles que tentam basear suas decisões no cálculo frio com frequência descobrem que não são capazes de fazê-lo, pois problemas de confiança, credibilidade e garantias reais limitadas os obrigam a seguir o restante da manada.

Enquanto isso, como fica a macroeconomia? Acontecimentos recentes refutaram de maneira bastante decisiva a ideia de que as recessões sejam uma resposta ideal à flutuação no ritmo do progresso tecnológico; uma visão mais ou menos keynesiana é a única possível no momento. Ainda assim, os modelos padronizados do novo keynesianismo não deixaram espaço para uma crise como a que estamos vivendo, pois estes modelos aceitaram de maneira geral a visão do setor financeiro promovida pela teoria do mercado eficiente.

Uma linha de pesquisas, cujos pioneiros foram o próprio Ben Bernanke e seu colega Mark Gertler, da Universidade de Nova York, enfatizava a maneira pela qual a falta de garantias reais suficientes pode prejudicar a capacidade das empresas de arrecadar fundos e buscar oportunidades de investimento. Uma linha de pesquisas parecida, em boa parte estabelecida por meu colega de Princeton, Nobuhiro Kiyotaki, em parceria com John Moore, da London School of Economics, argumenta que os preços de ativos como propriedades imobiliárias podem sofrer declínios autoacentuantes que, por sua vez, provocam uma depressão na economia como um todo. Mas até o momento, o impacto das finanças disfuncionais não esteve no centro nem mesmo da ciência econômica keynesiana. Isto, claramente, precisa mudar.

7. Recuperando Keynes

Eis o que acho que os economistas precisam fazer. Primeiro, eles precisam enfrentar a inconveniente realidade de que os mercados financeiros estão muito aquém da perfeição; que eles estão sujeitos a extraordinários delírios e à loucura das multidões. Segundo, eles precisam admitir que a ciência econômica keynesiana ainda é o melhor arcabouço teórico de que dispomos para compreender as recessões e depressões. Terceiro, eles terão de se esforçar ao máximo para incorporar as realidades das finanças à macroeconomia.

A visão que deve emergir conforme a profissão repensa seus fundamentos pode não ser muito clara; certamente não será arrumada; mas temos de manter a esperança de que ela terá a virtude de estar, ao menos, parcialmente correta.

*O autor é colunista do New York Times e ganhador do prêmio Nobel da economia de 2008. Seu livro mais recente é O retorno da economia da depressão e a crise de 2008

30/08/2009 - 16:12h Um ano depois, Brasil passa no teste e sai da crise maior do que entrou

Para especialistas, avanço do País e de outros emergentes é uma das características do mundo pós-crise

Fernando Dantas – O Estado SP


O Brasil saiu da turbulência global maior do que entrou. Às vésperas do mês em que se completa um ano da crise iniciada com a concordata do Lehman Brothers, em 15 de setembro, o otimismo com o País tornou-se consensual. “O fato de que o Brasil passou tão bem pela crise tinha mesmo de instilar confiança”, diz Kenneth Rogoff, da Universidade Harvard, ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI). Para Jim O’Neill, do Goldman Sachs, e criador da expressão Bric (o grupo de grandes países emergentes, Brasil, Rússia, Índia e China), “o Brasil passou por essa crise extremamente bem, e pode crescer a um ritmo de 5% nos próximos anos”.

O crescimento de importância do Brasil e de outras economias emergentes é uma das características do novo mundo surgido com a crise econômica. Para comentar essa e várias outras mudanças, o Estado ouviu oito grandes economistas estrangeiros e brasileiros: Rogoff; O’Neill; Barry Einchengreen, da Universidade de Berkeley; José Alexandre Scheinkman, de Princeton; Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central (BC) e sócio gestor do Gávea Investimentos; Edmar Bacha, consultor sênior do Itaú BBA e codiretor do Instituto de Estudo de Políticas Econômicas – Casa das Garças (Iepe/CdG); Affonso Celso Pastore, consultor e ex-presidente do BC; e Ilan Goldfajn, economista-chefe do Itaú Unibanco.

Pastore observa que a recessão no Brasil foi curta, de apenas dois trimestres, comparada a quatro em países como Estados Unidos, Alemanha e França. Goldfajn nota que há os países que estão saindo da recessão no segundo trimestre e os que estão saindo no terceiro – o Brasil está entre os primeiros, com várias nações asiáticas. “Mesmo no primeiro trimestre, se olhar mês contra mês, há números fortes de crescimento no Brasil”, acrescenta.

Para Goldfajn, a crise foi um teste de estresse para diversos países, no qual alguns passaram, outros não, alguns tiveram nota boa e outros nota ruim. “Acho que o Brasil tirou nota boa, e agora está todo mundo olhando e dizendo ‘esse cara é bom’”, diz Goldfajn.

Uma das principais razões para o sucesso do Brasil em enfrentar a crise, segundo Pastore, é que ela pegou o País com o regime macroeconômico adequado – câmbio flutuante, bom nível de reservas, inflação controlada, superávit primário, dívida pública desdolarizada e caindo em proporção ao Produto Interno Bruto (PIB). Essa solidez combinou-se com o sistema financeiro capitalizado, pouco alavancado, que estava proibido pela regulação de operar com os ativos perigosos, como os títulos estruturados no mercado americano de hipotecas subprime. “Uma das lições da crise é que países que tinham uma abordagem equilibrada da regulação do mercado financeiro, como Brasil, Austrália, Canadá , não tiveram crise bancária”, diz O’Neill.

A política anticíclica, baseada em corte de impostos e ampliação de gastos públicos, também ajudou, embora esta segunda parte seja criticada pelos efeitos de médio prazo. Para Pastore, os aumentos do funcionalismo e do Bolsa-Família tiveram efeitos contracíclicos, mas “por coincidência”, já que foram decididos antes da crise. “O defeito é que, se fosse política contracíclica mesmo, teria de expandir gastos transitórios, e não permanentes.”

Para a maioria dos economistas, o aumento dos gastos públicos correntes reduz o espaço do investimento, e impede que o Brasil cresça a um ritmo ainda mais forte do que os 4% a 5% que estão sendo previstos. “Não é nem preciso dizer que há um monte de coisas que o Brasil poderia fazer para crescer mais rápido”, comenta Rogoff.

De qualquer forma, o sucesso diante da crise jogou o Brasil no radar dos investidores. “À medida que continuarmos a crescer mais que o mundo, é natural que o País receba um aporte muito grande de investimentos estrangeiros diretos”, diz Pastore, acrescentando que eles aumentaram, mesmo com recessão e queda de lucros nos países que sediam as empresas que investem no Brasil.

A contrapartida dos fluxos de capital é o câmbio valorizado e o déficit em conta corrente, o que significa que o mundo está financiando o Brasil para consumir muito (o que implica poupar pouco) e investir ao mesmo tempo. Segundo Goldfajn, os brasileiros serão um dos povos convocados, junto com os asiáticos, a preencher o espaço deixado pelo fim da exuberância do consumidor americano, atolado em dívidas e necessitado de reconstruir seu patrimônio.

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”Não foi o fim do mundo que se prenunciava em dezembro”

Reação global de governos impede crise pior; papel da China se torna vital para retomada

Fernando Dantas – O Estado SP

A crise global não foi tão ruim quanto parecia no pior momento, entre o fim do último trimestre de 2008 e o primeiro de 2009. “Não foi o fim do mundo que se prenunciava em janeiro e dezembro, porque a reação dos governos foi do tamanho da crise”, diz Edmar Bacha, consultor sênior do Itaú BBA, comentando os maciços pacotes fiscais e a política monetária expansionista convencional (corte de juros) e não convencional (injeção de dinheiro na economia pela compra de títulos em poder do mercado) das principais economias do mundo.

Hoje, mesmo um observador relativamente pessimista, como Kenneth Rogoff, de Harvard, prevê que o mundo deve se estabilizar num crescimento em torno 4%, menos que o ritmo próximo de 5% dos anos anteriores à crise, mas já claramente fora da recessão. Ele ressalva que a atual recuperação “não é normal, com o sistema todo na UTI, o sistema bancário bancado pelo governo, e o mercado residencial se estabilizando apenas por causa dos grandes subsídios às hipotecas.”

Barry Eichengreen, da Universidade Berkeley, é outro que mostra ceticismo quanto ao vigor da recuperação mundial. “A mudança mais importante na economia pós-crise é o grande endividamento nos países industriais avançados, que tornará as finanças públicas restritivas, criando um ambiente inamistoso para o investimento, e que não é bom para o crescimento.” Ele se refere à necessidade que os governos dos países ricos terão de aumentar impostos e cortar gastos para contrabalançar o enorme crescimento da dívida pública na esteira dos grandes déficits fiscais da política contracíclica.

Um ponto crucial para sustentar a recuperação global é a capacidade da China de insuflar a demanda global. Para Rogoff, “a mudança número um do mundo pós-crise é que o consumidor americano, o combustível da economia mundial no último quarto de século, provavelmente será menos energético nos próximos cinco a dez anos.”

A grande questão, hoje, é saber se o recuo do superendividado consumidor americano pode ser compensado pelo avanço do consumo na China e em outros países emergentes asiáticos, e até no Brasil.

Para Rogoff, “a demanda dos mercados emergentes vai substituir a dos EUA, mas isso não acontecerá de um dia para o outro.” Essa mudança, ele continua, exige uma grande reestruturação da economia chinesa, que ainda está voltada para as exportações, e não para expandir o consumo interno.

Jim O’Neill, do Goldman Sachs, discorda: “Essa crise talvez tenha sido necessária, porque forçou a China a fazer uma transição para o crescimento puxada pela demanda interna. Isso era exatamente o que o mundo precisava para evitar a crise, e é o que mundo precisa para sair da crise.”

Para O’Neill, os dados da expansão de consumo da China são muito claros. As vendas de varejo saltaram 15,2% em julho e, nos últimos dois anos, convertidas em dólares, apresentam um avanço maior do que o recuo no consumo americano. Em relação ao setor externo, o economista inglês diz que tentou apostar recentemente, com membros da equipe econômica do governo britânico, que a China terá déficit comercial nos próximos dois anos. “Mas agora nós achamos que é possível que isso aconteça nos próximos 12 meses. Desde abril, o crescimento das importações chinesas é muito mais forte que o das exportações.”

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Crise mudou mapa da globalização

Mudança ocorreu tanto no comércio quanto nos investimentos e nas relações de poder de órgãos internacionais

Jamil Chade – O Estado SP

Os fluxos de investimentos mudaram de direção, a China se transformou no maior exportador do planeta e organizações consideradas como pilares das decisões internacionais hoje são questionadas e até substituídas. Em 12 meses, a crise acelerou processos de profunda mudança na geografia da globalização e uma incipiente nova relação de poder entre países.

No campo comercial, a maior novidade foi a transformação da China na maior exportadora do mundo. Por uma margem mínima, superou a Alemanha, que liderava desde 2003. A China exportou US$ 521,7 bilhões em seis meses, ante US$ 521,6 bilhões da Alemanha. Os americanos estão na terceira colocação.

A China já vinha subindo no ranking mundial. Mas a crise na Europa acelerou sua nova posição. Em 2002, a China era a quinta maior exportadora, com vendas anuais de US$ 325 bilhões, US$ 200 bilhões abaixo do que o país vendeu apenas nos últimos seis meses. Em 1997, a China era apenas a 16ª maior exportadora, com US$ 24,5 bilhões em vendas.

Nos últimos anos, dezenas de medidas foram adotadas contra os produtos chineses, que são hoje os mais afetados por medidas restritivas. Uma delas foi adotada pelo Brasil no início do ano para barrar a entrada de produtos siderúrgicos.

A crise ainda redesenhou o mapa dos principais destinos das exportações de vários países, inclusive o do Brasil. Neste ano, a China superou os EUA como o principal comprador de bens brasileiros. Além disso, passou a ser o maior fornecedor de produtos à Europa, acabando com 50 anos de relação comercial privilegiada entre europeus e americanos.

Em junho, as importações americanas estavam 34,5% abaixo dos níveis de junho de 2008. No ano passado, os Estados Unidos foram os maiores importadores do planeta, consumindo mais de 12% de tudo o que o mundo exporta.

No setor de investimentos, a crise também mudou a estratégia de multinacionais e coloca os países emergentes no centro da internacionalização. Levantamento com mais de 240 multinacionais elaborado pela ONU deixou claro que não há um risco de “desglobalização” da produção. O processo de internacionalização será retomado, mesmo mais lentamente. E será direcionado de forma cada vez mais clara aos emergentes.

A pesquisa mostrou que as multinacionais continuarão a investir no exterior para a internacionalização de suas vendas, produção e compra de ativos. Tanto em países emergentes como nos ricos, o levantamento indica que a crise está dando um incentivo extra para as empresas buscarem novos mercados, além de novos locais de produção para reduzir custos.

A tendência de uma maior atenção aos emergentes já vinha ocorrendo nos últimos dez anos. Em 1998, os países em desenvolvimento tinham 8% dos fluxos de investimentos, ante 13% em 2007. A tendência é de que a taxa aumente até 2011.

A preferência será pela Ásia, pelo tamanho do mercado e acesso a trabalhadores mais baratos. Cinco dos 15 maiores destinos de investimentos estarão na Ásia até 2011. Os países que formam o Bric – Brasil, Rússia, Índia e China – ocupam agora quatro dos cinco primeiros lugares preferidos para investimentos até 2011 e dividem as preferências com os americanos.

Em termos gerais, porém, o mundo ainda verá uma queda de investimentos em 2009 de cerca de 50%, ante 2008. Os mais afetados serão os países ricos, com redução de 60%. Mas os emergentes mostrarão certa resistência, com queda de apenas 25%. Em 2008, o mundo já sofreu queda de 15% nos investimentos, depois de atingir recorde de US$ 1,9 trilhão em 2007.

Outro sinal de mudança no mapa da globalização é a iniciativa de alguns países de reduzir sua dependência em relação ao dólar e acelerar a compra de papéis emitidos pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). A decisão de Brasil, China e Rússia de se tornarem credores do FMI promove uma pequena revolução no mercado. Parte da estratégia dos emergentes é mostrar que têm como ser credores e, portanto, têm direito a uma maior voz em entidades como o FMI e o Banco Mundial.

O debate sobre os grupos e instituições financeiras ainda deixa alguns na defensiva. É o caso de Angel Gurría, secretário-geral da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que reúne os países ricos e por anos tentou atrair os emergentes. Para Gurría, o mundo passará a viver em nova relação entre instituições e diferentes grupos de países, como o G-8 ou o G-20. “Cada grupo precisa de seu espaço. Hoje, o mundo é das redes, do network. E assim é que podemos imaginar uma nova configuração de países.”

http://youpode.com.br/blog/liberati/files/2009/03/liberati.jpg

26/08/2009 - 12:34h Rubini alerta contra corte prematuro de gastos públicos e Celso Ming replica: agora há governo!

celso_ming1.jpgAdvertências valem, mas agora há governo

Análise

Celso Ming – O Estado SP

As advertências de Nouriel Roubini têm de ser levadas em conta. O grande reparo que se pode fazer a elas é o de que não está dando a devida importância à condução de corações e mentes pelos dirigentes políticos.

Se houve um elemento novo nesta crise foi a percepção de que a motivação das pessoas e, mais do que isso, a capacidade das autoridades em conduzir o processo cumpre papel decisivo. O futuro das pessoas não está abandonado ao sabor de forças irracionais.

Ficou bem mais difícil, por exemplo, enfrentar a crise a partir do momento em que prevaleceu o pânico e as pessoas perderam a capacidade de tomar decisões com um mínimo de racionalidade. O derretimento de um grande número de patrimônios pessoais e familiares foi, em grande parte fruto do efeito manada e não da irresponsabilidade dos senhores de Wall Street. E, no entanto, num segundo momento, quando o pânico foi embora, ficou bem mais fácil procurar por saídas.

Em outras palavras, a principal percepção pós-crise é a de que agora tem governo. Se falhou no início de tudo, quando deixou que as bolhas se formassem e, em seguida, estourassem, num segundo momento, o governo não se omitiu, tomou decisões difíceis e passou um mínimo de segurança que não existiu em setembro de 2008.

Há, sim, razões técnicas para acreditar que a recuperação será mais demorada e sujeita a recaídas, como diz Roubini, mas já não há mais lugar para uma situação em que toda a sociedade se considere desamparada, à beira de uma catástrofe. E isso muda muita coisa.

Muda, por exemplo, a avaliação que as pessoas fazem agora dos ativos. Ninguém mais espera que seu patrimônio vire pó. Ele perdeu valor, sim. Mas é valor recuperável, como mostra o comportamento das bolsas e até do mercado imobiliário.

Muda também a visão sobre os bancos. Tão cedo eles não voltarão às irresponsabilidades de antes. Ninguém mais espera que um grande banco afunde e arraste um montão de contas bancárias junto com ele.

 

Jin Lee / Bloomberg News Foto Destaque
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Nouriel Roubini: crescimento “anêmico” e “abaixo da tendência”

 

 

 

Roubini alerta para ”duplo mergulho”

Em artigo, economista aponta risco de que, depois de ligeira melhora, economia volte a mergulhar em uma crise

Patrícia Campos Mello, WASHINGTON – O Estado SP

O economista Nouriel Roubini, um dos primeiros a prever a crise financeira, acredita que o risco de recaída da economia mundial está crescendo. “A recuperação provavelmente será anêmica e há um grande risco de termos uma recessão ?duplo mergulho?”, afirma Roubini em artigo no Financial Times de domingo. Para ele, aumentaram as chances de um “duplo mergulho”, ou recessão em W – ou seja, depois de uma ligeira melhora, a economia voltaria a mergulhar em uma crise.

Roubini cita Brasil, Austrália, Alemanha, França, Japão, China e Índia como países onde a recuperação já começou. Mas ele acha que a recuperação será “anêmica por pelo menos dois anos”. Para o economista, o mundo vive apenas dois trimestres de rápido crescimento movido pela reposição de estoques e recuperação de produção.

“O nível de emprego ainda está caindo rapidamente nos EUA e outros lugares, e isso é má notícia para demanda, resultados de bancos, e também para a qualificação dos trabalhadores, um fator essencial para o crescimento da produtividade a longo prazo”, diz Roubini.

O economista acredita que esta é uma crise de solvência, e não apenas de liquidez. Segundo ele, “o processo de desendividamento ainda não começou, porque os prejuízos nas instituições financeiras foram socializados e transferidos para o balanço dos governos”. “Isso restringe a capacidade dos bancos de emprestar, dos lares de gastar e das empresas de investir.”

Além disso, nos países com déficit em conta corrente, como os EUA, os consumidores precisam cortar os gastos e poupar muito mais – mas esses mesmos consumidores estão endividados e sofreram perdas com a queda nos preços dos imóveis.

O sistema financeiro, apesar da injeção de recursos, continua muito danificado, diz Roubini. “A maioria do sistema financeiro não bancário desapareceu, os bancos tradicionais esperam prejuízo de trilhões de dólares por causa de calote em empréstimos e estão seriamente subcapitalizados.”

O crescimento da dívida dos governos, por sua vez, ameaça a disponibilidade de crédito para o setor privado. “E os efeitos do estímulo vão acabar até o início do ano que vem, exigindo mais investimento privado para sustentar o crescimento.”

Para Roubini, o principal motivo para uma recessão em W são os riscos na chamada estratégia de saída da maciça expansão fiscal e afrouxamento monetário adotados pelos governos contra a crise. Com ou sem estratégia de saída, os países terão problemas. Se os formuladores de políticas levarem a sério os déficits do orçamento e elevarem impostos, reduzirem gastos e enxugarem liquidez, vão sabotar a recuperação e jogar a economia em estagdeflação (recessão e deflação). Mas, se mantiverem os déficits do orçamento, as expectativas de inflação vão subir, a remuneração dos títulos do governo vai aumentar e as taxas de juros vão acabar nas alturas, levando a uma estagflação.

25/08/2009 - 12:43h Cresce o risco de nova contração

http://a.abcnews.com/images/Business/abc_Nouriel-Roubini_081106_mn.jpg

NOURIEL ROUBINI – ESPECIAL PARA O “FINANCIAL TIMES” – FOLHA SP

A ECONOMIA mundial está começando a se recuperar da pior recessão e crise financeira desde a Grande Depressão. No quarto trimestre de 2008 e nos primeiros três meses de 2009, o ritmo de contração na maioria das economias avançadas era semelhante à queda livre do PIB que os países registraram nos estágios iniciais da Depressão. No entanto, no final do ano passado, as autoridades econômicas, que até aquele momento estavam agindo tardiamente, enfim começaram a usar a maioria das armas disponíveis em seus arsenais.
Os esforços deram frutos, e a queda livre da atividade econômica se atenuou. Existem agora três questões em aberto quanto às perspectivas. Quando a recessão mundial vai acabar? Que forma tomará a recuperação econômica? Existem riscos de recaída?
Quanto à primeira questão, parece que a economia mundial chegará ao fim da queda no segundo semestre de 2009. Em muitas economias avançadas (Espanha, Estados Unidos, Itália, Reino Unido e em alguns países da zona do euro) e em alguns emergentes (principalmente na Europa), a recessão não se encerrará formalmente antes do final do ano, já que os brotos verdes da recuperação ainda estão cercados de ervas daninhas. Em algumas outras economias avançadas (Alemanha, Austrália, França e Japão) e na maioria dos mercados emergentes (China, Índia, Brasil e outras partes da Ásia e América Latina), a recuperação já começou.
Quanto à segunda questão, o debate se trava entre aqueles -a maioria do consenso econômico- que antecipam uma recuperação em forma de V, com rápida retomada de crescimento, e aqueles -como eu- segundo os quais a recuperação será em U e se manterá anêmica e abaixo da tendência por ao menos dois anos, após um par de trimestres de rápido crescimento alimentado por reposição de estoques e recuperação da produção ante os níveis quase tão desfavoráveis quanto os da Grande Depressão.
Existem diversos argumentos que apontam para uma recuperação fraca e em forma de U. O emprego continua a cair acentuadamente nos Estados Unidos e em vários mercados -em economias avançadas, o desemprego estará acima dos 10% em 2010. Isso é má notícia não só em termos de demanda e prejuízos bancários mas também em termos de capacitação profissional, um fator chave para o crescimento da produtividade em longo prazo.
Segundo, temos uma crise de solvência, e não apenas de liquidez, mas ainda não começou uma redução real no endividamento, porque os prejuízos das instituições financeiras foram socializados e transferidos aos balanços dos governos. Isso limita a capacidade de empréstimo das instituições financeiras, a capacidade de gasto dos domicílios e a capacidade de investimento das empresas.
Terceiro, nos países que operam com deficit em conta corrente, os consumidores precisam começar a cortar gastos e poupar mais, em um momento em que as pessoas endividadas enfrentam um choque de patrimônio causado pela queda nos preços das casas e dos mercados de ações e pela retração na renda e no emprego.
Quarto, o sistema financeiro -a despeito do apoio das autoridades- continua severamente danificado. A maior parte do sistema bancário paralelo desapareceu, e os bancos tradicionais estão sobrecarregados com trilhões de dólares em prejuízos inesperados com empréstimos e títulos, enquanto ainda se mantêm perigosamente subcapitalizados.
Quinto, os lucros fracos (causados por dívidas elevadas e riscos de inadimplência, crescimento baixo e persistentes pressões deflacionárias sobre as margens de ganhos empresariais) restringirão a disposição das companhias de produzir, contratar trabalhadores e investir.
Sexto, o endividamento do setor público por meio do acúmulo de pesados deficits fiscais ameaça dificultar a recuperação nos gastos do setor privado. Os efeitos das políticas de estímulo, além disso, se dissiparão no começo do ano que vem, o que vai requerer maior demanda privada para sustentar o crescimento.
Sétimo, a redução nos desequilíbrios mundiais implica em que os deficits em conta corrente de economias perdulárias, como a dos EUA, vão reduzir os superávits das economias que poupam em excesso (Japão, Alemanha, China e outros emergentes). Mas, caso a demanda interna não se expanda rapidamente o bastante nos países superavitários, resultará em recuperação mais lenta do mundo.

Recessão em forma de W
Também existem duas razões para que exista risco ascendente de uma recessão de duplo mergulho, em forma de W. Para começar, existem riscos associados às estratégias de saída para o grande relaxamento da política monetária e de estímulo fiscal: as autoridades serão criticadas por agir e também por não agir. Caso decidam levar a sério os grandes deficits fiscais e decretem aumento de impostos, corte de gastos e redução da liquidez excessiva, poderão solapar a recuperação e levar a economia a uma estagdeflação (recessão e deflação).
Mas, caso mantenham grandes deficits orçamentários, os ativistas dos mercados de títulos públicos punirão as autoridades econômicas. As pressões inflacionárias subirão, os rendimentos dos títulos públicos de longo prazo terão de subir e as taxas de empréstimo dispararão, gerando estagflação.
Outro motivo para temer uma recessão de duplo mergulho é que os preços de petróleo, energia e alimentos agora estão subindo mais rápido do que os fundamentos econômicos justificam e podem ser propelidos a alta ainda maior pela liquidez excessiva em busca de ativos e pela demanda especulativa.
No ano passado, o petróleo a US$ 145 por barril marcou um ponto de inflexão para a economia mundial, ao criar termos negativos de comércio internacional e um choque na renda disponível para as economias importadoras da commodity. A economia mundial não suportaria outro choque contrativo caso especulação semelhante conduza o preço do petróleo a um rápido retorno para a marca dos US$ 100.
Em resumo, a recuperação deve ser anêmica e abaixo da tendência nas economias avançadas e existe forte risco de uma recessão de duplo mergulho.

O autor é professor de Economia na Escola Stein de Administração de Empresas na Universidade de Nova York.

Tradução de PAULO MIGLIACCI

25/08/2009 - 11:59h Roubini, profeta da crise, espera onda de recessão

Jin Lee / Bloomberg News Foto Destaque
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Nouriel Roubini: crescimento “anêmico” e “abaixo da tendência”

Shamim Adam, Bloomberg News, de Cingapura – VALOR

Nouriel Roubini, o professor da Universidade de Nova York que previu a crise financeira, disse que a probabilidade de um segundo surto de recessão está aumentando, devido às possíveis consequências negativas do fim do incentivo monetário e fiscal mundial.

A economia mundial vai chegar ao seu ponto mínimo, a partir do qual começa a melhorar, neste segundo semestre do ano, escreveu Roubini em comentário publicado ontem pelo jornal “Financial Times”. A recessão dos EUA, Reino Unido e alguns países europeus não terá “acabado formalmente” antes do final deste ano, enquanto a recuperação de países como China, França, Alemanha, Austrália e Japão já começou, disse.

Os governos de todo o mundo prometeram cerca de US$ 2 trilhões em medidas de incentivo em meio à recessão global, a pior desde a Grande Depressão, iniciada em 1929. O presidente do Federal Reserve, Ben S. Bernanke, e outras autoridades mundiais de política monetária advertiram que a recuperação tende a ser tímida, numa indicação de que eles não vão eliminar em breve todas as medidas de estímulo inoculadas no sistema financeiro.

“Há riscos associados às estratégias de retirada do enorme abrandamento monetário e fiscal”, escreveu Roubini. “As autoridades serão amaldiçoadas se fizerem e serão amaldiçoadas se não fizerem.”

Os funcionários graduados dos governos e BCs deverão minar a recuperação e reconduzir suas economias à “estagdeflação” se elevarem impostos, reduzirem os gastos e enxugarem o excesso de liquidez em seus sistemas a fim de diminuir os déficits públicos, disse Roubini. Ele define a “estagdeflação” como recessão com deflação.

Os que mantêm grandes déficits públicos serão punidos por patrulheiros do mercado de bônus, com a alta das expectativas inflacionárias e dos rendimentos dos bônus governamentais de longo prazo e o aumento significativo do custo do dinheiro, escreveu ele. Isso, por sua vez, levará à estagflação, afirmou o economista.

Roubini atualmente prevê uma recuperação em U, em que o crescimento será “anêmico e ficará abaixo da tendência por pelo menos alguns anos”, disse. Uma recuperação mundial plena em relação à recessão atual deverá levar dois anos ou mais, disse o prêmio Nobel Paul Krugman, no início do mês.

A alta do desemprego, um sistema financeiro mundial ainda “severamente deteriorado” e uma lucratividade corporativa fraca estão entre os motivos pelos quais qualquer recuperação não será em forma de V, disse Roubini.

“Persistem desgastes em muitos mercados financeiros de todo o mundo”, disse Bernanke em discurso pronunciado na última sexta-feira em Jackson Hole. “A recuperação da economia tende a ser relativamente lenta de início, com uma queda apenas gradual do desemprego em relação a seus altos níveis.”

Os preços dos combustíveis e alimentos também estão aumentando mais rápido que o justificável pelos fundamentos econômicos. Isso deverá também elevar o risco de um novo surto de recessão, escreveu Roubini, acrescentando que eles poderão ser puxados por transações especulativas.

24/08/2009 - 09:27h A crise financeira um ano depois

O problema agora é que o desemprego continua em alta tanto nos EUA como na Europa.

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Por Jeffrey D. Sachs – VALOR

Um ano depois do início da crise, ela parece estar sanada. Mas o desemprego continua em alta

Já transcorreu quase um ano desde que a economia mundial balançou à beira da calamidade. No espaço de três dias, de 15 a 18 de setembro de 2008, o Lehman Brothers apresentou seu pedido de falência, o controle da mega-seguradora AIG foi assumido pelo governo dos EUA e o Merrill Lynch, ícone falido de Wall Street, foi absorvido pelo Bank of America numa transação intermediada e financiada pelo governo dos EUA. Sobreveio o pânico e o crédito parou de circular. Companhias não conseguiam capital de giro, quanto mais recursos para investimentos de longo prazo. Uma depressão parecia possível.

Hoje, a tempestade foi domada. Meses de ações emergenciais promovidas pelos principais bancos centrais do mundo impediram o colapso dos mercados financeiros. Quando os bancos pararam de fornecer liquidez de curto prazo a outros bancos e companhias industriais, os bancos centrais preencheram a lacuna. Consequentemente, as principais economias evitaram um colapso do crédito e da produção. A sensação de pânico diminuiu. Os bancos estão mais uma vez emprestando uns aos outros.

Apesar de o pior ter sido evitado, muitas aflições persistem. A crise culminou no colapso dos preços dos ativos no fim de 2008. Famílias ricas e de classe média em todo o mundo se sentiram mais pobres e, portanto, reduziram suas despesas radicalmente. Os preços de alimentos e de petróleo nas alturas se somaram às aflições e, por conseguinte, à depressão econômica. Empresas não conseguiam vender a sua produção, o que acarretou cortes de produção e demissões. O desemprego crescente agravou a perda de riqueza familiar, arremessando famílias em profundo perigo econômico e levando a reduções adicionais nos gastos dos consumidores.

O grande problema agora é que o desemprego continua aumentando nos EUA e na Europa, já que o crescimento é lento demais para gerar suficientes postos de trabalho novos. Deslocamentos continuam sendo sentidos por todo o mundo.

Seguiu-se um enorme debate em torno do chamado “gasto de estímulo” nos EUA, Europa e China. Esse gasto tem como objetivo usar os maiores gastos ou incentivos fiscais do governo para compensar a queda no consumo das famílias e no investimento empresarial. Nos EUA, por exemplo, praticamente um terço do pacote de estímulo de US$ 800 bilhões consiste em redução de impostos (para estimular gastos de consumidores); um terço é composto por despesas públicas em estradas, escolas, energia elétrica e outros tipos de infraestrutura; e um terço assume a forma de transferências federais a governos locais e estaduais para serviços de saúde, seguro-desemprego, salários para escolas.

Os pacotes de estímulo são controversos, pois aumentam o déficit orçamentário e, consequentemente, implicam na necessidade de reduzir gastos ou elevar impostos no futuro próximo. A pergunta é se eles estimulam a produção e a geração de empregos com êxito no curto prazo, e, caso afirmativo, se fazem o suficiente para compensar os inevitáveis problemas orçamentários que virão.

A real eficácia desses pacotes não está clara. Suponhamos que o governo conceda uma redução de imposto para aumentar o salário líquido dos consumidores. Se os consumidores decidirem poupar essa redução em vez de estimular o consumo. Nesse caso, o estímulo terá pouco efeito positivo sobre o gasto da família, mas agravará o déficit orçamentário.

Uma avaliação inicial dos pacotes de estímulo sugere que o programa da China funcionou bem. A queda acentuada nas exportações da China para os EUA tem sido compensada por uma queda expressiva nos gastos do governo chinês com infraestrutura, digamos, na construção de metrôs nas maiores cidades da China.

Nos EUA, o veredicto é menos claro. O corte de impostos foi mais provavelmente economizado que gasto. O componente de infraestrutura ainda não foi gasto devido a longas demoras para transformar o pacote de estímulo dos EUA em projetos de construção reais. A terceira parte – a transferência para governos locais e estaduais- quase certamente tem sido bem sucedida, na manutenção das despesas com escolas, saúde e desempregados.

Em suma, os efeitos do estímulo sobre os gastos nos EUA provavelmente têm sido positivos, mas reduzidos, e sem um efeito decisivo sobre a economia. Além disso, temores em torno do enorme déficit orçamentário dos EUA, agora na casa dos US$ 1,8 trilhão (12% do PIB) por ano, tendem a aumentar, não só gerando enormes incertezas no meio político e nos mercados financeiros, mas também diminuindo a confiança dos consumidores.

Quando a crise se aprofundou há um ano, Barack Obama inseriu na campanha presidencial o tema de uma “recuperação verde”, baseada num surto de investimentos em energias renováveis, novos veículos elétricos, edifícios “verdes” ambientalmente eficientes e agricultura ecologicamente segura. No calor da batalha contra o pânico financeiro, a atenção das políticas públicas se afastou daquela recuperação verde. Agora, os EUA precisam retornar a essa ideia importante.

As políticas públicas do governo nos EUA e em outros países ricos deveriam estimular aqueles investimentos por meio de incentivos especiais. Esses incentivos incluem um sistema de teto e mercado para emissões de gás estufa, subsídios para pesquisa e desenvolvimento em tecnologias sustentáveis, tarifas do tipo “feed-in” (que visam estimular tecnologias de geração de energia limpa alternativa) e incentivos reguladores para energia renovável e outros atrativos para a absorção de tecnologias. “verdes”.

O mundo rico também deveria fornecer aos países mais pobres subsídios e empréstimos a juros baixos para comprar tecnologias energéticas sustentáveis, como energia solar e geotérmica. Fazê-lo se somaria à recuperação global, melhoraria a sustentabilidade ambiental de longo prazo e aceleraria o desenvolvimento econômico. A crise ainda pode ser uma oportunidade para sair de uma rota de bolhas financeiras e consumo excessivo rumo a uma rota de desenvolvimento sustentável. Na verdade, aproveitar essa oportunidade é a única receita para crescimento genuíno que nos resta.

Jeffrey D. Sachs é professor de Economia na Universidade Columbia e consultor especial do secretário-geral das Nações Unidas para as Metas de Desenvolvimento do Milênio. Copyright: Project Syndicate, 2009.

23/08/2009 - 11:55h EUA, China e a ordem econômica emergente

 

Henry Kissinger*, TRIBUNE MEDIA SERVICES – O Estado SP

 


http://www.thewashingtonnote.com/archives/kissinger.jpgNum recente jantar de encerramento anual de seu diálogo estratégico e econômico em nível ministerial em Washington, dirigentes dos Estados Unidos e da China expressaram seu compromisso com uma atitude cooperativa com um entusiasmo maior que nos quase 40 anos desde que os dois países retomaram contato em 1971. É bom que seja assim, pois a próxima década testemunhará desafios radicais à sua adaptabilidade e visão.

O diálogo anual, tal como é, se concentra inevitavelmente nos problemas do momento. Por mais proveitoso que seja, o desafio mais profundo para uma relação descrita pelo presidente Barack Obama como tão importante quanto qualquer outra no mundo, é alcançar uma visão com respeito à ordem mundial emergente.

A suposição de que o fim da recessão vai restaurar o sistema econômico global familiar, ignora a subversão psicológica e política que ocorreu.

Uma vasta maré de liquidez combinada com o apetite americano por bens de consumo enviou quantidades imensas de dólares para a China que, por sua vez, a China nos emprestou de volta para um consumo ainda maior.

Antes da crise, a China enviou legiões de especialistas aos Estados Unidos e investiu em grandes instituições financeiras americanas para aprender os segredos do sistema que parecia produzir um crescimento global permanente com pouco risco.

A crise econômica abalou essa convicção. Os dirigentes econômicos chineses perceberam que o sistema financeiro americano submeteu uma década de suas poupanças a flutuações potencialmente catastróficas.

Para proteger o valor de seu investimento em títulos do Tesouro e para sustentar sua própria economia movida a exportações, a China se vê obrigada a continuar aumentando a posse desses títulos para perto de US$ 1 trilhão.

A ambiguidade é a consequência inevitável tanto na China como nos Estados Unidos.

Por outro lado, as duas economias se tornaram cada vez mais dependentes uma da outra. A China tem grande interesse numa economia americana estável – e de preferência em crescimento. Mas a China também tem um interesse crescente em reduzir sua dependência das decisões americanas.

Como tanto a inflação como a deflação americanas se tornaram pesadelos tão graves para a China quanto são para os Estados Unidos, os dois países se defrontam com o imperativo de coordenar suas políticas econômicas.

Como maior credora dos EUA, a China tem um grau de alavancagem econômica sem precedentes na experiência americana. Ao mesmo tempo, a busca pela ampliação do escopo de decisão independente existe numa combinação ambivalente em ambos os lados.

Algumas iniciativas chinesas refletem essa tendência. Autoridades chinesas se sentem mais livres para oferecer conselhos públicos e privados aos Estados Unidos do que antes. A China começou a fazer comércio com Índia, Rússia e Brasil em suas próprias moedas.

A proposta do presidente do banco central chinês de criar gradualmente uma moeda de reserva alternativa é outro ponto em questão. Muitos economistas americanos fazem pouco dessa ideia. Mas ela aflora em tantos fóruns, e a China tem um histórico tão consistente de perseguir seus projetos com grande paciência, que deveria ser levada a sério.

Para evitar uma deriva gradual para políticas antagônicas, a influência chinesa nos mecanismos globais de tomada de decisões econômicas precisa ser reforçada.

A sabedoria convencional de uma nova ordem econômica mundial cria outro imperativo de coordenação de políticas econômicas de longo alcance. Segundo ela, a economia mundial recuperará sua vitalidade assim que a China consumir mais e os EUA consumirem menos. Mas à medida que ambos os países aplicarem essa prescrição, isso inevitavelmente alterará a estrutura política.

Uma América que consome menos importará menos da China. À medida que as exportações chinesas para os EUA diminuírem e a China mudar a ênfase de sua economia para um maior consumo e um aumento nos gastos com infraestrutura, uma ordem econômica diferente surgirá. A China será menos dependente do mercado americano e seu padrão de mudanças comerciais, enquanto a crescente dependência de países vizinhos de mercados chineses aumentará a influência política da China. Até certo ponto, a cooperação política terá de compensar essa mudança.

Uma definição cooperativa para um futuro longo não será fácil.

Historicamente, China e Estados Unidos têm sido potências hegemônicas capazes de estabelecer suas próprias agendas de forma essencialmente unilateral.

Elas não estão acostumadas a alianças estreitas ou a processos consultivos que restrinjam sua liberdade de ação numa base de igualdade. Quando estiveram em alianças, elas tenderam a dar como certo que o manto de liderança lhes pertencia e exibiram um grau de dominação inconcebível numa emergente parceria sino-americana.

Para fazer esse esforço funcionar, os líderes americanos precisam resistir ao canto de sereia de uma política de contenção extraída do manual de estratégia da Guerra Fria. A China precisa evitar uma política voltada para reduzir alegados desígnios hegemônicos americanos e a tentação de criar um bloco asiático para esse fim. No fim das contas, um confronto esgotará as duas sociedades em detrimento do bem-estar global como a 2ª Guerra fez com a Europa. Questões que só podem ser tratadas numa base global, como energia, meio ambiente, proliferação nuclear e mudança climática, requererão uma visão comum do futuro.

No outro extremo, alguns argumentam que Estados Unidos e China deviam se constituir num G-2. Um órgão governante global sino-americano tácito não é, porém, do interesse de nenhum dos dois países ou do mundo. Os países que se sentirem excluídos poderiam derivar para um nacionalismo rígido no preciso momento em que se requer uma perspectiva universal.

A grande contribuição dos Estados Unidos nos anos 50 foi tomar a frente no desenvolvimento de um conjunto de instituições pelas quais a região atlântica pudesse lidar com sublevações sem precedente. Uma região até então dilacerada por rivalidades nacionais encontrou mecanismos para institucionalizar um destino comum, reduzindo, em grande medida, as perspectivas de guerra, e levando, com o tempo, a uma ordem mundial muito mais benigna.

O século 21 hoje requer uma estrutura institucional apropriada para este tempo. As nações que margeiam o Pacífico têm um senso de identidade nacional mais forte que o dos países europeus que saíram da 2ª Guerra. Elas não devem derivar para uma versão do século 21 da clássica política de equilíbrio de poder. Será particularmente pernicioso se blocos antagônicos se formarem em cada lado do Pacífico.

Enquanto o centro de gravidade dos assuntos internacionais pende para a Ásia, e os Estados Unidos descobrem um novo papel diferente da hegemonia, mas compatível com a liderança, precisamos de uma visão de estrutura do Pacífico baseada numa cooperação estreita entre os Estados Unidos e a China, mas também suficientemente ampla para permitir que outros países que margeiam o Pacífico concretizem suas aspirações.

*Henry Kissinger é ex-secretário de Estado dos Estados Unidos

20/08/2009 - 11:44h Bancos centrais temem deflação crônica

Na Alemanha, produtos têm hoje o mesmo valor de maio de 2007

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Gustavo Chacra – O Estado SP

Os bancos centrais de países desenvolvidos começam a enfrentar o risco de a deflação se intensificar nos próximos meses, com recordes sendo anunciados nos Estados Unidos e na Europa. Na sua maior queda em seis décadas, o índice de preços ao consumidor da Alemanha despencou 7,8% em julho em relação ao mesmo mês no ano passado. Na variação mensal, a diminuição foi de 1,5%.

Segundo o Escritório Federal de Estatísticas, os produtos alemães têm hoje o mesmo valor de maio de 2007. Os preços para o consumidor na Alemanha registraram a sua primeira baixa desde a reunificação do país, em 1990, ao caírem 0,5%. A redução é dois décimos menor do que a média da zona do euro.

Do outro lado do Atlântico, o índice de preços ao consumidor americano também atingiu o seu menor nível desde 1950, ao se reduzirem 2,1% em julho, quando comparado ao mesmo mês no ano passado – em relação a junho, a inflação se manteve estável -, de acordo com dados do Departamento do Trabalho divulgados na semana passada. Assim como na Alemanha, os piores números vieram do setor produtivo, com uma redução de 6,8% nos preços desde julho de 2008, e 0,9% em junho .

A deflação tem como principal causa a redução nos preços da área energética, especialmente do barril do petróleo – apesar da elevação de ontem, que não está embutida no índice -, ao longo do último ano. Na Alemanha, a deflação anual é de 3,6% quando não se leva em conta os preços deste setor.

O Fed (banco central dos EUA) indicou que não existe risco de inflação por enquanto, o que eliminaria a necessidade de elevar os juros, evitando uma possível estagflação (inflação e recessão simultaneamente). O problema, segundo dizem alguns economistas, é que, com a deflação, há pouca margem de manobra para o Fed. Os juros já estão próximos de zero e o risco seria de um círculo vicioso como no Japão dos anos 1990.

A saída seria o aumento da demanda para o fim da deflação. Por enquanto, os sinais não indicam que isso venha ocorrendo. Ao contrário, o índice de confiança dos consumidores está em queda nos Estados Unidos por três motivos – elevado desemprego (9,4%), endividamento e maior propensão a poupar em vez de consumir.

14/08/2009 - 09:49h China deve liderar saída da crise na Ásia

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RETOMADA

O Estado SP

Todas as grandes economias da Ásia vão crescer no próximo ano, lideradas pela China, conforme a região sai da crise global, afirmou ontem a agência de classificação de risco Standard & Poor?s. O economista-chefe para Ásia Pacífico da agência, Subir Gokarn, disse que a China vai crescer entre 7,5% e 8% este ano – perto das estimativas do governo chinês – e entre 8% e 8,5% em 2010, com a Índia também contribuindo fortemente para a recuperação asiática. Por outro lado, a economia do Japão poderá ter contração entre 6% e 6,5% este ano, e deve crescer só em 2010, entre 0,8% e 1,3%.

14/08/2009 - 09:24h Novos dados contrariam otimismo nos EUA

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Bloomberg – VALOR

Três dados negativos da economia americana anunciados ontem contrariaram as previsões otimistas dos analistas. As vendas das varejistas americanas caíram em julho e as retomadas de casas por falta de pagamento chegaram a um patamar recorde. Enquanto isso, na semana passada, o número de americanos que entraram com pedido de seguro-desemprego pela primeira vez subiu.

As vendas caíram na medida em que o impulso dado pelo programa de incentivo do governo para a troca de carros velhos por novos não foi suficiente para contrabalançar o declínio dos outros gastos. A queda das vendas, de 0,1%, foi a primeira em três meses e se seguiu à alta corrigida de 0,8% registrada em junho, maior que o anteriormente estimado, segundo o Departamento do Comércio dos EUA. Excetuando-se automóveis, as compras caíram 0,6%, também mais do que o estimado.

“Preocupados com a alta do desemprego, a queda dos preços das casas e o aperto do crédito, os consumidores continuaram a conter seus gastos”, disse Steven Wood, presidente da Insight Economics, da Califórnia. “A atividade econômica total não vai se revitalizar plenamente enquanto os gastos do consumidor não se recuperarem.”

O relatório de varejo chama a atenção também para as ameaças aos gastos representada pela persistente deterioração do mercado de trabalho americano. Os requerimentos de seguro-desemprego subiram para 558 mil na semana encerrada a 8 de agosto, a partir do número corrigido de 554 mil computado na semana anterior, disse o Departamento do Trabalho. Pelo lado positivo, eles permaneceram abaixo de 600 mil pedidos pela sexta semana consecutiva.

Já as retomadas de casas pela instituição financeira por falta de pagamento subiram em julho para um recorde de 360 mil, segundo dados da RealtyTrac, que comercializa números do setor. Uma em cada 355 famílias recebeu uma dessas notificações, a parcela mais elevada já registrada pela RealtyTrac desde janeiro de 2005.

14/08/2009 - 08:58h Desemprego e fim dos pacotes de estímulo ameaçam retomada

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Gerrit Wiesmann, Financial Times, de Frankfurt – VALOR

A zona do euro poderá voltar a crescer neste trimestre, mas com que rapidez e sustentabilidade?

A mensagem trazida por dados divulgados ontem parece ser: o crescimento puxado por exportações parece estar voltando, mas será contido, por algum tempo, pelo desemprego em alta, pelos bancos ainda reticentes em emprestar e pelo fim dos pacotes de estímulo fiscal, enquanto governos buscam conter déficits orçamentários.

O crescimento na Alemanha e na França – que, reunidas, são responsáveis por quase 48% do Produto Interno Bruto (PIB) da zona do euro – por pouco não levaram a região como um todo para o território positivo. A recuperação deixou os economistas mais confiantes do que nunca em que a forte recessão na zona do euro esteja chegando ao fim quase exatamente dois anos depois de o aperto de crédito ter deflagrado a crise financeira mundial.

Mas, apesar da quase eufórica reação às inesperadas boas notícias, a maioria dos economistas mantém uma perspectiva cautelosa. O consenso é de que o crescimento na eurozona poderá se aproximar de taxas média históricas no fim do ano que vem.

Aurelia Maccario, economista do Unicredit em Milão, disse que o forte desempenho da zona do euro sugere um retorno a taxas de crescimento positivas no terceiro trimestre, com “provavelmente uma leve aceleração no fim do ano”. O crescimento poderá atingir uma taxa anualizada de 1% no segundo semestre de 2009 devido ao efeito combinado do ressurgimento da demanda mundial e de crescimento dos gastos públicos e privados, como resultado de diversos esquemas de estímulo.

Economistas disseram que as medidas de curto prazo provavelmente desempenharam um grande papel na evidente guinada rumo ao crescimento.

“Com base no que sabemos hoje, revisamos para cima nossas previsões para o terceiro trimestre – de situação praticamente inalterada para 0,5% positivo”, disse Erik Nielsen do Goldman Sachs em Londres. Para ele, outros fatores, além do estímulo, poderão começar a mostrar seu efeito.

A melhoria nas expectativas levou diversos bancos a revisarem para melhor suas previsões anuais para o PIB na zona do euro, embora a região tem um longo caminho a percorrer até retornar a níveis anteriores à crise.

O alemão Commerzbank disse que o PIB da zona do euro deverá encolher “apenas” 3,5% neste ano, em comparação com uma previsão anterior de queda de 3,8%. O Unicredit agora prevê que a economia encolherá 4%, em vez dos 4,6% projetados anteriormente.

Segundo a Eurostat, birô estatístico da União Europeia (UE), a taxa à qual a economia da zona do euro encolheu baixou para 0,1% no segundo trimestre, de calamitosos – 2,5% no primeiro.

Nielsen falou de “grande interrogações” pairando sobre o sistema bancário europeu.

Temores de que os bancos europeus sejam forçados a depreciar ativos relacionados com inadimplência devida à crise econômica e, em consequência, reduzir novas concessões de empréstimos têm preocupado políticos e o Banco Central Europeu (BCE) nas últimas semanas.

Jean-Claude Trichet, o presidente do BCE, implorou aos banco, na semana passada, que repassem as “medidas extraordinárias” que o BCE tomou para incrementar sua liquidez.

Outra razão para tratar os dados divulgados ontem com alguma cautela é o desemprego, para o qual a expectativa generalizada é de um salto de crescimento – que deprimiria o consumo – enquanto as companhias continuam a apertar os cintos.

Trichet advertiu na semana passada que “mesmo quando a economia reaquecer, o desemprego poderá continuar crescendo”. Ele ressaltou esse risco como “um dos pontos importantes que nos impõem sermos prudentes e cautelosos” durante algum tempo.

O perigo de que as verbas de estímulo – que parecem estar dando sustentação aos gastos públicos e privados – acabem antes que a zona do euro tenha superado os prenúncios de apertos de crédito e no mercado de trabalho é a razão pela qual os economistas continuam preocupados com o crescimento.

“O problema, para a zona do euro”, disse Nielsen, “é que os fatores positivos são, no momento, em larga medida de curto prazo, ao passo que os fatores negativos poderão se constituir em problemas de mais longo prazo”.

14/08/2009 - 08:34h Alemanha e França voltam a crescer e puxam economia da zona do euro

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Bloomberg – VALOR

Alemanha e França surpreenderam, voltando a crescer no trimestre passado. O resultado dos dois quase fez com que a economia da zona do euro não sofresse contração e sugere que a recessão da região, a pior desde a Segunda Guerra Mundial, pode estar chegando ao fim.

O Produto Interno Bruto da zona do euro encolheu 0,1% em relação ao primeiro trimestre, período em que contraiu 2,5% – o qual foi o maior declínio desde que os dados relativos ao bloco começaram a ser compilados, em 1995, informou o departamento de estatística da União Europeia (UE). Economistas haviam estimado que o PIB teria encolhido 0,5% nos três meses até junho, segundo mostra a mediana de 32 projeções colhidas em pesquisa da agência Bloomberg.

Na Alemanha, a maior economia da Europa, o PIB cresceu 0,3% (dado sazonalmente corrigido) em relação ao primeiro trimestre, quando caiu 3,5%. A economia da França também cresceu 0,3% no trimestre passado.

A Itália e a Holanda foram os países que puxaram a economia da zona do euro para baixo. A economia italiana contraiu 0,5%, e a holandesa teve queda de 0,9% no segundo trimestre.

O PIB da zona do euro recuou por cinco trimestres consecutivos, a mais longa contração desde o início da série histórica, que começou há 14 anos.

A demanda pelas exportações da zona do euro está melhorando no mesmo momento em que os pacotes de resgate dos governos e os juros baixos sustentam os gastos do consumidor interno. Os dados divulgados sugerem que o Banco Central Europeu (BCE) não precisará aumentar as medidas de incentivo, mas o crescente desemprego em toda região deverá ainda conter o consumo.

“Existe uma chance mais do que razoável de que a atividade econômica da zona do euro tenha agora chegado ao ponto mais baixo e que voltará a crescer no terceiro trimestre, com muitas das outras economias seguindo o exemplo da Alemanha e da França e saindo da recessão”, disse Martin van Vliet, economista-sênior do ING Bank de Amsterdã. “Tememos, porém, que a recuperação seja relativamente lenta e demorada.”

A melhora econômica da Alemanha acontece quando a premiê conservadora Angela Merkel está em campanha pela reeleição na votação marcada para 27 de setembro. “Merkel está numa boa posição para explorar a volta precoce ao crescimento econômico, mas eu me surpreenderei se ela fizer isso com muita ênfase”, disse Laurent Bilke, economista-sênior da Nomura de Londres. “Ainda se justifica uma certa cautela enquanto o mercado de trabalho continuar a se enfraquecer.”

A economia do Reino Unido, que pertence à UE, mas não à zona do euro, contraiu 0,8% no segundo trimestre, mais do que o dobro do previsto por economistas.

Em relação ao segundo trimestre de 2008, a economia da zona do euro encolheu 4,6 entre abril e junho, depois de uma contração de 4,9% nos três primeiros meses do ano, segundo o relatório.

15/07/2009 - 12:04h Com forte impulso do consumo, PIB deixa recessão para trás

lula_ok.jpgConjuntura: Previsões mais otimistas apontam para alta de mais de 2% no 2º trimestre

Sergio Lamucci, de São Paulo – O Estado SP

O resultado do Produto Interno Bruto (PIB) no segundo trimestre de 2009 confirmará que a recessão ficou para trás, com um crescimento que pode superar 2% em relação ao trimestre anterior, feito o ajuste sazonal, segundo as previsões mais otimistas. Divulgados ontem, os números de vendas no varejo de maio reforçaram a avaliação de que o consumo das famílias – o principal motor da demanda – avança a um ritmo razoável, impulsionado pela massa salarial, que nos 12 meses até maio ainda cresceu 6,6%, descontada a inflação. A possibilidade de que o PIB tenha uma variação ligeiramente positiva no ano aumentou, embora vários analistas ainda apostem em contração em 2009.

No quarto trimestre de 2008, o PIB recuou 3,6% sobre terceiro, devido ao impacto da crise global. No primeiro trimestre deste ano, houve nova queda, de 0,8%, caracterizando um quadro de “recessão técnica”, marcado por duas retrações trimestrais seguidas do PIB.

O economista-chefe do Banco Safra de Investimento, Cristiano Oliveira, diz que, desde o começo de abril, a economia brasileira indica que o pior momento para a atividade ficou para trás. Segundo ele, o grande destaque é o consumo das famílias, que continua a exibir “uma robustez bastante relevante”. A queda dos juros, a política fiscal expansionista, a redução de impostos em setores como o automotivo e a desaceleração apenas moderada do ritmo de expansão da massa salarial explicam esse desempenho, diz Oliveira.

Esses fatores impulsionam as vendas no varejo, que em maio cresceram 0,8% em relação a abril, feito o ajuste sazonal. Nesse cenário, Oliveira projeta preliminarmente uma alta de 2,3% para o PIB no segundo trimestre, na comparação com o primeiro.

No começo do mês, ele revisou a sua estimativa para o resultado do ano de crescimento zero para um avanço de 0,3%. “Outro ponto importante é que o impacto máximo do afrouxamento da política monetária deve ocorrer no quarto trimestre deste ano”, afirma Oliveira.

O estrategista-chefe do BNP Paribas, Alexandre Lintz, elevou ontem a sua projeção para a alta do PIB no segundo trimestre de 1,1% para 1,4%. A revisão foi motivada pelo desempenho favorável das vendas no varejo. Ele esperava estabilidade em relação a abril, mas houve uma expansão de 0,8%. Para o segundo trimestre, Lintz projeta crescimento de 1,6% do consumo das famílias.

Com isso, Lintz também mudou a sua estimativa para o PIB no ano. Em vez de uma queda de 1,2%, ele passou a projetar retração de 0,9%. Um dos problemas é que a “herança estatística” (o carry over) que 2008 deixou para 2009 é muito negativa, de 1,5%. Isso significa que, se a economia se mantivesse no nível do fim do ano passado, o PIB encolheria 1,5% neste ano. Mas há outros motivos para a cautela de Lintz: a massa salarial vai perder fôlego ao longo do ano e o setor automotivo terá um quarto trimestre mais fraco do que os anteriores, já que a alíquota do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) de veículos vai aumentar gradualmente a partir de outubro. Além disso, o impacto da redução do esforço fiscal do governo tende a ser menor daqui para frente.

A economista Silvia Ludmer, do Banco Fator, estima uma alta de 1,5% para o PIB no segundo trimestre. Segundo ela, o consumo mostrou um resultado mais positivo no semestre, enquanto a produção industrial teve um comportamento fraco, ainda influenciado pelo processo de redução de estoques. Para o PIB do ano, ela espera uma retração de 0,1%. “Se houver alguma revisão, ela tende a ser para cima.” Silva acha que o consumo deve reservar menos surpresas positivas daqui para frente, dada a perspectiva menos favorável para a massa salarial. Na indústria, pode haver alguma recuperação mais expressiva nos próximos meses, encerrada a desova de inventários.

Os economistas do Bradesco , por sua vez, apostam numa alta de 2,2% para o PIB no segundo trimestre. “Há uma perspectiva de continuidade do crescimento do setor de serviços, pelo lado da oferta”, apontam os analistas do banco, ressaltando os bons resultados do comércio varejista e os sinais de que o setor de intermediação financeira também foi bem, graças à recuperação do crédito, especialmente para a pessoa física. Para o ano, o Bradesco projeta queda do PIB de 0,5%, em grande parte devido ao efeito estatístico negativo.

A economista Marcela Prada, da Tendências Consultoria, estima crescimento no segundo trimestre de 0,5% em relação ao primeiro, mas diz que o número pode ser revisado para cima, com a incorporação dos resultados do varejo.

Já a situação na indústria é mais complicada, observa ela. De janeiro a maio, houve recuperação em relação aos meses imediatamente anteriores, mas o nível de produção ficou bem abaixo do registrado nos mesmos períodos de 2008. Para junho, estimativas com base na produção de automóveis, consumo de energia e fluxo de veículos pesados apontam um resultado menos favorável à produção industrial. O BNP Paribas projeta queda de 0,3% em relação a maio e de 11,3% sobre junho de 2008.

11/07/2009 - 10:27h Obama precisa ser franco com o povo americano

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Paul Krugman* – O Estado SP

Assim que o então futuro governo de Obama anunciou o plano de estímulo – isso ocorreu antes de sua posse – alguns de nós manifestamos preocupação diante da possibilidade de o plano se mostrar inadequado. Dizíamos que seria difícil, enquanto questão política, solicitar uma nova rodada de estímulos.

Infelizmente, essas preocupações se mostraram justificadas. O desanimador relatório com os números do desemprego de junho deixaram claro que o estímulo foi pequeno demais. Ele danificou a credibilidade da capacidade do governo de dirigir a economia. Existe agora um risco real de o presidente Barack Obama se ver numa armadilha política e econômica.

Quero primeiro dar um passo atrás e perguntar como um cidadão preocupado deveria reagir às desanimadoras notícias econômicas.

Devemos ser pacientes e dar ao plano de Obama o tempo para que funcione? Devemos pedir por medidas maiores e mais ousadas? Ou devemos declarar o plano um fracasso e exigir que a administração cancele a iniciativa toda? Antes de responder, leve em consideração o que acontece em tempos normais.

Quando passamos por uma recessão comum, o trabalho de combatê-la é designado ao Federal Reserve (Fed, o banco central americano). O Fed responde com o corte progressivo das taxas de juros. Reduzindo as taxas pouco a pouco, o Fed faz cortes até a economia dar sinais de recuperação. Às vezes esse processo sofre uma pausa para o seu efeito ser avaliado; se a economia continuar enfraquecida, os cortes são retomados.

Durante a última recessão, o Fed cortou as taxas repetidas vezes conforme o declínio se tornava mais profundo – foram 11 cortes em 2001. Então, em meio aos primeiros sinais de recuperação, o Fed fez uma pausa para que os cortes fizessem efeito. Quando se tornou claro que a economia ainda não crescia num ritmo forte para criar empregos, novos cortes nas taxas de juros foram aplicados.

Assim, esperamos que os responsáveis pelas medidas respondam a números preocupantes no desemprego com uma combinação de paciência e determinação. Eles devem dar tempo para que as medidas produzam resultado, mas devem considerar o fortalecimento dessas medidas.

E é isso que a administração Obama deveria fazer agora com o seu estímulo fiscal. É importante lembrar que o estímulo foi necessário porque o Fed, depois de ter cortado as taxas de juros até chegar a zero, ficou sem munição para combater esse declínio. Isso significa que os governantes devem manter a calma diante dos desapontadores resultados iniciais, reconhecendo que o plano vai levar algum tempo até poder proporcionar todos os seus benefícios. Mas eles devem se preparar para aumentar o estímulo agora que se tornou claro que a primeira rodada não foi grande o bastante.

Infelizmente, a politicagem envolvida na política fiscal é muito diferente da politicagem envolvida na política monetária. Durante os últimos 30 anos, fomos submetidos ao discurso segundo o qual o gasto governamental seria ruim, e a conservadora oposição ao estímulo fiscal (que poderia dar às pessoas uma impressão mais positiva do governo) foi amarga e implacável, mesmo diante do pior declínio desde a Grande Depressão. Assim, era de se esperar que os republicanos – e alguns democratas – tratassem quaisquer más notícias como prova do fracasso, e não como pretexto para fortalecer as medidas adotadas.

Eis aí o perigo da administração Obama se ver aprisionada numa armadilha política e econômica, na qual a própria fraqueza da economia prejudica a capacidade da administração de responder de maneira eficaz.

Como disse, eu já temia que isso pudesse acontecer. Mas são águas passadas. A pergunta é o que o presidente e sua equipe econômica devem fazer agora.

Não há nada de errado na defesa que a administração tem feito das medidas que já implementou até o momento. Tudo bem se o vice-presidente Joe Biden viajar pelo país, destacando as realizações positivas do pacote de estímulo.

É também razoável que os economistas do governo peçam paciência e destaquem, com razão, que o impacto do estímulo não era esperado para este verão, e quem sabe nem para este ano.

Mas existe uma diferença entre defender o que já foi feito e ser defensivo. Foi perturbador quando Obama recuou diante do reconhecimento de Biden de que a administração teria “interpretado mal” a economia, declarando que “não há nada que gostaríamos de ter feito de maneira diferente”. Havia algo do complexo de infalibilidade de Bush nesse comentário, um sinal de que a administração atual pode manifestar parcialmente a inabilidade dos seus predecessores de reconhecer os próprios equívocos. E essa é uma postura que nem Obama e nem o país podem se dar ao luxo de ter.

O que Obama precisa fazer é ser franco com o povo americano. Ele precisa admitir que talvez não tenha feito o bastante na primeira tentativa. Precisa lembrar ao país que ele está tentando conduzir os EUA sob uma tempestade econômica extremamente aguda, e que alguns ajustes de percurso – incluindo possivelmente outra rodada de estímulo – podem se fazer necessários.

Em resumo, o que ele precisa fazer em relação à política econômica é o mesmo que ele já fez com as relações raciais e a política externa – tratar os americanos como adultos.

*Paul Krugman é prêmio Nobel de Economia

04/07/2009 - 10:46h EUA: números mostram que os anos 30 voltaram

krugman.jpgANÁLISE

PAUL KRUGMAN DO “NEW YORK TIMES” – FOLHA SP

Bem, os números sobre o emprego divulgados na quinta-feira confirmam: vamos precisar de um estímulo maior. Será que o presidente está informado? Façamos as contas. Desde que a recessão começou, a economia dos EUA perdeu 6,5 milhões de empregos, e essa queda continua em ritmo acelerado. Se considerarmos os cerca de 100 mil ou mais empregos novos necessários a cada mês para acompanhar o crescimento populacional, temos um déficit de cerca de 8,5 milhões de postos de trabalho.
Os números do emprego não foram a única má notícia do relatório da quinta-feira, que mostrou ainda estagnação de salários e a chance de um declínio aberto. Isso representa uma receita para deflação ao estilo japonês. Alguém se interessa por uma década perdida? Há mais notícias ruins: a crise fiscal dos Estados, por exemplo. Ao contrário do governo federal, os estaduais têm a obrigação de manter Orçamentos equilibrados. Diante da severa queda na arrecadação, muitos dos governos estaduais preparam cortes selvagens em seus Orçamentos, muitos dos quais prejudicarão as pessoas mais vulneráveis. Além de serem diretamente responsáveis por gerar muito sofrimento, esses cortes deprimirão a economia ainda mais.
O que temos de fazer para combater essa assustadora perspectiva? Temos o plano de estímulo de Obama, cujo objetivo é criar 3,5 milhões de empregos até o fim do ano que vem. Isso é bem melhor do que nada, mas nem de longe é o bastante. Você se lembra do plano do governo para reduzir o número de execuções de hipotecas ou do plano que estimularia os bancos a retomar seus empréstimos ao assumir os ativos tóxicos de seus balanços? Eu tampouco.
Tudo parece deprimentemente familiar para quem estudou a política econômica dos EUA nos anos 30. Uma vez mais um presidente democrata impôs a aprovação de políticas de criação de empregos que mitigarão a queda, mas não são agressivas o bastante para resultar em plena recuperação. Uma vez mais boa parte do estímulo em nível federal está sendo prejudicada pela reacomodação orçamentária nos Estados e nos municípios.
Será, portanto, que não aprendemos com a história e por isso estamos condenados a repeti-la? Não necessariamente cabe ao presidente e à sua equipe econômica garantir que desta vez as coisas sejam diferentes. O presidente Barack Obama e seus assessores precisam acelerar seus esforços, a começar de um plano que ampliaria as medidas de estímulo. Eu gostaria de deixar claro que estou ciente de o quanto seria difícil implementar um plano desse tipo.

Falta de cooperação
Não haverá nenhuma cooperação dos líderes republicanos, que decidiram por uma estratégia de completa oposição. Esses lideres reagiram ao anúncio dos mais recentes dados sobre o emprego proclamando o fracasso do plano econômico de Obama. Isso é ridículo. O governo avisou desde o começo que seriam necessários alguns trimestres para que o plano apresentasse efeitos positivos importantes. Mas isso não impediu o Comitê de Estudos Republicano de divulgar um comunicado cujo título perguntava: “Onde Estão os Empregos?”.
Não está claro, tampouco, que ajuda o governo receberá dos “centristas” do Senado, que mutilaram parcialmente o plano original de estímulo ao exigir cortes na assistência aos governos estaduais e locais. Um auxílio que, como estamos vendo agora, era necessário. Foi um choque desagradável ver economistas respeitados reciclando velhas falácias como a alegação de que qualquer aumento nos gastos do governo automaticamente desloca igual montante de gasto privado, mesmo que exista desemprego em massa -e emprestando seus nomes a alegações absurdamente exageradas quanto aos malefícios de déficits orçamentários de curto prazo (no momento, os riscos associados a elevar o endividamento público são muito inferiores aos ligados a não oferecer à economia o apoio requerido).
Além disso, a exemplo dos anos 30, os oponentes contam histórias assustadoras sobre o perigo de inflação, enquanto a deflação nos ronda. Assim, será difícil promover uma nova rodada de estímulo. Mas é uma tarefa essencial.
Os economistas do governo Obama compreendem o que está em jogo. Apenas algumas semanas atrás, Christina Romer, presidente do Conselho de Assessores Econômicos da Casa Branca, publicou um artigo sobre as “lições de 1937″ -o ano em que o presidente Franklin Roosevelt cedeu à pressão da linha-dura quanto à inflação e ao déficit, com consequências desastrosas para a economia. O que não sei é se o governo reconheceu que aquilo que fez até agora foi insuficiente.
Por isso, eis minha mensagem ao presidente: é preciso colocar tanto sua equipe econômica como seus assessores políticos em ação para promover novas medidas de estímulo, e já. Porque, se isso não acontecer, em breve o senhor estará enfrentando o seu 1937.

PAUL KRUGMAN, economista, é colunista do “New York Times” e professor na Universidade Princeton (EUA).

Tradução de PAULO MIGLIACCI

02/07/2009 - 09:39h Plantamos e está dando

BCs preocupados. O nosso, não

Alberto Tamer* – O Estado SP

O mundo ainda não acredita que o pior já passou. Discute-se se as medidas anticíclicas até agora adotadas estão dando certo e se serão suficientes para conter a recessão. Os presidentes dos bancos centrais reunidos nesta semana em Genebra, na sede do BIS, estão entre preocupados e pessimistas. Pelo primeira vez em seus encontros periódicos se recusaram a fazer previsões para o crescimento econômico este ano.

Alertam para o endividamento crescente e preocupante dos Estados, mas não apresentam solução a não ser recomendar que se apresse a reforma do sistema financeiro internacional antes que esse endividamento chegue ao limite. Só isso, o que é muito pouco ou quase nada. “Não podemos hipotecar o futuro”, afirma Jaime Caruana, diretor do BIS. Mas esse senhor se esquece de que, se não salvarmos o presente, estaremos perdendo o futuro. Não seria mais prudente endividar alguns anos da próxima geração para evitar que ela se enterre no atoleiro da recessão?

O que se conclui do estratégico encontro dos presidentes dos bancos centrais é que eles simplesmente não sabem o que fazer para superar a recessão.

MEIRELLES, O ÚNICO TRANQUILO

Mas por que lembro tudo isso? Apenas para dizer que essa preocupação deles, no fundo, não é nossa. O Brasil já fez há meses o que eles recomendam agora. Quando houve sinais de preocupação com alguns bancos menores, o governo fez um mini-Proer e em algumas semanas normalizou tudo. Nosso sistema financeiro e bancário está supersaudável, o que não acontece nos EUA e na Europa. Não é que a difícil situação dos países desenvolvidos não nos preocupe, pois o crédito externo é importante. Mas o BC, o Tesouro e os bancos oficiais sanaram a falha, aumentando a liquidez do sistema e financiando as exportações. O crédito interno voltou, já representa 45% do PIB e continua a crescer, enquanto eles se retraem nos EUA e na Europa. O superávit comercial no semestre cresceu 23,8% em relação ao mesmo período do ano passado.

Em um ano, o superávit recuou 11,6%, mas por causa da forte desaceleração dos últimos dois trimestres do ápice da crise, em 2008. São resultados ainda mais significativos quando se sabe que o comércio exterior recua fortemente e todos os países desenvolvidos apresentam déficits crescentes.

PIB? NEM SE FALA…

É. Estão afundando. A economia dos países ricos que integram a OCDE vai recuar 4,1% neste ano. Na zona do euro, o PIB ficará em menos 4,8%. Só nos EUA há sinais de recuperação, mas mesmo assim o PIB deve ter uma retração de 2,8%. Para o Brasil, a organização estima retração de apenas 0,8%, mas um crescimento de 4,1% em 2010, que eu chama de vigoroso. Com exceção da China e da Índia, não prevê nenhum país crescendo tanto. A pobre Rússia amarga neste ano uma retração pavorosa de 7,9%, por causa da crise financeira e do preço do petróleo.

O BC, sempre cauteloso, revisou na sexta-feira sua previsão para o PIB, 0,8 ponto menor que o 1,2% da estimativa anterior. Mesmo assim, crescimento e não retração, como ocorre nos países desenvolvidos.

MAS TEM A DIVIDA INTERNA!

Sei, sei, caro leitor. Ela está em 42,5% do PIB, perfeitamente administrável.A dívida externa é menor que as reservas. Quer saber qual é a relação dívida-PIB dos países ricos? Menciono apenas alguns. EUA, 80%. Ou seja, US$ 11,4 trilhões. Vem crescendo US$ 3,8 bilhões por dia desde setembro de 2007! Alemanha, 78%; Grã-Bretanha, 70%; Japão, 114%… e daí por diante.

COLUNISTA EUFÓRICO…

Sei, vocês estão rindo de mim, pois, afinal, andei alertando para o excesso de euforia pouco responsável e caí nela… Não, não caí não. A coluna alertou e continua alertando para o perigoso retorno da festa no mercado financeiro, como se nada tivesse acontecido.

Não acredito também que a economia mundial vai se recuperar nos primeiros meses de 2010. Nem o FMI, nem o Banco Mundial, nem a OCDE. O que afirmo é que estamos melhor, que vamos crescer muito mais que os EUA e os países da Europa e do Leste Asiático, com exceção da China. E isso porque só nós e a China fizemos a lição de casa. Agimos antes de explodir a crise, investimos no mercado interno, não temos dívidas insuportáveis, nossas contas internas e externas estão em ordem e não temos problemas com o sistema financeiro, que ajustamos logo que surgiram problemas.

Quem diz isso não é a coluna. Nem o BC, nem o Tesouro, nem o Mantega (talvez só o Lula…). São os indicadores econômicos da OCDE, do Banco Mundial, do FMI, da Unctad, da ONU. Otimistas irresponsáveis? Não. Um realista cauteloso com o futuro, que vê o País enfrentando até com galhardia uma crise na qual os outros afundam.

Eu seria otimista se, como Cabral, dissesse que tudo nesta terra, plantando, dá. Mas não. Digo apenas que plantamos e está dando.

*E-mail: at@attglobal.net.

25/06/2009 - 17:13h Brasil deve crescer 4% no próximo ano, prevê OCDE

“As políticas fiscal e monetária implementadas pelo governo criaram condições domésticas favoráveis para a retomada do crescimento”

Retomada da expansão deverá começar já neste 2º semestre; para 2009, entidade estima que haverá retração de 0,8%

Ao constatar que os ricos já teriam superado a pior fase, estudo traça um cenário otimista das perspectivas do Brasil nos próximos meses

MARCELO NINIO – FOLHA SP

ENVIADO ESPECIAL A PARIS

A economia brasileira sofrerá contração de 0,8% em 2009, mas já deve retomar o crescimento no segundo semestre do ano e ter forte expansão em 2010, sustentada pela demanda doméstica e pela recuperação da atividade industrial.
As projeções fazem parte do relatório anual da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico), divulgado ontem em Paris.
O estudo traça um cenário otimista das perspectivas econômicas do Brasil nos próximos meses, em meio à avaliação de que o pior da crise nos países ricos provavelmente está perto do fim.
Levando em conta a queda no PIB no primeiro trimestre, a OCDE reavaliou negativamente a previsão anterior sobre a economia brasileira, divulgada em março, de contração de 0,3% em 2009. Mas elevou a previsão de crescimento em 2010: de 3,8% para 4%.
“A produção industrial está se expandindo, especialmente no setor automotivo. A demanda interna tende a ganhar força no segundo semestre de 2009″, diz o estudo da entidade, da qual o Brasil não faz parte.
As condições para a concessão de crédito no país permanecem restritas, observa o relatório, mas começam a dar “sinais de melhora”. Os empréstimos de bancos a indivíduos já se aproximam dos níveis anteriores à crise e os custos do crédito estão caindo em relação ao pico registrado no fim de 2008.
Sobre a inflação, o estudo prevê índice de 4,2% para este e o próximo ano, pouco abaixo do centro da meta do governo, de 4,5%. “As pressões inflacionárias derivadas da significativa depreciação do câmbio ocorrida no segundo semestre de 2008 foram reduzidas pela desaceleração econômica.”

Políticas
Para o economista Luiz de Mello, responsável pela parte brasileira do estudo, as políticas fiscal e monetária implementadas pelo governo criaram condições domésticas favoráveis para a retomada do crescimento. Os principais riscos para o Brasil são externos, diz ele, sobretudo o aperto no crédito e a queda do comércio.
“A composição dos riscos é predominantemente de fontes externas, mas elas podem afetar a dinâmica interna, como a retomada das exportações de setores importantes, como a indústria automobilística e a agricultura”, disse ele.
Entretanto, Mello crê que a forte contração do comércio mundial -segundo a OCDE, deve chegar neste ano a 16%, a maior desde a Segunda Guerra- não terá necessariamente impacto significativo no Brasil.
A OCDE lembra que o BC cortou as taxas de juros em 4,5 pontos percentuais, de 13,75% para 9,25% ao ano, e afirma que há espaço para novas reduções. Para a entidade, o “relaxamento” da política fiscal, com a redução da meta de superávit primário para este ano, é recomendável, mas só como medida temporária.
Isenções de impostos pontuais, como as aplicadas sobre veículos, são alvo de críticas da organização.
“Não somos fãs de políticas seletivas”, disse à Folha o economista-chefe da OCDE, Jorgen Elmeskov, que, no entanto, reconhece o bom desempenho do governo em matéria fiscal. “No plano geral, o Brasil é um exemplo de país emergente que, graças a um comportamento virtuoso no passado, abriu espaço para alguma flexibilidade fiscal na situação atual”, afirmou.

19/06/2009 - 14:33h Várias histórias por trás do PIB

Armando Castelar Pinheiro – VALOR

Faz algum tempo a The Economist fez um interessante artigo sobre como os americanos estavam voluntariamente segregando-se, passando a viver em comunidades cada vez mais homogêneas. À época em que lá vivi isso já me chamara a atenção: havia gente que se mudava para cidades com impostos baixos e poucos serviços públicos (por exemplo, casais sem filhos, que não queriam subsidiar a educação alheia), ou idosos que viviam em condomínios onde era proibida a entrada de crianças. Mas a revista batia em outra tecla: a segregação por semelhança de valores, opiniões políticas ou religião.

Ainda que se compreenda querer viver e criar os filhos junto a pessoas que também cultivem os nossos valores, esse processo é alienante e, no limite, pode até enfraquecer a democracia, já que reforça a diferença de visões de grandes segmentos da população, em lugar de mantê-las em constante cheque pelo convívio com aqueles que vêm o mundo de outra forma. A matéria ilustrava essa situação com uma observação de Norman Mailer, de que não sabia como Bush se elegera presidente, pois não conhecia ninguém que votara nele.

Essa matéria me vem com frequência à cabeça, em geral com pensamentos semelhantes ao de Mailer. Semana passada dela me lembrei por conta dos números do PIB no primeiro trimestre de 2009. No agregado, o número surpreendeu positivamente, com queda de 0,8% em relação ao trimestre anterior, bem menos que os 2% de contração em que apostava o mercado. A surpresa levou, em apenas uma semana, a uma revisão substantiva das projeções coletadas pelo Banco Central para a variação do PIB no ano, que deve continuar sendo ajustada para cima nas próximas semanas.

A abertura do número mostra, porém, que a situação é muito díspar dependendo do setor da economia. Na comparação anual, em que o PIB caiu 1,8%, vai-se de uma queda de 12,6% na indústria de transformação a uma alta de 7,0% em outros serviços (serviços prestados às empresas e às famílias, de alojamento e alimentação, associativos, domésticos, manutenção e reparação, e saúde e educação mercantil). Parte dessa diferença tem uma explicação simples: as maiores quedas ocorreram em setores que mantêm estoques (indústria, construção etc.), enquanto as altas se deram nos serviços, onde esses são quase inexistentes. De fato, nos dois últimos trimestres a economia reduziu o total de estoques em 2,7% e 3,3% do PIB, respectivamente, as maiores contrações desde o último trimestre de 2002.

As disparidades no desempenho setorial também se explicam pela diferença no comportamento dos outros elementos da demanda agregada: enquanto a formação bruta de capital fixo (FBCF) caiu 14,0%, o consumo das famílias subiu 1,3% e o da administração pública 2,7%. A contração da FBCF impressiona, já que ainda no terceiro trimestre de 2008 ela se expandira 19,7%. Com isso, a taxa de investimento (incluindo a FBCF e a variação de estoques) despencou de 18,4% para 13,4% do PIB entre os primeiros trimestres de 2008 e 2009.

O governo não dá sinais de que vá desacelerar o seu consumo, de forma que ele deve continuar contribuindo para a expansão da economia. Mas ainda que seja um elemento relevante da demanda (22,4% do PIB), seu ritmo de crescimento atual não diverge muito da média da última década (3,0%) e não deve variar tanto daqui para frente. Prospectivamente, portanto, o desempenho da economia vai ser determinado pelo que ocorrer com o processo de desestocagem, a FBCF e o consumo das famílias. Em que medida é possível que eles continuem evoluindo de forma tão díspar?

A redução de estoques foi um traço comum à maioria dos países nos dois últimos trimestres e sua atípica intensidade refletiu a forma súbita como as perspectivas mudaram após a quebra da Lehman Brothers. No Brasil, seu ritmo foi o mais intenso na série do IBGE, iniciada em 1995, com uma queda acumulada em dois trimestres de 6,0% do PIB, que só encontra paralelo na transição política de janeiro de 2003 (contração de 5,4% do PIB). Esse também é o único outro ponto da série do IBGE com redução dos estoques por dois trimestres consecutivos, o que sugere, inclusive por fatores sazonais, que esse processo deve perder intensidade no atual trimestre.

A FBCF deve continuar contraindo, mas em ritmo mais moderado do que no primeiro trimestre de 2009, quando houve uma queda dessazonalizada de 12,6% contra o trimestre anterior. O baixo nível de utilização de capacidade, a queda nas exportações e a piora nas expectativas dos empresários explicam esse comportamento, mas devem ter seu efeito atenuado conforme a produção se recupera, o ciclo de desestocagem termina, a demanda por commodities se recupera, e os sinais de que o pior da crise passou vão se multiplicando. A melhora nas condições de financiamento também deve ajudar, com a queda nos juros e a recuperação no mercado de capitais.

A maior surpresa no PIB foi o comportamento do consumidor. Em certo sentido, é como se ele e os analistas de mercado experimentassem a mesma dissonância cognitiva sobre os efeitos da crise no Brasil que os americanos de que fala a matéria da Economist. Mas há também fatores objetivos que ajudam a explicar porque desta vez a reação do consumidor foi diferente de outras crises. O nível e a boa gestão das reservas evitaram que o país tivesse uma crise de financiamento externo e permitiram a adoção de políticas contra cíclicas, em oposição ao ocorrido em crises anteriores, com a redução dos juros e incentivos como as isenções tributárias sobre bens de consumo. Em adição, a desvalorização cambial não se transformou em inflação, preservando o poder de compra dos trabalhadores. O crédito ao consumo, apesar de mais caro, curto e seletivo, também não desapareceu.

Ainda que o desempenho do PIB melhore nos próximos trimestres, ele não deve retornar tão cedo ao ritmo forte de expansão observado até meados do ano passado. O que não impedirá o Brasil de registrar um desempenho melhor que a média dos países desenvolvidos, ainda que não tão bom quanto o de emergentes como China e Índia.

Armando Castelar Pinheiro, analista da Gávea Investimentos e professor do IE – UFRJ. Escreve mensalmente às sextas- feiras.

18/06/2009 - 14:07h Pastore pede discurso mais claro a Meirelles

Apesar disso, economista elogia trabalho do BC durante a crise

Ricardo Leopoldo – O Estado SP

O ex-presidente do Banco Central (BC) Affonso Celso Pastore disse que o atual presidente da autoridade monetária, Henrique Meirelles, precisa ser um pouco mais consistente na comunicação, a fim de coordenar de forma eficiente as expectativas de mercado, especialmente as relacionadas às decisões de política monetária.

“Ele (Meirelles) tem de vir a público e deixar muito claro que está defendendo certos pontos de vista que ajudam o mercado a entender a sinalização. Se há um erro que o presidente do Banco Central está cometendo, é esse. As outras ações são todas acertadas”, comentou Pastore, em entrevista concedida ontem à Agência Estado.

Segundo Pastore, as pressões políticas emanadas de setores do governo para que os juros baixem com maior vigor fazem com que Meirelles se comunique com dois públicos: um deles é o mercado e o outro é composto por integrantes do governo que desejam uma política monetária mais flexível.

Na avaliação de Pastore, foi correta e adotada por critérios técnicos a decisão da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) de cortar os juros em 1 ponto porcentual, para 9,25% ao ano. A ata do encontro do BC, que será divulgada hoje, na expectativa dele, não mostrará nenhum otimismo com a recuperação da economia.

Pastore defende que o BC explique que “o hiato do produto está grande, que essa é uma força desinflacionária e que o investimento está baixo, o que freia a demanda”. O ex-presidente do Banco Central acredita que, como a inflação está sob controle, há espaço para os juros caírem pelo menos mais 0,50 ponto na próxima reunião, prevista para julho.

Ele prevê que o PIB deve registrar uma retração de 0,5% a 1% neste ano, mas voltará a crescer no quarto trimestre de 2009 a uma taxa anualizada de 3,5%. Em função do baixo vigor da recuperação do nível de atividade, ele defende que o juro efetivo deve ficar abaixo do juro de equilíbrio por um bom período, talvez até um ano. Para 2010, ele espera uma expansão do PIB de 3,5%.

O ex-presidente do BC diz que respeita o excelente trabalho que a equipe de Meirelles tem feito durante a crise. “O Brasil tem de usar políticas contracíclicas, porque está enfrentando uma crise de demanda. O BC reagiu baixando a taxa de juros, reduziu os compulsórios e criou o Fundo Garantidor de Crédito.” Com isso, diz ele, o crédito está voltando gradativamente. “Se a recessão do primeiro e segundo trimestres está se encerrando, isso se deve muito, se não quase exclusivamente, às políticas contracíclicas adotadas pelo BC.”

15/06/2009 - 10:22h Crise “amena” no Brasil é prova de estabilidade, diz pesquisadora

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Para a brasileira Marcelle Chauvet, da Universidade da Califórnia e relatora de comitê da FGV que avalia recessões, recuperação substancial vem no 2º semestre

DENYSE GODOY – FOLHA SP

DA REPORTAGEM LOCAL

Para a pesquisadora Marcelle Chauvet, o fato de o Brasil estar atravessando a atual crise mais suavemente do que outras nações é mais uma prova da sua estabilidade. Segundo os seus cálculos, a recuperação está em curso e já no segundo semestre o país pode voltar a crescer. Leia abaixo trechos da entrevista que ela concedeu à Folha por e-mail e por telefone da casa da sua família, em Brasília, na semana passada.
FOLHA – O Brasil entrou oficialmente em recessão no primeiro trimestre do ano. O que os índices já dizem sobre a economia do país no segundo trimestre?
MARCELLE CHAUVET – Os indicadores de atividade apontam para uma recuperação já a partir de março. Os dados de abril são ainda melhores, indicando uma recuperação econômica contínua. Essa retomada ainda é incipiente e relativamente frágil: precisa se sustentar nos próximos meses para definir o fim da recessão.

FOLHA – Quais os dados que mostram melhora e quais estão fracos?
CHAUVET
– Normalmente, o emprego é a variável que demora mais a indicar a recessão, pois as empresas tendem a segurar os seus funcionários tanto quanto possível. Reduzem a jornada, dão férias, para só depois demitir mesmo. Da mesma maneira, os empregos só serão retomados quando a expansão se estabilizar mais. Em março, esse é um dos índices mais fracos. Já nos dados relativos a produção e vendas da indústria, começa a haver uma recuperação.

FOLHA – É correto aplicar o termo recessão ao que aconteceu no Brasil? Quando os especialistas falam em recessão técnica e frisam o termo “técnica”, tem-se a impressão de que o fenômeno se encaixa na definição teórica sem ocupá-la com propriedade.
CHAUVET
- O conceito mais tradicional de recessão é aquele baseado na análise do NBER (National Bureau of Economic Research), dos EUA, desde os anos 1940. Por essa definição, recessão é uma queda generalizada e substancial de vários setores da economia por um período de pelo menos cinco a seis meses. Afeta não só a produção mas também a renda pessoal, o emprego, as vendas do comércio e da indústria. Usar o conceito de queda do PIB [Produto Interno Bruto] por dois trimestres é uma forma mais popular e acessível. Essa definição pode ser problemática porque não reflete diretamente as condições do mercado de trabalho e também não incorpora nuances importantes da volatilidade econômica durante períodos recessivos. Por exemplo, suponha que a economia estivesse apresentando um crescimento forte, de 5%, e um choque interno ou externo fizesse com que a atividade recuasse 3% em um trimestre e avançasse 0,1% no seguinte. O conceito simplificado não indicaria esse período como de recessão. No entanto, o emprego, a renda, os lucros, as vendas etc. podem ter caído substancialmente, e diversos setores e agentes teriam sido afetados. Pela definição do NBER, esse período seria de recessão.

FOLHA – Essa foi mais ou menos a situação do Brasil. Ainda assim, alguns setores não experimentaram toda essa contração.
CHAUVET
– As quedas mais bruscas se deram no setor industrial, então as pessoas próximas a ele, tanto empregadores como empregados, perceberam. Quem não sentiu foi o setor de serviços. Porém a desaceleração atingiu profundamente o país. As recessões enfrentadas pelo Brasil na última década foram muito curtas, bateram e foram embora muito rápido, não chegaram a afetar demais o emprego. Isso mostra que a economia do país está realmente mais estabilizada.

FOLHA – Quanto tempo vai levar para que o Brasil volte a crescer?
CHAUVET
– Se não houver outro choque externo significativo, a economia brasileira deve se recuperar substancialmente neste ano já a partir do segundo semestre. A queda da produção no último trimestre de 2008 foi brusca, porém os modelos indicam que essa queda foi temporária e que já está havendo uma recuperação. O Brasil entrou em recessão bem depois dos EUA e deve sair dessa antes.

FOLHA – E as previsões de que a recessão nos EUA vai passar entre o final deste ano e começo do próximo são factíveis, pelo modelo?
CHAUVET
- Sim, as probabilidades de recessão para os EUA vêm caindo lenta mas continuamente. No entanto janeiro e fevereiro foram meses muito ruins ainda, com probabilidades de recessão por volta de 90%. A economia americana começou a mostrar sinais de recuperação a partir de março e os dados de abril confirmam isso. A economia americana pode sair da recessão já no terceiro trimestre deste ano. O modelo apresenta probabilidades inferiores a 50% no outono [do hemisfério Norte].
O fim da recessão, o vale, na verdade representa o fundo do poço e um movimento ascendente das séries. Os economistas dizem que a recuperação vai ser lenta, mas ainda não é possível saber. A renda dos consumidores não caiu tanto, e pode ser que em certo momento eles não tenham conseguido comprar porque não havia produtos -com medo, os comerciantes reduziram drasticamente seus estoques. Quando a produção volta ao normal, se as pessoas estão com dinheiro e não muito temerosas em relação ao futuro, a tendência é que voltem a gastar.

11/06/2009 - 13:51h A atual política anticrise do governo Lula está dando certo e a recessão começa a passar


A recessão começa a passar no mundo

Alberto Tamer* – O Estado SP

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Já existe um consenso entre os economistas e instituições internacionais: a recessão deve terminar neste ano e a recuperação se iniciará em 2010. Mas será uma recuperação lenta e desigual, maior nos EUA e nos países emergentes e irrisória na Europa. Até mesmo um economista sempre severo em suas análises, como Paul Krugman, afirmou nesta semana que a recessão nos EUA deve terminar no segundo semestre. O crescimento do PIB deve fechar o ano em torno de 0%. Pouco interessa se for um pouco mais ou menos, o importante são os sinais de que a economia americana e grande parte da mundial deixou de afundar.Não se devem repetir PIBs de 6%. A confirmar-se isso, teremos passado por uma recessão profunda, mas curta. Ou, podemos dizer, uma recessão grande, mas não uma grande recessão.

BRASIL NA LINHA DE FRENTE

brasil_olho.jpgO resultado menos negativo do PIB no primeiro trimestre mostra que isso é ainda mais válido no Brasil. Previa-se uma retração de até 2% e foi de 0,8%. Tendo em vista a queda de 3,6% no último trimestre de 2008, é difícil ver algum crescimento significativo nos próximos meses, mas está claro que estamos saindo da recessão. Insisto, porém, em reafirmar que não há muita diferença entre recuar 1% ou crescer 1%; ambos resultados significam uma economia frágil,ainda exposta a crises externas, o que exige do governo intensificar a atual política anticrise, que está dando certo. É a ela que devemos esse desempenho menos negativo do PIB e à perspectiva de que estamos em condições de superar tudo ainda neste ano.

Vejam, somente as medidas de estímulo ao consumo estão injetando na economia cerca de R$ 100 bilhões neste ano. E, mais acertadamente ainda, o governo anuncia que estuda redução do imposto sobre salários para aumentar o poder de compra do consumidor.

NEM TUDO É MENOS MAU

minhacasa1.jpgO resultado do IBGE apresenta pontos altamente negativos, como a queda de 12,6% nos investimentos, a forte e resistente retração da produção industrial e o recuo das exportações. Isso certamente vai afetar o crescimento nos próximos meses.

Cabe ao governo insistir em três pontos básicos: intensificar as medidas de incentivo ao consumo, pôr em pratica uma política de comércio exterior por meio de impostos sobre a produção e incentivos diretos às exportações; e, finalmente, continuar estimulando o setor de construção civil, grande gerador de demanda de emprego. Cumpre, assim, a meta social, de oferecer casa à população, e econômica, de reativar o crescimento. Felizmente, já vem fazendo uma boa parte disso.

DÁ PARA CONFIAR NELES?

dinheirocorrendo.gifMas, de qualquer forma, continuamos na dependência do que vier a acontecer lá fora. Será que as economias desenvolvidas e outras emergentes, que representam a maior parte do PIB mundial, não vão desandar novamente, impedindo que voltemos a crescer?

Pode ser, mas, pelo menos no momento não parece muito provável, principalmente em países que têm hoje um papel decisivo na recuperação mundial, como os EUA e a China.

E o que estamos vendo? Nos EUA, dez grandes bancos devolveram ao Tesouro US$ 68 bilhões recebidos em momento de extrema urgência. E insinuam que é só o começo. Levantaram recursos no mercado, até mesmo vendendo ativos, para livrar-se da fiscalização direta e da intervenção do governo em suas atividades e decisões. Mas o Tesouro mostrou que continua vigilante: só aceitou o pagamento depois de analisar as contas e ver se não iria enfraquecê-los, expondo-os a novos problemas. Não quer que comece tudo de novo… Assim, até ontem recusavam receber devoluções de grandes bancos. Entre estes, o Citi e o Bank of American, que pretendia repagar US$ 90 bilhões. O fato de o sistema financeiro começar a buscar soluções de mercado é um indício de mudança em relação ao pânico de há alguns meses.

OBAMA CAUTELOSO

obama_caricatura.gifO presidente americano, a cuja política anticrise devemos tudo isso, mostrou-se cauteloso diante desses fatos. “Não é sinal de que nossos problemas passaram. Muito longe disso. A crise que esta administração herdou ainda está criando efeitos dolorosos nas empresas e nas famílias. Mas é um sinal positivo.”

Foi esse também o tom do seu secretário do Tesouro, para quem há ainda um longo e difícil caminho pela frente. Haverá avanços e recuos, mas o caminho de saída está sendo aberto.

VEJAM OS NÚMEROS!

A coluna concorda, e aproveita para responder a leitores que nos criticam por estarmos sendo otimistas demais. Não. Estamos apenas confrontando situações de há algumas semanas com a atual e registrando os sinais não para o futuro distante, mas para os próximos meses, a curto prazo. Para mim, isso é realismo, é não se deixar impressionar e influenciar por fatores altamente negativos do passado, desde que eles não estejam se repetindo no presente. Bastam duas estatística do IBGE: o PIB do último trimestre de 2008 despencou catastróficos 3,6% e no primeiro trimestre deste ano apenas 0,8%. Será que isso não significa nada? Não é sinal de recuperação? Não há como negar.

No cenário externo, a economia americana recua menos e a da China – o grande mercado – não deverá crescer neste ano apenas 5%, como o governo previa, mas 7,5%, pela estimativa oficial divulgada ontem. Estão injetando trilhões na economia. Ambos são nossos mercados preferenciais e projetam um cenário de relativa esperança.

Só resta a Europa, o “Continente Perdido”, onde o BC recusa-se a baixar o juro mesmo com inflação 0. Mas isso não afetará nosso crescimento. Ele vai depender ainda por algum tempo do mercado interno, que hoje representa 60% do PIB. Ele vai bem. E o governo tem ainda espaço para continuar intensificando a política anticíclica de incentivo ao consumo.

*E-mail: at@attglobal.net