07/12/2008 - 10:19h Governo PSDB: Verba secreta comprou fuzis e CDs

Especialistas apontam vício orçamentário e falta de licitação

Marcelo Godoy - O Estado SP

http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/images/20060309-dupla.jpgO dinheiro para operações policiais reservadas foi usado para finalidades que não eram sigilosas nem operacionais. Esse seria o caso da compra de equipamentos para o Grupo de Ações Táticas Especiais (Gate), de fuzis para o Departamento de Investigações sobre o Crime Organizado (Deic) sem licitação e até de CDs para divulgar dados de criminalidade. Quem afirma que o dinheiro foi gasto com esses equipamentos é Elaine Ramos Mansano, ex-assessora especial do secretário Saulo Abreu, entrevistada duas vezes pela reportagem.

Quatro professores de Direito ouvidos pelo Estado (Adilson Dallari, Maria Sylvia Zanella Di Pietro, Floriano de Azevedo Marques e Edson Cosac Bortolai) disseram que o uso dessa verba para a compra de materiais que não eram sigilosos nem para operações policiais “é uma irregularidade, um vício na execução orçamentária”. Eles afirmaram que era preciso efetuar a compra por meio de licitação. Elaine, ex-assessora de Saulo, contou, por exemplo, que oficiais da PM teriam comparecido a uma feira de equipamentos de segurança em novembro de 2002, em São Paulo. Entusiasmados com um robô desativador de bombas e a maleta de negociação com microcâmera para crises com reféns (como a que poderia ter sido usada no caso Eloá), os oficiais fizeram o pedido ao gabinete.

“O Luiz Hélio (da Silva Franco, chefe de gabinete na gestão Saulo, de 2002 a 2006) comprou. Era lá, estava na feira. Era comprar ou não. Essas coisas eram para pagar com dinheiro mesmo porque se você pagar com cheque você está comprovando e deixa de ser sigilo.” O dinheiro vivo serviu para o Gate “fazer os testes”. O material foi comprado e exibido à imprensa em 26 de fevereiro de 2003.

O Estado teve acesso a cópias desse tipo de cheque para retirada de dinheiro vivo. Os saques foram feitos em duas contas correntes da Nossa Caixa: números 13-001143-1, agência 0847 (Avenida Angélica, 2.310), e a 13-000485-6, da agência 0935 (Rua da Quitanda, 78/80). As contas estavam em nome da secretaria e dos ordenadores de despesas nomeados por Luiz Hélio, o então chefe de gabinete. O de número 000718 da conta 13-001143- 1 tem o valor de R$ 25 mil.

Quem efetuava os saques era um auxiliar de gabinete, em nome de quem eram feitos os cheques. Trata-se de Carlos Jorge Santana, o Jorginho. Ele também fez isso nos primeiros 15 meses da gestão de Ronaldo Marzagão, quando o chefe de gabinete era Tadeu Sérgio Pinto de Carvalho.

A mesma verba de operações teria abastecido a Coordenadoria de Análise e Planejamento (CAP) com CDs para a gravação de dados de criminalidade distribuídos à imprensa. “Na verdade não é correto isso aí, porque a verba é de operação, mas como o assunto é correlato e era pouco valor, a gente fazia isso”, disse Elaine. No caso dos fuzis, ela conta que o então diretor do Deic, delegado Godofredo Bittencourt, queria adquirir “um ou dois fuzis” que, diz ela, seriam usados “em uma operação”.

O delegado teria tentado fazer uma licitação internacional, como a que o Gate fez recentemente para adquirir equipamentos da empresa Berkana. “Mas ele (Bittencourt) não conseguiu e aí o Luiz Hélio deu o dinheiro e ele comprou”, diz ela. O dinheiro foi sacado da verba de operações, e a compra, segundo a ex-assessora especial, foi feita. “Para a Polícia Civil, algumas vezes a gente comprou armamentos. Esporadicamente.” Ela disse que algumas dessas armas eram de calibres diferentes dos usados pela polícia para operações sigilosas.

Elaine ainda justificou os gastos com a verba de operações policiais dizendo que era usada para cobrir despesas com a escolta de juízes e personalidades ameaçadas. “Outra coisa que tinha muito era proteção ou escolta de juiz. Eles pediam aos montes. E você não vai usar dinheiro da rotina da polícia para isso, né? Então a gente fazia isso para pagar hotel, almoço dos policiais.”

13/11/2008 - 15:18h Perícia: Eloá levou tiros no momento da invasão

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Resultado contraria versão da polícia, de que só entrou em apartamento após ouvir disparo

O Globo

SÃO PAULO. O Instituto de Criminalística de Santo André, no ABC, concluiu que os dois tiros que mataram Eloá Cristina Pimentel foram dados no momento em que a PM invadiu o apartamento onde ela e Nayara Rodrigues eram mantidas reféns por Lindemberg Alves Fernandes. Eloá morreu ao ser atingida na cabeça e na virilha, em 17 de outubro, após ser mantida refém por mais de cem horas pelo ex-namorado.

O resultado da perícia confirma o depoimento de Nayara, que afirmou não ter ocorrido tiro antes de a polícia invadir.

O coronel Eduardo José Félix, que comandou a operação, garantiu que a polícia só invadiu porque teria ouvido tiros momentos antes.

A arma apreendida com Lindemberg tinha quatro cartuchos deflagrados. Segundo a perícia, três dos disparos foram efetuados no momento da invasão.

Dois atingiram Eloá, o outro, Nayara. O quarto disparo teria ocorrido em outro momento.

Em depoimento, Nayara disse que, cerca de duas horas antes da invasão, Lindemberg atirou para o teto. Um quinto tiro chegou a ser feito, mas picotou, porque a munição era velha.

O diretor do Instituto de Criminalística de Santo André, Nelson Gonçalves, explica que os dois tiros atingiram Eloá no mesmo ângulo, de cima para baixo, o que indica terem sido disparados na mesma hora.

23/10/2008 - 07:56h ”Não houve tiro antes da invasão”


Nayara nega versão da polícia e de vizinhos de que ação só ocorreu após disparo; para coronel, tiro ”não era primordial”

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Eloá e Nayara

Bruno Tavares, Diego Zanchetta e Josmar Jozino - O Estado de São Paulo

Em seu primeiro depoimento após o assassinato de Eloá Cristina Pimentel, Nayara, de 15 anos, revelou ontem que ela e a amiga só foram baleadas por Lindemberg Alves, de 22, depois que policiais do Grupo de Ações Táticas Especiais (Gate) detonaram os explosivos colados na porta do apartamento. O relato da adolescente diverge da versão apresentada pelo comando da Polícia Militar, de que a invasão só ocorreu porque o Gate ouviu um tiro vindo de dentro do cativeiro.

Segundo o delegado seccional de Santo André, Luís Carlos dos Santos, Nayara afirma “taxativamente” que os disparos só ocorreram depois da explosão. “O Lindemberg, segundo a versão da Nayara, não deu nenhum tiro por volta das 18 horas. Ela (que estava em um colchonete no chão, do lado direito da amiga Eloá), relatou que ouviu uma explosão, teve um susto, ouviu dois tiros e depois não se lembra de mais nada”, disse o seccional. “Teria ocorrido um disparo anterior, por volta das 15 ou 16 horas, para o alto, num ato de nervosismo (de Alves). Em seguida a Eloá teve uma crise nervosa e ele a controlou, segundo Nayara.”

O delegado frisou que o inquérito ainda está na fase de recolhimento de provas e outras duas testemunhas, vizinhos do apartamento, foram ouvidas anteontem à tarde no 6º Distrito Policial e relataram “um estampido”, como de um tiro, por volta das 18 horas. As versões conflitantes agora deverão passar pelo crivo do Instituto de Criminalística (IC), que já periciou o apartamento no Conjunto Habitacional do Jardim Santo André. Imagens das emissoras de TV já foram requisitadas e também serão analisadas.

Embora o depoimento de Nayara não altere a apuração sobre o assassinato de Eloá - a polícia não tem mais dúvidas de que os tiros partiram do revólver de Alves -, ajudou a engrossar as críticas à operação da PM. O coronel Eliseu Teixeira, responsável pelo Inquérito Policial-Militar (IPM), que apura a conduta dos homens do Gate, tentou minimizar o fato de as versões da polícia e de Nayara serem conflitantes. “O disparo não era primordial para a invasão ou não do Gate”, argumentou. “Havia risco iminente de morte das vítimas e os policiais estavam ali há mais de 100 horas tentando justamente protegê-las.”

Uma hora depois da entrevista concedida no Centro Hospitalar Municipal de Santo André, onde Nayara foi ouvida por mais de quatro horas, o comandante do Comando de Policiamento de Choque (CPChoq), coronel Eduardo José Félix, convocou a imprensa para reiterar seu apoio à tropa. “O Gate tem a minha confiança, a da sociedade e a do governo”, reafirmou. Questionado se Nayara havia mentido em seu depoimento, o oficial afirmou: “Respeito as declarações dela, mas se trata de uma jovem de 15 anos, que pode estar confusa.” A PM também divulgou um vídeo em que uma suposta moradora relata ter ouvido um estampido antes da explosão.

Por volta das 20h30, Nayara apareceu pela primeira vez, depois de ser libertada do mais longo cárcere privado da história de São Paulo, segurando um bicho de pelúcia. Ela deixou o hospital sem dar declarações.

20/10/2008 - 08:55h Mãe diz que não autorizou volta de Nayara

Em entrevista à Rede Globo, mãe disse ter ficado surpresa quando viu filha subir as escadas; declaração confirma o que pai havia dito

Corregedoria da Polícia Militar ainda vai apurar se condução da operação pelo Gate teve falha que possa ter colocado vidas em risco

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Eloá e Nayara

KLEBER TOMAZ - FOLHA SP

DA REPORTAGEM LOCAL

Andrea Rodrigues Araújo, mãe de Nayara Rodrigues da Silva, 15, disse ontem que não autorizou o retorno da filha ao apartamento onde ela havia sido mantida refém. A declaração foi dada à Rede Globo e confirma o que o pai já havia dito. “Fiquei surpresa quando ela passou pelas escadas”, disse a mãe que, no momento, estava com os policiais e acompanhava tudo pela TV.
No sábado, em entrevista coletiva, o coronel Eduardo José Félix, comandante do Batalhão de Choque da Polícia Militar de São Paulo, disse que a mãe havia autorizado que a menina entrasse no prédio para negociar com Lindemberg Fernandes Alves. Segundo ele, o combinado era que a menina e o irmão (amigo de Lindemberg) não entrassem no apartamento, parando a uma distância segura. “A mãe autorizou, e o grupo analisou. Até onde ela iria, não ia ter risco nenhum. O que ocorreu é que o irmão parou [antes de chegar à porta], e ela não”, disse.

Delegado

A Polícia Civil isentou o Gate (Grupo de Ações Táticas Especiais) da PM na morte de Eloá e concluiu que quem atirou nela e em Nayara, ambas com 15 anos, foi mesmo Lindemberg.
“Todos os disparos [com munição letal] ocorridos no apartamento foram feitos por Lindemberg. Apenas um disparo de calibre 12 de borracha foi feito pela PM”, afirmou o delegado-seccional de Santo André, Luiz Carlos dos Santos
Segundo ele, todos projéteis encontrados pela Polícia Técnico-Científica são compatíveis com o calibre 32, a arma usada por Lindemberg.
A Polícia Civil, no entanto, ainda não sabe dizer se o tiro que matou Eloá foi dado antes ou depois de a PM invadir.
A PM diz que explodiu a porta do imóvel e entrou apenas quando escutou o tiro. A perícia e a própria Nayara poderão esclarecer o fato. A menina só poderá prestar depoimento quando receber alta.
Jornalistas que estavam no local no momento da invasão- e alguns moradores que conversaram com a reportagem- dizem que só ouviram disparos após a derrubada da porta.

Homicídio doloso
“Nada indica que a tática usada pela PM tenha levado a menina à morte. São duas coisas distintas, o crime e a tática”, afirmou ontem o delegado-seccional de Santo André.
Segundo o delegado, após a invasão, os policiais militares do Gate só fizeram um disparo com bala de borracha em direção à Lindemberg e erraram.
Eloá levou dois tiros, na cabeça e na virilha, e Nayara, um, na boca. Foram retirados projéteis do abdômen de Eloá e do maxilar de Nayara.
Por conta da dúvida sobre quando a ordem dos fatos, a Polícia Civil apura, paralelamente, a ação da PM, apesar desse não ser o foco da sua investigação. Oficialmente, a Corregedoria da PM apura se negociação e invasão foram corretas. (…)

Leia mais no jornal Folha de São Paulo

19/10/2008 - 09:21h Especialistas apontam quatro falhas graves

“— O Grupo de Ações Táticas Especiais (Gate) trabalhou muito bem. Muitas vezes eles salvam vidas, mas era uma situação delicada porque envolvia o comportamento imprevisível de uma pessoa. Neste caso, inclusive, como soubemos, havia oscilações de depressão e raiva — disse o governador. — O Gate atuou segundo seu procedimento.
Ao perceber que havia ameaça de morte dos reféns, entraram no local para preservar a vida de quem estava lá.
Serra evitou comentar um dos pontos mais criticados da atuação da polícia: a volta de Nayara ao cativeiro 34 horas após ter sido libertada: — O coronel (Eduardo José Félix) deu uma explicação, que é a explicação que nós temos. E, quando ela (Nayara) sair do hospital, dará sua explicação.”(Diário de São Paulo)

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Eloá e Nayara

Exaustão de rapaz deveria ter sido aproveitada

O GLOBO

Especialistas em legislação, segurança e ações de resgate de reféns apontaram ao menos quatro falhas na operação do Grupo de Ações Táticas Especiais (Gate) que resultou na prisão de Lindemberg Alves, de 22 anos, e em ferimentos nas adolescentes Eloá Cristina Pimentel, ex-namorada do rapaz preso, e Nayara Vieira, no caso de reféns mais longo da história de São Paulo. Atingida na cabeça, Eloá está internada em estado grave.
Foram quase cem horas de seqüestro em Santo André, com três pessoas trancadas num apartamento, cercado 24 horas pela polícia. Para Leonardo Pantaleão, da Comissão de Direito Criminal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), o primeiro erro grave da polícia foi permitir a volta de Nayara à condição de refém: — Situação que não tem explicação, inusitada na História brasileira, que acaba colidindo com todas as normas vigentes. O Estatuto da Criança veda que todo adolescente seja colocado em situação de risco.
O coordenador do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (USP), Sérgio Adorno, reconhece as dificuldades de ação da polícia num caso como esse, mas estranha que em quatro dias não se tenha usado tecnologia para aproveitar um momento de relaxamento do seqüestrador: — Existem recursos técnicos de escuta através da parede.
Eu imagino que as pessoas dormiram, tanto as meninas como o seqüestrador.
Em algum momento, na exaustão, ele dormiu. Numa hora em que ele cai numa exaustão, talvez fosse o momento de intervenção.
Rodrigo Pimentel, ex-comandante do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) do Rio de Janeiro, disse que o grupo de policiais de São Paulo é o mais bem-sucedido do país em recuperação de reféns com vida, mas reconhece a gravidade desse tipo de seqüestro: — Existe uma tendência mundial a respeito do tomador de refém passional.
Ele não é economicamente motivado, é mentalmente perturbado. Ele é imprevisível.
Não se espera algo razoável ou lúcido de uma pessoa que esteja sofrendo de paixão ou amor. Os Estados Unidos sinalizam essa ocorrência de refém como a mais difícil de todas.

18/10/2008 - 08:17h Pai de Nayara foi expulso de QG de negociações

Ele garantiu não ter sido consultado quando a filha voltou ao cativeiro

Marcela Spinosa e José Dacauaziliquá - O Estado de São Paulo

O pai de Nayara, o metalúrgico Luciano Vieira da Silva, foi expulso na noite de anteontem da Central de Negociações da Polícia Militar, montada em uma escola estadual ao lado do conjunto habitacional onde a jovem Eloá era mantida refém pelo ex-namorado desde segunda-feira. Ele cobrava informações da filha. Estava nervoso. Parecia inconformado com a volta da menina ao cativeiro. Previu o pior. Sua filha foi atingida na operação de resgate, machucou a boca, sangrou, mas passava bem.

Silva chegou ontem ao local do seqüestro por volta do meio-dia. Ainda não havia obtido informações sobre a filha. Nayara foi feita refém por Lindembergue Alves juntamente com Eloá. Depois de 33 horas de terror, foi solta. Anteontem, porém, o Comando da Operação decidiu atender o pedido do seqüestrador e mandou Nayara de volta ao apartamento que servia de cárcere. A manobra foi chamada pela policia de “estratégia de negociação”.

A última informação que Luciano Vieira da Silva teve da filha foi dada às 23h30 de anteontem, quando discutiu com policiais militares porque queria conversar com o chefe do Grupo de Ações Táticas Especiais (Gate), que comandava as tratativas com Lindembergue Alves. Diante da recusa, o metalúrgico se revoltou. Disse que iria procurar seus direitos. Ainda segundo ele, um dos policiais do Gate o avisou para parar de reclamar e de gritar. Estava atrapalhando. Todos ficaram nervosos. “Foi quando ele me disse para eu procurar os meus direitos e me mandou embora.”

Expulso do local, Luciano Vieira da Silva foi escoltado por homens da Tropa de Choque até o cordão de isolamento. Juntou-se aos comuns. O avô da menina, José Vieira da Silva, de 61 anos, presenciou a história. Vieira chegou a chama a operação de “palhaçada”. “E a primeira vez que eu vejo uma pessoa que foi refém e acabou libertada do seqüestrador voltar ao cativeiro.”

POR CONTA PRÓPRIA

Ele garantiu que os negociadores não pediram autorização para mandar sua filha de volta. Soube somente por uma emissora de televisão que a menina retornaria ao apartamento da família de Eloá. O pai foi informado pelo Comando das Operações que Nayara não era considerada refém. O Secretário Geral do Conselho Estadual de Direitos Humanos (Condepe), Ariel de Castro Alves, avisou Vieira da Silva que sua filha não poderia ter voltado nem com sua autorização.

O comandante da operação alegou que Nayara decidiu voltar ao cativeiro por conta própria. A notícia não foi confirmada pelo seu pai, que ontem ainda buscava informações sobre o que ocorreu.

17/10/2008 - 23:25h Terminou em tragédia o seqüestro de Santo André (SP)

Blog de Josias

Secretário de Segurança: ‘É uma imensa infelicidade’

Polícia invade apartamento e duas reféns saem feridas

O secretário de Segurança de São Paulo, Ronaldo Marzagão, foi da euforia à consternação em questão de minutos.

“Vou dar a vocês uma boa notícia, em primeira mão: acabou o seqüestro de Santo André”, disse Marzagão a dois deputados federais que o visitaram nesta sexta (17).

Pouco depois, irrompeu na sala um assessor do secretário: “Tenho más notícias. Morreu a menina Eloá.”

Referia-se à ex-namorada de Lindemberg Fernandes Alves que, inconformado com o fim do namoro, a mantinha em cativeiro, junto com uma amiga.

“É uma infelicidade, uma imensa infelicidade”, lamuriou-se Marzagão. O secretário de Segurança foi, então, ao telefone.

Repassou a José Serra a informação que, se confirmada, injetará vexame num caso já marcado pela imperícia. “Me desculpe”, disse Marzagão ao governador.

Na seqüência, o secretário despediu-se das visitas e embarcou num helicóptero, rumo ao Palácio dos Bandeirantes.

A despeito, do comunicado de Marzagão a Serra, o governo paulista nega que a jovem, de 15 anos, tenha morrido. Está, na verdade, em estado gravíssimo. Mas viva.

O vaivém no gabinete do mandachuva da secretaria de Segurança de São Paulo foi testemunhado por dois deputados federais.

Raul Jungmann (PPS-PE) e Willian Woo (PSDB-SP), membros da Comissão de Segurança Pública da Câmara, tiraram a sexta-feira para se informar sobre a greve dos policiais civis paulistas.

Por isso foram a Marzagão, depois de se reunir com o comando dos grevistas. Enquanto conversavam, a polícia invadia o apartamento de Santo André.

Terminava o drama de um cativeiro de cerca de cem horas. E começava o drama da gestão Serra, às voltas agora um dos mais vistosos vexames da crônica policial de São Paulo.

Escrito por Josias de Souza

17/10/2008 - 12:19h Polícia devolve refém menor de idade a sequestrador

Especialistas condenam volta de refém à casa

Para ex-comandantes, ação foi “erro grosseiríssimo” e “pouco responsável”

Jovem é mantida refém desde o começo da tarde de segunda-feira em Santo André
Werther Santana/AE

Edison Veiga - O Estado SP

Eram 9 horas da manhã de ontem quando Nayara, de 15 anos, voltou ao apartamento onde sua amiga Eloá é mantida em cárcere privado desde segunda-feira. Nayara havia sido liberada na terça-feira. A polícia teria acatado uma exigência do seqüestrador e permitiu o retorno da adolescente. “Foi um erro grosseiríssimo”, afirma o coronel da reserva José Vicente da Silva, diretor do Instituto Pró-Polícia e ex-secretário Nacional de Segurança Pública. “Colocar mais um inocente em risco é a última coisa que poderia ser feita.”

Ele não foi o único a condenar a concessão feita pelo Grupo de Ações Táticas Especiais (Gate) da Polícia Militar. “Não entendi como permitiram a volta de uma refém menor de idade ao ambiente de risco”, diz o capitão da reserva Rodrigo Pimentel, ex-comandante do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) da PM do Rio e co-autor do livro Elite da Tropa - que deu origem ao filme Tropa de Elite. “Foi uma decisão pouco responsável.”

Policiais que já atuaram no Gate e hoje ocupam outros postos também criticaram a maneira como o processo vem sendo conduzido. “No processo de negociação é preciso haver alguns limites”, defende um deles. “É inadmissível colocar a vida de alguém em risco. E, pior ainda, menor de idade.” Como o comando da PM não autorizou que ninguém se manifestasse antes do fim do caso, eles pediram para não ter seus nomes revelados.

HISTÓRIA E PROCEDIMENTOS

Inspirado nas polícias especializadas norte-americanas, o Gate foi criado em 1988. É uma tropa da PM acionada em ocorrências que exigem treinamento específico e equipamentos especiais. Seus policiais são chamados para atuar em ações de combate ao terrorismo, em operações com explosivos, rebeliões em presídios e ações com criminosos armados em locais de difícil acesso ou com reféns.

Comandados pelo capitão Adriano Giovaninni, os cerca de 70 integrantes da tropa têm sua base no bairro de Vila Maria, na zona norte da capital. São requisitados para casos complexos. Operacionalmente, dividem-se em três equipes. Em casos que levam dias, como o de Santo André, um grupo dá lugar a outro.

CAMINHO

É árduo o caminho para quem quer ingressar na “tropa de elite” paulista. Cerca de 200 policiais militares, todos os anos, candidatam-se, voluntariamente. Neste ano, apenas sete conseguiram passar por todas as fases. Os dois dias de testes de aptidão física - natação, corrida, séries de abdominais - já costumam eliminar 90% dos concorrentes. Os que passam dessa fase fazem um rígido curso de 35 dias, com simulações de situações limite com explosivos, reféns e outros obstáculos. Só então passam a fazer parte do efetivo da tropa.

Mas o aprendizado não termina aí. Cursos específicos são constantes. Alguns especializam-se em negociação - no caso de Santo André, quatro negociadores se revezavam -, outros em desarmar explosivos e há os atiradores de elite. Intercâmbios com polícias do exterior são constantes.

Pela “cartilha” do Gate, a invasão em caso de cárcere privado só ocorre em situações extremas. “Desde o começo da negociação, um policial faz o exame técnico do ambiente”, afirma o coronel José Vicente. Os policiais só entrarão em três situações: seqüestrador distraído (ou dormindo), acesso facilitado ou risco iminente para a vítima.

10/03/2008 - 09:38h A crise das Farc: making of de um artigo, por Luiz Felipe de Alencastro*

Crianças colombianas mobilizadas na ‘Guerra de los mil dias” (1899-1902)

O Estadão me convidou no começo da semana para escrever, para o caderno dominical Aliás, um artigo sobre as Farc e as tensões regionais geradas pelo ataque colombiano em solo equatoriano. Como a crise evoluía muito rapidamente, passei a semana coletando material. Mas só comecei a redigir o texto na sexta-feira de manhã (o deadline do jornal era às 18 horas, horário brasileiro): esperava não ser surpreendido por nenhuma novidade que desmontasse os argumentos desenvolvidos no texto.

Zapeando no meio da semana, vi na TV a cena em que Chávez decretava a mobilização de suas tropas. De camisa vermelha, falando no meio da multidão para um ministro da guerra parecido com aquele gordinho de óculos do programa Chaves, da SBT, Chávez, o outro, ordenava com voz tonitruante:“que se mande diez regimientos, que se despliegue la aviación militar!”. Entre um pistache e outro, pensei: «ou o cara ficou doido ou está brincando». Doido, Chávez não é: nunca interrompeu as exportações de petróleo venezuelano para os Estados Unidos. Por isso, comecei a redigir o artigo num enfoque de longo prazo que excluía a iminência de um conflito armado envolvendo a Colômbia, a Venezuela e o Equador. O fato de que Chávez, Uribe e Correa não tivessem desmarcado sua presença na reunião do Grupo do Rio em Santo Domingo, confirmava esta impressão. Mas o tom de muitos sítios de informação era:«There will be blood!». No final do dia, sexta-feira à noite, veio a notícia e as imagens: Chavez, Uribe e Correa estavam se abraçando em Santo Domingo. Tant mieux! Mas a imprensa brasileira traz hoje artigos que começaram a ser impressos antes do final da crise, imaginando que a guerra iria rebentar de uma hora para outra. Veja-se a capa da Veja.

A certa altura escrevi que a guerra com as Farc é o conflito mais antigo do mundo. O raciocínio teria ficado mais completo se tivesse inserido a frase que agora vai em itálico (incluo também a referência do estudo em que me baseio):

«Estudos especializados registraram um total de 229 conflitos armados em 148 países entre 1946 e 2003. No meio tempo, a grande maioria destas guerras cessou. Assim, excluídos os conflitos inter-étnicos oriundos de partições territoriais estabelecidas após 1945 (Palestina, Território Karen na Mianmar-Birmânia, Cachemira na Índia), a guerra do governo colombiano com as Farc, cujos combates começaram em 1966, configura o mais antigo dos conflitos mundiais[1].Considerando-se que tal fato ocorre num país independente desde 1819, a guerra civil colombiana apresenta-se como um caso único na história do mundo contemporâneo ».

[1]. Mikael Eriksson e Peter Wallensteen, « Armed Conflict 1989-2003 », Journal of Peace Research, v. 41 (5), 2004, pp. 625-636.

O artigo completo está aqui.

(more…)

05/03/2008 - 12:42h Uribe sabia de papel de Reyes, diz França

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Uribe (esquerda) sabia que Sarkozy (centro) negociava com Reyes (direita) a libertação de Ingrid Betancourt

Segundo Chancelaria francesa, Colômbia conhecia negociações internacionais com guerrilheiro para soltura de reféns

Declaração da França subsidia denúncia, feita por Correa, de que ataque no Equador frustrou trato para soltar 11 seqüestrados

DA REDAÇÃO - FOLHA DE SÃO PAULO

A Chancelaria da França declarou ontem que a Colômbia sabia que Paris mantinha contatos com Raúl Reyes, o segundo homem no comando das Farc, a fim de negociar a libertação de reféns mantidos pela guerrilha. Reyes foi um dos guerrilheiros mortos pelas Forças Armadas da Colômbia em incursão no território equatoriano no último sábado.
O chanceler da França, Bernard Kouchner, já havia lamentado anteontem a morte de Reyes, afirmando que ele era um dos contatos da diplomacia francesa com a guerrilha e que a ação colombiana dificultaria as tratativas para a eventual soltura de reféns.


“Tínhamos contatos com Raúl Reyes e os colombianos sabiam”
, disse ontem Pascale Andréani, porta-voz da Chancelaria da França. Embora tenha reiterado que a França considera as Farc um grupo terrorista, Andréani acrescentou que tais contatos integravam os esforços desempenhados não só por seu país, mas por Suíça e Espanha, na facilitação da troca de reféns das Farc por membros presos da guerrilha.
À agência de notícias France Presse, fontes diplomáticas da Espanha confirmaram que Raúl Reyes era o interlocutor com quem os três países europeus estavam conversando. Mas, segundo as mesmas fontes, não identificadas, o último contato se deu em junho de 2007, pois Bogotá “interrompeu o processo”.
Para retomar posteriormente esse processo de negociações, o próprio presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, foi à Europa em janeiro último a fim de pedir o envolvimento novamente de Espanha e Suíça, além da França, na tentativa da troca de reféns por prisioneiros. Sua intenção à época era esvaziar o papel de seu colega venezuelano, Hugo Chávez, nas negociações com a guerrilha.

Esforço frustrado

A declaração de Paris vai ao encontro de denúncia feita anteontem pelo presidente do Equador, Rafael Correa, em rede nacional de rádio e TV. Correa disse que a ação militar colombiana frustrou conversas em andamento para a libertação de 11 reféns das Farc, entre os quais Ingrid Betancourt, cidadã franco-colombiana cuja tentativa de liberação está na pauta do governo francês, do presidente Nicolas Sarkozy.
Em comunicado divulgado ontem, o comando das Farc afirma que Reyes estava negociando uma reunião com Sarkozy para tratar da soltura de reféns, entre os quais Betancourt. O presidente da França declarou na semana passada estar disposto a ir à fronteira entre Colômbia e Venezuela, se necessário, para libertar Betancourt -intenção essa que, segundo declaração ontem do Palácio do Eliseu, ainda está de pé.
Com agências internacionais