17/03/2009 - 10:52h EUA e Brasil em lua-de-mel, mas sem álcool

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Patrick Brock, The Wall Street Journal, de Nova York – VALOR

Numa reunião na Câmara de Comércio de Nova York, em 2 de novembro de 1863, o pastor James Cooley Fletcher se desdobrou para convencer os empresários locais sobre a importância de estreitar os laços com o Brasil, segundo registro de um jornal da época. Acompanhado dos diplomatas brasileiros Joaquim de Azambuja e Luis Fleury, que traziam uma elogiosa carta da Câmara de Comércio do Rio de Janeiro, Fletcher, um entusiasmado brasilianista, celebrava o início da primeira rota direta de vapores entre as duas principais cidades das jovens nações, Rio de Janeiro e Nova York.

Da pequena frota de vapores subsidiados pelos governos dos dois países, as relações comerciais entre o Brasil e os Estados Unidos evoluíram desde então para uma balança comercial de pouco mais US$ 53 bilhões em 2008, com saldo positivo de US$ 1,8 bilhão para o Brasil. O diálogo transnacional também passou para esferas muito mais altas e hoje o Brasil é considerado pelos EUA como um importante parceiro no desenvolvimento de relações multilaterais, dizem especialistas. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi apenas o terceiro chefe de Estado a ser recebido pelo presidente americano Barack Obama, e o primeiro da América Latina, em um encontro sábado na Casa Branca.

Não há nenhum Fletcher hoje pressionando o governo americano a melhorar o relacionamento com o Brasil, mas o momento atual é favorável, segundo vários especialistas. Embora ainda ocorram embates sobre questões comerciais, há boas perspectivas de cooperação em áreas como combate ao tráfico de drogas, mudanças climáticas e relações multilaterais. O governo Obama também tem sinalizado um posicionamento mais flexível em relação a Cuba, o que provavelmente agradaria o governo Lula. Além disso, o Brasil é visto como um país que desfruta de boas relações na América Latina de maneira geral, o que pode ajudá-lo a servir de ponte para um novo diálogo entre os EUA e a região, dizem os especialistas. Após uma reunião com Lula sábado, Obama disse que pretende usar o relacionamento com o Brasil para reforçar os laços com a América Latina.

É claro que a grandiosidade da crise econômica nos EUA e no mundo, e os conflitos no Iraque e no Afeganistão podem dificultar que o governo de Obama dê prioridade à América Latina em sua agenda internacional num futuro próximo, diz o cientista político Riordan Roett, da Universidade Johns Hopkins. “A atitude atual é benigna, mas a escalada da violência no México, fruto da guerra contra o narcotráfico, o policiamento da fronteira com esse país e os efeitos da queda nas remessas de imigrantes devem ganhar mais destaque na agenda do governo Obama” em se tratando de relações com a América Latina, diz Roett, que recebeu em 2000 a medalha da Ordem de Rio Branco das mãos de Fernando Henrique Cardoso.

O convite de Obama para Lula visitar Washington também é um bom sinal, diz Roett, para quem a cooperação entre os dois países no contexto atual é muito mais abrangente do que as questões bilaterais, especialmente com o papel preponderante do Brasil na construção de mecanismos multilaterais. “Se Obama quiser ativar a Rodada Doha, vai precisar do Brasil.” Brasil e EUA se reúnem novamente no início de abril, na conferência do G-20 em Londres, e em 17 de abril para a V Cúpula das Américas, em Port of Spain, Trinidad e Tobago.

Segundo Luiz Alberto Moniz Bandeira, professor aposentado de política exterior do Brasil da Universidade de Brasília, os dois países “não podem deixar de se considerar, (pois) são as duas maiores massas geográficas, demográficas e econômicas do continente”. Moniz aponta também a diminuição na importância dos EUA para as exportações brasileiras, que passaram a ser dominadas pela União Europeia e países emergentes. “O Brasil quer se aproximar dos EUA apenas na medida em que os EUA queiram se aproximar do Brasil”, diz Moniz.

Em entrevista coletiva em 25 de fevereiro, logo após se reunir em Washington com Hillary Clinton, o chanceler Celso Amorim disse que uma prioridade para reativar as negociações multilaterais para o comércio mundial é a confirmação pelo Congresso do indicado para o cargo de representante comercial dos EUA, Ron Kirk. A nomeação ainda está pendente, enquanto pesam sobre Kirk questões relativas a sua declaração de renda.

“O diálogo entre os dois governos realmente evoluiu nos últimos anos e acredito que o governo Obama continuará desenvolvendo isso”, diz Julia E. Sweig, diretora de estudos latino-americanos do Council on Foreign Relations, um centro de pesquisas que tem sede em Nova York e se descreve como não-partidário e independente. A política comercial entre os dois países, contudo, ainda “não foi bem resolvida”. Embora haja muito interesse no Brasil, diz Sweig, especialmente em relação às recentes descobertas petrolíferas e à indústria do etanol, a falta de conhecimento aprofundado sobre o país pode ser um obstáculo para as relações entre os dois países. “O pessoal da política exterior (do governo Obama) está preocupado com México, Cuba e, em terceiro lugar, o Brasil. Mas ainda existe um grande déficit de conhecimento sobre o Brasil e como dialogar com o país em meio à classe política em Washington”, diz.

Questões comerciais também se interpõem entre os dois países. Um dos pontos de debate é a tarifa de US$ 0,14 por litro de álcool combustível importado do Brasil nos EUA. Ela foi mantida na legislação agrícola aprovada em 2008 e está em vigor até o fim de 2010. A demanda por álcool combustível nos EUA vem crescendo, mas o país tem sua própria produção, à base de milho, e os produtores locais têm bastante influência em Washington.

“Barack Obama quer expandir a produção de energia renovável na América Latina de uma maneira que promova a auto-suficiência e crie mais mercados para fabricantes e produtores americanos de biocombustíveis”, diz o plano para a América Latina divulgado ano passado pelo então candidato. Obama reafirmou sua posição ao dizer após a reunião com Lula que o etanol é um “tema tenso” entre os dois países, que não vai mudar de um dia para o outro.

Joel Velasco, representante-chefe para a América do Norte da União da Indústria de Cana-de-Açúcar do Brasil (Unica), tem esperança de que políticos contrários à tarifação apresentem novas emendas que modifiquem a legislação agrícola. Velasco diz que os senadores e deputados das regiões costeiras tendem a apoiar a redução da tarifa, já que não produzem etanol e geralmente são obrigados a pagar mais caro pelo produto. Ele cita como favoráveis à redução da tarifa os senadores republicanos Richard Lugar e Judd Gregg.

Representantes dos senadores confirmaram que eles apoiam a redução da tarifa, mas disseram que no momento não há planos de introduzir nova legislação. Gregg chegou a apresentar em junho do ano passado um projeto de lei para reduzir a tarifa para US$ 0,12 por litro, sob o argumento de que a medida baixaria o preço da gasolina – na época o barril de petróleo estava acima de US$ 140, enquanto agora flutua na casa dos US$ 40. O projeto acabou morrendo no Congresso.

Gregg tinha sido indicado para ocupar a Secretaria de Comércio, um cargo que vem rendendo dor de cabeça a Obama, mas acabou desistindo sob a alegação de que havia “diferenças irresolúveis” com a política do novo presidente. O cargo em questão ainda está vago e Obama indicou recentemente o ex-governador do Estado de Washington Gary Locke, que aguarda confirmação.

16/03/2009 - 12:39h Pesquisa revela boa imagem do país

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VALOR

Ao contrário do que se poderia imaginar, deputados e senadores americanos evitam colocar no mesmo balaio Brasil, Argentina e Venezuela. O governo brasileiro não recebe dos parlamentares dos EUA rótulos como “esquerdista” ou “antiamericano”. E o temor que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva inspirou quando ganhou as eleições em 2002 é passado. Hoje, o ex-líder sindical é visto com simpatia pela nova legislatura, de maioria democrata.

Essa é uma das conclusões de pesquisa inédita sobre a imagem do Brasil no Congresso americano encomendada pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) a um escritório de lobby nos EUA. Os resultados surpreenderam positivamente a entidade, que quer aproveitar a boa imagem do país para defender os interesses da indústria brasileira. “Temos que intensificar o trabalho no Congresso americano porque o momento é positivo”, disse Mario Marconini, diretor de relações internacionais da Fiesp.

A pesquisa envolveu entrevistas qualitativas com os assessores dos líderes dos principais comitês da Câmara e do Senado e outros parlamentares influentes dos partidos Republicano e Democrata. A Fiesp contratou lobistas com experiência na área e passagem pelo USTR, órgão responsável pelas negociações internacionais nos EUA.

O estudo concluiu que os parlamentares americanos, na relação com o Brasil, estão focados na Rodada Doha, da Organização Mundial de Comércio (OMC). Temas como um eventual acordo bilateral com o país, com o Mercosul, ou mesmo a Área de Livre Comércio das Américas (Alca) ficam fora do radar. O Brasil é visto como um dos protagonistas da Rodada. E, nesse ponto, uma boa surpresa: ao contrário do mal-estar pós-Cancún, quando surgiu o G-20, o Brasil não é mais o vilão das negociações.

“Está claro para os americanos que a culpa do fracasso de Doha não foi do Brasil. A responsabilidade está em cima da Índia e, em um nível menor, da China”, avalia Marconini. Conforme a pesquisa, a mudança de posição do Brasil em julho de 2008, ao aceitar o pacote proposto pelo diretor-geral da OMC, Pascal Lamy, repercutiu bem no Congresso americano. O tema preocupava a indústria, porque as posições do Brasil em Doha já foram utilizadas como argumento para tentar excluir o Brasil do Sistema Geral de Preferência (SGP), que permite a entrada de alguns produtos com tarifa zero nos EUA.

Em dois temas sensíveis para o setor privado brasileiro – a tarifa cobrada para a importação de etanol no país e os subsídios concedidos ao produtor de algodão – o estudo apontou que “existe um mosaico de posições” no Congresso dos EUA. Ou seja, parlamentares a favor, outros contra e alguns que ainda não formaram posição. Marconini enxerga uma oportunidade, pois significa que há espaço para o lobby brasileiro procurar influenciar os deputados.

O ponto mais negativo da imagem do Brasil para os congressistas americanos é a devastação da Amazônia. Eles estão muito preocupados com a queima da floresta e seus efeitos para o aquecimento global e para as comunidades indígenas locais. Essa crítica serve como uma alerta para a indústria brasileira, mesmo do ponto de vista comercial. As empresas temem que questões ambientais sejam utilizadas como barreiras ao comércio exterior, por exemplo, com a cobrança de tarifas extras para a importação de produtos provenientes de países poluidores.

Para o diretor de energia da Fiesp, Carlos Cavalcanti, o Brasil precisa ganhar a batalha de marketing nesse assunto e convencer os EUA e o mundo de que produz energia limpa e que pode controlar o desmatamento da Amazônia. “Não podemos errar. Temos que nos desvincular de China e Índia, que possuem algumas das matrizes energéticas mais sujas do mundo”, disse. (RL)

13/03/2009 - 10:45h Comitê rejeita corte de subsídios nos EUA

Em mais um sinal de protecionismo do Congresso, foi recusada proposta de Obama de cortar ajuda a fazendeiros com renda anual acima de US$ 500 mil

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WASHINGTON – O Estado SP

O Comitê de Agricultura da Câmara dos Representantes dos EUA rejeitou por unanimidade o projeto do governo Barack Obama que previa um corte no subsídio dado aos produtores agrícolas. A proposta de eliminar os pagamentos diretos aos fazendeiros com faturamento anual superior a US$ 500 mil reduziria quase pela metade o programa de assistência aprovado no ano passado dentro da Farm Bill, a lei agrícola.

O Comitê argumentou que o programa só pode ser mudado na próxima Farm Bill, em 2012. “A legislação de 2012 estará aqui antes do que muitos imaginam. Quaisquer mudanças no programa de benefícios podem – e devem – esperar até lá”, disse o órgão.

O representante republicano no Comitê, Frank Lucas, apoiou o presidente, o democrata Collin Peterson. Para ele, a proposta que poderia economizar US$ 10 bilhões no programa de subsídios é “mal concebida” e “ridícula”. Pela Farm Bill 2008, o governo americano deve desembolsar, em cinco anos, US$ 26 bilhões com “pagamentos diretos” aos fazendeiros.

PROTECIONISMO

Congressistas americanos pediram ao Tesouro que impeça bancos resgatados pelo pacote financeiro de investirem em outros países, em mais um sinal do protecionismo crescente do Congresso. O deputado democrata Dennis Kucinich afirmou que os investimentos devem ficar nos EUA. “Enquanto é difícil conseguir um empréstimo neste país, está certo que um banco que recebeu dinheiro do Tesouro arrume um empréstimo de US$ 8 bilhões para o governo de Dubai?”, perguntou a Neel Kashkari, encarregado do plano de resgate do sistema financeiro (Tarp) no Tesouro.

Kucinich se referia ao empréstimo do Citigroup para o governo de Dubai e ao investimento de US$ 7 bilhões do Bank of America no China Construction Bank Company. Os dois bancos receberam recursos do pacote de resgate.

Kashkari rebateu que restringir empréstimos a outros países poderia gerar retaliação. “Se impedirmos nossas instituições de fazer negócios no exterior, outros países podem dizer: “OK, a recíproca é verdadeira, nós não vamos deixar bancos estrangeiros fazerem empréstimos na América.”

PATRÍCIA CAMPOS MELLO COM AGÊNCIAS INTERNACIONAIS

FRASES

Dennis Kucinich
Deputado democrata

“Enquanto é difícil conseguir empréstimo, está certo um banco que recebeu dinheiro do Tesouro emprestar US$ 8 bilhões para o governo de Dubai?”

Neel Kashkari
Encarregado do Tarf

“Se impedirmos nossos bancos de fazer negócios fora, outros países podem dizer: ?OK, a recíproca é verdadeira”

01/03/2009 - 11:59h Obama põe educação no topo de agenda e planeja reforma

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Presidente pretende triplicar verba do setor para US$ 150 bi, mudar políticas de Bush e diminuir índice de abandono

Pilares são a educação de crianças menores, melhora das escolas públicas e maior acesso ao ensino superior

ANDREA MURTA DE NOVA YORK – FOLHA SP

Em sua ambiciosa proposta de gastos públicos, o presidente Barack Obama quer dar à educação nos EUA quase US$ 150 bilhões em gastos discricionários já no primeiro ano de governo. É um aumento de mais de 200% em relação ao que George W. Bush pediu ao chegar ao poder. Mas a revolução prometida por Obama vai além da verba e sacode primordialmente as políticas para o setor.
“Meu Orçamento apoia um investimento histórico em educação (…) ao equilibrar novos fundos com novas reformas”, afirmou o novo presidente ao Congresso na última quinta.
Da verba sugerida, US$ 46,7 bilhões são em gastos discricionários do Orçamento para o departamento. Outros US$ 100 bilhões vêm do pacote de estímulo da economia, aprovado separadamente pelos legisladores, e já estão nos cofres do órgão. E a conta não inclui gastos hoje discricionários mas que o novo governo quer tornar obrigatórios, como bolsas para estudantes universitários de baixa renda.
A proposta de Obama destaca três pontos. O primeiro é investir na educação de crianças de 0 a 5 anos. O segundo é fortalecer e reformar escolas públicas ao ajudar Estados a desenvolver bons padrões de testes, melhorar métodos de ensino e recompensar bons professores. E o último é expandir oportunidades nas universidades por meio de empréstimos estudantis e cortes de impostos para baixar as mensalidades.

Bush

Mas propagar a intenção de transformar o ensino não é exclusividade do novo presidente. Em 2001, em seu primeiro discurso aos legisladores, Bush afirmara que “o maior aumento percentual de nosso Orçamento deve ir para a educação de nossas crianças. Educação é minha prioridade”. Em sua estreia, aliás, Bush dedicou muito mais tempo ao tema do que Obama. E remodelou já nos primeiros dias do mandato um programa abrangente, rebatizando-o de “Nenhuma Criança Ficará para Trás”.
O programa buscava mais ênfase em resultados de testes, mais liberdades para Estados e comunidades, uso de métodos educacionais “comprovados” e mais opções para os pais.
Algumas medidas foram quase unanimemente elogiadas, como a exigência de divulgação de resultados de minorias, o que revelou lacunas entre os grupos. Mas boa parte dos especialistas afirma que o resultado final foi negativo, com Estados relaxando testes de aferição por medo de fracassarem e serem penalizados ao receberem fundos do governo.
Oito anos depois, a imagem do programa é tão ruim que o novo secretário da Educação, Arne Duncan, quer mudar seu nome. Entre as sugestões irônicas aventadas na mídia estão “Nenhum Espertinho Ficará para Trás” e “Nenhuma Criança Ficará sem Teste”.
De toda forma, o acúmulo de esforços ineficazes resultou na continuidade de problemas no treinamento de professores, falta de padrões nacionais de prestação de contas, diferenças gritantes nos resultados de alunos por raça/grupo e perda de qualidade ante outros países desenvolvidos. Há ainda o que Obama chama de “crise de abandono da escola”, que afeta 22% dos estudantes hispânicos e 10,7% dos negros.
O presidente ainda precisará dobrar a resistência de republicanos e democratas mais conservadores na área fiscal para aprovar seu Orçamento. Esforço e oratória, no passado, não chegaram muito longe.

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Crise e maior papel federal são riscos em projeto

Escolas mostram medo em se submeter a avaliação

DE NOVA YORK

Além das dificuldades inerentes à ambição de reformar um sistema educacional, o presidente dos EUA, Barack Obama, contará neste ano com o peso extra da recessão.
Com a crise, só para manter a educação no nível atual, o governo vai gastar ao menos US$ 53,6 bilhões oriundos da lei de estímulo à economia para criar um fundo de estabilização fiscal para os Estados. É a parte mais gorda da lei de ajuda que vai para a educação. Sem ela, as escolas poderiam ser obrigadas a cortar 574 mil empregos, segundo estudo da Universidade de Washington.
Em meio a valores tão altos, críticos já temem que o Departamento da Educação não consiga destilar a verba adequadamente. Uma preocupação é que o dinheiro escoe para Estados que precisam menos, até porque estimar as necessidades é tarefa complicada.
“Como cada Estado estabelece seu próprio método de aferir aprendizado -e muitos deles são frouxos-, na verdade não sabemos comparar a qualidade do ensino pelo país”, afirmou à Folha Doug Harris, professor de políticas educacionais da Universidade do Wisconsin.
Ele diz que as propostas de Obama estão no caminho correto. Destaca a intenção de padronizar as medidas e ajudar mais as piores escolas, inclusive levando a elas alguns dos melhores professores.
Também elogia a ênfase na educação de 0 a 5 anos, fundamental para a capacidade de aprendizado futura.

Portas fechadas
Outro especialista, Thomas James, reitor da Faculdade de Educação da Universidade Columbia, apontou como “área nobre” das propostas de Obama a intenção de aumentar o papel do governo federal na educação.
Seria uma guinada. Hoje são Estados e municípios que criam escolas e faculdades, desenvolvem o currículo e determinam exigências para matrícula e graduação. Com as verbas, a linha é a mesma. De estimados US$ 1 trilhão gastos pelo país em educação entre 2007 e 2008, no máximo 12% foram federais.
Aumentar a participação do governo federal na educação, porém, é mexer em um vespeiro. George W. Bush evitou fazer isso. Mesmo assim, hoje as escolas costumam temer se expor a intervenções federais.
Esse medo ajuda a explicar porque as instituições se fecham à imprensa. A Folha contatou em dois dias mais de dez escolas de quatro cidades diferentes em Nova York e Nova Jersey, e nenhuma permitiu o acesso da reportagem. Entrevistas por telefone foram negadas. Solicitações a cinco profissionais dos departamentos da Educação dos dois Estados foram infrutíferos. Em Nova York, um membro do Departamento Estadual da Educação confirmou que “as escolas foram orientadas a não falar com repórteres”.
Mas Nova York e Nova Jersey estão longe de serem Estados de piores notas. Em uma das poucas provas de aferição padronizada do país, o NAEP, que mede o progresso dos alunos ano a ano em algumas escolas, Nova Jersey teve um dos melhores resultados de 2007. Nova York ficou na média. Os mais fracos foram Mississippi, Havaí, Nevada e Novo México.
Thomas James afirma porém que as maiores diferenças estão não entre Estados, mas entre subúrbios, grandes cidades e áreas rurais. Segundo ele,”os subúrbios pagam melhor e atraem os melhores professores”.
Em quatro anos, talvez o cenário seja ser outro. Isso se o plano de Obama for bem sucedido. E a crise permitir.

01/03/2009 - 11:09h Novo Orçamento americano enterra a era conservadora

Ideia central é reverter rápido crescimento da desigualdade iniciado nos anos 80 com Reagan

Com plano, Obama quer reescrever código tributário e tentar sanar parte das causas do desaquecimento da renda da classe média

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DAVID LEONHARDT DO “NEW YORK TIMES”, EM WASHINGTON – FOLHA SP

O Orçamento que Barack Obama propôs na última quinta aos EUA não é nada menos que uma tentativa de pôr fim a três décadas de política econômica dominada pelas ideias de Ronald Reagan e seguidores.

A proposta de Obama -uma mudança radical em relação à história recente- prevê forte elevação dos impostos sobre os ricos, para além do patamar para o qual Bill Clinton os elevara. E reduz os impostos sobre o resto da população para menos do que estavam sob Clinton e George W. Bush. O Orçamento ainda deita as bases para mudanças amplas na saúde e na educação, entre outras áreas.

Mais que qualquer outra coisa, a ideia é reverter o crescimento rápido da desigualdade econômica verificado nos últimos 30 anos. Isso deve ser feito, primeiro ao reescrever o código tributário e, no longo prazo, ao tentar resolver algumas das causas do desaquecimento da renda da classe média, como os altos custos médicos e a queda nos ganhos educacionais.

Depois de Obama ter passado boa parte de suas primeiras cinco semanas na Presidência tratando da crise financeira, seu Orçamento traz de volta para a mesa as prioridades nas quais ele baseou sua campanha.

Seus esforços vão aumentar um déficit já inchado pelas políticas de Bush e a recessão, criando o maior déficit desde a Segunda Guerra. Eliminá-lo vai exigir escolhas difíceis -como cortes extras de gastos e aumentos nos impostos- que Obama evitou tratar por ora.

Apesar disso, ele fez escolhas. Buscou eliminar subsídios corporativos que os economistas criticam há muito tempo, pagos a seguradoras de saúde, bancos e empresas agrícolas. Propôs taxar a emissão de carbono, para desacelerar o aquecimento global, e depois refinanciar a maior parte da receita obtida com esse programa, por meio de cortes amplos nos impostos.

Pediu cerca de US$ 100 bilhões por ano em aumentos dos tributos sobre os ricos -em sua maioria adiados até 2011, quando se presume que a recessão terá terminado- e US$ 50 bilhões por ano em cortes líquidos para os não-ricos.

Há ainda muitas perguntas em aberto sobre a proposta, a começar pelas chances de o Congresso aprová-las. Os planos para saúde e educação também esbarram em resistência, e, se a economia continuar fraca até 2010, os republicanos no Congresso vão tentar atribuir a culpa por isso ao aumento dos impostos para os ricos.

Aconteça o que acontecer, porém, faz muito tempo que nenhum presidente tentava usar seu Orçamento para moldar o governo e a economia tanto quanto Obama tentou. Nesse ponto, ele e Ronald Reagan têm algo em comum.

10/02/2009 - 13:18h O centro destrutivo

Paul Krugman, The New York Times* – O Estado SP

krugman.jpgComo você chamaria uma pessoa que elimina centenas de milhares de postos de trabalho americanos, priva milhões de pessoas de atendimento médico e nutrição adequados, prejudica os investimentos nas escolas, mas oferece uma bonificação de US$ 15 mil para pessoas em boa situação financeira que desejem vender seus imóveis? Um centrista orgulhoso. Pois é exatamente isso que fizeram os senadores que determinaram os parâmetros do pacote de estímulo.

Mesmo que o plano original do presidente Barack Obama – cerca de US$ 800 bilhões em estímulo, com uma fração substancial concedida sob a forma de ineficazes cortes de impostos – fosse aprovado, ele não seria suficiente para preencher o rombo cada vez maior na economia americana, o qual o Gabinete Orçamentário do Congresso já estima que totalizará US$ 2,9 trilhões nos próximos 3 anos.

E mesmo assim os centristas fizeram de tudo para tornar o plano ainda pior e mais fraco.

Uma das melhores características do plano original era a ajuda estendida aos governos estaduais sem dinheiro, que teria proporcionado um rápido impulso à economia preservando ao mesmo tempo os serviços essenciais. Mas os centristas insistiram num corte de US$ 40 bilhões justamente nos gastos dessa área.

O plano original também incluía gastos necessários com a construção de escolas; US$ 16 bilhões foram cortados dessas despesas. Incluía auxílio a desempregados, especialmente em relação ao atendimento médico – cortado. Cupons de alimentação – cortados. Ao todo, mais de US$ 80 bilhões foram cortados do plano, a maior parte recaindo precisamente sobre as medidas que teriam maior impacto na redução da profundidade desse declínio e da dor provocada por ele.

Por outro lado, os centristas aparentemente não viram problemas em uma das piores medidas previstas pelo pacote do Senado: um crédito fiscal para os compradores de imóveis. Dean Baker, do Centro de Pesquisas em Política Econômica, chamou a medida de lei “venda sua casa para o seu irmão”: custará muito dinheiro e nada fará para ajudar a economia.

No fim, caso a insistência dos centristas em confortar os confortáveis e afligir os aflitos seja refletida no pacote final, esse provocará um aumento significativo no desemprego e no sofrimento de todos.

Mas como isto aconteceu? Eu culpo a crença de Obama de que ele seria capaz de transcender as divisões partidárias – o que distorceu sua estratégia econômica. Afinal, muitos esperavam que ele apresentasse um plano de estímulo extremamente forte, refletindo ao mesmo tempo a gravidade dos problemas e o poder conferido a ele pelos eleitores.

Entretanto, em vez disso, ele apresentou um plano pequeno e dependente demais nos cortes de impostos. Por quê? Porque queria receber amplo apoio bipartidário. Não faz muito tempo que os estrategistas da administração falavam em conseguir 80 votos ou mais no Senado.

As aspirações pós-partidárias de Obama podem também explicar por que ele não fez algo de importância crucial: falar enfaticamente sobre como os gastos governamentais podem ajudar a economia. Em vez disso, ele deixou que os conservadores definissem os termos do debate, esperando até o fim da semana passada para finalmente dizer o que precisava ser dito – que o aumento nos gastos públicos é o objetivo central do pacote. E Obama não recebeu nada em troca da sua abertura ao bipartidarismo.

Nem um único republicano votou pela aprovação da versão do Congresso do plano de estímulo, que por sinal era melhor detalhada do que a proposta original da administração.

No Senado, os republicanos denunciaram as “medidas eleitoreiras” – mas os gastos supérfluos que eles disseram ter identificado (boa parte dos quais era absolutamente justificável) consistiam numa porção trivial do pacote todo. E eles desacreditaram o custo total do pacote – apesar de 36 dentre os 41 senadores republicanos terem votado pela substituição do plano de Obama por um corte de impostos de US$ 3 trilhões, isso mesmo, US$ 3 trilhões nos próximos 10 anos. Assim, Obama se viu reduzido a negociar pelos votos destes centristas.

E os centristas, como era de se esperar, exigiram consideráveis concessões – aparentemente, sem base em nenhum argumento econômico lógico, mas simplesmente para demonstrar o seu poder de barganha. Eles provavelmente teriam exigido um corte de cerca de US$ 100 bilhões da proposta de Obama, fosse ela qual fosse; ao fazer uma oferta inicial tão baixa, o presidente garantiu que o acordo final ficasse muito aquém do necessário.

São estes os perigos de negociar consigo mesmo.

Agora, negociadores da Câmara e do Senado precisam reconciliar suas versões do estímulo e é possível que o pacote final consiga reverter os piores feitos dos centristas. Quem sabe Obama consiga voltar para um segundo rounde. Mas essa foi a sua melhor chance de conseguir que fossem tomadas medidas decisivas e o seu resultado foi insuficiente.

Então, será que Obama aprendeu com esta experiência? Os primeiros indícios não são animadores.

Pois em vez de reconhecer o fracasso da sua estratégia política e os danos provocados na sua estratégia econômica, o presidente tentou dar ao episódio todo um verniz pós-partidário e otimista. “Democratas e republicanos se uniram no Senado e responderam apropriadamente às urgentes demandas do momento”, declarou ele no domingo, acrescentando, “as dimensões e a abrangência deste plano são adequadas”. Não, eles não se uniram e, não, o plano não é adequado.

*Paul Krugman é articulista

07/02/2009 - 11:08h À beira da catástrofe

Ce lundi, le 44e président doit tenir une conférence de presse destinée à présenter son équipe économique. (AFP)

Paul Krugman * – O Estado SP

krugman_paul.jpgUma coisa não muito engraçada ocorreu no caminho da recuperação econômica. Nas duas últimas semanas, o que deveria ter sido um debate extremamente sério sobre como salvar uma economia em situação desesperadora, se transformou num teatro político trivial com republicanos despejando todos os velhos clichês sobre gastos perdulários do governo e as maravilhas dos cortes de impostos.

É como se o pavoroso fracasso econômico dos últimos oito anos não houvesse acontecido – e, no entanto, por incrível que pareça, os democratas ficaram na defensiva. Mesmo que um grande pacote de estímulo seja aprovado no Senado, existe um risco concreto de que partes importantes do plano original, em especial a ajuda a governos estaduais e municipais, sejam amputadas.

De alguma maneira, Washington perdeu qualquer senso do que está em jogo – da realidade de que podemos perfeitamente estar caindo num abismo econômico, e que se o fizermos, será muito difícil sair dele.

É difícil exagerar o tamanho das dificuldades econômicas que enfrentamos. A crise começou no setor imobiliário, mas o estouro da bolha imobiliária da era Bush acionou a queda das pedras de dominó não apenas nos Estados Unidos, mas em todo o mundo.

Os consumidores, com a sua riqueza dizimada e seu otimismo abalado pelo colapso dos preços das moradias e um mercado acionário em queda, cortaram seus gastos e aumentaram fortemente sua poupança – uma boa coisa no longo prazo, mas um golpe enorme na economia neste momento. Os incorporadores de imóveis comerciais, observando a queda dos aluguéis e a escalada dos custos do financiamento, estão cortando seus planos de investimento. Empresas estão cancelando planos para expandir a capacidade por não estarem vendendo o suficiente para usar a capacidade de que dispõem. E as exportações, uma das poucas áreas fortes da economia americana no último par de anos, estão despencando agora na medida em que a crise financeira atinge nossos parceiros comerciais.

Enquanto isso, nossa linha principal de defesa contra recessões – a capacidade habitual do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) de amparar a economia cortando taxas de juros – já foi ultrapassada. O Fed cortou as taxas que controla basicamente a zero, mas a economia continua em queda livre.

Não é de surpreender, portanto, que a maioria das projeções econômicas advirtam que na falta de uma ação governamental estaremos a caminho de uma recessão profunda e prolongada. Alguns analistas privados preveem um desemprego de dois dígitos. O Escritório de Orçamento do Congresso está um pouco mais otimista, mas ainda assim seu diretor advertiu recentemente que “na falta de uma mudança na política fiscal… o déficit na produção nacional em relação aos níveis potenciais será o maior – em duração e profundidade – desde a Depressão dos anos 30″.

O pior de tudo é a possibilidade de que a economia se veja, como aconteceu nos anos 30, presa numa prolongada armadilha deflacionária.

Já estamos mais perto de uma deflação que em qualquer ponto desde a Grande Depressão. Em particular, o setor privado está experimentando cortes generalizados de salários pela primeira vez desde os anos 30, e haverá muito mais disso se a economia continuar se debilitando.

Como assinalou o grande economista americano Irving Fischer, há quase 80 anos, a deflação, uma vez iniciada, tende a se autoalimentar. À medida que as receitas em dólar caem em face de uma economia deprimida, o peso da dívida se torna mais difícil de suportar, enquanto a expectativa de novas quedas de preços desestimula os gastos com investimento. Esses efeitos de deflação deprimem ainda mais a economia, provocando mais deflação, e assim sucessivamente.

E armadilhas deflacionárias podem durar muito tempo. O Japão teve uma “década perdida” de deflação e estagnação nos anos 90 – e a única coisa que permitiu que o Japão escapasse de sua armadilha foi um boom global que intensificou as exportações do país.

Quem salvará os Estados Unidos de uma armadilha parecida agora que o mundo todo está em retração ao mesmo tempo? Será que o plano econômico de Obama, se aprovado, garantirá que os Estados Unidos não tenham sua década perdida?

Não necessariamente: alguns economistas, eu inclusive, acham que o plano é insuficiente e deveria ser substancialmente maior. Mas o plano de Obama certamente melhoraria nossa sorte. E é por isso que os esforços de republicanos para tornar o plano menor e menos eficaz – para transformá-lo em pouco mais que outra rodada de cortes de impostos ao estilo Bush – são tão destrutivos.

O que Barack Obama deveria fazer então? Eu me incluo entre os que acham que o presidente cometeu um grande erro em sua atitude inicial, de que suas tentativas de transcender o partidarismo terminaram fortalecendo políticos que recebem ordens de marcha de Rush Limbaugh. O que importa agora, porém, é o que ele fará em seguida.

Já é hora de o presidente Barack Obama partir para a ofensiva. Ele precisa, sobretudo, não se esquivar de assinalar que os que se colocam no caminho do seu plano em nome de uma filosofia econômica desacreditada, estão colocando em risco o futuro da nação. A economia americana está à beira da catástrofe, e boa parte do Partido Republicano está tentando empurrá-la por sobre essa beira.

*Paul Krugman é articulista

02/02/2009 - 10:13h Nacionalização pode virar realidade

ANÁLISE

Um “banco podre” poderia absorver os títulos tóxicos

http://www.bloomberg.com/apps/data?pid=avimage&iid=inAOZ2ZIZKuY

Por DAVID E. SANGER – The New York Times – Folha SP

WASHINGTON
Dias após o início do governo de Barack Obama nos EUA, membros da nova administração e líderes democratas no Congresso já estão às voltas com uma das questões mais politicamente delicadas sobre o socorro financeiro: o presidente está preparado para nacionalizar uma enorme parcela do sistema bancário do país?

Em conversas privadas, a maioria dos membros da equipe econômica de Obama admite que a rápida deterioração dos maiores bancos dos EUA, o Bank of America e o Citigroup, poderá exigir muito mais dinheiro dos contribuintes, além dos mais de US$ 300 milhões já despejados nessas duas instituições financeiras e em centenas de outras.

Mas se tantos bilhões de dólares em novos investimentos são necessários para aprumar esses bancos, e talvez seus concorrentes, o que os contribuintes receberão em troca? E como crescem os riscos na medida em que o papel do governo se expande de apenas alguns salvamentos ao controle de uma vasta porção do setor financeiro da maior economia do mundo? O governo Obama só está fazendo referências oblíquas a essas questões. Em uma recente entrevista em um programa político, a presidente da Câmara, Nancy Pelosi, se referiu a um debate interno quando foi perguntada se a nacionalização, ainda que parcial, dos maiores bancos era uma boa ideia.

“Podem dar o nome que quiserem”, disse Pelosi, democrata da Califórnia. “Se nós os reforçarmos, então a população americana deverá receber parte das vantagens desse reforço. Alguns chamam isso de nacionalização. Não estou falando em propriedade total”, ela logo advertiu —e se conteve fazendo uma pergunta: “Algum dia pensamos que poderíamos usar esse termo? ‘Nacionalizar bancos’?”

Até agora, os principais assessores de Obama evitaram completamente essa palavra e ainda discutem ativamente outras alternativas, incluindo a criação de um “banco podre”, que nacionalizaria os empréstimos em moratória, tirando-os das mãos das instituições financeiras, sem realmente assumir a propriedade dos bancos. Outros falam em uma nacionalização de fato, em que o governo tem uma participação considerável nos bancos, mas não majoritária, com tudo o que isso conota.

Isso já aconteceu; os contribuintes hoje são os maiores acionistas do Bank of America, com cerca de 6% das ações, e do Citigroup, com 7,8%. Mas a influência do governo é muito maior do que sugerem esses números, porque ele garantiu que vai absorver os prejuízos de alguns dos ativos mais tóxicos dos bancos, cifra que poderá chegar a centenas de bilhões de dólares. Muitos acreditam que essa forma de propriedade híbrida —parte governo, parte privada— não será factível. “A tese da nacionalização total está muito mais forte hoje do que alguns meses atrás”, disse Adam Posen, vice-diretor do Instituto Peterson de Economia Internacional, instituição de pesquisa independente. “Se você não tiver a maioria, não pode demitir a direção, derrotar acionistas, declarar que vai apenas assumir os prejuízos e recomeçar.”

Membros da equipe econômica de Obama —entre eles Timothy Geithner, secretário do Tesouro, e Lawrence Summers, principal assessor econômico do presidente— argumentaram, durante a crise financeira asiática dos anos 1990, que os governos são péssimos administradores de bancos.

Os riscos da nacionalização sobre os quais eles advertiram então se aplicam igualmente aos EUA hoje. O primeiro é que a nacionalização pode ser contagiante. Se o governo encampasse o Bank of America e o Citigroup, investidores privados poderiam decidir sair de instituições como JP Morgan Chase e Wells Fargo, ou outros grandes bancos, temendo que elas sejam as próximas.

Além disso, assessores de Obama dizem ter consciência de que, frente à percepção de que está dirigindo bancos, o governo poderá sofrer forte pressão política para impedir falências ou para emprestar dinheiro a projetos em dificuldades nos redutos com eleitorados poderosos.

Mas a nacionalização talvez seja a única maneira de tirar as grandes instituições financeiras da espiral descendente. Neste momento, muitos bancos relutam em cancelar suas dívidas ruins e absorver enormes prejuízos, a menos que possam primeiro levantar capital suficiente para amortecer o golpe. Só que eles não podem atrair esse capital sem antes purgar os ativos tóxicos de seus balanços.

A nacionalização poderia tirar os bancos do abismo, ao menos temporariamente. Mas alguns republicanos acusariam Obama de estar levando os EUA ao socialismo. Segundo Charles Geisst, historiador financeiro do Manhattan College em Nova York, nacionalização “simplesmente não é um termo do vocabulário americano”. “Pensamos nisso como algo que os estrangeiros fazem contra nós, e não que nós fazemos”, continuou.

Outra opção é o governo comprar os ativos mais tóxicos dos bancos por meio de um fundo gigante ou, mais provavelmente, um “banco podre”, com apoio federal, destinado a comprar investimentos problemáticos. O problema é que daí os contribuintes deteriam todos os piores ativos dos bancos.

Limpar os ativos ruins sem impor um alto preço para diretores, acionistas e credores é sobre o que Summers e Geithner advertiram durante a crise asiática.

“Dissemos aos asiáticos que precisavam se dispor a deixar bancos e empresas falirem”, disse Jeffrey Garten, professor na Escola de Administração de Yale e integrante do governo de Bill Clinton (1993-2001). “Avisamos-lhes de que havia um grande risco moral se os governos os socorressem. E hoje estamos fazendo exatamente o contrário do que aconselhamos.”

Colaborou Eric Dash, em Nova York

16/01/2009 - 12:04h Para Hillary, taxação a Brasil deve se manter

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Decisão de Barack Obama de prorrogar permanência no País do embaixador Clifford Sobel visaria à política de biocombustíveis

Patrícia Campos Mello, WASHINGTON – O Estado SP

A futura secretária de Estado americana, Hillary Clinton, deu sinais de que o governo de Barack Obama não será favorável à eliminação das tarifas de importação sobre o etanol brasileiro. Em perguntas enviadas pelo senador republicano Richard Lugar como parte do processo de confirmação de Hillary no cargo, a futura secretária afirmou ser “importante que a cooperação entre o Brasil e os EUA na área energética não prejudique os produtores americanos de biocombustíveis”.

“Queremos assegurar que a atual cooperação energética com o Brasil seja ambientalmente sustentável e espalhe os benefícios de energia alternativa na região, ao mesmo tempo em que amplie o mercado para produtores americanos de energia verde”, disse Hillary, segundo documento obtido pelo Estado. “Mas também é importante que os produtores americanos de biocombustíveis não sejam prejudicados pelos esforços para aumentar a cooperação Brasil-EUA”, disse a futura secretária de Estado.

Questionada por Lugar sobre a possibilidade de se estabelecer memorandos de entendimento sobre segurança alimentar, e posteriormente tratados de investimento e tributário com o Brasil, Hillary disse: “A atual relação Brasil-EUA nos dá uma base para uma relação mais aprofundada entre os dois países. Há uma série de questões em que esperamos trabalhar com nossos parceiros brasileiros para disseminar a governança democrática, oportunidade e segurança nas Américas. Eu gostaria de ter sua assessoria para identificar as áreas.”

O senador republicano perguntou a Hillary se o governo Obama pretende mudar sua política para a América Latina para melhorar o papel do país na região, já que os EUA vêm perdendo influência. “O presidente eleito deixou claro que após anos de pressão por reformas de cima para baixo, precisamos de uma agenda nas Américas que trabalhe para promover democracia, segurança e oportunidades de baixo para cima.” Hillary afirmou que algumas políticas do governo de George W. Bush para a região serão mantidas, mas adaptadas para “os desafios que estão surgindo”.

O jornal The Washington Post informou ontem que o presidente eleito prorrogou por um período ainda não definido a permanência do embaixador americano no Brasil, Clifford M. Sobel, diplomata ligado ao círculo de amigos do presidente Bush.

Mas o jornal não indicou as razões da decisão tomada por Obama. Aparentemente, a medida teria sido motivada, segundo o jornal, pelo desejo de que Sobel continue no posto em razão de suas boas relações com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com quem Obama espera trabalhar em um amplo plano de cooperação energética regional.

Ex-membro do comitê nacional do Partido Republicano, Sobel foi uma peça fundamental na busca por um entendimento de Lula com Bush na área de biocombustíveis. Em uma reunião realizada em Washington, há dois anos, tanto o presidente brasileiro quanto o americano concordaram em adotar um plano piloto de ajuda ao desenvolvimento de tecnologia em vários países.

DOADOR

Sobel, identificado pelo Washington Post como “um importante doador” para campanhas de Bush, foi também embaixador dos EUA na Holanda, antes de servir no Brasil. Geralmente, os embaixadores americanos permanecem por quatro anos em seus postos. Mas quando há uma eleição presidencial nos EUA, eles costumam renunciar antes da votação para facilitar a escolha de novos representantes diplomáticos.

Quando o novo presidente americano aceita a renúncia, o encarregado de negócios assume provisoriamente as funções até a designação de um novo embaixador. Sobel foi nomeado em 2006 e, teoricamente, teria mais dois anos servindo no Brasil.

10/01/2009 - 11:16h A lacuna de Obama

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Paul Krugman* – O Estado SP

“Não acredito que já seja tarde demais para mudar de rumo, mas, se não tomarmos medidas drásticas o quanto antes, isso não será mais possível. Se nada for feito, esta recessão pode durar anos.” Foi o que declarou o presidente eleito Barack Obama, na quinta-feira, explicando por que os Estados Unidos necessitam de uma resposta agressiva do governo contra o declínio econômico. Ele tem razão. Esta é a mais perigosa crise desde a Grande Depressão, e poderia facilmente se transformar num declínio prolongado.

Mas a receita de Obama não corresponde ao diagnóstico. O plano que ele está oferecendo não é tão forte quanto a linguagem empregada para descrever a ameaça econômica. Na verdade, fica muito aquém.

Levemos em consideração o tamanho da economia americana. Se houver demanda suficiente para sua capacidade produtiva, os Estados Unidos são capazes de produzir mais de US$ 30 trilhões em mercadorias e serviços nos próximos dois anos. Mas com o gasto do consumidor e o investimento das empresas em queda, abre-se uma lacuna entre aquilo que a economia americana é capaz de produzir e o que é capaz de vender. E o plano está longe de preencher essa “lacuna produtiva”.

Ainda esta semana, o Gabinete Orçamentário do Congresso publicou sua mais recente análise do panorama econômico e orçamentário. O gabinete afirma que, na ausência de um plano de estímulo, o desemprego superaria os 9% no início de 2010, e permaneceria alto durante anos.

Apesar de sombria, a projeção pode ser otimista, se comparada a algumas previsões independentes. O próprio Obama tem dito que, sem um plano de estímulo, a taxa de desemprego poderia chegar aos dois dígitos.

Entretanto, até o GOC diz que “a produção econômica estará, pelos próximos dois anos, em média 6,8% abaixo do seu potencial”. Isso corresponde a uma perda de US$ 2,1 trilhões na produção. “Nossa economia poderia ficar US$ 1 trilhão abaixo da sua capacidade total”, declarou Obama. Na verdade, ele estava atenuando a situação.

Para preencher uma lacuna de mais de US$ 2 trilhões – possivelmente muito mais, se as projeções do gabinete orçamentário se mostrarem excessivamente otimistas -, Obama oferece um plano de US$ 775 bilhões. E isso não é o suficiente.

Às vezes o estímulo fiscal pode ter um efeito “multiplicador”: além dos efeitos diretos de, por exemplo, um investimento na infraestrutura em demanda, pode haver um efeito indireto adicional conforme rendas maiores levarem a um maior gasto dos consumidores. Estimativas sugerem que cada dólar em gasto público aumenta o PIB em cerca de US$ 1,5.

Mas apenas cerca de 60% do plano é composto de gastos públicos. O restante são cortes de impostos – e muitos economistas estão céticos quanto seu impacto. O fato é que o plano não deve preencher mais do que metade da lacuna produtiva, e poderia fazer menos de um terço do necessário.

Por que Obama não está tentando fazer mais? Será que o plano é limitado por medo do endividamento? Há perigos associados com a contração de empréstimos do governo em larga escala – o relatório do GOC publicado esta semana projetou déficit de US$ 1,2 trilhão para este ano.

Mas pode ser ainda mais perigoso ficar aquém do esforço necessário para salvar a economia. O presidente eleito falou com precisão sobre as consequências da inação – existe um risco real de que escorreguemos para uma prolongada armadilha deflacionária -, mas as consequências da incapacidade de agir não são muito melhores.

Será que o plano é limitado por falta de oportunidades para gastar? Há apenas um pequeno número de projetos de investimento público prontos para a implementação. Mas há outras formas de gasto público que poderiam ser benéficas.

Ou será que o plano é limitado pela cautela política? Reportagens indicavam que os assessores de Obama estavam preocupados em manter o custo do plano abaixo da marca politicamente sensível de US$ 1 trilhão. Também foi sugerido que incluir grandes cortes de impostos para as empresas, que aumentam seu custo mas pouco ajudam a economia, seria uma tentativa de obter votos republicanos no Congresso.

Seja qual for a explicação, o plano não parece adequado às necessidades. É verdade que um terço é melhor do que nada. Mas, no momento, enfrentamos duas grandes lacunas econômicas: a lacuna entre o potencial da economia e o seu desempenho provável, e a lacuna entre a rigorosa retórica econômica de Obama e o seu plano um pouco desapontador….

*O autor é Prêmio Nobel de Economia

08/01/2009 - 11:56h Mundo confia em Obama, mas…

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Alberto Tamer* – O Estado SP

Há sinais de esperança e reina um clima de alívio no mercado internacional nestes primeiros dias do ano. Obama confirmou na terça-feira o seu plano ousado de investimentos de até US$ 800 bilhões. Destes, US$ 300 bilhões só em redução e devolução de impostos. Começa executá-lo assim que assumir e tiver a aprovação do Congresso. Não é mais hora de debater, falar ou discutir, mas de agir com extrema urgência. O mundo ouviu, espera ansioso e vê sua esperança ganhar corpo de realidade.

SEM ACADEMICISMO

Os pronunciamentos de Obama nesta semana mostram que sua equipe e ele rejeitaram definitivamente a proposta de usar a política monetária, juros e injeção de liquidez, para combater a recessão. Paul Krugman, em mais um artigo excelente publicado ontem no Estado, mostra que essa política fracassou (Ver aqui Combatendo a depressão). O Tesouro está inundando o mercado com dólares, o Fed baixou o juro real a zero, os bancos e as instituições financeiras foram abastecidas com vários trilhões de dólares, mas nada disso adiantou até agora. A recessão apenas se aprofunda e ameaça transformar-se em depressão.

Hoje, Paulson e Bernanke reconhecem que erraram ao se concentrar apenas no socorro ao sistema financeiro. O fato é que os números econômicos recentes são assustadores, não apenas nos Estados Unidos, mas em todo o mundo, afirma Krugman. Os bancos não estão emprestando, as empresas e os consumidores não estão gastando. “Não vamos medir palavras: isso se parece muito com o início da 2ª Grande Depressão.” E Krugman é o Prêmio Nobel de Economia deste ano.

É preciso voltar a Keynes. Para ele, a política monetária é ineficaz na depressão. Só a política fiscal – gastos deficitários do governo em grande escala -, pode combater o desemprego em massa, lembra Krugman.

OBAMA ACERTOU

E é exatamente isso o que Obama está fazendo. Na terça-feira, ele admitiu que os Estados Unidos poderão ter déficit orçamentário de US$ 1 trilhão não só em 2009. Não será nada trágico. Eles recebem investimentos externos anuais de US$ 2 trilhões e todos, no mercado americano e no exterior, continuam comprando os velhos títulos do Tesouro e os que estão sendo emitidos também.

A saída é reanimar a economia mundial com gastos públicos maciços. Estados Unidos e China já anunciam planos trilionários em obras e geração de empregos.O medo agora não é mais de inflação, mas de deflação. Se os preços continuarem a cair, a inflação chegará a zero e ninguém mais vai comprar esperando que baixem ainda mais. Aí estaríamos diante de um quadro de deflação e recessão. O pior dos mundos, que deve ser evitado, mesmo com os déficits dos governos.

DESEMPREGO ASSUSTA

Obama enfrenta a oposição do Partido Republicano. Isso é gravíssimo, pode retardar o início do programa de mais um mês com aumento do desemprego, que já está em 6,7% e ameaça passar de 10%. Dados preliminares estimam que só em dezembro foram demitidas 693 mil pessoas. Somados aos mais de 500 mil de novembro, só em dois meses há mais de 1,2 milhão de desempregados. Demissão em massa é o caminho certo para a recessão e a depressão. Espera-se que o Congresso seja mais responsável diante desses e de outros indicadores negativos que vão surgir.

CONFIA EM OBAMA,MAS…

Nestes primeiro dias do ano, ficou evidente que o mundo confia em Obama mas não no Congresso. Tudo depende de Obama e Obama depende do Congresso americano. Pode ser exagero, mas se a recuperação nos Estados Unidos for retardada por alguns meses pela politicalha dos republicanos conservadores e atrasados,o mundo vai pagar um preço muito caro que hoje eles poderiam evitar.

Esse é o grande temor que Krugman expressa em seu artigo. E deveria ser o temor de todos nós.

*Email – at@attglobal.net

06/01/2009 - 09:08h Combatendo a depressão

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Paul Krugman* – O Estado SP

“Se não agirmos com agilidade e coragem, é possível que o declínio econômico seja muito mais profundo”, disse o presidente eleito, Barack Obama, no mais recente pronunciamento semanal. Se perguntar a minha opinião, eu diria que ele não foi suficientemente enfático.

O fato é que os últimos dados econômicos têm sido assustadores não apenas nos Estados Unidos, mas em todo o mundo. Não fiquemos nas meias palavras: a situação se parece muito com o início de uma segunda Grande Depressão. Será que seremos capazes de agir “com agilidade e coragem” suficientes para evitar que isso aconteça?

Não se esperava que nos encontrássemos nessa situação. Durante muitos anos, a maioria dos economistas acreditou ser fácil evitar outra Grande Depressão. Em 2003, Robert Lucas, da Universidade de Chicago, declarou, perante a Associação Econômica Americana: “O problema central da prevenção das depressões foi resolvido, no seu aspecto prático, e de fato acredito que a solução se mantenha por muitas décadas”.

Milton Friedman, em especial, convenceu muitos economistas de que o Federal Reserve (Fed) poderia ter interrompido a evolução da Depressão simplesmente oferecendo aos bancos mais liquidez. Ben Bernanke, presidente do Fed, desculpou-se diante de Friedman: “Você tem razão, a responsabilidade foi nossa. Mas, graças a você, isso não se repetirá.”

Entretanto, parece que evitar depressões não é tão fácil. Sob o comando de Bernanke, o Fed andou oferecendo liquidez como um bombeiro tentando apagar um grande incêndio e o dinheiro disponível tem aumentado rapidamente. Ainda assim, o crédito continua difícil e a economia, em queda livre. A afirmação de Friedman de que a política monetária teria evitado a Grande Depressão foi uma tentativa de refutar a análise de John Maynard Keynes de que a política monetária é ineficaz sob condições de depressão e a política fiscal – gastos deficitários em larga escala do governo – é necessária para combater o desemprego em massa.

O fracasso da política monetária na crise atual mostra que Keynes tinha acertado da primeira vez. E o pensamento keynesiano está por trás dos planos de Obama para o resgate da economia. Mas esses planos podem se revelar difíceis de vender aos políticos. Os noticiários dizem que os democratas esperam aprovar um plano econômico com amplo apoio bipartidário. Boa sorte para eles. Na verdade, as atitudes vaidosas dos políticos começaram a se revelar, com as lideranças republicanas preparando barricadas contra a legislação do estímulo econômico, enquanto posam de campeões da cuidadosa deliberação – uma piada de mau gosto, levando-se em consideração o comportamento do partido nos últimos oito anos.

Depois de décadas declarando que o governo é o problema, não a solução, para não falar na vituperação tanto da economia keynesiana quanto do New Deal, a maioria dos republicanos não vai aceitar a necessidade de uma solução para a crise econômica ao estilo de Franklin Roosevelt, envolvendo imensos gastos governamentais. No entanto, o maior problema de Obama será, provavelmente, a exigência de muitos políticos de provas de que os benefícios dos gastos públicos justificariam o custo, um fardo jamais imposto sobre os cortes de impostos.

Trata-se de um problema com o qual Keynes estava familiarizado: a oferta de dinheiro tende a enfrentar menos objeções do que os planos de investimento público, “o qual, por não ser um desperdício completo, costuma ser julgado com base em princípios rígidos do ?mundo dos negócios?”. O que se perde em tais debates é o argumento chave: que, sob as condições atuais, um impulso nos gastos públicos empregaria americanos e movimentaria dinheiro que permaneceria ocioso.

Tudo isso me deixa preocupado com as perspectivas do plano de Obama. Estou certo de que o congresso vai aprovar um plano, mas temo que seja atrasado ou tenha as dimensões reduzidas. E Obama está coberto de razão: precisamos realmente agir com agilidade.

*É Nobel de Economia 2008

14/12/2008 - 16:35h Lugares estranhos

Verissimo

verissimo1.jpgO comunismo pegou onde menos se esperava – na Rússia, terra de camponeses e místicos, e na exótica China. Não deve surpreender que o socialismo triunfe em outros lugares estranhos: a GM, o Citibank…

NA COXA

Me pediram para comentar o “Vicky Cristina Barcelona”. Gostei pela Vicky, pela Cristina, por Barcelona e principalmente pela Penelope, mas me pareceu um filme meio relaxado. Dá para imaginar o Woody Allen escrevendo o roteiro em cima da coxa, no quarto do hotel, louco para voltar pra casa. Há personagens que aparecem e desaparecem sem função ou explicação, e o Woody Allen poderia ter nos poupado, e ao seu currículo, o pai pintor do Javier Bardem, que não pinta mais porque há pouco amor no mundo. E para o Bardem o filme veio muito em cima do seu papel anterior, como o bandido do cabelo armado dos irmãos Coen. Passei todo o filme esperando que ele estrangulasse alguém.

SUJOU?

Falando em cabelo… O governador de Illinois merece ser banido da política duas vezes, pela corrupção e pelo penteado. A direita americana já caiu em cima do Barack Obama por causa da sua ligação com o governador Blagojevich, acusado de $leiloar a cadeira do senado que o Baraca desocupou. Os investigadores disseram que o presidente eleito não tem nada a ver com as manobras, ou com o penteado, do governador, que é pela lei é quem nomeia o novo senador, mas o Baraca fez sua carreira na notoriamente corrupta política do estado, que agora ganha um incômodo destaque com as acusações a Blagojevich – dando razão, implicitamente, a tudo que os republicanos diziam durante a campanha sobre as origens obscuras do candidato democrata. Chicago foi a capital do crime organizado americano e tem uma tradição paralela de política suja, como a dos tempos do prefeito Dailey que dominou o partido democrata lo$durante anos, era um populista a serviço do grande capital e fez a carreira de muita gente – inclusive a do seu filho, que hoje é o prefeito. Obama se criou, polticamente, neste meio de caciques e aproveitadores. Para a direita, ele não pode não ter se sujado.

PERPLEXIDADE

Fico pensando no trabalho que terão os historiadores do futuro para entender o governo Lula. Nunca um presidente foi tão odiado e ridicularizado, nunca um presidente foi tão aprovado.

Nem a raiva nem o amor são muito racionais, existem num plano subjetivo a prova de fatos. A raiva parece visceral, feita em grande parte de preconceito e ressentimento. O amor persiste contra todas as notícias de escândalos e desmandos. Talvez com a perspectiva histórica o fenômeno não pareça tão raro. Getúlio Vargas também foi amado e execrado em proporção parecida. Juscelino também dividiu. Mas até daqui a uns 50 anos, quando a perspectiva histórica nos dirá o que houve, a perplexidade com o Lula permanecerá.

Fonte O Globo e Blog de Noblat

22/11/2008 - 13:45h A economia ”pato manco”

Paul Krugman * – New York Times – O Estado SP

krugman_paul.jpgTodos estão falando sobre um novo New Deal, por motivos óbvios. Em 2008, assim como em 1932, uma longa era de predomínio político republicano foi encerrada diante de uma crise econômica e financeira que, aos olhos dos eleitores, ao mesmo tempo desacreditava a ideologia de livre mercado do Partido Republicano e solapava suas alegações de competência. E para aqueles que se situam no lado progressista do espectro político a época atual é de esperança.

Há, no entanto, um outro paralelo entre 2008 e 1932, uma semelhança muito mais perturbadora – o surgimento de um vácuo de poder no ápice da crise. O interregno de 1932-1933 – o longo período entre a eleição e a transição do poder de fato – foi desastroso para a economia americana, ao menos em parte porque a administração que saía não tinha credibilidade, a administração que chegava não tinha autoridade e o abismo ideológico entre ambas era profundo demais para permitir que fossem adotadas medidas coordenadas. E o mesmo está acontecendo agora.

É verdade que o interregno será mais curto desta vez: Franklin Delano Roosevelt só assumiu a presidência em março; Barack Obama vai para a Casa Branca no dia 20 de janeiro. Mas hoje em dia as crises evoluem mais rápido.

Quanta coisa pode dar errado nos dois meses até que Obama preste seu juramento e assuma o cargo? A resposta, infelizmente, é: muita coisa.

Pense no quanto o cenário econômico piorou desde a falência do Lehman Brothers, que aconteceu há apenas dois meses. E o ritmo da deterioração parece estar se acelerando.

Obviamente, estamos metidos na pior crise do mercado de ações desde a Grande Depressão: o índice S&P 500 caiu agora para menos de 50% do seu valor máximo. Outros indicadores são ainda mais perturbadores: o desemprego parece estar aumentando, a produção manufatureira está em queda, a taxa de juros sobre os títulos privados – a qual reflete o temor de inadimplência dos investidores – está aumentando muito, o que quase certamente levará a uma redução considerável nos gastos empresariais. As perspectivas econômicas são hoje muito mais sombrias do que eram há apenas uma ou duas semanas atrás.

Ainda assim, as medidas econômicas, em vez de responder à ameaça, parecem ter saído de férias. Em especial, o pânico dá sinais de ter retornado aos mercados de crédito, mas não parece haver um novo plano de resgate no horizonte. Ao contrário, o secretário do Tesouro, Henry Paulson, anunciou que nem sequer voltará ao Congresso para buscar a outra metade dos US$ 700 bilhões já aprovados para a realização de resgates financeiros. E o socorro financeiro para a combalida indústria automobilística está sendo atrasado por um impasse político.

O quanto deveríamos nos preocupar com aquilo que parecem ser dois meses de medidas econômicas à deriva? No mínimo, os próximos dois meses vão infligir graves sofrimentos sobre centenas de milhares de americanos, os quais perderão seus empregos, seus lares, ou ambos.

O mais preocupante, no entanto, é a possibilidade de que parte do estrago feito agora seja irreversível. Estou preocupado, em especial, com as duas letras D: Deflação e Detroit.

Quanto à deflação: a “década perdida” japonesa durante os anos 90 ensinou aos economistas que é muito difícil fazer a economia avançar quando as expectativas de inflação se tornam baixas demais (não importa se as pessoas literalmente acreditam que os preços vão cair ou não). No momento observamos uma clara pressão deflacionária sobre a economia americana, e cada mês que se passa sem sinais de recuperação aumenta as chances de nos vermos encalhados durante anos numa armadilha ao estilo japonês.

Quanto a Detroit: Há agora o risco real de que, na ausência de uma rápida ajuda federal, as “Três Grandes” montadoras e as suas redes de fornecedores sejam forçadas à liquidação – ou seja, obrigadas a fechar, demitir todos os seus funcionários e vender seus bens. E, se isto acontecer, será muito difícil trazê-las de volta.

Quem sabe deixar que as empresas montadoras pereçam seja a decisão certa, mesmo que um colapso da indústria automobilística seja um fortíssimo golpe contra uma economia já cambaleante. Mas trata-se de uma decisão que deveria ser tomada com cuidado, com ampla consideração quanto aos seus custos e benefícios – e não uma decisão tomada automaticamente por causa de um impasse político entre democratas – que querem que Paulson use parte daqueles US$ 700 bilhões – e a administração no período do pato manco – que tenta em vez disso obrigar o Congresso a desviar os fundos a partir de um programa de eficiência energética.

Será que as medidas econômicas estão completamente paralisadas de agora até 20 de janeiro? Não, não completamente. Algumas medidas úteis estão sendo tomadas. As agências de empréstimo Fannie Mae e Freddie Mac, por exemplo, adotaram a feliz decisão de paralisar temporariamente as execuções hipotecárias, enquanto o Congresso aprovou uma extensão muito necessária aos benefícios do seguro-desemprego agora que a Casa Branca abandonou a oposição à mesma.

Mas não há nada acontecendo no front das medidas econômicas que seja remotamente proporcional à escala da crise econômica. E é assustador pensar no quanto mais pode dar errado até que Obama assuma a presidência.

* Paul Krugman é articulista

06/11/2008 - 11:30h EUA: Democratas querem mais Estado

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Damian Paletta, The Wall Street Journal, de Washington – VALOR

Os deputados do Partido Democrata planejam usar a maioria ampliada nas eleições desta semana para aprovar o mais rápido possível um papel mais preponderante do governo americano nos mercados financeiros, incluindo maiores direitos para os acionistas, mais restrições no pacote de socorro de US$ 700 bilhões e a criação de uma agência federal para vigiar riscos sistêmicos à economia.

O presidente da Comissão de Serviços Financeiros da Câmara, o democrata Barney Frank, comparou a criação dessa autoridade ao estabelecimento da SEC, a comissão de valores mobiliários americana, durante a Grande Depressão nos anos 30. Ele disse que os democratas planejam pressionar agressivamente por essas medidas e chamou o resultado das eleições de terça-feira de um repúdio às críticas de que o país estava adotando uma política exageradamente intervencionista no livre mercado.

“Esse argumento foi desacreditado pela realidade”, disse Frank ao Wall Street Journal.

O colapso da Lehman Brothers Holdings Inc. e o quase colapso da American International Group Inc. estremeceram os mercados financeiros e expuseram brechas na vigilância feita pelo governo. Esses acontecimentos também aceleraram as negociações para a criação de um tipo de “super policial” do mercado.

“Acho que uma agência de vigilância do risco sistêmico para todas as empresas que agora são cobertas pela regulamentação bancário é o ponto principal”, disse Frank.

O setor bancário americano já se prepara para um 2009 difícil, e as perspectivas ficaram um pouco piores anteontem à noite quando um de seus principais aliados, o deputado republicano Tom Feeney, da Flórida, não conseguiu se reeleger. Feeney defendeu com afinco o setor bancário durante a crise econômica e estava na rara posição de integrar tanto a Comissão de Serviços Financeiros quanto a Judiciária.

02/11/2008 - 10:55h The Economist apoia Obama

Revista afirma que democrata elaborou retrato mais convicente e detalhado para o futuro americano

Reuters- O Estado SP

 


Apoio foi declarado na capa da última edição

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WASHINGTON - A revista The Economist, um bastião da economia de livre mercado, declarou nesta sexta-feira, 31, seu apoio ao candidato democrata Barack Obama na corrida presidencial norte-americana. Estampando em sua capa uma imagem de Obama pensativo debaixo do título “Chegou a hora,” a publicação britânica de 165 anos de existência afirmou que endossa com sinceridade a candidatura do democrata.”Quanto a apresentar um futuro mais luminoso para os EUA e o mundo, o senhor Obama elaborou um retrato mais convincente e mais detalhado. Ele vem fazendo campanha com mais estilo, inteligência e disciplina que seu adversário”, disse a publicação. “O senhor Obama merece a Presidência”, afirmou a revista semanal, que possui um grande público leitor nos EUA.

A Economist havia dado apoio ao hoje presidente norte-americano, George W. Bush, nas eleições de 2000 e ao democrata que tentou sem sucesso impedi-lo de reeleger-se em 2004, John Kerry. Em 2000, os EUA eram sem sombra de dúvida uma superpotência, disse a revista. A questão central então era decidir o que fazer com o imenso superávit orçamentário do governo. “Quando os norte-americanos forem às urnas na próxima semana, o clima será bem diferente. Os EUA estão infelizes, divididos e com problemas tanto internamente quanto no cenário internacional. Sua autoconfiança e seus valores encontram-se sob ataque.”

Apesar de a escolha por Obama envolver algum risco por causa da inexperiência dele, o candidato demonstrou claramente que é a melhor opção para restabelecer a autoconfiança dos EUA, disse a Economist.Observando ainda que o democrata seria o primeiro presidente negro dos EUA caso derrote o republicano John McCain nas eleições da próxima terça-feira, a revista afirmou: “Ele aliviaria, ou talvez curasse, a ignóbil ferida racial legada pela história norte-americana e minoraria a tendência dos negros norte-americanos de responsabilizar o racismo por seus problemas.”

 

 

The presidential election

It’s time

Oct 30th 2008
From The Economist print edition

America should take a chance and make Barack Obama the next leader of the free world

AP

IT IS impossible to forecast how important any presidency will be. Back in 2000 America stood tall as the undisputed superpower, at peace with a generally admiring world. The main argument was over what to do with the federal government’s huge budget surplus. Nobody foresaw the seismic events of the next eight years. When Americans go to the polls next week the mood will be very different. The United States is unhappy, divided and foundering both at home and abroad. Its self-belief and values are under attack.

For all the shortcomings of the campaign, both John McCain and Barack Obama offer hope of national redemption. Now America has to choose between them. The Economist does not have a vote, but if it did, it would cast it for Mr Obama. We do so wholeheartedly: the Democratic candidate has clearly shown that he offers the better chance of restoring America’s self-confidence. But we acknowledge it is a gamble. Given Mr Obama’s inexperience, the lack of clarity about some of his beliefs and the prospect of a stridently Democratic Congress, voting for him is a risk. Yet it is one America should take, given the steep road ahead.
Thinking about 2009 and 2017
The immediate focus, which has dominated the campaign, looks daunting enough: repairing America’s economy and its international reputation. The financial crisis is far from finished. The United States is at the start of a painful recession. Some form of further fiscal stimulus is needed, though estimates of the budget deficit next year already spiral above $1 trillion. Some 50m Americans have negligible health-care cover. Abroad, even though troops are dying in two countries, the cack-handed way in which George Bush has prosecuted his war on terror has left America less feared by its enemies and less admired by its friends than it once was.

Yet there are also longer-term challenges, worth stressing if only because they have been so ignored on the campaign. Jump forward to 2017, when the next president will hope to relinquish office. A combination of demography and the rising costs of America’s huge entitlement programmes—Social Security, Medicare and Medicaid—will be starting to bankrupt the country. Abroad a greater task is already evident: welding the new emerging powers to the West. That is not just a matter of handling the rise of India and China, drawing them into global efforts, such as curbs on climate change; it means reselling economic and political freedom to a world that too quickly associates American capitalism with Lehman Brothers and American justice with Guantánamo Bay. This will take patience, fortitude, salesmanship and strategy.

At the beginning of this election year, there were strong arguments against putting another Republican in the White House. A spell in opposition seemed apt punishment for the incompetence, cronyism and extremism of the Bush presidency. Conservative America also needs to recover its vim. Somehow Ronald Reagan’s party of western individualism and limited government has ended up not just increasing the size of the state but turning it into a tool of southern-fried moralism.

The selection of Mr McCain as the Republicans’ candidate was a powerful reason to reconsider. Mr McCain has his faults: he is an instinctive politician, quick to judge and with a sharp temper. And his age has long been a concern (how many global companies in distress would bring in a new 72-year-old boss?). Yet he has bravely taken unpopular positions—for free trade, immigration reform, the surge in Iraq, tackling climate change and campaign-finance reform. A western Republican in the Reagan mould, he has a long record of working with both Democrats and America’s allies.
If only the real John McCain had been running
That, however, was Senator McCain; the Candidate McCain of the past six months has too often seemed the victim of political sorcery, his good features magically inverted, his bad ones exaggerated. The fiscal conservative who once tackled Mr Bush over his unaffordable tax cuts now proposes not just to keep the cuts, but to deepen them. The man who denounced the religious right as “agents of intolerance” now embraces theocratic culture warriors. The campaigner against ethanol subsidies (who had a better record on global warming than most Democrats) came out in favour of a petrol-tax holiday. It has not all disappeared: his support for free trade has never wavered. Yet rather than heading towards the centre after he won the nomination, Mr McCain moved to the right.

Meanwhile his temperament, always perhaps his weak spot, has been found wanting. Sometimes the seat-of-the-pants method still works: his gut reaction over Georgia—to warn Russia off immediately—was the right one. Yet on the great issue of the campaign, the financial crisis, he has seemed all at sea, emitting panic and indecision. Mr McCain has never been particularly interested in economics, but, unlike Mr Obama, he has made little effort to catch up or to bring in good advisers (Doug Holtz-Eakin being the impressive exception).

The choice of Sarah Palin epitomised the sloppiness. It is not just that she is an unconvincing stand-in, nor even that she seems to have been chosen partly for her views on divisive social issues, notably abortion. Mr McCain made his most important appointment having met her just twice.

Ironically, given that he first won over so many independents by speaking his mind, the case for Mr McCain comes down to a piece of artifice: vote for him on the assumption that he does not believe a word of what he has been saying. Once he reaches the White House, runs this argument, he will put Mrs Palin back in her box, throw away his unrealistic tax plan and begin negotiations with the Democratic Congress. That is plausible; but it is a long way from the convincing case that Mr McCain could have made. Had he become president in 2000 instead of Mr Bush, the world might have had fewer problems. But this time it is beset by problems, and Mr McCain has not proved that he knows how to deal with them.

Is Mr Obama any better? Most of the hoopla about him has been about what he is, rather than what he would do. His identity is not as irrelevant as it sounds. Merely by becoming president, he would dispel many of the myths built up about America: it would be far harder for the spreaders of hate in the Islamic world to denounce the Great Satan if it were led by a black man whose middle name is Hussein; and far harder for autocrats around the world to claim that American democracy is a sham. America’s allies would rally to him: the global electoral college on our website shows a landslide in his favour. At home he would salve, if not close, the ugly racial wound left by America’s history and lessen the tendency of American blacks to blame all their problems on racism.

So Mr Obama’s star quality will be useful to him as president. But that alone is not enough to earn him the job. Charisma will not fix Medicare nor deal with Iran. Can he govern well? Two doubts present themselves: his lack of executive experience; and the suspicion that he is too far to the left.

There is no getting around the fact that Mr Obama’s résumé is thin for the world’s biggest job. But the exceptionally assured way in which he has run his campaign is a considerable comfort. It is not just that he has more than held his own against Mr McCain in the debates. A man who started with no money and few supporters has out-thought, out-organised and outfought the two mightiest machines in American politics—the Clintons and the conservative right.

Political fire, far from rattling Mr Obama, seems to bring out the best in him: the furore about his (admittedly ghastly) preacher prompted one of the most thoughtful speeches of the campaign. On the financial crisis his performance has been as assured as Mr McCain’s has been febrile. He seems a quick learner and has built up an impressive team of advisers, drawing in seasoned hands like Paul Volcker, Robert Rubin and Larry Summers. Of course, Mr Obama will make mistakes; but this is a man who listens, learns and manages well.

It is hard too nowadays to depict him as soft when it comes to dealing with America’s enemies. Part of Mr Obama’s original appeal to the Democratic left was his keenness to get American troops out of Iraq; but since the primaries he has moved to the centre, pragmatically saying the troops will leave only when the conditions are right. His determination to focus American power on Afghanistan, Pakistan and proliferation was prescient. He is keener to talk to Iran than Mr McCain is— but that makes sense, providing certain conditions are met.

Our main doubts about Mr Obama have to do with the damage a muddle-headed Democratic Congress might try to do to the economy. Despite the protectionist rhetoric that still sometimes seeps into his speeches, Mr Obama would not sponsor a China-bashing bill. But what happens if one appears out of Congress? Worryingly, he has a poor record of defying his party’s baronies, especially the unions. His advisers insist that Mr Obama is too clever to usher in a new age of over-regulation, that he will stop such nonsense getting out of Congress, that he is a political chameleon who would move to the centre in Washington. But the risk remains that on economic matters the centre that Mr Obama moves to would be that of his party, not that of the country as a whole.
He has earned it
So Mr Obama in that respect is a gamble. But the same goes for Mr McCain on at least as many counts, not least the possibility of President Palin. And this cannot be another election where the choice is based merely on fear. In terms of painting a brighter future for America and the world, Mr Obama has produced the more compelling and detailed portrait. He has campaigned with more style, intelligence and discipline than his opponent. Whether he can fulfil his immense potential remains to be seen. But Mr Obama deserves the presidency.

31/10/2008 - 10:12h EUA: Chance de avalanche democrata no Congresso

Além de vitória de Obama, pesquisas apontam grande vitória na Câmara e maioria à prova de oposição no Senado

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Marília Martins Correspondente O Globo

NOVA YORK. A contar pelas pesquisas, a noite de 4 de novembro pode ser a maior festa do Partido Democrata nos últimos 30 anos. Tanto assim que muitos republicanos já fazem campanha alertando os eleitores sobre o perigo de se ter um só partido no poder. O alerta leva em conta não só uma vitória de Barack Obama, mas também a conquista de uma grande maioria democrata no Congresso, o que, segundo eles, deixaria o presidente sem uma oposição efetiva, como ocorreu na tripla vitória democrata em 1976.

O Senado tem hoje 49 republicanos, 49 democratas e dois políticos independentes que votam com os democratas. Já na Câmara dos Representantes, a maioria é mais confortável: são 235 democratas e 199 republicanos.

No Senado, das cem cadeiras, 35 estão em disputa. Destas, 23 são controladas por republicanos.

Segundo as sondagens, os democratas são favoritos para tomar sete vagas atualmente republicanas, tendo boas chances em outras três disputas.

— É difícil, mas o vento está a nosso favor. Não posso prometer mais oito senadores democratas, mas vou ficar muito animado se conseguirmos chegar a 57. Não temos maioria assim desde 1979 — avaliou o senador Chuck Schumer, coordenador da campanha para o Senado.

Partido de Obama pode atingir 60 cadeiras no Senado Em três estados — Colorado, Novo México e Virgínia — a conquista de vagas republicanas por democratas é considerada certa. Em outros quatro (Alasca, C a r o l i n a d o N o r t e , N e w Hampshire e Oregon), colegas de Obama são favoritos.

Caso vença estas sete eleições, o Partido Democrata passaria a ter 56 senadores. Somando os dois independentes normalmente aliados, o número subiria para 58. Um destes dois senadores, no entanto, é Joe Lieberman, candidato a vice de Al Gore em 2000, mas que agora apóia John McCain.

Isso torna as eleições em três estados ainda mais decisivas.

Em Minnesota, Geórgia e Kentucky o final da corrida eleitoral é considerado imprevisível. No caso de vitórias em dois destes estados, a legenda atingiria o “mágico” número 60, contando com uma volta de Lieberman.

Segundo as regras, um conjunto de 41 senadores pode, na prática, bloquear qualquer votação.

A manobra é chamada de filibuster.

Antes de um projeto ser votado, a discussão parlamentar deve ser oficialmente encerrada.

Uma minoria de pelo menos 41 senadores pode votar por “continuar debatendo” o projeto, e isso pode continuar indefinidamente, impedindo a votação. Só este ano, os republicanos já fizeram isso 95 vezes.

Na Câmara dos Representantes, que será completamente “renovada” (as eleições nos EUA ocorrem a cada dois anos), os democratas também tendem a conquistar uma maioria ainda maior. Na tradição política americana, o atual congressista tem imensa vantagem sobre seu concorrente.

O partido de Obama não apenas deve manter praticamente todas as suas cadeiras, como pode tomar dos republicanos até 12 vagas de deputado.

Líder republicano no Senado pode perder eleição Além de amargar uma ampla derrota, os republicanos correm o risco de perder alguns de seus representantes mais ativos no Congresso.

No Alasca, estado da candidata a vice Sarah Palin, o senador Ted Stevens pode perder a vaga para o prefeito de Anchorage, Mark Begich. Stevens é o senador republicano há mais tempo no Capitólio, tendo 40 anos de Washington. Mas esta semana ele foi condenado por corrupção e falsidade ideológica. Mesmo que seja eleito ele poderá ser expulso do Senado.

John Sununu, o atuante senador de New Hampshire, também está atrás da ex-governadora Jeanne Shaheem nas pesquisas.

Mas o caso mais alarmante para o partido é o de Mitch McConnell, do Kentucky. Ele é o líder da legenda no Senado e enfrenta uma dura disputa com o milionário Bruce Lunsford.

— Uma vitória democrata no Congresso levaria a impostos elevados, renegociação unilateral de tratados comerciais e a ameaças à segurança nacional — alertou McCain, ontem.

Qualquer que seja o resultado, porém, o maior desafio do próximo Congresso será abrir espaço para mudanças políticas com um orçamento já comprometido, um déficit federal de cerca de US$ 1 trilhão, e em meio à crise econômica. Por isto, já se comenta que, mesmo com vitória esmagadora dos democratas, haverá um período de difíceis negociações entre o novo presidente e o Legislativo, já que há muitas divisões internas.

Muitos analistas acreditam que a maioria democrata vai ser um amálgama de três grupos. O primeiro deles é o dos “esquerdistas clássicos”, apoiados pelas centrais sindicais, que defendem a regulação do mercado, protecionismo e ressalvas nos tratados de livre comércio. A segunda facção é a dos “blue dogs”, conservadores quando o tema é equilíbrio fiscal. Um dos líderes dessa bancada é Mike Ross, de Arkansas, que estima que o grupo vai passar de 49 para 61 na Câmara. O terceiro grupo é o dos “pragmáticos”, que inclui boa parte da liderança do partido que prioriza realizar o programa do partido nas áreas de saúde e energia.

19/10/2008 - 11:38h No longo prazo, Lord Keynes ressuscitou

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Lord John Maynard Keynes

Elio Gaspari – O Globo

Terminou nas últimas semanas o predomínio intelectual de uma corrente do pensamento econômico que governou o mundo por cerca de 30 anos.
Pode-se dizer que ela cabe no rótulo de “liberal”, sem que se saiba o que isso quer dizer. Simplificando, ela encarnou a crença de que as forças internas do mercado são o elemento mais eficaz para conduzir os destinos das economias nacionais. Com o leme das nações entregue à “mão invisível”, os males seriam corrigidos e a prosperidade, assegurada. Lorota.

O naufrágio ocorreu de forma humilhante, no governo de um presidente republicano nos Estados Unidos. George Bush tem na secretaria do Tesouro um fino espécime da banca, o ex-presidente da Goldman Sachs Henry Paulson. Para salvar a economia mundial dos delírios do mercado, até agora foram necessários uns três trilhões de dólares coletados nas Bolsas das Viúvas.

Trinta anos de hegemonia produziram arrogância e até maus modos.

No Brasil, “desenvolvimento” tornou-se uma palavra maldita e “desenvolvimentista”, uma modalidade de insulto.

Além das leviandades do governo Collor, da privataria tucana e do colapso cambial de 1999, a onipotência chegou à soberba. Dois diretores do Banco Central (Afonso Beviláqua e Rodrigo da Rocha Azevedo) não se dignaram a colocar suas biografias no portal da instituição pública em que trabalhavam. Conduta semelhante, só nos BCs da Coréia do Norte, Lesotho e Armênia.

Noutro exemplo do cotidiano, em 2003 a editora brasileira do economista Joseph Stieglitz, prêmio Nobel de 2001, teve dificuldade para formar uma mesa de jantar em sua homenagem com 12 convidados de renome.

Stieglitz era um crítico daquilo que o professor Delfim Netto chamava de “pensamento único” no debate econômico brasileiro. (Das cabeças coroadas, só Gustavo Franco aceitou o convite.) Em 2000, um concurso do Banco Central valorizava candidatos com formação semelhante à da ekipekonômica tucana.

Viajando-se no tempo e no mundo, percebe-se que a cada 30 anos uma escola de pensamento prevalece e massacra a outra. Na segunda metade do século passado a agenda passou às mãos dos chamados keynesianos.

Eram economistas que acompanhavam as idéias do inglês John Maynard Keynes, formulador da conveniência da intervenção do governo na economia. Do outro lado do debate estavam professores como o austríaco Friedrich Hayek e o americano Milton Friedman. Hayek sustentava que o planejamento econômico e a ação dos governos eram o “Caminho da Servidão”, título de sua obra-prima, publicada em 1944. Comeu o pão que Asmodeu amassou. Em 1950, o departamento de economia da Universidade de Chicago negou-lhe uma posição de professor.

Morava num bairro operário de Salzburgo numa casa comprada com o dinheiro da venda de sua biblioteca.

Hayek ganhou o prêmio Nobel em 1974.

Dois anos depois foi a vez de Friedman.

Passados 30 anos de predomínio, os keynesianos saíram de cena. A vitória dos conservadores de Margaret Thatcher na Inglaterra, em 1979, e de Ronald Reagan nos Estados Unidos, um ano depois, significou um renascimento das idéias de Hayek e Friedman. Em 1980, o professor Robert Lucas (Nobel de 95) dizia que já não existiam mais bons economistas com menos de 40 anos identificados com o keynesianismo. O neologismo virou palavrão. John Kenneth Galbraith, uma de suas maiores estrelas, tornou-se saco de pancadas para os polemistas conservadores.

Seu último livro chamou-se “A economia das fraudes inocentes” e foi um ataque às extravagâncias do papelório.

Numa trapaça da história, foi um governo conservador, educado nas liberdades de Hayek e Friedman, quem conduziu a economia americana à bancarrota.
Primeiro liberando as práticas da banca em nome da santidade do mercado. Depois, recorreu à mais elementar das construções keynesianas para evitar o desastre e foi buscar na Bolsa da Viúva o remédio para a intoxicação.

Hayek e Friedman dificilmente defenderiam as políticas de seus seguidores. Quem botou fogo no mundo não foram eles, mas a mediocridade prepotente, colocada a serviço de um dinheirinho fácil.

Leia a integra da coluna de Elio Gaspari, nos jornais O Globo e Folha SP

16/10/2008 - 09:14h Os deuses que fracassaram

http://markjberry.blogs.com/way_out_west/Deconstruction.jpg

Harold Meyerson* – O Globo

Em 1949, escritores famosos escreveram ensaios explicando por que não eram mais comunistas, reunidos no volume “O Deus que fracassou”.

Hoje, intelectuais conservadores talvez considerem escrever sobre os fracassos de sua amada divindade: o capitalismo sem regulação.

A queda do sistema financeiro tem sido tão rápida e ampla que não houve tempo para considerar suas implicações para a teoria econômica que reinou nos últimos 30 anos. No que exatamente economistas conservadores acreditam, agora que seu deus está morto? Não nos surpreende ver um desorientado John McCain. O que ele deve fazer? Admitir que a crença de Ronald Reagan e Margaret Thatcher no capitalismo sem regulação, no qual todo candidato republicano apoiava até o último inverno, desmoronou? Na verdade, a crença da auto-suficiência do mercado também teve apoio de importantes democratas. Nos anos 90, o republicano Alan Greenspan e o democrata Robert Rubin agiram para que o mercado de derivativos seguisse sem regulação, apesar de Warren Buffett e George Soros terem alertado para o risco.

Se o colapso dos mercados deixou o conservadorismo em farrapos, deu aos liberais a tarefa de construir uma economia mais sustentável. Foram os liberais do Congresso que insistiram que o governo deveria ter poder para adquirir participações em bancos.

Agora, liberais devem ficar atentos ao tipo de nacionalização financeira que estão prestes a adotar. Henry Paulson (secretário do Tesouro dos EUA) quer injetar recursos públicos em bancos, mas continuar confiando nosso sistema aos banqueiros que nos colocaram nessa situação.

Esses bancos não deveriam incluir membros do governo em seus conselhos de administração para evitar as mesmas besteiras? A atual crise de ideologia não está confinada à doutrina do laissez faire. A crença no equilíbrio do orçamento se tornou sem sentido com a economia se encaminhando para uma recessão. Com bancos parando de emprestar, empresas demitindo funcionários, governos locais e estaduais suspendendo serviços, proprietários de imóveis com dívidas recordes e consumidores reduzindo compras, um maciço estímulo federal é o que separa a nação de uma calamidade econômica.

McCain e Obama discordam no que se refere ao papel do governo no estímulo à economia.

Tendo passado a vida defendendo políticas que levaram ao “derretimento”, McCain agora defende políticas que transformarão recessão em depressão. Ele pode ter suas crenças, mas a nação não pode rezar no altar desses deuses que fracassaram.

*HAROLD MEYERSON é colunista do “Washington Post”

01/10/2008 - 17:38h Sarah Palin é incapaz de nomear um jornal americano

Blog O Biscoito fino e a massa

A jornalista Katie Couric está entrando para a história da política americana com as entrevistas que tem feito com a candidata republicana à vice-presidência, Sarah Palin. Depois de impedir que a candidata tivesse qualquer contato com a imprensa durante semanas, a campanha de McCain liberou Palin para alguns papos com Couric. Talvez tivesse sido melhor lançar Palin aos leões do jornalismo beligerante. O massacre quiçá lhe rendesse alguma simpatia ou compaixão. Com voz macia, dicção pausada, perguntas simples (que exigiriam respostas específicas) e um grande talento para conter as gargalhadas, Couric tem levado Palin a sucessivos desastres, que deixam entrever sua assombrosa ignorância. Seleciono hoje os meus dois trechos favoritos. Este é o primeiro, em que, depois que Palin afirma que havia estado lendo muitos jornais para se preparar, Couric lhe pede que cite algum. A candidata republicana é incapaz de citar o nome de um jornal americano. Confira:

Mas o campeão realmente é este vídeo, em que, ante uma pergunta sobre o recente pacote de socorro ao setor financeiro, Palin produz um dos parágrafos mais insanos da história da língua inglesa. Acompanhe o show e depois leia a tradução exclusiva do Biscoito:

Ok, qualquer um que se proponha a traduzir isso está fadado ao ridículo, mas aí vai minha melhor tentativa:

Pergunta: Por que não seria melhor, Governadora Palin, gastar os US$ 700 bilhões ajudando as famílias de classe média que estão em dificuldades com assistência médica, moradia, gasolina e comida, para permitir que elas gastem mais e coloquem mais dinheiro na economia, ao invés de ajudar essas grandes instituições financeiras que cumpriram um papel na criação dessa bagunça?

Resposta: É por isso que eu digo que eu, como todo americano com o qual eu estou conversando, estamos doentes com essa posição em que fomos colocados. Onde são os contribuintes tentando socorrer. Mas no final das contas, o que o socorro faz é ajudar aqueles que estão preocupados com a reforma do sistema de saúde que é necessária para consertar nossa economia. Uh, ajudar… oh .. tem que ser tudo para criar empregos. Consertar nossa economia e colocá-la de volta nos trilhos. Então, a reforma do sistema de saúde, e baixar os impostos, e controlar os gastos tem que acompanhar a redução de impostos e os alívios de impostos para os americanos, e o comércio. Nós temos que ver o comércio como oportunidade, não, uh, como uma coisa competitiva e, uh, que dá medo. Temos que olhar para isso como mais oportunidade. Todas essas coisas sob o guarda-chuva da criação de empregos.

É, mes amis, é o Império, na sua marcha inexorável. Assim, não há humorista que consiga chegar perto. É um caso único, em que a paródia não necessita fazer nada além de citar o original. A literatura pós-moderna tenta há décadas, mas só Sarah Palin consegue transformar a paráfrase em paródia.

PS 1: Continua a curva ascendente de Obama nas pesquisas. Os números mais comemorados hoje foram: 1) Rassmussen dá Obama 50 x 47 em Virgínia, estado republicano; 2) Rassmussen dá Obama 49 x 47 na Carolina do Norte, estado republicaníssimo. 3) Rassmussen dá Obama por 8 pontos na Pensilvânia. Digamos o seguinte: qualquer candidato republicano que esteja atrás 8 pontos na Pensilvânia e sofrendo para empatar nos bastiões vermelhos da Virgínia e da Carolina do Norte está em sérios, sérios apuros.