09/01/2009 - 20:26h Lula fala à revista Piauí

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Entrevista exclusiva concedida pelo Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, à revista Piauí no dia  18 de dezembro de 2008. Publicada na edição nº 28, na primeira semana de janeiro de 2009

Presidente, é o seguinte: eu queria saber… o senhor está com a imprensa aí há quase 40 anos na sua cola. Estando no Planalto, muda a sua relação, piora, o senhor sente que a imprensa é melhor ou pior do que o senhor achava antes ou não?

Eu não vejo, Mário Sérgio, melhora ou piora na imprensa. Eu acho que a imprensa brasileira tem um comportamento, que não é um comportamento de agora, é um comportamento histórico. Eu, por exemplo, sou um cidadão brasileiro que nunca tive a grande mídia brasileira com preocupação de fazer coisas favoráveis a mim, e nunca me preocupei muito com isso, porque antes de tudo eu acredito na inteligência de quem assina uma revista, de quem assina jornal, de quem vê televisão e escuta rádio.

Possivelmente, ainda tenha gente inocente, que acredita que tudo o que ele fala, tudo o que ele escreve é recebido pelo leitor como a verdade mais absoluta, ou seja, ele não acredita na capacidade de análise do leitor, que pega uma matéria e percebe se há má fé, se não há má fé, se a matéria está informando corretamente ou se não está informando corretamente.

Hoje a informação é muito plural, não tem mais apenas a informação de tal revista, a informação de tal jornal. A informação é veiculada por diferentes fontes. Então, quando o cidadão pega o jornal de manhã, aquela matéria ele já viu na televisão, ele já ouviu no rádio, ele já viu em vários blogs (incompreensível) diferentes, então aumenta a capacidade de interpretar do cidadão que lê.

Agora, o senhor falou uma vez, eu fiz uma matéria com o senhor, eleição municipal 2000, 2001. A gente percorreu várias cidades, uma semana, dez dias. Eu, o senhor, tinha mais gente, o Zé Dirceu… Mas aí o senhor… a relação que o senhor tinha com a imprensa, eu observava, o senhor todo dia lia o jornal no avião, lia a parte de esportes. O senhor comentava comigo, o senhor comentou duas vezes comigo: “olha, esse Painel, petista adora o Painel da Folha, até o Kennedy Alencar, eles botam nota”. O senhor tinha uma coisa que curtia a imprensa, o senhor achava, vamos dizer, engraçado. O senhor disse: “se eu tivesse até mais tempo – eu me lembro disso – se eu tivesse mais tempo eu lia isso com mais vagar”. Hoje o senhor tem tempo, o senhor curte mais, curte menos, como é que é hoje?

Bem menos, bem menos.

Isso melhora a sua vida ou não?

Não, acho que melhora. Eu fui deputado e eu sei como é que muita gente passava matérias para o Painel da Folha, para o Informe JB, para aquele negócio do Estadão. Você sabia quais os deputados que ficavam procurando jornalista, você conversava com um cara aqui e daqui…

Sabia o que era plantado…

…sabia o que era plantado e o que não era plantado. Eu sempre dizia que no PT, às vezes uma matéria que saía em um informe qualquer, ou no Painel, era mais vista do que uma matéria do Jornal Nacional. Eu falava isso em tom crítico, porque eu queria mostrar o lado mais intelectualizado da Direção do PT, que não via o que passava no Jornal Nacional, que é o que o povo vê, e via o Painel, que é uma coisa que o povo não lia.

O senhor nunca foi político de fazer esse tipo de ação, vamos dizer, o senhor nunca foi fonte de jornalista, o senhor nunca…

Não gosto, não gosto de ser fonte, porque eu acho que você estabelece uma relação promíscua com o jornalista, com o jornal, com a revista, com a televisão. Se você passa a ser uma espécie de informante privilegiado… no caso do mundo policial, isso seria informante. No mundo jornalístico é mais chique, você passa a ser fonte. Então, é o cara que planta laranja para colher manga, é o cara que planta manga para colher limão…

(mais…)

06/01/2009 - 12:25h Visão opositora

Na sua coluna no jornal O Globo, o articulista Merval Pereira investe contra o presidente Lula.

Segundo Merval, em seu desprezo pela liberdade de imprensa e na sua recusa a ler o que os jornais escrevem,  se esconde o fato que “Ele (Lula) montou uma estrutura de propaganda que não há no país talvez desde a era Vargas, coroada pela criação de uma TV oficial” (…) porque “Do que eles gostam mesmo é de uma imprensa oficial”.

Para Merval Pereira se Lula se informasse melhor, estaria mais próximo da realidade e teria sabido que “o mundo estava numa crise de proporções bem superiores a uma marolinha”.

Erigindo-se em porta-bandeira da liberdade de imprensa, o comentarista da Globo invoca “o grande jornalista Jack Anderson, considerado o pai do jornalismo investigativo, segundo quem a necessidade da imprensa ocupar um lugar antagônico ao governo foi percebida com clareza pelos fundadores dos Estados-Unidos, e por isso tornaram a liberdade de imprensa a primeira garantia da Carta de Direitos”.

Que a imprensa no Brasil ocupa “um lugar antagônico ao governo” me parece uma evidência dificilmente contestável.

Então, o que pretende Merval?

Ele não se contenta com esse lugar antagônico ao governo Lula e considera que a defesa que o “antagonista” faz de suas escolhas, são pura propaganda visando a impor uma “imprensa oficial”. Uma acusação grave e sem nenhum fundamento.

Merval reivindica para si, um direito que ele nega a seu “antagonista”: o direito de criticar e defender seu próprio ponto de vista. O articulista da Globo pretende o monopólio da crítica?

Voltemos ao exemplo da crise econômica mundial. A maioria dos analistas internacionais destacaram a boa situação do Brasil para enfrentar a crise. Foi quase unanimidade entre eles que Brasil não entrará em recessão, mesmo reduzindo seu ritmo de crescimento. Todos coincidem em afirmar que a situação do país é solida e que o governo esta tomando as medidas certas para enfrentar o impacto da crise, incentivando o crédito, os investimentos e o consumo. Longe de subestimar a crise, Lula soube responder ao seu desenvolvimento a altura e, mais que isso, o país está melhor preparado para enfrentar suas consequências. Para Lula o mundo estava mergulhado em uma crise gigantesca mas o Brasil desta vez não fazia parte da causa e os efeitos aqui poderiam ser minimizados. A marolinha eram os efeitos aqui e não a crise lá fora, como insinua Merval.

Já em 1998, quando o país foi para o brejo por conta da decisão do presidente Fernando Henrique de manter sobrevalorizada a moeda até sua releição, jogando no ralo somas fabulosas das reservas do Brasil para manter a paridade do real e o dólar, a maioria dos analistas internacionais apontavam para as gravíssimas distorções e fraquezas da economia brasileira que não poderia continuar sustentando tamanho endividamento.

Pois bem, em ambas situações a maioria dos articulistas daqui, e Merval Pereira entre eles, destoavam em relação aos analistas internacionais.

Desde que a crise do subprime estourou, a imprensa nativa, com raras excepções, insiste em desqualificar o discurso presidencial (e dos analistas internacionais) pretendendo o país despreparado para amortiçar os seus efeitos aqui (na melhor dizem que Brasil esta bem graças a política econômica de FHC). Uma parte da mídia e da oposição parece torcer para o país desandar.

Já em 1998, esquecendo que ela ocupa “um lugar antagônico ao governo”, essa mesma mídia fazia eco ao carimbo de “neobobos” com o qual os tucanos rejeitavam o “catastrofismo petista”.

É que em 1998, Merval colocava o acento sobre o lugar da imprensa em outro lugar. Nada de “antagônico ao governo”. Na época ele a definia assim:

“Exercemos um papel socialmente relevante – o de ser um canal de comunicação entre Estado e Nação e entre os muitos setores da Nação entre si. É nossa atribuição fazer com que o Estado conheça os desejos e intenções da Nação, e com que esta saiba os projetos e desígnios do Estado.”

Merval acrescentava que “Justifica-se essa definição de nosso papel com o fato de que, no sistema democrático, a representação é fundamental, e a legitimidade da representação depende muito da informação, que aproxima representados e representantes.”

Por isso, em 1998, ele fustigava o denuncismo e proclamava: “o denuncismo é uma deturpação e um inimigo dos nossos próprios interesses profissionais e empresariais” (todas estas citações são da dissertação de Merval Pereira no 10 Fórum Nacional em 11 de maio de 1998, publicado pelo Observatório da Imprensa).

Este “esquecimento” do seu “lugar antagônico ao governo” parece ser uma constante da maioria da mídia, quando o governo é ocupado pelos tucanos. Basta ver o espaço que os jornais dão aos representantes da oposição ao governo Serra-Kassab, no Estado de São Paulo, para perceber quanto é fantasiosa a suposta “independência” arguida.

A própria afirmação de Merval Pereira sobre a “estrutura de propaganda” faz parte do lenga-lenga oposicionista, que junto com o “terceiro mandato” e outras invencionices do mesmo teor, poluem o noticiário enviesado da imprensa.

Basta olhar para a quase totalidade dos articulistas dos principais jornais do país para constatar que a oposição ao governo está amplamente representada e raríssimos são os que com Lula ou o PT simpatizam. Os chamados “formadores de opinião” são oposicionistas, não por apego ao lugar antagônico invocado por Merval e sim por simpatias pouco dissimuladas pela oposição.

Mesmo assim, nos seis anos do governo petista nenhuma ação cerceadora da liberdade de imprensa foi implementada ou projetada. Diferentemente de outros, nunca Lula levantou o telefone para exigir a cabeça de algum jornalista. A liberdade de imprensa aqui é total e irrestrita.

Agora querer que o presidente seja obrigado a ler as baboseiras que alguns escrevem para provar seu apego a liberdade da imprensa é querer demais.

Luis Favre

 

 

 

Visão oficial

Merval Pereira – O Globo

NOVA YORK. O jornalista Ricardo Kotscho, primeiro assessor de imprensa do presidente Lula, ensinou a ele a diferença entre notícia e propaganda: notícia é tudo aquilo que o governo não quer ver publicado. O resto é propaganda. Mas Lula, ao que tudo indica, não aprendeu. Dando sequência a diversas declarações espaçadas com críticas à imprensa, que considera que só vê o lado negativo, o número de janeiro da revista “Piauí” traz uma reveladora entrevista do presidente feita pelo editor-chefe da revista, Mario Sérgio Conti, especificamente sobre sua relação com a imprensa, uma relação, do seu ponto de vista, tumultuada e injusta desde que assumiu a Presidência da República, em 2003.

Mas, a se julgar pelo que está dito na entrevista, o que está tumultuada é a capacidade de julgamento do próprio presidente, a começar pelo fato de que ele admite que não lê jornais e revistas, não acessa a internet para ler notícias, não lê blogs de jornalismo, não vê televisão, porque tem azia.

Embora passe a entrevista reafirmando a importância da liberdade de imprensa e que não quer que apenas falem bem dele, o presidente Lula revela todo o seu desagrado com o noticiário crítico e, assim como quando se vangloria de ter chegado à Presidência sem ter uma educação formal estimula a falta de estudos, desqualifica a importância da imprensa na vida do país.

Então, como se informa o presidente da República? Além das audiências, onde recebe representantes da sociedade brasileira que lhe transmitem suas opiniões e sensações que seriam, segundo ele, um painel amplo do que acontece no país, Lula recebe informações especialmente de dois assessores diretos: de Clara Ant, assessora especial, e do jornalista Franklin Martins, ministro da Comunicação Social.

Quando consideram que merece a atenção do presidente, eles até lhes levam recortes de jornais e vídeos de reportagens. Na maior parte das vezes, porém, o que lhes transmitem, como fica claro na entrevista de Lula, são suas opiniões pessoais sobre o que está sendo publicado.

Clara Ant, por exemplo, conta que fica revoltada quando insinuam que o presidente Lula não gosta de ler. Na Casa Branca, diz ela, os relatórios que saem de uma imensa estrutura de seleção e análise de notícias acabam em um documento para a secretária de Estado, Condoleezza Rice, em pequenos parágrafos de não mais de quatro linhas cada.

O que Clara Ant não conta, ou não sabe, é que é assim porque também o presidente George Bush não é muito chegado a uma leitura. Quem conta é Richard Clarke, chefe do conselho de contraterrorismo da Casa Branca, no número de fevereiro da revista “Vanity Fair”, já nas bancas:

“No início da administração, Condy Rice e seu adjunto, Steve Hadley, disseram francamente: não deem ao presidente um bando de longos memorandos. Ele não é um grande leitor”.

Temos então um presidente que confessadamente se informa do que acontece pelo mundo ou com assessores que pensam como ele, ou com pessoas que pediram uma audiência e dificilmente vão ao Palácio do Planalto para criticar, mas para pedir favores ou decisões do governo.

Mas tanto o presidente Lula quanto o ministro Franklin Martins têm opiniões muito parecidas sobre a importância da grande imprensa. Os dois acham que o surgimento de canais de informações alternativos, com os novos meios tecnológicos, dá mais pluralidade ao noticiário e neutraliza a influência dos formadores de opinião, o que ajudaria o presidente Lula, em última análise.

Embutida nessa tese está a teoria da conspiração de que os grandes veículos de informação estão unidos contra o governo Lula. Em mais uma incongruência, Lula repete na entrevista uma tese que já havia firmado anteriormente, de que ele só chegou à Presidência graças à liberdade de imprensa existente no país.

Já que escrevo dos Estados Unidos, não é demais relembrar o grande jornalista Jack Anderson, considerado o pai do jornalismo investigativo, segundo quem a necessidade de a imprensa ocupar um lugar antagônico ao governo foi percebida com clareza pelos fundadores dos Estados Unidos, e por isso tornaram a liberdade de imprensa a primeira garantia da Carta de Direitos.

“Sem liberdade de imprensa, sabiam, as outras liberdades desmoronariam. Porque o governo, devido à sua própria natureza, tende à opressão. E o governo, sem um cão de guarda, logo passa a oprimir o povo a que deve servir”.

Thomas Jefferson entendeu que a imprensa, tal como o cão de guarda, deve ter liberdade para criticar e condenar, desmascarar e antagonizar. “Se me coubesse decidir se deveríamos ter um governo sem jornais ou jornais sem um governo, não hesitaria um momento em preferir a última solução”, escreveu ele.

Para o ex-presidente americano, o caminho mais eficiente até hoje encontrado para a busca da verdade é a liberdade da imprensa. “Por isso, é o primeiro a ser fechado por aqueles que receiam a investigação de suas ações”.

A visão de Lula talvez se aproximasse mais da realidade, e ele saberia mais cedo que o mundo estava numa crise de proporções bem superiores a uma marolinha se, como todo cidadão interessado no país, lesse jornais, revistas, visse o noticiário da televisão, lesse os blogs, se informasse, enfim, com a pluralidade que a democracia oferece, e não apenas com subordinados ou dependentes.

Os canais de informação do presidente, porém, estão mais para propaganda do que para notícia. Ele montou uma estrutura de propaganda que não há no país talvez desde a Era Vargas, coroada pela criação de uma TV oficial, assim como, dentro de suas possibilidades, Evo Morales está lançando um jornal oficial na Bolívia.

Do que eles gostam mesmo é de uma imprensa oficial.

06/10/2007 - 19:08h Rosa feérica


MIRIAM YOUNG E CRISTINA TARDÁGUILA

REVISTA PIAUÍ

Uma rosa não é uma rosa não é uma rosa não é uma rosa qualquer. Em Holambra, no interior de São Paulo, os visitantes da 26ª Expoflora indagavam: é de verdade? É uma homenagem à causa gay? É comestível? Eles foram os primeiros a ver ao vivo, em setembro, a rosa que tem uma pétala de cada cor.

Na maior feira de flores e plantas da América Latina, 300 mil pessoas passearam entre samambaias, observaram tamanhos diferentes de xaxins, aproximaram os narizes de gérberas, begônias e orquídeas, e fotografaram tudo o que estivesse fincado em um vaso de terra. Todos os dias, ao final da tarde, presenciaram uma chuva de pétalas, providenciada pelo mal-me-quer de 18 mil rosas. Também se deleitaram com shows de danças folclóricas e provaram comida típica da Holanda, o maior produtor mundial das flores. Entre os estandes que reproduziam cogumelos em tamanho gigante, e jardins povoados por coelhos de madeira, o da rosa multicolorida foi o mais visitado.

A flor feérica é produto de uma técnica inovadora de tingimento, que possibilitou, pela primeira vez, a produção em massa de espécimes de várias: uma única rosa tem pétalas amarelas, azuis, laranja, lilases, verdes, rosas e vermelhas. Houve quem considerasse o resultado de gosto um tanto duvidoso, a até meio cafona. Difícil combinar o arranjo colorido com o sofá da sala ou a cor da cortina. No entanto, as 9 000 amostras trazidas ao Brasil pelo holandês Michel de Graaff, ao preço de 15 reais cada, foram avidamente tiradas das prateleiras. Na última semana da exposição, só 2 000 delas ainda estavam à venda.

A Rosa Alegre, tradução literal do nome em inglês, veio ao mundo em novembro, fruto do trabalho obsessivo de seu produtor, o também holandês Peter van de Werken, um floricultor de crisântemos da cidade de Rijnsburg, no sul dos Países Baixos. Formado em jardinagem, mas com um interesse particular em ciências, Werken se viu numa encruzilhada quando o lucro da venda de seus buquês atingiu a metade do valor da época em que seu pai comercializava os mesmos crisântemos. Era preciso inovar.

Foi quando ele inventou a primeira máquina de tingimento de crisântemos totalmente automatizada. As flores recebiam doses de anilina na água, o que fazia com que sua corola apresentasse uma mescla de cores, em efeito degradê. A produção ainda era restrita, mas o sucesso foi imediato. Houve no caminho, contudo, uma surpresa: um sócio de Werken roubou-lhe o projeto e se tornou seu maior concorrente.

O holandês voltou à prancheta e ao laboratório. Decidiu enfrentar o desafio de criar flores multicoloridas em escala comercial. Teve a idéia de testar o processo em rosas. O resultado foi surpreendente. Ao contrário dos crisântemos, que exibiam o miolo com cores misturadas, cada pétala de rosa apareceu com uma cor diferente. As possibilidades de criação se mostraram infinitas. A Rosa Alegre dura o mesmo tempo, conserva a mesma textura e tem o mesmo aroma da rosa original.

Em 2002, o homem que trouxe a Rosa Feliz para o Brasil, Michel de Graaff, de 35 anos, deixou a Holanda e instalou-se no Ceará, para cultivar rosas por diletantismo. Há dois anos, transferiu-se para Holambra, onde montou um empreendimento de produção e venda de flores decorativas. Em novembro, assim que passou a ser comercializada, Graaff viu a Rosa Alegre em uma feira, a Aalsmeer Market, no interior da Holanda. “Fiquei atônito”, contou. “Se aquilo era possível, tudo era possível.” Imediatamente, fez a encomenda para a Expoflora.

De sua casa, na Holanda, Werken, o inventor da Rosa Feliz, não revela os segredos mais recônditos da sua descoberta. A péssima experiência com o sócio ensinou-lhe o surrado jargão de que o segredo é a alma do negócio. Ele disse que ainda não decifrou em detalhes o fenômeno, mas contou que a base do processo é a mesma da técnica tradicional: mergulhar as flores numa tintura e depois na água.

Para conseguir a separação das cores, ele concebeu uma solução que contém diversos pigmentos. As flores conseguem isolar as tonalidades porque cada uma delas possui uma estrutura molecular diferente. O segredo também parece depender de um princípio básico da natureza, o de que as plantas separam naturalmente os compostos químicos absorvidos do solo, para usá-los como nutrientes. Alguma coisa ocorre – e é isso que Werken esconde –, fazendo com que cada pétala ganhe uma cor própria. Depois de embebedadas em tal mistura, as rosas são mergulhadas em outras soluções químicas, que ajudam a estabilizar as cores. Mais do que isso, Werken não conta. Nada diz sobre uma nova máquina inventada por ele, que parece estar escondida atrás de uma barreira complexa de caixas empilhadas em seu escritório.

É muito mais difícil criar flores a partir de uma seleção controlada de cores do que com uma mescla infinita aleatória, mas Werken conseguiu alguns exemplos. Um deles é o de uma combinação verde e amarela, que seria um excelente complemento para as lapelas do presidente Lula e da primeira-dama, Marisa, no próximo dia 7 de setembro.

No próximo mês, a experiência com cores controladas será colocada à prova. O banco holandês Rabobank, cuja logomarca é em tons de laranja e azul, fez uma encomenda milionária de rosas nas duas tonalidades para seu estande numa das principais feiras comerciais do mundo, em Amsterdã.

Os cuidados com a Rosa Alegre são os mesmos reservados às flores comuns: trocar a água do vaso a cada três dias e cortar o pé do caule num ângulo de 45 graus, para atingir maior superfície de contato com a água. É recomendável, também, arrancar todas as folhas antes de mergulhar o caule na água. As folhas, informam os floristas, são grandes focos de bactérias.

“A Rosa Alegre ainda engatinha”, diz Werken. O sucesso de sua experiência tem apenas dezoito meses. Se um dia será possível cultivá-las em casa, ele ainda não sabe. Mas já se debruça sobre o projeto de criar um composto químico para o solo, a fim de viabilizar a idéia.

A organização da Expoflora inventou um concurso para que os brasileiros escolhessem um apelido para a Rosa Alegre. Quem entrava na feira ganhava um papelzinho para votar. Foram contabilizados 15 mil votos. Entre os nomes sugeridos, estavam Tropicália, Rosa do Amor, Melindrosa, Mesclada, Rosa Gay, Rosabela, Chuva de Tinta e Rosa Multicolorida. Os mais citados foram Aquarela e Arco-Íris. Houve um voto, de um visitante do Mato Grosso, para batizar a flor de Marta Suplicy. O pessoal da Expoflora não entendeu nada.

02/10/2007 - 20:00h Poemas, Poesias, Piauí

Ouça a poesia VALSA PARA GRAÇA (clique no nome)

Uma ótima escolha da Revista Piauí

Eucanaã Ferraz nasceu no Rio de Janeiro, em 1961.

Poeta, publicou:
Livro Primeiro (Rio de Janeiro: Ed. do Autor, 1990),
Martelo (Rio de Janeiro: Sette Letras, 1997),
Desassombro (Famalicão, Portugal: Quasi Edicões, 2001)
Desassombro (Rio de Janeiro: 7 Letras, 2002), prêmio Alphonsus de Guimaraens, da Biblioteca Nacional.

Tem poemas publicados em revistas especializadas (Brasil, França e Portugal).
Participou da antologia Esses poetas – uma antologia dos anos 90, organizada por Heloísa Buarque de Hollanda (Rio de Janeiro: Aeroplano, 1998).

Participou de várias encontros de poetas, entre eles a I Bienal Internacional de Poesia de Faro, Portugal, 2001; e o II Encontro Internacional de Poetas na Ilha de Porto Santo, 2002 (Região Autônoma da Madeira, Portugal).

Professor de Literatura Brasileira na Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde obteve título de mestre com a dissertação Drummond: um poeta na cidade, em 1994, e se doutorou com a tese Máquina de comover: a poesia de João Cabral de Melo Neto e suas relações com a arquitetura, em 2000.

Tem ensaios publicados em revistas e jornais nacionais e internacionais. Colabora regularmente como resenhista no Jornal do Brasil.

É membro da Cátedra Jorge de Sena para estudos literários Luso-Afro-Brasileiros, ligada à UFRJ e à Fundação Calouste Gulbenkian(Portugal), que, entre outras ativiades ligadas ao ensino e à pesquisa, publica a revista Metomorfoses.

28/09/2007 - 16:58h Revista Piauí: O indignado anônimo




ALFREDO RIBEIRO

Ele odeia o apelido que lhe caiu feito luva no botequim da esquina. “Indignaldo é o cacete!” – reagiu, bravo, às provocações do pessoal da firma no serão etílico da última sexta-feira. Neguinho faz de molecagem. “E o Renan Calheiros, hein, Indignaldo?!” Tem sempre um engraçadinho pra botar pilha na bronca do colega. Divertem-se com a cólera galopante que, a certa altura da conversa, de qualquer conversa, faz sua impaciência transbordar, feito chope tirado na pressão, frente ao estado de coisas a que chegamos. O cara é um indignado épico, caricatura de homem de bem injuriado, delirante e genérico contra tudo o que aí está, do governo Lula ao xixi na tábua, da fila do INSS à pedofilia na internet, do achaque do flanelinha ao lucro do Bradesco. O bicho está por aqui, ó, com o brasileiro. Há muito perdeu a paciência com o país. “Ô, raça!” – resmunga a cada flagrante de bandalha que testemunha.

Indignaldo é um tipo de chato que, estimulado ao exagero, tem lá sua graça, desde que observados certos limites da sacanagem. A brincadeira de fazê-lo perder as estribeiras prevê que alguém peça a conta em tempo hábil, para que seu discurso não atinja o anticlímax da infalível citação de Rui Barbosa: “De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto”. Isso por causa de alguém que furou a fila do supermercado, francamente, ninguém merece. O próprio já se deu conta de que a eloqüência foge-lhe inteiramente ao controle sempre que cisma de elogiar a última crônica de Arnaldo Jabor, sobretudo nos almoços de domingo, com a família da mulher. No Dia dos Pais, então, foi constrangedor. Precisou a sogra lhe dar água com açúcar, as crianças não entenderam nada. Baixou-lhe o santo do não-dá-mais-para-viver-neste-país-de-sanguessugas.

Contando assim não parece, mas Aguinaldo Gladyson dos Santos, 52 anos, Indignaldo para os íntimos, é um homem comum. Pai de três rapazinhos adolescentes, casado com a mesma mulher há dezoito anos, está prestes a quitar o apartamento que comprou em prestações quando ainda era noivo. O carrinho na garagem, ele tirou no consórcio. Indignaldo está em dia com tudo. Não exerce a função no momento, mas preserva o espírito de síndico. Sua mania de correção lhe rendeu, além de brigas com vizinhos, um sucesso relativo no trabalho. Ganhou, há três anos, um cargo de confiança, no setor de processamento de dados na instituição financeira onde trabalha desde 1992. Estaria, enfim, tudo razoavelmente certo na sua vida – não fosse seu inconformismo com a coisa errada. Das guimbas que o sujeito do 501 joga pela janela ao aquecimento global, tudo é motivo para um discurso exaltado do pobre Indignaldo.

Não tem caos aéreo, ultrapassagem pelo acostamento, crise nas bolsas de valores, latido de cachorro de vizinho, escândalo no Congresso, engarrafamento em véspera de feriado, língua negra na praia, seqüestro relâmpago, entrevista de Caetano Veloso, fila do visto no consulado americano, telemarketing, gente que fala no cinema, Dunga, piercing no bico do seio, enchente, operação da PF, Bruna Surfistinha, José Dirceu, Daniela Cicarelli, Big Brother Brasil ou manchete de prostituição infantil no Jornal Nacional que não o deixe do jeito que o diabo gosta – meio Rui Barbosa, meio Arnaldo Jabor – fazendo jus ao apelido que detesta ouvir.

Fingiu que não era com ele o quanto pôde, até aquela noite em que reagiu mal, ao cair da ficha: Indignaldo já era personagem conhecido de todos, atração do botequim há tempos. “Meu Deus, que vergonha!” O que pegou – mais ainda que a falta de respeito com a questão do fim das utopias que embalava sua falação – foi aquela sensação de que seu zelo pela coisa certa tinha virado piada, motivo de galhofa, risadinhas pelas costas.

O indignado compulsivo tem com a queixa a mesma relação do alcoólatra com a bebida. Não sabe a hora de parar, exagera na dose de correção no mundo caótico em que vive, vira um porre. A certo ponto da conversa, pode-se até confundir o discurso do bêbado com o do indignado. Com todo respeito ao Nizan Guanaes, esse papo de “e aí, nós não vamos fazer nada?” poderia muito bem ser coisa de algum pinguço resistindo à idéia de voltar para casa às 4 da madrugada. Se acrescentar um “porra” no final, então…

Deprimido, Indignaldo bateu perna com a depressão até quase amanhecer. Não bebeu nada. Tomou consciência de que não sabe mais se indignar socialmente, como o Gabeira, por exemplo, sem nunca perder a linha. Passa sempre da medida, dá uns tapas a mais, torna-se inconveniente, agressivo na exposição de seu ponto de vista, intolerante, dono da verdade. Chegou em casa com essa questão e levou a família às lágrimas ao pedir desculpas aos filhos por ter-lhes enchido o saco com esse seu jeito sempre irritado contra tudo e todos. Decidira largar a indignação. “Se precisar, paro até com o Jornal Nacional, para não cair em tentação.” Os garotos passaram do choro ao riso em instantes com seu bom humor, coisa rara no pai. Até o fim do expediente de segunda-feira, quando falou a respeito com dois ou três amigos de trabalho, sua recuperação parecia favas contadas.

Calhou de na volta para casa um motorista de van – ô, raça! – estragar tudo com uma fechada que quase joga na calçada o carro recém- quitado do novo Aguinaldo, o ex-Indignaldo. Subiu-lhe um troço mais quente que sangue à cabeça. Algo desproporcional à barbeiragem do perueiro, maior do que a bagunça do transporte público, pior do que o desgoverno… Estava pálido e desfigurado quando o filho mais novo abriu-lhe a porta de casa. “A culpa é do Lula!” – foi tudo que conseguiu falar, tentando equilibrar-se sobre as pernas, antes de desmaiar sobre o moleque. Gritaria! Veio todo mundo lá de dentro ajudar a levá-lo pra cama.

O médico diz que é estresse, mas o paciente sabe que não é só isso. Está convencido de que a indignação, pelo menos da forma nele manifesta, é um vício como outro qualquer. Não contou essa parte para ninguém, nem para o doutor Lamy, mas, depois de perseguir sem sucesso a van que desencadeou sua última crise, Indignaldo parou o carro para discutir com o padeiro sobre o peso do pão francês comprado na véspera. Não lembra direito o que aconteceu daquele momento até apagar nos braços do filho. Torce para não ter encontrado o Poodle da vizinha urinando, como de hábito, no elevador.

Desde então, faz três semanas que Indignaldo não aparece nos serões etílicos do pessoal da firma. Sem zangas. Tem aproveitado todo tempo livre para procurar, na internet, indignados compulsivos que, como ele, estejam dispostos a encarar a insatisfação generalizada como uma dependência crônica de problemas. Quer fundar a AIA, a Associação dos Indignados Anônimos, nos mesmos moldes que os alcoólicos e narcóticos criaram, em busca de apoio mútuo. Cada dia sem ficar puto dentro das calças é uma batalha vencida na guerra permanente contra o vício da lengalenga combinada com aporrinhação.

Se é o seu caso, companheiro, escreva já para indignaldo@aia.com.br dizendo que apóia e se dispõe a participar como voluntário da iniciativa. Dê um basta à indignação, mas vê lá se não exagera no que vai dizer a respeito. O pior indignado é o que se exalta contra a indignação.