03/07/2008 - 09:06h Injustiça e desordem

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foto Sebastian Salgado

VERISSIMO - O Globo

Quando Goethe disse que preferia a injustiça à desordem, a Europa recém fora sacudida pela revolução francesa e enfrentava outro terremoto, o bonapartismo em marcha. Sua opção não era teórica, era pela específica velha ordem que os novos tempos ameaçavam. Por mais injusta que fosse, a velha ordem era melhor do que as paixões incontroláveis libertadas pela revolução.

Mas a frase de Goethe atravessou 200 anos, foi usada ou repudiada por muitos, na teoria ou na prática e em vários contextos, e chega aos nossos dias mais atual do que nunca. Você não pode pensar na questão agrária brasileira, por exemplo, sem cedo ou tarde ter que se perguntar se prefere a justiça ou a ordem.

A injustiça no caso é flagrante e escandalosa. Mesmo que se aceite todas as teses sobre o desvirtuamento do movimento dos sem-terra e se acate a demonização dos seus líderes, militantes e simpatizantes, a dimensão do movimento é uma evidência literalmente gritante do tamanho da iniqüidade fundiária no Brasil, que ou é uma ficção que milhares de pessoas resolveram adotar só para fazer barulho ou é uma vergonha nacional. A iniqüidade que criou essa multidão de deserdados no país com a maior extensão de terras aráveis do mundo é a mesma que expulsou outra multidão para as ruas e favelas das grandes cidades, deixando o campo despovoado para o latifúndio e o agronegócio predatório.

A demora de uma reforma agrária para valer, tão prometida e tão adiada, só agrava a exclusão e aumenta a revolta.

Quem acha que desordem é pior do que injustiça tem do que se queixar, e a que recorrer. As invasões e manifestações dos sem-terra se sucedem e assustam. Proprietários rurais se mobilizam e se armam, a violência e o medo aumentam, a reação se organiza. Agora mesmo no Rio Grande do Sul, enquanto endurece a repressão policial às ações do MST, um documento do Ministério Público estadual prega a criminalização de vez do movimento, caracterizando-o como uma guerrilha que ameaça a segurança nacional, com ajuda de fora. É improvável que uma maioria de promotores de justiça do estado, transformados em promotores de ordem acima de tudo, tivesse abonado o documento como estava redigido, com seu vocabulário evocativo de outra era. Mas ele dá uma idéia da força crescente do outro lado da opção definidora, dos que escolheram como Goethe.

12/05/2008 - 17:20h L’année 1968 en photographies

A Saïgon, le 1er février 1968, alors que débute “l’offensive du Têt”, le chef de la police sud-vietnamienne exécute d’une balle dans la tête un officier communiste. Cette photo vaut à son auteur, Eddie Adams, le prix Pulitzer.

Le 31 janvier 1968, la nuit du Nouvel An lunaire, les soldats nord-vietnamiens communistes du Front national de libération se lancent à l’assaut des villes du Sud-Vietnam et encerclent les principales bases américaines à Huê et Khe Sanh. C’est un échec militaire pour le FNL, mais une victoire politique. Les Américains se rendent compte qu’une victoire rapide au Vietnam est hors de portée.

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12/05/2008 - 08:41h Maio 68: Um ano que continua a resistir a qualquer teoria ou interpretação

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No campo da memória, cada pessoa colore os eventos de Maio de 68 com os próprios pincéis

Gilles Lapouge - O Estado de São Paulo

Estamos em maio, esse belo mês, com sua suave luminosidade, os lírios do campo, o verde, as rosas e, como acontece a cada dez anos, as comemorações do Maio de 68, as amplas revoltas estudantis que não conseguiram demolir o governo francês mais poderoso e mais respeitável do século, o governo do general De Gaulle.

Nenhuma cerimônia de aniversário, mas muitas reuniões, artigos, livros, um “espírito da época”. Por que tantos discursos? Em primeiro lugar, porque 40 anos se passaram. Um lapso de tempo que dá àqueles eventos um “ar histórico”.

Além disso, o presidente Nicolas Sarkozy, quando ainda era um homem “glorioso” e não um “ineficaz” (ou seja, há um ano), definiu-se como “o homem que ia liquidar Maio de 68”. Bravo Nicolas! (alguns meses depois, Sarkozy casou-se com uma espécie de ressurreição dos estudantes de Maio de 68, a bela Carla Bruni, “queridinha” da “esquerda festiva”, superlativamente).

E, de novo, percebe-se que Maio de 68 continua rebelde a todas as interpretações, teorias e recuperações. Cada um colore Maio de 68 com os próprios pincéis, com cores que, segundo o caso, são ou anarquistas, ou festivas, utópicas, tirânicas, sexuais, dirigistas, individualistas, comunitárias, etc.

mai68.jpgMaio de 68 é um episódio incompreensível sobre o qual todos os modelos apenas resvalam. Mesmo com 40 anos de distância, ninguém sabe realmente o que foi exatamente. É um “objeto histórico não identificado”, não identificável; não se parece com nada. E nada do que se faz ou do que se pensa hoje poderia se dizer que é um eco, um reflexo, mesmo deformado, de Maio de 68.

Por exemplo, hoje, nesta primavera de 2008, as ruas de Paris ferveram, com alunos, estudantes, professores, gritando. Imediatamente, os jornais evocaram uma espécie de “prolongamento” ou um obscuro “retorno” de Maio de 68. Ora, basta ouvir os slogans gritados hoje para compreender que são antípodas daqueles de 68.

Em Maio de 68, os estudantes se manifestaram contra a disciplina, contra os mestres que impunham uma ordem austera, contra as faculdades onde os professores, os “mandarins”, davam seus cursos em toga e arminho. Maio de 68 queria, ao contrário, que as obrigações e as lições desaparecessem, que os exames fossem abolidos, que os professores se recolhessem no seu canto, que as idéias se fizessem sozinhas, por partenogênese, por qualquer um e por todo o mundo.

Em 2008, os netos dos magníficos doidivanas de 68 são sérios como cardeais. Invadem a rua para reclamar o contrário da liberdade cara a seus “jovens avós” de 1968: eles querem mais professores, mais lições para “decorar”, mais disciplina, mais exames, mais seriedade.

Os manifestantes de 68 eram alegres como as borboletas, os loucos, os malabaristas. Os de 2008 são circunspectos, angustiados. Têm medo de seus estudos, da profissão que não vão encontrar, da sociedade macilenta que os aguarda.

Salvo alguns casos um pouco patológicos, os estudantes de 2008 não falam em revolução, mas de ordem, regulamentos. Empreendem um combate corporativista, sem jamais questionar as estruturas da sociedade presente. Querem apenas melhorar as engrenagens e, sobretudo, que os mestres os façam trabalhar, que os preparem para a sua futura inserção, sem dramas, na sociedade liberal.

Em Maio de 68, o termo “revolução” estava em todas as bocas. E cada grupo desse “conjunto em fusão”, como disse Sartre, produzia o próprio modelo de revolução. Cada um tentava trazer novamente à tona uma antiga revolução fracassada ou subvertida.

Era a “tomada da Bastilha” em 1789, Lenin dançando na neve de Moscou em 1905 durante a revolução bolchevique (fracassada), ou a Comuna de Paris (anarquista) em 1871, a revolução literária do surrealismo em 1920, ou mesmo a revolução de Mao Tsé-tung.

Por isso, houve tantas barricadas nas ruas de Paris: como os estudantes souberam que, em julho de 1848, e na primavera de 1871, os insurgentes erigiram barricadas com paralelepípedos, resolveram fazer a mesma coisa, numa imitação um tanto supersticiosa e nostálgica, atirando-os contra os pobres policiais.

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Mas, mesmo quando invocavam esta ou aquela antiga revolução, torciam o seu sentido. Era uma referência mais “literária” do que “política”. Maio de 68 não pretendia tanto repensar a sociedade, mas mudar a visão do mundo, inventar uma nova filosofia. Os estudantes apostavam que, após a sua revolução, uma outra sociedade, como nunca houve até então na história, aliás bastante imprecisa, seria construída com base naquela nova visão do homem.

Por isso, a herança mais concreta de 1968 se inscreve menos no âmbito da política e mais no campo dos costumes, quase da filosofia. A primeira centelha de Maio de 68 não foi uma reivindicação financeira ou de uma alternativa à sociedade capitalista: foi um pedido apresentado pelos estudantes para se permitir que os rapazes fossem ao quarto das meninas no campus da universidade de Nanterre.

E o mesmo para convidar os professores das faculdades a sacudirem a poeira na qual dormitavam há dois séculos, a virem se juntar à “modernidade”. Pouco tempo depois de Maio de 68, assistimos a um espetáculo extraordinário: um professor chegou à sala de aula em “jeans” (da marca Lévi Strauss 501, aliás impecável), na faculdade revolucionária de Vincennes. Era o grande lingüista americano Noam Chomsky.

Inútil dizer que as mudanças desencadeadas por Maio de 68 em relação aos costumes, no cotidiano, na “visão do mundo”, são uma das maiores heranças desse mês extraordinário: a permissão de as mulheres usarem calças compridas, a fraternidade, a simplicidade, a liberação sexual, o direito ao aborto, o reconhecimento dos casais homossexuais, tudo isso foi efeito direto, às vezes tardio, de 68.

Com os dias passando, esse movimento lúdico constatou com espanto que aquela agitação se comunicava por si só: de amigo para amigo, ela foi para outras universidades e depois passou para a França inteira e foi além. Os estudantes viram que, sem que fosse aquele o objetivo, tinham adquirido um enorme contrapoder que fez vacilar o majestoso e brilhante general De Gaulle.

A palavra até então acorrentada se soltou, como louca, meio embriagada. Todo mundo falava com todo mundo. As barreiras sociais, cívicas, educacionais, geracionais, os códigos glaciais de comportamento, tudo desmoronou… Paris falava, falava, como um ébrio. Falava-se qualquer coisa, uma profusão de besteiras e algumas idéias inspiradas.

Com o passar do tempo, conceitos mais nitidamente políticos se insinuaram, tanto mais que o movimento se ampliou de tal maneira que contagiou outras classes, além da estudantil: operários, patrões, médicos, cineastas, todo o mundo. O movimento, ao crescer, se politizou.

E desse segundo capítulo, mais político, o que restou? Aparentemente nada. A sociedade se reconstituiu com seus altos edifícios, suas cidadelas, seus softwares. Ela se desenvolveu ao contrário das esperanças de 68, com Reagan, Thatcher, a ordem moral, etc…

Mas, na realidade, assim mesmo Maio de 68 se inscreveu na “política”. Para mim, um dos momentos mais bizarros dessas jornadas bizarras foi o grande desfile organizado no coração de Paris, em torno da praça Denfert-Rochereau.

Era um início de tarde. Nessa praça há uma estátua de um grande leão de bronze. Os manifestantes afluem de todas as partes, em grupos distintos: libertários, poetas, comunistas, vândalos, maoístas, arruaceiros, anarquistas, tipos divertidos.

Um jovem escala a estátua do leão. É um ruivo. Chama-se Daniel Cohn-Bendit. Parece um duende. É ele quem vai organizar o imenso cortejo. Com um megafone, chama os diferentes grupos: libertários, “fourieristas”, trotskistas, etc. E termina, gritando: “… e a crápula stalinista, no fim do cortejo!” Nesse dia, alguma coisa se passou no fundo das consciências. Maio de 68 permitia à juventude, pela primeira vez e solenemente, ser ao mesmo tempo “de esquerda” (pois Maio de 68 foi um movimento de esquerda) e, no entanto, ferozmente anti-stalinista, anticomunista, anti-soviética.

Não vamos dizer que Maio de 68 prefigurou os tremores de terra que se verificaram 20 anos depois e que derrubaram a fortaleza soviética. Pelo menos, precisamos reconhecer que, nessa ocasião, esses revoltosos, um pouco loucos e um pouco infantis, de Maio de 68, alguns dias antes de serem rechaçados ao seu silêncio pelo retorno triunfal de De Gaulle, pressentiram os enormes abalos que se seguiram, do arquipélago de Gulag às pregações do papa João Paulo II, da glasnost de Gorbachev às revoltas, também corajosas e grandiosas, das populações de Varsóvia ou de Berlim Oriental, cujo resultado seria a morte do comunismo, nos anos 90.

21/03/2008 - 02:18h Nuit 68 : «Enragez-vous»

par Agnès Giard

«2008. Esprit de contestation, es-tu là ?» Vendredi 21 mars, au Lieu Unique, à Nantes, entrez librement dans un centre d’art reconverti en usine à penser : conférences, projections de films, lectures, discussions, musique… Et beaucoup de cul —il en faut—, pour redonner aux gens le goût du plaisir.

Nuit68

Le plaisir librement pris, le plaisir sans entraves, sans tabous, sans honte, n’est-il pas plus que jamais d’actualité ? «68 ne fait que commencer», affirme François Cusset. Enseignant de l’histoire intellectuelle à Sciences Po, auteur de Queer Critics et French Theory, il n’a pas la dent tendre avec les soixante-huitards : «On a l’impression d’avoir trop entendu parler de mai 68, une overdose soixante-huitarde, que ça soit pour ou contre. C’est que ce sont toujours les mêmes qui s’en font les représentants, qui nous en éloignent comme d’une préhistoire et nous repassent toujours les mêmes clichés évitant de penser. Alors que tout ce qui fait la singularité de mai 68 est toujours d’actualité.»
A 19h, au Lieu Unique, François Cusset inaugure les débats avec un coup de gueule bien mordant. Non, Mai 68, ça n’était pas qu’un feu de paille. Oui, le combat continue. Vous voulez être heureux ? Alors, au boulot.

Organisée par Virginie Pringuet, la Nuit 68 est une invitation à faire la fête mais, surtout à retrousser les manches. Bien que nous vivions dans un des pays les plus libres au monde, il y a encore tellement de choses à changer. Certains vieux slogans conservent toute leur charge explosive : “Déboutonnez votre cerveau aussi souvent que votre braguette”, “Faites l’amour et recommencez”, “Enragez-vous”, “Je décrète l’état de bonheur permanent”, “Inventez de nouvelles perversions sexuelles”, “Consommez plus, vous vivrez moins”, “Sous les pavés, la plage”, “Il est interdit d’interdire”, “Je prends mes désirs pour la réalité car je crois en la réalité de mes désirs”, “Jouissez sans entraves, baisez sans carotte”, “La liberté d’autrui étend la mienne à l’infini”, “Faites l’amour, pas la guerre”, “Dieu, c’est moi”, “Aimez-vous les uns les autres”, “Plus je fais l’amour, plus j’ai envie de faire la révolution. Plus je fais la révolution, plus j’ai envie de faire l’amour”, “La vie est ailleurs”, “L’imagination au pouvoir” et mon préféré : “Zelda, je t’aime ! À bas le travail !”.

Naïfs, foutraques, enthousiastes, frénétiques oui et alors. Ces slogans ont au moins le mérite de proposer une alternative. Et c’est que la Nuit 68 propose aussi, avec notamment une programmation de films consacrée au “cinéma insurrectionnel” bourrée de pépites historiques : le SCUM manifesto, par exemple (de Carole Roussopoulos et Delphine Seyrig, 1976), incroyable mise en scène du livre de Valerie Solanas. Née en 1936, violée par son père, abandonnée à 15 ans par des parents qui avaient divorcé, survivant grâce à la mendicité et la prostitution, Valérie Solanas est considérée comme une des leaders les plus radicales du mouvement féministe aux USA. Et pour cause. En 1968, elle publie un tract à la violence défoulatoire, qui prône l’éradication des hommes. Il s’intitule S.C.U.M. (racaille) et certains l’on traduit : “Société pour Castrer les Mâles” (Society for Cutting Up Men). Valerie Solanas y écrit : “Vivre dans cette société, c’est au mieux y mourir d’ennui. Rien dans cette société ne concerne les femmes. Alors, à toutes celles qui ont un brin de civisme, le sens des responsabilités et celui de la rigolade, il ne reste qu’à renverser le gouvernement, en finir avec l’argent, instaurer l’automation à tous les niveaux et supprimer le sexe masculin.»

Son texte est drôle, fou-furieux, plein d’une rage libératrice, mais dans la vie, hélas, Valerie Solanas accumule les bêtises. Toxicomane et meurtrière, elle finira par mourir prématurément dans un hôpital public de San Francisco. Qu’importe. Son manifeste a le mérite d’agiter violemment l’opinion. En 68, la révolution sexuelle est en marche. En 2008, qui la fera aboutir ? Kantuta Quiros et Aliocha Imhoff, qui sélectionnent les films les plus agit-pro-cul de Nuit 68 ont bien l’intention de reprendre le flambeau. “Nous ne commémorons pas 68, nous n’avons pas connu 68. Nous n’avons que la nostalgie du futur. Happening et art total, militantisme insurrectionnel et front homosexuel révolutionnaire, black power et féminisme radical composeront un journal contre-culturel cinématographique «des années 68», qui entraînèrent dans leur sillage un profond bouleversement des rapports entre art et politique, à la force inaliénable, contradictoire, et toujours vivante.”
 Toujours vivant, l’esprit de la révolte ? C’est ce qu’on va voir au Lieu Unique.

Nuit 68 : vendredi 21 mars, de 18 heures à 5 heures du matin.

«Dans son discours du 29 avril 2007, Nicolas Sarkozy fustige l’héritage du mail 68. La pensée anti-68 n’est pas nouvelle, elle s’est déjà exprimée dans les années 80, notamment dans le livre écrit par Alain Renaut et Luc Ferry, “La Pensée 68”. 40 ans après, faudrait-il envoyer aux oubliettes tous les changements profonds qui se sont opérés dans notre société, illustrés par les fameux événements ? L’héritage serait-il à ce point négatif ? Et qu’en pensent aujourd’hui les enfants de 68 ? La forme de naïveté, l’élan, la joie qui ont permis la révolte, existent-ils aujourd’hui ? Nuit 68 n’est pas une commémoration ni un rassemblement nostalgique de soixante-huitards, plutôt quelques aperçus de l’esprit de contestation dans notre société d’un point de vue artistique, social, médiatique… Au cours de cette nuit particulière, il y aura des conférences, discussions, lectures, projections… Avant que la soirée ne se cloture en musique !»

Le lieu unique : 2 rue de la biscuiterie, 44013 Nantes.