17/08/2008 - 11:49h Troca de acusações no PSDB esquenta eleição em Vitória

Vice-governador tucano passa a apoiar petista e irrita partido

Thiago Guimarães / Secom e Apoena

Ricardo Ferraço, Vice-governador de Espírito Santo (esqu.) apoia a reeleição de João Coser (PT) à Prefeitura de Vitória

Maria Lima - O Globo

BRASÍLIA. A eleição deste ano prometia ser das mais tranqüilas em Vitória, no Espírito Santo, onde o prefeito petista João Coser lidera a corrida com folga numa coligação de 19 partidos, que vai do PMDB do governador Paulo Hartung ao PSB do senador Renato Casagrande e mais uma penca de nanicos.
Mas um caso de traição esquentou a campanha na capital capixaba na última semana. O vice-governador, o tucano Ricardo Ferraço, ateou fogo à disputa ao resolver enfrentar a cúpula do PSDB, que apóia Luciano Rezende (PPS), e se unir ao grupo de Coser. Com as cenas explícitas de traição e a crise no ninho tucano, a campanha ganha repercussão nacional.

Crise abala planos do PSDB para eleições

O racha compromete o projeto do PSDB de disputar o governo estadual em 2010 e construir um palanque forte no estado para o candidato a presidente do partido. Numa crise que envolve troca de acusações pesadas, o deputado Luiz Paulo Vellozo Lucas (PSDB) acusa Ferraço de traição e diz que ele será expulso do PSDB.

— A candidatura do Ferraço (ao governo em 2010) começou a ser construída no PSDB, em 2006, quando o colocamos na chapa do Hartung. Só que agora ele está expulsando o PSDB desse projeto e quer ser o candidato do PMDB e do PT. Tirou nosso palanque e nosso projeto.
Mas vamos ter um candidato, seja ele ou outro. Ele traiu o PSDB e vai sair do partido, expulso ou pelas próprias pernas — diz Vellozo Lucas. — O pior é que essa traição se deu na varanda da minha casa, porque o Ferraço é meu concunhado. Saí de férias e, três dias depois, ele estava na rua apoiando a campanha do Coser, contra a orientação da executiva do PSDB.

Vice diz que foi ignorado na costura de alianças

O vice-governador rebate, dizendo que o deputado é “mimado, preguiçoso, narcisista”, não tem votos para se eleger sem Paulo Hartung e está obcecado pela disputa de 2010: — Traição nada! O deputado se comporta como representante das velhas oligarquias, que de quando em quando precisam gerar uma crise para ter luz. Ele conduz o partido como propriedade particular.
Fui provocado, insultado e ignorado quando costurou as coligações.
Aceitei tudo calado.
Agora fiz um desabafo.
Cansei de ser ignorado.
Por que esse ódio e rigor em relação a mim e ele não olha o que acontece em São Paulo e Belo Horizonte? O vice-governador já está com um pé no PMDB. Na troca de farpas, Hartung acabou se sentindo atingido pelo antigo aliado e ficou ao lado do vice.
Com a desincompatibilização de Hartung para disputar o Senado, Ferraço deve assumir o cargo por 10 meses e concorrer à eleição como governador. A jogada é considerada arriscada por seus adversários, até porque o senador Casagrande, outro grande aliado de Hartung, é candidatíssimo a governador.
O comando do PSDB não esconde a preocupação com a crise capixaba. A avaliação reservada é que Ferraço está criando uma situação para ser expulso do partido e, com isso, manter o mandato de vice-governador. Isso porque, se trocar de legenda, corre o risco de perder o mandato.
O tema será debatido pela executiva do PSDB nas próximas semanas, segundo o presidente do partido, senador Sérgio Guerra (PE).
Na luta contra o grupo de Hartung, o tucano Vellozo Lucas diz que em Serra, segunda maior cidade do estado, a coligação do ex-prefeito Sérgio Vidigal (PDT), apoiada pelo PMDB de Hartung, lançou um laranja, o vereador Tio João (PRTB), só para que seu candidato não disputasse sozinho.
Nos bastidores a avaliação é que, além de perder a legitimidade por ganhar de W.O. (sem adversário), Vidigal correria o risco de não alcançar os 50% dos votos válidos. Ele foi prefeito por oito anos.

— Lá em Serra, o Vidigal corre sozinho. O Tio João é um laranja. Tudo foi costurado para não atrapalhar os planos dele — diz Vellozo Lucas.
Em entrevista à Rádio CBN, o candidato do PRTB negou que sua candidatura seja de fachada e disse que está na disputa para valer.

COLABOROU Gerson Camarotti