16/05/2008 - 13:38h Festival de Cannes: E foi a vez do argentino Leonera…


Filme de Trapero tem Rodrigo Santoro no elenco e co-produção de Walter Salles

Luiz Carlos Merten, , CANNES - O Estado de São Paulo

Talvez seja suficiente dizer que se trata de um autêntico filme argentino. Leonera, de Pablo Trapero, possui as qualidades quase sempre associadas ao cinema do país vizinho. Conta uma história humana, com personagens bem delineados e interpretações sinceras. Ao comentar a seleção de Leonera para a competição, Walter Salles, que tem co-produzido, por meio da Videofilmes, os filmes recentes de Trapero, disse que, se alguém merecia estar em Cannes, era seu colega de Buenos Aires. O bom de Trapero é que ele não se repete. El Bonaerense, Familia Rodante, Leonera. Nenhum filme se assemelha ao outro, embora o conceito de família como inferno e paraíso, que já estava no road movie anterior do cineasta, repita-se agora na história da grávida que vai presa e descobre que, de acordo com a legislação, só poderá permanecer com o filho na cadeia até ele completar 4 anos. O tema de Trapero é como essa mulher traída pelos homens, pela própria mãe (que tentará se apossar do neto) lutará com todas as suas forças para recuperar o menino.

Um filme sobre instinto, que supera a cultura repressora. Sobre uma mulher que amadurece dentro da cadeia e precisa achar um caminho dentro do mundo hostil. Ninguém faz uma travessia assim sozinho e o filme de Trapero é sobre as afinidades eletivas, sobre as fidelidades que compensam as traições, sobre a construção da ética na vida dessa mulher (e o tema é caro ao co-produtor Salles). Trapero constrói seu filme sobre essa situação particular, sem exagerar na psicologização da personagem. E conta com ótimo elenco - a atriz Marina Gusman, sua mulher na vida real, é ótima, numa verdadeira entrega ao longo de todo o processo vivido pela personagem, que, como ela, está grávida nas primeiras cenas. Rodrigo Santoro, que subiu a escadaria do Palais, com Marina e Trapero, para a sessão de gala de Leonera, faz um pequeno, mas importante papel.

Apesar das óbvias virtudes de Leonera, com final aberto, havia pouca gente na coletiva realizada pela manhã, exatamente o contrário do que ocorreu à tarde, quando havia gente pelo ladrão para ver Angelina Jolie, Dustin Hoffman e Jack Black, o trio de dubladores de Kung Fu Panda. A animação de Mark Osborne e John Stevenson é uma produção pessoal de Jerry Katzengerg, da DreamWorks Studios. Promete ser uma das sensações do verão americano. -Angelina, claro, foi a sensação da entrevista. Gravidíssima (de gêmeos), ele teve de falar mais de crianças, de família e Brad Pitt do que propriamente de cinema, embora neste caso as coisas não fossem excludentes.

‘Quando se é pai ou mãe, a gente procura inevitavelmente filmes com boas mensagens para a família’, ela diz. A história do urso panda que é bom de kung fu enquadra-se no conceito. ‘É um filme mais sério do que pode parecer’, advertiu Hoffman. ‘Vivemos numa sociedade em que as pessoas precisam se projetar em super-heróis. A idéia, aqui, é criar um anti-super-herói, alguém muito pequeno, mas que realiza coisas extraordinárias, e nesse sentido vira um verdadeiro herói’, ele concluiu. Angelina teve de falar bastante sobre seu trabalho como embaixadora da ONU, neste momento em que a Ásia )Mianmar e, agora, a China) sofre o efeito de tufões e terremotos. ‘Estar aqui em Cannes é um prazer, porque faz parte do meu trabalho e é melhor ainda porque estou com um filme no qual acredito. em 1980. Como a mundanidade faz parte do folclore de Cannes, houve a inevitável pergunta se Brad Pitt acompanharia Angelina Jolie no tapete vermelho. Ela disse que sim. ‘Ele está agora com as crianças, mas à noite vamos participar da montée des mardches’, ela disse, em francês - antes, já havia dito que, em sua casa, com filhos (adotivos) de tantas nacionalidades, existem professores de francês, vietnamita e cambojano. ‘Queremos que as crianças cresçam conhecendo sua origem e cultura, e não influenciá-los para que adotem a nossa.’

WALTZ WITH BASHIR: nova vertente do documentário animado

VERDADE E ANIMAÇÃO: Houve surpresa quando Dossiê Rê Bordosa foi selecionado para o Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade. Um documentário animado parecia uma novidade muito grande, depois confirmada quando o filme passou e foi premiado no Cine PE. Cannes está tendo agora o seu Dossiê Rê Bordosa na competição. O diretor israelense Ari Folman fez um filme - Waltz with Bashir - que dificilmente será ignorado pelo júri, na premiação. Ainda é cedo para falar em prêmios, mas Bashir parece levar vantagem. Afinal, a diretora de Persépolis, premiado no ano passado, está no júri e Marjane Satrapi abriu sua preferência pelos filmes políticos, que de alguma forma refletem sobre o mundo em que vivemos. Waltz with Bashir inspira-se em experiências da vida do próprio diretor, quando integrou o Exército israelense, na ocupação do Líbano. Ari Folman criou um documentário-animado-verdade. Seu tema é o mergulho de dois homens - um é ele próprio - no horror da guerra que ambos tentaram eliminar da memória. Folman filmou em vídeo e depois apresentou o material à dupla de animadores Yoni Goodman e David Polonsky. Eles não fizeram a animação em cima daquelas imagens. Tomaram-nas como referência. O resultado é ousado, graficamente, mas é a ética que subverte a relação do filme com a platéia. A animação cria um distanciamento, mas, de repente, o diretor lança a platéia no centro de imagens reais do massacre de palestinos por tropas falangistas, aliadas de Israel, em Sabra e Chatyla. A força das imagens, a riqueza da trilha - com uma cena de soldados surfando ao som de rock pesado que lembra Apocalypse Now -, tudo faz de Bashir um acontecimento nesta nova vertente do documentário animado.