09/10/2009 - 17:08h Inimigas íntimas

Romance que recebeu o prêmio APCA – Associação Paulista de Críticos de Arte – de melhor ficção de 1993. Desde 1998 iniciou uma bem sucedida carreira internacional com traduções na Suécia e nos Estados Unidos. Nele a autora experimenta um novo cenário. Aproveitando-se de informações armazenadas desde sua infância, pela primeira vez escreve sobre o nordeste. Um nordeste sensual e moderno, mas carregando ainda os mesmos problemas do começo do século, e ainda outros como a corrupção praticada através dos incentivos fiscais e órgãos de combate à seca. A trama aborda a violência cometidas pelos mais fortes contra os mais fracos dentro da história da vida de um homem que vive com quatro mulheres debaixo do mesmo teto. Com uma linguagem deliciosa e irreverente, essa obra vem também carregada de bom humor, pois, na verdade, da mistura de todas essas características aquela região é feita. Trata-se, com certeza, de um trabalho envolvente que propõe multileituras. Fonte Site de Joyce Cavalccante. ENCOMENDAR

por Joyce Cavalccante

Acreditem. Tinha apenas dezessete anos Evangelina quando casou com Eduardo, o Dr. Duda, como era chamado por todo mundo. Ele já ultrapassara os quarenta e embora fosse um dos mais moços fazendeiros da região, estava casando um pouco tarde para os costumes. Por todo tempo que andou solteiro, ele não deixou nem um minuto de plantar sonhos no coração das moças que o conheciam ou dele tinham ouvido falar. Era um homem bonito, de rosto moço e cabelos já ficando brancos. Pele tostada pela constante exposição ao sol por força de cuidar de suas terras. Herdara uma grande extensão delas. Na sua fazenda, uma cerca não avistava a outra.

Nunca se apressara em encontrar uma mulher para casar pois considerava que sua mulher mesmo era a Jibóia. Tinha abuso pelas rodinhas sociais, ou fosse da cidadezinha de interior mais próxima à fazenda, ou fosse da marinha capital do estado que ficava há uns duzentos e trinta quilômetros de distância. Preferia ficar lendo ou ouvindo rádio no casarão que há duzentos anos estava encravado no coração da propriedade. Não era de falar demais e raramente encontrava os parentes e amigos, se não fosse para resolver assuntos ligados aos interesses da terra. Apesar desse gênio esquisito, era visto como um homem culto e agradável. Formado em direito, daí o título de doutor antes do apelido.

Já Evangelina, ao casar com dezessete anos, não fazia mais do que cumprir a praxe daquele tempo e daquelas bandas. Mais velha do que isso já começaria a ser vista como moça encalhada. Que agradecesse a Deus ter tido a sorte de conseguir tão bom partido e tão cobiçado homem, dizia-lhe a mãe. E que a ele fosse obediente, aceitando o encargo que Deus lhe tinha reservado. Uma tia, irmã de seu pai, completava tais conselhos dizendo que mulher casada feliz é a mulher conformada. Evangelina a tudo tudo sem dizer palavra. Deixava passivamente que lhe tirassem o vestido de noiva e vestissem um outro de musselina branca, mais leve, apropriado para o almoço de arromba que Eduardo estava dando na fazenda para comemorar o casamento.

Ao pisar nos tijolões de sua nova casa seu coração assustou. Esforçou-se e pisou duro e firme, pondo o pé direito adiante do esquerdo que era para dar sorte e vencer.

Encontrou um casarão de dar gosto com tudo do bom e do melhor. Os próprios convidados, amigos do noivo ou do pai dela que nunca tinham estado por lá, ficaram impressionados com o luxo e conforto havido na casa, fazendo contraste com o temperamento austero do dono.

Encontrou, também, uma criadagem apropriada para atender aos desejos de uma rainha, e encontrou Rita.

Homem não pode viver sem mulher, lhe diziam, senão poderia ficar doido. E era essa a serventia de Rita.

Todo mundo sabia e comentava. Aconselhavam à jovem noiva maneiras e maneiras de como contornar o problema com sabedoria. Tratavam o assunto como um detalhe menor diante de sua boa sorte. Ela, porém, não engolia aquela negra na vida do marido. Não teve vez para dizer a ele que se livrasse daquilo e que aquilo não era direito, enquanto ainda era noiva. Fez de conta que não tinha conhecimento do caso. Esperou que o período de noivado passasse porque tinha fé que a negra ia desaparecer assim que ela botasse os pés dentro da casa. Contava em nem encontrar com ela na vida, mas foi justamente Rita, a primeira pessoa que avistou quando entrou na sua nova casa.

Diziam que a primeira pessoa que a noiva vê quando entra em casa é quem determina o sexo do primeiro filho. Se isso fosse verdade seu primeiro filho ia ser uma menina. Ficou duplamente com raiva pois queria que o primogênito fosse homem. Aquela negra alí, apresentada, metida, só podia ser para dar urucubaca. Trazer desgraça.

Rita tinha um menino escurinho de olhos verdes que andava solto dentro de casa com as pernas bambas e o nariz escorrendo. Devia ter uns dois anos. Na cara, escrito que era filho de Eduardo. Evangelina estava decidida a não tolerar nada daquilo pois embora encabulada, era filha de um homem que quebra mais não verga. Seu pai era um temido chefe político e dele deveria herdar a coragem. Ia esperar que o próprio Duda inventasse o sumiço dos dois. Se isso não acontecesse por bem, ela ia fazer com que acontecesse por mal.

O coração um fel porque na hora de ser servido o almoço viu a preta toda vestida de estampados comandando a criadada, mandando uma delas trazer a travessa cheia de sarapatel e colocá-la numa das pontas da mesa. Daí o sarapatel, o pirão, o arroz, a paçoca, o cozido, o baião de dois, a galinha, o perú, o camurupim pescado ali mesmo no açude da fazenda e o capote guisado, perderam o gosto. Os doces também. Tanto doce bom e ela não conseguia nem provar. Tudo por causa daquela negra enxerida.

Já eram bem duas horas da tarde quando se despediram dos últimos convidados. Ela e o marido ficaram de pé no alpendre, cumprimentando e agradecendo a presença de todos. Rita sempre ali à distância de um grito. Evangelina não perdia a negra de vista nem que fosse com o rabo dos olhos. Quando o último dos convidados se foi, Eduardo passou o braço pelos ombros da mulher e a conduziu até a saleta onde se lia e ouvia rádio. Lá sentou na sua cadeira predileta, pôs os pés em cima de um banquinho estofado, acendendo seu cachimbo. Estava corado e tinha um ar feliz. Evangelina sentou na rede de tucum e começou a balançar-se fazendo os armadores ranger. Pensava ela: essa é a hora de conversar com ele sobre a safada. Dava pra ouvir o barulho dos talheres e das louças sendo lavadas e guardadas. A conversa alegre das negrinhas na cozinha e Rita dando ordens, liderando a operação. Evangelina contava até três e dizia a si mesma, assim que der três vou começar a falar. Mas engasgava e perdia a voz. Olhava para o relógio e decidia: daqui a quinze minutos começo a falar e dane-se. Se ele não gostar, que não goste. Mas passados os quinze minutos nada aconteceu pois Duda ressonava com o cachimbo entre os dentes. Ela, sem poder mais nada fazer, perdia seu olhar no desenho de brilhante e platina que emoldurava o minúsculo mostrador de seu reloginho de ouro, presente do pai quando ela passou no exame de admissão ao ginásio.

Não conseguiu tirar a negra da cabeça. E tão perdida estava em pensar nela que nem susto tomou quando a viu entrar pela porta e deslizar até onde estava o Duda. Silenciosamente, também viu a negra tirar o cachimbo da boca de seu homem e depositá-lo no cinzeirão de prata que havia no chão, ao lado da cadeira.

Ao fazer esse gesto a negra olhou para Evangelina significativamente, como quem diz essa é a última vez que faço isso, de agora em diante é tarefa sua. Evangelina desviou o olhar com ar de indiferença e continuou a balançar-se, atitude que fez a negra entender que não precisava de ensinamentos. Quando a negra deu as costas, a moça branca aproveitou para fazer-lhe um muchocho infantil. Era de certa forma, uma vingança.

Por não ter nada o quê fazer, nem saber o quê devia fazer, levantou-se da rede e foi até a estante olhar os livros do marido. Ele tinha muitos. Só naquela saleta tinham três estantes enormes forradas deles. Ela distraiu-se lendo as lombadas de uma por uma. Deparou-se, então, com um título muito interessante e que sempre lhe aguçara a curiosidade. Encadernado em vermelho com letras douradas, estava lá, “O Crime do Padre Amaro”, e em letras também douradas porém menores, o nome do autor, Eça de Queiroz. Suspirou. Sempre tivera vontade de ler aquele livro mas a mãe nunca tinha permitido. Na casa de seus pais havia uma prateleira onde todos os volumes lá expostos tinham sido carimbados com os seguintes dizeres: “Impróprio para senhoritas”. Assim, nem ela nem suas duas outras irmãs tinham o direito de tocá-los. Celina, que era a mais espevitada de todas, ousara uma vez roubar um deles e ler escondido. Foi um Deus nos acuda quando o pai descobriu que, por trás da capa que ostentava o inocente título de “A Vida de Santa Terezinha”, estava toda malícia e permissividade do “Vermelho e o Negro”, de Stendhal. Não era tão fácil enganar os pais.

Quando o marido acordou de seu breve cochilo, coincidentemente, Evangelina estava folheando o próprio “Crime do Padre Amaro”. E, enquanto ele bocejava e sorria, ela se virava de costas para esconder o livro que tinha nas mãos, detalhe que o marido não demonstrou notar. Em vez disso, convidou-a para dar um passeio pela propriedade dizendo, venha conhecer o que agora é seu. Com os braços rodeando seus ombros, conduziu-a carinhosamente até o jipe estacionado embaixo do pé de joá.

Rodaram por toda tarde. Andaram de extremo a extremo da fazenda. A propriedade parecia não ter fim. Nem sempre as estradinhas mal paradas, abertas no mato a facão para dar passagem ao jipe do patrão, estavam em boas condições. O carro sacolejava e estremecia. Num desses solavancos Evangelina foi parar quase no colo de Duda. Ele, então, diminuiu a marcha e puxando-a falou malicioso:

- Fique por aqui que é menos perigoso.

Nessa hora as orelhas de Evangelina esquentaram como chapa de fogão. Sentiu vergonha e uma coisa gostosa. Um caldo quente escorrendo por dentro. Mesmo assim falou:

- Pára Duda. – E voltou para seu lugar.

Pelo caminho iam parando para cumprimentar um ou outro morador, ou algum empregado que, por ser aquele dia um domingo, estava no mínimo, voltando da farra. Eram bem umas seis da noite quando chegaram de volta.

Evangelina entrou na sua nova casa pela segunda vez. Estava feliz e foi direto lavar as mãos pois ouviu a negra dizer desse jeito:

- Dr. Duda, o jantar tá na mesa.

Chegou e sentou-se em frente ao marido. Como por encanto viu uma mesa toda posta com apetrechos para um lanche gostoso. Coalhada, milho cozido, canjica, carne assada, arroz e ovos estralados.

Após o café com bolachas, Duda disse para a mulher:

- Vá logo se arrumando para dormir que eu vou ouvir o noticiário no rádio. Vou ouvir a Hora do Brasil. Depois eu vou.

Nesse momento Rita começou a tirar os pratos da mesa. Duda grunhiu para ela:

- Rita, pede a Gracinda pra fazer esse serviço e vá ajudar D. Evangelina a se trocar.

Ouvindo isso Evangelina levantou os olhos claros, que ficaram mais claros ainda. Preferia que a mulatinha Gracinda, outra empregada, viesse ajudá-la. Ia dizer qualquer coisa desaforada mas não disse ali, disse mais tarde quando estava no quarto acompanhada só de Rita:

- Não preciso da ajuda de ninguém. Pode ir embora.

Rita não respondeu mas também não arredou o pé dali. Olhava com humildade e doçura para a nova patroa, talvez procurando a chave de seu código. Talvez refletindo como conseguiria se fazer querida por aquela mulher tão bonita, de pele clara e cabelos cinzentos, com a cara de um anjinho. Uma santinha. Mas, parecia que a moça branca não queria muita amizade com ela. Deu para saber logo que não era de muita conversa. Deveria obedecer as ordens do Dr. Duda e ao mesmo tempo queria agradá-la.

Quando viu que a negra não ia sair mesmo de seu quarto, Evangelina enxugou os olhinhos lacrimejantes e tentou desabotoar-se. Não conseguiu. A carreira de botões imitando pequenas pérolas que fechavam seu vestido por trás, eram inatingíveis para quem o vestisse. Tinha de pedir a ajuda da negra fedorenta. Disse então de maneira bem estúpida:

- Vem cá e me desabotoa aqui. Depois pode ir.

Rita ensaiou dar um sorriso. No entanto, manteve a discrição e aproximou-se das costas da outra. Não só a desabotoou como tirou carinhosamente seu vestido pela cabeça, esperou que ela sentasse na cama e tirou-lhe os sapatos. Deixou que ela mesma tirasse suas ligas, mas ajudou-a a puxar as meias.

Enquanto a moça estava no banheiro, ela dobrou e alisou tudo. Girou os olhos ao redor daquele quarto. Sentiu saudades das muitas noites que tinha dormido ali. Fitou a cama na qual, até a noite passada, tinha dormido, e dela se despediu. Pensou em não pensar. Acendeu um candeeiro porque o gerador da fazenda era desligado toda noite às dez. Esperou que ela voltasse, e quando ela voltou, esperou que ela deitasse, e quando ela deitou, cobriu com um lençol seu corpo. Evangelina chutou os lençóis dizendo que não tolerava dormir coberta. Disse isso mais para espezinhar a negra, que foi saindo calada do quarto do casal.

Não teve mais tempo para se preocupar com aquilo porque o pânico bateu com força na expectativa do que iria se passar ali. Ia, dali a alguns minutos, se transformar de moça em mulher. Suava. Encolhia-se todinha em posição fetal e esperava que aquela noite passasse depressa. Queria saber como se sentiria na manhã seguinte.

Eduardo veio depois de ter dado ordens e boa noite à Rita. Veio fazendo barulho, um barulho que acelerou o coração de Evangelina. Entrou no banheiro e quando saiu de lá, caminhou direto para o quarto fechando a porta atrás de si.

Rita correu para escutar tudo. Sabia que o patrão ia ser bom com a moça pois coração grande ele tinha. Mas mesmo, assim tinha pena dela, tão novinha. Tinha pena de todas as mulheres que passavam pelo que ela já tinha passado. Ainda bem que é só uma vez na vida.

Lembrou-se de tudo que tinha acontecido, há uns cinco anos, com ela mesma. Tinha treze anos. Era mais nova que a moça. Sua mãe tinha morrido fazia uns dois anos e ela tinha sido sua substituta nos serviços da Casa Grande, pois só ela sabia das coisas que o patrão possuía. E só também ela sabia do que ele precisava. Quando sua mãe ainda era viva, mas já começava a ficar doente e velha, foi lhe ensinando a lida. Lhe ensinando como se curava os queijos, como se lavava, contava e guardava os pratos e os talheres, como se fazia a comida. A medida que a doença foi tomando conta dela, ela foi entregando os pontos e deixando os afazeres cada vez mais nas mãos de Rita, que era pequena ainda mas muito espertinha.

Era uma negrinha com corpo formado de mulher desde cedo. Baixinha da bunda grande, olhar matreiro e sorridente. Nem bem a mãe morreu deixando-a sozinha no mundo aos cuidados de Deus e do Dr. Duda, pois homem bom estava ali, ela já tinha assumido todo controle da casa e a autoridade entre as outras negrinhas inclusive mais velhas do que ela. Tudo porque sabia se dedicar, sabedoria que lhe foi transmitida por herança materna, coisa vinda de gerações em gerações de pretos servindo aos brancos como o destino mandava.

Mesmo tocando toda essa responsabilidade, a menina não esquecia de que era criança ainda, e nas folguinhas que conseguia corria para o açude e se refrescava, principalmente nos finais da tarde quando o calor é maior. Brincava também ainda com suas bonecas de pano, conversava com elas e até hoje as conservava. Brincava só à noite quando se trancava no quartinho que tinha sido dela e de sua mãe. Dormia só, privilégio conquistado por herança e por merecimento. As outras empregadas dormiam todas juntas num quarto maior e afastado da casa, depois da latada de maracujá do quintal. Durante o dia inteirinho ela trabalhava. Acordava às cinco.

Um dia, vindo do banho de açude, era num domingo, encontrou com o patrão mexendo no roseiral que ficava ao lado do quarto dele. Era por esse caminho que ela passava toda tarde depois do banho. Passava com discrição arrodeando a casa e entrando pelos fundos, pois sabia que seu vestido molhado colava no corpo e a deixava descomposta.

Corriam boatos pela cozinha que o doutor dormia com a Isaura, uma morena alta e mais velha, que cuidava das cabras lá por perto das plantações de canarana onde morava. Era viúva. O marido tinha sido esfaqueado numa briga besta de fim de festa. Isaura, com a licença do doutor, continuou morando na casa que ocupara com o falecido. Ele tinha sido um dos vaqueiros sob as ordens de Duda. Ver mesmo ela com o doutor, até aquele dia, ninguém nunca tinha visto. Eram só falatórios. Também um homem daquele não podia viver sem mulher. Ele trabalhava o dia inteiro e claro que precisava espairecer.

Pois bem. Naquele dia, quando ela vinha passando pelo roseiral e deparou com o doutor podando as plantinhas que tinham sido plantadas pela mãe dele, vinha justamente pensando nisso. Nele e na Isaura.

Ele, vendo a menina se aproximar, lambeu o corpo dela com os olhos e pediu que o ajudasse. Que segurasse um galho enquanto ele cortava o galho vizinho. Ela olhou para seu próprio corpo exposto por causa do vestido molhado. Olhou-se como quem diz, mas eu estou com essa roupa. Não disse nada contudo. Obedeceu. Segurou o galho. Nessa segurada ficou bem pertinho dele, não por querer, mas por precisão. Podia ouvir sua respiração bem forte, como se estivesse cansado. Terminando a tarefa ele virou para ela e disse:

- Mas você está toda molhada. Você pode se gripar.

Ela respondeu sem levantar os olhos e bem depressa:

- Espere aí que eu vou trocar de roupa. Volto logo pra ajudar o senhor.

Ele respondeu: – Não precisa. Tem toalha no meu quarto.

E nisso foi passando a mão pelos seus ombros, amolecendo o olhar, e empurrando seus passos para o quarto dele. Lá tudo aconteceu. Ela chorou baixinho por causa da dor, uma dor aguda que era como se estivesse sendo partida em duas. O sangueiro escorreu e ela ficou com muita vergonha. Ia lavar aqueles lençóis sem ninguém ver. Ele estava pesado e arfando em cima dela. Ela mal agüentava tanto peso. Depois que ele rolou para o lado, ela fez o gesto de quem ia se levantar pra continuar suas tarefas. Ele não permitiu. Puxou-a mais para perto de si e a abraçou com jeito, assim como se ela fosse um neném.

Seus pensamentos foram interrompidos pelo gemido dele, um ai bem grande puxado lá do fundo do coração, grunhido que só ele sabia fazer nessas horas. Concluiu: Pronto. Ele já desonrou a mocinha. Agora vou me deitar. E saiu na ponta dos pés.

12/05/2009 - 21:18h A confusão ronda a saga literária “Millénium”

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« Millénium » tome 4 : la veuve de Stieg Larsson explique

 

 

Rencontre avec Eva Gabrielsson, compagne de Stieg Larsson, autour du film qui sort demain en France et de la suite de la saga.

Eva Gabrielsson, veuve de Stieg Larsson (DR).

Eva Gabrielsson a toujours travaillé sur le cadre de vie : le cadre si agréable de la Suède d’aujourd’hui, la transformation de la capitale Stockholm, la place de l’individu dans la ville. Elle a écrit des articles, puis un livre, sur le développement de la capitale suédoise. Et poursuit la question, travaillant aujourd’hui pour une agence gouvernementale. Energie durable, donc.

L'affiche du film 'MilléniumUn cadre de vie auquel Stieg Larsson a toujours servi de support. Elle et lui sont nés à 80 km de distance, dans le Nord du pays, avant de se rencontrer quand les deux familles se sont installés à Umea (600 km au nord de la capitale). Deux ans après leur rencontre, ils emménagent ensemble. Nous sommes en 1972.

Univers impitoyable

Trente-quatre ans plus tard, la « love story » se drape de ses atouts « Dallas ». La trilogie Millénium est devenue un succès en Europe du Nord, commence à déferler sur la France, et n’est pas encore traduite aux Etats-Unis ni en Angleterre. On s’aperçoit alors qu’Eva Gabrielsson, concubine de Larsson durant trente ans, n’a droit à rien. R-I-E-N. Au regard de la loi en Suède, une concubine n’a droit à aucun… droit une fois son homme mort.

Le couple n’ayant pas eu d’enfants, les seuls héritiers de Stieg Larsson sont… son propre père (Erland, retraité), et son frère (Joakim, homme d’affaires). C’est quand ce dernier, après avoir vendu les droits cinématographiques des trois tomes, a mis la pression sur Eva Gabrielsson pour récupérer le quatrième tome mais aussi… le logement de l’auteur (expulsant Eva) que la société suédoise a commencé à gronder. Et les choses se sont calmées. Pour autant, c’est une paix froide entre la famille et la concubine.

Le quatrième tome existe. Le projet de Larsson était de composer une très balzacienne saga de dix volumes, radiographie contemporaine de la Suède d’après l’assassinat d’Olof Palme. A la veille de l’infarctus qui l’a emporté le 9 novembre 2004, Stieg Larsson avait écrit 320 pages d’une histoire se déroulant dans une île -comme le premier tome…- mais cette fois au Canada. Eva Gabrielsson me disait, en 2008, savoir ce manuscrit en lieu très sûr. Le maintenant loin, très loin, de la famille Larsson.

Un accord bipartite ?

Alors que Eva Gabrielsson, dans l’interview ci-dessous, nie tout contact et accord avec la famille Larsson, l’hebdomadaire Livres Hebdo (destiné aux professionnels du livre) se faisait écho vendredi dernier d’un tournant. La revue évoquait une sorte d’agrément entre les trois parties, aboutissant à ce que chacun range les couteaux, et personne ne publie… sa version du quatrième tome.

La partie de thriller n’est, assurément, pas finie…

Rencontre avec Eva Gabrielsson


Rue89 : Avez-vous vu le film ?

Eva Gabrielsson : Non. J’ai simplement entendu, par des gens qui eux l’ont vu, que le magazine « Millenium », le procès de Blomkvist, et les personnages en eux-mêmes sont « sortis » de l’histoire. Ils sont différents de ce que Stieg avait fait d’eux. Ça a fait de Mikael Blomkvist un personnage, apparemment, un personnage que l’on suit mais qu’on ne comprend pas. Un solitaire à la dérive, qui perd pied en plein dans la tempête. Le fait qu’un des deux personnages principaux de « Millenium » ait été transformé en un genre de papier peint en face de Lisbeth Salander, cela m’a convaincu de ne pas aller le voir.

Les deux autres tomes doivent être portés à l’écran pour la télévision suédoise. Les avez-vous vus ?

Non, et pour ce que je sais, les tournages ne sont pas achevés. De plus, ils seront aussi réalisés pour le cinéma. Pour la télévision ET pour le cinéma. Cela devrait sortir à l’automne 2009. Le réalisateur est Daniel Alfredsson, un type de qualité. Comme c’est un réalisateur différent du premier opus, j’espère fort qu’il fera plus attention aux personnages… des livres !

Qu’avez-vous pensé du poisson d’avril de Rue89 ? [J'avais prévenu Marc de Gouvenain, co-traducteur et éditeur de la trilogie chez Actes Sud, mais je n'avais eu le temps de prévenir Eva Gabrielsson, que j'avais vue l'an dernier à Stockholm. Dès les premières heures du matin, ce 1er avril, elle réagissait au poisson…]

Génial. Génial parce que loin d’être totalement improbable.

Au sujet du quatrième tome, vous me disiez l’an passé qu’il était en lieu sûr et que vous saviez sur quoi il portait. Et maintenant ?

Je ne dis rien, car la situation est toujours la même avec le frère et le père de Stieg. Et j’ai eu assez de soucis comme ça.

Où en sont les procédures avec eux ?

Je n’ai eu aucune relation avec le père de Stieg depuis le printemps 2005. Et je n’ai jamais parlé au frère de Stieg, Joakim. Excepté des dîners et des verres très occasionnels quand Stieg était en vie. Mon avocat essaie toujours, après trois ans et demi d’acharnement, de parvenir à un accord avec eux. Afin que je récupère des droits non seulement sur « Millenium », mais aussi sur tous les textes, articles, et livres de Stieg. C’est beaucoup plus que « Millenium », cela va beaucoup plus loin.

Ce qui est sûr est qu’il n’y a rien de formel, ni signé, entre eux et moi. Joakim Larsson a effectivement, récemment, dit que ni lui ni son père ne chercheraient à publier le quatrième manuscrit. J’ai alors répondu que c’était une bonne idée. Car c’est difficile de finir l’œuvre des autres… C’est difficile, par exemple, d’achever un tableau de Picasso…

Photo : Eva Gabrielsson, veuve de Stieg Larsson (DR).

30/04/2009 - 18:45h Romance

Marcelo Nogueira

Ele marcou um jantar inesperado numa quarta-feira à noite. Pelo tom de voz ao telefone, não seria exatamente romântico. Mesmo assim, na hora marcada, ou uma meia horinha depois da hora marcada, ela apareceu linda, chamando a atenção dos outros clientes do restaurante. O garçom puxou a cadeira. Ela sentou-se, elegante. O marido já estava lá, suando (ele costumava suar muito), parecia nervoso. Sob a luz da vela ao centro da mesa, ela segurou a mão dele e disse:

— Desembucha, Paulo.

Ele limpou o suor no guardanapo de pano, olhou para os lados e pigarreou.

— Dessa vez você foi longe demais.

— O livro?

— Claro. O livro, essa droga desse livro.

— Eu sabia. Você está misturando as coisas, Paulo. Eu sou uma escritora, é a minha profissão, você sabe disso.

— Claro que eu sei, eu sempre admirei o seu talento, foi o que aproximou a gente. Mas era bem diferente naquela época. Você escrevia contos eróticos, lembra? Aquilo, sim. Eu li um deles e pensei: “preciso conhecer essa mulher”.

— Qual foi mesmo?

— “Orgias na escada”.

— Era um conto romântico.

— Eu lia tudo o que você escrevia. Os textos eram picantes, sensuais, não tinha ninguém melhor do que você para descrever uma, uma…

— Paixão?

— Putaria.

— Agora é putaria? Antes você dizia que era arte…

— Mas é arte! Claro que é! O que seria da arte sem a putaria? Inclusive, depois da gente se conhecer, os textos ficaram bem mais ricos. Você descrevia tudo o que a gente fazia, lembra? Teve aquele conto do metrô, o da obra abandonada, o do tanque do leão-marinho…

— Esse foi um dos melhores.

— Aquilo era um fetiche para mim, quando a gente transava era como se todos os seus leitores estivessem olhando. Aí veio o primeiro romance, uma obra-prima.

— “Meu marido insaciável”. Imaginei que você fosse gostar.

— E o seguinte, então: “Um verão em 69”.

— Nossas primeiras férias, em 1993.

— Depois vieram “Quanto mais, melhor”, “O que é possível no Kama Sutra”, “O martírio de um estrado”, tantos que eu nem lembro de todos. O nosso amor estava lá naquelas páginas, de verdade. Os gestos, os toques, os cheiros. Até que, de repente, você vem com aquele livro mentiroso…

— Você tem que entender, aquilo foi quando eu comecei a escrever ficção, eu expliquei isso na época. Era ficção!

— “Broxada em Marte”, Silvia? E desde quando marciano usa meias? Bem na hora do sexo?

— Eram quatro meias! Você nunca usou quatro meias!

— Daí para a frente foi só esculhambação. “O amor já foi melhor”.

— Era um livro filosófico.

— “Decepções amorosas de uma samambaia”. Samambaia! Você podia ter arranjado um disfarce melhor!

— Não era disfarce, era uma planta! Você é muito desconfiado!

— A planta era escritora!

— Mas ela era ruiva, eu sou morena! Não tem nada a ver!

— Eu relevei, aceitei seus argumentos por todos estes anos. Mas esse livro novo eu não vou aceitar!

— Por que não? Você não pode reprimir a arte!

— “O homem do membro pequeno”, não! Aí já é demais!

— É uma metáfora!

— Você não conseguiu me explicar essa metáfora até agora.

— É uma metáfora complexa, cada um entende o que quiser…

— Eu entendi muito bem. Dessa vez você subestimou a minha inteligência! E você que sempre disse que era de um tamanho bom… Eu quero o divórcio!

— Calma, vamos conversar!

— Nada disso! Eu não converso mais com você. Nem uma palavra. Senão depois vem o livro “O homem da conversa chata”. Chega! Acabou! Adeus!

Saiu irritado, esbarrando nos garçons. Ela ficou na mesa atônita, antes de tudo, surpresa com aquela reação. Não imaginava que algum dia o marido pudesse perceber as sutilezas da sua literatura. Pegou o telefone na bolsa e ligou para o seu editor, que era também um amigo.

— Hélio? É a Silvia. Meu marido pediu o divórcio.

— Por causa do livro?

— Foi.

— Eu imaginei que isso pudesse acontecer. Uma pena.

Um instante de silêncio nos dois lados da linha até que ela fala:

— Hélio, cancela o projeto.

— Como? Cancelar? Mas já está tudo encaminhado!

— Cancela. Agora.

— Pensa bem, Silvia! O seu marido já não pediu o divórcio? Para quê cancelar, então? Não vai adiantar nada!

— Eu sei, eu sei, não é isso. É que, depois do que aconteceu, eu prefiro publicar aquele outro, que eu escrevi antes, sabe? Agora dá.

— É verdade, bem pensado, aquele é até melhor do que o novo.

— Eu só quero fazer umas alteraçõezinhas, já faz algum tempo que ele foi escrito.

— E o que eu faço, então? Espero você mandar as mudanças?

— Isso, espera. Quer dizer, por enquanto já pode mudar o título.

— Por quê? Eu gostava tanto de “O amor e o vizinho”.

— Eu também gosto. Mas põe no plural.

E-Mail: mnogueira@fnazca.com.br

Blog: http://www.contosdointervalo.zip.net

Marcelo Nogueira (1974) nasceu em Santos (SP). É formado em propaganda pela FAAP. Redator publicitário, foi o autor de campanhas para “Sustagen Kids” (”mãe, compra brócolis”). Sua crônica, “Primeira Barba”, foi publicada pelo jornal “Folha de São Paulo”.

14/03/2009 - 16:49h ”Meu testemunho é impreciso”

Em Coração Andarilho, Nélida Piñon não se preocupa com fatos para criar suas memórias afetivas

Ubiratan Brasil – O Estado SP

 

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A palavra sempre teve um peso valioso para a escritora Nélida Piñon – nenhum livro seu sai da gráfica sem um cuidadoso preparo. “Já cheguei a fazer nove versões de uma mesma história”, comenta Nélida, que utilizou o mesmo procedimento para Coração Andarilho, seu primeiro livro de memórias lançado agora pela Record (352 páginas, R$ 38).

Filha de uma brasileira e de um pai nascido na Galícia, ela descobriu o mundo (real e literário) quando viajou pela primeira vez para a Europa, aos 12 anos. “Isso me deu uma condição de dupla cultura, de ser mestiça, e me ajudou a enxergar o mundo”, conta Nélida, que estreou na literatura em 1961, com Guia-Mapa de Gabriel Arcanjo. E, embora tenha colecionado amigos ilustres (Mario Vargas Llosa, Toni Morrison, entre outros) e prêmios (foi a primeira autora de língua portuguesa a vencer o Prêmio Príncipe de Astúrias das Letras), Nélida dedica-se, em Coração Andarilho, às memórias de sua primeira infância, como o fato de ter nascido em casa e não em um hospital, onde a mãe temia não reconhecer a própria filha. E também dos avós galegos, que lhe ajudaram a expandir a visão de mundo. Memórias afetivas, despreocupadas com os fatos, como comenta na seguinte entrevista, realizada por telefone.

O que a levou a escrever essas memórias?

Eu sempre soube que chegaria o momento das memórias. Fui uma menina que muito cedo despertou para a literatura, uma vocação estranha, enigmática, uma paixão por algo aparentemente sem contorno. Convivendo com essa literatura, descobri os motivos de ela fazer parte da minha vida. Existe uma harmonia profunda entre quem sou e por que ela me tocou. Assim, eu queria esclarecer minha gênese e minha formação.

Mas por que esse desejo se manifestou agora?

Não, já faz muito tempo que penso nisso mas nos últimos dois anos ficou mais forte. Eu sabia que viria mas não sabia quando. De repente, larguei um romance ainda em produção (já escrevi 60 páginas de uma história forte, contundente) porque as lembranças foram chegando. Tenho material para até três livros de memória. Resta saber se vou querer publicá-los. E, nesses dois anos, sobretudo no último, o livro nasceu com uma força, com evocações muito extremadas.

Seus livros sempre recebem muitas versões. E com esse de memórias?

Também, porque o livro não nasce pronto: surge com um grande arcabouço, mas a linguagem que vai ser seu semblante vem com o trabalho. Só é preciso se preocupar com o afã, pois pode asfixiar a emoção do texto. Sempre digo que o crítico não mata um escritor, mas ele próprio se suicida ao esterilizar o texto, torná-lo artificial, liquidar o mínimo de melodramático que é fundamental para o campo da emoção. E nas memórias fiz muita revisão – a linguagem, que julgo bem elaborada, revela a emoção. Mas meu testemunho é impreciso, nascido dos meus desacertos.

O livro permitiu descobertas?

Sim, muitas. Uma delas foi descobrir a figura de meu pai, Lino. Eu não falava publicamente sobre ele enquanto vivo, apenas entre familiares. Mas o livro revela minha dor de perdê-lo. A cena do enterro é muito simbólica, pois representou uma espécie de carta de alforria. Eu tirei o privilégio dos homens da família de escolher o caixão do meu pai. Foi muito duro. A partir dali, com minha mãe abaladíssima, tive de assumir todas responsabilidades. Tanto que ela estranhou o fato de eu não ter chorado durante os dois primeiros anos após a morte dele. Até o dia em que escrevi uma grande carta para o meu pai, explicando minhas razões a ela. Eu precisava ser forte – afinal, não é fácil ser escritora, ser brasileira, sobreviver com dignidade e de acordo com aspirações maiores.

Como a experiência de ter quatro avós galegos enriqueceu sua vida?

Foi fundamental. Eu me tornei uma mulher cosmopolita, múltipla, arcaica (digo isso pois tenho 5 mil anos de história nas costas) depois da minha primeira viagem à Europa. Eu lia muito, mas meus limites eram o Rio de Janeiro e São Lourenço, pátrias da minha imaginação. Quando quebro esse paradigma geográfico, com minha mãe explicando que a Espanha não era um bairro do Rio, começo a ver que minha fatalidade histórica era atravessar o Atlântico e fazer o caminho contrário dos imigrantes. Com isso, a geografia se tornou fundamental na minha vida. Nenhuma paisagem é vazia para mim, mas impregnada de mitos, conceitos, história, transações, pecados, transtornos, crise. Assim, quando admiro alguma paisagem, sei que não estou vendo apenas uma imagem mas sabendo que há muito mais por detrás dessa visão. Toda analogia é possível e isso é importante para a poética do texto, assegurando uma liberdade criativa. A metáfora do cotidiano está ao meu alcance.

As viagens foram importante para sua aprendizagem de vida?

Sim, demais. Continuo viajando muito, mas hoje advogo a grandeza do cotidiano, da casa. Tenho convívio íntimo com os objetos, com a comida, com a sucessão dos fatos corriqueiros. Admiro o trivial da vida. Com isso, consigo ao menos administrar a vaidade. A literatura tem coerência com minha vida. Espero ter forças para continuar a criar sem medo.

Você carrega seus personagens para a vida real?

Não, separo os momentos. Meu cordão umbilical com a casa e com a vida não está cortado. Claro que prefiro escrever sozinha, mas não sou uma escritora augusta, aquela em que a vida tem de parar por estar impregnada pela grandeza da criação. Eu aceito as pausas da vida.

25/02/2009 - 15:05h Tarde demais para esquecer

O escritor londrino Hanif Kureishi lança, aos 55 anos, seu mais ambicioso livro, Tenho Algo a te Dizer, um balanço de sua geração em tom de farsa

 

Antonio Gonçalves Filho – O Estado SP

 


Como seus personagens, o escritor londrino Hanif Kureishi, aos 55 anos, não consegue se livrar do passado. Os personagens de seu novo romance, Tenho Algo a te Dizer (Companhia das Letras, tradução de Celso Nogueira, 504 páginas, R$ 62), sofrem da síndrome de Marienbad, fazendo tudo para esquecer o que aconteceu lá atrás – e quanto mais tentam, mais lembram. O psicanalista Jamal Khan, protagonista do livro, por exemplo, é atormentado pelo fantasma de um assassinato no passado e vive, no presente, um pesadelo com o filho problemático e uma irmã depressiva que, para sua raiva, começa a ter um caso com seu melhor amigo, Henry, famoso diretor teatral. Parece dramático, mas Kureishi, como sempre, dá um jeito de tornar a situação engraçada – e explica ao Estado, numa entrevista por telefone, de Londres, a razão de ter escolhido o caminho da farsa para enfrentar a tragédia contemporânea.

Tenho Algo a te Dizer fala de racismo, sexo fácil, imigrantes asiáticos e adolescentes quase autistas diante da televisão. É mais ambicioso que os outros livros de Kureishi (O Buda do Subúrbio, O Álbum Negro) por pretender ser um balanço de sua geração. Um entusiasmado crítico inglês chegou mesmo a dizer que se trata de uma história social da Grã-Bretanha dos últimos 40 anos, embora o autor, modestamente, diga que nunca perseguiu a ideia de produzir um épico. Ele está mais interessado em ser um cronista do presente, sobre o qual fala na entrevista a seguir.

Seu livro termina com a crescente paranoia sobre homens-bomba, indicando que os atentados de julho de 2005 em Londres não serão os últimos. Como você, que escreveu o primeiro livro explorando a jihad inglesa oito anos antes desses acontecimentos, O Álbum Negro, vê o recrudescimento do sentimento racista contra muçulmanos na Inglaterra?

De fato, costumo dizer que os muçulmanos europeus formam uma espécie de almas perdidas na tradução, tentando construir uma identidade para eles baseada numa religião puritana. Porém, não se deve defender por isso uma reação violenta contra o Islã. Pessoalmente, a monocultura é, para mim, uma anomalia. Sou pelo multiculturalismo, tenho fascínio por ele. É provável que nem todos dividam o mesmo credo, a julgar pela crescente paranoia que vem, não de julho de 2005, quando as bombas explodiram em Londres, mas do 11 de Setembro.

O estilo literário de Tenho Algo a Te Dizer tem a ver com a tradição satírica de Swift, no sentido de eleger a farsa para tratar de problemas sérios. Essa é uma maneira de dizer, parafraseando D.H. Lawrence, que a nossa é uma era essencialmente trágica, mas incapaz de entender a tragédia?

Não acho que caminhamos para o cinismo apenas por ver as coisas de modo diferente dos gregos. Vivemos, sim, uma tragédia cotidiana, mas nosso dilema não é o de entender a tragédia, mas enfrentá-la. A verdade é que, a despeito da situação crítica mundial, não deixamos de ser otimistas. É o que muda nossa postura diante dos gregos. Quando criança, adorava comédia. A farsa foi meu caminho literário natural para entender o mundo. E continua sendo.

O psicanalista Jamal, personagem central de seu livro, acredita que a paixão sexual é a razão de viver de todo ser humano, mas você não parece dividir com ele essa opinião, considerando que, numa recente entrevista, você admitiu não ter mais ilusões sobre o sexo, falando mesmo num certo “thatcherismo da alma”. Pessoas da sua geração costumam – ou costumavam – dizer que sexo e amor são a mesma coisa. Você pensa diferente?

Há uma grande diferença entre intercurso sexual e libido, que pode estar ligada a uma outra atividade, como escrever livros, espécie de sublimação, admito, mas uma forma mais elevada de sexo. Passei anos fazendo sexo inconsequente, o que já não me interessa mais. Acho que houve uma vulgarização do sexo. No tempo de O Buda do Subúrbio, lutávamos contra a repressão sexual e hoje, liberados, vemos que as pessoas foram desumanizadas por conta da instrumentalização da sexualidade, esse ?thatcherismo da alma? que transforma o amor em mercadoria.

Você ocupa a cena literária há 20 anos, sempre elegendo temas polêmicos e personagens ambíguos, como o paquistanês de Minha Adorável Lavanderia, que faz uma “ponta” em Tenho Algo a Te Dizer. Autodestruição e irresponsabilidade parecem ser os traços comuns desses personagens. Como você constrói a identidade deles? Adota alguém conhecido como modelo?

Quando comecei a escrever nos anos 1980 adotava, de fato, pessoas reais como modelos de meus contos, novelas e peças. A maioria era uma combinação de gente que conhecia, mas isso foi mudando à medida que fui me conhecendo melhor e me interessando por outros temas além de preconceito racial e diversidade sexual. Não estou bem certo se meus personagens são autodestrutivos. Acho que alguns deles são irresponsáveis, mas isso é circunstancial.

Tenho Algo a Te Dizer pode funcionar como uma história social da Grã-Bretanha nos últimos 40 anos, como disse um crítico. Sua intenção foi mesmo a de escrever um épico ou fazer um balanço de sua geração?

É mais um balanço geracional de alguém que já passou dos 50 anos e que, jovem, tinha vergonha de ser descendente de paquistaneses. Queria acompanhar a evolução de personagens com o mesmo problema, como o garoto paquistanês que abre a “adorável lavanderia” com o amigo inglês e passa de um rejeitado “paki” (pejorativo para paquistanês na Inglaterra) a empresário conservador e bem-sucedido. Essa é a razão de Ali reaparecer em Tenho Algo a te Dizer. Sempre vi meus personagens como pessoas reais, que se transformam com o passar dos anos.

É comum ler resenhistas que comparam sua escritura à de Philip Roth e Saul Below, a despeito das nítidas diferenças entre seus livros e os deles. Quais eram suas referências no começo de carreira e agora?

Eram mesmo Philip Roth, Saul Below, Norman Mailer, além dos gigantes do romance francês, como Balzac. Hoje não tenho mais ídolos. Gosto de conversar com autores jovens e meus alunos. Tenho pouco contato com colegas escritores.

Há sempre um personagem homossexual em seus livros. Por que um homem casado e com três filhos se interessa tanto pelos gays? Você acha que homossexualidade é opção ou predestinação?

Não cheguei a nenhuma conclusão, mas acho que opção não é, de maneira nenhuma. Como uma criança pode escolher? No entanto, a inclinação homossexual surge na infância e ela nada pode fazer contra ela. Escrevo indiferentemente sobre gays e heterossexuais porque, para mim, a manifestação do desejo sexual impede pessoas de serem neuróticas, histéricas ou perversas.

Seu contato com a cultura pop é muito forte, a ponto de Mick Jagger ser mencionado no livro como o homem que recomendou a escola secundária em que Rafi, o filho do psicanalista Jamal, estuda. O que o pop significa para você?

Cresci na Inglaterra nos anos 1960, ou seja, num cenário inteiramente dominado pela cultura pop. Assim, é impossível renegar minha formação. Ainda amo o pop. As melhores cabeças da minha geração são do rock.

Freud está de novo no centro das discussões e também ocupa os pensamentos do principal personagem do livro, o psicanalista Jamal. Você, que faz análise, como vê suas teorias?

Freud é incontornável, o maior pensador crítico da sexualidade que o mundo já teve, além de um profundo estudioso de questões como o monoteísmo. A psicanálise me salvou das drogas e das obsessões sexuais. Pena não a ter descoberto antes. Escrevi Tenho Algo a te Dizer tendo em mente sua contribuição nos estudos sobre repressão sexual e O Mal-Estar da Civilização como guia.

Parece que seu público-alvo hoje é bem diferente do leitor que perseguia na época de Minha Adorável Lavanderia. Que tipo de leitor tinha em mente ao escrever Tenho Algo a te Dizer?

Primeiro, nunca tive em mente um só tipo de leitor, mesmo quando escrevi o roteiro de Minha Adorável Lavanderia, que poderia, teoricamente, ser dirigido aos gays. Escrevo para entender a mim mesmo, para me entreter.

Mesmo falando de coisas como preconceito racial e fundamentalismo religioso?

Sou fascinado pelo estudo das religiões, mas não estou interessado em nenhuma delas em particular. Frequentei, sim, uma mesquita quando meu pai morreu, mas para entender sua formação cultural, não porque pretendia me converter ao islamismo.

Você acredita que a Inglaterra se tornou mais racista desde que era criança e sofria o preconceito de colegas brancos? Ouvi dizer que você foi preso e o policial londrino disse que tinha uma “aparência mediterrânea”. Como reagiu a essa provocação?

Há muitas formas de racismo na Europa. A desse policial é apenas uma entre muitas. É difícil erradicar o racismo. Sempre haverá alguém disposto a odiar o outro por causa de sua cor, religião ou preferência sexual. Isso é inevitável. O que não é lícito permitir é a repressão da criatividade e das liberdades fundamentais. Preparo uma adaptação teatral de O Álbum Negro, que deve estrear em julho, em Londres, justamente por acreditar nisso.

15/02/2009 - 16:50h O baú das preciosidades de Julio Cortázar

Muitos textos inéditos aparecem nos 25 anos da morte do escritor

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Luiz Zanin Oricchio – O Estado SP

Há 25 anos, no dia 12 de fevereiro de 1984, morria em Paris o escritor Julio Cortázar. Passado esse quarto de século, a data traz algo mais relevante que o artificialismo das efemérides: a editora espanhola Alfaguara promete, para maio, um sólido volume de inéditos do autor, reunidos sob o título de Papeles Inesperados.

São textos que prometem: 11 contos nunca antes publicados, um capítulo que ficou fora da versão final do romance O Livro de Manuel, 13 poemas e quatro entrevistas que o escritor fez a si mesmo. Entre os papéis foram encontrados ainda 11 novos episódios do livro Um Tal Lucas, uma narrativa intitulada Os Gatos, e mais três textos avulsos que deveriam ter sido incluídos em uma das obras mais conhecidas do escritor, Histórias de Cronópios e de Famas. Há também vários “sueltos”, artigos ensaísticos sobre pintura, literatura, política e viagens. Farto material, suficiente para uma obra póstuma de 450 páginas, como está projetando a Alfaguara.

O material, segundo o diário espanhol El Pais, estava guardado em cinco caixotes e foram recuperados e inventariados por Aurora Bernárdez, primeira mulher de Cortázar, e pelo pesquisador argentino Carlos Álvarez, especializado na obra cortazariana.

Apenas após a publicação desse material inédito se terá ideia do seu valor literário. Mas, desde já, se pode dizer que sua importância histórica é imensurável. Cortázar foi um contista de mão cheia e algumas de suas coletâneas estão entre os clássicos universais do gênero como Bestiário, Alguém Que Anda por Aí e Octaedro. Basta lembrar que um dos seus contos, Las Babas del Diablo, foi adaptado para o cinema por ninguém menos que Michelangelo Antonioni no filme Blow Up – Depois Daquele Beijo, um clássico dos anos 60.

De qualquer forma, o material trará à tona a eterna discussão sobre a publicação póstuma de inéditos. Se não foram publicados em vida do escritor foi porque ele assim o desejou. Mas até que ponto o artista é o melhor juiz de sua própria obra? Sempre é bom lembrar que Kafka pediu ao seu melhor amigo, Max Brod, que destruísse todos os manuscritos após sua morte. Para o bem da humanidade, Brod traiu o amigo.

http://eblogtxt.files.wordpress.com/2009/01/julio_cortazar3.jpgCortázar, ao que se saiba, não deixou nenhuma instrução do gênero. Simplesmente ignorou esses escritos e deixou-os repousando em silêncio enquanto construía uma das obras mais sólidas da literatura hispano-americana do século passado. Esses inéditos não cobrem um período específico de sua vida, mas abrangem quase a totalidade de sua carreira literária. Segundo informações da editora, há entre eles textos dos anos 1930, quando Cortázar era ainda um simples professor de província e nunca havia publicado, o que só viria a acontecer em 1946 quando Jorge Luis Borges, que então dirigia a revista Los Anales de Buenos Aires, deu espaço para um estranho conto chamado A Casa Tomada. Mas há também textos mais recentes, que acompanham a trajetória do escritor praticamente até 1984, ano da sua morte. Pode-se dizer, então, que esses inéditos significam a descoberta de um Cortázar subterrâneo, ignorado até agora. De que maneira esses textos poderão conduzir a reavaliações da obra ou da biografia é assunto para ser pensado depois que forem lidos.

Qualquer que seja o seu valor, pode ser que sirvam como pretexto para reavivar a discussão em torno de uma obra que, além da intrínseca importância literária, foi das mais estimulantes do século passado. Cortázar celebrizou-se como autor de contos fantásticos (A Casa Tomada é um deles), mas não pode ser reduzido a essa etiqueta, embora tenha se tornado um autor clássico nesse gênero.

Mas obras como O Jogo da Amarelinha ou Livro de Manuel nada têm de fantástico, pelo menos não no sentido convencional do termo. Rayuela, título original de O Jogo da Amarelinha, é considerada a sua obra-prima, e continua a ser um romance desafiador até hoje. Narra, em dois tempos, a vida de um alter ego de Cortázar, o intelectual argentino Horácio Oliveira. Na primeira metade do livro, o quarentão Horácio vive em Paris um caso de amor com a uruguaia Maga. Na segunda, expulso da França, ele retorna à Argentina. O livro pode ser lido de maneira convencional, em linha reta, ou saltando de um capítulo a outro, segundo uma chave de leitura predeterminada. Há capítulos “dispensáveis”, que podem ser pulados em determinada sequência de leitura.

No entanto, o leitor experimentado em Cortázar logo descobre que esses capítulos dispensáveis são na verdade os essenciais. Alguns deles põem em cena um personagem aparentemente secundário, o escritor Morelli, que discute literatura com Horácio e com seus amigos do Clube da Serpente, agremiação informal de artistas malditos dispersos por Paris. O livro é, ao mesmo tempo, a narrativa e seu questionamento, conteúdo e forma convergindo na crítica radical da literatura contemporânea e seus impasses.

Esse aspecto da obra foi detectado por um dos principais ensaístas literários do Brasil, Davi Arrigucci Jr., que o analisa em O Escorpião Encalacrado, livro de exegese literária que teve a aprovação do próprio Cortázar. O título é citação de um trecho de O Jogo da Amarelinha: “El alacrán, cansado de ser un alacrán, pero necesitado de su propia alacranidad para dejar de ser un alacrán.” Um escorpião que, cansado de si, crava em si o próprio ferrão para deixar de ser um escorpião. Metáfora para formas narrativas cansadas, a linguagem que precisa ser destruída pela linguagem, para que nova linguagem possa nascer.

Essa a “poética” de Cortázar, um escritor do jogo, do improviso, da criação. Um escritor jazzístico, que tinha em Charlie Parker seu modelo maior de artista (A Parker é dedicado seu conto O Perseguidor). Gosto pelo lúdico que repercute na obra do mais badalado escritor latino-americano da atualidade, o chileno Roberto Bolaño (1953-2003).

01/02/2009 - 13:01h ”Do exílio ninguém regressa”

O argentino Tomás Eloy Martínez tenta com Purgatório recuperar o que o desterro lhe tirou

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Soledad Gallego-Diaz, EL PAÍS – O Estado SP

 


O purgatório, segundo a doutrina da Igreja Católica, é o processo de purificação necessário antes de se entrar no reino dos céus e passa pela dor de não desfrutar a presença de Deus, a ausência, a perda do bem extraordinário que é a contemplação do amor e do ente querido. Purgatorio é, nesse sentido, o melhor título possível para o mais recente romance do escritor argentino Tomás Eloy Martínez (Tucumán, 1934): a história de uma perda e de um exílio. Sua personagem, Emilia Dupuy, procura, durante 30 anos, seu marido detido pelos militares argentinos e desaparecido. Um dia ela o encontra num pub dos Estados Unidos: o tempo não passou para ele. “Quando você volta ao lar do qual partiu, pensa que fechou o círculo, mas percebe que sua viagem foi só de ida. Do exílio ninguém regressa”, escreve o narrador da história. Mas Emilia não acredita nele.

Seu romance é uma história terrível de perda.

Pensei muito na dor das pessoas que perderam alguém, mas, sobretudo, na dor maiúscula que significa não ver esse alguém morto. A constatação da morte é, pelo menos, uma forma de consolo. O limbo ou o purgatório de não saber o que foi feito do ser amado, onde ele está, se está morto, ou se está perguntando por você em outro lugar, é desesperador. De fato, já se fala disso na tragédia grega, quando Antígona não consegue enterrar seu irmão.

Durante a época da ditadura militar desapareceram cerca de 30 mil argentinos. Esse sentimento de perda, que é tão opressivo no romance, acomete qualquer argentino de sua geração?

Em meu caso, fui expulso de meu país pouco antes da ditadura. A motivação que me levou a escrever este livro é, precisamente, a interrupção de uma vida pelo exílio. Há dez anos de minha vida que se foram para sempre e que são irrecuperáveis. Pensei em recuperá-los mediante a escrita. A privação dos afetos é terrível. Por alguma razão, os gregos já pensavam no exílio como um castigo equivalente à morte. Eles o arrancam de seus afetos, de seus filhos, de sua vida profissional. Eles o obrigam a ser outro. E nessa “alteridade” você se perde.

Chama a atenção que suas duas personagens, Emilia e Simón, sejam precisamente cartógrafos.

Não sei bem por que, mas me preocupa há algum tempo a ideia do mapa e da semelhança entre o mapa e o romance. A escrita do romance e a realização dos mapas são, ambas, invenções da realidade, imaginações. No princípio, os seres humanos, quando não sabiam em que terra estavam pisando, imaginavam o mundo e lhe punham nomes a seu critério.

Mas, ao mesmo tempo, os mapas existem para que as pessoas não se percam, para que alguém não desapareça.

Exatamente.

A personagem de Emilia está perdida, mas encontra Simón pela formidável intensidade de seu amor. O amor é o único sentimento capaz de desencadear tanta força?

É sobretudo a ansiedade de recuperar o amor que não se viveu, que nos converte em outro ser. Como eu digo, o impulso inicial que me moveu a escrever este livro foi tratar de recuperar, mediante a escrita e a imaginação, o que o exílio me tirou. A escrita e a imaginação têm um poder maiúsculo, um poder que tratei de medir com a escrita deste romance. A ideia original era narrar a vida cotidiana dos argentinos, não os campos de concentração, não os tormentos, não as mortes horrendas, e sim a mediocridade da vida cotidiana. Sobretudo, algo que me perturbava, estando fora por tanto tempo, como não se reage, como se olha para outro lado? As ditaduras não são possíveis sem uma cumplicidade coletiva; uma certa forma de resignação ou de cumplicidade coletiva. A fonte dessa cumplicidade, acredito, é a ignorância. O grande recurso dos autoritarismos é obrigá-lo a ignorar, a que só saiba o que eles querem que saiba.

A primeira coisa que as autoridades israelenses fizeram antes de invadir Gaza foi impedir a presença de jornalistas.

Sim. E outra coisa importante. Aqui, se você denunciava o que via, o regime o denegria imediatamente como “antiargentino” e como tal o condenava. Agora, se você publica fora de Israel alguma coisa sobre o que sucede em Israel, podem muito bem chamá-lo de antissemita. Quando Israel levantou o muro, que me pareceu contrário a toda tradição da perseguição aos judeus, publiquei um artigo em La Nación, dizendo que era uma barbaridade, uma forma lenta de morte, e você não imagina a quantidade de vozes que se ergueram aqui para me acusar de antissemita.

Uma personagem que me parece interessante é a de Dupuy, o pai de Emilia. Ele não é um homem que está louco, mas que é, basicamente, um sem-vergonha.

Isso mesmo. Um canalha. Ele tem um ideal de extrema direita, militar, a ideia de construir um país sobre a ideia de “Deus, Pátria e Lar”, a espada e a Igreja, a união das armas com a fé e tudo isso misturado com a corrupção que afeta os pressupostamente incorruptíveis e se revela avassaladora. É esse também o tema de outro romance meu, O Voo da Rainha. Neste caso, é um jornalista incorruptível, que, em seu empenho em lutar contra a corrupção, se corrompe.

É tão fácil se corromper?

Se você não tem uma estrutura moral muito sólida e a corrupção não o repugna por princípio ou por vergonha, então, sim, suponho que a corrupção é uma tentação muito importante. Ela assume formas às vezes imprevisíveis. Aqui se veem infinitas formas de corrupção, inclusive você pode se converter em um corrupto sem ter consciência disso. A corrupção não é somente corrupção do dinheiro. A corrupção no jornalismo, por exemplo, é a sedução do poder, fazê-lo acreditar que você pode derrubar um ministro ou ter alguma influência maior.

Um episódio curioso no romance é o momento em que Dupuy pai visita Orson Welles para lhe propor que faça um documentário sobre os campeonatos mundiais de futebol. Cheguei a acreditar que fosse uma história possível.

Assim se criam as personagens. Conheci Orson Welles tal como Dupuy o conhece, na última tourada de Antonio Bievenida, em Toledo. Eu era um jornalista e ele estava muito envolvido na cerimônia de apartar os touros, opinando como se fosse um especialista. Eu me contive e não lhe perguntei sobre o Quixote, que ele havia deixado pelo meio. Admiro muito Welles, para mim ele é eticamente muito valioso. Pareceu-me que se o episódio não tivesse verossimilhança não poderia ter força e pus-me a estudar Welles, de modo que quando Dupuy o visita, eu sabia onde ele estava, o que fazia. Descobri que nessa época Orson Welles emprestou sua voz a um filme que se chama Genocídio, e me pareceu interessante devolver-lhe a homenagem.

Com relação à personagem de Emilia, às vezes é desesperador o tempo que ela demora para se dar conta do que se passou com seu marido, apesar das muitas pessoas que lhe contam.

Ela o explica num dado momento: “Se Simón está morto, então meu pai é um assassino e minha mãe, uma cúmplice.” E sobre a morte de seu marido, que já seria uma carga suficiente para ela, pois é a esperança que a mantém viva, teria que somar a culpa por esses antepassados assombrosos. Emilia é um reflexo, ou uma metáfora, embora a palavra me pareça um pouco presunçosa, da sociedade argentina em geral, à qual estão ocorrendo as coisas diante de seus olhos e ela não os vê. Prefere esperar que ocorram milagres. Mas Emilia não espera passivamente, porque procura de todos os modos.

A história de amor, que é tão importante no romance, seria possível pensá-la igual se a desaparecida fosse ela e Simón quem a procura?

Creio que o gênero masculino não tem, em geral, a mesma força passional e a mesma tenacidade que as mulheres têm. Por algum motivo, são As Mães da Plaza de Mayo e não Os Pais da Plaza de Mayo. Embora os maridos acompanhem o símbolo da busca e da espera, foram as mulheres que bateram de frente com a ditadura.

Seu romance tem muitas leituras possíveis: é uma história de amor, mas também um romance político, mas também um romance metafísico… É um romance sem medo.

Sem medo das consequências. Caminhar sobre uma corda bamba sem cair. Nesses temas a gente pensa qual é o limite e até onde posso avançar, e quanto mais livre você se sente, mais seguro se sente e melhor avança. De todos os meus livros, este foi o que escrevi mais rapidamente, me deixando levar.

O senhor acredita que algo que existiu um dia existe para sempre?

Um ser que existiu persiste por intermédio da memória. Por isso, o livro insiste em que a identidade de cada um de nós está nas recordações. Não só nas recordações que se tem, mas nas recordações que se deixa. Por isso o céu e o inferno são suas boas e suas más ações, aquilo que você deixou e o que permanece na memória dos outros.

TRADUÇÃO DE CELSO MAURO PACIORNIK

FLUÊNCIA NARRATIVA E BASES HISTÓRICAS MARCAM SUA FICÇÃO

CONTRA O PODER: A experiência com a ditadura militar argentina resultou em marca na militância e na ficção de Tomás Eloy Martínez, nascido na província de Tucumán, em 1934. Formado em literatura e especializado em Jorge Luis Borges, Eloy Martínez atuou como repórter na Argentina e na França, tendo iniciado a carreira jornalística como crítico de cinema. Durante o seu exílio, ele ajudou a fundar periódicos importantes como El Diario (Venezuela) e Siglo 21 (México). Ele criou o suplemento literário Primer Plano para o jornal Página/12, de Buenos Aires. Desde 1995, ele dirige o Programa de Estudos Latino-americanos da Rutgers University, em Nova Jersey. Marcados pela fluência narrativa e tramados em bases históricas, seus romances abordam, de modo geral, os efeitos do exercício do poder, visto sob um olhar cético, por vezes cáustico. Cinco de seus livros estão em catálogo: O Voo da Rainha (Objetiva), O Cantor de Tango, A Mão do Amo, O Romance de Perón, Santa Evita (todos Companhia das Letras).

15/01/2009 - 16:31h Estudo liga infidelidade em mulheres a hormônio

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BBC – O Globo

http://mentedespenteada2.blogs.sapo.pt/arquivo/infidelidade.jpgMulheres com uma concentração mais elevada de um hormônio ligado à auto-estima que as faz se considerarem atraentes têm mais chances de ter casos extraconjugais e de trocar de parceiros com freqüência, segundo estudo realizado nos Estados Unidos.

A pesquisa da Universidade do Texas em Austin relaciona o nível de auto-estima com a quantidade do hormônio estradiol – as mulheres com mais desses hormônios tendem a se considerar mais bonitas e a serem consideradas mais atraentes por outras pessoas.

” As voluntárias com maior nível de estradiol tinham mais histórias de paqueras e de casos com outros homens além de seu parceiro fixo “

Os cientistas afirmam que essas mulheres têm a tendência a se sentir menos satisfeitas com seus parceiros e menos comprometidas com eles, em um comportamento que os autores do estudo chamam de “monogamia oportunista em série”.

Segundo eles, isso se deve a um “instinto” de buscar parceiros com mais qualidades.
Bons parceiros

“Na natureza, é difícil conseguir um parceiro que seja ao mesmo tempo um bom provedor de estabilidade para a família e que tenha bons genes para procriar. Por isso, muitas mulheres alternam um relacionamento mais duradouro com aventuras com homens mais atraentes”, explica a psicóloga Kristina Durante, a principal autora da pesquisa, publicada na revista Biology Letters, da Royal Society.

“Já as mulheres mais bonitas demandam mais os dois tipos de recursos por parte do parceiro e procuram um padrão de qualidade que às vezes é difícil de conseguir.”

Segundo Durante, é por isso que muitas mulheres não se sentem obrigadas a se comprometer com um parceiro se outro com possíveis melhores qualidades se torna disponível.

O hormônio estradiol está ligado à fertilidade e à saúde reprodutiva da mulher.

Estudos realizados no passado mostram que o estradiol alimenta o desejo de poder em mulheres solteiras. Segundo essas pesquisas, aquelas mulheres que não tomam pílulas anticoncepcionais estão ainda mais vulneráveis ao hormônio.
Duradouro

Para o estudo da Universidade do Texas, os pesquisadores analisaram os hormônios presentes na saliva de 52 universitárias com idades entre 17 e 30 anos, em dois estágios de seu ciclo menstrual.

” Essas mulheres parecem adotar uma estratégia de ‘monogamia serial’, em que buscariam sempre um parceiro melhor para a reprodução “

As voluntárias também falaram sobre sua história sexual e avaliaram sua própria aparência. A seguir elas receberam notas no mesmo quesito de outros jovens estudantes de ambos os sexos.

“As voluntárias com maior nível de estradiol tinham mais histórias de paqueras e de casos com outros homens além de seu parceiro fixo”, disse Kristina Durante.

Mas elas também se mostraram mais envolvidas em relacionamentos duradouros do que em romances passageiros ou “ficadas”.

“Essas mulheres parecem adotar uma estratégia de ‘monogamia serial’, em que buscariam sempre um parceiro melhor para a reprodução”, explica a psicóloga. “Não é o sexo casual que as interessa.”

06/01/2009 - 20:03h Carta de Anaïs Nin

“Prezado coleccionador:

Detestamo-lo. O sexo perde todo o seu poder, toda a sua magia, quando se torna explícito, abusivo, quando se torna mecanicamente obcecante. Passa a ser enfadonho.

Nunca conheci pessoa que melhor provasse o erro que é não se lhe juntar a emoção, a fome, o desejo, a luxúria, os caprichos, as manias, os laços pessoais, relações mais profundas, que lhe mudam a cor, o perfume, os ritmos, a intensidade.

Nem o senhor sabe o quanto perde com esse seu exame microscópico da actividade sexual e a exclusão dos outros aspectos, que são o combustível que a faz atear. Intelectual, imaginativo, romântico, emocional. Eis o que dá ao sexo as suas surpreendentes texturas, as mudanças subtis, os elementos afrodisíacos. O senhor restringe o seu mundo de sensações. Disseca-o, definha-o, tira-lhe o sangue.

Se o senhor alimentasse a sua vida sexual com todas as aventuras e excitações que o amor instila a sensualidade, seria o homem mais poderoso do mundo. A fonte da potência sexual é a curiosidade, é a paixão. O que o senhor vê é sua débil chama a morrer de asfixia. O sexo não pode medrar na monotonia. Sem invenções, humores, sentimentos, não há surpresa na cama. O sexo deve ter à mistura lágrimas, riso, palavras, promessas, cenas, ciúme, inveja, todos os condimentos do medo, viagens ao estrangeiro, novas caras, romances, historias, sonhos, fantasias, musica, dança, ópio, vinho. O que o senhor perde com esse periscópio na ponta do sexo, quando podia gozar de um harém de maravilhas várias e jamais repetidas! Não há dois cabelos iguais; mas o senhor não quer que desperdicemos palavras a descrever uns cabelos. Não há dois cheiros iguais; porém, se nós nos detemos com isso, o senhor exclama: “Suprimam a poesia.” Não há duas peles de igual textura; nunca é a mesma luz, a mesma temperatura, as mesmas sombras, nunca são os mesmos gestos; porque um amante, quando animado do verdadeiro amor, é capaz de vencer séculos e séculos de ciência amorosa. Quantas mudanças de tempo, quantas variações de maturidade e de inocência, de arte e de perversidade…

Discutimos até à exaustão para saber como seria o senhor. Se fechou os sentidos à seda, à luz, à cor, ao cheiro, ao carácter, ao temperamento, deve estar nesta altura totalmente empedernido. Há tantos sentidos menores que se lançam como afluentes no rio do sexo!

Só o bater em uníssono do sexo e do coração pode provocar o êxtase.»

Anaïs Nin, 1941

Anaïs Nin

Anaïs Nin nasceu em 1903 em Neully-sur-Seine, filha do pianista espanhol nascido em Cuba, Joaquín Nin y Castellanos e da cantora dinamarquesa Rosa Culmell. Desde os onze anos que escreveu continuamente o seu diário até 1977.
Em 1932 conhece Henry Miller, em Paris. Desse encontro nascerá uma célebre relação amorosa (parcialmente descrita em Henry e June) e intelectual. Anaïs Nin redige o prefácio para o livro de Miller Trópico de Câncer e ambos escrevem Contos Eróticos. Alguns aspectos da intensa vida da escritora acabam por ser revelados em 1992, através da edição do volumoso Diário Inexpurgado referente a 1932-1934 e editado sob o título Incesto. De facto, os textos anteriormente publicados, os do Diário de 1966, haviam sido expurgados de nomes de personagens vivos e de certas intimidades, privilegiando a estética literária.
Além dos referidos volumes diarísticos, a escritora publicou Debaixo de Uma Redoma (1944), Os Espelhos o Jardim (1946), Uma Espia na Casa do Amor (1954) e Sedução do Minotauro (1961).
Anaïs Nin morreu em Los Angeles, no ano de 1977.

DELTA DE VENUS: HISTORIAS EROTICASEm Delta de Venus, Histórias eróticas, Anaïs Nin adentra na vida de prostitutas que satisfazem os mais estranhos desejos de seus clientes. Mulheres que se aventuram com desconhecidos para descobrir sua própria sexualidade. Triângulos amorosos e orgias. Modelos e artistas que se envolvem num misto de culto ao sexo e à beleza. Aristocratas excêntricos e homens que enlouquecem as mulheres. Estes são alguns dos personagens que habitam os contos – eróticos – de Delta de Vênus, de Anaïs Nin. Escritas no início da década de 40 sob a encomenda de um cliente misterioso, estas histórias se passam num mundo europeu-aristocrático decadente, no qual as crenças de alguns personagens são corrompidas por novas experiências sexuais e emocionais. Discípula das descobertas freudianas, Anaïs Nin aplicou nestes textos a delicadeza de estilo que lhe era característica e a pungência sexual que experimentou na sua própria vida. Mais do que contos eróticos, Delta de Vênus oferece ao leitor histórias de libertação e superação. (Fonte Travessa.com).

Anaïs Nin – Prefácio de Delta de Vénus
(tradução do original: Paulo J. Lourenço)
Abril, 1940

Um coleccionador de livros ofereceu cem dólares por mês a Henry Miller para que ele escrevesse histórias eróticas. Pareceu-me um castigo dantesco condenar Henry a escrever erótica a um dólar por página. Ele revoltou-se porque o seu sentimento era o oposto de um Rabelais. Escrever por encomenda era uma ocupação castrante e escrever com um voyeur a espreitar pelo buraco da fechadura tirava toda a espontaneidade e prazer das suas aventuras.

Dezembro, 1940

Henry contou-me acerca do coleccionador. Por vezes almoçavam juntos. O coleccionador comprou um manuscrito a Henry e sugeriu-lhe que escrevesse para um dos seus antigos e abastados clientes. Ele não podia dizer muito acerca do seu cliente excepto que estava interessado em erótica.

Henry começou a escrever alegremente, na brincadeira. Inventou histórias malucas que o faziam rir. Encarou a tarefa como uma experiência e, de início, parecia fácil mas ao fim de algum tempo a experiência abateu-se sobre ele. Não desejava tocar em nenhum do material que tinha reservado para o seu trabalho sério e assim ficou condenado a forçar as suas invenções e a sua disposição.

Nunca recebeu uma palavra de reconhecimento do seu estranho patrono. Podia ser natural que não desejasse revelar a sua identidade mas Henry começou a provocar o coleccionador. Este patrono existia de facto? Estas páginas eram para o próprio coleccionador para temperar a sua própria vida melancólica? Seriam o coleccionador e o patrono uma e a mesma pessoa? Henry e eu discutimos isto longamente, simultaneamente confusos e divertidos.

por esta altura, o coleccionador anúncio que o seu cliente viria a Nova Iorque e que Henry se encontraria com ele. Mas, de alguma forma, este encontro acabou por nunca se concretizar. O coleccionador era generoso em descrições sobre como enviava os manuscritos por correio aéreo, quanto custavam os envios, pequenos detalhes com a intenção de acrescentar realismo às pretensões que ele fazia acerca da existência do seu cliente.

Um dia ele quis uma cópia de «Black Spring» com uma dedicatória. Henry disse-lhe:
- “Mas eu pensava que me tinha dito que ele já possuía edições assinadas de todos os meus livros”.
- “Ele perdeu a cópia de «Black Spring».”
- “A quem devo dedicá-la?” – perguntou Henry inocentemente.
- “Escreva apenas «a um bom amigo» e assine o seu nome”.

Algumas semanas depois Henry precisou de uma cópia de «Black Spring» e não encontrou nenhuma. Decidiu pedir emprestada a cópia do coleccionador e dirigiu-se ao seu escritório. O secretário pediu-lhe para esperar. Começou a passar os olhos pelos livros que estavam nas prateleiras. Viu uma cópia de «Black Spring». Retirou-a. Era aquela que ele havia dedicado “a um bom amigo”.

Quando o coleccionador apareceu, Henry mencionou este facto, rindo-se. Igualmente de bom humor o coleccionador explicou:
- “Oh, sim! O velhote ficou tão impaciente que lhe mandei a minha cópia enquanto esperava que assinasse esta. Tenho a intenção de trocar as cópias quando ele voltar a Nova Iorque”.

Henry disse-me quando nos encontrámos:
- “Estou mais estupefacto que nunca”.

Quando Henry perguntou qual estava a ser a reacção do seu patrono à sua escrita a resposta foi:
- “Oh, ele gosta de tudo. É tudo maravilhoso mas ele prefere a narrativa, apenas o contar da história. Nada de análises, nada de filosofia”.

Quando Henry precisou de dinheiro para as suas despesas de viagem sugeriu-me que eu escrevesse. Senti que não queria dar nada de genuíno e decidi criar uma mistura de histórias que tinha ouvido e invenções, fazendo de conta que eram do diário de uma mulher. Nunca cheguei a conhecer o coleccionador. Ele deveria ler as minhas páginas e dizer-me o que pensava. Hoje recebi um telefonema. Uma voz disse:
- “Está bom mas deixe de lado as descrições e as poesias de tudo o que não seja sexo. Concentre-se no sexo”.

Assim, comecei a escrever de forma falaciosa, tornei-me mais grotesca, inventiva e tão exagerada que pensei que ele percebesse que estava a caricaturizar a sexualidade. Mas não houve nenhum protesto. Passei dias na biblioteca a estudar o “Kama Sutra” e ouvi as aventuras mais extremas de amigos.

- “Menos poesia” – disse a voz pelo telefone. “Seja específica”.

Mas alguma vez alguém tirou prazer de ler uma descrição clínica? O velhote não saberia como as palavras carregam consigo as cores e os sons para a carne?

Todas as manhãs, depois do pequeno-almoço me sentava e escrevia a minha porção de erótica. Uma manhã escrevi “Havia um aventureiro húngaro…” e dei-lhe muitas vantagens: beleza, elegância, graça, charme, os talentos de um actor, conhecimentos de muitas línguas, um dom para a intriga e para sair de dificuldades e um dom para evitar a permanência e a responsabilidade.

Outra chamada telefónica:
- “O velhote está satisfeito. Concentre-se no sexo. deixe de lado a poesia”.

Isto foi o início de uma epidemia de “diários” eróticos. Toda a gente escrevia as suas experiências sexuais. Inventadas, ouvidas, investigadas no Krafft-Ebing e livros clínicos. Tínhamos conversas cómicas. Contávamos uma história e os restantes de nós tinham que decidir se era verdadeira ou não. Ou plausível. Seria isto plausível? Robert Duncan ofereceria-se para experimentar, para testar as nossas invenções, confirmar ou negar as nossas fantasias. Todos nós precisávamos de dinheiro e assim juntámos as nossas histórias.

Eu tinha a certeza de que o velhote não sabia nada sobre as beatitudes, os êxtases, as fantásticas reverberações dos encontros sexuais. Deixe de lado a poesia era sua mensagem. Sexo clínico, despido de todo o calor do amor – a orquestração de todos os sentidos, toque, audição, olhar, palato; todos os acompanhamentos eufóricos, a música de fundo, os estados de alma, atmosfera, variações – forçavam-no a recorrer a afrodisíacos literários.

Poderíamos ter forjado melhores segredos para lhe contar, mas ele seria surdo a tais segredos. Porém, um dia, quando ele se saturasse dir-lhe-ia como ele quase nos fez perder o interesse na paixão, devido à sua obsessão com gestos esvaziados das suas emoções e como o tínhamos vituperado porque ele quase nos tinha feito tomar votos de castidade porque aquilo que ele tinha desejado que exluíssemos era o nosso próprio afrodisíaco-poesia.

Recebi cem dólares pela minha erótica. Gonzalo precisava de dinheiro para o dentista, Helba de um espelho para a sua dança e Henry dinheiro para a sua viagem. Gonzalo contou-me a história do Basco e Bijou e eu escrevia-a para o coleccionador.

Fevereiro, 1941

A conta telefónica estava por pagar. A teia das dificuldades económicas estava a fechar-se sobre mim. Toda a gente à minha volta irresponsável, insconsciente do afundar do barco. Escrevi trinta páginas de erótica.

Novamente acordei para a consciência de estar sem um cêntimo e telefonei ao coleccionador. O seu cliente rico tinha-lhe dito alguma coisa acerca do último manuscrito que lhe tinha enviado? Não, ele não tinha, mas ele ficaria com o último que havia escrito e pagar-me-ia por ele. Henry precisava de ir ao médico. Gonzalo precisava de óculos. Robert apareceu com B. e pediu-me dinheiro para ir ao cinema. Os restos da janela cairam sobre o papel e o meu trabalho. Robert apareceu e levou a minha caixa de papel de escrita. O velhote não estaria já cansado de pornografia? Não se daria um milagre? Comecei a imaginá-lo a dizer “Dêem-me tudo o que ela escreve, quero tudo, gosto de tudo. Vou mandar-lhe um grande presente, um grande cheque por todo o trabalho que ela teve”.

A minha máquina de escrever estava estragada. Com cem dólares no meu bolso recuperei o meu optismo. Disse a Henry:
- “O coleccionador diz que gosta de mulheres simples e não intelectuais, mas convidou-me para jantar”.

Tinha um pressentimento que a caixa de Pandora continha os mistérios da sensualidade feminina, tão diferente da do homem e para a qual a linguagem do homem era inadequada. A linguagem do sexo ainda teria que ser inventada. A linguagem dos sentidos ainda tinha que ser explorada. D. H. Lawrence começou a dar uma linguagem ao instinto, ele tentou escapar ao clínico, ao científico, que apenas capturam o que o corpo sente.

Outubro, 1941

Quando Henry regressou fez uma série de afirmações contraditórias. Que ele conseguia viver de nada, que se sentia tão bem que até podia arranjar um emprego, que a sua integridade o impedia de escrever cenários em Hollywood, até que, por fim, eu disse:
- “E que tal sobre a integridade de escrever erótica a troco de dinheiro?”

Henry riu, admitiu o paradoxo, as contradições. Riu e deixou o assunto.

A França teve uma tradição de escrita erótica num estilo fino e elegante. Quando comecei a escrever para o coleccionador pensei que haveria uma tradição semelhante aqui mas não encontrei mesmo nenhuma. Tudo o que vi era inferior, escrito por escritores de segunda. Nenhum bom escritor havia sequer tentado erótica.

Disse a George Barker como Caresse Crosby, Robert, Virginia Admiral e outros estavam a escrever. Apelou ao seu sentido de humor a ideia de eu ser a “madame” desta snob casa de prostituição literária, da qual a vulgaridade era excluída. Rindo, disse-lhe:
- “Eu forneço o papel e o quimico, entrego o manuscrito anonimamente, protejo o anonimato de toda a gente”.
George Barker achou que isto era muito mais humorado e inspirador que mendigar, pedir emprestado ou pedinchar refeições aos amigos. Juntei poetas à minha volta e todos nós escrevemos erótica linda. Como estávamos condenados a concentrarmo-nos apenas na sensualidade tínhamos violentas explosições de poesia. Escrever erótica passou a ser um caminho para a santidade em vez de ser um caminho para o deboche. Harvey Breit, Robert Duncan, George Barker, Caresse Crosby, todos concentrámos de tal forma os nossos esforços num tour de force (em francês no original), fornecendo ao velhote uma abundância de momentos de felicidade perversos, que agora ela suplicava por mais.

Os homossexuais escreviam como se fossem mulheres. Os tímidos escreviam acerca de orgias. As frígidas sobre satisfações alucinadas. Os mais poéticos condescendiam em bestialidade pura e os mais puros em perversões. Estávamos assombrados pelos maravilhosos contos que não conseguíamos contar. Sentávamo-nos, imaginávamos como sria o velhote, falávamos de como o odiávamos por ele não nos permitir uma fusão entre sexualidade e sentimento, sensualidade e emoção.

Dezembro, 1941

George Barker era muito pobre. Ele queria escrever mais erótica. Escreveu oitenta e cinco páginas. O coleccionador achou-as demasiado surreais. Eu adorei-as. As suas cenas de amor eram loucas e fantásticas. Amor entre trapézios.
Gastou o seu primeiro dinheiro em bebida e eu não lhe podia emprestar mais nada para além de mais papel e mais papel-quimico. George Barker, o excelente poeta inglês, escrevendo erótica para beber, tal como Utrillo pintou quadros em troca de garrafas de vinho. Comecei a pensar no velho que todos detestávamos. Decidi escrever-lhe, dirigir-me a ele directamente, contar-lhe sobre o que sentíamos.

“Caro coleccionador, odiamo-lo. O sexo perde todo o seu poder e magia quando se torna explícito, mecânico, repetitivo, quando se torna numa obsessão mecânica. Torna-se uma seca. Ensinou-nos mais do que qualquer outra pessoa que conheça, como é errado não o misturar com emoção, fome, desejo, luxúria, tiques, caprichos, personalidades, relações mais fundas que mudam a sua cor, sabor, ritmos e intensidades.
Você não sabe o que perde por causa do seu exame microscópico da actividade sexual excluída dos aspectos que são o combustível que produzem a ignição. Intelectual, imaginativo, romântico, emocional. É isto que dá ao sexo as suas texturas surpreendentes, as suas transformações subtis, os seus elementos afrodisíacos. Você está a limitar o seu mundo de sensações. Está a destruí-lo, a matá-lo à fome, a drenar o seu sangue.
Se você alimentar a sua vida sexual com todas as excitações e aventuras que o amor injecta na sensualidade, você seria o homem mais potente do mundo. A fonte da potência sexual é a curiosidade, a paixão. Você está a ver a sua pequena chama morrer de asfixia. O sexo não se alimenta de monotonia. Sem sentimento, invenções, estados de alma, sem surpresas na cama. O sexo deve andar misturado com lágrimas, gargalhadas, palavras, promessas, cenas, ciúme, inveja, , todas as especiarias do medo, de uma viagem ao estrangeiro, novas faces, romances, histórias, sonhos, fantasias, música, dança, ópio, vinho.
Quanto você perde por causa desse periscópio na ponta do seu sexo, quando podia ter um harém de maravilhas diferentes, nunca repetidas! Não existem dois fios de cabelo iguais, mas você não nos deixa gastar palavras para descrever o cabelo. Não há dois odores iguais, mas se nos expandimos nisso você grita-nos “Cortem a poesia!” Não há duas peles com a mesma textura e nunca a mesma luz, temperatura, sombras, nunca o mesmo gesto. Um amante, quando é excitado por amor verdadeiro, pode percorrer toda a gama de séculos de conhecimento sobre o amor. Que extensão, que mudanças de idade, que variações de maturidade e inocência, perversidade e arte…
Sentámo-nos durante horas perguntando-nos como seria o seu aspecto. Se você fechou os seus sentidos à seda, luz, cores, odores, carácter, temperamento, por esta altura já deve ter mirrado por completo. Há tantos sentidos menores, todos correndo, como tributários do curso principal do sexo, alimentando-o. Apenas o batimento em uníssono do sexo e do coração pode criar extâse”.

POST-SCRIPTUM

Na altura em que escrevíamos erótica a um dólar por página apercebi-me que, durante séculos, só havíamos tido um modelo para este género literário: a escrita dos homens. Já estava consciente de uma diferença entre o tratamento masculino e feminino da experiência sexual. Sabia que havia uma grande disparidade entre a explicitude de Henry Miller e as minhas ambiguidades entre os seus humores e a visão Rabelaisiana do sexo e as minhas descrições poéticas do sexo nas porções não publicadas do diário. Como escrevi no “Volume III” do “Diário”, tinham um pressentimento que a caixa de Pandora continha os mistérios da sensualidade feminina, tão diferente do homem e para a qual a linguagem do homem era inadequada.

As mulheres, pensava eu, estavam mais aptas a fundir sexo com emoção, com o amor, e a preferirem um homem em vez de serem promíscuas. Isto tornou-se aparente para mim á medida que escrevia os contos e o “Diário”, e vi-o mais claramente ainda depois de começar a leccionar. Mas, apesar de a atitude das mulheres em relação ao sexo fosse bastante distinta da dos homens, ainda não tínhamos aprendido a escrever sobre ela.

No género erótico escrevia para entreter, sob pressão de um cliente que desejava que eu “deixasse de lado a poesia”. Eu acreditei que o meu estilo derivava da leitura de obras escritas por homens. Por esta razão durante muito tempo senti que havia comprometido o meu eu feminino. Pus o género erótico de lado. Relendo-o após todos estes anos vejo que a minha própria voz não fôra totalmente suprimida. Em numerosas passagens estava intuitivamente a usar uma linguagem feminina, a ver a experiência sexual a partir de um ponto de vista feminino. Finalmente decidi enviar a minha escrita erótica para publicação porque mostra os primeiros esforços de uma mulher num mundo que havia sido o domínio dos homens.

Se a versão integral do “Diário” fôr algum dia publicada, este ponto de vista feminino será estabelecido de forma mais clara. Mostrará que as mulheres (e eu, no “Diário”) nunca separaram sexo do sentimento, do amor do Homem completo.

Anais Nin

Los Angeles

Setembro, 1976″

Fonte Adlocutio

13/12/2008 - 14:45h Trilhando a América nos vagões da miséria

Jack London, vagabundo errante da crise de 1893, continua a ganhar discípulos

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Sérgio Augusto – O Estado de São Paulo

Daquela vez, a crise veio de trem. Precedida por um surto de pânico em 1873, a grande crise financeira de 1893 foi a maior que a América até então enfrentara. Culpa da bolha ferroviária e, a exemplo das seguintes, do estrangulamento do crédito. As ferrovias haviam se expandido de forma desordenada (11 bitolas diferentes, excesso de companhias operando nos mesmos trechos) e, antes do fim da linha, 15 mil empresas e 500 bancos descarrilaram, deixando na mão 18% da força de trabalho.

Seus efeitos ainda eram sentidos por todo o país quando, em 1895, estreou na Broadway a peça The War of Wealth (A guerra da riqueza). Tema: a desesperada corrida aos bancos de dois anos antes. O público fez sua catarse e o autor do espetáculo, C.T. Dazey, engordou sua poupança.

Jack London não teve a mesma sorte. Também inspirado pela crise econômica, escreveu um livro, The Road, de imperceptível repercussão popular e tépida recepção crítica. Mas, seis ou sete décadas atrás, a peça de Dazey já caíra no esquecimento enquanto o livro de London ia acumulando admiradores, sobretudo entre os ficcionistas que se confessavam discípulos do andarilho número 1 da literatura americana e sua viagem pela deprimida América de 1894. The Road foi para a crise de 1893 o que As Vinhas da Ira seria, mutatis mutandis, para a Depressão de 1929.

London tinha apenas 18 anos. Intensamente bem vividos, na Califórnia. Impedido pela pobreza de estudar de forma adequada, caiu cedo no mercado de trabalho. Foi entregador de jornais, faxineiro, arrumador de pinos de boliche, operário de uma fábrica de enlatados. Meteu-se com foras-da-lei (os piratas de ostras da Costa Oeste), que a seguir ajudou a combater, e, aos 17, alistou-se como aprendiz de marinheiro numa escuna rumo ao Japão e à Rússia. Queria fugir do inferno em que a quebradeira de ferrovias e bancos mergulhara a América. Quando voltou, a crise, como o célebre dinossauro de Antonio Monterosso, ainda estava lá.

Leitor compulsivo (adorava os contos de Washington Irving, os relatos de aventuras marítimas, o Herman Melville de Typee, Joseph Conrad), na certa devorou, como todo americano, Walden ou A Vida nos Bosques, de Henry David Thoreau, mas desconheço se a pinimba do filósofo naturalista com o símbolo máximo do progresso e da integração territorial da América o deixara de rabo em pé.

“Não andamos sobre a estrada de ferro, ela é que anda sob nós”, objetara Thoreau, em 1854, 24 anos depois da inauguração da primeira linha de passageiros do país, ligando Baltimore a Ohio. Receava que o transporte ferroviário viesse a exercer daninha influência sobre seus usuários, demarcando com suas chegadas e partidas o dia das pequenas cidades, cujos relógios passaram a ser acertados pelos apitos dos trens. Se bem administradas, as ferrovias podem regular o país inteiro, profetizou Thoreau. Como foram mal administradas, apenas desregularam a economia do país inteiro às vésperas do século 20.

Ao tomar conhecimento de que um jovem gráfico e sindicalista chamado Charles Kelly organizara, nos arredores de São Francisco, um “exército” de desempregados para marchar até Washington e exigir do governo medidas efetivas para debelar a crise, London arrumou a trouxa, e, de carona em carona de trem, incorporou-se ao grupo no meio do caminho. Mas afinal o abandonou no Missouri, convicto de que protestar contra as injustiças econômicas o interessava muito menos do que experimentar, livremente, como era ser pobre na América.

Teso, passou a viver, como Blanche Dubois, da caridade de estranhos. Mendigou esmolas e comida, testemunhou a violenta repressão do governo Cleveland aos milhares de esfomeados que tentaram bater à porta da Casa Branca, deslocou-se de trem, barco e a pé, calçado e descalço, e acabou preso por vadiagem durante 30 dias, já na Costa Leste.

Tudo o que viu e vivenciou no interior da América, em parte do Canadá, e no cárcere de Nova York, anotou a lápis num diário de 83 páginas. Pretendia configurá-lo como um ensaio a quatro mãos sobre, entre outras coisas, a generosidade e hospitalidade dos americanos mais pobres e a mesquinhez dos mais ricos. Mas o projeto gorou, e London foi destilar sua indignação contra “as iniqüidades do sistema” nas páginas do diário San Francisco Chronicle, da cadeia Hearst. Publicadas em capítulos na revista Cosmopolitan, suas memórias estradeiras só ganhariam lombada na primavera de 1907, acrescidas de fotos posadas, feitas pelo autor.

Àquela altura, London já lançara meia dúzia de livros, três dos quais perenes best sellers: Call of the Wild (que Monteiro Lobato traduziu como O Grito da Selva, mas também é conhecido aqui como O Chamado da Floresta e O Chamado Selvagem), O Lobo do Mar e Caninos Brancos. Mal The Road chegou às livrarias, London largou o Partido Socialista, ao qual se filiara ao voltar à Califórnia, e, desiludido com “o estado geral do país”, embarcou em seu iate, o Snark, e zarpou para os Mares do Sul, onde pretendia navegar durante sete anos. Foi em suas águas que escreveu Martin Eden, romance algo autobiográfico sobre um escritor que, desavindo com a fama e “a fatuidade burguesa”, suicida-se no Pacífico.

O relativo fracasso comercial de The Road, que alguns anos atrás a L&PM traduziu como De Vagões e Vagabundos e a Boitempo acaba de editar, com um enriquecedor prefácio de Luiz Bernardo Pericás e um título fiel ao original, A Estrada, foi uma anomalia no venturoso currículo de London, o primeiro americano a ganhar US$ 1 milhão com o ofício de escrever livros. Seu público, imenso e internacional, sempre preferiu suas ficções globe-trotters, cheias de coragem, compaixão e romantismo, todas vazadas num certo tipo de realismo cujo domínio dizia ter adquirido durante seu “aprendizado na indigência”. Para conseguir um prato de comida, viu-se muitas vezes obrigado a contar histórias que soassem verdadeiras. “O realismo é a única coisa que se pode trocar na porta da cozinha por um prato de comida.”

Foi London quem pôs nos trilhos a literatura “on the road” americana e a mística do “hobbo”, o vagabundo errante. De Ernest Hemingway (o jovem Ernest, disfarçado de Nick Adams, atravessando o país nas décadas de 1920 e 1930) a Jack Kerouac (que até cita London nominalmente em seu clássico On the Road, aqui Pé na Estrada, prestes a virar filme, dirigido por Walter Salles), todos comeram na marmita de The Road.

London também influenciou George Orwell. Seu “aprendizado na indigência”, tanto nas estradas americanas e como no East End londrino do início do século passado (pano de fundo de O Povo do Abismo-Fome e Miséria no Coração do Império Britânico, traduzido pela Perseu Abramo em 2004), serviu de inspiração para as experiências relatadas por Orwell em Na Pior em Paris e Londres (Cia. das Letras, 2006).

Não há por que duvidar que a jornalista e ensaísta Barbara Ehrenreich tenha sido influenciada por London ao planejar seu estudo sobre os que viviam à margem da exuberância econômica da Era Clinton. Para descobrir como era ser pobre e desempregado na América de dez anos atrás, Ehrenreich passou meses morando precariamente e ganhando entre dois e sete dólares por hora como garçonete, arrumadeira de hotel, faxineira e ajudante de enfermagem em asilos. Detalhes em Nickel and Dimmed.

No ano seguinte ao lançamento de The Road, London publicou outra obra de notável influência sobre Orwell e quem mais tenha se exercitado na fabulação distópica: O Tacão de Ferro (Boitempo, 2003). Ambientado numa América protofascista, onde o controle dos cidadãos por uma oligarquia não é menor que o imposto pelo Big Brother de 1984, O Tacão de Ferro virou livro de cabeceira de Lenin, Trotski e outros radicais de esquerda. Mas não só nessa seara arrebanhou admiradores. Kurt Vonnegut estreou na literatura com um pesadelo futurista, Piano Player, confessadamente marcado pela leitura de The Iron Heel. E o mesmo se pode dizer de outro precursor de Vonnegut: Sinclair Lewis, o de You Can?t Happen Here

12/12/2008 - 19:33h Executivos respondem à recessão com adultério

http://www.maison-du-muscat.com/images/blog/fr%C3%A8res%20Rabus%202.jpg

Lucy Kellaway – Financial Times – VALOR

No último mês eu arrumei 247 homens. Um trabalho ligeiro em apenas quatro semanas, mas eu me esforcei bastante. Durante meu período sabático no “Financial Times”, eu mandei e-mails de forma obsessiva para estranhos em um site de adultério da internet, participando, assim, do que descobri ser a atividade recessiva mais quente da cidade.

Entre os meus novos namorados estão um ex-poderoso administrador de fundo de hedge, muitos banqueiros agora ociosos, alguns empresários, vários diretores de empresas, um músico conhecido, alguns advogados corporativos e um construtor bastante sexy.

http://www.investigacao-virtual.org/images/traicao_virtual.jpgDuvido que era isso que o “Financial Times” tinha em mente quando decidiu que seus jornalistas deveriam receber uma folga de quatro semanas a cada quatro anos trabalhados, para o auto-aperfeiçoamento. Também não era o que eu tinha em mente quando embarquei em meu período sabático: minha intenção era escrever um romance.

Então, quando entrei pela primeira vez no “Illicit Encounters” (”Encontros ilícitos”), o mais sofisticado dos sites extra-conjugais, foi para pesquisar o adultério na internet para o meu livro. Mas, meia hora após colocar meus detalhes no site (sob o pseudônimo de Sophie Scribe), consegui 20 namorados e, uma hora depois eu já estava fisgada. Quatro semanas mais tarde, saí de tudo aquilo me sentindo um pouco suja e mais que ligeiramente incomodada com a maneira como a vida real é muito mais excitante que o livro que estou escrevendo.

O “Illicit Encounters” é parecido com uma sauna em que 230.000 profissionais casados trocam olhares lascivos por entre uma névoa virtual em busca de alguém que possa ser o amante ideal.

Enquanto estive no site, percebi que os negócios pareciam particularmente velozes entre aqueles que afirmam trabalhar no setor financeiro. Várias e várias vezes fui abordada por homens usando nomes como “Alpha 123″, ou “Civilised”, ou “CityGent”, cada um contando a mesma história: sou um banqueiro bem sucedido, agora com tempo livre, em busca de emoções/amor/romance/sexo casual, etc.

Cheia de curiosidade, entrei em contato com os donos do site para saber o que estava acontecendo. Eles me disseram que, desde setembro, o número de registros de homens londrinos trabalhadores do setor financeiro aumentou quase 300%. Ao que parece, quanto mais frio o mercado de trabalho, mais quente o mercado de adultério.

Se os números me surpreenderam, os próprios homens me surpreenderam ainda mais. Aqueles com quem conversei não eram devassos, e também não pareciam vulgares. Com freqüência, estavam sendo adúlteros pela primeira vez e eram do tipo “banqueiro careca da porta ao lado”, em vez de mais sedutores.

http://buenoecostanze.adv.br/images/stories/Estatutos/adulterio.jpg

Para aqueles leitores que nunca tiveram uma experiência do tipo, talvez eu deva explicar como o site funciona. Para manter o sigilo, todos usam nomes falsos e os membros revelam suas fotografias apenas para os membros em que sentem confiança. Isso foi um problema delicado para mim, dada a alta densidade de leitores do “Financial Times” que sempre estavam online.

À menor espiadela em minha foto, vários deles fugiram apavorados dizendo: “Meu Deus, você é Lucy Kellaway?”. Além de encontrar pessoas que lêem o “Financial Times”, me deparei até mesmo com uma que já escreveu para o jornal. Isso me levou para uma nova área da etiqueta no ambiente de trabalho: qual é a maneira correta de se comportar quando você tromba com alguém que conhece em um site de adultério? Atrevo-me a dizer que isso acontece mais e mais. De fato, um resultado da minha infiltração de quatro semanas nas vidas dos adúlteros é que agora eu suspeito que todo homem tem uma vida dupla no “Illicit Encounters”.

Na semana passada, almocei com John Quelch, professor de marketing da Harvard Business School, e perguntei a ele o que ele achava que isso significa. Por quê tantos executivos experientes estão respondendo à recessão com o adultério?

Ele disse que, numa recessão, as pessoas querem ser abraçadas. Isso me pareceu uma explicação bem fraquinha. Certamente há maneiras mais fáceis de ganhar abraços do que colocar o casamento em risco. Abraçar uma criança, ou- se a pessoa estiver desesperada- até mesmo a esposa parece ser mais fácil e seguro.

Ele disse que é exatamente este o ponto: a atração despertada pelo risco. Os banqueiros estão sofrendo com um déficit de risco: suas vidas profissionais foram compulsoriamente limadas de risco e isso pode ser uma maneira de compensação, acrescentar risco às suas vidas privadas.

Se for verdade, dá para imaginar qual será o resultado macro. Se houvesse uma grande mudança na tomada de riscos, dos mercados financeiros para o mercado doméstico, isso significaria uma instabilidade doméstica em massa com o aumento das taxas de divórcio e assim por diante?

Os criadores do site gostam de afirmar que, ao fornecerem um mercado bem comportado para o adultério, eles na verdade estão criando estabilidade doméstica. Setenta por cento dos clientes do “Illicit Encounters” afirmam ter atração pelo adultério como uma alternativa ao divórcio, e não como precursor dele. Pode não ser engraçado de todo, mas parece ser um pouco cedo para tirar qualquer conclusão de uma maneira ou de outra.

Entretanto, não é cedo demais para tirar três outras conclusões depois que passei um mês entrando no site. A primeira é que as pessoas que ainda estão no trabalho parecem ter muito tempo livre das 9h às 17h. A segunda é que todo mundo mente: eles diminuem a idade e aumentam sua atração, a freqüência com que vão à academia de ginástica, o bom humor e assim por diante.

A última lição é uma que já conhecemos: mais homens estão interessados em adultério do que mulheres. O site tenta corrigir isso com preços diferenciados, cobrando 119 libras dos homens por mês, enquanto as mulheres podem entrar de graça. Mesmo assim, o desequilíbrio persiste e agora sei que os meus 247 pretendentes podem não ter se rendido totalmente ao meu charme. Eu comentei sobre o site com uma amiga e ela se registrou. O número de namorados que ela conseguiu depois de apenas uma semana: 295.

Lucy Kellaway é colunista do “Financial Times”. Sua coluna é publicada quinzenalmente na editoria de Carreiras

09/12/2008 - 16:11h Amores e mistérios em um casarão inglês do século 19

http://www.allenandunwin.com/_uploads/Images/Authors/0_MortonKate1.jpgbook cover of   The House at Riverton   (The Shifting Fog)   by  Kate Morton

A australiana Kate Morton fala de A Casa das Lembranças Perdidas, grande sucesso na Inglaterra que chega ao Brasil

Suzana Uchôa Itiberê – O Estado SP

Na Inglaterra de 1924, o jovem poeta Robbie Hunter morre à beira de um lago durante uma festa na mansão Riverton. As irmãs Hannah e Emmeline Hartford, herdeiras da propriedade e testemunhas da tragédia, nunca mais se falam. Após 75 anos, a diretora de um filme sobre os Hartfords procura Grace, antiga empregada da família, para consultá-la sobre a autenticidade da história que quer contar. Essa cutucada no passado faz com que a senhora de 98 anos relembre seus dias naquele palacete cheio de segredos e sua influência no destino de duas irmãs que lhe eram mais próximas do que imaginava.

Essa trama intrincada transformou a australiana Kate Morton na atual sensação do mercado editorial inglês. A Casa das Lembranças Perdidas (Rocco, 536 págs., R$ 64,50) é seu romance de estréia e o título mais bem-sucedido do país desde O Código Da Vinci: 600 mil exemplares vendidos na Inglaterra e direitos de tradução negociados para 29 países. Aos 32 anos, a nova milionária das letras vive em Brisbane, numa casa do século 19 com o marido e dois filhos. A paixão por casas antigas a inspirou na criação de Riverton, e a trajetória de seus habitantes, os Hartfords, serve como espelho das transformações sociais, políticas e econômicas que sacudiram a sociedade britânica no início do século 20. Grace, a narradora, lança um olhar arguto sobre os traumas de 1ª Guerra, a emancipação feminina e a crise na aristocracia diante da ascensão de uma nova classe, cujo status vinha do dinheiro e não de títulos de nobreza.

O retrato da época é minucioso, mas não se trata de romance histórico. Interessa à autora não só o passado, mas suas marcas no presente, certos fantasmas que fazem a obra flertar com o gótico. Kate transita com desenvoltura por diferentes tempos e desenha um complexo hall de personagens, que se fundem de forma inventiva. Uma estréia triunfal para a aspirante a atriz que virou escritora por acaso. Kate conversou com o Estado por telefone.

Como descobriu que seria escritora?

Minha melhor amiga é escritora e um dia fez um comentário sobre o tipo de pessoa que termina livros, pois grande parte desiste. Disse que eu seria uma *autora que iria até o fim. Nunca havia pensado nisso, mas sempre adorei o ato de contar histórias, daí a paixão por atuar. No instante em que sentei para escrever, descobri que era aquilo que tinha de fazer.

O livro tem enredo cheio de surpresas, histórias paralelas e tempos que se alternam. Tinha a trama pronta na cabeça antes de escrever?

A Casa das Lembranças Perdidas foi meu terceiro manuscrito. Os outros foram rejeitados por editoras, mas me ajudaram a ganhar prática no processo criativo. Estava grávida e não me saía da cabeça a imagem de um jovem poeta morto à beira de um lago e a existência dessa senhora que sabia a verdade sobre a tragédia. A obra teve longo período de gestação e só fui para o computador quando defini o caminho a seguir.

Por que situou a narrativa na Inglaterra do início do século 20?

Todos escrevem por diferentes razões. Como havia tido dois livros negados, e já não acreditava na publicação, decidi escrever para mim. Fiz por prazer. A Inglaterra dos anos 20 era um lugar em que adorava me imaginar. Sou fascinada por casarões antigos, meio decadentes, que exalam história por todos os cantos. Aquela foi uma época de fantástica transição. O mundo antes e depois da 1ª Guerra é completamente diferente e há muita tensão narrativa quando se retrata períodos como esse.

O apuro descritivo é fruto da imaginação ou de profunda pesquisa?

Um pouco dos dois. Como disse, adoro grandes casas velhas, aquelas como Riverton, em que as marcas dos dias áureos começam a se apagar, o papel de parede está opaco e o piso gasto. A locação é tão importante quanto os personagens e acho delicioso inventar um lugar, em todos os pormenores. Quando soube que o livro seria publicado, fiquei aliviada por ter pesquisado bastante.

Seu estilo foi comparado ao de Jane Austen. O que as obras femininas têm que mantêm público tão fiel?

Sei que meu maior público é o feminino, mas minha intenção não é escrever só para mulheres. Quero contar histórias que arrebatem a atenção. Eu lia muito quando criança e havia aqueles livros que me faziam desaparecer após a primeira página e não respirar até terminar. Como adulta, tinha dificuldade em achar uma obra que me fizesse sentir daquela forma. Então, me foquei em criar algo envolvente, que transportasse o leitor para outro mundo. Acredito que quanto mais vívida é a descrição, maior a facilidade de o leitor mergulhar naquela realidade, de se ver em Riverton, de andar por seus corredores, sentir o aroma dos quartos, a temperatura…

Um grande mistério envolve a trama. Kate Morton é uma mistura de Jane Austen com Agatha Christie?

Sim, sempre adorei histórias de mistério e tenho necessidade de inserir suspense na narrativa.

Não é um romance tipicamente gótico, mas há fantasmas de sobra.

Não queria seguir o estilo gótico, mas sou interessada por marcas do gênero, como a presença de segredos ocultos e fantasmas metafóricos. Grace é assombrada por eventos de um passado distante, do qual não consegue se libertar.

Quais as suas fontes de inspiração?

Ela vem de todos os lugares. São coisas que as pessoas contam, outras que leio nos jornais. Às vezes é algo que alguém me falou anos atrás e é resgatado de repente. Costumo sentar em um café e fazer anotações no caderno. Fiz isso por meses antes de começar a escrever. Idéias guardadas no inconsciente vêm à superfície e, durante a pesquisa, informações inesperadas pulam na nossa frente. É incrível quando esse material se transforma na trilha que você reconhece como o caminho para a criação.

Sentiu a pressão do sucesso ao escrever seu segundo romance, The Forgotten Garden?

Sim, em especial no início. Era estranha a sensação de ter um contrato e uma expectativa a cumprir. Porque o primeiro fiz para mim, sem cobranças. Quando senti dificuldade, parei tudo e tomei a mesma postura: escrever algo que adoraria ler. Assim, se ninguém gostasse, pelo menos eu teria me divertido. Parece que deu certo (a obra vendeu 75 mil cópias nas três primeiras semanas).

22/11/2008 - 13:09h Vicky Cristina Barcelona provoca euforia

O melhor filme de todos os tempos

Reprodução

Maria Elena (Penélope Cruz), Juan Antonio (Javier Bardem) e Cristina (Scarlett Johansson) em cena

Maria Elena (Penélope Cruz), Juan Antonio (Javier Bardem) e Cristina (Scarlett Johansson) em cena

Marcelo Carneiro da Cunha – Terra Magazine

De São Paulo

Estimados milhares de leitores. Acabo de sair do melhor filme de todos os tempos dessa semana, e ele se chama Vicky Cristina Barcelona, do meu, do nosso Woody Allen.

Woody Allen não dá bola para a crítica, não foi receber o Oscar quando ganhou, e parece mais interessado em investigar a natureza do amor, esse incompreendido. Ele tem investigado ao longo de décadas, ao longo de Diane Keaton, Murial Hemingway, Mia Farrow, e ultimamente Scarlett Johansson. As mulheres de Woody Allen falam muito e dizem algo, e nós, distinto público, devemos prestar atenção ao que dizem, pois ali estão boa parte da nossa incompreensão com relação ao amor, às mulheres, aos bons filmes.

Nesse filme falam a histérica Vicky, a romântica = confusa Cristina, e a maravilhosa Penélope Cruz, no papel de Barcelona, imagino. Falam muito, buscam muito e… se encontram. O que encontram, isso não parece fazer muita diferença. O que dizemos importa mais do que o resto, parece dizer nosso lacaniano Woody Allen do século 21.

Woody já fez de tudo. Foi de Groucho Marx no começo de carreira, definiu o amor no clássico Annie Hall, mostrou como se faz cinema com C maiúsculo, em Zelig, e, depois de ter provado que podia fazer o que bem entendesse, se colocou, como Monet, a pintar o mesmo jardim para sempre, estudando as nuances mais do que as cores, as sombras mais do que as formas, motivo pelo qual seus filmes mais recentes vinham parecendo ser apenas mais do mesmo, sempre bom, ou ótimo, e o mesmo.

Vicky Cristina Barcelona é diferente.

Com ele, Woody sai de Londres e pega uma insolação na Catalunha. Se permite uma dieta mediterrânea de vinhos, azeites e guitarra espanhola e nos brinda com cores que há algum tempo não víamos, desde o último filme do Almodóvar, mais precisamente. As pessoas saem da sala de cinema falando nisso, no Almodóvar que baixou no Woody, mas não sei não.

Olhando com atenção, são muitos os ecos desse filme. De Jules e Jim, do Truffaut (na narração e na bicicleta, no triângulo e no prazer que move alguns dos personagens menos americanos da história), de Eric Rohmer, de Fitzgerald, mas, mais do que tudo, para mim, de Salinger. Woody faz uma opção preferencial pelos ricos e suas esquisitices e ausência de preocupações com o tamanho da conta no restaurante e no que fazer com as outras contas, que inevitavelmente nós, seres comuns, temos que pagar.

Woody não tem medo de clichês, acho que se diverte com eles. Com a americana se embalando com o sonho europeu, com a americana com medo de germes, com o amante latino clássico, com a espanhola fora de qualquer controle e irresistível, em sua luz e movimento. Não tem medo de colocar como trilha um pastiche do que quer que seja, mas que funciona. Brinca a sério, e nessa brincadeira, faz grande cinema. Sorte a nossa.

O amor não parece ter solução, a não ser algo que tenha a ver com tiros, que felizmente não matem. A possibilidade de tragédia pode estar presente, mas não se confirma. O amor é uma tragédia que não se realiza, parece nos dizer Woody. De resto, o filme nos diverte com a patetice americana, de quem tomou leite demais na infância e ficou desse jeito, com a falta de ânimo dessa nossa época e dessas mulheres que a ocupam.

O filme desliza, mais do que anda, e fala muito, sem necessariamente afirmar algo. Saímos dele como saímos de todo o grande filme, sentindo que aconteceu algo, sem que saibamos o que exatamente ocorreu naquela sala.

Saímos dele sem saber ao certo o que fazer, mas sabendo muito bem a quem desejar, e nisso está o que o filme finalmente nos diz: que a cor é melhor do que a segurança, que sabor é essencial, que podemos errar à vontade, desde que em uma busca que não seja apenas a de estabilidade no emprego. Vale a pena errar, nos diz Woody, com a certeza de quem costuma acertar. E isso, meus amigos leitores, é tão raro que nos leva ao cinema. A ele então, todos, e bom tiro.

Marcelo Carneiro da Cunha é escritor e jornalista. Escreveu o argumento do curta-metragem “O Branco”, premiado em Berlim e outros importantes festivais. Entre outros, publicou o livro de contos “Simples” e o romance “O Nosso Juiz”, pela editora Record. Acaba de escrever o romance “Depois do Sexo”, que foi publicado em junho pela Record. Dois longas-metragens estão sendo produzidos a partir de seus romances “Insônia” e “Antes que o Mundo Acabe”.

Fale com Marcelo Carneiro da Cunha: marceloccunha@terra.com.br

21/11/2008 - 17:52h “Os Irmãos Karamabloch”

CARLOS HEITOR CONY


Escreveu mais do que a história de sua família. Fez a primeira parte de sua autobiografia

FAMÍLIA DE 17 PESSOAS chegou ao Rio de Janeiro em 1922, na terceira classe do “Re d’Italia”. Eram ucranianos, genericamente russos, mas, sobretudo, judeus. O patriarca, Joseph Bloch, tivera uma gráfica em Kiev, chegara a imprimir o dinheiro do efêmero governo de Kerenski. Decidira tentar inicialmente os Estados Unidos, mas a cota de imigrantes para aquele país estava fechada, a alternativa foi vir para o Brasil.
Este não foi o início dos Blochs.
Antes da viagem, já se podia falar numa “saga”, com lances que um dos descendentes do clã acaba de lançar: “Os Irmãos Karamabloch” (Companhia das Letras, 344 págs., R$ 48).
Para levantar a sua história, Arnaldo pesquisou durante sete anos, foi a Jitomir e Kiev, entrevistou muita gente e foi testemunha da etapa final de um império da comunicação que teve ascensão e queda -como, de resto, todos os outros impérios tiveram e terão.
O assunto era bom e vasto. Muitos o tentaram, mas desanimaram por um motivo ou outro. Uma biografia tradicional, com princípio, meio e fim, na linguagem correta e oficial para este gênero de livro, com obediência da ordem cronológica e sem assumir deliberadamente a lenda e a história, não daria o resultado que Arnaldo Bloch conseguiu. Antes de mais nada, ele usou a linguagem e a técnica do romance -gênero no qual estreou, com “Amanhã a Loucura”, e continuou com “Talkshow”.
O charme do livro é que o narrador funciona como personagem da trama, recurso que Proust e outros memorialistas também usaram.
Evidente que o foco principal é dedicado aos três Blochs que Otto Lara Resende, frasista famoso, que também é personagem do livro, chamou de “Irmãos Karamabloch”.
Ou seja, os filhos do patriarca: Boris, Arnaldo e Adolpho. As filhas de Joseph funcionam, na narrativa, como o coro das tragédias gregas: comentam a ação, sugerem e sofrem, de certa forma, as conseqüências.
Uma noite dos anos 80, Leonardo e Iná, pais de Arnaldo, trouxeram o rebento para jantar em minha casa, trazendo também o Rodian, um setter que era parente da minha Mila.
Naquela época, Arnaldo estava numa encruzilhada vocacional: por gosto e influência de sua geração, queria se dedicar à música -e era bem dotado para isso. Sentia apelos pela literatura e pelo jornalismo, mas, se dependesse dele, naquela ocasião, seria um músico, intérprete ou compositor.
O pai não era contra, mas preferia que Arnaldo fosse escritor. Daí que me pediu para conversar com o filho. Conversa vai, conversa vem, Arnaldo saiu lá de casa levando alguns livros que lhe indiquei, inclusive um de Balzac, “Grandeza e decadência de César Biroteau”. Levou também Kafka, Goethe e outros.
Mais tarde, após ocupar diversos cargos na empresa da família, foi para “O Globo”, onde, hoje, assina uma crônica semanal e faz reportagens especiais. Um dia, me procurou com os originais de seu primeiro romance, que seria publicado pela Nova Fronteira e que hoje tem uma edição de bolso. Depois veio o segundo, já na Companhia das Letras, que apostou em Arnaldo e patrocinou sua ida a Kiev.
Foi longa a escritura do livro, mais romance do que biografia, embora seja as duas coisas. Basta citar o princípio e o fim da ação: o pai de Arnaldo no salão escuro do apartamento, olhando em silêncio a praia de Copacabana. Cena que se repete ao final, fazendo da ação principal um enorme flashback, em que misérias e grandezas compõem um movimentado gran guignol que lembra Dostoiévski em alguns momentos, em outros o Máximo Gorki de “Os Pequenos Burgueses”.
A figura de Abrascha, que se tornaria Adolpho e que na opinião do tio Jorge “nem era para ter nascido”, ocupa grande parte do primeiro plano da narrativa. Com suas contradições, a compulsão pelos grandes gestos e a submissão aos momentos de cólera, nem sempre justa, fazem dele um dos personagens mais polêmicos, que encantou e provocou ódios de duas gerações de jornalistas e banqueiros.
Por isso mesmo, o livro do seu sobrinho-neto só podia ser escrito como Arnaldo o fez. Sem elogio e sem censura. Não funcionou como o biógrafo preocupado com o rigor histórico e a opinião da crítica. Escreveu mais do que a história de sua família. Fez a primeira parte de sua possível autobiografia.

16/11/2008 - 15:05h House em Havana

O diretor cubano Tomás Piard fala de seu filme “o viajante imóvel”, sobre o romance “Paradiso”, de Lezama Lima, e diz que a juventude “revolucionária” do país assiste aos enlatados norte-americanos


Cuba não tem uma economia sólida; nos acostumamos a ter o Estado nos provendo e perdemos o espírito do que é trabalho

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MALU DELGADO – FOLHA SP

DE LONDRES

A transição em Cuba -ou a ausência dela- sob o olhar do cineasta cubano Tomás Piard, 60, é elucidativa. Piard lançou em Cuba seu novo filme, “El Viajero Inmóvil” (O Viajante Imóvel), sobre a vida de José Lezama Lima, autor de “Paradiso” (1966), um dos principais romances do século 20. O filme, como Piard esclarece, não é nenhuma pretensa adaptação do romance de Lezama, mas sim uma homenagem a ele -a quem o cineasta chama de “pai espiritual”.

Amigos? Não. Tomás Piard se encontrou com Lezama uma única vez, numa exibição de cinema em Havana, quando era estudante. Ambos iriam assistir a “As Noites de Cabíria” (1957), de Federico Fellini. Talvez a duradoura identificação de Piard com a história de Lezama -que nunca deixou a ilha- seja reflexo de uma certa simbiose com a história da Cuba que “transcende”, “e não a Cuba que vendem aos turistas”, explica o diretor cubano.

Após uma espécie de “exílio” cultural na Galícia por três anos, negociado pelo governo cubano após ter feito um filme considerado “imoral”, Piard considera que lançar seu último filme em Londres, patrocinado pelo Instituto Cubano de Arte e Indústria Cinematográfica (Icaic), é um claro sinal dos tão esperados novos tempos em Cuba.

O país que os turistas não vêem tem uma péssima qualidade educacional e um sistema de saúde flagrantemente falido -os dois pilares da Revolução de 1959. Vive entre a divergência praticamente diária e explícita entre Fidel e Raúl Castro. Alimenta uma geração de jovens com seriados norte-americanos como “Lost”, “House” e “CSI Miami”. É o país com uma massa de revolucionários ressentidos, mas ao mesmo tempo incapazes de criticar abertamente Fidel Castro. Para Piard, um revolucionário, Fidel cometeu “erros”, mas com as melhores intenções.

Um marciano, diz ter absoluta certeza de que “a Aids é uma doença fabricada em laboratório pelos EUA”. Um transcendente, que se emociona com a eleição de Barack Obama e, sobretudo, por tê-la assistido longe do controle midiático de Cuba. Um artista assustado com a globalização e que quase decreta o fim do cinema.

FOLHA – “O Viajante Imóvel” começa com uma frase de Lao Tsé [sábio taoísta]: “Quando mais distante se vai, menos se aprende”. O sr. pensa da mesma forma?
TOMÁS PIARD
– Do ponto de vista de Lezama Lima, sim. Porque Lezama viajava por intermédio das suas leituras, da cultura da humanidade. E, assim, difundia valores extraordinários da cultura humana à cultura cubana. Nelson Pereira dos Santos, por exemplo, quando fez “Vidas Secas”, fez algo de valor universal. Ou seja, quanto mais se apegar à sua terra, honestamente, artisticamente, mais essa obra terá transcendência universal. Foi o que aconteceu com “Paradiso”.

FOLHA – É essa transcendência que busca em suas obras?
PIARD
– Sim, sou ambicioso. Por quê? Porque é muito provável que eu não o alcance, mas se sou ambicioso terei a oportunidade de chegar ao mais alto ponto possível. Nunca entenderei os diretores de cinema que dizem: estou fazendo um filme que “não é nada de outro mundo”. Não consigo fazer isso. Cada filme, para mim, é uma obra de grande transcendência artística, sobretudo após a morte do meu filho. A dor parte. O ponto de partida de grandes obras humanas é a dor, não a alegria, a felicidade. A perda do meu filho foi a coisa de mais importante que vivi e me deu coragem e impulso para fazer obras que transcenderam as outras que fizera.

FOLHA – Quando a arte transcende, não é preciso ir tão longe?
PIARD
– É que tudo o que é necessário está dentro de mim. Você é que precisa ser capaz de descobrir. E precisamos lutar para que a globalização não destrua isso.

FOLHA – Em Cuba não se pode ver cinema latino-americano?
PIARD
– Cuba não tem dinheiro para comprar filmes. Em Cuba, todos os filmes são em DVD. Com os países com os quais temos relações diplomáticas e comerciais podemos tentar o direito de exibição. Na TV, às quartas-feiras, passam-se filmes latino-americanos. Mas não se estréiam filmes estrangeiros normalmente em Cuba porque temos que pagar os direitos e, quase sempre, os direitos são norte-americanos. A televisão de Cuba é norte-americana, porque o resto da programação da TV é norte-americana. É um paradoxo, mas fazemos isso porque não temos produção nacional suficiente para preencher todo o espaço da programação. É contraditório, porque os jovens “revolucionários”, por exemplo, estão assistindo aos filmes norte-americanos. E eles também assistem a “Lost”, “House”, “CSI”, todos os seriados norte-americanos recentes. As produções norte-americanas são todas DVDs piratas.

FOLHA – Como imagina usar sua arte para mostrar o que se passa hoje em Cuba para o resto do mundo?
PIARD
– “O Viajante Imóvel” é uma mensagem apenas para os cubanos. Meu objetivo era mostrar aos cubanos o romance de Lezama Lima, que é conhecido em qualquer lugar do mundo, menos pelos cubanos.

FOLHA – O sr. disse, em uma palestra para estudantes, que, quando começou a trabalhar com cinema em Cuba, rechaçava os filmes americanos e procurava refúgio nos russos. Agora, diante do que se passa em Cuba e com a nova realidade do mundo, qual é sua definição de cinema e como sua mente processa os filmes no resto do mundo, especialmente com a globalização?
PIARD
– Infelizmente, o cinema americano tem monopolizado todas as salas de cinema do mundo, inclusive as cubanas. Ou seja, praticamente nós não assistimos a produções de outros lugares. Somado a isso, os grandes autores do cinema estão morrendo. E creio que não há nenhum diretor de cinema de relevo mundial que esteja hoje à altura de Antonioni, Fellini, Bergman e Bertolucci -ainda que ele não seja o que foi no início da sua carreira. Há Wim Wenders, Theo Angelopoulos na Grécia e outros, mas não o que existiu antes.

FOLHA – O momento é novo em Cuba e agora há várias expectativas em relação à política externa norte-americana, com a eleição de Barack Obama. O sr. vê alguma conexão entre esse momento cubano e a eleição norte-americana?
PIARD
– Não creio que possa ser feita uma conexão. Em Cuba são feitos esforços; esse filme, por exemplo, é um esforço [de transição], mas a vida política, econômica e social cubana está toda paralisada. Fidel Castro não é o presidente, mas está presidente. Há coisas que Raúl Castro tenta fazer para mudar a situação de Cuba, mas Fidel, que publica diariamente suas reflexões, às vezes o contradiz. O país foi vítima de dois furacões enormes. O país está arrasado, destruído. Casas, indústrias e escolas foram destruídas. E Cuba não tem uma economia sólida. Não há produção. Nós nos acostumamos a ter o Estado nos provendo e, por isso, perdemos o espírito do que é o trabalho. E só o trabalho pode criar riquezas e dar estabilidade econômica.

FOLHA – Há em Cuba um visível confronto de idéias entre a sociedade que participou da revolução e os jovens, que querem outro regime?
PIARD
– Há sim um confronto. Parte quer que se mantenha o espírito da revolução, mas as novas gerações não têm nenhum compromisso com a realidade histórica que se passou há 50 anos. Os jovens pensam de outra maneira. No entanto, ao longo de todos esses anos, Cuba criou um espírito de “não opinião”. Ninguém quer pensar, porque isso pode prejudicá-lo. Fidel pensa por todos nós. Creio que Fidel pense com a melhor intenção para com o povo, mas que cometeu muitos erros econômicos e destruiu a economia de Cuba gradualmente.

FOLHA – Como a sua geração se sente em relação ao atual momento de Cuba, já que esses ideais da revolução provavelmente nortearam sua vida e sua carreira?
PIARD
– Sinto muita dor. Eu me recordo dos meus pais, que, como toda uma geração, deram o melhor da sua vida pelo triunfo da revolução e para que a vida do povo cubano melhorasse. E o que aconteceu depois? Vivemos hoje na maior miséria que se pode imaginar. Criou-se uma idéia de que vivemos o melhor dos mundos em Cuba. Não é assim. E as melhores coisas que tivemos na revolução, que são a educação e a saúde, também estão destruídas. Esses eram os dois pilares da revolução. Hoje em dia, além de todos os desastres, isso também está arrasado.

FOLHA – Por quê?
PIARD
– No caso da educação, os professores não ganham quase nenhum dinheiro, não se sentem estimulados.

FOLHA – E com a saúde?
PIARD
– Os médicos estão deixando Cuba. Também ganham muito mal e percebem que podem trabalhar na Venezuela ou em qualquer outro lugar, e a vida deles melhora. Em Cuba, então, não temos mais médicos.

FOLHA – Como o sr. aspira a ter liberdade de criação e produção num país que não é livre?
PIARD
– Pelas metáforas. A diferença é que eu, agora, não toco na realidade diretamente. Por exemplo, um dos temas que mais me interessam é o da família, da desintegração da família enquanto um núcleo essencial da sociedade. Em Cuba, todas as famílias estão desgarradas. Há pessoas que foram para outros países ou, mesmo na ilha, muitos membros vivem em outras Províncias. Neste meu último filme, por exemplo, há um símbolo muito importante do que é a agregação da família: a comida, o jantar, a mesa. Ou seja, a família se senta junta para comer. Quando isso acontece, existe a família.

FOLHA – O sr. conhece algo do cinema brasileiro?
PIARD
– Creio que uma proposta da magnitude de Nelson Pereira dos Santos, de Glauber Rocha e de Rui Guerra não existe no momento. “Memórias do Cárcere” [de Nelson Pereira dos Santos] é algo excepcional que não se verá todo dia. Vi recentemente “Central do Brasil”, de Walter Salles, que é muito bom. E gosto muito também de “Diários de Motocicleta”, apesar de achar que idealiza muito Che Guevara. O personagem que não é o protagonista é muito mais sólido. Mas Salles é um bom diretor. Ah, e tem também aquele dos meninos, como se chama? “Cidade de Deus”!

FOLHA – O que achou da vitória de Barack Obama nos Estados Unidos?
PIARD
– Me emocionei muito. E me emocionei sobretudo por poder tê-la visto fora de Cuba, porque lá os meios de comunicação manipulam tudo.

15/11/2008 - 18:49h Os homens que não amavam as mulheres

Nem sabia que o primeiro livro da trilogia de Larsson, Millennium,  já tinha saido aqui no Brasil. Estou na parte final do terceiro livro e só posso adicionar minha voz para recomendar a leitura.
Fiquei sabendo que o livro estava disponível em português no Brasil percorrendo o Blog de Rosane de Olivera, jornalista do Zero Hora. No blog um pequeno vídeo patrocinado pelo jornal gaúcho, convidava a leitura com uma gravação da governadora tucana. Como ninguém é absolutamente ruim, descobri um comum denominador com Yeda Crusius, a paixão pelo mesmo livro. No meu caso essa paixão e semelhante a que tenho pelo piso salarial dos professores aprovado pelo governo federal, que a governadora pretende desvirtuar no seu Estado. E não não é porque não amo as mulheres, bem pelo contrário. LF

Livraria Nobel Perdizes & Vanilla Caffé

 

Crítica Literária: “Os homens que não amavam as mulheres”, Stieg Larsson. Editora: Companhia Das Letras, 2008/1ª edição.

           

            Os homens que não amavam mulheres é o primeiro volume da trilogia Millennium, romance do sueco Stieg Larsson, jornalista e ativista político muito respeitado. Larsson nasceu em 1954, em Skelleftehamn, na Suécia, e foi um dos mais influentes ativistas políticos de seu país. Trabalhou na destacada agência de notícias TT. À frente da revista Expo, fundada por ele, denunciou organizações neofascistas e racistas. É co-autor de Extremhögern, livro sobre a extrema direita em seu país. Por causa de sua atuação na luta pelos direitos humanos, recebeu várias ameaças de morte. Morreu de infarto aos cinqüenta anos, em 2004, e não conheceu seu póstumo e bombástico sucesso.

           


Os homens que não amavam as mulheres

            Acabei de ler o livro (12/10). O que senti ao longo dos capítulos é indescritível. Em nenhum livro anterior, experimentei a vivacidade e a energia dos detalhes, das minúcias das cenas descritas e os horrores sofridos pelos personagens… As pistas a serem seguidas, o suspense a ser desvendado, o final inesperado, é o final mais inesperado de todos os romances que já li, misturado com a complexa personalidade de escoteiro sexy inteligente de Mikael Blomkvist e a perturbada, rebelde e superdotada hacker Lisbeth Salander tornaram um possível livro romance/suspense a um best seller em mais de 10 países (Suécia, Itália, Dinamarca, Alemanha, Noruega, França, Espanha, Inglaterra, Estados Unidos), vendendo mais de 6 milhões e meio de exemplares. Fantástico!

            Fiquei completamente entorpecida, absorvida e impressionada, pois não acreditava que algum livro poderia me surpreender dessa maneira! Já li livros maravilhosos e sou extremamente crítica… Acredito que um livro bom deva prender o leitor de tal maneira a não querer largar o livro até terminá-lo. E foi o que aconteceu. Li Os homens que não amavam as mulheres em 16 horas; o livro tem 528 páginas. Isso foi um não foi um recorde; mas foi um recorde em relação à minha situação atual: estou no meu último semestre de faculdade, fazendo meu projeto de pesquisa, estudando 6 dias da semana, e trabalhando 7 horas por dia! Obviamente li no dia de minha folga, dia das crianças, domingo.

            O diferencial de sua obra é a personagem principal, a heroína Lisbeth Salander, que está longe de ser uma pessoa adequada a viver nos estereótipos de qualquer sociedade e é constantemente julgada por pessoas e por instituições; exceto por três pessoas: Holger Palgren, seu tutor; Dragan Armanskij, seu patrão; e Mikael Blomkvist, seu amante e parceiro. Estimava essas pessoas. Entretanto, não permitia que nenhuma se aproxima e/ou soubesse de seus sentimentos positivos em relação à elas. Somente Mikael Blomkvist.

            Lisbeth Salander é o que toda a mulher não tem coragem de ser. Não de corpo, mas de alma! Uma mulher inteligente, independente, de coragem e fúria extrema, e SEM MEDO. Uma mulher a ser admirada, respeitada. Uma mulher a ser temida. Uma heroína.

            Ela é o trunfo do livro. O livro tem uma trama excelente: assassinato, desaparecimento, intrigas familiares, tiros, sexo, estupro, ódio, sadismo, corrupção política, prisão, etc.; porém nada seria sem Lisbeth Salander.

            Lisbeth Salander é a guerreira contida dentro de todas nós, mulheres; e Mikael Blomkvist nos mostra que ainda existe homens com caráter íntegro. São personagens ferozes e com almas intensas, seus espíritos são incansáveis. E juntos, Mikael Blomkvist e Lisbeth Salander, são imbatíveis.

            Comentários sobre o livro de autores renomados e críticas de jornais famosos:

Os homens que não amavam as mulheres é uma fascinante e assustadora aventura vivida por um veterano jornalista e uma jovem e genial hacker cujo comportamento social beira o autismo. A riqueza dos personagens desdobramentos da ágil e inteligente e dos surpreendentes desdobramentos da história formam um conjunto magífico e revelam Stieg Larsson como um grande mestre de literatura suspense.”
- Luiz Alfredo Garcia-Roza

“O problema com Larsson é que, se a gente se aventura e entra na história, está perdido: não tem mais largar o livro. Talvez seja porque os protagonistas são animados por uma paixão que é muito parecido com a que motiva a curiosidade (grande ou pequena) de todos nós: os dois, o jornalista bem-sucedido e a adorável jovem hacker (punk de corpo e espírito), são indivíduos sem família (ou quase), decididos a desvendar, justamente, um segredo de família”.
- Contardo Calligaris

“Um thriller político e jornalístico absolutamente original, que também sabe ser profundo e ético. Apesar dos detalhes lúgrubes, Stieg Larsson escreveu um livro delicioso, com personagens centrais inesquecíveis.”
- Michael Ondaatje

Os homens que não amavam as mulheres é um romance surpreendente. Quando eu imaginava que não despontaria nada de novo no horizonte, surge Stieg Larsson com esta história maravilhosamente original. Fiquei completamente absovirdo.
-Michael Connelly

“O jornalista e a hacker são criações geniais. Um romance surpreendente, cheio de paixão sutil perspicácia ao retratar mentes corruptas e degeradas.”
- The Observer 

“Ao contrário de muitos outros thrillhers, por mais vigorosos que sejam, o de Stieg Larsson é inesquecível.”
- Le Monde 

“Um suspense nórdico realmente suculento.”
- Daily Mail 

“Uma história de arrasar. Acima de tudo, a heroína é esplendidamente original. um livro extraordinário.”
- Literary Review 

“O alvoroço em torno do romance é plenamente justificado. Seu desempenhoé excelente em todos os quesitos – personagens, história, atmosfera.”
- The Times

Recomendo ao leitor se fechar durante um fim de semana, munido de litors de café e alguns suprimentos, para se deliciar com a trilogia Millennium.
- Rolling Stone 

Millennium, a admirável trilogia trilogia do sueco Stieg Larsson, estáse tornando uma obra cult graças a um boca-a-boca entusiasmado e eficaz. Relações amorosas, conflitos profissionais, suspense de tirar o fôlego: entre no mundo de Larsson e você se verá imediatamente capturado!”
- Le Nouvel Observateur 

“O surgimento de mais um grande escritor sueco de mistério é motivo de celebração. O romance oferee um combinação irresistível de jornalismo investigativo, caçada high-tech e drama psicossexual. É uma pena que só tenhamos três livros para ver Lisbeth Salander em ação!”
-
Booklist

Larsson criou dois esplêndidos protagonistas. Ficamos completamente rendidos a eles. A trama é impecável. estamos no território do romance policial inglês clássico, mas com um nota muito mais sombria e sangrenta.”
- The Independent 

            O melhor romance policial: Os homens que não amavam as mulheres! Vale MUITO a pena ler!

Flávia Silva

Observação: Eu gostaria muito de agradecer à editora Companhia das Letras por enviar uma cópia antecipada do livro e especialmente à Edely.

08/11/2008 - 18:01h Um amor proibido

Livro resgata a paixão entre serva e nobre que abalou a Rússia dos czares

Image:Sheremetev.jpgImage:Zhemchugova.jpg

Nicolai e Praskovia

Vivian Oswald – O GLOBO

Correspondente• MOSCOU

Na Rússia imperial, o teatro era a arte dos servos. Entre 1770 e 1820, cerca de dois mil eram obrigados a se dividir entre as atividades domésticas e os palcos, onde incorporavam personagens nobres, ou não, só para divertir os ricos nos 170 teatros que pertenciam à aristocracia.

Estes atores, bailarinos, músicos ou cantores de origem humilde eram treinados pelos melhores profissionais da Europa, para onde alguns eram enviados para estudar as vanguardas. Os teatros se concentravam nas duas principais capitais russas: Moscou e São Petersburgo.

Grandes nomes surgiram neste cenário, como a da cantora lírica Praskovia Kovalevskaia (1768-1803). Descoberta pelo conde Nicolau de Sheremetevo (1751-1809), seu proprietário, a diva da ópera russa chamou a atenção da czarina Catarina, a Grande, e, anos mais tarde, chocou a sociedade ao se tornar a condessa de Sheremetevo.

Tudo isso aconteceu um século antes da Revolução de 1917, que mudaria a cara da Rússia e acabaria com a distinção histórica entre as classes sociais. A reconstituição do romance acaba de ser publicada pelo escritor Douglas Smith no livro “The Pearl”, que saiu nos Estados Unidos e na Inglaterra no final do primeiro semestre, e deve ser lançado na França e Coréia do Sul no ano que vem. O nome do livro, Pérola, é uma alusão ao primeiro nome artístico de Praskovia, Zhemchugova, que vem de zhemchug, pérola, em russo.

‘Tradição não é lei’

Homem mais rico do mundo à época, Nicolau era obcecado pelo teatro e teve um das companhias mais bem-sucedidas do seu tempo. Revelou Praskovia ainda criança.

Deu a ela educação artística e tornou-a uma das maiores artistas de sua época.

Mas não resistiu aos encantos da jovem serva, com quem viveu por 20 anos e teve um filho, Dmitri.

Nos anos 1770, o pai de Nicolau, Pedro, resolveu abrir o seu próprio teatro após uma apresentação que organizou com atores contratados em homenagem a Catarina, a Grande, durante visita da czarina ao palácio de Kuskovo, onde também costumava montar festivais de teatro aos domingos.

Kuskovo, onde viviam, tornou-se um local popular.

O novo projeto de Pedro, que já tinha um coro e uma orquestra de servos, era ambicioso. Italianos foram contratados para ser instrutores dos cantores e alemães, para a orquestra. Jovens servos eram enviados a São Petersburgo para aprender e treinar com os melhores músicos do país. O próprio Nicolau participava das aulas.

Nicolau cresceu com o teatro.

Atuou desde criança com amigos na corte e ficou impregnado pelo teatro de Paris, que conheceu durante a viagem de quase três anos que fez pela Europa. Esteve na Alemanha, na Inglaterra, na França, como qualquer russo educado de sua geração.

O teatro tornou-se uma paixão.

Acabou incumbido pelo pai de dirigir a companhia de Kuskovo. Recrutou mais artistas e mandava vir peças européias importantes para serem apresentadas pela primeira vez na Rússia. Montou cenários compatíveis com a riqueza — que parecia ilimitada — da família.

Contratou arquitetos de renome e construiu novos teatros em suas propriedades.

Quando foi escolhida por Nicolau em meio a um punhado de servos, Praskovia tinha apenas 9 anos. O conde tinha 26. Após identificar o que chamou anos mais tarde de “inclinação para a dança e uma voz superlativa”, Nicolau disse que daquele dia em diante suas tarefas na casa iam mudar. Continuaria cuidando da princesa Dolgorukaya, mas também seria parte da trupe e teria aulas de voz. Ele seria um de seus professores.

Viveram juntos pelo teatro e foi o teatro que os aproximou. Os detalhes sobre o romance perderamse no tempo. Não há muitos registros, principalmente sobre a vida de Praskovia, que não deixou documentos , nem diários. Em “The Pearl”, Smith tenta inferir os detalhes relacionamento com base nas poucas informações disponíveis em arquivos russos e nas visitas que fez aos lugares freqüentados por ambos. Por esta razão, deixa no ar uma série de explicações. Talvez esta tenha sido a maior lacuna e ao mesmo tempo o ponto alto do livro.

Acredita-se que o caso amoroso tenha começado quando a cantora tinha entre 13 e 14 anos.

“Se estes sentimentos entre pessoas tão diferentes hoje parecem banais, na Rússia do século XVIII eram revolucionários”, afirma Smith no livro.

Nicolau custou a reconhecer publicamente o relacionamento com Praskovia e acabou o fazendo para agradar a mulher, que era religiosa ao extremo.

Ele mesmo precisou lutar contra o próprio preconceito que permeou a sua criação e que marcava a Rússia do seu tempo.

Antes de se casar numa igreja discreta, que à época era afastada e hoje está bem no centro de Moscou, ele tentou (e teria conseguido) comprar na Polônia uma origem nobre para a ex-serva. Na carta que enviou ao czar anunciando o casamento, quando Praskovia estava no leito de morte, afirma que a cantora vinha de uma família nobre polonesa, tendo sido criada nas suas propriedades e recebido excelente educação.

Praskovia morreu logo depois de Dmitri nascer e pouco antes de ter seu casamento divulgado à sociedade.

Foi o único filho que tiveram, embora se diga até hoje que a saúde debilitada da cantora se devia a abortos que fizera ao longo de sua vida breve.

Anos mais tarde, em carta deixada para o filho, Nicolau fala de seu amor pela mulher: “Tradição não é lei. Ninguém pode submeter sua mente e vontade à ela, especialmente quando é possível libertarse de erros do passado”.

Ao final do livro, Smith destaca com certa ponta de tristeza que, hoje, os túmulos de Nicolau e Praskovia caíram no esquecimento. Os turistas procuram no cemitério de Moscou Nicolau Rimski-Korsakov, Arthur Rubinstein ou Tchaikóvski, “embora Praskovia, uma das primeiras grandes estrelas da ópera russa, tenha sido quem conseguiu romper a barreira que separa o talento do berço”.

O começo do fim da escravidão

ENTREVISTA DOUGLAS SMITH

MOSCOU. Fascinado há 16 anos pelo escandaloso romance entre Nicolau e Praskovia na Rússia do século XIX, o americano Douglas Smith levou sete anos para poder contá-lo e reconstruir o cenário da época no livro “The Pearl: a true tale of forbidden love in Catherine the Great’s Russia” (“A Pérola: uma verdadeira história de amor proibido na Rússia de Catarina, a Grande”). Em entrevista ao GLOBO, fala da dificuldade de obter informações sobre a ex-serva e condessa, que nada deixou escrito sobre a sua vida.

O GLOBO: De onde surgiu a idéia de escrever sobre Nicolau e Praskovia?

DOUGLAS SMITH: Soube da história em 1992. Estava passando um ano na Rússia para fazer o meu doutorado. Fiz uma visita ao palácio de Kuskovo como turista. Quando vi o lugar e, depois que li sobre Nicolau de Shremetevo e Praskovia, fiquei fascinado.

Nunca tinha ouvido falar nessa história.

Durante muitos anos, fiquei com aquilo na cabeça.

Fui anotando os nomes de livros que precisava ler, histórias sobre o assunto. Só em 2001 passei a me dedicar inteiramente a esse projeto. Levei sete anos para fazer a pesquisa. Não foi fácil. Não só pelo fato de estar na Rússia, mas também porque havia poucos documentos sobre Praskovia. Ela mesma não deixou nada por escrito.

Ao longo do livro fica claro que faltam dados sobre o que se passava pela cabeça de Praskovia. Muitas vezes fica no ar se ela se esteve ou não em certas situações…

SMITH: A dificuldade de obter informações sobre ela me levou a ter que preencher as lacunas. Estive em todos os lugares por onde eles passaram. Estudei a vida no palácio. Tentei captar o cenário da história para ter acesso ao que teria acontecido.

Não dá para saber exatamente o que passava pela cabeça dela, mas dá para entender como foi a sua vida e o que aconteceu. Quando conto a história dos dois para as pessoas, recebo de cara o seguinte comentário: não saiba que você era novelista. E tenho que explicar que é uma história verdadeira, não se trata de ficção.

Os russos gostam de histórias de grandes heróis, de guerras vitoriosas. Qual a importância deste romance no imaginário coletivo?

SMITH: É difícil quantificar a influência desse romance na sociedade russa. Mas posso dizer que o fato de alguém tão nobre na sociedade da época se casar com uma serva era um verdadeiro escândalo. E um desafio para a elite social de reconhecer aquela mulher como igual. Talvez seja um pouco de exagero, mas este foi o começo do fim da servidão. Estava claro que iam começar a pensar o que era a elite e os servos. As pessoas tiveram de reconsiderar os seus próprios padrões.

Acho que a história faz parte dos ideais da Rússia. Os russos adoram falar da sua cultura e têm muito orgulho dela. O conde de Sheremetevo e Praskovia são personagens importantes da cultura.

O próprio Nicolau resistiu muito ao casamento. Ele mesmo tinha seus preconceitos, não?

SMITH: Nicolau lutou contra seus próprios princípios por acreditar nesse amor. Não sabia o que fazer.

Era um produto do meio em que vivia. Mas queria poder dar a Praskovia o que ela mais desejava, que era o casamento.

O amor pelo teatro, sua abertura a todas as novidades vindas do Ocidente e as viagens que fez à Europa teriam mudado a cabeça do conde, ou ainda, o ocidentalizado?

SMITH: Acho que tudo isso teve um papel muito importante na história dele. Houve também todas as histórias que ele encenou nos seus teatros. Temas que lidavam com a beleza e o bizarro, romances de nobres com servos. (Vivian Oswald)

28/09/2008 - 10:10h O ápice de Philip Roth

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Philip Roth

Novo romance do autor norte-americano, “Indignação” é o melhor que escreveu nos últimos 20 anos, diz crítico irlandês

JOHN BANVILLE – FOLHA SP

“Indignation” [Indignação, ed. Houghton Mifflin, 256 págs., US$ 26, R$ 47] é o melhor romance de Philip Roth desde “O Avesso da Vida” (1986).

Desde então, publicou muitos livros excelentes -talvez livros demais: ele é quase tão prolífico quanto John Updike-, mas nenhum com um desenho tão intricado, apaixonado e fascinante quanto este.

Roth recebeu grandes elogios por lamentos à moda do rei Lear em romances como “Teatro de Sabbath” e “O Animal Agonizante”, bem como, mais recentemente, por “Homem Comum” e “Fantasma Sai de Cena” [todos pela Cia. das Letras], nos quais a morte tem presença central.
Mas, em seu novo romance, retomou a graça e sutileza de trabalhos anteriores e produziu uma obra-prima tardia.

Sangue e gordura

Não que “Indignação” esteja livre do toque de Tânatos, pressagiando morte e desgraça.

Ainda que o protagonista de Roth, Markus “Markie” Messner, tenha apenas 19 anos, em sua época já viu sangue suficiente para saciar a sede de vingança do mais furioso dos reis.

“Cresci com o sangue -com o sangue e a gordura e afiadores de facas e máquinas de fatiar e dedos amputados ou pedaços de dedos desaparecidos das mãos de meus três tios e também de meu pai- e jamais me acostumei com com isso ou gostei disso.”

A história se passa em 1951, e a máquina de fatiar em questão é a Guerra da Coréia. Markie, um jovem de Nova Jersey, estudante aplicado, vem obtendo notas excelentes em uma pequena faculdade da região e espera escapar ao serviço militar.

Mas seu pai, um açougueiro kosher, está “enlouquecido de preocupação pelo filho único e querido parecer tão despreparado para os perigos da vida quanto qualquer pessoa ao chegar à idade adulta, enlouquecido pela descoberta de que o seu menininho está crescendo”.

“Tour de force”

Levado à loucura pela loucura do pai, Markie, que considera “indignação” a mais bela palavra da língua, não encontra outra saída a não ser escapar rumo ao desconhecido. E por isso se matricula no distante Winesburg College, em Ohio.

As páginas iniciais, que evocam de forma compacta o ambiente de Markie em Nova Jersey e seu trabalho no negócio da família, são um daqueles “tours de force” que sempre caracterizaram Roth.

Pode-se ver Markie em seu paletó esporte e sapatos brancos de camurça, pode-se sentir o cheiro do sangue e da serragem no açougue, pode-se sentir o anseio do jovem pelas boas coisas da vida com as quais o futuro lhe acena.

Maravilhosamente evocativas, igualmente, são as passagens que descrevem os esforços do protagonista para se enquadrar às limitações da faculdade no Centro-Oeste dos EUA, sem deixar de preservar a independência e a integridade pessoal.

Obsessão

Uma das sutilezas de “Indignação” é que jamais nos é permitido perceber o que exatamente impulsiona Markie, nos níveis mais profundos. Ainda que ele seja reconhecido como excepcionalmente inteligente e trabalhador e seja convidado a se integrar às fraternidades judaica e cristã da faculdade, prefere se manter rigidamente distante de todas as seduções.

Dedica-se aos estudos com uma obsessão comparável à de seu pai. Mesmo quando sua aparente misoginia é contestada pelo “diretor de homens” da instituição, recusa-se a ceder.

Em um confronto esplêndido, Markie cita de forma extensa e fiel uma polêmica de Bertrand Russell sobre o ateísmo e depois vomita “contra o vidro de uma das fotos emolduradas que enfeitam a parede do diretor, mostrando a equipe de futebol de Winesburg que ganhou, invicta, um campeonato em 1924″. Como sempre, não se pode acusar Philip Roth de excesso de delicadeza.

E, porque Roth é Roth, não demora muito para que surja uma mulher. O sexo é o propulsor incansável de seu trabalho, mas neste livro ele é maculado por sangue e morte.

Trata-se de um tema narrativo que Roth sustenta com imensa competência. A apresentação inicial e direta do sangue e das tripas que o trabalho em um açougue envolve se altera e obscurece quando Olivia Hutton entra em cena.

No começo uma Ofélia para o Hamlet de Markie, ela parece uma estudante completamente normal, “pálida e esguia, com um cabelo castanho avermelhado, escuro”, ainda que possua, ou assim pareça a Markie, “modos distantes, intimidadores e autoconfiantes”.

No entanto Markie mal consegue acreditar na sorte de que desfruta quando, em seu primeiro encontro, Olivia se prova prodigamente generosa com seus favores sexuais.

Como é comum na ficção, porém, bons momentos engendram sérios problemas. Não demora para que Markie esteja de volta ao escritório do Sr. Caudwell, onde o diretor o acusa de um relacionamento indigno com a jovem dama em questão, que deixou o colégio abruptamente, com sua reputação maculada.

“Indignação” é um trabalho enganosamente curto, escrito em estilo cuja limpidez oculta obscuridade.

Mas, ao final do primeiro quarto do livro, quando estamos nos acomodando à história de esforço juvenil e rebelião filial de Markie, sofremos o abalo de uma revelação que abre imensas perspectivas: “Contando minha história para mim mesmo hora após hora em um mundo sem relógio, espreitando incorpóreo nessa gruta da memória, sinto que venho fazendo a mesma coisa há 1 milhão de anos”.

Todo aquele sangue e todas aquelas lâminas deveriam ter nos alertado para os acontecimentos sombrios que viriam, como tenebrosamente vieram.

JOHN BANVILLE é escritor irlandês, autor de “O Mar”. Este texto saiu no “Financial Times”. Tradução de Paulo Migliacci.

ONDE ENCOMENDAR – Livros em inglês podem ser encomendados pelo site www.amazon.com

28/09/2008 - 09:39h Duas garrafas de rum

Best-sellers quando foram lançados, “Uma História dos Piratas”, de Daniel Defoe, e “Os Tigres de Mompracem”, de Emilio Salgari, revivem o imaginário sobre o tema

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CRISTOVÃO TEZZA ESPECIAL PARA A FOLHA

A figura clássica do pirata ocupa um lugar ambíguo no imaginário do Ocidente. Num aspecto, é a barbárie -alguém que abdica das regras dos Estados constituídos e rompe seu eixo moral, assumindo o direito de matar, saquear e violentar ao sabor do arbítrio.

Mas, em outro aspecto, que poderíamos chamar de literário, o pirata é uma figura fascinante que se confunde com o justiceiro vingador, aquele que não se submete a viver com o rebanho e afirma a sua individualidade sobre todas as coisas.

Nessa representação romântica, explorada pela ficção popular e pelo cinema, ele é no fundo um bom sujeito, que, por força das vicissitudes e crueldades da vida, se viu obrigado a viver solitário, à margem da sociedade. E o navio, o habitat do pirata, será o símbolo da liberdade, da aventura e do desconhecido que emergiu a partir do século 15 para desenhar o mapa de um mundo novo a ser conquistado.

Dois livros revisitam o tema, na ficção e na não-ficção -e é interessante observar como essa fronteira, ao falar em piratas, é difusa.

“Uma História dos Piratas”, de Daniel Defoe (1660-1731), apresenta-se como uma historiografia, ainda que o autor nos advirta em um momento de seu relato: “Os estranhos acidentes das suas vidas errantes são tais que muitos ficarão tentados a achar que toda essa história nada mais é que uma novela ou um romance”.

Literatura de massa

E “Os Piratas de Mompracem”, de Emilio Salgari (1862-1911), é a cristalização do mito do pirata em sua forma mais folhetinesca, realizando plenamente, na entrada do século 20, o que de certa forma obras como “Robinson Crusoe”, do próprio Defoe, já anunciavam dois séculos antes -uma literatura de massa para abastecer um novo público leitor, ávido de aventuras laicas, que começava a se criar nos grandes centros urbanos europeus.

O livro de Defoe -ficamos sabendo pela apresentação de Luciano Figueiredo, professor da Universidade Federal Fluminense que fez a seleção dos textos, com abundantes notas informativas- foi à época um grande sucesso.

Originalmente assinado por um fictício capitão Charles Johnson, para reforçar a idéia de que o autor era do ramo, se estrutura mais ou menos como informação jornalística.

Sempre atento à presumida veracidade do fatos, o livro procura mostrar fidelidade aos dados concretos para abastecer a curiosidade dos leitores, revelando fontes, assinalando dúvidas e transcrevendo aqui e ali documentos de época.

Situação ambígua

O grande interesse pelo tema se explica porque a própria Inglaterra viveu uma situação ambígua com a atividade corsária. Figuras históricas relevantes, como sir Francis Drake (1545-1596), por exemplo, praticaram pirataria a serviço da coroa, mas então os tempos eram outros. Os heróis de antanho que ajudaram a firmar o poder naval do país passavam a ser “o terror da atividade comercial do mundo”, uma área que os ingleses começavam a dominar e que viam ameaçada pelos corsários.

Essa passagem traumática de um tempo para outro é visível em vários momentos e personagens do livro, como o pirata Stede Bonnet, que, antes de se aventurar na vida criminosa, era um “senhor de uma imensa fortuna”, conhecendo “todas as vantagens de uma educação liberal”; ou William Kidd, oficialmente contratado para combater os piratas e que acabou enforcado por se tornar um deles.

Num momento, o Brasil aparece com otimismo, como sempre (”o ouro dali é considerado o melhor”), sem faltar o detalhe picante que vem nos celebrizando: “As mulheres são loucas por estrangeiros. Não só as cortesãs (…), mas também as mulheres casadas, que se mostram muito gratas quando alguém lhes brinda com um encontro secreto”.

Aliás, duas piratas mulheres que se passavam por homens, Mary Read e Anne Bonny, são outro capítulo curioso do inventário de Defoe.
Dois séculos depois, nas obras do italiano Emilio Salgari, um escritor imensamente popular no seu tempo, a figura do pirata já não tem mais lugar no mundo real e se refugia na fantasia.

http://img.photobucket.com/albums/v298/welcometoelsinore/sando.jpgEm “Os Tigres de Mompracem”, de 1900 -obra reeditada agora numa edição que reproduz as ilustrações originais-, acompanhamos as aventuras extraordinárias de Sandokan, um terrível pirata que tem seu “covil” na ilha de Mompracem, na Malásia, de onde sai com sua inesgotável tripulação de foras-da-lei, sempre prontos a morrer por ele a um estalar de dedos, para raptar a amada Marianna, a “Pérola de Labian”.

Orientalismo

Arrancando-a das mãos implacáveis do tio, lorde James, que a havia prometido ao baronete William, o herói Sandokan dispõe-se a abandonar a vida de pirata para dedicar-se a sua rainha, dura decisão que lhe dá a sombra de um destino trágico.

As mais mirabolantes e inverossímeis aventuras tiram o fôlego do leitor, que nada precisa temer; seguindo a fórmula consagrada, as páginas avançam sempre com a garantia de um final feliz.

Sandokan sintetiza a imagem exótica do orientalismo romântico alimentado pela Europa do século 19 e, ao mesmo tempo, marca o imperialismo inglês como vilão, que será sua grande novidade e o seu tempero libertário multicultural.

CRISTOVÃO TEZZA é escritor, autor de “O Filho Eterno” (ed. Record), pelo qual ganhou, na semana passada, o Jabuti de melhor romance.

UMA HISTÓRIA DOS PIRATAS

Autor: Daniel Defoe
Tradução: Roberto Franco Valente
Editora: Jorge Zahar (tel. 0/xx/21/ 2108-0808)
Quanto: R$ 34 (264 págs.)

OS TIGRES DE MOMPRACEM
Autor: Emilio Salgari
Tradução: Maiza Rocha
Editora: Iluminuras (tel. 0/xx/11/ 3031-6161).
Quanto: R$ 44 (336 págs.)

http://img.photobucket.com/albums/v112/aniballetra/Anibal/sandokan_2.jpg

Kabir Bedi, Sandokan na TV

29/08/2008 - 20:03h Romance: finalistas do 50° Prêmio Jabuti 2008

 
 
   

1ª FASE – FINALISTAS

1 – O SOL SE PÕE EM SÃO PAULO
BERNARDO TEIXEIRA DE CARVALHO
COMPANHIA DAS LETRAS

2 – ANTONIO
BEATRIZ BRACHER
EDITORA 34

3 – O FILHO ETERNO
CRISTOVÃO TEZZA
EDITORA RECORD LTDA

4 – RAKUSHISHA
ADRIANA LISBOA
ROCCO

5 – ERA NO TEMPO DO REI
RUY CASTRO
OBJETIVA

6 – AS FLORES DO JARDIM DA NOSSA CASA
MARCO LACERDA
EDITORA TERCEIRO NOME LTDA.

7 – A CHAVE DE CASA
TATIANA SALEM LEVY
EDITORA RECORD LTDA

8 – A MURALHA DE ADRIANO
MENALTON BRAFF
BERTRAND BRASIL LTDA

9 – LONGE DE RAMIRO
CHICO MATTOSO
EDITORA 34

10 – CONTRAMÃO
HENRIQUE SCHNEIDER
BERTRAND BRASIL LTDA

Relatório da apuração realizada em 28 de agosto de 2008, sujeito à alteração por eventual impugnação referendada pela Comissão do prêmio e no caso previsto em IV – DA PREMIAÇÃO, item 10 do Regulamento do 50° Prêmio Jabuti 2008.

09/08/2008 - 20:00h Tu che le vanità e mais, da Ópera Don Carlos, de G. Verdi

Maria Callas

 

Blog valkirio

Don Carlo – Verdi – Um Grito de Liberdade

O Infante Dom Carlos, por Alonso Sánchez Coello

A ópera “Don Carlos” foi estreada em Paris em 1867, com libretto em Francês, baseado no romance “Dom Carlos, Infante de Espanha”, de Schiller. Mais tarde, Verdi fez alguns cortes para a estreia em Milão, já com a tradução do libretto em Italiano, sendo esta, “Don Carlo”, a versão representada com mais frequência.O Infante era filho de Filipe II de Espanha e de Maria Manuela de Portugal (filha de Dom João III e de Catarina de Áustria). Os seus progenitores eram primos por todos os lados: Filipe II era filho do Imperador Carlos V e de Isabel de Portugal, irmã de Dom João III, o avô materno de Dom Carlos. Parece muito complicado, mas não é. Veja-se a sua árvore genealógica aqui.Com um grau de consanguinidade tão elevado, alguma coisa havia de correr mal e Dom Carlos teve uma vida bastante infeliz. A sua mãe morreu poucos dias depois de o dar à luz e ele era uma pessoa fisicamente debilitada, que, além disso, sofria de perturbações mentais. Morreu com apenas vinte e três anos, em 1568, talvez de morte natural, ou, quem sabe, envenenado.Nada disto impediu que Schiller romanceasse a sua história nem que Verdi criasse uma personagem que pouco corresponderá ao verdadeiro Dom Carlos. E tudo isto vem a propósito de uma gravação que encontrei do dueto de Dom Carlos com o seu amigo Rodrigo, Marquês de Posa:O Infante confessa ao amigo que ama “Elisabetta” (Élisabeth de Valois), sua madrasta, que tinha sido sua noiva antes de casar com o Rei. Rodrigo tenta convencer Dom Carlos a partir com ele para a Flandres; têm de ajudar o povo flamengo a libertar-se do jugo de Filipe II (e da sua Inquisição). Ambos cantam juras de fidelidade:

Deus, que nos infundiste na alma
O amor e a esperança,
Acende-nos no coração
O desejo de liberdade.
Juramos viver juntos
E morrer juntos.
Na terra e no céu
Encontraremos a tua bondade.

Viveremos juntos e morreremos juntos.
Será o último suspiro,
Será um grito: Liberdade!

RODRIGO
È lui! Desso! L’Infante!

DON CARLO
O mio Rodrigo!

RODRIGO
Altezza!

DON CARLO
Sei tu ch’io stringo al seno?

RODRIGO
O mio prence… Signor!

DON CARLO
È il ciel che a me t’invia nel mio dolor,
Angiol consolator!

RODRIGO
O amato prence!
L’ora suonò; te chiama il popolo fiammingo!
Soccorrer tu lo dêi; ti fa suo salvator!
Ma che vid’io! Quale pallor, qual pena!…
Un lampo di dolor sul ciglio tuo balena!
Muto sei tu!… Sospiri! Hai tristo il cor!
Carlo mio, con me, dividi il tuo pianto, il tuo dolor.

DON CARLO
Mio salvator, mio fratel, mio fedele,
Lascia ch’io pianga in seno a te!

RODRIGO
Versami in cor il tuo strazio crudele,
L’anima tua non sia chiusa per me!
Parla!

DON CARLO
Lo vuoi tu? La mia sventura apprendi,
E qual orrendo stral il mio cor trapassò!
Amo d’un colpevole amor… Elisabetta!

RODRIGO
Tua madre! Giusto ciel!

DON CARLO
Qual pallor! Lo sguardo chini al suol!
Tristo me! Tu stesso, mio Rodrigo,
T’allontani da me?

RODRIGO
No, Rodrigo ancor t’ama! Io tel posso giurar.
Tu soffri? Già per me l’universo dispar!

DON CARLO
O mio Rodrigo!

RODRIGO
Mio prence!
Questo arcano dal Re non fu sorpreso ancora?

DON CARLO
No.

RODRIGO
Ottien dunque da lui di partir per la Fiandra.
Taccia il tuo cor, degna di te
Opra farai, apprendi omai
In mezzo a gente oppressa a divenir un Re!

DON CARLO
Ti seguirò, fratello.

RODRIGO
Ascolta! Le porte dell’ asil s’apron già; qui verranno
Filippo e la Regina.

DON CARLO
Elisabetta!

RODRIGO
Rinfranca accanto a me lo spirto che vacilla!
Serena ancora la stella tua nei cieli brilla.
Domanda al ciel dei forti la virtù!

DON CARLO E RODRIGO
Dio, che nell’alma infondere
Amor volesti e speme,
Desio nel core accendere
Tu dêi di libertà.
Giuriamo insiem di vivere
E di morire insieme;
In terra, in ciel congiungere
Ci può la tua bontà.

Vivremo insiem e morremo insiem!
Sarà l’estremo anelito,
Sarà un grido: Libertà!

Don Carlo – Carlo Bergonzi, tenor
Rodrigo – Piero Cappuccilli, barítono
(1970)

 

12/07/2008 - 21:33h Sobre o tédio

ANTONIO CICERO

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Uma pessoa que esteja sempre entediada não pode deixar de ser, em 1º lugar, entediante

EM CERTO ponto do romance “O Vermelho e o Negro”, de Stendhal, um dos personagens -o príncipe Korasoff- censura a tristeza do herói, Julien Sorel, explicando-lhe que “o ar triste não pode ser de bom tom; o que é necessário é o ar entediado. Se você está triste, há alguma coisa que lhe falta, alguma coisa que você não conseguiu. É mostrar-se inferior. Se você está entediado, ao contrário, o que é inferior é aquilo que em vão tentou agradá-lo”.
É sem dúvida por essa razão que o ar blasé é tido por muitos como sinal de superioridade.
Não vejo superioridade nenhuma na pessoa cronicamente entediada. Se alguém, para parecer superior, precisa fingir estar entediado, é porque, na verdade, se sente inferior. Seu ar entediado é uma tentativa de se vingar dessa inferioridade. Por outro lado, uma pessoa que esteja sempre ou quase sempre genuinamente entediada não pode deixar de ser, em primeiro lugar, entediante: ela é entediada exatamente porque entendia a si própria.
Refiro-me aqui, é claro, às pessoas livres, isto é, àquelas que podem dispor, em medida considerável, do seu tempo. O que digo não se aplica, por exemplo, a enfermos, a prisioneiros ou a trabalhadores forçados.
E todos nós estamos sujeitos a momentos de tédio, como, por exemplo, quando nos encontramos, sem material de leitura, numa fila de banco, ou numa cerimônia da qual, por alguma razão, não conseguimos deixar de participar.
Fora semelhantes casos, porém, quase todos os nossos tédios são, como diz o poeta Paul Valéry, “nossa criação original”. Difamar o mundo -e o mundo é sempre o mundo contemporâneo-, chamando-o de tedioso, diz muito sobre o difamador e nada sobre o mundo. Este não pode ser classificado nem de tedioso nem de interessante, pois é nele que se encontra tudo o que pode haver de interessante e de tedioso. Por isso, ele é entediante para quem é entediante, superficial para quem é superficial, profundo para quem é profundo, e interessante para quem é interessante.
Assim é que, por exemplo, com um estado de espírito oposto ao do difamador do mundo, Montesquieu anotou num caderno que quase nunca tinha tristeza, e menos ainda tédio. Na mesma página, escreveu também: “Acordo de manhã com uma alegria secreta; vejo a luz com uma espécie de arrebatamento”. Esse, sim, é um sentimento verdadeiramente superior.
Contudo, não ignoro que haja pessoas livres, com saúde, e até interessantes, que às vezes se entediam exatamente quando têm lazer, isto é, quando poderiam, por exemplo, não digo nem viajar, mas simplesmente ler um grande romance, escrever uma carta ou um poema, ou não mais que andar na rua, apreciando a paisagem ou o movimento, ou, quem sabe, a passagem dessa ou daquela promessa de felicidade. Nem ignoro que qualquer uma das atividades que acabo de citar -ou qualquer outra que se imagine- seria capaz de lhes sugerir exatamente o cúmulo do tédio. Por quê? Como é possível ser tediosa a vida de uma pessoa que dispõe do seu tempo?
Creio que a resposta é que o tédio costuma acometer qualquer um que tenha orientado tudo na sua vida por uma única causa final.
A pessoa para quem o tédio se dá desse modo é aquela que tem um interesse obsessivo por uma só coisa. Nesse caso, encarando todas as demais coisas como meros caminhos ou obstáculos para a consecução do seu objetivo, ela as destitui de qualquer interesse intrínseco.
À medida que, em vez de facilitar o avanço dela rumo a esse ponto final, algo possui uma espessura e opacidade própria, à medida que exige atenção para si mesmo, passa a ser um obstáculo. Sendo assim, o tempo que, a contragosto, tal pessoa é obrigada a lhe dedicar, passa a ser um tempo de desvio, tempo que gostaria de ver passar o mais rapidamente possível, abrindo-lhe novamente caminho para a retomada da corrida rumo à finalidade última. Tal é o tempo do tédio, que ela tenta “matar”, como se o tempo não constituísse a própria substância da vida.
O ponto final pode ser, por exemplo, uma paixão devoradora, que atropele tudo o mais. Digamos que uma pessoa vá a uma festa esperando ver o objeto de sua paixão e, lá chegando, não o veja. Então a festa que, não fosse por essa frustração, poderia ser uma delícia, torna-se, para ela, o mais puro tédio. Sem ganhar o objeto da paixão, ela perde o mundo. Eis uma das razões pelas quais tantos filósofos -inclusive Epicuro, que elogiava o prazer- apreciam o amor e a amizade, mas desconfiam da paixão.

10/07/2008 - 18:50h Volta de Paraty

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CONTARDO CALLIGARIS – FOLHA SP


Um romance interior, diferente para cada um, responde às perguntas que surgem na infância


DE QUARTA a domingo passados, participei da Festa Literária Internacional de Paraty -a Flip.
De alguns escritores presentes, eu já tinha lido um livro ou mais. Quanto aos outros autores, nas últimas semanas, encurtei minhas noites para conhecer ao menos o sabor de sua ficção. A bancada de meu escritório se cobriu de volumes inchados pelas orelhas das capas, com as quais eu marcava o progresso da leitura, e, ao redor de minha cama, espalharam-se em permanência dez livros abertos.
A essas leituras fragmentárias, acrescentaram-se, ao longo da Flip, os trechos lidos por cada autor.
Não sei quantas dessas histórias acabarei lendo por inteiro. A vida continua, e novos livros me levarão consigo. Mas, até das obras que não terminarei de ler, algo permanecerá -sem que eu saiba necessariamente o quê.
Os livros folheados, sondados, lidos às pressas e apenas em parte, os trechos ouvidos e mesmo os relatos de quem me contou de suas leituras -tudo isso alimentará (já alimenta), de uma maneira ou de outra, meu “livro interior”. O que é meu “livro interior”? Um pouco de paciência.
Essa bonita expressão é de Pierre Bayard, cujo recente “Como Falar dos Livros que Não Lemos?” (Objetiva) foi o objeto de uma mesa da Flip, na qual, aliás, servi de mediador entre o próprio Bayard e Marcelo Coelho, colunista da Folha. O livro de Bayard é, à primeira vista, uma sátira (muito divertida) dos costumes (universitários e mundanos) pelos quais todos falamos de livros que não lemos como se os tivéssemos lido. Digo “à primeira vista”, porque, de fato, o livro de Bayard é muito mais do que isso: é uma investigação sobre os caminhos misteriosos pelos quais os livros passam a fazer parte da gente, mesmo que os tenhamos apenas folheado ou nem isso.
Há os livros dos quais só ouvimos falar; há os muitos que compramos e ficam para sempre virgens em cima do criado-mudo; há os que apenas iniciamos e os que lemos aos trancos. Sem contar aqueles dos quais não sabemos mais se os lemos ou apenas acreditamos conhecê-los à força de falar como se os conhecêssemos. Fragmentos, re- latos, resumos de ficções, de uma maneira ou de outra, passam a fazer parte de nós, tanto quanto nossas leituras exaustivas. Como assim?
Num capítulo de seu livro, Bayard faz uma distinção entre o livro interior de quem pertence a uma sociedade tradicional (que seria um livro coletivo, repleto de representações, lendas e histórias que são fundamentalmente as mesmas para todos) e o livro interior dos modernos, único e diferente para cada um. É o romance que vamos aprimorando a partir das primeiras ficções que inventamos para responder às perguntas que se colocam desde nossa infância.
Para nós modernos, por exemplo, o parentesco sem amor não é garantia de nada, e o berço não dita o destino; só podemos, portanto, tentar imaginar: “Somos amados ou não?”, “Será que nossos pais se amam?”, “Eles amam mais a gente ou o irmão e a irmã?”, “Qual será nosso futuro?”, e por aí vai nossa tarefa de romancistas.
Aos poucos, as histórias que lemos, que ouvimos ou às quais assistimos (no cinema ou na televisão) enriquecem nossa ficção originária. E, como escreve Bayard: “Os livros interiores individuais formam um sistema de recepção de outros textos (…) constituem uma grade de leitura do mundo e particularmente dos livros, dos quais organizam a descoberta”.
Ou seja, talvez nossa apreciação crítica seja isto: as exigências de nosso livro interior nos fazem gostar (ou não) de uma história porque ela pode (ou não) se enquadrar na ficção de nossa vida.
E as histórias que integramos à nossa ficção podem ser trechos, fragmentos, resumos, relatos de segunda mão.
Anos atrás, na Suíça, ensinando literatura a imigrantes italianos que preparavam o exame final do ensino básico, eu gostava de resumir os clássicos para eles. Eles escutavam, comentavam e liam pequenos trechos que eu tinha, quase sempre, simplificado. Os maiores sucessos eram a “Odisséia” e “Moby Dick” – o que não é surpreendente, tratando-se de homens que eram separados de suas famílias e corriam atrás de um sonho impossível.
Hoje, se alguém perguntasse a meus ex-alunos se eles leram esses dois livros, talvez eles dissessem que sim. Mentira? Pode ser. Mas aposto que Homero e Melville os reconheceriam como bons leitores de suas obras.

ccalligari@uol.com.br

03/07/2008 - 20:42h Romance

Yehudi Menuhin em Romance de Beethoven

02/07/2008 - 14:40h Os anos de chumbo

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Martín Kohan e Nathan Englander falam na Flip, que começa hoje, sobre a ditadura argentina

Ubiratan Brasil – O Estado de São Paulo


Os anos de chumbo sofridos pela sociedade argentina nos anos 1970 e 80 inspiraram dois autores de origem distinta, que estarão juntos na Festa Literária Internacional de Paraty, que começa hoje – de um lado, o argentino Martín Kohan, autor de Duas Vezes Junho (Amauta, tradução de Marcelo Barbão, 148 páginas, R$ 25) e Ciências Morais (Companhia das Letras, tradução de Eduardo Brandão, 192 páginas, R$ 38), obras que retratam a pesada atmosfera que imperava no país; e, de outro, o americano Nathan Englander, cujo Ministério de Casos Especiais (Rocco, tradução de Paulo Reis) conta a história de uma família de judeus nada ortodoxos às voltas com os desaparecimentos ocorridos na “Guerra Suja” na Argentina, em 1976.

Adolescente durante a ditadura, Kohan observa aquele momento sempre a partir de um ponto de vista aberto. Em Duas Vezes Junho, ele se prende à única derrota sofrida pela Argentina na Copa do Mundo de 1978 para mostrar que também o país perdia com a própria situação. E, em Ciências Morais, o trabalho de inspeção de alunos do Colégio Nacional é o ponto de partida para reproduzir os momentos em que o regime totalitário agonizava. Sobre isso, ele conversou com o Estado.

A ditadura militar argentina tem um peso fundamental em suas obras Duas Vezes Junho e Ciências Morais. Que importância a política tem na literatura e, mais especificamente, nos seus escritos?

Tenho minhas reservas a respeito de certa convenção do romance político que, em geral, tende ao realismo ou à explicitação de sentidos. Busco afastar-me dessas formas. No entanto, encontro em alguns aspectos da história política recente alguns elementos que me interessam questionar. Não faço para dar conta de uma realidade, tampouco para fixar um sentido como “mensagem”. Utilizo a política como um campo de significação do que me interessa questionar a partir de outro campo de significação, o da literatura.

Em Duas Vezes Junho, a Copa do Mundo de 1978 é lembrada a partir da única derrota da Argentina no torneio, contra a Itália. No momento em que são lembrados os 30 anos daquele Mundial, você acredita que a Copa foi o primeiro símbolo de aprovação popular da ditadura?

Não, não foi. A ditadura utilizou evidentemente o Mundial para se prestigiar, sobretudo diante dos olhos estrangeiros. Os festejos populares não implicaram necessariamente uma adesão política ao regime. Em todo caso, expressaram, segundo meu ponto de vista, a eficácia do fervor nacionalista, do triunfalismo pátrio, todas essas mitologias. Daí minha decisão de narrar, não uma vitória, mas uma derrota argentina.

A história de Ciências Morais se passa no Colégio Nacional, onde você estudou. Mas você aprofunda o mundo das autoridades e não dos estudantes. Por quê?

Nada poderia me interessar menos que uma obra autobiográfica, do tipo “memórias de estudante”. Minha motivação foi justamente contrária: imaginar a vida das autoridades, pessoas que pareciam não ter uma vida íntima. Conceber essas vidas, inventá-las, construí-las e narrá-las, justamente porque em minha passagem pelo colégio era o detalhe mais opaco e mais insondável – isso me interessou. Como já conhecia o mundo dos estudantes, não tive nenhum desejo de descrevê-lo.

Sua intenção foi criar, no colégio, um microcosmo do ambiente então vivido na época pela Argentina? Os preceptores e sua função de delatar erros dos alunos representam o poder que era tão enigmático e violento naquela época?

O Colégio Nacional sempre foi visto como uma versão concentrada do que havia de melhor na Argentina. Não digo que fosse assim, mas era o que se dizia a respeito. Ou seja, faz parte de uma mitologia da argentinidade, que me interessa interrogar pela literatura. Como funciona esse mito, como se fortalece e também como se enfraquece. Durante os anos de repressão, o colégio, o mais tradicional do país, funcionou igualmente a partir dessa relação de correspondência ou de metáfora.

A ditadura e a questão com as Malvinas aparecem, em geral, separadas nos livros de história. Você, ao contrário, preferiu mostrar a relação entre elas. A derrota de uma implicaria também a derrota da outra?

Parece evidente que o final da ditadura militar está diretamente ligado à derrota na guerra das Malvinas. Não vejo como se poderia separar um fato do outro. Por isso que a tal derrota nos deva parecer positiva e proveitosa: uma sorte ter perdido. O que implica uma verdadeira rachadura nos fundamentos do fervor do nacionalismo. Mas para ninguém esse conflito é tão terrível como para os ex-combatentes: eles arriscaram suas vidas em uma guerra que nem sequer convinha ganhar. Não era um conflito perdido, resultado que poderia ser suportável, mas uma guerra que era melhor perder e não ganhar.

Os detalhes com que mostra os mecanismos de controle disciplinar da escola são impressionantes. Por que eles lhe interessam tanto?

Minha escrita tende à lentidão, obrigando uma leitura com minuciosidade. Por isso, os detalhes me atraem: são objeto privilegiado da minha maneira de escrever, que tende mais à cadência e à pausa que à ligeireza. No caso particular desse romance, creio que tal característica sustenta um traço concreto: a obsessão maníaca de quem quer exercer o controle total, aquele que não deixa nada escapar.

Há, também, o falso moralismo do “cumprimento do dever” dos preceptores, em que os fins justificam os meios. Qual sua opinião sobre isso?

Eu me interesso mais pelos fatos comuns do que por aqueles aberrantes, cometidos não em nome do mal mas em nome do bem. Os valores aparentemente mais sólidos e rígidos, o moralismo proclamado a toda voz, estão sempre à frente de coisas abomináveis. Eu me questionei sobre isso e alguns de meus romances se devem a isso: como funciona a obediência, como se forma um obediente e como os dispositivos que ativam as piores causas necessitam dessa classe de mecanismos.

Os preceptores mostravam-se como sinistros mas eram, na verdade, pobres tipos. O mesmo poderia ser dito do general Jorge Videla?

Essa superposição me parece reveladora: ele é, ao mesmo tempo, um criminoso e um infeliz. Sem que o segundo isente o primeiro, nem o debilite em absoluto. Parece-me um aspecto da criminalidade política a considerar: o substrato do miserável. Não digo que funcione sempre, mas sim em alguns casos. Videla pareceria ser um. Às vezes, penso como seria uma tarde na vida de Videla, na prisão domiciliar de sua triste região. Buscar a maneira em que essa imagem completamente patética não amorne a do criminoso, mas o inverso: que o revele em sua verdade mais profunda.

A crise familiar durante o horror da ditadura

Em Ministério dos Casos Especiais, Nathan Englander mostra os efeitos de um momento de exceção

Ubiratan Brasil – O Estado de São Paulo


Foram dez anos de preparação, cuidados, reescrita. Nesse período, o escritor americano Nathan Englander montou um paralelo entre a Buenos Aires martirizada pela ditadura militar (1976-1983)e Jerusalém, cidade onde esse jovem nova-iorquino nascido em 1970 viveu durante alguns anos. O resultado é O Ministério de Casos Especiais, seu primeiro romance (o anterior, Para Alívio dos Impulsos Insuportáveis, reúne contos de admirável firmeza) que acompanha a trajetória de Kaddish Poznan, judeu de temperamento difícil, que ganha a vida apagando lápides de prostitutas e cafetões de um cemitério, a pedido das famílias. A ditadura militar o afeta diretamente com o ”desaparecimento” de seu filho Pato.

”Minha idéia foi criar uma história sobre uma família que é forçada a se unir por conta da dor comum”, conta Englander, que conversou com o Estado por telefone. ”Também me interessei em falar de uma comunidade na qual certos membros encaram os demais como párias.” Foi com o passar do tempo, aliás, que o escritor notou que O Ministério de Casos Especiais era, na verdade, uma metáfora sobre o período em que viveu em Jerusalém. ”Quando me mudei para lá, buscava a paz, mas logo conheci momentos de grande tensão. O mesmo se parece com os cidadãos de Buenos Aires – eles gostam de sua cidade, se dedicam a ela, mas decisões do governo nem sempre colaboram para seu bem-estar.”

Englander passou uma pequena temporada, em 1991, na capital argentina, período em que começou a fermentar tal semelhança. Época também em que descobriu alguns meandros do período de ditadura militar, que aparece no livro sob seu aspecto mais terrível – em uma passagem, por exemplo, Poznan conversa com o piloto de avião que confessa ter jogado jovens prisioneiros no Rio da Prata.

Tal detalhe explica o longo tempo de gestação do romance – Englander cuidou de cada frase, encadeando-as de forma a compor um relato seco mas eletrizante. ”Não posso negar que gosto de relatos sobre paranóia”, conta ele, lembrando-se do mistério envolvendo Pato que, de resto, ainda deixa obscura uma série de assassinatos cometidos a mando dos militares. ”Seria ele realmente um revolucionário ou apenas teria aprendido algumas idéias subversivas na escola? Eis uma questão sem uma resposta definitiva.”

Englander, no entanto, faz questão de frisar que não pretendeu escrever um livro político – tampouco uma história sobre a relação entre pai e filho. ”Trata-se de um relato que acontece durante uma fase obscura da Argentina e que, por acaso, trata de dificuldades familiares.”

A passagem pela Argentina, aliás, contribuiu para a veracidade da história narrada por Englander. Lá, ele conheceu o desespero sem-fim das Mães da Praça de Maio, que ainda clamam por notícias de seus filhos desaparecidos. ”Ainda fico chocado com a persistência dessas mulheres, que visitam repartições do governo, que fazem testes de DNA, em busca de seus entes. É quando se observa a que caos uma sociedade pode chegar.”