01/03/2009 - 11:36h Política de impostos é a espinha do projeto

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DO “NEW YORK TIMES”, EM WASHINGTON

A história da economia dos EUA nos últimos 70 anos pode ser dividida a grosso modo em dois períodos: as décadas imediatamente seguintes à Segunda Guerra, quando a desigualdade diminuiu muito, e as últimas três décadas, quando as forças econômicas globais e a política governamental a fizeram aumentar em ritmo vertiginoso. Barack Obama se prepara para iniciar um terceiro período, mais semelhante ao primeiro do que ao segundo.

A agenda começa com os impostos. Nas últimas três décadas, a renda pré-impostos das famílias ricas subiu muito mais que a das demais, enquanto as alíquotas dos setores que mais ganham foram as que mais caíram, segundo o Escritório Orçamentário do Congresso. Como resultado, a renda média pós-imposto do 1% das famílias mais ricas saltou aproximadamente US$ 1 milhão desde 1979 (contada a inflação), chegando a US$ 1,4 milhão. Já a renda média geral subiu apenas um pouco mais que a inflação. Antes de tornar-se o principal assessor econômico de Obama, Lawrence Summers dizia que, com o aumento na desigualdade, era como se cada família que integrava os 80% inferiores do bolo de renda na prática estivesse remetendo anualmente um cheque de US$ 10 mil ao 1% mais rico. O Orçamento de Obama reflete essa percepção. Os especialistas ainda estão estudando os detalhes, mas parece que os vários cortes e créditos tributários voltados à classe média e aos pobres vão aumentar a renda final da família média em cerca de US$ 800.

Enquanto isso, o aumento dos impostos sobre o 1% mais rico provavelmente custará a eles US$ 100 mil por ano. “O código fiscal ficará mais progressista, com índices relativamente altos cobrados dos ricos e relativamente mais baixos da classe média e dos pobres”, disse Roberton Williams, membro sênior do Centro de Política Tributária, em Washington. “Isso é uma inversão da política de Bush.” E, assim como o aumento de taxação sobre os ricos imposto por Franklin Roosevelt se seguiu a um crash da Bolsa, que já tinha deprimido a renda deles, as propostas de Obama, se forem aprovadas, farão o mesmo.

Essa combinação tem o potencial de reverter uma parte importante da tendência de desigualdade das últimas décadas. Mas, para que o país repita o padrão pós-Segunda Guerra, será preciso que a renda da maioria das famílias também suba mais rápido do que tem subido desde a década de 70. Essa hipótese ainda é incerta. Economistas dizem ser pouco provável, nos próximos anos, que a economia americana cresça como nos anos 50 ou 60.

Saúde e educação

Obama pretende elevar a renda da classe média e dos pobres por dois canais principais. O primeiro é reformar a saúde para reduzir o valor gasto com seguro -hoje uma parcela grande a pesar nos salários. O outro canal é a educação. Nas últimas três décadas, os salários de profissionais com formação universitária subiram muito mais que os dos trabalhadores menos instruídos. Obama quer levar os trabalhadores para a primeira categoria, ampliando a assistência financeira federal e simplificando os programas de assistência.

E, nos últimos anos, os EUA perderam a posição como país em que mais adultos jovens se formam na universidade. “Os jovens de famílias de renda baixa e média frequentemente não aspiram a fazer faculdade”, disse o diretor do Escritório de Administração e Orçamento, Peter Orszag. “Eles ouvem falar das “taxas anuais de US$ 40 mil” e acham impossível.”

Tradução de CLARA ALLAIN – FONTE FOLHA SP

20/01/2009 - 11:40h O New Deal e Keynes

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Keynes e Roosevelt

Antonio Delfim Netto – VALOR

http://acertodecontas.blog.br/wp-content/uploads/2008/05/delfim-netto-thumb1.jpgAs discussões sobre os problemas macroeconômicos são intermináveis. Até hoje, quase 80 anos depois do evento, os economistas discutem qual a “causa” (ou as “causas”) da crise de 1930. E há ainda sérias dúvidas sobre as políticas (ou os acidentes!) que a resolveram. Dúvidas completamente ignoradas por quem procura nelas inspiração para a solução da crise atual. Glamorizou-se posteriormente a solução de 1933 como “keynesiana”. O pequeno problema é que Roosevelt sempre teve pavor do “déficit público”. Como governador do Estado de Nova York, em plena crise (na presidência de Hoover), ele aumentou os impostos para dar ênfase à necessidade de manter o equilíbrio orçamentário…

Para se ter uma idéia da magnitude do problema dos anos 30 nos EUA é conveniente observar o gráfico abaixo, onde se registra o nível do PIB real dos EUA a partir de 1929 (suposto = 100) e a taxa anual de inflação.

Roosevelt fez sua campanha eleitoral com duras críticas ao sistema financeiro e produtivo dos EUA apoiado em números dramáticos. No final de 1932 (ano da eleição) a situação era a seguinte:

1) queda acumulada do PIB (1929/32) – 26%; 2) queda acumulada dos preços (1929/32) – 33%; 3) taxa do desemprego (1932) – 25%.

Para a crise atual as mais dramáticas previsões falam de uma queda do PIB entre 2007 (quando começou a crise) e 2009, da ordem de 2% ou 3%. No primeiro ano da grande crise (1930), o PIB americano caiu 9% e no segundo, mais 6,5% (1931), perfazendo uma queda de 16%! O quadriênio de Hoover é conhecido por sua ortodoxia, pelos equívocos da política monetária, pelo seu respeito irracional ao padrão ouro que o obrigou a aumentar a taxa de juros (em plena recessão!) para impedir a fuga do metal e pelo desastre das medidas protecionistas incorporadas à lei Smoot-Hawley. Esta aumentou as tarifas de importação de quase 1.000 produtos. Não há dúvida que ela produziu uma política protecionista mundial e estimulou um pernicioso “nacionalismo” que reduziu, em quase 2/3, o comércio internacional. Isso acabou restringindo as próprias exportações dos EUA agravando ainda mais o seu problema.

Roosevelt entendeu claramente que, diante da quebra de confiança que interrompera o “circuito econômico” e da perspectiva de continuidade da deflação, precisava de medidas dramáticas. Foi isso que o fez decretar um feriado bancário e o controle do movimento de capitais no primeiro dia do governo. Nos seus famosos “100 primeiros dias”, entupiu o Congresso com os projetos que constituíram o “New Deal”, com duas vertentes: reformar o sistema bancário e introduzir o controle governamental sobre a estrutura produtiva. A primeira ele atendeu com Ato Bancário de 1933 (a lei Glass-Steagall) que separou (vejam só!) os bancos de investimentos dos comerciais, criou o seguro de depósitos, o Fomc (Federal Open Market Commitee) e entregou o controle de todo o sistema ao FED. Foi este, em 1986, que voltou a permitir a confusão entre bancos comerciais e de investimento. E terminou como já sabemos…

A intervenção no sistema produtivo concretizou-se no National Industrial Recovery Act (Nira) de Junho de 1933. Ele criou a National Recovery Administration (NRA) e o Agricultural Adjustment Act (AAA). Numa larga medida estes substituíram o “mercado” por um ensaio de Estado “corporatista” que aliou empresários e trabalhadores na eliminação da concorrência e estimulou o aumento simultâneo de salários e preços (inflação para corrigir expectativa deflacionária como se vê no gráfico). Esse “corporatismo” só foi modificado em meados dos anos 80 do século passado. Suspeito que esta espécie de coordenação pelo Estado tenha mais inspirado Keynes do que resultado de seus conselhos. O ponto importante é que a execução dessas medidas foi acompanhada pela efetiva desvalorização do dólar em abril de 1933. Assim, a quieta ação econômica de Hoover foi radicalmente apagada pela agressiva e mediática política de Roosevelt. E isso mudou a expectativa de deflação e iniciou a volta da confiança que fez trabalhar o “circuito econômico”. Até hoje, com sua reconhecida miopia, a direita americana o considera um “traidor de sua classe e introdutor do socialismo nos EUA”.

A prova que há muito pouco keynesianismo no “New Deal” é que o desemprego se manteve em torno de 15% até 1939, às vésperas da 2ª Guerra Mundial. Quando em 1937 houve um aumento da receita (derivado da recuperação do PIB), a política fiscal foi contracionista (superávit). No mesmo ano o aumento dos meios de pagamentos levou o Fed a subir a taxa de juro, aumentando o depósito compulsório dos bancos (também contracionista). Os dois fatos produziram a pequena recessão de 1938 que se vê no gráfico.

Com Keynes ou sem Keynes (deixem-no em paz!), a lição que sobrou é clara: 1º ) foi a agressiva política de Roosevelt que destruiu a expectativa deflacionária, restabeleceu a confiança e colocou para rodar o circuito econômico; 2º ) os investimentos públicos foram importantes, mas não suficientes para eliminar o desemprego que, entre 1936 e 1939, continuou no nível de 15%; e 3º ) o “corporatismo” induzido pela aliança de empresários (que defendem seus lucros) e sindicatos (que defendem o salário de quem está empregado) para reduzir a competição, provavelmente diminuiu a velocidade da recuperação.

Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento. Escreve às terças-feiras.

E-mail contatodelfimnetto@terra.com.br

08/01/2009 - 10:07h A prova do angu

Verissimo – O Globo

verissimo.jpgVidentes antigos procuravam presságios nas vísceras dos pássaros. Os que tentam antever como será o governo Barack Obama estudam a sua escolha de secretários como se fossem tripas, pois seu gabinete tem algo de angu à baiana. Há conservadores, centristas e menos progressistas do que se esperava e sua inspiração principal parece ser o governo Clinton – ou seja, mais um passado testado do que o novo prometido. É difícil deduzir o que vem aí dessa mistura. Uma previsão é que Barack proporá outro New Deal como o do Roosevelt para enfrentar a crise econômica – o que também não deixará de ser um apelo ao passado -, mas nada de dramaticamente muito diferente em outras áreas, como a da política externa. Pelo menos baseada na aparência do angu.

Na questão Israel/palestinos, as opiniões do Barack não divergem da posição da quase totalidade dos políticos americanos, de ajuda incondicional a Israel. Hillary Clinton, sua secretária de Estado, era senadora por Nova York com forte apoio do voto judaico. A única esperança de que a política americana em relação ao Oriente Médio passe a ser mais equilibrada vem de uma declaração que o Barack fez durante a campanha, segundo a qual ser a favor de Israel não significa ser necessariamente a favor do Likud, o partido de extrema direita tão intransigente nas suas pregações e ações quanto os radicais do outro lado. O implícito reconhecimento que a política expansionista e do revide desproporcional é de uma corrente política não favorece a segurança de Israel e, portanto, não merece apoio incondicional, é um vislumbre de mudança. Se o Barack não estava apenas fazendo uma frase.

A mistura de conveniência política com ódios irracionais é o que tem de mais repugnante na crise crônica do Oriente Médio. Toda essa gente morrendo para que o Hamas pareça mais duro do que as outras facções palestinas contra Israel e o governo israelense pareça duro o suficiente para derrotar o ainda mais duro Bibi Netanyahu nas eleições de fevereiro. As ambições sectárias de lado a lado medidas em crianças mortas. Se você pode entender a reação de Israel diante do terror palestino, e para isso basta se imaginar vivendo entre vizinhos que simplesmente negam a sua existência, também não pode deixar de lamentar que a retribuição de Israel seja o terror no mesmo nível. Nenhuma corrente ou facção tem o direito de fazer isso com a reputação de um povo com o passado e o acervo moral do povo judeu. No Oriente Médio se tem o triste espetáculo de uma nação sacrificando sua história para garantir sua geografia.

O que o governo Barack Obama fará a respeito de tudo isso? Bom, isso será a prova do angu.

27/12/2008 - 15:21h Roosevelt mostra caminho a Obama

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PAUL KRUGMAN DO “NEW YORK TIMES” – FOLHA SP

krugman_paul.jpgOS TEMPOS mudaram.

Em 1996, o presidente Bill Clinton, sob ataque da direita, declarou que “a era do governo grande acabou”.

Mas o presidente eleito Barack Obama, propelido por uma onda de repulsa àquilo que o conservadorismo causou, diz que deseja “fazer do governo uma vez mais algo de positivo”.

Antes que Obama possa tornar o governo positivo, porém, ele terá de torná-lo bom. De fato, ele terá de ser um goo-goo.
“Goo-goo”, se vocês não sabem o que quer dizer o termo, é uma expressão secular que designa os proponentes de um bom governo (”good government”), reformistas que combatiam a corrupção e o compadrio. O presidente Franklin Roosevelt foi um dos grandes goo-goo, e tornou o governo a um só tempo muito maior e muito mais limpo. Obama terá de fazer a mesma coisa.

Seria desnecessário dizer que o governo Bush representa um exemplo extremo de “anti-goo-goo”. Mas os adeptos de Bush jamais tiveram de se preocupar com governar bem e de maneira honesta. Mesmo que fracassassem em seus postos (como o fizeram tantas vezes), podiam alegar os fracassos mesmos como confirmação da validade de sua ideologia de antagonismo à idéia de governo, e como demonstração de que o setor público não é capaz de fazer coisa alguma direito.

O governo Obama por outro lado, se verá em posição semelhante à que o “New Deal” enfrentava nos anos 1930.

Como no caso do New Deal, a administração que está chegando terá de expandir vigorosamente o papel do governo no resgate à economia debilitada.

Mas também como na era do “New Deal”, a equipe de Obama enfrenta oponentes políticos que aproveitarão quaisquer sinais de corrupção ou abuso, ou os inventarão, se necessário, para tentar desacreditar o programa da nova administração.

Roosevelt conseguiu navegar em segurança por essas águas políticas traiçoeiras e melhorou fortemente a reputação do governo enquanto o expandia imensamente. Como define um recente estudo do Serviço Nacional de Pesquisa Econômica, “antes de 1932, a administração da assistência pública era vista por todos como politicamente corrupta”, e os imensos programas de assistência do New Deal “ofereciam uma oportunidade de corrupção única na história do país”. No entanto, “por volta de 1940 as acusações de corrupção e manipulação política haviam diminuído consideravelmente”.

Como Roosevelt conseguiu expandir o governo e mantê-lo limpo?

Uma grande parte da resposta está na fiscalização incorporada desde o início aos programas do New Deal. A Administração de Progresso de Obras (WPA), em particular, tinha uma poderosa divisão independente de “investigação de progresso”, cuja função era investigar queixas de fraude. A divisão era tão diligente que, em 1940, quando um subcomitê do Congresso estudou a Administração de Progresso de Obras, não conseguiu encontrar nem ao menos uma irregularidade séria que a divisão não tivesse detectado.

Roosevelt também garantiu que o Congresso não enxertasse medidas politiqueiras nos projetos de lei de estímulo; não havia verbas reservadas a fins políticos nas leis que criaram a WPA e nas demais medidas de emergência.

Por fim, mas não menos importante, Roosevelt criou um elo emocional com os americanos da classe trabalhadora, que ajudou a sustentar seu governo em meio aos revezes e fracassos em seus esforços para resolver os problemas econômicos.

Que lições a equipe de Obama tem a extrair disso?

Primeiro, a administração do plano de recuperação econômica precisa ser muito limpa.

Considerações puramente econômicas poderiam sugerir certos expedientes sorrateiros com o objetivo de promover uma adoção rápida das medidas de estímulo, mas o aspecto político da situação requer grande cuidado para determinar como o dinheiro poderá ser gasto. A fiscalização é crucial: os inspetores gerais terão de ser fortes e independentes, e os responsáveis por denúncias terão de ser premiados, e não punidos como o foram nos anos Bush.

Segundo, o plano tem de estar completamente livre de gastos motivados por considerações políticas. O vice-presidente eleito Joseph Biden recentemente prometeu que o plano “não se tornará uma árvore de Natal” -o novo governo terá de cumprir essa promessa.

Por fim, a administração Obama e os democratas em geral precisam fazer tudo o que puderem para promover a formação de um elo com o público semelhante àquele de que Roosevelt desfrutava. Pouco importam os resultados favoráveis de Obama nas pesquisas atuais, baseados na esperança de sucesso. Ele necessitará de uma base forte de apoio que continue ao seu lado mesmo quando as coisas não estiverem indo tão bem.

E preciso dizer que os democratas começaram mal quanto a isso. A tentativa de coroar Caroline Kennedy como senadora parece confirmar 40 anos de propaganda conservadora de denúncia às “elites liberais”. E tenho certeza de que não fui a última pessoa a fazer careta ante as reportagens sobre a casa de luxo que os Obama alugaram para férias na praia. Não porque haja algo de errado em a família do presidente eleito tirar férias agradáveis, mas por que o simbolismo importa, e aquelas não eram as imagens que deveríamos estar contemplando em um momento no qual milhões de norte-americanos estão aterrorizados quanto às suas finanças.

Está bem, a história mal começou. Mas é exatamente esse o ponto. Reparar os problemas econômicos requererá tempo, e a equipe de Obama precisa começar a pensar já, enquanto as esperanças ainda são fortes, sobre como acumular e preservar capital político suficiente para realizar o trabalho até o fim.

Tradução de PAULO MIGLIACCI

23/12/2008 - 10:36h A vida sem bolhas

Paul Krugman * – O Estado SP

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Faça a nova administração o que fizer, durante meses, um ano até talvez, um inferno econômico nos espera. Depois disso, as coisas devem melhorar à medida que o plano econômico do presidente Obama – ok, me disseram que o termo politicamente correto é agora “plano de recuperação econômica” – começar a ganhar tração. No fim do próximo ano, a economia deve começar a se estabilizar, e estou bastante otimista com 2010.

Mas, o que virá depois? Neste momento, todos estão falando em, por exemplo, dois anos de estímulo econômico – o que faz sentido como um horizonte de planejamento. Boa parte dos comentários econômicos que tenho lido supõe, contudo, que isso será realmente tudo que precisaremos – que tão logo o surto de gastos deficitários reverter a situação econômica, poderemos voltar rapidamente aos negócios como sempre.

A verdade, porém, é que as coisas não poderão simplesmente voltar ao que eram antes da crise. E eu espero que o pessoal de Obama compreenda isso. A prosperidade de anos atrás, tal como era – os lucros eram fabulosos, os salários nem tanto -, dependia de uma bolha imobiliária enorme, que substituiu uma bolha enorme anterior nas ações. E, como a bolha imobiliária não voltará, os gastos que sustentaram a economia também não voltarão.

Para ser mais específico: a recessão imobiliária severa que estamos vendo acabará terminando, mas o imenso boom imobiliário da era Bush não se repetirá. Os consumidores terminarão recuperando parte de sua confiança, mas não gastarão como fizeram no período 2005-2007 , quando muitas pessoas usavam suas casas como caixas eletrônicos, e a taxa de poupança caiu para quase zero.

Então, o que sustentará a economia se consumidores cautelosos e proprietários de imóveis desanimados não estiverem à altura?

Alguns meses atrás, uma manchete no jornal satírico The Onion, de Nova York, na mosca como sempre, ofereceu uma resposta possível: “Nação abalada pela recessão pede nova bolha para investir”. Alguma novidade poderá surgir com a demanda privada de combustíveis, gerando talvez um boom no investimento industrial. Mas esse boom teria de ser enorme, elevando o investimento industrial a uma porcentagem sem precedente do PIB, para tapar o buraco deixado pela retração dos consumidores e do setor imobiliário. Embora isso possa acontecer, não parece algo com que se deva contar.

Um caminho mais plausível para uma recuperação sustentada seria uma redução drástica do déficit comercial americano, que cresceu no mesmo ritmo da bolha imobiliária. Ao vender mais a outros países e gastar mais de nossa renda em bens fabricados nos EUA, poderíamos alcançar o pleno emprego sem um boom nos gastos de consumo ou de investimento.

Mas provavelmente levará muito tempo para o déficit comercial cair o suficiente para compensar o estouro da bolha imobiliária. Uma razão é que o crescimento das exportações, após vários anos bons, estagnou, em parte porque investidores internacionais nervosos, correndo para ativos que ainda consideram seguros, provocaram um aumento do valor do dólar ante outras moedas – tornando a produção americana menos competitiva.

Ademais, mesmo que o dólar torne a cair, de onde virá a capacidade para um aumento das exportações e da competição com importações? Apesar do crescimento do comércio de serviços, a maior parte do comércio mundial ainda é de bens, especialmente manufaturados – e o setor manufatureiro americano, após anos de negligência em benefício dos setores imobiliário e financeiro, está defasado.

Seja como for, o resto do mundo poderá não estar pronto para lidar com um déficit comercial americano drasticamente menor. Como assinalou meu colega Thomas Friedman, boa parte da economia da China, em particular, foi construída em torno da exportação aos EUA, e terá muita dificuldade de mudar de rumo. Em suma, chegar ao ponto em que nossa economia possa prosperar sem amparo fiscal poderá ser um processo árduo e prolongado. E, como eu disse, espero que a equipe de Obama compreenda.

Neste momento, com a economia em queda livre e todos aterrorizados com a Grande Depressão 2.0, os adversários de uma forte resposta federal estão encontrando dificuldade para angariar apoio. John Boehner, o líder republicano na Câmara, ficou reduzido a usar seu website para procurar “economistas americanos credenciados” dispostos a incluir seu nome numa lista de “céticos com gastos de estímulo”.

Mas tão logo a economia tenha se recuperado um pouco, haverá muita pressão para a nova administração recuar. E, se a administração ceder cedo demais, o resultado poderá ser uma repetição do erro que Franklin Roosevelt cometeu em 1937 – o ano em que ele cortou gastos, elevou impostos e ajudou a afundar os EUA numa recessão grave.

*Paul Krugman é articulista

07/12/2008 - 15:11h O GASTO DE HOJE PREJUDICARÁ A ECONOMIA DE AMANHÃ?

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por Paul Krugman* – Zero Hora

krugman_paul.jpgNeste momento, há um intenso debate sobre quão agressivo deve ser o governo dos Estados Unidos na tentativa de recuperar a economia. Muitos economistas, inclusive eu, estão clamando por uma grande expansão fiscal para evitar que a economia siga em queda livre. Outros, no entanto, preocupam-se com o fardo que o enorme déficit orçamentário irá colocar sobre as futuras gerações.

Mas as preocupações com o déficit estão totalmente equivocadas. Sob as condições atuais, não há conflito entre o que é bom no curto prazo e o que é bom no longo prazo; uma forte expansão fiscal pode, na verdade, melhorar as perspectivas de longo prazo da economia.

A alegação de que os déficits orçamentários enfraquecem a economia a longo prazo é baseada na crença de que o financiamento governamental desloca o investimento privado – o governo, ao emitir muita dívida, eleva rapidamente a taxa de juro, deixando as empresas pouco dispostas a investir em novas plantas e equipamentos, e isso, por sua vez, reduz a taxa de crescimento da economia a longo prazo. Sob circunstâncias normais, esse argumento faz muito sentido.

Mas as atuais circunstâncias estão muito além da normalidade. Imagine o que poderia ocorrer no próximo ano se a administração Obama capitulasse frente aos falcões do déficit e encolhesse seus planos fiscais. Isso levaria a taxas de juro mais baixas? Certamente, não conduziria à redução das taxas de juro de curto prazo, que são mais ou menos controladas pelo Federal Reserve. O Fed já está mantendo essas taxas o mais baixas possível – virtualmente, em zero – e não mudará essa política a menos que veja sinais de que a economia está ameaçada de superaquecimento. E essa não parece ser uma perspectiva realista em breve.

E sobre o juro de longo prazo? Essas taxas, já no nível mais baixo em meio século, refletem principalmente taxas futuras de curto prazo. Austeridade fiscal pode empurrá-las ainda mais para baixo – mas somente criando expectativas de que a economia poderia se manter profundamente deprimida por um longo tempo, o que iria reduzir, não elevar, o investimento privado.

A idéia de que apertar a política fiscal quando a economia está deprimida na verdade leva à redução do investimento privado não é apenas um argumento hipotético: é exatamente o que ocorreu em dois importantes episódios da história. O primeiro ocorreu em 1937, quando Franklin Roosevelt equivocadamente deu ouvidos aos preocupados com déficit de sua própria era. Ele reduziu de forma acentuada o gasto do governo, entre outras coisas cortando o Works Progress Administration (agência criada em 1935 para gerar empregos e sair da Grande Depressão) pela metade, e ainda elevando impostos. O resultado foi uma severa recessão, e uma queda abrupta no investimento privado. O segundo episódio teve lugar 60 anos depois, no Japão. Em 1996-97, o governo japonês tentou equilibrar seu orçamento cortando gastos e elevando impostos. E outra vez a recessão que se seguiu conduziu a uma queda drástica no investimento privado.

Apenas para ser claro, não estou afirmando que a tentativa de reduzir déficits orçamentários sempre é ruim para o investimento privado. Você pode se basear no caso da restrição fiscal de Bill Clinton nos anos 90, que ajudou a abastecer o maior boom de investimentos dos EUA da década, o que por sua vez ajudou a provocar uma recuperação no crescimento da produtividade.

O que torna a austeridade fiscal tão má idéia, tanto nos EUA de Rooselvet quanto no Japão dos anos 90, foram circunstâncias especiais: nos dois casos, o governo recuou frente a uma armadilha de liquidez, uma situação na qual a autoridade monetária cortou taxas de juro tão rápido como possível, e a economia ainda continuou a funcionar bem abaixo de sua capacidade. E nós estamos no mesmo tipo de armadilha hoje – motivo pelo qual preocupações com déficit estão deslocadas.

Mais uma coisa: expansão fiscal será ainda melhor para o futuro dos EUA se uma grande parte dessa expansão tomar a forma de investimento público – construção de estradas, reforma de pontes e desenvolvimento de novas tecnologias, iniciativas que tornam a nação mais rica no longo prazo.

O governo deve ter uma política permanente de grandes déficits orçamentários? Claro que não. Embora a dívida pública não seja tão ruim como a maioria das pessoas acredita – é basicamente dinheiro que nós devemos a nós mesmos –, no longo prazo o governo, como os indivíduos, tem de equilibrar o gasto e a receita.

Mas neste momento temos um rombo no gasto privado: os consumidores estão redescobrindo as virtudes de poupar no mesmo momento em que as empresas, escaldadas por excessos passados e limitadas pelos problemas no sistema financeiro, estão cortando investimento. Com o tempo, essa lacuna poderá fechar, mas até que isso ocorra o gasto do governo terá de ser feito da forma mais eficiente possível. Caso contrário, o investimento privado e a economia como um todo irão despencar ainda mais.

A questão essencial, então, é que as pessoas que consideram a expansão fiscal de hoje ruim para as futuras gerações entenderam tudo errado. O melhor plano de ação, tanto para os trabalhadores de hoje quanto para seus filhos, é fazer o que for necessário para conduzir a economia no rumo da recuperação.

Paul Krugman – New York Times News Service

- Professor de Economia e Assuntos Internacionais da Universidade de Princeton e colunista do The New York Times, Paul Krugman passa a integrar o time de colunistas do Dinheiro por meio do New York News Service.

Formado na Universidade de Yale em 1974, foi integrante do Conselho de Assessores Econômicos da Casa Branca do ex-presidente Ronald Reagan e assessor do Banco Mundial, do Fundo Monetário Internacional (FMI), da Comissão Trilateral e da Organização das Nações Unidas (ONU). Ganhador do Prêmio Nobel de Economia deste ano por ter formulado uma nova teoria sobre o comércio, Krugman é conhecido mundialmente por suas duras críticas ao presidente norte-americano, George W. Bush. Por exemplo, atacou o engajamento na guerra do Iraque e, recentemente, o modo como Bush administrou o resgate do sistema financeiro. Para o colunista, a atual crise é a maior já vivida pelos Estados Unidos desde o crash de 1929.

07/12/2008 - 14:06h Roosevelt é exemplo para eleito

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William E. Leuchtenburg*, The New York Times – O Estado SP

Na noite da eleição de 8 de novembro de 1932, Herbert Hoover, na companhia de amigos em sua casa no campus da Universidade de Stanford, acompanhava as apurações que traziam um veredicto sobre uma presidência iniciada com tanta esperança em março de 1929.

A campanha havia sido brutal. Detroit tivera de mobilizar a polícia para proteger o presidente da fúria de trabalhadores desempregados do setor automotivo entoando “Enforquem Hoover!” “Tenho viajado com presidentes desde a época de Theodore Roosevelt e nunca vi um deles ser vaiado por homens que lotaram as ruas para hostilizá-lo”, disse um agente.

As apurações na noite da eleição superaram os piores temores de Hoover. O presidente levou a maior surra de todos os tempos na história do Partido Republicano e seu adversário, Franklin D. Roosevelt, tornou-se o primeiro democrata a entrar na Casa Branca com a maioria do voto popular desde Franklin Pierce, 80 anos antes.

Duas características tornaram essa derrota particularmente amarga. Uma foi que Hoover sabia que o resultado foi mais uma rejeição ao presidente do que uma expressão de aprovação do desafiante. A outra foi que, apesar de ser um pária, ele deveria servir por mais quatro meses – até 4 de março de 1933. A 20ª Emenda, mudando a posse para janeiro, só entraria em vigor em 1937. Ele estava fadado a ser o último presidente “lame-duck” (sem poder no fim de mandato) da velha ordem.

Hoover resolveu aproveitar esse período para salvar sua presidência. Mal os votos foram contados, Hoover convidou o governador Roosevelt para conversar com ele. A abertura deu toda a aparência de uma oferta excepcionalmente generosa para compartilhar o poder com o homem que o havia vencido. Mas, na verdade, era o primeiro passo de um esquema para desfazer os resultados da eleição. Hoover agiu, como escreveu posteriormente o historiador Frank Freidel, “como se sentisse que era seu dever salvar a nação, aliás o mundo, da loucura dos eleitores americanos”.

Em 22 de novembro, Hoover recebeu Roosevelt na Casa Branca. Durante toda a reunião, Hoover tratou seu sucessor como se ele fosse um garoto estúpido que precisasse exercitar verbos intransitivos. Ele tentou forçar o presidente eleito a endossar as políticas interna e externa de seu governo.

Ciente das intenções de Hoover, Roosevelt sorriu, fez que sim, mas não fez nenhum acordo. Um Hoover frustrado mais tarde prometeu: “Eu ainda não acabei com Roosevelt.” Hoover voltou ao ataque em fevereiro. Ele enviou ao presidente eleito uma carta intimidatória de dez páginas na qual errava a grafia do nome Roosevelt.

Por causa da fuga de ouro e da corrida aos bancos, Hoover escreveu que havia “uma firme degradação da confiança no futuro”. Suas políticas sábias, ele afirmou, haviam trazido uma recuperação no verão de 1932. Mas, desde então, disse ele, houve um acentuado declínio, pois o país ficara inseguro com a eleição de Roosevelt, temendo que o novo presidente embarcasse em experiências radicais. Hoover concluiu pedindo para Roosevelt restaurar a confiança declarando publicamente que não haveria “nenhuma interferência” na moeda e “o orçamento seria inquestionavelmente equilibrado, mesmo que fosse preciso aumentar a tributação”.

Três dias depois de escrever essa carta, Hoover disse a um senador arquiconservador que “se essas declarações forem feitas pelo presidente eleito, ele terá ratificado todo o principal programa do governo republicano, isto é, o abandono de 90% do chamado New Deal”.

Para outro senador, Hoover deixou claro que pedira a seu sucessor que renunciasse à ajuda aos donos de imóveis residenciais sobrecarregados pelas hipotecas, aos projetos de obras públicas e ao programa de desenvolvimento econômico do Tennessee, particularmente afetado pela depressão. Ele também queria que Roosevelt erguesse barreiras tarifárias e impusesse um imposto nacional sobre as vendas. Roosevelt, que considerara a carta “impertinente”, deixou passar alguns dias, mentindo que sua resposta havia sido extraviada.

Ele não se deixaria ser relacionado com um governo moribundo e impopular, e rejeitou fazer qualquer declaração. Ele não permitiria que Hoover lhe roubasse os louros da vitória. Em 4 de março, Roosevelt anunciou à nação um novo começo.

Barack Obama devia considerar a seqüência dos acontecimentos Hoover-Roosevelt em sua caminhada pelos campos minados do período entre agora e 20 de janeiro. Diferentemente de Roosevelt, que ficou quase invisível nos meses antes de sua posse, Obama tomou uma iniciativa na semana passada. Esse curso contribuirá para uma transição suave. Mas o presidente eleito também deveria seguir o exemplo de Roosevelt, evitando uma colaboração com um governo de saída e desacreditado, sob pena de ficar enredado em acordos políticos antes de ser investido no cargo.

*William E. Leuchtenburg é autor de uma biografia de Herbert Hoover a ser publicada

24/11/2008 - 14:46h André Kaspi : “Le New Deal de Roosevelt a vu se succéder des mesures contradictoires”

André Kaspi, professeur d’histoire, publie une édition revue de Comprendre les Etats-Unis d’aujourd’hui (Perrin).

1998 : Il enseigne à l’université Paris-I, où il devient directeur du Centre de recherches d’histoire nord-américaine (CRHNA), jusqu’en 2006.

1988 : Il publie une biographie de Franklin Roosevelt, aux Editions Fayard.

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Le New Deal lancé par le président Franklin D. Roosevelt est considéré comme le père des plans de relance keynésiens. Est-ce justifié?

En réalité, il n’y a pas eu un New Deal, mais plusieurs. En 1932, Roosevelt affiche pour objectif électoral la réduction du déficit budgétaire. Mais entre son élection, en novembre, et sa prise de fonction, en mars 1933, la situation économique s’est fortement détériorée – c’est pourquoi la durée de l’interrègne fut par la suite réduite, de novembre à janvier ! Les banques étaient fermées, le taux de chômage atteignait 25 % et touchait 12 à 13 millions de travailleurs, qui ne bénéficiaient de quasiment aucune assistance. Roosevelt change alors complètement son fusil d’épaule et décide d’abord de combattre la crise économique, par une série de mesures finalement très contradictoires. Dans l’espoir de faire remonter les prix, on limite la production agricole en brûlant les récoltes ou en abattant des milliers de têtes de bétail ; les entreprises industrielles sont aussi incitées à réduire leur production. Cela n’a rien de keynésien ! Parallèlement, le dollar est dévalué de 40 % entre 1933 et 1934 pour rétablir les termes de l’échange. La planche à billets fonctionne à plein pour remettre en route la circulation monétaire, rouvrir les banques et rétablir la confiance.

Enfin, seule véritable mesure de relance, le gouvernement crée un programme de grands travaux pour donner aux chômeurs des emplois financés par l’Etat fédéral.


Cette politique réussit-elle ?

Non, elle échoue. L’activité ne repart pas, le chômage diminue à peine. Roosevelt change à nouveau de politique, en privilégiant cette fois le traitement social de la crise. C’est la création de la Civil Works Administration puis de la Works Progress Administration, qui financent sur fonds fédéraux des activités d’utilité publique, pas forcément dans le secteur productif. On paie ainsi des artistes peintres pour réaliser des fresques sur les murs de tous les bureaux de poste d’Amérique. Roosevelt crée également en 1935 une assurance- chômage et une assurance-retraite, uniquement pour les employés de l’Etat. Le déficit fédéral, de 20,9 milliards de dollars en 1933, passe à 33 milliards en 1936 et 43 milliards en 1938. Mais, en 1939, le pays compte toujours 9 millions de chômeurs ; il faudra attendre 1941 pour retrouver le plein emploi, avec la mobilisation progressive de 15 millions d’hommes à partir de septembre 1940, et le redémarrage de l’industrie pour les besoins d’abord de l’allié britannique, puis de l’armée américaine. Mais le déficit atteint 258 milliards en 1945.

Aujourd’hui, alors que les démocrates poussent à un nouveau plan de relance, les économistes américains polémiquent sur la réussite ou l’échec du New Deal. Ce débat est-il nouveau ?

Non, il était déjà présent à l’époque. Les républicains ont toujours accusé les démocrates d’avoir poussé trop loin l’intervention de l’Etat, contraire aux “valeurs américaines”, tandis que les démocrates affirmaient que cette intervention était nécessaire, même en temps de paix. En fait, Roosevelt n’était ni un intellectuel ni un dogmatique, mais un pragmatique. Le cercle de ses conseillers était hétérogène : il appliquait les mesures préconisées par les uns et, s’il voyait que ça ne marchait pas, il appliquait celles proposées par les autres. C’est pourquoi le New Deal apparaît comme une succession de demi-échecs, et donc de demi-succès.

Propos recueillis par Antoine Reverchon – Le Monde