09/10/2009 - 08:38h Brasil é o que mais subiu em ranking de finanças globais

País supera Estados Unidos e Reino Unido em classificação de estabilidade do sistema financeiro

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Gustavo Chacra, CORRESPONDENTE NOVA YORK – O Estado SP

A economia brasileira foi a que mais evoluiu no ranking de desenvolvimento financeiro elaborado pelo World Economic Forum (WEF), que teve como principal responsável o professor da Universidade de Nova York Nouriel Roubini, considerado o guru da atual crise global, pelo acerto em suas previsões.

Na apresentação do relatório ontem em Nova York, Roubini e demais economistas da entidade destacaram o exemplo positivo do Brasil como sinal de que os emergentes ganham força nas finanças mundiais. Já os americanos e as economias desenvolvidas teriam sido os principais perdedores na crise. Em outra classificação da entidade, que mede a estabilidade do sistema financeiro, o Brasil supera os EUA e o Reino Unido.

Subindo seis posições no ranking de desenvolvimento financeiro, o Brasil ocupa a 34ª posição e tem 3,46 pontos numa escala estabelecida pelo WEF. O Reino Unido, em primeiro lugar, tem 5,28. Já a Venezuela, em último, 2,52. De 55 economias pesquisadas, a brasileira conquistou mais pontos: 0,18.

Com algumas poucas exceções, como a Austrália, os países desenvolvidos apresentaram fortes quedas no índice. Os EUA, que deixaram o topo da lista para ocupar o terceiro lugar, apresentou acentuada redução de 0,73 pontos. A medição leva em conta 120 variáveis, atribuindo pesos ao ambiente de negócios e institucional, estabilidade financeira e a dimensão do mercado de capitais.

“Os países em desenvolvimento exibiram bom resultado no pilar de estabilidade financeira do índice. Esse resultado se deve ao aprendizado em erros de crises do passado, apesar de, para alguns, isso se dever à relativa falta de complexidade e de integração global de seus sistemas financeiros”, disse Roubini.

O Brasil, apesar da evolução no ranking geral de desenvolvimento financeiro e da excelente classificação no ranking de estabilidade financeira, obteve desempenho fraco em outros “pilares”. O ambiente institucional brasileiro está apenas na 42ª colocação. Na área de ambiente de negócios, o Brasil se situa em posição ainda pior – 47ª -, atrás de países como o Egito, a Argentina e a Colômbia. No acesso a serviços financeiros não bancários, o Brasil ocupa o 15º lugar, enquanto na área bancária está na 34ª. O estudo aconselha o governo brasileiro a melhorar também nas áreas legal e regulatória, e também ressalta o desrespeito a contratos no País.

Os Estados Unidos – país que mais pontos perdeu no ranking deste ano ante o do ano passado – enfrentam problemas na área de estabilidade financeira, ocupando uma medíocre 38ª colocação. O país apenas se mantém na terceira colocação porque apresenta desempenho positivo nos outros setores, especialmente o de intermediação financeira.

12/03/2009 - 09:05h Brasil é “vítima acidental” da crise global, diz Roubini

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Economista defende maior intervenção dos governos para combater a crise

Para ele, Brasil está em melhores condições na crise, deve elevar gasto público e ao mesmo tempo se comprometer com reformas

SÉRGIO MALBERGIER – FOLHA SP

EDITOR DE DINHEIRO

O Brasil é uma “vítima acidental” da crise econômica global, que ainda vai piorar, evoluindo para uma “recessão global severa”. A opinião é do economista mais badalado destes tempos econômicos sombrios, o turco-americano Nouriel Roubini, em São Paulo para disputadas palestras.
“O Brasil está em condições muito melhores hoje”, pondera Roubini, que ganhou a alcunha de “Mr. Doom” (Sr. Apocalipse) por causa das previsões catastrofistas que vem fazendo, com precisão muito acima da média nesta era de incertezas.

Em evento ontem em São Paulo do BTG, a nova empresa de investimentos de André Esteves e Persio Arida, ele disse que o Brasil deve ter neste ano um crescimento próximo de zero ou, mais provavelmente, “ligeiramente negativo”.

Embora ressalte que a situação brasileira é menos desconfortável que a de vizinhos como Venezuela e Argentina e que ainda existe “bastante espaço” para corte de juros por aqui, diz que o país enfrenta “problemas [externos] sobre os quais não tem controle”. E adverte que o governo brasileiro, com os problemas históricos do país, não deveria apenas elevar seus gastos para combater a crise, mas ao mesmo tempo se comprometer com “reformas estruturais” para reduzir a burocracia, o custo da mão-de-obra e o peso dos impostos sobre a atividade econômica, além de melhorar a infraestrutura física.

Roubini defende mais gastos estatais contra a crise, “a única demanda que cresce hoje no mundo”, mas lamenta o fato de que as ações oficiais estejam sempre “atrás da curva”, apenas reagindo aos problemas. Isso, para ele, será insuficiente para tirar as economias do caminho da catástrofe. “É preciso agir antes”, afirma.

Roubini acha ainda tímido o pacote fiscal do governo americano, já superando US$ 800 bilhões, pois só cerca de US$ 200 bilhões serão gastos no curto prazo. E mais tímido ainda o da Europa, criticando a resistência de sua maior economia, a Alemanha, em elevar gastos.

Ele critica também o socorro aos bancos na forma atual e diz que talvez, “infelizmente, sejam necessárias estatizações temporárias”. Rechaça que a maior economia do planeta seja a única culpada pela crise e aponta para Reino Unido, Austrália, Espanha, Irlanda, países bálticos, Cingapura e outros como responsáveis por bolhas financeiras e/ou habitacionais, na raiz dos problemas globais.

Diz ainda que há países hoje em situação pior que os EUA, citando Japão, Alemanha, Coreia do Sul, o sul e o leste da Europa. E que a China está rodando com crescimento zero ou mesmo negativo na comparação de trimestre contra trimestre anterior. “Antes se dizia que, quando os EUA espirravam, o mundo pegava gripe. Os EUA estão com pneumonia.”

Ele acredita que, se os governos não atuarem com mais eficiência contra o “ciclo vicioso” da economia, coisas muito piores podem acontecer, como uma deflação global após “gasto excessivo na expansão da produção, que agora encontra a contração da demanda”.
Resumindo seu receituário, Roubini recomenda mais gasto fiscal, ação mais agressiva no resgate aos bancos e dobrar os recursos do FMI para socorrer países emergentes.

“Ainda é possível evitar o pior”, diz, com otimismo inesperado diante de sua fama. “Se fizermos tudo certo, teremos uma recuperação lenta no ano que vem”, prevê Roubini. “Se não, depressão global”, conclui, voltando ao estilo apocalíptico.

15/02/2009 - 09:46h Agora, todos nós somos suecos

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Matthew Richardson Nouriel Roubini *, The Washington Post – O Estado SP

O sistema bancário dos Estados Unidos está à beira da insolvência e, se não quisermos ficar como o Japão nos anos 90 ou os Estados Unidos nos anos 30, o único meio de salvar os bancos é a estatização.

Como economistas defensores do livre mercado, professores de uma escola de administração no coração da capital financeira do mundo, sentimo-nos como se dizendo uma blasfêmia quando propomos que o governo assuma totalmente o controle do sistema bancário. Mas o sistema financeiro dos Estados Unidos chegou a um ponto tão crítico que não há muita escolha. E, embora o recente plano do secretário do Tesouro, Timothy Geithner, para salvar os bancos contenha muitos elementos corretos, basicamente ele chega tarde demais.

A enrascada dos empréstimos hipotecários subprime sozinha não nos forçaria a tomar essa atitude. A soma de US$ 1,2 trilhão envolvida foi apenas o início do problema. Os outros US$ 7 trilhões – que incluem empréstimos para imóveis comerciais, dívidas com cartão de crédito, empréstimos alavancados e títulos de alto rendimento – correm o risco de perder grande parte do seu valor. E ainda existem mais alguns trilhões de dólares em títulos corporativos com classificação AAA ou AA e empréstimos e hipotecas “jumbo”com pagamento garantido cujo valor também vai despencar, à medida que a recessão se aprofunda e mais empresas e famílias deixam de pagar seus empréstimos e hipotecas.

No ano passado, nossa previsão era de que os prejuízos a serem contabilizados pelas instituições financeiras dos Estados Unidos chegariam a US$ 1 trilhão, subindo possivelmente para US$ 2 trilhões. Fomos acusados de exagero. Mas a partir daí as baixas contábeis pelos bancos ultrapassaram a marca de US$ 1 trilhão.

Agora, instituições como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e Goldman Sachs estão prevendo prejuízos de mais de US$ 2 trilhões.

Mas, se você acha que US$ 2 trilhões é uma soma muito grande, analise os nossos cálculos mais recentes no RGE Monitor, website financeiro que dirigimos: essas estimativas sugerem que o total de perdas sobre empréstimos feitos por bancos nos Estados Unidos, mais a queda do valor de mercado dos ativos mantidos por esses bancos chegará a US$ 3,6 trilhões. O setor bancário americano está exposto à metade desse valor: US$ 1,8 trilhão. Mesmo com os fundos recebidos do primeiro pacote de ajuda federal, no ano passado, o capital aplicado para respaldar os ativos dos bancos foi de apenas US$ 1,4 trilhão, deixando o sistema bancário americano com um rombo de US$ 400 bilhões.

Dois importantes elementos do plano de Geithner são: 1) “aplicar o teste de stress” aos bancos para separar as instituições viáveis daquelas próximas da bancarrota; 2) criar um fundo de investimento com dinheiro público e privado para compra de ativos podres. São medidas necessárias para se ter um setor financeiro próspero.

Mas, infelizmente, o plano não vai solucionar nossas dificuldades financeiras porque ele subentende que o sistema está solvente. Se executado de modo justo para os contribuintes (ou seja, fim dos “agrados” na forma de títulos abaixo do preço, ações preferenciais, garantias de empréstimo ou seguros sobre ativos), só vai confirmar o quão péssimas as coisas estão.

A estatização é a única opção que nos permitirá solucionar o problema dos ativos tóxicos de maneira disciplinada e permitirá também, finalmente, a retomada dos empréstimos. Naturalmente, a economia ainda continuará em má situação, mas a espiral da morte em que estamos será interrompida.

A estatização – ou “liquidação judicial”, se isso soar mais aceitável – não será fácil; entretanto, aqui vai uma série de princípios para o governo se pautar. Em primeiro lugar, e este é o ponto mais difícil, determinar quais são os bancos insolventes. O teste de stress de Geithner seria muito útil nesse caso.

O governo deveria começar com os grandes bancos que têm dívidas fora do país, e determinar quais são solventes e quais não são, para evitar o pânico. De outro modo, permitir a falência de um grande banco provocará uma corrida imediata àquela ação, e aos títulos da dívida de longo prazo de outros. Haverá muitas dificuldades, mas as autoridades reguladoras devem manter uma postura firme.

Em segundo lugar, estatizar imediatamente as instituições insolventes. Os investidores em ações serão eliminados, e os detentores de títulos da dívida de longo prazo terão créditos somente depois que os depositantes e outros credores de curto prazo forem reembolsados.

Em terceiro lugar, uma vez que uma instituição passe para o controle do Estado, separar seus ativos em bons e ruins. Os ativos ruins serão avaliados de acordo com os valores atuais (embora reduzidos). Novamente, como no plano de Geithner, o capital privado poderá adquirir uma fração desses ativos ruins. Quanto aos bons, voltariam a ser privados, quer mediante uma IPO (oferta pública inicial), quer por uma venda a um comprador estratégico.

Os ganhos auferidos pelos ativos bons e ruins iriam, em primeiro lugar, para os correntistas, e depois para os detentores de títulos da dívida, com a possível participação do governo para cobrir os custos administrativos. Se os correntistas forem reembolsados, o governo poderá de fato começar a ter lucros.

Em quarto lugar, fundir todos os ativos ruins restantes em um único empreendimento. Os ativos poderão aguardar o vencimento ou serem vendidos com os ganhos e os riscos decorrentes para os contribuintes.

O resultado final seria um sistema financeiro saudável com muitos bancos novos capitalizados com ativos bons. Os bancos insolventes, grandes demais para falir, seriam desmembrados em partes menores, com menos probabilidade de ameaçar o sistema financeiro como um todo.

Também seriam instituídas reformas em matéria de regulamentação, a fim de reduzir as chances de dispendiosas crises futuras.

A estatização dos bancos tem precedentes. Em 1992, o governo sueco assumiu o controle dos bancos insolventes, limpou-os e depois voltou a privatizá-los. Obviamente, o sistema bancário sueco era muito menor do que o americano. Além disso, algumas das atuais instituições americanas são muito maiores e mais complexas, o que dificulta a análise. E os mercados globais de capital permitem que jogar com o sistema seja mais fácil do que em 1992. Mas nós acreditamos que, se for aplicada de maneira correta, a solução sueca funcionará nos EUA.

A agência encarregada de reestruturar os bancos na Suécia não era uma entidade burocrática sem controle: ela delegou todos os detalhes da limpeza aos bancos privados e aos administradores contratados pelo governo. O processo foi surpreendentemente tranquilo.

Basicamente, hoje somos todos “suecos”. Usamos todas as nossas balas, mas o bicho-papão continua se aproximando. Vamos pegar nossa bazuca e acabar com ele.

*Matthew Richardson e Nouriel Roubini são professores da Escola de Administração Stern, na Universidade de Nova York. Ambos trabalharam no livro a ser lançado Restoring Financial Stability: How to Repair a Failed System (Restaurando a estabilidade financeira: como consertar um sistema falido)

11/02/2009 - 10:14h Por que o plano de Obama fracassará

Martin Wolf – Financial Times – VALOR

Será que a presidência de Barack Obama já fracassou? Em tempos normais, esta seria uma pergunta ridícula. Mas estes não são tempos normais. São tempos de grande perigo. Hoje, o novo governo dos Estados Unidos pode repudiar a responsabilidade por sua herança; amanhã, a responsabilidade será sua. Hoje, pode oferecer soluções; amanhã, terão se tornado o problema. Hoje, está sob controle dos eventos; amanhã, os eventos tomarão seu controle. Fazer pouco agora é muito mais arriscado do que fazer em excesso. Se ele falhar em agir de forma decisiva, o presidente corre o risco de ser sobrepujado, assim como seu antecessor. Os custos para os Estados Unidos e o mundo de outra presidência fracassada não podem nem ser contemplados.

O que é preciso? A resposta é: foco e ferocidade. Se Obama não resolver esta crise, tudo o que ele espera de sua presidência estará perdido. Se a resolver, poderá remodelar sua agenda. Esperar pelo melhor é tolice. Ele deveria esperar pelo pior e agir de forma correspondente.

Esperar pelo melhor, no entanto, é que se vê no programa de estímulo e – pelo que pude julgar até agora do anúncio incompleto, de ontem, do secretário do Tesouro, Tim Geithner – nos novos planos para reparar o sistema bancário. Comentei sobre o primeiro na semana passada. Somente acrescentaria que é extraordinário um presidente novo e popular, enfrentando uma crise econômica das que aparecem a cada 80 anos, ter deixado o Congresso modelar o resultado.

O programa bancário parece ser mais um irmão das intervenções fracassadas do último ano e meio. A credibilidade de Obama estará arruinada se esta “prole do programa governamental de recuperação de ativos problemáticos” (Tarp, na sigla em inglês) falhar. Agora é o momento para ações que pareçam estar próximas da certeza de se resolver o problema; estas, contudo, não parecem ser assim.

Desde o começo, sustentaram-se duas visões contrastantes sobre o que aflige o sistema financeiro. A primeira, é que se trata essencialmente de um caso de pânico. A segunda, é que este é um problema de insolvência.

Pela primeira visão, os preços de um conjunto definido de “ativos tóxicos” foram empurrados para baixo de seu valor de longo prazo e, em alguns casos, tornaram-se impossíveis de vender. A solução, segundo muitos sugerem, é que os governos criem um mercado, comprem ativos ou segurem os bancos contra perdas. Esta foi a lógica por trás do Tarp original e do “super-SIV” (veículo de investimento estruturado, em inglês) proposto pelo secretário do Tesouro anterior, Henry (Hank) Paulson, em 2007.

Pela segunda visão, uma proporção considerável das instituições financeiras está insolvente: seus ativos valem, sob suposições plausíveis, menos do que seus passivos. O FMI argumenta que as possíveis perdas apenas com ativos de créditos originados nos EUA agora estão em US$ 2,2 trilhões, acima do US$ 1,4 trilhão estimado em outubro. É algo quase idêntico às estimativas mais recentes do Goldman Sachs. Em comentários recentes no “Financial Times”, Nouriel Roubini, da RGE Monitor, e a Stern School of New York University estimam que o pico das perdas com ativos gerados nos EUA poderia ser de US$ 3,6 trilhões. Felizmente para os EUA, metade dessas perdas recairá no exterior. O resto do mundo, no entanto, contra-atacará: à medida que a economia mundial implodir, as imensas perdas no exterior – em dívidas soberanas, imobiliárias e empresariais – certamente também recairão sobre instituições dos EUA, com efeitos nefastos.

Pessoalmente, tenho poucas dúvidas de que a segunda visão é a correta e, à medida que a economia mundial se deteriora, ficará cada vez mais claro. Mas este não é o cerne da questão. O cerne é se, na presença de tais incertezas, é correto basear a política esperando pelo melhor. A resposta é clara: autoridades de política monetária precisam supor o pior. Caso a opção revele ter sido pessimista demais, acaba-se ficando com um sistema financeiro excessivamente capitalizado. Caso a opção otimista revele-se errada, ficamos com bancos zumbis e um governo desacreditado. Esta opção certamente não requer muito para se pensar.

O novo plano pareceria fazer sentido apenas se o principal problema fosse a iliquidez. Oferecer garantias e comprar uma parte dos ativos tóxicos, enquanto se limita a injeção de novo capital a menos do que os US$ 350 bilhões restantes no Tarp, não é suficiente para lidar com o problema de insolvência identificado pelos observadores mais informados. Na verdade, qualquer programa de garantias ou de compra de ativos tóxicos acaba sendo uma forma sem efeito, pouco eficiente e injusta de resgatar instituições financeiras mal capitalizadas: sem efeito, porque o governo precisa comprar vastos volumes de ativos duvidosos a preços excessivos ou fornecer garantias generosas demais, para fazer com que bancos insolventes fiquem solventes; ineficiente, porque grandes injeções de capital ou a conversão de dívidas em patrimônio são formas melhores de recapitalizar os bancos; e injusta, porque grandes subsídios iriam para instituições falidas e compradores privados de ativos problemáticos.

Então, por que o governo está fazendo o que parece ser um erro crasso? Pode ser que esteja esperando pelo melhor. Mas também parece estar fazendo-se a pergunta errada. Não se perguntou o que precisa ser feito para se ter a certeza de que haverá uma solução. Em vez disso, perguntou-se o que pode fazer de melhor sob três condições, arbitrárias e autoimpostas: nada de estatização; nada de perdas para os detentores de bônus; e nenhum dinheiro a mais do Congresso. Por que o novo governo, confrontado com uma crise gigantesca, não tenta mudar os termos do debate? Essa timidez é deprimente. Tentar compensar este erro impondo condições enganosas sobre as instituições resgatadas tem mais chances de complicar o erro do que reduzi-lo.

Presuma-se que o problema seja a insolvência e que o valor de mercado modesto dos bancos comerciais dos Estados Unidos (US$ 400 bilhões) sustente-se apenas no apoio do governo. Presuma-se, também, que seja impossível levantar grandes volumes de capital privado atualmente. Então, é preciso haver uma recapitalização de uma das duas formas indicadas acima. Ambas têm suas desvantagens: a recapitalização pelo governo é um resgate de credores e envolve a administração temporária pelo governo; as trocas de dívida por patrimônio prejudicariam os mercados de bônus, seguradoras e fundos de pensão. A opção, contudo, é inescapável.

Se Geithner ou Lawrence Summers, diretor do conselho econômico nacional, estivessem assessorando os EUA como o fariam com um país estrangeiro, destacariam isso, de forma brutal. O diretor-gerente do FMI, Dominique Strauss-Kahn, disse o mesmo, de uma forma bem suave, na Malásia, no sábado.

O conselho correto continua sendo o que os EUA deram aos japoneses e outros países durante os anos 90: admitam a realidade, reestruturem os bancos e, acima de tudo, exterminem as instituições zumbis de uma vez por todas. Também é uma questão importante, mas secundária, se a resposta correta seria criar novos “bancos bons”, deixando os “bancos ruins” velhos para perecer, como meu colega Willem Buiter recomenda, ou criar novos “bancos ruins”, deixando os velhos bancos purificados para sobreviver. Também estou inclinado para o primeiro, porque a cultura dos bancos velhos continua a parecer muito tóxica.

Ao perguntar-se a questão equivocada, Obama está fazendo uma grande aposta. Ele deveria ter resolvido limpar os currais augianos dos bancos. Ele precisa reconsiderar, se já não for tarde demais.

Martin Wolf é colunista do “Financial Times”.

11/02/2009 - 09:27h EUA: Stiglitz e Roubini defendem estatização dos bancos

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Para economistas, governo deve assumir controle de bancos falidos

 

Kuala Lumpur – O Estado de São Paulo

 


Embora contrária à ideia de livre mercado defendida pelos americanos, a estatização de bancos pode ser um antídoto para a crise financeira no país, segundo Joseph Stiglitz, ex-economista chefe do Banco Mundial e Nobel de Economia, e Nouriel Roubini, economista que previu a crise financeira.Em discurso a dirigentes de bancos centrais em Kuala Lumpur, na Malásia, Stiglitz disse que pode ser difícil para os americanos aceitarem a ideia, “mas nós devemos ir nessa direção”. Sobre o anúncio do pacote de mais de US$ 1 trilhão ao sistema financeiro feito ontem pelo secretário do Tesouro, Timothy Geithner, Stiglitz disse que, se está oferecendo bilhões para financiar bancos com problemas, o governo deveria ter um poder maior sobre eles.

Para ele, os temores sobre o controle do governo nos negócios privados são “em grande medida equivocados”. Os bancos vão continuar operando, mas haverá uma prestação de contas muito maior, afirmou Stiglitz. Segundo ele, até agora, o programa de ajuda fracassou. “É muito estranho ter um sistema de alocação de capital quando os que alocam o capital não carregam o risco; isso não é capitalismo, isso não é uma economia de mercado”, disse. “Todas as teorias sobre como uma economia de mercado funciona bem foram totalmente destruídas pelo papel que o governo tem assumido ao absorver o risco”, completou. “É hora de recomeçar”, acrescentou.

ROUBINI

Em Nova York, Nouriel Roubini defendeu, antes da divulgação do novo pacote financeiro, a estatização temporária. “Ninguém é favorável a que os bancos fiquem por muito tempo em poder do governo, mas se isto não for feito, vamos acabar como o Japão, que manteve vivos por uma década bancos zumbis que nunca se reestruturaram”, disse em entrevista publicada no Financial Times.

Segundo ele, após um período nas mãos do Estado, a privatização poderia ocorrer novamente em dois ou três anos. Ele estima que as perdas do setor financeiro ultrapassem US$ 3,6 trilhões até o fim do ano. “Vai ser muito pior. Melhor limpar tudo agora, estatizar e depois vender de novo ao setor privado.”

FRASES

Joseph Stiglitz
Nobel de Economia

“Todas as teorias sobre como uma economia de mercado funciona bem
foram totalmente destruídas pelo papel que o governo tem assumido ao
absorver o risco”

Nouriel Roubini
Economista

“Melhor limpar tudo agora, estatizar e depois vender de
novo ao setor privado”

Para Krugman, plano não está claro

 


O pacote de estímulo fiscal anunciado ontem pelo secretário do Tesouro americano, Timothy Geithner, foi recebido com pessimismo pelo mercado. A falta de detalhes deixou muitas perguntas sem respostas.

Em entrevista ao ‘Wall Street Journal’, o Nobel de Economia e professor da Universidade Princeton, Paul Krugman, disse que para ele não estava claro o significado do plano. “Há uma interpretação de que (o pacote) não é tão ruim, mas não está claro se essa é a interpretação correta”.

Para o economista, em alguns pontos, o pacote parece ser melhor do que o pouco que havia sido vazado nas últimas semanas, mas mesmo assim, não está totalmente claro qual é o “plano”. “Eu realmente não sei, pelo menos baseado nas informações de hoje. Mas, talvez, apenas talvez, seja um Cavalo de Tróia trazendo a política certa”, disse Krugman.

27/01/2009 - 15:28h O economista que previu a crise continua pessimista

 

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Emma Brockes, THE GUARDIAN* – O Estado SP

O escritório em Nova York da empresa de consultoria de Nouriel Roubini é tão austero como a situação atual: uma escrivaninha, um telefone, alguns blocos de anotações e 134 páginas impressas de uma lista da Wikipédia de todos os bancos do mundo.

Há três anos, Roubini foi repudiado, tachado de fatalista enganador, quando detectou uma enorme vulnerabilidade do sistema bancário dos Estados Unidos, prevendo o seu colapso. Agora, Roubini converteu-se num guru, atraindo o interesse de governos, diretores de bancos, mas e até de sites de fofocas de Nova York.

Foi o The New York Times que o apelidou asperamente de Dr.Doom (Dr. Catástrofe) ao fazer um perfil do economista no ano passado, identificando-o como um herói insólito da crise. Em 2006, Roubini fez um discurso no Fundo Monetário Internacional, quando, entre outras coisas, previu que a economia americana corria o risco de um colapso imobiliário e uma profunda recessão, com consequências tenebrosas para o resto do mundo.

Hoje, ele sorri timidamente e diz que outras pessoas também previram esse cenário, mas ninguém foi tão preciso como ele, nem tão grave, nem foi tão ridicularizado como ele pelo sóbrio mundo da economia. Na época, seu discurso foi recebido como uma idiossincrasia de alguém que gostava de fazer teatro. Mesmo hoje alguns dizem que ele só teve sorte. É o caso do economista Anirvan Banerjee, que, indagado pelo The New York Times sobre Roubini, respondeu que “até um relógio parado acerta a hora duas vezes por dia”.

Esse tipo de menção faz Roubini rapidamente esquecer a modéstia. Acusa de ingênuo o economista, que previu um crescimento quando a crise já se intensificava. “Dizer que foi apenas sorte da minha parte é um absurdo. Fiz previsões concretas que acabaram sendo certas. Exatamente.”

Ele cita um estudo elaborado em fevereiro do ano passado intitulado “Doze passos para o desastre financeiro”, onde “cada passo foi exatamente como a crise se desenvolveu nos últimos seis meses”. “Eu disse que as duas maiores corretoras do país (EUA) iriam à falência e não haveria nenhuma grande corretora independente nos próximos dois anos. Ora, bastaram sete meses para o Bear Stearns e o Lehman (Brothers) quebrarem. Não foi uma análise imprecisa da minha parte quando declarei que ocorreria uma crise financeira. Fui bem explícito. E acertei.” Ele encolhe os ombros e sorri ante o peso de estar certo em meio à estupidez generalizada.

As razões pelas quais Roubini foi o primeiro a prever a crise têm a ver, talvez, com seus antecedentes profissionais e pessoais, e com o que ele chama de abordagem “holística” na interpretação de dados econômicos. Roubini nasceu em Istambul, a família transferiu-se para o Irã quando ele ainda era bebê e depois para a Itália, onde cresceu.

Ele fala quatro línguas fluentemente (farsi, inglês, hebreu e italiano) e trabalhou em todo o mundo, incluindo dois anos como assessor político no Tesouro dos EUA. Segundo ele, o primeiro sinal de alerta foram as similaridades que observou entre regiões em desenvolvimento e o comportamento da economia dos EUA. Para sua surpresa, viu um padrão de movimento econômico nos EUA que, em 2005, parecia muito com a “economia de mercados emergentes”, com a mesma “exuberância irracional” que, na sua opinião, só poderia ser seguida de um enorme colapso.

“Você examina a história, os dados políticos, os modelos, e faz comparações”, diz. “Esta crise não é um evento totalmente extraordinário, uma consequência aleatória de uma distribuição aleatória. Foi um acúmulo de vulnerabilidades que aumentaram com o tempo”, diz. “Tivemos dezenas de sinais distintos de que tudo acabaria num ponto de não retorno. A ocorrência de uma crise era algo totalmente óbvio para mim.”

É tentador fazer perguntas a Roubini como se ele fosse um oráculo. Mas seu histórico recente faz com que seja irresistível. Para começar, ele acha que 2009 deve ser apagado completamente. Do ponto de vista financeiro, diz ele, está perdido. No “Jogo do Pior Cenário”, Roubini olha para o mundo avançado e considera que muitas economias estão sob o risco de seguir o caminho da Islândia e se tornarem insolventes. A maior parte é de pequenas nações da Europa Ocidental.

“Se uma grande instituição (financeira) na Suíça, na Holanda, na Bélgica ou na Irlanda enfrentar um problema, o país não tem recursos suficientes para resgatá-la”, avisa.

A Grã-Bretanha está em um estado tão ruim quanto os Estados Unidos do ponto de vista fiscal. Segundo ele, a necessidade de as decisões na zona do euro serem aprovadas por consenso faz com que resgates de instituições financeiras sejam mais difíceis de implementar.

Roubini diz que mais fundos hedge (os mais arriscados do mercado) vão quebrar, mas o efeito em cascata nem sequer começou a ser sentido. “As perdas agora estão concentradas nas hipotecas. Espere até que atinjam os imóveis comerciais, as companhias de cartão de crédito, os empréstimos automotivos, o crédito estudantil e os bônus corporativos. Há uma pilha de coisas. O sistema financeiro está insolvente. Está tecnicamente falido.”

*Emma Brockers é articulista

04/12/2008 - 10:42h Por qué los profetas no lo vieron venir

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Los ‘gurús’ de la economía no anticiparon la crisis por miedo a disentir y por interés – Muchos analistas también viven del negocio

DAVID FERNÁNDEZ – EL PAÍS

Imagínese que usted forma parte de una de las instituciones económicas más influyentes del mundo como es la London School of Economics. Imagínese también que ejerce de anfitrión junto con sus colegas durante una visita de la reina Isabel II a la sede del centro. En principio, uno de tantos actos protocolarios de guante blanco. Imagínese que la soberana de todo un Imperio se salta el protocolo para lanzar al aire una pregunta que seguro también se la hace el tendero de la esquina: “¿Por qué nadie ha sido capaz de anticipar la que se nos ha venido encima?”. Deje de imaginar. La situación es real, ocurrió el pasado noviembre y ejemplifica cómo la crisis económica ha puesto en evidencia los pronósticos económicos. Hasta tal punto han fallado las previsiones que uno de los pocos que anticipó el crash, Nouriel Roubini, ha traspasado la línea que separa al economista de la estrella del pop y ahora va impartiendo doctrina por medio mundo en conferencias avaladas con cheques de varios ceros.

Simples turbulencias, desaceleración, crisis, recesión, ¿depresión? Ésta es la secuencia que han seguido las previsiones de Gobiernos (incluido el español, que hasta bien entrado 2008 se negó a hablar de crisis), organismos internacionales, escuelas de negocios, reputados consultores y gurús de la gestión empresarial. Nadie tiene una bola de cristal para anticipar el futuro. Como decía Karl Popper, “predecir el nacimiento de la rueda es inventarla”. Además, una crisis económica como la actual, la peor para muchos desde 1929, presenta varias raíces inéditas que han aflorado al mismo tiempo, lo que complica cualquier análisis. Sin embargo, estas dificultades no deben servir de excusa para esconder que los modelos de estimación económica presentan algunos vicios que limitan sus probabilidades de éxito. Conflictos de intereses, falta de transparencia, miedo a ir contracorriente (”fuera del consenso hace mucho frío”, ironiza un experto) o la resistencia a dar voz a los críticos con el sistema económico durante el largo periodo de bonanza porque sus teorías no venden son algunos de estos vicios.

Hace un año este periódico pidió a 15 casas de Bolsa que dijeran en qué nivel se situaría el Ibex 35 en diciembre de 2008. El precio objetivo medio situaba el índice bursátil español en 17.300 puntos. El Ibex 35 está hoy por debajo de los 9.000 enteros. En defensa de los analistas hay que decir que en ese momento la crisis financiera aún no había mostrado su cara más violenta y que la economía real no se había contagiado. Lo que ya tiene menos explicación es que el pasado junio, cuando la metástasis de las hipotecas basura se había extendido por todo el sistema, la venta de optimismo seguía siendo la tónica dominante.

Credit Suisse, UBS, Citigroup, JPMorgan, Deutsche Bank, Goldman Sachs y Exane BNP Paribas son algunas de las firmas de Bolsa más importantes del mundo. En conjunto analizan las acciones de más de 10.000 compañías cotizadas. Pues bien, en junio sólo un 13% de sus consejos eran de vender acciones. El resto de recomendaciones a sus clientes eran de comprar o en el peor de los casos de mantener los títulos en cartera.

¿Por qué cuesta tanto escribir en un informe de Bolsa la palabra vender? “Por la propia estructura del mercado. Una entidad financiera suele tener conflictos entre el análisis y el negocio. Esta situación puede significar que la independencia de los analistas a la hora de emitir sus opiniones se vea limitada”, reconoce Rafael Sarandeses, secretario general del Instituto Español de Analistas Financieros. A pesar de entonar el mea culpa, Sarandeses matiza que esta crisis no se debe a los errores de los analistas sino “a los fallos de los supervisores financieros y a las malas prácticas de las agencias de calificación de riesgos”.

Sería injusto centrar todas las críticas en los analistas de Bolsa. Sus colegas macroeconómicos tampoco han estado muy finos. En enero de 2007 el consenso de mercado (bajo este concepto se engloban organismos supranacionales como el FMI, el Banco Mundial o la OCDE cuyos juicios deberían estar a salvo de las tentaciones que acechan a las instituciones privadas) preveía un crecimiento del PIB en EE UU y en la zona euro del 3% y del 2,1%, respectivamente. En noviembre de 2008 esas expectativas habían caído al 1,4% y al 1%. “Las crisis ocurren porque son inesperadas. Si todo el mundo las esperase no se materializarían. Además, en este caso nos hemos topado no con una crisis, sino con tres al mismo tiempo: la financiera, la hipotecaria y la económica”, se defiende José Luis Martínez, economista jefe de Citigroup en España. Entonces, ¿no cree que haya que ajustar en nada los modelos económicos? “Todos los economistas manejamos varios escenarios. Quizás esta crisis lo que nos enseñe es que debemos aprender a asignar una determinada probabilidad al escenario elegido. No es lo mismo que digamos que va a producirse determinado acontecimiento cuando el margen de acierto que manejamos es de sólo el 40% que cuando asignamos a nuestro pronóstico el 80% de probabilidades. Esta crisis va a forzar una mayor transparencia en las previsiones”.

Al calor de cada burbuja suelen surgir teorías que hablan de cambios revolucionarios que transformarán por completo el sistema económico. Estos planteamientos, sin embargo, suelen desinflarse casi a la misma velocidad que la burbuja que los amparó. A finales del siglo pasado se popularizó el concepto de Nueva Economía según el cual el desarrollo de Internet y otras tecnologías harían que pasásemos de una economía industrial a una economía del conocimiento y, como consecuencia de ello, se acabarían los ciclos económicos. Que le pregunten a las personas que hacen cola a cientos a las puertas del Inem si todavía existen los altibajos en economía… Con la burbuja financiera de los últimos años, diferentes think tanks han puesto de moda otra teoría no menos visionaria bautizada con el nombre de decoupling. La corriente de pensamiento que está detrás de este vocablo viene a decir que las reformas estructurales acometidas por los países emergentes les permitirán seguir con su senda de crecimiento con independencia de lo que ocurra en las economías desarrolladas. En los últimos dos meses se ha vuelto a comprobar que cuando las economías occidentales tosen, el resto, como mínimo, se resfría. China echa el freno a su espectacular crecimiento, los inversores castigan las divisas de México y Brasil, Rusia se ve forzada a cerrar en varias ocasiones sus mercados, Argentina desempolva medidas confiscatorias… En fin, todo un déjà vu.

“No creo en los gurús. Es una tendencia a abolir”, sentencia José de Rafael, director de la Asociación Española de Empresas de Consultoría. “No se puede opinar más que con altos conocimientos de la situación. Se han corrido muchos riesgos por la proliferación de los mal llamados gurús. Siempre están los arribistas que tiene más pico que los demás, y en un determinado momento sus teorías pueden llegar a convencer”. A pesar de la fuerte crítica a los analistas estrella, De Rafael opina que las previsiones económicas en esta crisis no han resultado tan erróneas. “La crisis se veía venir desde hace 14 meses. Lo que los expertos no han sabido anticipar ha sido su intensidad. Además, la raíz de la crisis no es financiera, sino de valores, y esto es imposible de predecir. La codicia y la corrupción han prevalecido sobre la ética empresarial”, añade este experto.

El escritor especializado en temas de management Peter Drucker solía decir que el término gurú se había convertido en una palabra bastante popular debido a que la etiqueta alternativa de charlatán era demasiado larga para usarla en un titular periodístico. En los últimos años las conferencias de los grandes expertos en gestión empresarial han desbordado todos los aforos. Cientos de discursos y power points para encontrar la receta del éxito, pero pocas voces que alarmasen sobre lo que se estaba gestando. “Que yo recuerde, de los economistas extranjeros sólo adelantaron la crisis Nouriel Roubini y Paul Krugman mientras que entre los españoles destacan Ignacio Garikano y Xabier Mena”, recuerda Alberto Saiz, director de HSM España, empresa especializada en contenidos de gestión empresarial y organizadora de Expomanagement. “Es más fácil subirse a la ola del pensamiento reinante que hacer un estudio profundo de la situación. En este sentido, yo también criticaría la actitud de los medios de comunicación por popularizar algunos mensajes”, añade. “La verdad absoluta no la tiene nadie. Nuestra misión es inspirar a los ejecutivos para que encuentren alternativas para desarrollar sus estrategias, no decirles lo que tienen que hacer”.

Tanto Saiz como el resto de expertos consultados para este reportaje reconocen que ante el tema de las previsiones, sean estas económicas o de otra índole, las personas se mueven con un marcado sentido gregario y que, al igual que hace dos años era un milagro que un libro de management o un economista crítico se abrieran paso, ahora se corre el peligro, por la ley del péndulo, de que sólo quede espacio para los agoreros. “Los seres humanos queremos oír aquello que se adecúa a nuestros patrones mentales. Si antes lo único que parecía vender eran las noticias buenas, ahora parece que triunfan las previsiones pesimistas”, señala el director de HSM. “Tanta incertidumbre obliga a converger en posiciones, se traduce en una cierta opinión consensuada. Aunque con puntuales discrepancias, todos buscamos saber la opinión del de al lado. Ahora puede que corramos el riesgo de irnos al otro extremo: caer en el pesimismo absoluto y no valorar las cosas buenas que se están haciendo”, añade José Luis Martínez.

Pero, cuidado, conviene no pasarse de frenada en la teoría del caos. La realidad es tozuda y el éxito efímero. Y si no que se lo pregunten a Ariun Murti, experto de materias primas en Goldman Sachs. En marzo de 2005 Murti predijo que el precio del petróleo daría el salto de 50 dólares a 105 en sólo cuatro años. Se desvió sólo unos meses. La situación del mercado le llevó a doblar su apuesta en mayo pasado, situando el barril de crudo en 200 dólares en sólo dos años. Coincidiendo con este segundo augurio de Murti, el petróleo inició un vertiginoso descenso que le ha devuelto de nuevo a la zona de los 50 dólares.

Otra consecuencia de la crisis actual es que se ha puesto en duda un dogma de fe económico de los últimos años: el poder casi religioso del libre mercado. Incluso en el santa sanctorum del capitalismo como es Wall Street han tenido que hincar la rodilla y rogar una inyección de dinero público para resolver sus pecados. El retorno a políticas de corte más intervencionista ha vuelto a poner de moda al economista británico John Maynard Keynes, partidario de la intervención del Gobierno para estimular la economía.

Pero incluso él también erraba a veces en sus previsiones. Un día tuvo que salir del paso de las críticas de un economista rival que le acusaba de inconsistencia en sus argumentos. “Cuando los hechos cambian, yo cambio mi opinión, ¿qué hace usted, caballero?”. Habría sido interesante oír la respuesta que hubiera dado Keynes a la pregunta de la reina Isabel II.

04/12/2008 - 08:52h Os horrores da “estagdeflação”


Une illustration de Damien MacDonald

NOURIEL ROUBINI ESPECIAL PARA O “FINANCIAL TIMES” – FOLHA SP

A ECONOMIA dos EUA e mundial corre o risco de uma severa “estagdeflação”, uma combinação mortífera de estagnação/recessão econômica e deflação.

Uma recessão mundial severa resultará em pressões deflacionárias. A queda na demanda resultará em inflação mais baixa, à medida que as empresas cortem preços para reduzir seus estoques excedentes. A folga nos mercados de trabalho gerada pelo desemprego ajudará a controlar os custos de mão-de-obra e os salários. A folga nos mercados de commodities devido à queda de preços também conduzirá a uma queda acentuada na inflação. Assim, o nível de inflação nas economias avançadas deve rumar ao patamar de 1%, que costuma despertar temores de deflação.

A deflação é perigosa porque resulta em armadilhas de liquidez, de deflação e de deflação de dívidas: as taxas de juros nominais não podem cair abaixo de zero, e com isso a política monetária perde a efetividade. Já estamos vivendo numa armadilha de liquidez, porque a taxa de fundos federais do Federal Reserve (o BC dos EUA) ainda é de 1%, mas a taxa efetiva está perto de zero, porque a instituição inundou o sistema financeiro com liquidez. Além disso, nas deflações a queda nos preços significa que o custo real do capital é elevado a despeito de taxas de juros próximas de zero, e isso resulta em novas quedas no consumo e no investimento. A queda na demanda e nos preços gera um círculo vicioso: a renda e o número de empregos caem, e isso gera novas quedas de demanda e preços (uma armadilha de deflação); e o valor real das dívidas nominais sobe (uma armadilha de deflação de dívida), o que torna os problemas dos devedores mais severos e leva a um risco crescente de inadimplência domiciliar e empresarial, o que exacerba os prejuízos das instituições financeiras com o crédito.

Como a política monetária tradicional está perdendo a efetividade, outras medidas não ortodoxas vêm sendo usadas: oferta maciça de liquidez aos bancos (para superar a perda de liquidez e reduzir o “spread” entre as taxas de juros de curto prazo no mercado e as taxas de juros oficiais) e políticas quase fiscais de resgate a investidores, devedores e credores. E ações políticas “malucas”, ainda menos ortodoxas, tornam-se necessárias para reduzir o crescente “spread” entre as taxas de juros de longo prazo sobre os títulos do governo e as taxas de juros determinadas pela política monetária, bem como o alto “spread” entre as taxas de curto e de longo prazo e os títulos de curto e de longo prazo do governo.

Os bancos centrais são tradicionalmente o emprestador de último recurso, mas agora estão se tornando o primeiro e único recurso, porque os bancos comerciais não estão emprestando. Com o colapso no consumo domiciliar e nos gastos empresariais, os governos em breve se tornarão o último recurso também na ponta dos gastos, e os déficits fiscais dispararão.

A crise financeira já ganhou alcance mundial, porque os elos dos mercados financeiros transmitiram a todo o mundo o choque dos Estados Unidos. As perdas gerais de crédito provavelmente estão próximas de atordoantes US$ 2 trilhões. Assim, a menos que as instituições financeiras sejam rapidamente recapitalizadas pelos governos, a compressão de crédito se tornará ainda mais severa, caso os prejuízos cresçam mais rápido do que a recapitalização.

Mas, com os governos e bancos centrais incorporando aos seus balanços as perdas do setor privado, o déficit fiscal dos Estados Unidos superará o US$ 1 trilhão nos dois próximos anos. O Fed e o Tesouro estão assumindo imensos riscos de crédito, o que coloca em risco a solvência do governo dos Estados Unidos no longo prazo.

Nos próximos meses, o fluxo de notícias sobre resultados empresariais e sobre a macroeconomia será muito pior que o esperado. A compressão de crédito vai se agravar, e a desalavancagem continuará à medida que fundos de “hedge” e outras instituições se virem forçados a vender ativos em mercados desprovidos de liquidez e ainda abalados. Isso gerará uma nova queda em cascata dos preços, a quebra de novas instituições financeiras insolventes e crises financeiras abertas em algumas das economias de mercado emergente.

Ainda não superamos o pior período. 2009 será um ano doloroso de recessão mundial, deflação e falências. Apenas ações políticas muito agressivas e bem coordenadas poderão garantir que a economia mundial se recupere em 2010, em lugar de enfrentar estagnação e deflação prolongadas.

NOURIEL ROUBINI é professor de Economia na Escola Stern de Administração de Empresas, na Universidade de Nova York, e presidente da RGE Monitor, uma consultoria econômica. Tradução de PAULO MIGLIACCI

18/11/2008 - 12:45h Juros ficarão mais altos depois da reação à crise, diz Nouriel Roubini

Alex Ribeiro, da Cidade do Panamá – VALOR

http://www.abacate.net/images/juro%20alto.jpgO mundo terá que conviver com taxas de juros mais altas assim que as economias reagirem aos maciços estímulos fiscais e monetários feitos por países desenvolvidos, disse ontem o professor Nouriel Roubini, da Universidade de Nova York, que ganhou projeção depois que previu a crise financeira atual e seus desdobramentos.

O diagnóstico dominante entre os economistas reunidos ontem em debates do encontro da Federação Latino-Americana de Bancos (Felaban) é que as ações firmes tomadas por economias desenvolvidas e em desenvolvimento são suficientes para evitar uma crise financeira ainda mais profunda.

As discussões, agora, se voltam para a duração e a intensidade da crise financeira sobre a economia real – e sobre as repercussões mais permanentes que ela terá sobre variáveis como contas fiscais, taxas de câmbio e taxas de juros.

Roubini, que se notabilizou nos últimos anos pelo pessimismo que observava a evolução dos mercados financeiros, também tem visão bastante negativa sobre como a economia real irá ser afetada. “Não será a crise de 1929, mas será a crise mais séria desde então”, afirmou Roubini, que falou em videoconferência para executivos de bancos. “Não espero recuperação em 2009. A economia só começa a reagir em 2010.”

Disse que todos os números que saíram sobre a atividade econômica, tais como emprego, crédito e consumo, são piores que os previstos. Ele espera uma queda adicional entre 20% e 30% no índice S&P500 de Nova York, em virtude da divulgação de resultados corporativos abaixo do esperado. Roubini acha também que perdas de seguradoras e com empréstimos serão fonte de estresse no mercado financeiro.

E a recuperação esperada pela 2010, afirmou, irá ocorrer de forma débil, em parte porque o socorro às economia criará novos desequilíbrios. A projeção, disse, é que a expansão fiscal faça com que o déficit americano fique em US$ 1 trilhão nos próximos dois anos. O custo, segundo ele, virá de políticas não-ortodoxas tanto no campo monetário quanto fiscal, as quais, disse, eram absolutamente necessárias diante de um cenário mais negativo que seria causado por uma depressão.

No campo monetário, os bancos centrais de países tiveram que ir além de corte de juros, e isso terá conseqüências também. “Ficamos presos a uma armadilha monetária, que obrigou os países a lançar mão de outras medidas”, disse Marco Fernández, da consultoria Investigación y Desarrollo, do Panamá.

“Será difícil financiar essas dívidas”, disse o economista Jorge Suárez-Velez, da Global Plus Management. “Com isso, a taxa de juros de curto prazo vai baixar, mas as de longo prazo ficarão altas”. Os déficits públicos também significam, na leitura dos economistas, que o dólar irá voltar a perder valor ante outras moedas.

12/11/2008 - 10:35h O Brasil e a parada brusca sistêmica

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Cristiano Romero – VALOR

Vítima do que especialistas estão chamando de “parada brusca sistêmica”, o Brasil está conseguindo enfrentar a crise internacional graças a políticas que vem adotando há dez anos, nos mandatos de dois presidentes, e que, agora, o diferenciam de outros países. Não raro, essas políticas, que combinam disciplina fiscal, metas para inflação e câmbio flutuante (com acumulação de reservas), são alvos de críticas ferozes, inclusive, dentro da equipe econômica do governo Lula. É muito cedo para comemorar, até porque não há indicações de que a crise esteja perto do fim, mas já é certo que o o país figura no grupo de nações que o jornal britânico “Financial Times” chamou, ironicamente, de “círculo mágico”.

Duas decisões tomadas lá fora confirmam o novo status: o acesso do Brasil, ao lado de México, Cingapura e Coréia do Sul, a recursos do Federal Reserve (Fed), que se dispôs a liberar até US$ 30 bilhões para cada um; e a criação, pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), de uma linha de crédito especial, com desembolso rápido e sem grandes condicionalidades. O Fed alegou que o Brasil e os outros países do “círculo mágico” são bem administrados e importantes do ponto de vista sistêmico.

No caso do FMI, a adoção de uma linha contingente, célere, para países vítimas de contágio era uma velha reivindicação brasileira. A medida só foi aprovada agora porque o epicentro da turbulência está na economia americana, a maior acionista do Fundo. Os recursos da nova linha – cerca de US$ 100 bilhões – serão liberados, em caso de necessidade, às nações do “círculo mágico” e possivelmente a países como Chile, República Tcheca, Polônia e algumas economias asiáticas, todos elegíveis graças à reputação de possuírem políticas econômicas sólidas.

Num artigo instigante, publicado no site criado pelo economista Nouriel Roubini (RGE Monitor), Otaviano Canuto, vice-presidente do BID, discute a situação brasileira frente à “parada brusca sistêmica”. O fenômeno, deflagrado em meados de setembro, com a falência do banco Lehman Brothers, caracterizou-se pela fuga repentina de capitais em todo o mundo, em direção justamente ao país central da crise – os EUA.

Os impactos desse movimento já são história – bolsas de valores desabando em todo lugar; congelamento súbito do crédito, inclusive ao comércio exterior; explosão dos spreads de risco; paralisia dos mercados de capitais internacionais. Os efeitos mais fortes sobre os emergentes ocorreram não apenas nas bolsas, mas também na taxa de câmbio, criando problemas de liquidez no setor bancário e de solvência em alguns setores da economia real.

No Brasil, a forte desvalorização do real teve pelo menos um efeito positivo – a redução da dívida pública como proporção do PIB. Mas isto só aconteceu por causa de decisões corretas tomadas nos últimos anos, quando o governo, aproveitando os tempos de bonança, reduziu drasticamente a dívida interna atrelada ao dólar e acumulou reservas cambiais a um nível que tornou o país credor na moeda americana. O desafio passou a ser debelar a crise que se instalava no setor privado, com o crédito paralisado e empresas encalacradas com derivativos cambiais aqui e fora do país.

A reação do Banco Central (BC) até o momento foi vigorosa. A instituição, como bem observa Canuto, vendeu 2,6% das reservas (US$ 5,2 bilhões) no mercado à vista; fez contratos de swap de US$ 28,5 bilhões; promoveu vendas de dólar temporárias (com cláusula de recompra) no valor de US$ 8,1 bilhões. O resultado: 50% das linhas de crédito ao comércio exterior voltaram; a taxa de câmbio se afastou do pico a que chegou no auge do nervosismo e, hoje, gira em torno de níveis não-dramáticos.

Em outra frente, para desempoçar a liquidez e tentar mover o crédito, o BC flexibilizou os depósitos compulsórios num montante equivalente a 5,7% do PIB. O Ministério da Fazenda, por sua vez, adotou medidas para sustentar setores vitais ao crescimento da economia, como o da construção civil. Apesar dos esforços, já se sabe que a economia crescerá pouco no próximo ano. O mercado está apostando em algo entre 2% e 3%. O governo ainda fala em 3,8%, 4%, mas está difícil acreditar nisso.

Em entrevista à repórter Sheila D’Amorim, da “Folha de S. Paulo”, o presidente da Febraban, Fábio Barbosa, deu a dimensão do problema do crédito: “Os reais não são suficientes para atender a essa nova demanda de pessoas que migraram de dólar para reais”. Troque-se a palavra pessoas por empresas (principalmente, exportadoras) e tem-se a situação verdadeira: a encrenca cambial está drenando o crédito na economia.

“A desalavancagem global em curso ainda está afetando os mercados de ativos locais e a conta de capitais do balanço de pagamentos. Junto com uma demanda estrangeira menor por exportações, preços menores das commodities e termos de troca comercial menos favoráveis, isso vai implicar num ambiente externo mais apertado no futuro próximo”, prevê Canuto, acrescentando que há dúvidas se a desaceleração do consumo e do investimento será suficiente para compensar os efeitos inflacionários de níveis agora mais desvalorizados do real frente ao dólar.

Canuto lembra que a crise no coração das economias avançadas afetou de maneira surpreendente países emergentes como o Brasil e o México, que são casos de sucesso da integração financeira com o mundo, processo que trouxe benesses nos bons tempos, como a atração de significativos fluxos de capitais, e riscos em momentos de estresse (inovações como os derivativos cambiais vieram no mesmo pacote).

O que diferencia o Brasil neste momento, sustenta Canuto, é que o país dispõe de arsenal nas áreas monetária, fiscal e externa. É esse arsenal que está salvando o país dos efeitos mais negativos daquela que é considerada a mais grave crise global desde 1929. “A verdade é que é muito cedo para saber onde as economias emergentes, tanto individualmente quanto como um todo, vão parar, na medida em que a atual crise global se desenrola. No entanto, a qualidade das políticas domésticas vai certamente estar entre os fatores de diferenciação”, assinala Canuto.

Cristiano Romero é repórter especial e escreve às quartas-feiras.

09/11/2008 - 12:40h Brasil foi premiado pela prudência, diz especialista

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Para estudioso do acúmulo de reservas pelos emergentes, ‘swap’ do Fed mostra que a imagem do País mudou

Fernando Dantas - O Estado de S. Paulo

SÃO PAULO - Economista do Council on Foreign Relations (Conselho de Relações Exteriores, think-thank americano), Brad Setser já passou pelo Departamento do Tesouro dos Estados Unidos, pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) e trabalhou com o agora famoso Nouriel Roubini, o economista que previu mais acuradamente a atual crise financeira global. Estudioso do gigantesco acúmulo de reservas internacionais pelos países emergentes nos últimos anos, Setser acha que o Brasil tem dólares suficientes para se defender da crise, e só poderia ter problemas se a turbulência se agravasse ainda mais e perdurasse por muito tempo.Para Setser, um observador atento dos Brics (Brasil, Rússia, Índia e China), a linha de swap de US$ 30 bilhões estendida pelo Fed (Federal Reserve, banco central americano) ao Brasil é “um prêmio” pela prudência da política econômica brasileira, e significa uma mudança na forma pela qual o País é visto pela comunidade financeira internacional.Setser considera que a tão propalada mudança da arquitetura financeira internacional já começou, e diz que mais foi feito nessa direção nas últimas três semanas do que no longo período de discussão do assunto que sucedeu as crises financeiras do fim dos anos 90. Ele cita como mudanças profundas, que o deixaram surpreendido, a extensão ilimitada pelo Fed de linhas de dólares (”swaps”) para países europeus, e também (de forma limitada) para Brasil, Coréia, México e Cingapura.

A seguir, a entrevista:

Como a crise financeira vai afetar os Brics?

A crise tem três impactos amplos, que afetam todo mundo, mas em graus diferentes. O primeiro é uma significativa desaceleração no crescimento da demanda por produtos manufaturados, notadamente nos Estados Unidos e na Europa, e isso vai ter um forte impacto na China. O segundo efeito, que afetou a Rússia de forma particularmente forte, mas também atingiu o Brasil, é que a crise financeira e bancária levou a uma forte redução do crédito para as economias emergentes. Isso gerou uma pressão para baixo nas moedas da maioria destes países, e quase todos tiveram de gastar suas reservas para compensar a retirada de financiamento bancário internacional. A Rússia ficou numa situação particularmente ruim, por causa da extensão em que o setor privado russo tomou emprestado do sistema financeiro internacional. E, finalmente, há a grande oscilação do ciclo econômico global, que causou uma significativa correção no preço das commodities. Isso terá impacto na Rússia, por causa do petróleo, e no Brasil, por causa do minério de ferro e muitas outras commodities que o País exporta.

As reservas brasileiras são suficientes para enfrentar esta crise?

As reservas brasileiras são substancialmente maiores do que suas dívidas de curto prazo. O Brasil tem a vantagem de, adicionalmente às reservas, dispor agora de acesso a US$ 30 bilhões do Fed na linha de swap, e provavelmente poderia sacar no novo instrumento de financiamento de curto prazo do FMI. Então o Brasil tem pelo menos US$ 30 bilhões, e talvez até US$ 50 bilhões, em crédito adicional. O único cenário no qual poderia haver mais pressão do que o Brasil poderia agüentar seria aquele em que qualquer um com exposição ao real tentaria fazer um hedge dessa posição. Para isso, seria preciso um choque ainda mais forte do que o que vimos até agora, um longo período no qual o País financiaria com as suas reservas não apenas uma queda de curto prazo no crédito bancário, mas teria de gastá-las também para suprir o déficit em conta corrente. Não subestimo o risco para o Brasil, mas ainda acho que está em melhor situação do que muitas outras economias emergentes.

As economias emergentes sofrerão um impacto na economia real tão forte quanto aquele que já começa a afetar os países ricos?

Estou cada vez mais preocupado com a possibilidade de que a desaceleração dos emergentes, de forma agregada, seja comparável em escala àquela experimentada pelos países ricos. A Rússia vai ter uma desaceleração bem aguda, que também ocorrerá em muitos países do Leste europeu. Bem, no caso da China pode-se dizer que um crescimento de 6%, que muitos já acham que possa ocorrer no início de 2009, é mais rápido do que o de muitos países num ano bom. Mas é uma significativa desaceleração a partir do nível de 11%, 12%. Quanto ao Brasil, minha esperança é de que, com a medidas tomadas para reduzir a vulnerabilidade, o País possa ajustar-se gradualmente, e a parada súbita seja apenas dos fluxos de capital, mas não da economia.

O mundo está caminhando para uma nova arquitetura financeira internacional, o chamado “novo Bretton Woods”?

Minha visão provavelmente é influenciada pelo fato de ter trabalhado no Departamento do Tesouro durante o último esforço para reforma da arquitetura financeira internacional. E confesso que fiquei chocado com o fato de que as mudanças acordadas nas últimas três semanas sejam, em certo sentido, muito maiores e muito mais significativas do que as que foram acordadas depois das crises de 1997, 1998 e 1999, quando houve um período muito mais longo de debate e reflexão sobre a reforma da arquitetura. O fato de que o Fed forneceu US$ 500 bilhões em crédito para os bancos europeus é indicativo da escala da mudança. É impactante que o Fed concorde em emprestar para os bancos centrais europeus literalmente sem limites, com o instrumento do “swap” (troca de dólares por euros), para que estes possam cumprir o papel de emprestadores de última instância de dólares para o sistema bancário europeu. E há também o novo instrumento de financiamento de curto prazo do FMI. Olhando para a frente, ainda há alguns pontos necessários sobre os quais ainda não se chegou a um acordo, como tornar o FMI substancialmente maior do que ele é hoje, e recalibrar o peso dos votos no Fundo para refletir a crescente importância dos países emergentes na economia global.

O Brasil foi um dos quatro países emergentes que também teve acesso à linha de swap do Fed, como o sr. mencionou, embora de forma limitada. Qual o significado disso?

Acho que é o reconhecimento de que o Brasil fez muitas coisas para reduzir a sua vulnerabilidade a crises financeiras. Foi um prêmio para as políticas econômicas prudentes que o Brasil praticou nos últimos poucos anos. Se você é gestor de política econômica nos Estados Unidos, com experiência de crises em mercados emergentes, é difícil não ficar impressionado com o fato de que o governo do Brasil saiu de uma posição de devedor líquido internacional para a de credor líquido internacional. Houve uma mudança na maneira pela qual o Brasil é visto na comunidade financeira internacional. Por outro lado, a concessão do swap também reflete o fato de que o Brasil é sistemicamente importante, e deixá-lo de fora poderia ser um sinal para que os investidores fizessem ainda mais hedge da sua exposição ao País, o que poderia acabar criando uma situação ruim.

Qual será o papel do presidente Obama na montagem dessa nova arquitetura?

Teremos uma noção muito melhor quando ele escolher o seu secretário do Tesouro e sua equipe econômica. Minha suposição é de que o governo Obama terá mais inclinação do que o governo Bush para contemplar a hipótese de um FMI maior como parte da solução para os problemas financeiros dos mercados emergentes. Certamente, um governo Obama será mais favorável do que o de Bush a propostas que aumentem o nível de regulação no sistema financeiro americano. Por outro lado, nos últimos três meses Bush abriu mão de muitas posições ideológicas, e reagiu de forma muito pragmática à crise. Várias mudanças importantes, como o instrumento de financiamento de curto prazo do FMI, e a extensão do swap do Fed para países emergentes, já ocorreram sob o comando do Bush, porque os eventos assim exigiram. De alguma forma, a administração do Bush já abraçou algumas das idéias que estavam circulando entre os assessores do Obama.

29/10/2008 - 15:50h Prioridade é evitar um colapso global

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Martin Wolf – Financial Times – VALOR

É preciso dar crédito a quem de direito: Nouriel Roubini, da Escola de Negócios Stern da Universidade de Nova York, estava certo. Em 20 de fevereiro de 2008, escrevi uma coluna intitulada “Apocalipse Now” (Valor de 20/02), baseada na sua análise dos 12 passos até o desastre. Infelizmente, os EUA não só deram esses passos, como também – com a ajuda de outros, incluindo o Reino Unido – arrastaram o mundo atrás de si.

Em nota mais recente, o professor Roubini prevê uma combinação de estagnação e deflação (The Coming Global Stag-Deflation [A vinda da estag-deflação global], 25 de outubro de 2008, www.rgemonitor.com). Ao fazê-lo, ele aponta, com certo júbilo, para a mais recente análise do panorama global do JPMorgan Chase, que já esteve entre os analistas mais otimistas. Agora, sob a rubrica – “Péssima semana no inferno”, o JPMorgan afirma que: “Mais uma vez, cortamos as projeções de crescimento de curto prazo para o mundo desenvolvido e provavelmente prosseguiremos com revisões adicionais para baixo para as economias emergentes nas próximas semanas. Agora mesmo, as nossas projeções indicam que o Produto Interno Bruto global se contrairá a uma taxa anual de 1% no quarto trimestre de 2008 e no primeiro trimestre de 2009″.

O JPMorgan estima o encolhimento neste trimestre a uma taxa anualizada de 4% nos EUA, 3% no Reino Unido e 2% na zona do euro. Ele está projetando crescimento global de 0,4% em 2009, com as economias avançadas encolhendo 0,5% e as emergentes, em 4,2%.

Dada a quase desintegração do sistema bancário ocidental, a fuga rumo a ativos seguros, o aperto do crédito para a economia real, o colapso nos preços das ações, turbulência nos mercados cambiais, contínuas quedas acentuadas nos preços das moradias, o veloz saque de recursos dos fundos de hedge e o colapso em andamento do chamado “sistema bancário paralelo”, essas projeções até parecem ser bem otimistas. O resultado no próximo ano poderá ser muito pior.

Se os governos ocidentais não tivessem feito intervenções para garantir e recapitalizar os sistemas bancários, a situação certamente teria sido pior. Apesar disso, mesmo isto não parou a confusão. Consideremos apenas duas estatísticas: a capitalização dos mercados acionários mundiais caiu à metade; além disso, segundo o mais recente “Relatório sobre a Estabilidade Financeira” do Banco da Inglaterra, as perdas a marcação de preços de mercado em instrumentos de dívida vulneráveis agora equivalem a imponentes US$ 2,8 trilhões (www.bankofengland.co.uk).

Então, o que deve ser feito? Alguns dirão: absolutamente nada. Existe uma opinião muito generalizada, especialmente nos EUA, de que o mundo precisa fazer uma grande purificação dos excessos do passado. As recessões, por essa linha de pensamento, são benéficas. As pessoas que detêm esta opinião também sustentam que os governos causaram todos os erros. Os mercados, eles insistem, seriam incapazes de cometer os erros que testemunhamos. Para eles, a confissão de Alan Greenspan na semana passada, de que “eu cometi um erro ao supor que o interesse próprio das organizações, especificamente de bancos e outros, era de tal ordem que eles seriam os mais capazes de proteger os seus próprios acionistas” foi tão bem-vinda quanto foi o punhal de Brutus para Cesar.

Curiosamente, o “Relatório sobre a Estabilidade Financeira” do Banco oferece algum respaldo a essa opinião: nos idos de 1900, os bancos dos EUA possuíam quatro vezes mais capital, relativo a ativos, do que detêm hoje. Igualmente, a liquidez dos ativos detidos pelos bancos do Reino Unido desmoronou ao longo do meio século que passou. Garantias implícitas e explícitas de governos realmente tornaram o sistema mais perigoso do que antes. A combinação dessas garantias com desregulamentação comprovou ser letal. O risco moral está longe de ser insignificante.

Apesar disso, a noção de que uma recessão rápida purificaria o mundo dos excessos passados é ridícula. O perigo é, ao contrário, o de ocorrer um colapso, à medida que uma montanha de dívida privada – nos EUA, igual a três vezes o PIB – desaba e se transforma em falência em massa. A espiral descendente começaria com uma deterioração adicional dos sistemas financeiros e continuaria através da desconfiança generalizada, desaparecimento do crédito, fechamento de grande número de empresas, desemprego ascendente, preços de commodities despencando, quedas progressivas nos preços das ações e despejos em alta. A globalização semearia a catástrofe por todos os lugares.

Grande parte das vítimas seria inocente dos excessos passados, ao passo que os mais culpados reteriam os seus ganhos obtidos de forma ilícita. Esta seria a receita, não para um ressurgimento to “laissez-faire” do século XIX, mas para xenofobia, nacionalismo e revolução. Nessas circunstâncias, estas conseqüências são concebíveis. Optar por arriscar um desfecho assim seria como decidir deixar uma cidade arder para punir alguém que tenha fumado na cama. Arriscar enormes prejuízos agora na esperança de diminuir o risco moral mais tarde é insano.

Todo o possível deve ser feito para evitar que a inescapável recessão se transforme em algo pior. Um grande número destas ações necessárias foi apresentado na coluna de Jeffrey Sachs, da Universidade de Colúmbia, anteontem (Valor, Finanças, 26 de outubro de 2008). Eu destacaria cinco pontos.

Primeiro, como argumenta John Muellbauer da Universidade de Oxford, a deflação é um perigo real (”The folly of the central banks of Europe” [a insensatez dos bancos centrais da Europa], 27 de outubro de 2008, www.voxeu.org). A deflação, porém, é letal para as economias endividadas. Hoje, as taxas de juros de curto prazo parecem demasiado elevadas na zona do euro e no Reino Unido. Os bancos centrais precisam reexaminar as suas economias e reduzir taxas em pelo menos um e, idealmente, em dois pontos percentuais.

Segundo, a única forma de deixar o setor privado se desalavancar, sem falências em massa e enormes quedas nos gastos, é substituindo o ativo que todos querem: dívida do governo. Ao contrário do professor Sachs, acredito que cortes de impostos são de fato parte da solução.

Terceiro, é crucial que a concessão de empréstimos seja mantida tanto dentro como entre economias. Depois de terem passado por tantos problemas para recapitalizar os bancos, os governos deveriam insistir que seus recursos sejam usados para suprir linhas de crédito aos mais propensos a permanecer solventes. Se os bancos se recusarem a fazer isso, os bancos centrais deverão substituí-los, como o Federal Reserve está fazendo agora.

Quarto, está no vital interesse próprio dos países de alta renda afetados manter as duramente castigadas economias emergentes solventes durante a crise.

Por fim, é igualmente evidente que o mundo não voltará ao equilíbrio se países em sólidas posições financeiras não ampliarem a demanda interna. O dia das bolhas habitacionais e de enormes déficits em conta corrente nos gastadores países de alta renda acabou. Aqueles que dependem de superávits em conta corrente para sustentar a demanda precisam pensar de novo.

Decisões tomadas ao longo dos próximos meses provavelmente moldarão o mundo por uma geração. A legitimidade da própria economia de livre mercado pode estar em risco. Aqueles que consideram a liquidação dos excessos passados como a solução não compreendem os riscos. O mesmo se aplica aos que sonham com novas ordens mundiais. Atravessemos primeiro essa crise. O perigo continua imenso e o tempo é curto.

26/10/2008 - 10:20h El mundo después del ‘crash’

La crisis financiera ha acabado con los dogmas dominantes de los últimos 25 años

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JOAQUÍN ESTEFANÍA – El País

Hay en economía un concepto más enérgico que el de recesión para explicar lo que está sucediendo: depresión. La depresión es más grave y duradera que la recesión, y se manifiesta en el frenazo en seco de la actividad, la debilidad de la demanda, la contracción del comercio internacional, el incremento del paro, la caída del poder adquisitivo, etcétera, todos ellos procesos muy dolorosos y contrarios al progreso. Pues bien, el profesor de Economía de la Universidad de Nueva York Nouriel Roubini, el gurú que se ha hecho famoso por haber anticipado la crisis financiera que se inició con el estallido de las hipotecas tóxicas, ya ha utilizado el concepto de depresión como síntoma de lo que ocurre en la economía a escala planetaria. Hace unos días escribía Roubini: “No podemos descartar un fracaso sistémico y una depresión global. (…) Se corre el riesgo de un desplome del mercado, una debacle financiera y una depresión mundial”. El economista plantea que más que una coyuntura en forma de V (caída y pronta recuperación) estamos en otra en forma de U (caída en la que la economía se mantiene un tiempo, para luego ascender), o quizá en forma de L (caída y letargo a largo plazo).

Un arranque ciertamente tenebroso sobre la coyuntura quizá pueda compensar el optimismo del titular de este que parece llevar implícito -y no es así, como se ha visto la semana pasada- la superación del desplome bursátil que, en otras ocasiones históricas, ha sido la antesala de una recesión o de una depresión. Crash y depresión se retroalimentan. Hay muchas similitudes -y bastantes diferencias- con la Gran Depresión de 1929. Es urgente desempolvar los viejos manuales de entonces y establecer las comparaciones. “Pensar el presente desde un punto de vista histórico” (Walter Benjamin).

En diciembre de 2006 caía el Ownit Mortgate Solutions, un pequeño banco hipotecario de California especializado en productos de alto riesgo. Es el antecedente más cercano del estallido de la burbuja inmobiliaria y de las hipotecas subprime, que devendría en la norma a partir de julio de 2007. Desde entonces hay muchas víctimas sin enterrar. Entre ellas, la economía real en forma de estrangulamiento del crédito (que es su sistema sanguíneo), desaparición de los bancos de inversión y nacionalización de otras entidades que formaban parte de la aristocracia financiera internacional, desprestigio de los organismos reguladores nacionales y de las agencias de calificación de riesgos, profundísima descapitalización bursátil de muchas empresas financieras y no financieras, parón de la actividad económica y de la inversión, contracción de la demanda, suspensiones de pagos, desempleo, etcétera. Y sobre todo, un escalofrío en muchos ciudadanos en forma de inseguridad: no sólo miedo al terrorismo y a otras formas de inquietud ciudadana, sino a la inseguridad económica y el temor al otro, al diferente, al que compite con el puesto de trabajo y carga de obligaciones al Estado de bienestar.

Otra víctima de la crisis es una forma de entender el mundo, un modo de pensar que se identifica ampliamente con la ideología neoliberal. La máxima acuñada por la revolución conservadora de Margaret Thatcher y Ronald Reagan, que ha durado un cuarto de siglo, de que el Estado es el problema y no la solución, ha saltado hecha trizas en cuanto se han acumulado las dificultades. La “destrucción creativa” de Schumpeter sólo se hizo realidad cuando las autoridades americanas dejaron hundirse al que era cuarto banco de negocios estadounidense, Lehman Brothers (y casi todos los analistas califican esta inacción como un grave error y el principio del pánico); las demás instituciones financieras con problemas han sobrevivido con una u otra fórmula de intervención pública, con paquetes de rescates a babor o a estribor, en forma de avales públicos, compras de activos o directamente de acciones. Lo explica resignado un economista español: “Hemos generado mucho riesgo moral para evitar el riesgo sistémico”. Ahora, la retórica del libre mercado se utiliza con más soltura, más selectivamente: se asume cuando sirve a intereses especiales y se descarta cuando no es así. Sin complejos, el presidente de la patronal española llegó a exigir “un paréntesis” a la economía de mercado.

Hace escasamente año y medio, todavía la economía mundial continuaba en la senda de crecimiento más larga y profunda de la historia contemporánea. La teoría de los ciclos económicos parecía extinguida y el planeta se instalaba en el denominado ciclo Kondratief, una onda larga de prosperidad debida -se decía- a la confluencia de las nuevas tecnologías de la información y la comunicación (TIC) con la flexibilidad empresarial y la innovación financiera. Los mantras más citados eran los de la desregulación y la autorregulación. Hasta tal punto que cuando se encienden las primeras luces rojas de las dificultades hay una generación de jóvenes ejecutivos, los que mandan en muchas empresas y en bastantes Gobiernos, que no tienen puntos de referencia para saber lo que es una crisis y qué tratamiento preventivo darle.

Es muy interesante seguir las mutaciones que ha sufrido la naturaleza de esta crisis en apenas 18 meses: primero se identificó con el estallido de la burbuja inmobiliaria y el abuso en la concesión de hipotecas de alto riesgo; a ello se le añadió un tsunami protagonizado por las materias primas alimentarias y los elevadísimos precios de la energía, de modo que entonces se habló de “tormenta perfecta” y se hizo una equivalencia con los primeros años setenta del anterior siglo, al aparecer la estanflación (alta inflación y crecimiento cero). Cuando se hicieron sentir los primeros efectos de la sequía crediticia en forma de reducción del crecimiento económico bajaron los precios de las materias primas; como consecuencia de ello, la inflación dejó de estar en primer plano, pero a las víctimas de la coyuntura se añadieron los países emergentes, principales productores de materias primas, y de los que se había dicho que en esta ocasión estarían exentos del efecto contagio. Conforme pasaban las semanas y dejaba de funcionar el mercado interbancario debido a la desconfianza que las entidades se tenían entre sí (¿cuál de ellas tenía en su interior la metástasis de los productos estructurados y colaterales sin valor alguno en el mercado?), la crisis hipotecaria devino en crisis financiera y los Gobiernos salieron al rescate en el entendido de que la desconfianza de los ciudadanos en las entidades de crédito es la antesala de una catástrofe en la economía real. Hubo un momento en que en algunas plazas y sucursales bancarias los clientes, después de hacer colas para sacar sus ahorros, intentaban transmutar sus depósitos en lingotes de oro, en la creencia de que este metal precioso era la inversión más segura.

Sólo cuando los ciudadanos, airados, comenzaron a preguntarse en alto por qué habían de rescatar a quienes habían sido víctimas de su codicia, es cuando se sofisticó un poco el discurso: la mayor inyección de dinero público utilizada en la historia para salvar a los bancos en dificultades era tan sólo una etapa intermedia para salvar a la economía real. Lo que es bueno para Wall Street es también bueno para la calle. Proteger a Wall Street es proteger a Main Street. Así lo ve el grupo de banqueros con chistera y puro que aparecen en la tira satírica del New Yorker. Uno de ellos grita indignado: “¡Maldita sea, para nosotros Wall Street es Main Street”.

Las ayudas oficiales a la banca (”Aportaremos todo lo que sea necesario”, ha declarado Berlusconi, el más desvergonzado de los políticos actuales) han servido hasta ahora para detener el pánico de los clientes y para que emerja un hilillo de liquidez en los mercados, que se ha concretado en una pequeña baja de los tipos de interés (Euríbor y Líbor). Pero sigue sin saberse si tanto dinero aportado por el Estado se trasladará del sistema financiero al conjunto de las empresas con inmediatez, para que la situación tienda a normalizarse, y a qué precio. Esto era así hasta anteayer. Pero resuelta al menos en parte la dificultad financiera más urgente, los mercados bursátiles han reaccionado extraordinariamente a la baja cuando en el frontispicio ha aparecido el problema de fondo: el colapso de la economía real. La mayor parte de los países de la Organización de Cooperación y Desarrollo Económico (OCDE) -los 30 países más ricos del mundo- han entrado en recesión o están a punto de hacerlo (dos trimestres seguidos de reducción de sus productos brutos), y sin visos de salida. Además, el contagio afecta a muchos países emergentes, que han tenido que gastar las reservas de divisas en defensa de sus monedas, mientras aumenta su riesgo país y ven bajar los precios de sus exportaciones. Se ha llegado a la madre de todas las crisis. Cada uno de los pronósticos que han ido elaborando las organizaciones multilaterales (OCDE, Fondo Monetario Internacional, etcétera) se han tirado a la papelera en el mismo momento en que se hacían públicas. La velocidad de la metástasis es tal que todas las explicaciones de la coyuntura se han quedado antiguas en tiempo real. Aun hace dos fines de semana, en su asamblea semestral, el FMI preveía un ligero crecimiento en 2009 para el conjunto de las economías avanzadas y del orden del 6% en las emergentes. Sin embargo, el pasado miércoles, el Foro Económico Mundial sentenciaba: “La crisis financiera afecta ya a la economía real en un nivel alto y el riesgo de una profunda y prolongada recesión crece”.

Con esta crisis multiforme y poliédrica ha desaparecido también una forma de hacer la política económica, que ha sido dominante en el último cuarto de siglo. Aquella que había formalizado el dogma de que los mercados son los que mejor saben qué hacer. Del mismo modo que hay ciclos en la coyuntura también hay ciclos ideológicos que conceden el énfasis a las distintas herramientas económicas. Y ha comenzado otro. En el año 1936, el que probablemente ha sido el economista más influyente del siglo XX (y lo vuelve a ser ahora), John Maynard Keynes, escribió en su obra magna Teoría general de la ocupación, el interés y el dinero: “Las ideas justas o falsas de los filósofos de la economía y de la política tienen más importancia de lo que en general se piensa. A decir verdad, ellas dirigen casi exclusivamente el mundo. Los hombres de acción que se creen plenamente eximidos de las influencias doctrinales son normalmente esclavos de algún economista del pasado”. Las ideas keynesianas, tan menospreciadas en el último cuarto de siglo, están siendo aplicadas ahora por quienes tratan de sacar a la economía de la camisa de fuerza de la revolución conservadora y de la desregulación permanente. No por casualidad, sino como un signo de los tiempos, la Academia Sueca ha concedido hace unos días el Nobel de Economía a quien es uno de los neokeynesianos más insignes: Paul Krugman.

El New Deal del presidente Franklin Delano Roosevelt, respuesta a la Gran Depresión de 1929, inauguró un ciclo progresista de intervención en la económía que duró casi medio siglo y que ha sido denominado la edad dorada del capitalismo: el mundo creció mucho y los países más avanzados construyeron su Estado de bienestar. El 31 de diciembre de 1933, 10 meses después del inicio del New Deal, Keynes escribe una carta abierta al presidente en The New York Times, en la que le aconseja actuaciones adicionales, entre las que sobresale “una atención predominante en el más alto grado al incremento de la capacidad de compra resultante de los gastos públicos, financiados mediante créditos”.

A finales de los años setenta y principios de los ochenta se inició la revolución conservadora, que tuvo sus principales ideólogos en Margaret Thatcher y Ronald Reagan, y su continuidad en los neocons que han gobernado en la Casa Blanca y en la Reserva Federal. Francis Fukuyama, el constructor del concepto del fin de la historia, ha matizado aquella forma de entender el mundo y recientemente ha hecho un balance de ese tiempo: la revolución conservadora perdió su rumbo porque se convirtió en una ideología irrebatible, y no en una respuesta pragmática a los excesos del Estado de bienestar. En ella había dos conceptos sacrosantos: que las reducciones de impuestos se autofinanciarían y que los mercados financieros podrían autorregularse. Pues bien, el balance es clarificador: Reagan y Bush dejan a EE UU con gigantescos déficit, la economía creció tanto con Clinton como con Reagan y con superávit público, y de las secuelas de la autorregulación del mercado financiero tenemos suficientes ejemplos catastróficos en los últimos meses.

La crisis traza una frontera, la del final (por ahora) de otra edad dorada: el crédito fácil, la liquidez extrema, los riesgos fuera del balance, los sueldos astronómicos de los grandes ejecutivos ligados a la creación de valor a corto plazo y no a la calidad de lo que se fabrica o con lo que se trabaja, los cambios legales para facilitar la especulación sin límites y las zonas de sombra (el capitalismo gris), una psicología mediante la cual los ahorradores se convirtieron en inversores y los inversores en activos apalancados, la autorregulación como pretexto para administrar sin límites, etcétera.

Cada ciclo ideológico en economía está provocado por una crisis. El New Deal llegó por la Gran Depresión; la revolución conservadora, como reacción a la estanflación; y el paradigma que parece instalarse a principios del siglo XXI, por la crisis iniciada con las hipotecas subprime llevada al paroxismo. Las matrices que lo componen son las de la intervención del Estado siempre que sea necesaria, la regulación financiera, quien contamina paga (en relación a los activos tóxicos) y la necesidad de dotar de gobernanza a la globalización realmente existente. Por ello se ha dado tanta significación a la construcción de un nuevo Bretton Woods, en analogía con la Conferencia Monetaria y Financiera de las Naciones Unidas, celebrada en New Hampshire del 1 al 22 de julio de 1944, al final de la II Guerra Mundial, y que ha constituido hasta ahora el intento más ambicioso por configurar un nuevo orden económico internacional. Entonces participaron 44 países. Hoy se trata, como se declara con ampulosidad, de “refundar el capitalismo”: cambiar todo para que nada cambie.

Se trata de evitar otra Gran Depresión e ir, por el contrario, a una Gran Transformación, como tituló su libro de referencia Karl Polanyi en 1943. En él demostraba, acudiendo a la historia y a los datos empíricos, que no existe nada parecido a una mano invisible que ordene a los mercados; éstos se regulan por la acción del Estado. Hay que actualizar la Gran Transformación a la era de la globalización en la que los Estados tan sólo son entes intermedios.

24/10/2008 - 08:53h Roubini: ‘Atingimos uma situação de puro pânico’

http://cache.daylife.com/imageserve/0gEg39odby8JE/340x.jpgEconomista vê caos para emergentes

Da Bloomberg News – O Globo

LONDRES. Centenas de fundos hedge vão falir, e as autoridades monetárias terão de fechar os mercados financeiros por uma semana ou mais, à medida que a crise obrigar os investidores a se desfazerem de ativos.

Essa é a visão — decididamente pessimista — do professor da Universidade de Nova York Nouriel Roubini.

— Atingimos uma situação de puro pânico — disse Roubini, que previu a crise financeira há dois anos, em conferência Hedge 2008 ontem em Londres. — Haverá uma maciça liquidação de posições em ativos e centenas de fundos hedge vão quebrar.

As autoridades monetárias do G-7, o grupo dos sete países mais industrializados do mundo, quase suspenderam os pregões dos mercados, depois de realizar uma redução coordenada de suas taxas básicas de juros. Essa proposta foi defendida pelo primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi, no último dia 10.

— O risco sistêmico ficou cada vez maior — disse Roubini. — Estamos assistindo ao início de uma corrida sobre uma grande fatia de fundos hedge. Não se surpreendam se as autoridades monetárias precisarem fechar as bolsas por uma ou duas semanas daqui a alguns dias.

Roubini, ex-conselheiro do Tesouro americano, não mostrou otimismo com as economias emergentes: — As coisas estão ficando muito feias também nos mercados emergentes. Dizia-se que, quando os Estados Unidos espirram, o resto do mundo pega um resfriado.

Bom, os Estados Unidos estão atualmente com uma crônica e persistente pneumonia.

As coisas estão caminhando para o caos nos mercados emergentes.

O custo da tomada de empréstimos pelos países emergentes saltou para seu patamar mais alto dos últimos seis anos. A Argentina corre o risco de deixar de honrar suas dívidas pela segunda vez nesta década.

— Há cerca de uma dezena de mercados emergentes que enfrentam atualmente graves problemas financeiros.

Mesmo um país pequeno pode ter um efeito sistêmico sobre a economia mundial. Não haverá dinheiro suficiente do FMI para respaldar (esses países).

10/10/2008 - 07:27h “Poderemos ter uma depressão global”

FOLHA SP – ENTREVISTA  NOURIEL ROUBINI

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Economista que previu crise diz que sistema financeiro precisa mudar para evitar “derretimento total”

SÉRGIO DÁVILA
DE WASHINGTON

Na segunda-feira, Nouriel Roubini escreveu que o governo norte-americano deveria organizar um corte coordenado de juros nas principais economias mundiais e o Federal Reserve, o banco central do país, tinha de fazer empréstimos de curto prazo diretamente para as empresas. Na terça e na quarta, as duas medidas foram anunciadas. Você sabe que a crise é realmente grave quando um economista conhecido pelo apelido de “Sr. Apocalipse” começa a ser ouvido pela Casa Branca.
Profissional do meio que mais acertos fez em relação à crise atual, Roubini falou à Folha por telefone na tarde de anteontem. Sotaque de mafioso de filme B de Hollywood -filho de judeus iranianos, nasceu na Turquia, morou na Itália e vive em Nova York-, disse que toureava 300 pedidos de entrevista que chegaram apenas naquele dia. Ele acha que o mundo corre o risco de uma depressão, e o Brasil, de crescer menos de 3% (leia texto nesta página). Leia trechos da entrevista.

FOLHA – Depois de os 12 passos que o sr. previu em fevereiro para a crise atual se cumprirem, o que podemos esperar para o 13º?
NOURIEL ROUBINI
– Bem, há duas opções. Ou promovemos uma mudança radical no sistema financeiro para evitar o derretimento completo, que é a coisa certa a fazer, ou esse sistema sofrerá colapso nos Estados Unidos, na Europa e em outros países. E poderemos ter uma depressão global.

FOLHA – O sr. vê contágio no setor corporativo?
ROUBINI
– Já começa a acontecer aqui nos EUA. Em geral, com algumas exceções, as companhias americanas não estavam tão expostas ao papéis tóxicos hipotecários. Ainda assim, nas últimas semanas, diminuiu drasticamente o acesso a crédito das empresas aqui no país, mesmo companhias avaliadas pelas agências de risco como AAA.
Com o mercado de papéis comerciais [letras de câmbio não-garantidas] praticamente interrompido e os empréstimos bancários caríssimos, não há dinheiro para que elas cumpram as obrigações do dia-a-dia. Se nem essas estão tendo acesso, imagine as que têm avaliação pior. Se isso se agravar no setor corporativo, todo o sistema pára, começaremos a ver quebras de empresas incapazes de honrar seus compromissos de curto prazo. Na minha opinião, já estamos no ponto de crise grave também aqui.

FOLHA – Isso leva à minha próxima pergunta. O sr. escreveu na última segunda um artigo em que pedia um corte coordenado de juros nas principais economias mundiais e que o Federal Reserve emprestasse diretamente para as empresas. Nos dias seguintes, as duas medidas foram anunciadas. Coincidência, é claro, mas o sr. acha que alguém no governo finalmente começou a ler suas colunas?
ROUBINI
– Eu sei que eles ouvem de fato, porque muitos deles me ligam e dizem isso. As decisões foram corretas e vão na direção certa, mas não são suficientes, muito mais tem de ser feito. Se você ler o meu artigo, eu pedia duas outras ações, que o Fed garanta que vai prover liquidez no caso de uma corrida generalizada aos bancos e que aumente sua ação para prover liquidez de curto prazo a atores não-bancários que emprestam a corporações. A primeira eu não sei quando vai acontecer, a segunda já estamos vendo aos poucos.
Outro aspecto que eu não escrevi mas que acho necessário é um programa de expansão fiscal do governo nos moldes dos da Grande Depressão, porque a demanda privada e o consumo estão sofrendo colapso, então serão necessários gastos governamentais em infra-estrutura nos níveis municipal, estadual e federal. Precisamos revisar o Plano Paulson também para que aja efetivamente nos setores imobiliário e no sistema bancário. Resumindo, ainda falta fazer muito.

FOLHA – O sr. pinta um quadro excessivamente grave. A situação é tão ruim assim?
ROUBINI
– Sim, na última semana ou dez dias, o sistema financeiro inteiro parou de funcionar, não há mais empréstimos interbancários, não há mais transmissão de liquidez entre os bancos e do sistema bancário para o sistema financeiro paralelo, que está em extinção, e começa a chegar ao setor corporativo. As Bolsas se enfraquecem a cada dia, o mercado seca e os gastos começam a diminuir. Estamos a um passo do derretimento total.

FOLHA – O sr. mencionou a possibilidade de depressão global. Quão perto estaria?
ROUBINI
– Já estamos em recessão nos Estados Unidos, na Europa, no Reino Unido, no Canadá, na Austrália, na Nova Zelândia, no Japão. Ou seja, cerca de 50% das economias globais já estão em recessão. Depois que essa se estabelecer, começaremos a ver desaceleração maciça de crescimento nas economias emergentes. O que quer dizer isso? Que teremos algum crescimento nos mercados emergentes, entre 2% e 3%, o que será uma aterrissagem dura para esses países, que necessitam de muito mais do que isso. Essa diminuição contribuirá para a queda do crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) global, que pode ficar negativo.

FOLHA – E quanto durará?
ROUBINI
– Se fizermos tudo certo, o que não está garantido, deve durar entre 12 e 24 meses. Há também o risco de os EUA entrarem numa estagnação como a que atingiu o Japão.

FOLHA – E quem é o culpado , em sua opinião?
ROUBINI
– São muitos e diferentes fatores. É uma tempestade perfeita composta de dinheiro fácil, crédito fácil, baixas taxas de juros, instituições financeiras se expondo a risco excessivo, instrumentos financeiros novos e modernos, mas também exóticos e sem liquidez, cumplicidade das agências classificadora de riscos, falta de regulação e supervisão adequada por parte dos governos. Não há um só culpado, mas vários: agentes financeiros, reguladores, governantes, bancos centrais…

FOLHA – O sr. foi um dos primeiros a preverem essa crise, já em 2006. Foi chamado de catastrófico, apocalíptico e alarmista então. O sr. se sente vingado, de alguma maneira?
ROUBINI
– Vingado não é a palavra, pela quantidade de desastres que essa crise trouxe, mas eu estava seguro de que minhas análises eram plausíveis e que meus dados eram corretos, que eu tive a honestidade intelectual de manter meus pontos de vista porque sabia que estava certo. E, infelizmente, eu estava certo.

FOLHA – Por que o sr. foi quase uma exceção?
ROUBINI
– Os que fazem a política econômica tinham receio de dizer que temiam pelo futuro da economia, muitos analistas econômicos fazem previsões que procuram agradar a seus clientes, havia ainda um clima de euforia, muita gente dizendo que era um novo mundo, que seria diferente dessa vez. Muita gente dizendo que não se tratava de uma bolha imobiliária, mas de uma série de pequenos avanços…

FOLHA – O que o sr. não previu? O que o surpreendeu?
ROUBINI
– A velocidade com que os 12 passos que eu previ aconteceram. Na minha análise, o que aconteceu desde a quebra do Lehman Brothers levaria talvez dois anos.

FOLHA – O sr. trabalha numa nova série de passos?
ROUBINI
– Não, em vez de ficar prevendo desgraças novas, estou me dedicando a sugerir soluções para a catástrofe.

FOLHA – O Plano Paulson vai funcionar?
ROUBINI
– Não, falta muita coisa. Recapitalizar o sistema bancário, lidar diretamente com os mutuários inadimplentes, fazer uma triagem entre os bancos que merecem ser salvos e os que devem quebrar, muito mais tem de ser feito para que o plano funcione, e eu não vejo isso acontecendo.

FOLHA – O secretário do Tesouro, Henry Paulson, e o presidente do Fed, Ben Bernanke, parecem estar sempre um passo atrás dos acontecimentos.
ROUBINI
– Sim, atrás da curva, e isso prejudica até as ações positivas que eles tomam. Muitas vezes os mercados têm reagido mal a boas iniciativas, porque chegam tarde.

FOLHA – O próximo presidente vai encarar o pior da crise. Qual a diferença fundamental entre a política econômica do democrata Barack Obama e a do republicano John McCain?
ROUBINI
- A principal diferença é que Obama, a quem apóio, tomará ações mais decisivas para lidar com a crise, não deixará o mercado cuidar de si mesmo. Precisaremos de uma intervenção mais formal, e isso estava faltando na última gestão e continuará faltando na de McCain. Essa será a principal diferença entre os dois.

FOLHA – O sr. se incomoda de ter sido apelidado “Sr. Apocalipse”?
ROUBINI
– Não ligo. Não é que eu seja uma pessoa permanentemente pessimista em relação ao mercado, eu serei o primeiro a gritar “a crise acabou!” quando ela acabar e me tornarei um otimista. Creio, na verdade, que ainda há muitas oportunidades na economia global para que mercados emergentes cresçam num ritmo sustentável, mesmo agora. Não é uma questão de otimismo versus pessimismo. É que os eventos das últimas semanas surpreenderam até mesmo o meu pessimismo.

FOLHA – Quando o sr. se sentirá otimista?
ROUBINI
– Quando eu sentir que chegamos ao fundo do poço, o que não aconteceu. Eu vejo uma luz no fim do túnel, mas é uma locomotiva vindo em nossa direção…