O JT dedica seu editorial ao aumento dos latrocínios no Estado de São Paulo. Apesar do esforço que o jornal faz para diminuir o fato e defender a politica de segurança do governo estadual, os dados são claros: os roubos seguidos de morte aumentaram na capital 64% em relação a 2007. O editorial destaca que os números absolutos dos latrocínios são pequenos, mas oculta quais são os números absolutos dos sequestros quando reivindica que diminuíram em 40%. É aquela história, o que é ruim para os tucanos a gente esconde e o que é bom, mostra.
O que é grave na questão do aumento dos roubos seguidos de morte é que são eles, junto com outras modalidades de crimes, os que requerem presença e ação da polícia para coibir e reprimir, assim como do trabalho de inteligência e prevenção para desmantelar as quadrilhas.
Os homicídios, na maioria dos casos, são produto de brigas familiares, incidentes entre vizinhos ou produto de altercações em bares. A diminuição dos homicídios é uma boa notícia e nesses dados é que se expressa com maior força o resultado do emprego e dos projetos sociais, na redução desse índices que pouco devem a ação estritamente policial. Não se trata de desmerecer os esforços nesse sentido das autoridades, pois a redução dos homicídios é também fruto da ação pelo desarmamento, da luta contra o tráfico de drogas, do combate ao alcoolismo e indiretamente da luta contra a criminalidade em geral.
Mas o que deve provocar um alerta de toda a sociedade e do poder público é esse aumento dos assassinatos ligados ao roubo, ou seja a ação organizada de profissionais do crime. Mais ainda que, como já foi denunciado pelos jornais, os BO nas delegacias teriam sofrido algumas formas de maquiagem visando a obter boas notas… nas estatísticas. O aumento de 64% no latrocínio, em apenas um ano, exige uma reação dos governos estadual e municipal que não seja limitada a uma melhor leitura estatística dos BO e sim ao policiamento, a inteligência policial e a repressão.
Desse ponto de vista é de lamentar que muitas das bases comunitárias na capital tenham sido desmanteladas, que a Guarda Civil Metropolitana esteja sucateada (leiam embaixo, após o editorial do JT, o artigo de hoje do jornal AGORA sobre a GCM) e dedicada a combater ambulantes e que a segurança das escolas seja “terceirizada”. LF
Editorial do JT
O aumento dos latrocínios
O crescimento do número de latrocínios (roubos seguidos de morte) na capital é sem dúvida preocupante, mas ele deve ser considerado dentro do contexto mais amplo dos vários tipos de crime, a maior parte dos quais vem diminuindo de forma sensível e consistente nos últimos anos.
O aumento no ano passado – como mostrou reportagem de Josmar Jozino, publicada pelo Jornal da Tarde – foi de 64% em relação a 2007, um salto de 42 para 69 ocorrências. Foram 15 latrocínios no primeiro trimestre de 2008, 14 no segundo, 22 no terceiro e 18 no quarto. No ano anterior, registraram-se 8 casos no primeiro trimestre, 8 no segundo, 11 no terceiro e 15 no quarto. O primeiro sinal de alarma com relação a esse tipo de crime foi dado em novembro do ano passado, quando a Secretaria da Segurança Pública apresentou dados mostrando que ele havia aumentado 88% nos nove primeiros meses de 2008 em relação a igual período de 2007.
É preciso observar em primeiro lugar, como diz o coronel da reserva da PM José Vicente da Silva, que em números absolutos o aumento é pequeno, acrescentando que para se ter uma ideia mais precisa sobre a tendência de crescimento em caso como esse é preciso uma perspectiva de cinco anos. Outro especialista na questão, o presidente do Instituto Sou da Paz, Denis Mizne, também chama a atenção para o fato de o número absoluto ser pequeno. Para ele, embora o aumento dos casos de latrocínio seja motivo de preocupação, é preciso levar em conta a redução dos índices de criminalidade nos últimos anos, com destaque para os homicídios, que caíram 70% entre 1999 e 2008.
Progressos foram obtidos também no caso dos sequestros com uso de cativeiro e pedido de resgate à família da vítima, um dos crimes que mais colaboraram para semear o medo e a insegurança na população da capital. Entre os crimes violentos, a queda mais significativa foi a dos sequestros, superando até mesmo a dos homicídios, porque ocorreu em espaço de tempo bem menor. Entre 2007 e 2008, a redução foi de 40%. No ano passado, em apenas um de cada quatro sequestros houve pagamento de resgate. Segundo estatísticas da Polícia, houve ainda avanço significativo na repressão a desmanches de carros roubados e na luta contra o contrabando e a falsificação.
Tudo indica, portanto, que pelo menos até agora o aumento dos latrocínios é um fato isolado. E, como diz Denis Mizne, um mapeamento das áreas de maior incidência, para promover melhor distribuição dos efetivos policiais, assim como um reforço de outras medidas já adotadas para prevenir com êxito os homicídios, podem produzir bons resultados. Já se sabe, por exemplo, como apurou o Jornal da Tarde, que é a zona sul que lidera os casos de latrocínio.
Falta de combustível deixa guardas a pé em São Paulo
Adriana Ferraz do Agora
Carros da Guarda Civil Metropolitana e de setores administrativos da Prefeitura de São Paulo estão parados por falta de combustível. Há uma semana, as bombas do posto de abastecimento da Mooca, que atende a frota da área central, estão sem gasolina. Desde sábado, também falta diesel e, segundo funcionários, o álcool acaba hoje.
Com o racionamento, muitos guardas-civis têm de fazer o patrulhamento a pé. A fiscalização dos camelôs do centro também não tem sido feita. Hoje, com a volta às aulas na rede municipal, a ronda escolar pode ser prejudicada.
O governo Gilberto Kassab (DEM) diz que houve um problema na gestão das cotas de combustível, mas não detalhou qual é a falha.
Ontem, na região central, não havia carros na praça do Patriarca, no viaduto do Chá nem na praça da Sé. O único veículo visto pela reportagem na área estava em frente à prefeitura. O guarda que trabalhava no local afirmou que estava sem retaguarda e que o tanque só estava cheio porque o carro fica parado.
A prefeitura não disse exatamente quantos carros são afetados. O Sindicato dos Guardas Civis Metropolitanos de São Paulo calcula que sejam 120 veículos e 300 guardas atingidos -a grande maioria no centro.
O restante atua na Mooca e na Vila Prudente, onde o posto de abastecimento reduziu a cota para economizar. São liberados 20 litros diários por carro. Antes, eram 30.
“Não temos falta de gasolina desde 1999, quando o prefeito era o [Celso] Pitta. O problema afeta diretamente a população, que fica sem atendimento completo, e também os guardas, que ficam sem segurança nas ruas”, disse o presidente do sindicato, Carlos Augusto Souza.
A diretoria da entidade diz ter avisado a gestão Kassab no final do ano passado, quando a cota foi alterada. “Eles não fizeram nada. No setor de fiscalização do comércio irregular [na Sé], contei mais de 40 carros sem uso”, diz uma guarda-civil que não quis se identificar por temer represálias. Os veículos só podem rodar até atingirem 1/4 do tanque; aí seguem para a Mooca, para o reabastecimento.
O Agora esteve ontem no setor de fiscalização e flagrou o pátio lotado, às 16h. Até os ônibus de transporte de guardas estavam parados, além de uma base móvel da GCM.
Cerca de três horas depois, parte dos carros seguiu, em comboio, para o posto da Barra Funda (zona oeste de SP), que emprestou 4.000 litros para amenizar o problema.
No final da tarde, um aviso passado pelo rádio avisava que o patrulhamento de hoje poderia enfrentar novas dificuldades. A notícia era de que o álcool acabaria até o meio-dia no posto da Mooca, deixando a frota flex -que representa 30% do total- também sem função.